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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O povo português vem tendo, ao longo dos tempos, uma relação estreita com a música brasileira, talvez pelo idioma partilhado entre os dois países, e que transforma Portugal num dos principais mercados para os diversos géneros e estilos saídos do país-irmão. Não só os discos e músicas de artistas brasileiros vendem bem no nosso país, como a própria música popular portuguesa (vulgo 'música pimba') se apropria livremente de estruturas, letras e até melodias de estilos como o forró e o sertanejo, demonstrando assim cabalmente a influência que o produto musical de terras de Vera Cruz tem no lusitano.

Nos anos 90 e 2000 não era, no entanto, preciso ir tão longe para demonstrar este argumento – bastava olhar para as tabelas de vendas e 'playlists' radiofónicas para perceber o impacto que os artistas populares brasileiros tinham entre o público consumidor português. De Roberto Leal aos Mamonas Assassinas, e de Iran Costa a (mais tarde) Ivete Sangalo, passando por Salsicha e Mário Jorge, eram inúmeros os nomes que conseguiam atravessar o oceano e fazer tanto (ou mais!) sucesso do lado 'de cá' do que no seu próprio país de origem. 

A esta lista há que acrescentar, ainda, um cantor que tomou de assalto as tabelas de 'hits' nacionais nos anos finais da década, com uma música gravada ao vivo, e pôs toda a gente – e particularmente as crianças e jovens – a exortar os amigos para 'tirar o pé do chão'.

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O cantor, já numa fase posterior da carreira

Falamos de Ernesto de Souza Andrade Júnior, habitualmente conhecido como Netinho, cantor popular de longa e respeitada carreira no seu país-natal – as suas músicas são presença habitual em bandas-sonoras de novelas, e chegou a participar num tributo a Caetano Veloso – mas que em Portugal é conhecido, sobretudo por duas coisas: ser o autor de 'Milla', um dos maiores 'hits' pop-brega dos anos 90, e ter posto oitenta mil pessoas (!) a saltar em pleno Parque das Nações, aquando do seu concerto durante as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, já após o virar do milénio, vários anos depois de o momento de 'Milla' ter passado. Prova cabal de que o seu maior sucesso tinha 'pernas', embora também indicativa de que, pelo menos em Portugal, essa obra de Netinho ofusca totalmente o próprio autor.

As razões para o estrondoso sucesso de 'Milla' não são difíceis de explicar. Não só Netinho era presença assídua nos famosos expositores de CD's e cassettes tipicamente encontrados em tabacarias e estações de serviço, como a própria música em si é irresistivelmente viciante, com um daqueles refrões (aliás, uma daquelas LETRAS) que se alojam na memória para toda a eternidade, e tornada ainda mais eficaz pela energia electrizante da 'performance' e do público, que extravasa as colunas e convida, inapelavelmente, a dar um 'passinho de dança', onde quer que se esteja. É 'foleira'? Claro que sim. Mas é também divertida, enérgica, e de uma sinceridade desarmante, que impede a existência de má-vontade e a ajudour a tornar um dos principais hinos 'pop-pimba' da década de 90.

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O CD de onde a música é tirada marcava presença assidua nos expositores de 'cassettes' e CD's daquele tempo

Quanto ao seu autor, merecia mais? Claro. Ao contrário de muitos dos seus colegas de movimento, Netinho era um músico 'à séria', com raízes na MPB e bossa nova; e a verdade é que, no seu país natal, o cantor conseguiu fazer valer essas credenciais. Em Portugal, no entanto. Ernesto de Souza Andrade Júnior terá, para sempre, de se contentar com o estatuto de 'one-hit wonder' – que, convenhamos, também não é a pior coisa do Mundo para se ser, especialmente se o nosso 'one hit' for uma 'malha' tão enérgica e irresistível como 'Milla'.

25.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nasúltimas semanas, temos falado nesta rubrica de bandas com atitudes e posturas intencionalmente cómicas ou humorísticas, seja nas letras, seja na parte musical, presença em palco, ou até simplesmente no grafismo do disco. Para estes grupos, a música e a comédia são formas de arte complementares, e usadas em conjunto, de forma consciente, para criar uma amálgama bem balanceada de ambas as vertentes.

O que aconteceria, no entanto, se um artista criasse algo que se pudesse classificar como comédia, mas o fizesse de forma involuntária? Se, durante todo o processo de criação, o mesmo estivesse seguro de estar a criar uma obra capaz de ser levada a sério, mas que de facto apenas viria a despertar a chacota tanto dos seus pares, como do público em geral?

Quem se interessa por cinema de culto já sabe a resposta a esta pergunta, bastando para tal olhar para as obras de cineastas como Tommy Wiseau e Neil Breen; no entanto, quem cresceu em Portugal durante os anos 90 já conhecia o conceito de 'so bad it's good' muito antes de 'The Room' ser sequer um projecto na mente do seu criador.

