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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.04.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O conceito de grupos formados por familiares musicalmente inclinados não é, de todo, nova; de facto, desde o dealbar da música moderna que, de uma forma ou de outra, irmãos, irmãs, primos ou até pais e filhos se têm juntado para gravar, ou simplesmente interpretar ao vivo, temas do seu estilo favorito. Dos grupos vocais dos primórdios à sua evolução natural nas décadas de 70 e 80 – quando Jackson 5 e The Osmonds adaptavam o mesmo som de base a demografias diametralmente distintas – este tipo de banda tem sido uma das pedras basilares do mercado 'pop', tendo mesmo acabado por influenciar estilos mais enérgicos ou agressivos.

Assim, não é de surpreender que também os anos 90 tenham tido os seus diversos representantes deste estilo de grupo, na sua maioria constituídos por adolescentes do chamado 'Midwest' norte-americano – aquela longa faixa de vários estados no 'coração' do território onde pouco ou nada acontece de particularmente entusiasmante, e a vida se desdobra entre casa, a escola, a igreja e um ou outro ponto de encontro para os jovens da terra. Num ambiente como este, a música acaba por ser um dos poucos meios de 'agitar' um pouco o quotidiano, e, dada a importância da família na cultura maioritariamente cristã daquela parte do Mundo, é natural que dali saiam inúmeros grupos musicais de e para jovens, e que muitos deles sejam constituídos por familiares directos. Foi o caso, na última década do século XX, de colectivos como The Moffats, Kelly Family, e o grupo que lhes 'abriu as portas' à fama – um trio de 'meninos-bonitos' loiros, de cabelo comprido e vozes angelicais, mas capazes de compôr e interpretar os seus próprios temas, que, no Verão de 1997, gozaram de um insólito e até inesperado momento de fama, e conseguiram pôr boa parte do Mundo ocidental a entoar um refrão perfeitamente 'nonsense'.

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A banda, tal como era à época.

Filhos de um músico de Tulsa, Oklahoma, no Sul dos Estados Unidos, Isaac, Taylor e Zac Hanson iniciaram-se nas lides musicais ainda em idade de instrução primária, interpretando temas 'a capella' e versões de temas clássicos de rock'n'roll. Nessa primeira fase, todos os três rapazes tocavam piano, mas a evolução musical dos irmãos rapidamente viu Isaac encarregar-se da guitarra e o pequeno Zac, então com pouco mais de seis anos, gravitar para a bateria. Surgem então as primeiras gravações oficiais, dois álbuns independentes lançados localmente em 1994 e 1996, o segundo dos quais continha uma versão embriónica daquele que viria a ser o maior sucesso do trio, do qual tirava também o nome. Os seus contactos dentro da indústria musical permitiam também aos 'manos' tocar no festival South by Southwest, um conceituado evento de música alternativa, onde acabariam por ser descobertos por um agente, que rapidamente os começa a apresentar a editoras discográficas. Após várias 'negas' da parte de executivos que os viam como pouco mais do que uma curiosidade, a Mercury decide apostar no grupo, lançando, em 1997, o seu primeiro álbum distribuído a nível global, 'Middle of Nowhere'.

HansonMON.jpgA capa do álbum que catapultaria a banda para o estrelato.

E se a capa amarelo-canário do disco e a tenra idade dos intérpretes poderiam levar a pensar numa literal 'boy-band' ou grupo declaradamente infantil, os irmãos Hanson surpreendiam com um álbum de sonoridade adulta, alicerçado num 'pop-rock' com toques e 'tiques' 'country' - ou não fossem os rapazes do sul dos EUA – pronto para a rotação nas rádios alternativas norte-americanas. Ou melhor, era esta a sonoridade de onze das doze músicas do disco (treze, na versão em CD); a outra era uma 'cançoneta' pop-rock que escondia uma temática surpreendentemente adulta (o fluxo de relações interpessoais efémeras vivido por qualquer ser humano) por detrás de um refrão feito de sons desconexos e improvisos vocais, que deixava a nu a tenra idade dos integrantes. Uma candidata improvável a 'single' e mega-sucesso, talvez – mas seria precisamente nisso que se viria a tornar aquando do seu lançamento mundial, sobre o qual se celebraram na semana transacta (concretamente a 15 de Abril) exactos vinte e sete anos.

De facto, contra todas as probabilidades, 'MMMBop' 'cairia no gosto' da geração contemporânea dos três irmãos – então com dezasseis, catorze e onze anos – e 'tomaria de assalto' as ondas radiofónicas mundiais no Verão de 1997, durante o qual eram poucos os jovens que não conhecessem (e cantarolassem) aquela sequência de sons incrivelmente 'viciante' que compunha o refrão da música. Esperassem-no ou não, os 'manos' Hanson eram agora mega-estrelas em 'miniatura' ao nível do que tinha sido, anos antes, um Macaulay Culkin, com direito a presenças em programas de televisão como 'The Weird Al Show', 'Melrose Place' e 'Space Ghost: Coast to Coast', da Hanna-Barbera, e a turnês mundiais repletas de jovens da sua idade prontos a entoar com eles o famoso estribilho.

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O 'single' de 'MMMBop'.

A 'sede' por novo material por parte desta mesma base de fãs viria também a justificar a reedição de um dos álbuns independentes do grupo, agora renomeado 'Three Car Garage', e do inevitável disco de Natal, 'Snowed In', no espaço de poucos meses! Esse mesmo espaço de um ano (entre 1997 e 1998) veria, também, os irmãos figurarem entre os artistas mais novos de sempre a serem nomeados para um Grammy, e lançarem no mercado a sua biografia oficial – de jovens que, recorde-se, ainda não haviam saído da adolescência - ou, num dos casos, sequer ENTRADO na mesma! A popularidade do grupo assumia, assim, contornos de 'febre' – e, como qualquer febre (física ou social), também esta não demoraria a passar.

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O segundo álbum do grupo já não almejaria o mesmo sucesso da estreia.

