04.03.26
Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Há exactos vinte e cinco anos à data de publicação deste 'post' (apenas um par de horas mais cedo) uma travessia 'de rotina' de uma ponte que ligava os distritos de Aveiro e Porto transformar-se-ia numa das maiores tragédias da História do Portugal moderno - desde então equiparada apenas pelos fogos em Pedrógão Grande e pela recente tempestade que devastou várias zonas do País – levando à demissão de um ministro, a vários meses de operações de recuperação de corpos, muitos levados pelas correntes do rio a pontos tão distantes quanto a costa da Galiza, e à construção de toda uma nova infra-estrutura no local em causa.
Falamos, claro, da tragédia de Entre-Os-Rios, que viu parte da ponte Hintze Ribeiro – enfraquecida pelas fortes chuvas que se haviam feito sentir naquele início do mês de Março – dar de si, causando a queda de um autocarro e três veículos de passageiros no Rio Douro, e vitimando quase seis dezenas de pessoas. Para piorar a situação, o acidente dava-se por volta das nove e um quarto da noite – já muito depois do pôr-do-sol – dificultando consideravelmente a missão dos Bombeiros que imediatamente haviam acorrido ao local; as fortes correntes do rio, também elas derivadas das chuvas, tão-pouco eram conducentes a operações de resgate, tendo muitos dos cadáveres sido levados em 'enxurrada' até ao Oceano Atlântico, vindo a dar à costa no litoral português e no Norte de Espanha, entre a data do acidente e meados do mês de Maio. No total, apenas foram recuperados pouco mais de metade dos corpos, tendo os restantes ficado para sempre sepultados nas águas do Douro.
Como é evidente, os efeitos sócio-políticos de uma tragédia de tal magnitude não tardaram a fazer-se sentir: logo no dia seguinte (5 de Março) o então Ministro do Interior, Jorge Coelho, demitia-se, e pouco depois o Primeiro-Ministro, António Guterres, visitava o local do desastre, já depois de ter decretado dois dias de luto nacional. Talvez mais significativamente, iniciava-se ali o planeamento de uma nova infra-estrutura para substituir a centenária e delapidada ponte, a qual viria a ser inaugurada pouco mais de um ano depois, e baptizada com o mesmo nome da antecessora. Um monumento junto à nova ponte assegurava que as vítimas da tragédia não eram esquecidas, e era criada uma Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia, desde então encarregue de cerimónias anuais de homenagem às mesmas.
Quanto ao desastre em si (curiosamente, o segundo na zona do Douro num período de pouco mais de um ano) o mesmo continua bem presente na memória dos portugueses com mais de uma certa idade, como um dos acontecimentos nacionais mais marcantes de uma época relativamente calma e pacata, bem como da História portuguesa recente, não podendo portanto deixar de ser recordado no dia em que se completa um exacto quarto de século sobre aquela fatídica noite de 4 de Março de 2001.