Isto porque, em finais da década a que este blog diz respeito, surgiu na cena musical popular portuguesa (a chamada música 'pimba') um sujeito de risco ao lado com brilhantina e 'ondinha' à Super-Homem, casaco 'blazer' de lantejoulas, lacinho a preceito, e falha nos dentes da frente; um sujeito cuja habilidade vocal rivalizava com a de um qualquer universitário bêbedo num karaoke do Bairro Alto às três da manhã, com a diferença de que o referido universitário não chegará, com sorte, a ver a sua 'performance' gravada e lançada em disco para o grande público.

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Falamos, claro, de Zé Cabra, o lendário intérprete de hinos como 'Deixei Tudo Por Ela' e 'São Lágrimas', cujo conceito de afinação e tom tinha mais em comum com os de Natália Andrade do que de qualquer dos artistas até excessivamente artificiais da cena em que se inseria. Só quem lá esteve poderá descrever o que era ouvir Zé Cabra cantar, mas se imaginarem um cruzamento entre a referida Natália Andrade e Florence Foster Jenkins, mas no masculino e com composições ao estilo 'festa da aldeia', estarão muito próximos de perceber tal experiência (e se for esse o caso, as nossas condolências.)

Cliquem por vossa conta e risco; ficam avisados...

O desastre era tal que havia quem postulasse que Zé Cabra fazia de propósito, utilizando uma espécie de manobra 'troll' – muito antes desse conceito ter sido popularizado – para ganhar notoriedade e fama, e se destacar dos artistas em molde 'linha de montagem' que compunham a cena 'pimba' portuguesa da altura; no fundo, uma manobra semelhante à que, anos antes, tornara Saul Ricardo parte da consciência popular do país. Se esta teoria for verdade, então, tiramos-lhe o chapéu, Sr. Casimiro António Serra Afonso; o mais provável, no entanto, é que o referido senhor tenha sido explorado pela indústria, sem nunca lhe ter sido revelado o grande segredo da sua carreira – nomeadamente, o facto de que o seu público não se estava a rir COM ele, mas sim DELE. No entanto, se tiver verdadeiramente sido este o caso, parece que o próprio acabou mesmo por perceber o que se passava, dado ter admitido abertamente, em entrevista, que não sabia cantar...

Com ou sem talento, no entanto, a verdade é que Zé Cabra fez o suficiente para ganhar os seus cinco minutos na ribalta – e parece não ter querido mais do que isso. Prova desse mesmo facto é que, enquanto muitos dos seus pares continuam a percorrer activamente o circuito das feiras e romarias, Zé Cabra mudou-se, sem grande alarde, para França, onde se dedica ao seu outro 'hobby', a pintura (!) Como seu legado na consciência popular, o artista deixa dois 'singles' inenarravelmente maus, mas que fizeram dessa falta de qualidade o principal argumento para – à sua maneira – se tornarem parte da História da música popular portuguesa...

11.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música bem-humorada e de índole cómica teve no Portugal das décadas entre 80 e 2000 um mercado que, embora talvez não particularmente significativo em termos numéricos, se apresentava ainda assim receptivo, sobretudo no que toca ao produto local. O caminho desbravado pelos pioneiros Ena Pá 2000 e Mata-Ratos, ainda nos 80s, viria a ser repetidamente trilhado ao longo das duas décadas seguintes, por nomes como Mercurioucromos, Fúria do Açúcar, Irmãos Catita (do mesmo mentor dos Ena Pá 2000) ou Adiafa, entre outros.

Em meio a toda esta produção ‘Made in Portugal’, cinco jovens brasileiros tentaram – e conseguiram – ter uma palavra a dizer, procurando replicar em Portugal o sucesso astronómico e meteórico que haviam conseguido entre o público jovem do seu país natal. E a verdade é que, não fora a intervenção completamente inesperada do destino, Dinho, Júlio Rasec, Bento Hiroshi e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli teriam muito provavelmente conseguido mesmo cumprir esse objectivo.

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Colectivamente conhecidos como Mamonas Assassinas, os cinco músicos conseguiram, entre o Verão de 1995 e o abrupto desfecho da sua história, pouco mais de um ano depois, pôr a juventude portuguesa a cantar com deleite e a plenos pulmões letras que mal compreendiam, com temas tão edificantes como as orgias sexuais frustradas (no ‘single’ e sucesso máximo ‘Vira-Vira’, uma sátira à música ‘pimba’ e de baile apreciada pelos emigrantes portugueses no Brasil) e o bom tratamento dos pelos genitais (na genial ‘Sabão Crá-Crá’, trinta segundos de canto ‘a capella’ com esquema rimático infantil, que talvez tivesse mesmo como intuito cativar e confundir, em partes iguais, a criançada.) Pelo meio, o quinteto ainda arranjava tempo para roubar instrumentais inteiros aos Clash (‘Chópis Centis’ mais não é do que o hino ‘Should I Stay Or Should I Go’, do grupo britânico, com letra diferente) e mostrar o seu lado mais sentimental, na balada ‘Pelados em Santos’. Em suma, um conjunto de músicas que mais se assemelhava a uma lista de sucessos, e que – para desprazer da maioria dos pais - não deixou de cativar o público infanto-juvenil português, como aliás já acontecera com o brasileiro.