De facto, no espaço que mediou entre o sucesso vindo do 'meio do nada' e o disco seguinte do grupo, 'This Time Around', de 2000, Isaac, Taylor e Zac amadureceram, assumiram um visual mais roqueiro – a condizer com a nova sonoridade em que apostavam – e perdiam o 'factor fofura' que os fizera dar nas vistas três anos antes. Em conjunção com a absorção da Mercury pela Def Jam – da qual resultava um menor orçamento promocional – esta mudança precipitou o declínio de popularidade do trio, que se viu obrigado a financiar a turnê desse segundo álbum por conta própria, e teve de se contentar com audiências bem mais modestas.

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Os Hanson nos dias de hoje.

Este típico ciclo de 'ascensão e queda' não desmotivou, no entanto, o grupo, que – entre a organização de acções filantrópicas e retiros para músicos - prosseguiu a carreira nessa vertente mais discreta, lançando um novo álbum imperetrivelmente a cada três anos durante toda a primeira década do Novo Milénio, até 2013, data em que se verificou um maior hiato, que seria quebrado em 2017, com uma turnê orquestrada comemorativa dos vinte anos de 'Middle of Nowhere' e novo disco de Natal. Quatro anos depois, surge o sétimo disco de originais, rapidamente precedido do oitavo (e, até agora último) lançado em 2022, já depois de os irmãos se terem visto envolvidos em controvérsias derivadas das suas posições conservadoras, sobretudo no tocante às vacinas e restrições aplicadas aquando da pandemia de COVID-19. O típico final algo 'deprimente' para artistas que, na mente de toda uma geração, serão para sempre aqueles adolescentes loiros e de cabelos compridos a divertirem-se à grande no lendário videoclip de um dos maiores sucessos do pop-rock noventista, capaz de fazer qualquer 'millennial' regredir à infância ou adolescência durante três minutos e meio...

08.04.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos dias que correm, expressões como 'ícone' e 'icónico' são utilizadas de forma algo gratuita, levando a que o seu significado original se dilua, tornando-se assim necessário fazer uso do pensamento crítico para discernir quem, de facto, merece esse epíteto, por oposição às inúmeras 'sensações da semana' a quem o mesmo é recorrentemente atribuído. No entanto, mesmo nesta época de uso excessivo de tais termos, continuam a existir figuras incontornáveis, que reúnem o consenso de várias gerações quanto ao seu estatuto como verdadeiras 'lendas' da cultura popular ocidental – e, destas, uma das maiores continua a ser um eterno jovem de cabelo loiro, comprido e desgrenhado, barbicha, roupas coçadas, voz rouca e olhos claros e penetrantes, cuja aparência quase fazia lembrar uma versão moderna da tradicional representação de Jesus Cristo, e que, apesar de nunca ter querido ser profeta, conheceu, á semelhança deste, um fim trágico e tragicamente prematuro, embora, ao contrário do filho de Deus, pela sua própria mão. Falamos, claro, de Kurt Donald Cobain, o ícone da cena grunge e membro do infame 'clube dos vinte e sete', sobre cuja morte auto-inflingida se contaram, na passada Sexta-feira, exactos trinta anos.

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A história de vida de Cobain é bem conhecida: oriundo de uma família modesta dos subúrbios de Washington, nos EUA, o futuro músico viveu, na infãncia e adolescência, uma série de problemas familiares, escolares e sociais, que transformaram a criança tímida e introvertida num jovem rebelde, que encontrava na música agressiva, confrontatória e 'barulhenta' o seu escape dos problemas do dia-a-dia. Da paixão partilhada com outro 'desajustado' da sua escola – um adolescente alto, magro e sorumbático, de ascendência balcânica, que dava os primeiros passos no baixo – surge a ideia de formar uma banda, que viria a adoptar vários nomes para os primeiros concertos, até se fixar naquele que lhe outorgaria, em apenas alguns anos, um lugar indelével na cultura pop contemporânea: Nirvana.

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A formação clássica dos Nirvana: Krist Novoselic, Kurt Cobain e o baterista Dave Grohl, hoje líder dos Foo Fighters.

Daí em diante, o percurso da banda dispensa apresentações: em menos de meia década, Cobain e o eterno parceiro Krist Novoselic conseguiriam levar o seu grupo das garagens de Seattle ao estrelato mundial, criando um dos maiores clássicos da história da música rock, o sublime 'Nevermind', de 1991, e inspirando milhões de jovens inadaptados um pouco por todo o Mundo a pegarem em instrumentos e fazerem, eles próprios, barulho na sua garagem, num efeito semelhante ao gerado pelo movimento 'punk' britânico, cerca de década e meia antes.

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O segundo disco do grupo, 'Nevermind', é ainda hoje um álbum obrigatório para qualquer fã de rock.

Curiosamente, no entanto, o sucesso da banda não caía bem ao seu líder, que nunca procurara a ribalta, e que se via, de um momento para o outro, apelidado de 'voz de uma geração', entre outros epítetos que nunca esperara ou quisera. Tal como sucedia (e continua, infelizmente, a suceder) com tantos outros artistas da sua índole, a solução encontrada por Cobain para lidar com esta pressão foi refugiar-se nas drogas, hábito que não foi, de todo, desencorajado pela namorada e futura esposa do músico, Courtney Love – um nome que rivaliza apenas com Yoko Ono no panteão de influências tóxicas em músicos geniais. Nem o nascimento da filha Frances Bean – baptizada em homenagem a uma heroína local, passe o trocadilho involuntário – ajudava a animar Cobain, que sofria de depressão e se degladiara toda a vida com problemas de saúde.

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Com a mulher, Courtney Love, e a filha, Frances Bean Cobain, pouco depois do nascimento desta última.

Não foi, no entanto, a bronquite crónica, nem mesmo o vício em heroína, que acabou com a vida de Cobain, mas sim o próprio músico, que, nos primeiros dias de Abril de 1994, se terá alvejado a si próprio com uma caçadeira, deixando junto a si aquela que talvez seja o mais famoso e icónico 'adeus' de sempre: 'it's better to burn out than to fade away', algo como 'é melhor arder do que desaparecer aos poucos', uma frase que reflectia na perfeição a filosofia e modo de vida de Kurt.

