Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

24.01.23

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Os anos 90 constituíram uma verdadeira 'época áurea' no que tocou aos blocos de programação infantil em Portugal, tendo visto nascer alguns dos mais memoráveis exemplos deste formato da História da televisão portuguesa; do 'Buereré' da SIC à 'Casa do Tio Carlos' e, mais tarde, o 'Batatoon' e 'Mix Max' (todos na TVI) as crianças portuguesas daquela década tiveram muito por onde escolher no tocante a programas que intercalavam a exibição de desenhos animados e séries infantis com jogos, passatempos e interlúdios musicais, com animação a cargo de um ou mais apresentadores carismáticos e bem-dispostos.

No caso da RTP, o representante deste tipo de programa começou por ser 'A Hora do Lecas', passando depois a chamar-se 'Brinca Brincando' (termo que se aplicou a uma série de formatos, sendo o mais memorável 'Os Segredos do Mimix') até, em 1993, se fixar como 'Um-Dó-Li-Tá', nome pelo qual o bloco infantil da emissora estatal seria conhecido até praticamente ao final da década.

21096807_W1Fzs.jpeg

Alternando, durante os seus cinco anos de vida, entre a RTP1 e a RTP2, o programa foi alvo de várias re-estuturações de formato, por vezes concomitantes com estas mudanças. A proposta inicial não andava longe da das concorrentes, consistindo em desenhos animados intercalados com segmentos moderados por dois apresentadores - no caso Francisco Barbosa e Vera Roquette, esta última já bem querida da 'pequenada' devido à sua associação com o 'Agora Escolha', programa onde revelara uma aptidão especial para comunicar com os mais novos.

22097440_36veU.jpeg

Vera Roquette foi a primeira apresentadora do programa. (Crédito da foto: Desenhos Animados Anos 90)

Mais tarde, em 1994, a 'apresentação' passaria a ficar a cargo de dois bonecos, o 'Umdó' e a 'Litá', duas molas com vida que, nos anos finais do programa, foram substituídos por outros dois bonecos, HumHum e Benzé, que ocupariam o 'cargo' até à extinção do formato, em 1998, num caso óbvio de discriminação contra humanos...

hqdefault.jpg

As molas animadas Umdó e Litá substituiriam os apresentadores humanos a partir de 1994

O que não se alterou ao longo do tempo de vida do programa foram a duração, que se manteve nas duas horas, e a aposta em conteúdos nacionais, como 'Rua Sésamo', 'Os Amigos de Gaspar' ou 'No Tempo dos Afonsinhos', à mistura com as habituais séries estrangeiras. Um formato perfeitamente 'seguro', sem grandes inovações, e sem a agitação frenética dos concorrentes directos (aproximava-se mais do ambiente tranquilo de 'A Casa do Tio Carlos' do que do 'espalhafato' de Ana Malhoa ou Batatinha) mas perfeitamente capaz de lhes fazer frente, até por dispôr de alguns bons argumentos a nível de séries e programas – e, como tal, bem digno de homenagem num ano em que se comemoram, simultaneamente, os trinta anos da sua estreia e os vinte e cinco da sua última emissão...

Dois excertos de eras diferentes do programa.

 

10.01.23

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

por diversas vezes aqui apresentámos provas cabais de que os concursos se encontravam entre os formatos televisivos mais populares dos anos 80 e 90 (e, embora em menor escala, também do Novo Milénio). Desde sempre presentes nas tardes dos portugueses, sob as mais diversas formas e formatos e subordinados aos mais variados temas, este tipo de programa nunca deixava de se afirmar como um sucesso de audiências junto do público-alvo. A adição a este genéro feita pela SIC há quase exactos vinte e cinco anos – a 12 de Janeiro de 1998, escassos dois meses após o quinto aniversário da emissora – não é excepção a esta regra, e conseguiu mesmo atrair alguma atenção durante os pouco mais de três anos em que esteve no ar.