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Uma das capas de álbum mais famosas e icónicas da década de 90 em Portugal

As razões para este sucesso são evidentes: do visual multi-colorido e extravagante à voz anasalada e caricatural de Dinho, passando pelas letras que vagamente se compreendiam ser ‘marotas’, os Mamonas pareciam feitos à medida para agradar a uma certa demografia. Não é, pois, de surpreender que tenha sido precisamente esse o caso, com o disco homónimo de estreia a ‘explodir’ no nosso país como já acontecera no Brasil, e os vários ‘singles’ do quinteto a dominarem as ondas de rádio durante todo um Verão. E, dado todo este sucesso, também não foi nenhum choque – antes pelo contrário – ver o grupo anunciar que a sua próxima digressão de promoção ao álbum os traria ao nosso país, em Março de 1996. O destino, no entanto, tinha outros planos…

A história é, já, por demais conhecida – os Mamonas viajavam para Portugal, a 2 de Março (precisamente para cumprir as datas acima mencionadas) quando problemas com o avião em que se encontravam o fizeram despenhar-se contra uma cordilheira de montanhas, matando instantaneamente todos quantos se encontravam a bordo da aeronave. Uma tragédia que abalou os dois países em que o grupo se havia estabelecido, resultando na perda de vidas jovens, talentosas, e ainda com muito para dar ao mundo da música, por muito (intencionalmente) parvas que essas contribuições pudessem ser…

A realidade dos factos, no entanto, faz com que o legado dos Mamonas (tanto em Portugal como no Brasil) se traduza tão-sómente num punhado de canções ainda hoje lembradas com carinho por quem as ouviu na idade certa, e na lembrança viva de um pico de sucesso tão intenso como curto. Mais uma prova (como se ainda fossem precisas mais) de que muitas vezes, o estilo de vida ‘rock’n’roll’ pode ser muito, mas mesmo muito ingrato…

 

27.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E se na última edição desta rubrica falámos de um ‘one-hit wonder’ português de meados dos anos 90, com músicas voltadas ao humor e cantadas na nossa própria língua, hoje, falaremos de outro, substancialmente mais conhecido e menos ‘esquecido’, e cujo único sucesso continua, ainda hoje, a marcar presença em certos contextos, seja dentro do espectro das artes criativas, seja como banda sonora de um qualquer evento de ar livre; e porque se vivem precisamente, neste altura, os últimos resquícios da maravilhosa estação estival portuguesa, nada melhor do que deixarmos que essa mesma banda nos recorde das muitas razões para apreciar essa época do ano.

Como já devem ter percebido, estamos a falar d’A Fúria do Açúcar, grupo musical e humorístico imortalizado na consciência colectiva portuguesa pelo hino estival ‘Eu Gosto É do Verão’, mas que pouco mais sucesso conseguiu atingir, apesar de celebrar este ano as suas três décadas (!) de carreira.

Formada em 1991 por três personalidades do circuito humorístico – entre elas o líder João Melo, mais tarde apresentador de um programa televisivo também voltado a este espectro – A Fúria do Açúcar começou por ser um projecto de estética café-concerto, intercalando números musicais com ‘sketches’ humorísticos. Não demorou muito, no entanto, para que este paradigma se alterasse, com o grupo a decidir enveredar por um caminho estritamente musical, cujo primeiro fruto foi o álbum homónimo de estreia, lançado em 1996.

No entanto, seria apenas com o seu segundo registo, ‘O Maravilhoso Mundo do Acrílico, lançado no ano seguinte, que o grupo de João Melo verdadeiramente penetraria na consciência popular – especificamente, através do segundo single retirado do álbum, uma faixa de índole sardónica cuja letra focava a comercialização em torno da época de Verão, e da idealização de que a mesma é alvo por parte da maioria dos seres humanos. No fundo, uma daquelas faixas que apenas aparenta ser ‘parva’, tendo na verdade um significado escondido, à espera de quem o queira encontrar; o problema foi que, em 1997, quase ninguém quis.

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A capa do álbum de consagração do grupo

De facto, a maioria daqueles que cantarolavam alegremente esta música no carro, na escola ou até em casa certamente não terá dedicado muito tempo a esmiuçar o significado da letra, prestando mais atenção à voz pateta-de-propósito de Melo ou à instrumentação bem ao estilo surf-rock, que tornava a música numa ‘malha’ bem pegajosa. O resultado inevitável desta tendência foi a percepção daquilo que se pretendia que fosse uma denúncia social como precisamente aquilo que aparentava (ou fingia) ser – uma música tola e descartável para consumo imediato. Pior, essa é ainda hoje a principal forma como a canção é abordada, tendo a vertente de crítica social vindo a ser cada vez mais ignorada – algo que, certamente, não deixará de frustrar os músicos da banda.