Apesar de aparentemente claro, o suicídio do músico foi, ao longo das três décadas subsequentes, tema de inúmeros documentários (bem como de uma dramatização, 'Last Days - Últimos Dias', realizada por Gus Van Sant em 2005) e suscitou debates e teorias da conspiração que, trinta anos volvidos, não dão sinais de abrandar. Destas, a mais famosa é a que propões que terá sido a mulher, Courtney Love, a realizar o infame acto – à qual não ajuda a espinhosa relação de Love com os colegas de banda de Kurt, nem a sua recusa em deixar que seja publicado material inédito e de arquivo do grupo.

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'Last Days - Últimos Dias', talvez a mais conhecida obra cinematográfica sobre Kurt, apesar de não utilizar o nome do mesmo.

Seja qual fôr a verdade sobre a sua morte, no entanto, o facto inegável é que o falecimento de Cobain privou o Mundo de uma das mais interessantes bandas de rock 'mainstream' da sua época, e de várias décadas de novas e inspiradas canções por parte daquele que foi um dos mais geniais compositores da música popular de finais do século XX (e não só). Talvez ainda mais significativo seja o facto de que, trinta anos volvidos, a saudade daquele 'Jesus moderno' que nunca quis ser profeta continua a ser fortemente sentida pelos seus milhões de fãs, tendo-se as suas atraentes feições tornado tão omnipresentes e imediatamente identificáveis na cultura popular moderna como as dos também prematuramente malogrados Che Guevara e Bob Marley, com os quais partilha o estatuto de personalidade verdadeiramente icónica da História contemporânea. Que continue a descansar em paz.

13.03.24

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 11 de Março de 2024.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em inícios dos anos 90, o movimento 'metálico' que timidamente despontara em Portugal em finais da década anterior começava, finalmente, a conseguir ultrapassar a 'décalage' cultural que afectou o nosso País até ao último par de anos do século XX, potenciando não só a formação de mais grupos, mas também o surgimento de 'versões nacionais' do que ia fazendo sucesso 'lá por fora' – em particular, do 'hard rock' melódico que fizera as delícias de toda uma geração de jovens americanos na década anterior, sob as denominações 'hard FM', 'hard rock melódico' ou, mais comummente, 'glam metal' ou 'hair metal'. Não tardou, pois, para que se começassem a destacar na cena nacional alguns grupos deste estilo, com dois em particular a conseguirem algum sucesso naquele início de década: os Joker, a quem já aqui dedicámos algumas linhas, e a banda que focamos no post de hoje, os Hot Stuff.

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A formação que gravou o primeiro álbum.

Formados no início da década por um grupo de brasileiros radicados na zona de Lisboa, o grupo tinha como principal ponto de destaque a presença do baterista Rodrigo Leal, filho de Roberto Leal – esse mesmo, o 'crooner' romântico-pimba que, à época, marcava presença assídua nos rádios e leitores de 'cassettes' de muitas donas de casa portuguesas. Ao lado de Rodrigo na empreitada estavam, inicialmente, o vocalista Marcelo Lários, o exoticamente denominado Solly Hazan na guitarra, e o baixista português Mário Peniche, mais tarde substituído por Márcio Zaganin, naquela que se tornava assim uma formação cem por cento brasileira. Foi este o alinhamento responsável pelo primeiro disco, 'Kind of Crime', lançado em 1993, mas que o ouvinte mais incauto poderia acreditar ser oriundo dos Estados Unidos e editado três a cinco anos antes.

Isto porque o grupo investia numa sonoridade tipicamente 'glam metal', na vertente mais melódica e 'melosa' (ao estilo Bon Jovi) ao qual acrescentavam um 'funk-rock' a fazer lembrar Extreme, numa mistura que estava ainda a alguns meses de decair totalmente de popularidade. Prova disso é que o grupo conseguiu não só assinar contrato com a ubíqua Vidisco, talvez a maior editora de música popular em Portugal durante esse período, mas também rodar não um, mas dois vídeos no 'Top +' (o tema homónimo da banda e ainda a versão 'rockalhada' para 'Informer', único hit do 'Vanilla Ice canadiano' Snow), um marco com que muitas bandas nacionais da altura apenas sonhavam.

Os dois 'clips' da banda em destaque no 'Top +'

Encorajados por esse bom começo, o grupo partia para a gravação do sempre difícil segundo disco logo no ano seguinte, agora com Mauro Coelho a cargo das vozes, mas com o quarteto 'musical' e cerne da banda ainda intacto. E dado o ano de lançamento, e o 'estado' da cena hard rock melódica nesse período, não é de surpreender que 'Things Like That' traga ainda mais acentuado o lado funk-rock do grupo, que deixava de lado as 'poses' à Bon Jovi para investir descaradamente na sonoridade que, à época, ia ainda garantindo algum sucesso a grupos como Extreme ou Aerosmith, estes últimos em plena 'segunda vida' após o sucesso de 'Pump' alguns anos antes.

Os resultados, esses, foram bem menos encorajadores que os do álbum de estreia, o que também não é de todo surpreendente, se considerarmos que o álbum em causa foi lançado já depois da ascensão e ocaso de Kurt Cobain e da restante cena 'grunge', normalmente tida como responsável pela 'morte' comercial deste tipo de rock e ascensão do rock alternativo que dominaria os 'tops' na segunda metade da década. Para os Hot Stuff, era sem dúvida o fim da linha, tendo-se o grupo dissolvido poucos meses após o lançamento do segundo registo.

Mas porque, no Mundo do rock, nada é definitivo, eis que os Hot Stuff surgiam de novo na cena 'rock' nacional em finais dos anos 2010, agora bastante menos 'estilosos' e mais grisalhos, para uma série de concertos em eventos como o Cascais RockFest e a tradicional Concentração Motard de Faro. Já no início da presente década, por alturas da comemoração do quarto de século de actividade da banda, eram lançados um registo ao vivo e uma compilação 'Best Of', que reunía dezassete temas retirados dos dois LP's do grupo, ajudando assim a apresentá-los a um público demasiado novo para ter presenciado ou tido interesse activo no grupo durante o seu breve tempo em actividade.