Roda_dos_Milhoes.jpg

Tratava-se de 'Roda dos Milhões', uma espécie de mistura entre 'A Roda da Sorte' e o clássico sorteio televisionado do Totoloto que, mais do que um mero programa de televisão, se tornou num verdadeiro 'franchise', com direito a revista própria, CD alusivo aos artistas que actuavam no programa, e até uma raspadinha com o seu nome.

Apresentado inicialmente pela dupla de Jorge Gabriel (símbolo máximo do programa) e Mila Ferreira – ambos então em alta – e mais tarde também por Fátima Lopes, o programa oferecia ainda outros atractivos, como música ao vivo a cargo de artistas tanto nacionais como internacionais, mas era nos diversos jogos e passatempos que residia o principal interesse do formato, pelo menos para quem não jogava no Totoloto.

download.jpgOs dois grandes símbolos do programa.

Isto porque, à boa maneira do seu antecessor espiritual, 'A Roda da Sorte', o concurso contava em estúdio com a roda homónima, que os concorrentes da semana podiam girar para ganharem prémios imediatos em dinheiro, bem como com outros jogos, como a 'Marca da Sorte', em que o prémio era um automóvel; assim, mesmo quem não 'arriscava' nos números da Santa Casa tinha vastas razões para sintonizar semanalmente a estação de Carnaxide às Segundas, em horário nobre – especialmente porque se atravessava, à época, o longo período entre o fim d''A Roda da Sorte' original, com Herman José, e a chegada das versões 'revitalizadas' do concurso, na época seguinte, servindo a 'Roda dos Milhões' como honroso substituto.

Assim, foi com naturalidade que o programa se assumiu como mais um dos muitos sucessos da estação de Carnaxide durante a sua 'fase imperial' na segunda metade dos anos 90 – pelo menos até a SIC findar, abruptamente, a sua transmissão, por impossibilidade de manter o horário das Segundas à noite, e perder o formato para a televisão estadual, onde o seu destino seria exactamente o inverso, tendo a versão com Nuno Graciano como apresentador durado exactos três meses antes da extinção total do formato, a 6 de Junho de 2001. Nada que belisque a reputação ou marca histórica e cultural de um concurso que, ainda que simples e simplista, não deixou (com maior ou menor mérito) de ser um sucesso, e, como tal, é bem digno de ser celebrado na semana em que se completa um quarto de século sobre a sua estreia.

27.12.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A programação natalícia em Portugal é sinónimo de uma série de coisas bem conhecidas: o 'Sozinho em Casa', o Circo de Natal, a missa...e a mais antiga de todas essas tradições, o concurso internacional de canto infantil conhecido como Sequim D'Ouro. Uma espécie de Festival da Eurovisão para crianças (ou, se preferirmos, um 'Mini Chuva de Estrelas' à escala internacional, e sem a vertente 'cosplay') este concurso realiza-se anualmente, sem falta, desde finais dos anos 50 (normalmente em Novembro), e é transmitido de forma igualmente assídua pela televisão estadual portuguesa, como parte da sua grelha de Natal.

Zecchino_dOro.jpg

O conceito do concurso requer que cada mini-concorrente (oriundo dos quatro cantos do continente europeu, exactamente como na versão 'dos crescidos') interprete uma música original em duas versões - a primeira na sua língua natal e a segunda em Italiano, a língua do país organizador do concurso; cada interpretação é, depois, julgada por um júri especializado, sendo no final escolhido um vencedor. Um formato simples, e que permite que o foco seja posto onde verdadeiramente deve: nos esforços vocais dos jovens intérpretes, sempre devidamente acompanhados pelo coro infantil residente do Teatro Antoniano de Bolonha, onde o festival é tradicionalmente gravado.

download.jpg

Durante o auge da sua popularidade, o  boneco Topo Gigio era presença habitual no concurso.

