01.03.26
Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Calado ao serviço da Selecção Nacional.
De entre os muitos nomes icónicos dos campeonatos nacionais de futebol. José António Calado é um dos mais icónicos, ainda que nem sempre pelas melhores razões. De facto, o antigo médio, hoje comentador desportivo num dos canais da televisão nacional, chegou a ser tão conhecido entre os adeptos nacionais (incluindo os do seu próprio clube) pelas suas proezas futebolísticas como pelo estatuto 'memético', décadas antes de esse termo existir. Isto porque, ali por meados dos anos 90, corria o rumor de que Calado estaria romanticamente envolvido com um dos membros da 'boy band' nacional Excesso, levando a que o internacional português ficasse, durante um largo período de tempo, intimamente associado à música 'Coração de Melão', grande êxito do disco a solo do referido cantor...
'Piadolas' à parte, no entanto, é inegável que Calado foi um dos muitos bons jogadores de que o Benfica dispõs no seu plantel na segunda metade dos anos 90, bem como nome habitual na lista de internacionais AA de 'segunda linha' durante o mesmo período. O que esses feitos – e a posterior carreira internacional – poderão fazer esquecer, no entanto, é que os inícios de carreira do médio foram bastante mais modestos, tendo passado por dois clubes históricos dos arredores de Lisboa.

De penteado 'a rigor', ao serviço do Amadora.
De facto, após uma formação irmamente dividida entre Belenenses e Casa Pia, seria ao serviço deste último emblema (então ainda longe do estatuto de que actualmente goza) que Calado faria a sua estreia oficial, com apenas dezasseis anos, na época 1991/92. O seu espaço no plantel dos 'Gansos' dessa temporada seria, no entanto, praticamente inexistente, motivando uma mudança para alguns quilómetros mais à frente no Eixo Norte-Sul, para representar o Estrela da Amadora, surpreendente 'viveiro' de talentos futebolísticos ao longo das décadas. E a verdade é que essa decisão rapidamente se revelou acertada, já que seria na Reboleira que a carreira de Calado verdadeiramente 'engrenaria' – após um início tímido, com apenas sete presenças na temporada 1992/93, o médio agarraria um lugar no meio-campo tricolor, participando em mais de duas dezenas de partidas ao longo das duas épocas seguintes. Uma marca que, sem indicar um titular habitual, seria ainda assim suficiente para (em conjunto com exibições de consistente qualidade) despertar a atenção de um 'grande', e permitir a Calado dar o salto para o clube que o notabilizaria no seio do futebol português noventista.

Com a camisola que o notabilizou.
No total, foram seis as épocas passadas pelo número 8 no Estádio da Luz, sempre com estatuto de opção regular (nunca realizou menos de vinte jogos numa só época, chegando mesmo a contabilizar trinta e sete na primeira época de Graeme Souness à frente do Benfica) e com exibições que, sem deslumbrar, se pautavam pela regularidade pedida a um 'número oito' de uma grande equipa de futebol. Não é, pois, de admirar que Calado tenha ganho o estatuto de 'favorito' entre os adeptos benfiquistas, nem que os dos restantes clubes lhe dedicassem sátiras como a mencionada no início deste texto.
Tão-pouco é surpreendente que, já como titular indiscutível do seu clube e com várias internacionalizações no currículo (tendo feito inclusivamente parte da equipa Olímpica de Portugal na prova de 1996) Calado viesse a dar o segundo 'salto' desejável na carreira de qualquer futebolista, mudando-se, aos vinte e sete anos, para Espanha, para representar o Bétis. Infelizmente, como muitas vezes sucede a futebolistas nestas situações, a mudança não correu de feição ao médio, que foi pouco utilizado pelo clube de Sevilha e se viu, eventualmente, emprestado ao Poli Deportivo Ejido, das divisões secundárias – transferência que se viria a tornar permanente no fim da época 2003/2004. O passo seguinte, após três épocas como indiscutível do clube espanhol, foi igualmente previsível – a mudança para Chipre, para desfrutar da 'reforma dourada' ao serviço de APOP e Paphos, clube onde viria a pendurar as botas, aos trinta e seis anos de idade.


Durante os anos em Espanha
Finda a carreira, Calado não optou pela via técnica seguida por tantos dos seus colegas, tornando-se, em vez disso, comentador de televisão, qualidade na qual ainda hoje surge nos televisores nacionais. Uma ocupação digna para o pós-carreira de um rapaz que foi da Segunda Circular a Espanha e Chipre, sem nunca deslumbrar, mas apresentando sempre uma consistência invejável, que o ajudou a tornar-se num dos bons médios dos campeonatos nacionais de finais do século XX, plenamente merecedor desta homenagem que lhe dedicamos por ocasião do seu quinquagésimo-segundo aniversário. Parabéns, Calado, e que conte ainda muitos.





























