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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.06.23

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Já aqui por diversas vezes referimos uma das 'regras de ouro' do marketing para um público infanto-juvenil – nomeadamente, que qualquer propriedade intelectual popular junto deste público surgida após o advento dos computadores e consolas caseiros terá, forçosamente, pelo menos uma adaptação electrónica. Os dois jogos de que falamos hoje são o exemplo 'acabado' dos limites a que essa máxima se aplica, já que versam sobre um programa destinado a um público abaixo dos cinco anos.

Sim, tal como as séries para crianças e jovens mais velhos, também os 'Teletubbies' tiveram direito a 'software' próprio, com nada menos do que dois títulos lançados enquanto a série esteve no ar; e se o aparecimento dos mesmos no PC não é surpreendente (estava-se, afinal de contas, em plena era dos 'Centros de Actividades' e 'Estúdios de Impressão') já o surgimento do primeiro dos dois jogos na PlayStation causa alguma estranheza – pelo menos até nos lembrarmos que a 'biblioteca' de títulos da consola incluía também jogos dos Tweenies, por exemplo.

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O primeiro jogo chegou a sair para a PlayStation original.

Ainda assim, 'Play With The Teletubbies' ('Brinca Com os Teletubbies') é um jogo atípico para uma consola, sendo mais focado na exploração ao estilo 'point-and-click', um género bem mais adequado a um interface com teclas e um rato do que com botões. O objectivo do jogo passa por explorar o planeta dos Teletubbies, interagindo com os diversos objectos do cenário para, assim, desencadear jogos e actividades que vão desde um jogo de escondidas até objectos para mover, poemas, vídeos e outras tarefas que apelam à interactividade inerente às crianças muito pequenas; essencialmente, trata-se de um 'Centro de Actividades' algo básico, mas simultaneamente ajustado ao público a que se destina, o qual terá, sem dúvida, vibrado com a oportunidade de interagir com os personagens e cenários da série.

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Capa do segundo jogo, este exclusivo para PC.

E porque em 'fórmula vencedora não se mexe', 'Favourite Games' ('Jogos Favoritos'), lançado em 1999 (agora apenas para PC) oferecia mais do mesmo, embora de forma mais estruturada e menos exploratória. Eram cinco os 'jogos favoritos' dos Teletubbies, indo desde uma tarefa de culinária a outra de ginástica, passando por uma brincadeira em que os 'Tubbies rebolavam colina abaixo, com que grande parte do público-alvo certamente se terá identificado. Estranhamente, em tratando-se de uma sequela, este era um jogo ainda menos ambicioso que o original, e que, anos depois, seria o tipo de coisa que se poria num 'website', por oposição a vender comercialmente.

Esse foi, aliás, o destino dos Teletubbies no seu terceiro e último jogo, lançado já para os sistemas Android e Apple, e intitulado 'Teletubbies: My First App'. Tratava-se de uma aplicação que 'resgatava' algumas das actividades incluídas nos dois jogos, juntando-as a outras inéditas, num total de cinco; quem espera poder brincar com os Teletubbies no seu telemóvel ou 'tablet' vai, no entanto, ficar desapontado, já que a 'app' foi descontinuada em 2015, sem razão aparente.

Em suma, os jogos dos Teletubbies acabavam por ser tão simplistas quanto a própria série, e capazes de agradar estritamente ao seu público-alvo, pelo que não admira que pouco se ouça falar deles um quarto de século após o lançamento; ainda assim, no que toca à comercialização de franquias para crianças, a BBC tinha a lição bem estudada, e ambos estes títulos terão, certamente, rendido os devidos dividendos. Quanto à questão de as crianças pequenas deverem ou não interagir com videojogos, essa, será melhor debatida noutro tipo de ambiente mais 'formal' do que um 'blog' sobre nostalgia na Internet...

19.06.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Há quem ainda tenha pesadelos com eles. Há quem ainda os use como 'pano de fundo' para experiências com substãncias ilícitas, à falta de 'Dark Side of the Moon' ou d''O Feiticeiro de Oz'. E há, claro, quem os tenha como simples memória nostálgica da infância remota, uma espécie de substituto da 'Rua Sésamo' para quem teve o 'azar' de já ter nascido após o ocaso desse marco da televisão portuguesa. De quem falamos? De quatro extra-terrestes multi-coloridos, de vocabulário rudimentar, oriundos de um planeta perpetuamente soalheiro e pacífico, onde as disputas mais acirradas versam sobre simples mal-entendidos e outros sobressaltos da vida quotidiana, e que 'aterraram' na televisão portuguesa há quase exactamente vinte e cinco anos, para não mais deixar nenhum 'puto' português indiferente.