Nos anos 80 e 90, a transmissão anual deste concurso trazia, ainda, o atractivo adicional da presença do Topo Gigio, mascote nativa americana que, à época, gozava de alguma popularidade em Portugal, fruto do programa homónimo que tinha 'apresentado' na RTP, em inícios dos anos 80, e que na década seguinte renovaria essa mesma popularidade ao surgir no programa-estandarte da SIC ao lado de João Baião; só mais um incentivo para as crianças portuguesas sintonizarem a estação estadual no dia de Natal, e assistirem a uma emissão que reunia vários ingredientes perfeitos para a programação desta época do ano, e que continua, ainda hoje (mais de seis décadas após a sua estreia) a afirmar-se como um clássico da mesma, quanto mais não seja pela longevidade e inevitabilidade da sua presença na grelha natalícia nacional, que rivaliza já com a do referido 'Sozinho em Casa' e respectiva segunda parte...

13.12.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há pouco menos de um ano atrás, falámos num dos nossos 'posts' sobre a emoção que representava para uma criança dos anos 90 ir assistir, ao vivo, a um espectáculo de Circo de Natal, normalmente através da(s) empresa(s) dos pais ou em visita de estudo com a escola. No entanto, e apesar de os referidos circos se espalharem, durante a época natalícia por quase todo o território português, haveria ainda, certamente, quem não tivesse oportunidade de visitar em pessoa a tenda listrada – e, nessa instância, apenas restava uma alternativa a quem queria admirar feitos impossíveis, rir dos palhaços ou emocionar-se com os sempre controversos números com animais: a emissão do 'Circo de Natal' apresentada por quase todas as televisões portuguesas da época.

Um marco perene da programação de Natal de finais do século XX (tão inevitáveis e esperados nas grelhas de 24 ou 25 de Dezembro como a 'Benção Urbi et Orbi' no Dia de Páscoa) os programas de Circo da época dividiam-se em dois grandes tipos: por um lado, as simples filmagens do espectáculo apresentado nesse ano pelos Circos Chen ou Cardinali situados em Lisboa ou no Porto, e por outro as transmissões de espectáculos de circo estrangeiros, normalmente de uma companhia prestigiada como o Circo do Mónaco; e ainda que nenhuma das duas opções enchesse totalmente as medidas ou conseguisse capturar a experiência de ver aqueles números ao vivo – os programas com base em circos portugueses, em particular, faziam ter vontade de 'estar lá' – ambos constituíam uma boa maneira de passar algumas horas da manhã de feriado, depois de já ter aberto todos os presentes e antes de sair para o almoço de Natal em casa da avó.

Ao contrário do que acontece com muitos dos programas que aqui abordamos, o Circo de Natal mantém-se intacto na grelha natalícia das televisões portuguesas – de facto, quem ligar a televisão nas próximas semanas deparar-se-à, provavelmente, com um programa em tudo semelhante aos da sua infância, sendo a única diferença, talvez, a dupla de apresentadores famosos, prontos a comentar os feitos dos artistas da companhia; uma prova cabal de que nem tudo mudou na sociedade actual por comparação à daquela época e de que, mesmo com todas as controvérsias que hoje a rodeiam, esta forma de arte continua, para muitos portugueses de todas as idades, a ser parte integrante da tradição natalícia, e tão sinónima com a mesma como o era naqueles anos 90.

29.11.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A influência do futebol na sociedade portuguesa (e sobretudo entre o sector masculino) sempre foi, e continua a ser, famosamente transversal, afectando desde grelhas de programação televisiva ao funcionamento de negócios e estabelecimentos. O segmento mais jovem da referida demografia não é, de todo, excepção – pelo contrário, as crianças, adolescentes e jovens adultos encontram-se entre os mais fervorosos seguidores e adeptos do 'desporto-rei'.

Assim, não é, de todo, de estranhar que, em meados dos anos 90, um executivo de televisão tenha tido a ideia de incorporar o futebol, e os eternos 'despiques' que provoca mesmo entre os melhores amigos, num formato televisivo de cariz competitivo e dirigido a um público jovem – e ainda menos que o mesmo se tenha revelado um enorme sucesso entre os mesmos durante o período em que esteve no ar, já que reunia dois dos seus elementos favoritos: o futebol e a competição intelectual.

donosjogo.jpg

O programa em causa, que levava o título de 'Os Donos da Bola', faria a sua estreia na SIC algures em 1994, captando as audiências da hora do almoço e conseguindo alguma tracção entre o segmento a que se destinava pelo bom e velho método do 'passa-palavra', ainda hoje uma das principais medidas do sucesso de QUALQUER produto ou serviço junto do público jovem.