Actualmente, no entanto, os Hot Stuff parecem ter voltado para o 'buraco' de onde haviam saído há dez anos atrás, sendo o últimos registo de actividade do grupo, precisamente, o concerto no Cascais RockFest a 24 de Janeiro de 2020, quase exactamente dois meses antes de ser declarada a pandemia de COVID-19. Antes de ditar a 'sentença de morte' do colectivo luso-brasileiro, no entanto, há que recordar a década e meia decorrida entre a sua formação e o seu regresso; por outras palavras, quem sabe, talvez, num ano em que se assinalam três décadas sobre o lançamento de 'Things Like That' e subsequente extinção do grupo, e quando o 'rock' melódico de cariz nostálgico ganha novamente força comercial, surja, sem se 'dar por ela', um novo registo de Hot Stuff nos escaparates nacionais, pronto a conquistar toda uma nova geração de 'rockers' com gosto por sons de décadas passadas, e a fazer voltar 'material quente' aos 'tops' musicais nacionais...

26.02.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

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De entre os muitos estilos que floresceram no ambiente musical dos anos 90, o rap e o hip-hop foram alguns dos mais destacados. Ainda que a génese do estilo remetesse à década transacta – que já havia dado ao movimento alguns dos seus mais clássicos artistas, como os super-grupos Sugarhill Gang, Run-DMC, Public Enemy e N.W.A., entre outros - foi nos últimos anos do século XX que o género verdadeiramente floresceu, substituindo as batidas algo primárias daqueles e outros artistas oitentistas por produções mais ricas, e conseguindo mesmo transcender o seu nicho e tornar-se conhecido a nível do 'mainstream'. No espaço de alguns anos, nomes como Dr. Dre, Snoop Dogg, Puff Daddy, DMX, Tupac Shakur, Cypress Hill ou o grupo de 'alucinados mentais' conhecido como Wu-Tang Clan tornavam-se conhecidos do melómano comum, e conseguiam mesmo que algumas das suas músicas 'caíssem no gosto' de um público mais alternativo, que se revia na indignação e frontalidade dos cantores do movimento, pesasse embora a falta de guitarras eléctricas como pano de fundo.

Escusado será dizer que não tardou até que novos artistas explorassem esta conjuntura favorável, sendo alguns deles mesmo 'protegidos' dos pioneiros do movimento; e embora nem todos estes nomes tenham tido carreiras exactamente memoráveis, há, sem dúvida, um deles que se destaca acima de todos os outros – o de um jovem caucasiano franzino, de cabelo loiro oxigenado, que, nos últimos anos do Segundo Milénio, logrou desafiar a hegemonia afro-americana do género, e lançar uma carreira que perdura até aos dias de hoje, e que não se pode considerar nada menos do que icónica. Falamos, claro está, de Marshall Bruce Mathers III, mais conhecido nos círculos do hip-hop pelo seu 'nome de guerra', Eminem.

Já conhecido nos meandros do 'underground' há mais de uma década, graças às habituais 'mixtapes' e colaborações, bem como por formar parte do grupo Dirty Dozen, ou D12, seria, no entanto, apenas nos últimos meses do Segundo Milénio que Eminem verdadeiramente atingiria a fama, através do seu segundo registo de originais, um disco que levava o nome do 'alter-ego' do 'rapper, e que muitos melómanos mais distraídos até hoje crêem ser o seu disco de estreia. Não era – essa honra pertencia a 'Infinite', lançado três anos antes, e sucedido por uma 'demo' auto-intitulada, em 1997 – mas era, sem dúvida, o disco que o catapultava para a consciência colectiva da juventude de finais do século XX, para quem se tornou quase imediatamente um ídolo, pela sua tendência para a imagética profana e deliberadamente chocante, inspirada em parte por filmes de terror. Um 'rapper' totalmente adequado para a época em que surgiu, portanto, e que não hesitou em usar esse oportunismo para demonstrar todo o seu talento, e se tornar um ícone do 'hip-hop' moderno.

Não era, de facto, apenas a 'curiosidade' de ser caucasiano, ou a quantidade de 'asneiras' e piadas 'porcas' que dizia, que tornava Eminem interessante para os jovens daquele final dos anos 90; o próprio estilo vocal e musical do 'rapper' era único e inconfundível. Numa era em que todos tentavam ser mais 'graves' do que o 'vizinho' – com alguns artistas a beirarem o 'grunhido' ininteligível – Mathers apresentava uma voz deliberadamente aguda e nasalada, de 'cana rachada', que condizia na perfeição com a letra sardónica e cómica e batidas algo 'estranha', minimalista e até 'cartoonescas«' do 'single' com que se apresentaria ao Mundo, o adequadamente intitulado 'My Name Is...'. Este diferencial distinguia-o, desde logo, da maioria dos outros artistas do género, o que, quando aliado às letras sarcásticas e provocatórias e ao seu tom de pele, colocava sobre ele um holofote muitas vezes 'iluminado' à base de controvérsias, mas que também ajudava a dar luz ao seu talento – talento esse que fica bem espelhado no álbum em análise neste 'post'.

O 'single' 'My Name Is...' assinalaria a primeira vez que grande parte do Mundo ouviria falar de Eminem.

De facto, sem ser um álbum geracional e transcendente como seria o seu sucessor directo – não há nenhuma 'Stan' em 'The Slim Shady LP' – detém ainda assim, merecidamente, o estatuto de clássico moderno do rap e hip-hop, graças a músicas como a referida 'My Name Is...', 'Guilty Conscience', 'Role Model' ou 'Just Don't Give a Fuck', esta com a participação do amigo Kid Rock, também ele, à época, um artista em ascensão.

E apesar de as restantes faixas serem menos memoráveis ou históricas – ao contrário do que aconteceria no álbum seguinte – e de o álbum ter entrado para a História sobretudo por aquilo a que deu azo nas duas décadas e meia seguintes (ao contrário, mais uma vez, do que sucede com o seu sucessor) esta quase exacta hora de música não deixa, ainda assim, de constituir um marco na música moderna, nem de ser de 'audição obrigatória' para qualquer fã do género, e merece bem ser celebrada, poucos dias depois de se ter assinalado um quarto de século sobre o seu lançamento, a 23 de Fevereiro de 1999. Parabéns, e que continue a constituir uma referência do estilo durante ainda muitos mais anos.