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De facto, consoante a faixa etária, os protagonistas homónimos da série educativa infantil 'Teletubbies' suscitavam reacções de amor, ódio, escárnio ou perplexidade, ajudando o programa a que davam a cara a atingir um estatuto quase instantaneamente lendário. Mesmo hoje, um quarto de século após a estreia na SIC do primeiro episódio, a 9 de Maio de 1998, a mera menção dos nomes de Tinky Winky, Dipsy, Laa Laa e Po, bem como da série propriamente dita, é capaz de provocar em adultos responsáveis reacções extremas de hilaridade ou embaraço. E porque deixámos passar em branco a verdadeira data do seu vigésimo-quinto aniversário (quando preferimos falar do Inspector Engenhocas) corrigimos agora, cerca de um mês e meio depois, esse erro, dedicando algumas linhas a uma série que suscitou milhares delas ao longo das últimas duas décadas e meia.

Isto porque, além do aspecto algo perturbante dos quatro protagonistas, que caía no chamado 'vale assombroso' ('uncanny valley'), 'Teletubbies' esteve, praticamente desde a sua origem, envolto em controvérsias das mais diversas índoles, de acusações de 'estupidificação' do público-alvo (com os seus argumentos simplistas, a narração redundante e condescendente e o vocabulário ao 'estilo Pokémon' dos personagens principais) até insinuações de que Po, o Teletubby roxo, seria LGBTQ+, dado o símbolo geométrico que ostentava na cabeça. Tudo isto apenas serviu, claro, para despertar ainda mais interesse em 'Teletubbies' por parte de demografias que não a do público-alvo, tornando o programa uma espécie de 'versão oposta' da referida 'Rua Sésamo' – se, dessa, pouca gente tinha (ou tem) algo mau a dizer, com 'Teletubbies' passava-se precisamente o oposto.

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Os argumentos demasiado simplistas da série davam azo a críticas.

E se à distância de vinte e cinco anos no futuro estas críticas e controvérsias em torno de um programa para crianças em idade pré-escolar podem parecer algo caricatas, a verdade é que a série da BBC (que, em Portugal, viu serem substituídas algumas cenas com actores reais por outras gravadas em exclusivo no nosso País) está longe de representar os habituais padrões de qualidade da emissora, pautando-se pela repetitividade (não são poucas as vezes em que um dos Teletubbies repete palavra a palavra o que o narrador acabou de dizer) e pelo cariz aborrecido, incapaz de prender a atenção de quem já tenha idade para frequentar a escola, e muito menos de quem tenha atingido os dois dígitos na idade. Mais uma vez, trata-se de um marcado contraste com 'Rua Sésamo' (e até com séries mais contemporâneas, como 'Noddy', de que em tempo aqui falaremos) que apenas deixa a nu as fraquezas de 'Teletubbies'. Basta, aliás, comparar os genéricos de qualquer das séries referidas anteriormente com o desta para perceber que não existe qualquer semelhança entre os mesmos - ainda que o do programa aqui analisado tenha, indubitavelmente, enorme potencial 'memético', o qual foi explorado em pleno pela juventude portuguesa antes mesmo de esse termo existir.

Quem nunca 'avacalhou' com a canção dos Teletubbies e respectiva dança, que se acuse...

Ainda assim, 'Teletubbies' chegou a encontrar o seu público entre os (muito) mais pequenos daquela época, que adquiriam as inevitáveis cassettes de vídeo e DVDs e o 'merchandise' oficial e pirata da série sem qualquer sentido de ironia; aliás, a par de 'Neco – A Minha Família É Uma Animação' e do inevitável e incontornável 'Dragon Ball Z', este foi dos programas que maiores volumes de produtos não-oficiais suscitou.

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Um dos muitos artigos piratas inspirados na série - aqui, com a criação acidental de um novo Teletubby, de cor verde e com uma antena de telefone como símbolo.

É com essa demografia em mente – mais do que aquela para quem 'Teletubbies' era (foi) pouco mais do que um objecto de escárnio, daqueles que se 'botam abaixo' no pátio da escola ou entre amigos – que aqui deixamos esta breve recordação de uma série tudo menos consensual, que, há vinte e cinco anos, dividia o Portugal 'dos pequeninos' em dois campos distintos (o do amor e o do ódio) de uma forma que muito poucos dos seus antecessores haviam, até então, conseguido; prova de que, desinteressante como era, o programa conseguia, pelo menos, fazer-se notar, ainda que junto das demografias erradas...

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