Encabeçado por um jovem que, alguns anos mais tarde, se transformaria num dos nomes de referência da programação de entretenimento em Portugal - e, ainda mais tarde, em verdadeiro profissional do desporto-rei - de nome Jorge Gabriel, o concurso propunha um 'derby' entre dois concorrentes – cada um representando o seu clube de eleição - que procuravam 'marcar golos' um ao outro através da resposta correcta a perguntas sobre o mundo do futebol, sendo o progresso de cada um mostrado mediante uma (hoje rudimentar, mas à época entusiasmante) simulação computorizada. Começando 'de trás', na hoje chamada 'fase de construção', era objectivo de cada um dos jogadores conseguir avançar o mais possível campo afora, correspondendo cada resposta correcta a um passo (ou 'passe') em frente no 'relvado' virtual. A complicação advinha do facto de as respostas irem aumentando de dificuldade à medida que a 'bola' progredia, tornando-se francamente difíceis no sector mais atacante – uma mecânica que, ainda que de forma básica, acabava por reflectir o cariz do próprio futebol enquanto desporto.

Exemplo do conceito do jogo 'em acção'.

Uma fórmula, no cômputo geral, até bastante simples, mas por isso mesmo bem eficaz, que permitiu ao concurso ficar no ar durante três anos e mais de 600 emissões - vindo finalmente a ser cancelado algures em 1997 – e que chegou mesmo a suscitar uma tentativa de transladação do conceito para um formato caseiro, estilo 'jogo de tabuleiro', embora neste caso sem grande sucesso – ao que parecia, os jovens preferiam ver dois concorrentes 'espalhar-se ao comprido' na resposta a perguntas sobre desporto, do que correrem eles mesmos esse risco. Ainda assim, e apesar deste ligeiro 'soluço' a nível comercial, 'Os Donos da Bola' foi um programa que, na sua época, deu que falar, encontrou e reteve a sua audiência e implementou satisfatoriamente um conceito novo, único e original, não se podendo, por isso, considerar nada menos do que um retumbante sucesso (mais um de entre muitos à época) para a ainda jovem mas já bem estabelecida estação de Carnaxide.

15.11.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Desde a criação deste blog, e desta secção em particular, temos vindo a recordar inúmeros exemplos de programas infanto-juvenis memoráveis transmitidos nos anos 90, quer no tocante a blocos de desenhos animados, como o Buereré, a Casa do Tio Carlos, o Mix-Max, o Brinca Brincando ou o Batatoon, quer a concursos, como a Arca de Noé, Tal Pai, Tal Filho ou o(s) programa(s) que hoje aqui abordamos: o Circo Alegria, e a sua 'continuação não-oficial', o 'Vamos ao Circo'.

21109648_kKsdM.jpeg

Logotipo do 'Circo Alegria', o primeiro dos dois programas em análise.

E já que acima mencionámos o Batatoon, convém, desde logo, começar por referir que estes dois programas forneceram à maioria das crianças portuguesas o primeiro grande contacto com aquela que se viria a tornar a dupla de palhaços mais conhecida e famosa de Portugal, muito graças ao referido bloco vespertino de desenhos animados; sim, o concurso estreado em 1992 pela RTP, e 'repescado' dois anos mais tarde pela TVI, marca a génese da parceria entre António Branco, o Batatinha, e Paulo Guilherme, o Companhia - então com aparência e maquiagem algo diferentes, mas já com as personalidades, dinâmica e 'timings' bem definidos, tornando os seus segmentos um dos pontos altos de cada episódio (como, aliás, o foram depois no Batatoon).

22211588_6QWHI.png

O visual de Batatinha à época, algures entre o ex-parceiro Croquete e o aterrorizante Pennywise.