Também certamente frustrante será o facto de – apesar de, como resultado do seu sucesso. se ter tornado banda residente do programa apresentado pelo vocalista – o projecto Fúria do Açúcar nunca ter conseguido replicar o sucesso daquele ‘single’ de 1997. Apesar de contar já com seis discos (um dos quais lançado após um hiato de quase exactamente dez anos), a banda de João Melo continua a ser conhecida e recordada por uma, e apenas uma, música. Música essa que – diga-se em abono da verdade – continua a ser tocada nos mais diversos e variados contextos, o que não deixa de ser um feito para uma faixa cómica lançada há quase um quarto de século; ainda assim, não será descabido pensar que Melo e Cª teriam certamente preferido que essa mesma faixa tivesse feito menos sucesso, se tal significasse que o resto do seu repertório se tornaria mais conhecido…

Seja como for, a verdade é que o ‘one hit’ destes ‘one-hit wonders’ se tornou bem mais icónico e duradouro do que a maioria das músicas deste tipo, sendo ainda hoje um hino nostálgico para toda uma faixa demográfica que viveu os seus melhores anos nas décadas entre 1980 e 2000; candidato ideal, portanto, para inclusão nesta secção do nosso blog…

13.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

‘Sou camionista, sou o maioooor…’ Se esta linha, retirada de uma das músicas mais populares de 1996, vos fez avivar a memória, vão com certeza gostar do post de hoje, em que abordamos a banda responsável pela sua criação e gravação – os Mercurioucromos.

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Formados em 1995 a partir da junção de duas outras bandas, o quinteto assumiu, desde logo, a sua vontade de fazer pop-rock com fortes laivos de comédia – não terá, decerto, sido à toa que o líder desta ‘pandilha’ musical, Carlos Carneiro, se viria mais tarde a afirmar como actor; os seus maneirismos, tanto vocais como de palco, faziam, aliás, lembrar um outro nome de referência do rock-comédia em Portugal: Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000.

A música dos ‘Cromos era, no entanto, algo mais voltada ao pop do que o rock ‘apunkalhado’ dos EP2000, como bem demonstra o seu grande hit, acima citado. No entanto, faixas como ‘Lobo Mau’ mostram que a banda também sabe ser mais agressiva e atmosférica quando necessário, demonstrando que os Mercurioucromos talvez fossem mais do que aparentavam. Fosse ou não esse o caso, a verdade é que a banda conseguiu mesmo ‘explodir’ logo com o primeiro álbum e respectivo ‘single’, que o ajudou a catapultar para vendas de 60 mil unidades, muito graças à rotação constante de que gozava nas rádios nacionais.

Infelizmente, tal como acontece com tantas outras bandas, tanto em Portugal como no estrangeiro, também o quinteto saído de ‘uma garagem lá para os lados de Benfica’ nunca conseguiu replicar o sucesso meteórico dessa estreia, figurando hoje como um dos grandes ‘one hit wonders’ da história da música moderna portuguesa. Chegaria ainda a haver um segundo álbum, lançado apenas um ano depois do ‘pico’ do sucesso, mas já demasiado tarde para evitar cair em ‘orelhas moucas’; sem nada tão forte como ‘Camionista Cantor’ para manter os ‘Cromos relevantes entre o seu público-alvo, o álbum teve vendas modestas, deixando para o CD-single exclusivo produzido para a revista Super Jovem a honra de ser o segundo lançamento mais conhecido da banda.

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A segunda coisa mais famosa que os Mercurioucromos lançaram...

Ainda assim, os Mercurioucromos tiveram o seu momento na História do pop-rock português, por muito fugaz que o mesmo tenha sido, e conquistaram o seu lugar na lista de bandas nostálgicas para uma determinada geração, que acompanhou e viveu o mesmo. Por isso, e por terem tido uma música que qualquer jovem em idade escolar sabia cantarolar naquele ano de 1996, o quinteto de Lisboa merece bem esta referência aqui nas páginas do Anos 90…

30.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos últimos posts desta mesma rubrica, temos vindo a falar de bandas que partem da tradição musical tanto portuguesa como internacional e a misturam com sons mais contemporâneos, como o rock. Hoje, damos uma espécie de ‘passo atrás’ nessa temática para falar de um grupo – ou melhor, um colectivo – de música popular portuguesa, no sentido mais estrito da palavra. Um grupo que, apesar de contar com nomes sonantes da área do pop rock feito em português, escolheu enveredar por um tipo de som bem mais tradicional, e conseguiu, ainda assim, obter considerável sucesso ‘mainstream’.

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Tratava-se do colectivo Rio Grande, um super-grupo ‘à portuguesa’ que juntava num mesmo espaço músicos do calibre de Jorge Palma, Vitorino, João Gil, Rui Veloso e Tim, este último o elo de ligação ao mundo do rock, e que decerto terá servido como ‘chamariz’ para muitos jovens em relação ao projecto.