12.02.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Já aqui por várias vezes aludimos à fase áurea atravessada pelo 'pop-rock' nacional durante a década de 90. De facto, o referido movimento visivelmente 'transpirava' saúde, representada tanto por lançamentos marcantes por parte de artistas já veteranos, como Rui Veloso, GNR, Delfins, Resistência, Entre Aspas ou Xutos & Pontapés, como de novas e promissoras adições à cena, como Sitiados, Quinta do Bill, Silence 4, Ornatos Violeta, Pedro Abrunhosa, Hands on Approach ou a banda de que falaremos no 'post' de hoje, e que foi uma das muitas revelações apontadas como a 'próxima grande sensação' durante a referida década: os Pólo Norte.

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A formação clássica do grupo.

Formados em Belas, na região de Sintra, em 1992, das cinzas dos Honoris Causae, seria, no entanto, há coisa de trinta anos que a banda em causa verdadeiramente penetraria no imaginário popular, com o lançamento do seu primeiro disco, 'Expedição', e subsequente sucesso da faixa 'Lisboa', uma das músicas-estandarte do colectivo liderado pelo vocalista Miguel Gameiro. Também incluído neste registo de estreia está 'Grito', outro tema emblemático para o grupo e muito querido pelos seus fãs.

O primeiro sucesso do grupo...

Por muito auspiciosa que tivesse sido a estreia dos Pólo Norte, no entanto, nada fazia prever o que se seguiria com o seu segundo disco. 'Aprender a Ser Feliz', de 1996, dava ao mundo da música portuguesa o tema-título – que se tornaria ainda mais sinónimo com a banda do que 'Lisboa' - e ajudava a aumentar a base de fãs dos Pólo Norte de uma ponta à outra do País, muito por conta da grande rotação radiofónica da referida faixa homónima. Antes, a banda havia já conseguido destacar-se dos seus contemporâneos através de 'Amor É', uma versão musicada de um poema de Luís Vaz de Camões incluída na histórica colectânea 'Portugal ao Vivo II', veiculada com o jornal Blitz em 1995.

...e o seu verdadeiro tema-estandarte

Com a frequência e número dos concertos a aumentar, não é de estranhar que o terceiro álbum tenha demorado três anos a ser editado, por oposição aos menos de dois que mediaram entre 'Expedição' e 'Aprender a Ser Feliz'. Ainda assim, e apesar da demora, 'Longe' voltou a gozar de relativo sucesso, servindo mesmo de mote ao primeiro registo ao vivo do grupo, singelamente intitulado 'Pólo Norte ao Vivo' e lançado no dealbar do Novo Milénio. Em 2002, saía um novo registo de originais, 'Jogo da Vida', o quarto de uma carreira cada vez mais consolidada dentro do movimento 'pop-rock' nacional. Tudo parecia indicar a continuação de uma boa fase do grupo...não fora o hiato imposto por Miguel Gameiro, que procurava concentrar-se no projecto paralelo Portugal a Cantar.

Assim, passar-se-iam longos cinco anos até ser editado novo registo sob a denominação Pólo Norte – mas, como diz o ditado, 'mais vale tarde que nunca', já que 'Deixa o Mundo Girar', produzido pelo britânico Steve Lyons e de sonoridade mais 'rock' do que os seus antecessores, devolveu ao grupo o nível de fama e exposição dos tempos de 'Aprender a Ser Feliz', com diversos temas do álbum a figurarem em telenovelas e outras produções nacionais. Apesar deste sucesso, no entanto, o referido lançamento (reeditado dois anos depois com um segundo CD de bónus, composto por músicas ao vivo) saldar-se-ia, mesmo, como o último de originais do grupo, cujos registos subsequentes tomariam a forma de colectâneas, a primeira editada aquando da celebração de quinze anos de carreira do grupo, em 2008, e a segunda – intitulada 'Miguel Gameiro e Pólo Norte', lançada em 2014. De salientar que '15 Anos' trazia dois temas inéditos, até hoje os últimos alguma vez gravados pelos Pólo Norte.

Apesar de se assinalar nesse ponto o fim do grupo, no entanto, não era ainda a despedida de Miguel Gameiro, que lançaria um último CD a solo, 'A Porta Ao Lado' - que chegou a ser Top 10 de vendas em Portugal em 2010 – antes de se dedicar à sua outra paixão, a culinária. A carreira de 'chef' em estabelecimentos como o Casino Estoril e Quinta da Beloura foi, no entanto, mais uma vez posta em hiato em 2021, quando a banda se reuniu para uma celebração dos vinte e cinco anos de carreira, a qual, por sua vez, motivaria planos para uma 'turnê' completa, sob a designação Miguel Gameiro & Pólo Norte, a ter início no ano transacto. E apesar de tal desiderato ainda não se ter materializado, é bem possível que estejamos perante o início de uma 'segunda vida' para mais uma banda emblemática do 'pop-rock' nacional de finais do século XX. Resta aguardar para ver...

29.01.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em tempos o meio de comunicação de massas por excelência, a rádio encontra-se, hoje em dia, desprovida da grande maioria do seu poder e influência na sociedade ocidental, tendo os mesmos passado, em definitivo, para o domínio das plataformas de 'streaming' e de 'download' digital. De facto, sensivelmente a meio da terceira década do século XXI, o 'media' anteriormente capaz de fazer disparar uma música para o topo das tabelas de vendas encontra-se relegada para uma posição de simples 'barulho de fundo' para viagens de carro ou dias de trabalho no escritório – sendo que, mesmo nesses contextos, acaba muitas vezes por ser suplantada por 'playlists' curadas ou por uma qualquer função aleatória do Spotify ou YouTube.