Ao contrário do espaço que os tornaria famosos, no entanto, o foco do 'Circo Alegria' e do 'Vamos ao Circo' eram, não os desenhos animados, mas as provas fisicas, sempre disputadas entre duas equipas seleccionadas de entre as escolas que compunham a plateia (uma prática, aliás, bastante comum em programas de auditório infanto-juvenis da época, que nunca deixavam de contar com pelo menos um estabelecimento de ensino entre o público presente em estúdio.) Pelo meio, além das interacções entre Batatinha e a sua perene 'pulga no sapato' Companhia, ficavam ainda números musicais com artistas convidados 'da moda' (outra prática quase obrigatória em programas deste tipo à época) e, claro, as algo atrevidas sugestões do apresentador à bela assistente feminina, mediante o icónico 'Ó Mimi, apita aqui!' (que a dita talvez tenha levado a peito, motivando a sua substituição, aquando da transição para a TVI, por uma nova Mimi, de cabelo mais escuro...) De referir ainda que, além da Mimi e do inevitável Companhia, estes dois programas marcam, também, a estreia de Honório e Finório, a dupla de 'assistentes de circo' silenciosos e expressivos que acompanhariam os apresentadores até ao final da sua carreira como dupla.

Exemplo dos segmentos humorísticos do programa (crédito: Desenhos Animados PT)

No fundo, dois programas bastante parecidos, que não só estabeleceram o duo Batatinha e Companhia como grande favorito das crianças (estatuto que o Batatoon viria, mais tarde, a cimentar) como também marcaram época durante a primeira metade dos anos 90, fazendo ainda hoje parte da memória de muitos dos ex-jovens que, tarde após tarde, acompanharam com regozijo tanto as peripécias dos dois palhaços como as provas por eles engendradas, e disputadas por participantes da sua própria faixa etária. Razões mais que suficientes, portanto, para recordarmos ambos os (francamente, indissociáveis) programas, precisamente no ano em que a versão transmitida pela RTP celebra trinta anos sobre a sua primeira emissão, e a da TVI, vinte e cinco sobre a última...

Um dos programas do Natal de 1992

01.11.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Das muitas figuras que fizeram, e continuam a fazer, parte integrante da História da televisão portuguesa, Herman José Krippahl é, sem dúvida, uma das mais emblemáticas e incontornáveis, não só pela enorme variedade de programas de grande sucesso pelos quais deu a cara, mas também por ter conseguido a façanha de se afirmar como nome maior de duas áreas distintas do entretenimento – o humor e a apresentação. De facto, enquanto as primeiras décadas da carreira do luso-alemão o viram movimentar-se, sobretudo, na área do humor (à qual nunca se deixou verdadeiramente de dedicar) a passagem para os anos 90 revelou-o, também, como prodigioso anfitrião de concursos e outros programas semelhantes, campo com o qual viria, subsequentemente, a ser conotado durante as duas décadas seguintes. E se 'A Roda da Sorte' é, quiçá, a mais memorável dessas incursões pelo formato, o seu sucessor imediato também não lhe fica muito atrás em termos de memorabilidade e nostalgia.

c44d0537-0713-42dc-8988-fe4787152145-754x394.jpg

Falamos de 'Parabéns', formato que comemorou há poucas semanas os trinta anos sobre a sua emissão de estreia na RTP1, a 19 de Setembro de 1992 (quase exactamente dois anos depois de outro bastião da programação da emissora, 'O Preço Certo'), e que se viria a manter no ar por uns respeitáveis quatro anos, até 3 de Agosto de 1996. Apostando num formato mais de entretenimento geral do que de concurso puro e duro, o programa tinha como objectivo declarado celebrar os aniversariantes de cada semana (daí o título) mas acabava por se afirmar como uma mistura entre entrevistas a personalidades de vulto da época, tanto nacionais como internacionais (passaram pelo programa nomes como Amália, Artur Albarran, José Cid, Carlos Lopes, Rui Reininho, Cher, Kylie Minogue ou Roxette), segmentos de interesse humano, passatempos, números musicais e, claro, inevitáveis rábulas humorísticas protagonizadas pela habitual 'troupe' de amigos de Herman.