O resto ficava por conta do grande ‘single’ de avanço ao único álbum do colectivo, e uma das músicas mais ‘cantaroladas’ nos pátios de recreio em 1996 – a mítica ‘Postal dos Correios’. (Se não estão a situar o título, é aquela que começa com ‘Querida Mãe, querido Pai, então que tal…’ )

...esta.

E o mínimo que se pode dizer é que os Rio Grande merecem todo o crédito por porem uma geração inteira a ouvir e cantar uma música que aborda temas com os quais eles próprios nunca tiveram contacto, pelo menos directo (no caso, a emigração, sobretudo dos meios rurais.)

Mas apesar de ter sido o grande sucesso do álbum – e, sejamos sinceros, também do colectivo – ‘Postal dos Correios’ não era a única música boa que os Rio Grande tinham para oferecer; pelo contrário, era mesmo das mais ‘fraquinhas’ de um disco que merece bem a escuta atenta a todos os seus temas, a começar por ‘A Fisga’ e ‘O Caçador da Adiça’ (o duo de abertura), e continuando com ‘Fui Às Sortes e Safei-Me’, ‘O Dia do Nó’, ‘O Sobescrito’, ‘Dia de Passeio’, entre outras, sempre com o elo em comum da temática popular e rural e do som baseado em guitarras acústicas, instrumentos tradicionais e harmonias vocais. Com uma personalidade bem vincada e temas, como já se referiu, de enorme qualidade e apuro musical e poético, não é, pois, de admirar que o disco tenha atingido quádrupla platina no seu ano de lançamento – uma marca invulgar a nível global, quanto mais em Portugal!

Infelizmente, o único outro sinal de vida dos Rio Grande viria na forma de um disco ao vivo, explicitamente intitulado ‘Dia de Concerto’ e lançado dois anos depois da estreia, e sem chegar sequer perto do mesmo nível de sucesso. Alguns anos depois, já no novo milénio, o grupo deixaria de contar com os préstimos de Vitorino, mudaria de nome para Cabeças no Ar, e lançaria outro excelente CD, repleto de ‘malhas’ algures entre o folclore dos Rio Grande e uma maior costela pop-rock.

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A capa do único CD dos Cabeças no Ar, grupo sucessor dos Rio Grande

Do grupo original, no entanto, restaria na memória colectiva da época (e das décadas seguintes) a imagem de Tim e companhia a tocar guitarra num autocarro em movimento, enquanto perguntavam pela saúde de diversos membros da família – o que, convenhamos, não é nem de longe a pior ‘herança’ deixada por um grupo musical português, especialmente durante os anos 90…

16.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Sim, depois de um fim-de-semana de férias, estamos de volta – e logo para falar de um dos temas favoritos aqui no blog: música.

E se na última edição desta rubrica, dedicámos algumas linhas a falar dos Sitiados, um dos dois grandes responsáveis pela existência de um movimento folk-rock português nos anos 90, hoje, falaremos aqui do outro, nascido quase ao mesmo tempo que o grupo de Cascais, mas um pouco mais para o interior, nomeadamente no distrito de Tomar.

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Falamos dos Quinta do Bill, grupo que derivou o seu nome do espaço onde deu os primeiros passos, cujo proprietário se chamava, precisamente, Guilherme (que em inglês fica William, cujo diminutivo é Bill.) Foi aí que, em 1987, o líder incontestado Carlos Moisés se juntou pela primeira vez a Paulo Bizarro e Rui Dias para criar um som enraizado na tradição popular portuguesa, mas que, até então, quase não havia sido explorado na cena nacional. Misturando instrumentos como a flauta, o acordeão, a rabeca ou o banjo com as tradicionais guitarras e bateria e uma atitude ‘tudo a saltar’, o grupo perfilava-se como a resposta ‘tuga’ ao que grupos como Flogging Molly, Dropkick Murphys ou The Pogues vinham apresentando do outro lado do oceano.

A originalidade do som da banda (pelo menos por terras lusas) não tardou a granjear-lhes destaque, rendendo-lhes participações nos maiores concursos e ‘expositores musicais’ nacionais da época, como a edição de 1988 do histórico Rock Rendez-Vous, ou o Aqui D’El-Rock da RTP, já no virar da década – concurso este que o grupo viria, aliás, a vencer, obtendo assim a verba necessária para a gravação do álbum de estreia.

Editado em 1992, ‘Sem Rumo’ passou ainda, no entanto, relativamente despercebido na cena musical portuguesa, tendo o grupo de esperar ainda mais um ano (e um album) para viver na pele a sensação de ser uma estrela pop ‘mainstream’; quando tal ocorreu, no entanto, ocorreu em grande, tendo a música em causa sido um dos maiores ‘hits’ daquele ano de 1993, e conseguido manter a sua relevância cultural no nosso país até aos dias de hoje.