Em finais do século passado, no entanto, o paradigma era diametralmente oposto: com a Internet ainda demasiado incipiente para sequer sonhar com as potencialidades actuais, a rádio afirmava-se, ainda, como grande veiculadora de novos talentos musicais, e moldadora da opinião pública nesse campo. Portugal não era excepção a essa regra, antes pelo contrário - à entrada para o século XXI, continuavam a surgir novas estações para fazer frente às 'perenes' Antenas, TSF, RFM, Rádio Renascença ou Rádio Comercial, além da então todo-poderosa e mega-popular Rádio Cidade, a emissora por excelência para quem queria ouvir música pop ou electrónica, que chegou a ter direito a uma série de colectâneas campeãs de vendas no nosso País. Um desses 'novos talentos' fazia a sua estreia nas ondas FM há pouco mais de vinte e cinco anos, em Setembro de 1998, e viria a marcar a infância e adolescência de toda uma geração.

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O icónico logo oficial da emissora.

Falamos da Mega FM, icónica 'subsidiária' da Rádio Renascença que se destacava das restantes emissoras nacionais por se dirigir aberta e especificamente ao público jovem, De facto, toda a apresentação da estação, do logotipo aos apresentadores capazes de comunicar com a demografia-alvo 'ao seu nível', passando por uma selecção de músicas com grande ênfase no 'rock' alternativo, procurava desmarcar a nova emissora das suas contemporâneas, e posicioná-la como uma alternativa ao estilo mais 'convencional' das mesmas – uma estratégia que viria, mais tarde, a informar o nascimento de outro meio de comunicação icónico entre a juventude 'millennial', a ainda vigente (mas irreconhecível) SIC Radical.

Escusado será dizer que, como naquele caso, a estratégia resultou em cheio, tendo a Mega FM entrado no último ano do século XX como 'companheira' e banda sonora das sessões de estudo da maioria dos jovens portugueses, responsável por dar a conhecer à referida demografia bandas como The Offspring, Green Day, Blink-182, Wheatus, New Radicals, Limp Bizkit ou até Slipknot, que dificilmente teriam 'tempo de antena' nas rádios tradicionais. Até mesmo a metade mais convencionalmente 'radiofónica' da 'playlist' da 'Mega' apresentava nomes ligeiramente 'ao lado' do que se ouvia em outras emissoras da altura, com bandas como The Corrs, Sixpence None The Richer, Eagle-Eye Cherry, Lenny Kravitz, The Cranberries ou The Cardigans a não destoarem tanto quanto se poderia pensar ao lado das suas congéneres mais 'barulhentas'.

Ao longo dos anos, esta tendência manter-se-ia, com artistas como The Hives e Andrew WK a tomarem o lugar das bandas mais 'demissionárias' ou saídas de moda, sem no entanto desvirtuar a abordagem 'alternativa' da emissora, que continuava a conseguir cativar um público, muitas vezes, desprovido de opções às poucas músicas veiculadas pela maioria das estações. Quase a meio da primeira década do Novo Milénio, a 'Mega' era, ainda, uma potência no meio radiofónico português, e uma das grandes responsáveis por informar e moldar o gosto musical dos jovens lusitanos da época.

Como diz o ditado, no entanto, 'tudo o que é bom acaba', e o passar dos anos veria a Mega FM – como a SIC Radical – transformar-se numa emissora cada vez mais próxima das convenções vigentes, e ser suplantada, no campo 'alternativo', pela Best Rock FM, uma rádio de proposta e abordagem muito semelhantes. Assim, e apesar de ainda hoje existir – agora sob o nome Mega Hits FM – a emissora ficará, para grande parte da população nacional – para sempre ligada àqueles anos da viragem do Milénio, em que 'colou' ao rádio ou aparelhagem a última geração a ser verdadeiramente influenciada pelas ondas de FM, e lhes 'ensinou', ao longo de muitas sessões de estudo matinais ou vespertinas, de que bandas gostavam e que discos precisavam de comprar...

15.01.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Uma das grandes tradições da indústria da música durante os últimos anos do século XX e início do seguinte foi a edição de colectâneas anuais que, de uma forma ou de outra, procuravam fazer um 'apanhado' do que se havia passado numa determinada 'cena' ou mercado musical durante os doze meses anteriores. O epítoma deste fenómeno é, claro, a icónica série 'NOW! That´s What I Call Music', mas não faltaram outros exemplos deste tipo de disco entre os anos 80 e 2000, fossem lançamentos internacionais ou 'produtos internos' de cada país. Portugal não fugia a esta regra, sendo que - além das inúmeras colectâneas de música tradicional, popular ou 'pimba' que 'infestavam' as tabacarias, bombas de gasolina e estações de serviço – os jovens melómanos portugueses da época podiam contar com o aparecimento na loja de discos mais próxima, a cada ano, de um novo volume de 'Electricidade', 'Caribe Mix', ou da colecção de que falamos hoje, que marcou os primeiros anos da década de 90 até ser 'substituída' pela todo-poderosa 'NOW!'.

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Falamos de 'Fido Apresenta: Número 1', a série de cinco colectâneas 'apadrinhadas' pela então popular mascote da 7UP que a Sony Music, BMG e Valentim de Carvalho se aliariam para editar entre os Natais de 1991 e 1995, e que seguia o mesmo princípio da 'NOW!' - agregar num só lançamento os maiores êxitos do ano que findava – com a particularidade de não se restringir a músicas estrangeiras, dando também visibilidade ao então efervescente produto nacional. De facto, cada um dos LPs que perfazem a série traz temas de bandas como os Sitiados, Delfins, Ritual Tejo, Ban, Luís Represas ou Entre Aspas em meio aos 'esperados' grandes êxitos internacionais, permitindo aos jovens portugueses ouvir a grande maioria dos temas que lhes captavam a atenção ao passarem na rádio ou em programas como o Top+, e marcando a diferença em relação à maioria das colectâneas editadas na mesma altura. Não foi, pois, de estranhar que 'Fido Apresenta' tenha granjeado considerável sucesso enquanto existiu no mercado, e que seja hoje lembrado pelos ex-jovens da geração 'X' e pelos 'millennials' mais velhos como uma parte saudosa da sua juventude.