Cher foi uma das muitas personalidades internacionais a passar pelo programa.

Uma proposta que se adequava perfeitamente ao estilo convivial e carismático de Herman e que, apesar de mais variada do que era habitual na televisão da época (ou talvez, precisamente, por causa disso) 'caiu no gosto' dos portugueses de todas as idades, que o tornaram líder de audiências durante todo o período em que foi exibido – um feito para um programa que, em 'tempo televisivo', durou uma verdadeira eternidade. E apesar de, hoje em dia, ser principalmente recordado pelo seu icónico genérico, a verdade é que esta segunda incursão de Herman pelo ramo dos programas de entretenimento o ajudou, à época, a consolidar como valor emergente nesse campo, merecendo, por isso, os nossos 'Parabéns', mesmo que já muito atrasados...

O genérico do programa era icónico.

 

 

 

18.10.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

É sempre triste ver mais uma parte da nossa infância e juventude desaparecer para sempre – e, por coincidência, a últimas semana viu serem retirados à geração que cresceu em finais do século XX não uma, mas duas personalidades directa ou indirectamente ligadas à programação nacional da época: o espanhol Claudio Biern Boyd, criador de algumas das animações mais conhecidas da época, e a portuguesa Ruth Rita, cujos quinze minutos de fama surgiram como assistente de Herman José na memorável versão portuguesa de 'A Roda da Sorte'.

download.jpg

Boyd com as suas duas criações mais famosas

Sobre o primeiro, há a exaltar a capacidade que teve de tornar dois textos clássicos mais apelativos para as crianças da era pré-digital através do seu reconto em formato animado, com animais antropomórficos no lugar dos heróis. Tanto 'Willy Fog: A Volta ao Mundo em 80 Dias' como o imortal e incontornável 'Dartacão' combinavam as duas paixões de Boyd (a literatura clássica e a animação) e se afirmaram como marcos na televisão portuguesa dos anos 80 e 90, tornando-se (juntamente com 'David, o Gnomo', outra produção de Boyd, esta totalmente original) de visionamento quase obrigatório para milhares de crianças e jovens lusos, tal como já o haviam sido na vizinha Espanha; e tudo isto sem recurso a violência ou linguagem 'forte', elementos que o produtor espanhol fazia questão de evitar nas suas produções. Quanto mais não seja pelo sucesso dessas duas séries, Claudio Biern Boyd será para sempre recordado por toda uma geração de crianças ibéricas. Tinha 82 anos.

600.jpg

Ruth Rita e Herman José , um 'duo dinâmico' que marcou o entretenimento português de inícios dos anos 90

Já Ruth Rita mereceu destaque por ter sido - a par de Lenka da Silva, já no novo milénio – uma das poucas assistentes de concurso a exibir qualquer laivo de personalidade, no caso derivado das suas reacções aos dichotes de Herman José, que não perdia qualquer oportunidade de 'picar' a bela assistente encarregue do quadro de letras d''A Roda da Sorte'; os seus sorrisos envergonhados e ocasional resposta 'à letra', o nome quase inacreditavelmente perfeito (e que seria um crime ter sido desperdiçado num qualquer anónimo) e a sua presença semanal nos lares portugueses, durante nada menos do que quatro anos, ajudaram a gravar a figura da apresentadora na memória de ambas as demografias que, à época, assistiam religiosamente ao concurso de Herman, as quais, certamente, sentem actualmente a sua perda,

Duas personalidades, portanto, que, sem serem 'celebridades' no sentido mais literal da palavra, não deixaram de ter impacto na infância e juventude da geração nascida e criada entre as décadas de 80 e 2000. Que descansem em paz.