Falamos, claro, de ‘Os Filhos da Nação’, mais conhecida hoje em dia como ‘meme’ de claque futebolística (sob a forma de ‘Os Filhos do Dragão’, hino quase-oficial dos Super Dragões, grupo de apoio do FC Porto) mas que, na sua forma original, era uma ‘malha’ de puro folk-punk-rock, com direito a letra de intervenção – a qual era, no entanto, ofuscada por aquele monstruoso refrão, que decerto alguém desse lado estará já a cantarolar.

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Os atractivos de ‘Os Filhos da Nação’, o disco, não se ficavam, no entanto, por aí; pelo contrário, quase todos os seus doze temas eram ‘malhas’, com destaque para ‘Senhora Maria do Olival’ – o muito aguardado ‘crossover’ entre Sitiados e Quinta do Bill, cantado que é por João Aguardela – e para a versão de ‘Menino’, nos mesmos moldes do que os lendários Xutos & Pontapés haviam feito anos antes com ‘A Minha Casinha’. No cômputo geral, um grande álbum de folk-rock, apadrinhado por nomes tão ilustres como Jorge Palma, que participa com voz e piano em uma faixa.

Infelizmente, tal como aconteceria com os Sitiados, os Quinta do Bill não mais conseguiriam replicar o sucesso daquele segundo álbum, e do seu mega-sucesso radiofónico. O grupo de Carlos Moisés prosseguiria actividades – encontrando-se, inclusivamente, ainda no activo! – mas com muito menos exposição mediática e quase sem ‘airplay’ radiofónico, limitando a sua base de fãs à meia-dúzia de ‘convertidos’ do costume; haverá, decerto, por aí quem saiba os nomes de todas as músicas da banda, e advogue convictamente os méritos do seu quinto álbum, mas para o português comum, os Quinta do Bill são, apenas e só, aquela banda que escreveu a música da claque do FC Porto – o que, convenhamos, não deixa de ser algo triste para uma banda de inegável valor e apostada em criar um som verdadeiramente original no panorama português da época.

Ainda assim, para quem goste de folk-rock com muita energia e uma pitada de atitude ‘punk’, os Quinta do Bill constituem uma proposta tão válida como a sua ‘banda gémea’, os Sitiados, com a ressalva de serem uma proposta de toada muito mais séria do que a (literalmente) folclórica banda de João Aguardela. Para os restantes, sobra ‘aquela’ música, cujo refrão é daqueles que, quando gritado a plenos pulmões em conjunto com uns passinhos de dança, tem o condão de fazer o ouvinte regressar no tempo, aos anos dourados da sua juventude…

Tínhamos que acabar assim, não concordam...?

 

02.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

NOTA: Este post é dedicado à Maria Ana, de quem esta é uma das bandas favoritas.

Num país de enorme tradição folclórica, como é Portugal, só seria surpreendente se NÃO surgissem bandas e artistas apostados em explorar as sonoridades mais tradicionais, e em misturá-las com géneros de música mais internacionais e contemporâneos. Nos anos 90, esta vontade era expressa não por uma, mas por duas bandas, quase exactamente contemporâneas, e com trajectórias muito parecidas. De uma delas, falaremos na próxima Segunda de Sucessos, ficando a de hoje reservada a um breve resumo da carreira da outra.

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Surgidos em 1987 pela mão de três ex-elementos dos Meteoros, os Sitiados teriam, no entanto, de esperar até à década seguinte para disfrutar dos seus quinze minutos de fama; seria apenas em 1992, já depois de várias mudanças de formação e com uma atraente loira no lugar do acordeonista original, que o grupo da Linha de Cascais conseguiria deixar a sua marca no universo pop-rock português. No entanto, quem conhece o grupo, e o seu legado, certamente concordará que a espera valeu a pena; porque a verdade é que, quando os Sitiados ‘explodiram’, o país inteiro abanou com o impacto.

O veículo desse impacto, e talvez a maior canção do Verão de 1992, chamava-se ‘Vida de Marinheiro’, e quem lá esteve em ‘tempo real’ certamente já estará a cantarolar o seu marcante refrão composto por vocalizações ‘nonsense’; mas que ao mesmo tempo fazem todo o sentido. Uma ‘malha’ de folk rock guiada pelo acordeão de Sandra Baptista e, sobretudo, pela inconfundível voz do líder João Aguardela,, que não ficaria mal na discografia de uns Pogues (inspiração declarada do grupo da Grande Lisboa), Dropkick Murphys ou Flogging Molly, e cujo estrondoso sucesso convenceu de uma vez por todas o grupo de que sim, valia a pena investir ‘naquilo’.

Assim, não demorou muito até o grupo entrar novamente em estúdio, com vista a compor o seu segundo registo. Saído pouco mais de um ano após o seu antecessor, ‘E Agora…?!’ cumpriu com louvor a sua missão de manter os Sitiados na ribalta da música popular portuguesa, muito graças a mais um ‘single’ bem ‘catchy’ e de grande exposição nas rádios nacionais, no caso ‘O Circo’ (ou, como é muitas vezes erroneamente chamada, ‘Vamos ao Circo’).

A receita era exactamente a mesma de ‘Vida de Marinheiro’ – folk-rock com mais do primeiro do que do segundo, com atmosfera de festa, e letra baseada no humor acérbico típico de Aguardela – e o furor ficou apenas ligeiramente atrás do causado pelo primeiro ‘single’ do grupo, sendo este tema presença tão constante nos recreios portugueses como havia sido o seu antecessor, embora desta vez não houvesse qualquer cantilena marcante para cantarolar.

Infelizmente, a partir desse momento, a trajectória dos Sitiados iniciaria uma pronunciada curva descendente, da qual não mais se recomporia. Apesar de participações honrosas em tributos a Zeca Afonso e António Variações, e de actuações que continuavam a cativar pela sua energia contagiante, ‘O Triunfo dos Electrodomèsticos’, lançado em 1995 (e segundo algumas opiniões cá de casa, o melhor disco da carreira do grupo) ficou aquém do sucesso estratosférico dos dois primeiros álbuns, e para os dois registos seguintes, a situação ainda se viria a agravar mais – ao ponto de duvidarmos bastante que alguém sequer soubesse que os Sitiados tinham lançado cinco álbuns, ou que tinham perdurado até ao virar do milénio! Nem mesmo a participação no disco de tributo aos Xutos & Pontapés, em 1999 (mesmo ano do último álbum, ‘Mata-me Depois’) ajudou a restituir visibilidade ao grupo, que se retirou discretamente de cena apenas um ano depois, para não mais ressurgir.

Dos membros originais, só Aguardela permaneceria (mais ou menos) na consciência colectiva nacional, graças a projectos como A Naifa e Megafone, embora nenhum deles tenha atingido sequer uma fracção do sucesso vivido pelos Sitiados no seu auge; a morte do líder absoluto em 2009 – vítima de um cancro, e com apenas 39 anos – poria um ponto final no legado daquela que foi uma das bandas mais conhecidas do início dos anos 90, mas que sofreu com o gosto volátil e efémero do público consumidor de música popular. Em suma - a Vida de Marinheiro pode não ter dado cabo deles, mas as modas deram.

Ainda assim, o grupo conseguiu gozar uma fama breve, mas mais merecida que a de muitos, e será para sempre lembrado nos anais da música portuguesa por duas grandes canções de folk-rock, que puseram o país inteiro a cantar nos primeiros anos da década…

19.07.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O conceito de ‘one-hit wonder’ – artistas que conseguem enorme sucesso com um determinado tema, sem nunca o conseguirem replicar durante o resto da sua carreira – é bem conhecido de qualquer fã de música contemporânea, tendo inclusivamente alguns representantes na própria cena musical portuguesa. Menos comum é observar esse fenómeno aplicado a um álbum inteiro, em vez de apenas uma ou duas faixas – e, no entanto, foi precisamente isso que aconteceu com os Silence 4, um quarteto de Leiria que passou de ser a maior banda de pop-rock portuguesa em 1998 a ver o seu segundo álbum ser completamente ignorado apenas dois anos depois, sem que houvesse qualquer explicação para esse fenómeno.

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Esta evolução descendente acentuada da carreira da banda torna-se ainda mais surpreendente quando nos recordamos de quão grandes eram os Silence 4 aquando do lançamento de Silence Becomes It. O álbum de estreia dos leirienses foi um sucesso de vendas quase inaudito em Portugal, especialmente para uma banda nacional, com as ‘músicas conhecidas’ a irem muito além dos singles – fenómeno que também não é habitual fora do contexto dos maiores artistas da História. Sim, havia ‘Borrow’ e ‘My Friends’, mas havia também ‘Dying Young’, ‘Old Letters’ e a ‘cover’ de ‘A Little Respect’,  dos Erasure, entre muitas outras músicas que certamente os leitores deste blog já estarão a trautear só de as relembrarem. Naquele Verão, os Silence 4 foram gigantes, como poucas bandas portuguesas não chamadas GNR ou Xutos & Pontapés conseguiram chegar a ser. O Silêncio virou mesmo 'It' - a nova moda, o novo som 'in'.

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E depois…

…depois, houve o esquecimento. Gravado em Londres, em condições bem mais profissionais do que o seu antecessor, Only Pain is Real, lançado apenas dois anos depois da hiper-bem-sucedida estreia, caiu num retumbante vácuo de indiferença – se é que vendas de Platina podem ser consideradas indiferença... Face á falta de sequer um ‘single’ de impacto, no entanto, a impressão que ficava era mesmo a de que já ninguém queria saber dos Silence 4 - o que não deixa de ser estranho, visto a sonoridade do grupo não se ter alterado minimamente desde aquele Verão louco de 1998. Antes pelo contrário – David Fonseca e os seus comparsas continuavam a praticar aquele mesmo pop-rock (com mais da primeira do que do último) movido a dualidade vocal masculina-feminina de Fonseca e Sofia Lisboa, e de espírito melancólico, sorumbático e fatalista, que tanto sucesso havia feito à época do lançamento da estreia.