Face a este paradigma, não deixa de ser algo estranho que a série tenha desaparecido por completo a partir de meados da década, por razões que permanecem desconhecidas, mas que talvez se prendam com o declínio de popularidade de Fido Dido, e com o aparecimento simultâneo de outras colectâneas ainda mais abrangentes, como a referida 'NOW! That's What I Call Music'. Apesar destes 'reveses' e da sua eventual extinção, no entanto, esta série de LPs não deixou de marcar época entre uma certa faixa da população portuguesa, que talvez tente ainda recriar os alinhamentos nas actuais plataformas de 'streaming', de modo a poder reviver aqueles inocentes e saudosos tempos de juventude em inícios dos anos 90...

11.12.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de fazer parte integrante da cultura e costumes da ideologia católica e cristã portuguesa, o Natal não tem tradicionalmente, em termos musicais, a mesma expressão no nosso País de que goza, por exemplo, nos Estados Unidos ou Reino Unido. De facto, antes de David Fonseca se dedicar a criar 'hinos' nacionais para a quadra, eram poucos os artistas portugueses que se aventuravam na gravação de uma música de Natal, sendo a maioria dos álbuns e lançamentos do género em solo nacional constituídos por aquelas velhas músicas do domínio público que todos nos habituámos a ter como 'banda sonora' das compras de última hora. Com isto em mente, não deixa de ser surpreendente – e admirável – a tentativa da Vidisco de lançar um verdadeiro disco de Natal 'made in Portugal', com a edição de 'Natal – Música e Canções', logo na primeira quadra festiva da década de 90.

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De facto, das dezasseis músicas que compõem o álbum, nem uma se insere em qualquer das categorias supramencionadas: não há aqui 'standards' dos anos 40 a 60, canções cantadas porta-a-porta por crianças norte-americanas, e nem mesmo 'A Todos Um Bom Natal' – 'A' cantiga de Natal portuguesa – aqui marca presença. O alinhamento do disco é, assim, composto por uma mistura de canções tradicionais, como 'Noite Feliz', uma ou outra peça clássica ('Avé Maria', interpretado aqui por C. Morgan) e muitos temas menos conhecidos e mais obscuros, metade dos quais a cargo do misterioso conjunto Bola de Neve, e a outra da responsabilidade dos não menos anónimos Linucha, Ana Maria, Rui Pilar e Arlindo de Carvalho, além do referido C. Morgan. Uma equipa de perfeitos desconhecidos (quase todos especializados na produção de música 'por encomenda', embora Ana Maria tenha tido uma série de 'singles' na década de 60) que 'casa' bem com o título e capa perfeitamente genéricos do álbum.

De facto, reside aí a maior pecha de 'Natal – Música e Canções': apesar do conceito e temática interessantes e até algo inovadores, toda a execução do álbum tem aquela aura 'às três pancadas' típica de muitos lançamentos do género, e que, inevitavelmente, os relega para aqueles clássicos expositores de cassettes e CDs das tabacarias e bombas de gasolina, ou para a secção de 'super-desconto' do supermercado – e, a julgar pela ínfima expressão deste lançamento, tanto à época como três décadas e meia depois, é mesmo de crer que terá sido também esse o destino de 'Natal – Músicas e Canções'. Uma pena, pois conceptualmente, este disco poderia ter-se afirmado como alternativa às mesmas colectâneas importadas com a mesma dúzia de músicas de que, mesmo na altura, já todos estávamos cansados, bastando para isso ter tido uma execução um pouco mais cuidada...

20.11.23

NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Segunda será novamente de Sucessos. Voltamos às Séries na próxima semana.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de ser, hoje em dia, um dos conceitos mais 'batidos' e reutilizados do panorama televisivo mundial – a ponto de muita gente o considerar já cansado e com pouco interesse – o concurso de talentos musicais era, ainda, um género totalmente novo e 'fresco' na televisão portuguesa em meados dos anos 90. Sim, havia o Sequim D'Ouro e o inevitável Festival da Canção, mas ambos eram espectáculos de índole mais tradicional, (ainda) sem o 'glamour' e entusiasmo que mais tarde marcaria o formato.

Assim, não é de admirar que o 'Chuva de Estrelas', um dos programas-âncora da nova, independente e 'rebelde' SIC, tivesse almejado o mega-sucesso de audiências aquando da sua estreia, há cerca de trinta anos. O conceito de jovens cantores em competição directa uns com os outros, e a fazer as suas próprias rendições de temas mundialmente famosos, não tardou a atrair a atenção de grande parte da audiência, que passou a seguir com atenção as eliminatórias e, por consequência, assistiu em primeira mão ao dealbar e ascensão de uma talentosa adolescente, que em 1994, com dezasseis anos recém-completos, se sagraria vencedora da primeira temporada do concurso, com a sua versão de “One Moment In Time” e, meses depois, repetiria o feito em pleno Festival da Canção, terminando por levar o tema “Chamar a Música” a uma das melhores classificações de sempre para Portugal no Festival da Eurovisão, ao atingir o oitavo lugar. Chamava-se Sara Alexandra Lima Tavares, e acaba de falecer, com apenas quarenta e cinco anos, deixando um considerável vazio no panorama da música 'étnica' e 'world music' portuguesas.

Sara interpretaria o mesmo tema, que a tornou famosa nos dois Festivais da Canção em que participou, ambos em 1994, quando a cantora tinha apenas dezasseis anos.

De ascendência cabo-verdiana, Sara não teve um início de vida propriamente fácil, tendo sido deixada a cargo de uma pessoa de confiança quando a mãe, recém-divorciada, se mudava com os restantes filhos para o Sul de Portugal. As dificuldades não impediram, no entanto, que Sara demonstrasse desde cedo talento para a música, o qual cultivaria desde essa tenra idade, permitindo-lhe estar em posição para concretizar o seu triplo feito enquanto ainda aluna do ensino secundário. No entanto, apesar do sucesso que tal façanha lhe rendeu, e de a mesma a ter posto nas 'bocas do Mundo' naquele ano de 1994, passariam ainda dois anos até que Sara editasse o seu primeiro registo oficial, um EP gravado em colaboração com o grupo Shout. No mesmo ano, daria voz à música cantada pela cigana Esmeralda em 'O Corcunda de Notre Dame', o então mais recente êxito da Walt Disney, numa versão que seria considerada pela própria 'casa do Rato Mickey' como a melhor adaptação internacional da música em causa.

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O registo de estreia da cantora, gravado com o grupo vocal Shout.

Os anos seguintes veriam Sara Tavares continuar a 'somar e seguir' na carreira, com participações no espectáculo musical de tributo a George Gershwin na Expo '98, colaborações com o popular grupo pop-rock Ala dos Namorados e, finalmente, a edição do seu primeiro álbum de longa-duração, 'Mi Ma Bô', editado no último ano do século XX e cujo título, em crioulo cabo-verdiano, remetia às suas raízes. Apesar do sucesso do mesmo, no entanto, o nome da cantora continuaria, em inícios do Terceiro Milénio, a surgir sobretudo ligado à gravação de músicas individuais para discos de tributo ou colaborações com outros músicos, vindo o segundo registo, 'Balancé', a sair apenas em 2005, mais de uma década após o 'momento' mediático da cantora. Mesmo assim, o interesse pela música de Sara continuava a existir, como o provam as vendas de Ouro do disco, e a selecção de uma das suas músicas para uma campanha do Millennium BCP.

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Os dois primeiros álbuns da cantora, de 1999 e 2005, respectivamente...

Mais quatro anos se passariam, no entanto, até Sara voltar a editar um disco. 'Xinti', lançado dez anos depois da estreia com 'Mi Ma Bô', surgia já depois de a cantora ter lançado o primeiro DVD, 'Alive in Lisboa' e viria a suscitar mais um sem-número de colaborações, com artistas tão díspares como Nelly Furtado e Buraka Som Sistema. Assim, até ao advento do disco seguinte, 'Fitxadu', passar-se-iam nada menos do que oito anos, em que o nome Sara Tavares se manteria relevante sobretudo no contexto da participação em faixas de outros artistas.

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...e os dois últimos, lançados em 2009 e 2013.

Sem que ninguém soubesse, no entanto, esse viria mesmo a ficar para a História como o último registo da cantora, que viria a falecer seis anos depois (a 19 de Novembro último, um dia depois da publicação original deste post e poucos meses depois da morte da 'musa' Tina Turner, cuja música a lançara) em consequência de um tumor cerebral diagnosticado uma década antes, em 2013. Uma perda trágica, não só por Sara fazer parte da geração que marcou, e que frequenta este nosso blog, mas também pelo talento que a cantora demonstrou ao longo de uma carreira que, apesar de apenas fugazmente mediática, ficou pautada pelas inúmeras e sonantes colaborações, e por vários registos de qualidade uniformemente alta, que marcaram a 'world music' em Portugal. Que descanse em paz.

13.11.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O fim de uma banda icónica nem sempre garante o sucesso de seja qual for o projecto a que os músicos se dediquem em seguida; antes pelo contrário, esse tipo de 'sequela' musical tende, na maioria dos casos, a ser algo ignorada pelos fãs do grupo original, que desejam apenas mais um álbum da sua banda favorita. Assim, qualquer músico que embarque neste tipo de 'aventura' tem pela frente uma série de obstáculos, a começar por essa mesma aceitação dos fãs, e que passa também pela vontade, bastante frequente, de se demarcar do som do seu grupo de origem, o que ainda ajuda a reduzir mais o interesse da 'massa adepta' pelo novo projecto.

Foi, precisamente, esse o paradigma com que se depararam Rui Pragal da Cunha e Paulo Gonçalves, dos efémeros mas icónicos Heróis do Mar, banda que marcou a cena pop-rock nacional durante os anos 80, mas que não sobreviveu ao dealbar da nova década, encerrando actividades logo nos primeiros meses da mesma. Não demorou, no entanto, até que os dois músicos demarcassem novo objectivo musical, e, menos de um ano após a dissolução dos Heróis, via a luz o primeiro (e único) registo do projecto LX-90.

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As capas das duas versões (nacional e internacional) do único álbum do projecto.

Com um nome que consiste, simplesmente, das formas abreviadas do ano e localidade de formação da banda (mas que consegue, mesmo assim, soar 'cool' e misterioso q.b.), este projecto vê Rui e Paulo juntar-se a DJ Vibe e aos desconhecidos Nuno Miguel e Nini Garcia para desenvolver um som dançante e psicadélico, alicerçado em estilos como o 'trip-hop', e pautado pelas vocalizações dramáticas e por vezes quase declamadas de Rui Pragal da Cunha; no fundo, uma espécie de versão mais 'pesada' e alternativa do 'synth-pop' dos Heróis, que não tentava sequer agradar aos fãs dos mesmos, e apontava, em vez disso, a uma demografia totalmente nova que começava a dealbar entre as gerações mais novas.

Talvez tenha estado aí a razão do insucesso do projecto: sem a ligação sonora aos Heróis do Mar, Rui e Paulo alienaram uma base de fãs antes de terem conseguido conquistar outra, e acabaram por se perder nas 'malhas' das cenas pop-rock e alternativa nacionais. O grupo ainda tentou um 'ataque' internacional, através de uma versão do álbum com músicas em Inglês, mas ficou mesmo por aí a sua discografia, tendo os músicos encerrado actividades pouco tempo depois.

Em anos subsequentes, no entanto, o projecto LX-90 atingiu um certo estatuto de culto, que motivou mesmo, já neste ano de 2023 (concretamente a 13 de Julho) uma reunião, para participar no festival Super Bock Super Rock. Desta nova formação fazem parte, além dos dois ex-Heróis do Mar e de DJ Vibe, Nuno Roque, João Gomes e Samuel Palitos, este último um ex-membro dos ícones do punk nacional Censurados. Resta saber se este foi um reencontro esporádico ou se haverá planos para prosseguir com a carreira de um nome que merecia mais do que a carreira breve e discreta de que gozou, e a audiência de culto que logrou angariar durante a mesma.

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