04.10.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Em plena era dos canais por cabo e do 'streaming', pode ser fácil esquecer que, até há bem pouco tempo, a escolha dos telespectadores portugueses se encontrava limitada a um dos dois canais estatais; de facto, celebram-se esta semana (mais precisamente na próxima Quinta-feira, dia 6 de Outubro) apenas trinta anos sobre o aparecimento da primeira alternativa às duas RTPs, e primeiro canal de televisão privado a transmitir em Portugal – a SIC.

unnamed.jpg

Idealizada desde 1986, mas inaugurada apenas seis anos depois, a Sociedade Independente de Comunicação surgia como fruto de uma 'joint venture' que juntava diversas das maiores empresas portuguesas do sector da comunicação a diversas entidades financeiras, instituições como a Universidade Nova de Lisboa, e ainda a Rede Globo, principal rede televisiva do Brasil, e produtora por excelência de telenovelas, muitas das quais a SIC viria a exibir. Para director geral e de programação foi, aliás, escolhido outro brasileiro, Emídio Rangel – um nome a que nenhum espectador português da época será, certamente, indiferente, dado passar por ele grande parte do sucesso dos primeiros anos da emissora.

emidio-rangel.jpg

Emídio Rangel, a mente por detrás do sucesso dos primeiros anos da SIC

De facto, ao contrário da 'irmã mais nova' TVI (cujos primeiros anos seriam algo titubeantes e dependentes do acervo de programação disponível) a SIC apresentou-se, desde o seu arranque, como um canal de personalidade já bem vincada e definida, assumindo desde logo um maior foco no entretenimento - e, neste campo, Ediberto brilhava, não só importando a 'nata' da programação do seu país natal, mas também idealizando ele próprio conceitos que se viriam a revelar sucessos de audiências, e a tornar-se quase sinónimos com o canal, como o 'Big Show Sic', o 'Buereré', o 'Ponto de Encontro', o 'Chuva de Estrelas', 'O Juiz Decide', 'Perdoa-me' ou 'Fátima Lopes', entre muitos outros programas históricos do canal.

Esta capacidade do brasileiro em discernir o que o público queria ver e o tornar realidade foi, aliás, um dos principais factores por detrás da primeira década quase 'perfeita' de que o canal de Carnaxide gozou, tornando-se líder de audiências apenas três anos após a sua primeira transmissão, e adicionando um sem-número de programas ao 'léxico' televisivo dos portugueses; foram, também, de Rangel as ideias para a cerimónia dos Globos de Ouro (uma espécie de 'Oscars' do canal, ainda hoje vigentes) e para os canais de 'expansão' para a rede TV Cabo que a emissora viria a lançar já no novo milénio, como a SIC Gold, SIC Notícias e, claro, a inesquecível SIC Radical – todos eles, também, ainda hoje presentes na grelha do cabo.

download.jpg

A primeira gala dos Globos de Ouro, transmitida em 1996

Apesar do seu papel preponderante no sucesso inicial da emissora, no entanto, a saída de Rangel para a RTP não abrandou o crescimento da SIC, antes pelo contrário - Manuel Fonseca, Francisco Penim, Nuno Santos e os restantes directores de programação não só conseguiram manter o nível de sucesso conseguido pelo director inaugural da estação, como o expandiram, sem por isso comprometer a identidade da estação; aliás, a SIC de hoje em dia é, ainda, reconhecivelmente a mesma emissora que projectou a sua canção de abertura às primeiras horas da manhã de 6 de Outubro de 1992 – um feito admirável, que a 'rival' TVI não almejou replicar, e que torna ainda mais justa esta homenagem à estação de Carnaxide, na semana do seu 30º aniversário. Parabéns, SIC – e que contes mais 30!

20.09.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

No mundo do entretenimento, é raro o produto que consegue 'sobreviver' mais do que alguns anos – e a televisão não é, de todo, excepção a esta regra – antes pelo contrário, à excepção dos óbvios Telejornais (e mesmo esses têm de 'lavar' periodicamente a 'cara', para reflectir as mudanças de 'visual' da sua estação, ou da televisão em geral) os registos de programas com longevidade de mais do que uma mão-cheia de anos prima por escasso. Este paradigma torna-se ainda mais evidente no caso dos concursos, os quais tendem a diminuir de interesse para o público-alvo conforme os anos vão passando, e a fórmula, progressivamente, estagnando.