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O que talvez tivesse, sim, mudado era o cenário musical nacional, com novos artistas a captar o interesse do público, e a relegarem os antigos heróis para uma posição de ‘velhas glórias’, apesar dos seus apenas quatro anos de vida. Assim, não é de todo surpreendente que um grupo que parecia ter tudo para dar luta a uns The Gift acabasse por se render à evidência e entrar num hiato voluntário.

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Este não seria, no entanto, o fim dos Silence 4. Apesar de David Fonseca ter aproveitado a oportunidade para se lançar numa carreira a solo (aliás, mais bem sucedida que a do próprio grupo) haveria ainda ensejo para o lançamento de um disco ao vivo (em 2004, quando a indiferença ainda reinava) e, em 2013, para uma reunião, ainda que fugaz, do quarteto original, a qual rendeu um segundo disco ao vivo - até à data, o último sinal de vida de um grupo cuja trajectória não pode deixar de suscitar perplexidade em quem a acompanhou. Mas pelo menos, enquanto ‘fritamos a moleirinha’ a pensar, afinal, o que terá acontecido aos leirienses, podemos fazer-nos acompanhar de uma banda sonora de luxo, e de indiscutível apelo nostálgico; e se não conseguirmos descortinar a resposta hoje, podemos sempre dizer, como David Fonseca, ‘I guess I’ll try again tomorrow…’

05.07.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última Quinta no Quiosque, recordámos a revista Super Jovem, uma pioneira das publicações de variedades para jovens nos anos 90. Nesse post, entre outras lembranças, foi feita menção dos excelentes brindes por vezes incluídos com a revista, dos quais um se havia destacado como particularmente memorável.

É, precisamente, desse brinde – ou antes, desses brindes – que falaremos nesta Segunda de Sucessos; porque a verdade é que, como uma rápida visita ao Google comprovará, os mesmos marcaram mesmo época junto dos fãs de música da época.

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Isto porque a referida colecção consistia, nem mais nem menos, do que de CDs de música, com o patrocínio da Frisumo - que, como era habitual neste tipo de iniciativas, reservava uma faixa no final do disco para o seu 'jingle' - cada um com entre uma a quatro músicas da autoria de uma banda portuguesa considerada em ascensão. Descritos pela própria revista como CDs single, estes discos acabavam, muitas vezes, por ficar mais próximo dos formatos ‘split’ ou EP, especialmente aqueles que incluíam mais do que uma banda.

Na verdade, e mais concretamente, os primeiros seis discos seguiam, na verdade, o formato single, com apenas uma música; os três seguintes apresentavam o formato ‘split’, os dois primeiros com dois artistas – cada um com duas faixas - e o terceiro (o nono da série) com três, cada um com uma faixa; por fim, o décimo e último disco constituía, para todos os efeitos, um EP próprio da banda em destaque, os cómicos pop Mercurioucromos, que surgiam com quatro temas, incluindo o então muito badalado ‘O Camionista Cantor’. No fundo, e apesar das discrepâncias de formato a partir de meio da colecção, uma excelente ‘montra’ para bandas aspirantes do panorama musical português.

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Exemplos da divisão de faixas de dois dos CDs da segunda metade da colecção

Talvez a melhor característica desta colecção de CDs fosse o facto de a Super Jovem não se cingir àquilo que podiam ser entendidas como as preferências do seu público-alvo; antes pelo contrário, a revista tentava, com esta série, agradar a um leque de leitores o mais vasto possível, apresentando bandas de todos os géneros e para todos os gostos. Era esta abrangência estudada que permitia ter, lado a lado, bandas de pop-rock como HuaHine, Linda Love Lace ou os referidos Mercurioucromos, ‘hard rockers’ como Alcoolémia e os heróis do ‘grunge’ tuga SG’s, colectivos de New Wave como Ruído Sónico, artistas mais ‘dançáveis’ como Ithaka e DJ Don Juan, e grupos de heavy metal ou até death metal (!) como os também heróis de culto Disaffected. A Super Jovem não brincou em serviço no que tocou a agradar a todos os públicos, e o esforço resultante terá apresentado a muitas crianças de dez anos a oportunidade de ouvir pelo menos uma música de death metal na vida; se gostaram ou não, já são ‘outros quinhentos’, mas o esforço, pelo menos, é louvável.

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Os dois últimos sobreviventes da nossa colecção pessoal

Enfim, independentemente de preferências musicais, esta colecção de CD’s (que vinha agarrada às revistas com plástico) terá sem dúvida sido marcante para qualquer criança ou jovem que tenha tido contacto com ela. Se, como nós, se contam entre esse número, deixem as vossas recordações nos comentários!

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