Assim, a existência de um programa deste tipo que se consegue manter no ar durante literalmente décadas (ainda que nem sempre de forma consecutiva) sem praticamente alterar a sua fórmula não deixa de ser de louvar - e, assim sendo, há que tecer loas a uma das 'pedras basilares' da programação da RTP durante as últimas três décadas, o mítico 'O Preço Certo'.

Capture.PNG

O logotipo da versão original do programa.

Transmitido pela primeira vez há quase exactos trinta e dois anos – a 17 de Setembro de 1990 – a lendária adaptação portuguesa do formato americano 'The Price Is Right' ocupou por duas vezes lugar de honra na grelha da televisão estatal: a primeira até 1993, com apresentação de Carlos Cruz e (mais tarde) Nicolau Breyner, e a segunda, e quiçá mais famosa, a partir de 2002, com o inicialmente escalado Jorge Gabriel a ceder rapidamente o seu lugar àquele que talvez seja o nome mais prontamente associado com o concurso, e que ainda hoje continua à frente do mesmo - Fernando Mendes.

maxresdefault.jpg

Os quatro apresentadores do programa, cada um marcante à sua maneira.

Notavelmente, e conforme referido acima, ambas as iterações do concurso apresentavam precisamente a mesma fórmula-base, mesmo não sendo exactamente iguais: quatro concorrentes tentam adivinhar o preço de um produto, ganhando quem mais se aproximar do montante correcto; o vencedor é, então, desafiado a completar uma prova intermédia, que lhe permite acesso à 'Grande Roda', onde o objectivo é conseguir, em apenas duas tentativas, um valor o mais próximo possível de cem. Terminada a ronda, um novo elemento da plateira substitui o concorrente demissionário, e o ciclo recomeça, até terem jogado um total de seis concorrentes; no final, ganha o jogador que, na prova da 'Grande Roda', mais perto tenha ficado do valor-alvo de cem, tendo este, ainda, pela frente uma última prova – a de estimar o 'Preço Certo' dos prémios incluídos na apetecível montra final.

Um formato desafiante, em que o sucesso e respectiva premiação estavam longe de ser garantidos – pelo contrário, não faltava quem 'rebentasse' a escala de valores algures pelo caminho e fosse para casa de mãos a abanar; no entanto, residia precisamente aí o apelo do concurso, que era (e é) exímio em criar uma dicotomia entre querer 'torcer' pelos concorrentes e desejar, secretamente, que os mesmos sobre-estimassem. A esta dualidade algo pérfida há, ainda, que juntar o carismático e característico 'voice-off' de Cândido Mota (que também dava voz a outro clássico de inícios dos 'noventas', 'A Roda da Sorte'), as belas assistentes (com destaque óbvio para Lenka da Silva) e os não menos carismáticos apresentadores, que, cada um à sua maneira, conseguiam cativar e conquistar as diferentes demografias que sintonizavam o programa (e se os espectadores mais novos associam o concurso ao estilo frenético, brejeiro e bem-humorado de Fernando Mendes, as gerações mais velhas talvez se recordem, sobretudo, da abordagem mais sofisticada dos originais Cruz e Breyner).

Exemplo do estilo de apresentação de Carlos Cruz, bastante diferente do do actual anfitrião, Fernando Mendes.

Seja qual fôr a versão que lhes tenha prendido a atenção em pequenos, no entanto, a maioria dos portugueses certamente não negará o estatuto de clássico televisivo a 'O Preço Certo', programa que, hoje, rivaliza quase exclusivamente com os Telejornais como um dos mais longevos de toda a História da televisão portuguesa moderna, contando já com quase 4000 emissões totais, incluindo vários especiais comemorativos, transmitidos em directo a partir de grandes salas de espectáculos de todo o País – o que, para um concurso, constitui nada menos do que um feito...

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub