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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O conceito de que as crianças não gostam de aprender, e são especialmente aversas a conteúdos televisivos didácticos, é tão falacioso como comum; de facto, programas como 'Rua Sésamo' ou 'Artur' provam precisamente o contrário – que o truque está em saber COMO fazer chegar a informação às crianças, de uma forma que as mesmas considerem interessante e cativante.

Outro exemplo deste mesmo axioma, e que chegou mesmo a partilhar tempo de antena com a 'Rua Sésamo', foi a trilogia Era Uma Vez... . Criado pelo francês Albert Barillé em finais dos anos 70 e início de 80, e tendo como ponto comum a família de personagens central, este conjunto de três séries co-produzidas por companhias francesas e japonesas ('Era Uma Vez...O Espaço', a segunda peça da trilogia, chegou mesmo a ser considerada uma série de 'anime'!) foi tão bem-sucedida na sua missão de veicular conteúdos educativos que continua, ainda hoje, a ser 'repescada' a espaços, na tentativa de educar toda uma nova geração de crianças e jovens sobre os temas da evolução humana, do corpo humano, e ainda do espaço sideral.

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O grupo central de personagens comum às três séries, aqui em 'Era Uma Vez...O Homem'

A primeiríssima destas transmissões deu-se, no entanto, cerca de uma década após a criação da trilogia, em inícios dos anos 90, quando a RTP2 apresentou as aventuras de Pedrinho, Psi (ou Pierrette) e Mestre, o carismático personagem barbudo que se viria a tornar o elemento mais identificável da série, e uma espécie de 'mascote' da mesma.

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O carismático Mestre, figura central da trilogia

Foi este o grupo de personagens que os jovens espectadores acompanharam através da evolução humana em 'Era Uma Vez...O Homem', do espaço exterior em 'Era Uma Vez...O Espaço' - esta com um maior balanço entre elementos dramáticos e didácticos, por oposição às restantes duas, que eram declaradamente educativas - e, finalmente, do corpo humano em 'Era Uma Vez...A Vida' (que viria mais tarde, aquando da dobragem para português, a ser conhecida, também, como 'Era Uma Vez..O Corpo Humano').

Em comum, além do núcleo central de personagens, as três séries tinham a animação – primitiva, mas bem conseguida – e a escrita de qualidade, capaz de transmitir informações ao público-alvo sem que com isso os conteúdos se tornassem maçudos ou aborrecidos; pelo contrário, grande parte dos membros da geração que cresceu entre finais dos anos 80 e inícios do novo milénio recorda com carinho esta trilogia de programas, que sem nunca se afirmarem como favoritos de ninguém, conseguiam ainda assim encontrar o seu espaço junto das crianças e jovens da época.

O sucesso desta trilogia não viria, aliás, a ficar-se pelas sucessivas transmissões televisivas, sendo que duas das três séries que a compunham (ficaria apenas a faltar 'Era Uma Vez...O Espaço') viriam a ser lançadas pela Planeta deAgostini em formato VHS, com nova dobragem, e acompanhados de livros complementares, naquela que foi uma das raras incursões da editora por formatos diferentes dos habituais fascículos. Do sucesso desta iniciativa, no entanto, falaremos na próxima Quinta-feira, quando formos ao Quiosque completar esta retrospectiva sobre as séries de Claude Barillé; entretanto, aqui ficam os genéricos das três séries, para ajudar a matar saudades...

06.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Hoje comum ao ponto de ser considerado apenas mais uma faceta da cultura pop, o anime – e a sua congénere impressa, a 'manga' – era, ainda há bem pouco tempo, uma curiosidade pouco mais do que de nicho em terras portuguesas. Embora o estilo, e os animadores japoneses, viessem exercendo subtil influência sobre os desenhos animados ocidentais já desde a década de 80, poucos eram os exemplos de animação declaradamente oriental (a ridiculamente denominada 'Japanimação') a fazer a transição para o Velho Continente, sendo que mesmo essas chegavam com vários anos de atraso, como era habitual em produtos mediáticos importados. Assim, o Portugal de finais da década de 80 e inícios da seguinte recebia, sobretudo, animações japonesas criadas entre dez a quinze anos antes, de que eram exemplo a lendária série animada de 'Tom Sawyer', o não menos lendário 'Esquadrão Águia' e o programa que hoje abordamos, 'Cavaleiros do Zodíaco'.

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De facto, entre a produção de 'Saint Seiya', como era originalmente conhecido, e a sua transmissão inicial na RTP (em versão original legendada) em Setembro de 1992 (ou Novembro, no caso da RTP Madeira), passaram-se nada menos do que seis anos – o que, numa época de evolução tecnológica sem paralelo, representava uma verdadeira eternidade em termos técnicos; assim, embora tipicamente ilustrativa do 'anime' que ia chegando a terras lusitanas à época, a série era, pelos padrões japoneses, já algo antiquada, pelo menos de uma perspectiva visual, quando comparada com produtos como 'Dragon Ball Z', estreado três anos depois, mas que apenas chegaria a Portugal quase uma década depois, ainda a tempo de causar uma 'febre' sem precedentes nos recreios nacionais. Ainda assim, e apesar de não terem conseguido, nem de longe, tal culto em Portugal (mas a verdade é que NADA conseguiu) as aventuras de Seiya e dos restantes Cavaleiros – cada um com um nome de código inspirado num signo astrológico ou constelação – não deixam de constituir uma referência nostálgica dentro da programação infantil do Portugal pré-'Tartarugas Ninja' e 'Power Rangers'.

Tanto assim é que – tal como acontecera anteriormente, e viria a acontecer, com 'Esquadrão Águia' – a série não esgotou naqueles oitos meses do início da década a sua longevidade nos ecrãs portugueses, tendo sido um dos muitos programas dessa época 'repescados' anos mais tarde, a tempo de cativar uma nova audiência; no caso de Saint Seiya, foi uma SIC na ressaca de 'Z' quem tentou apresentar a série como alternativa viável às aventuras de Son Goku e companhia – tentativa que, escusado será dizer, não foi de todo bem sucedida. Ainda assim, esta nova versão – agora dobrada em português, e hoje lembrada sobretudo pelo seu memorável genérico de abertura – não deixou de conquistar o seu público, tanto nessa primeira transmissão como na repetição, três anos mais tarde, na entretanto inaugurada (e hoje defunta) SIC Gold. Já na ponta final da primeira década do novo milénio, a série viria ainda a ser transmitida uma quarta vez, desta vez no canal infantil a cabo Animax, e, curiosamente, em ambas as versões – dobrada e original.

A versão dobrada transmitida pela SIC contava com um genérico significativamente mais marcante do que o original

Por via destas constantes repetições, 'Cavaleiros do Zodíaco' acabou mesmo por fazer parte da infância de muitas crianças que haviam sido demasiado novas (ou ainda não nascidas) aquando da transmissão original na RTP; e mesmo quem já tinha visto essa, decerto apreciou a oportunidade de voltar a viver as aventuras daquela equipa de heróis intergalácticos, algures entre G-Force e as Navegantes da Lua, e de comparar a dobragem portuguesa a cargo da Novaga com o original japonês...

 

23.05.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A década de noventa ficou – em Portugal como no resto do Mundo - marcada por muitas e muito mediatizadas rivalidades comerciais: da Pepsi com a Coca-Cola, dos Blur com os Oasis (que aqui paulatinamente abordaremos) da WWF com a WCW e, claro, da Sega com a Nintendo, sendo que esta última se destacava das restantes por se dar em duas frentes, com as rivais japonesas a competirem directamente não só através dos produtos que lançavam, mas também das suas mascotes.

Efectivamente, a 'luta' entre Sonic e Super Mario pelo coração das crianças e jovens noventistas traduziu-se em muitas e boas horas de entretenimento, quer através de alguns dos melhores jogos da década (um dos quais aqui recentemente abordámos) quer através das inevitáveis séries de desenhos animados que eram praticamente um pré-requisito de qualquer propriedade comercial infanto-juvenil bem sucedida; e porque, recentemente, aqui falámos de uma das três séries de animação dedicadas ao porco-espinho da Sega (a única a chegar a Portugal) nada mais justo do que nos debruçarmos, hoje, sobre o principal veículo animado do rival, o famoso 'Super Mario Brothers Super Show.'

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Estreada na RTP1 em 1993, numa altura em que ainda não havia a preocupação de dobrar todo e qualquer conteúdo dirigido ao público infantil (situação que se alteraria a partir de meados da década), o desenho animado de Mario não teve sequer direito a nome traduzido em português, sendo que até mesmo as cassettes VHS com episódios da série entretanto lançadas em Portugal traziam a dobragem brasileira; é, pois, de crer que muitas crianças e jovens da época conhecessem a série apenas pelo nome do protagonista. Quanto à não dobragem dos conteúdos propriamente ditos, esta constitui, neste caso específico, um ponto a favor, já que os diálogos da parte em 'acção real' de cada episódio são, sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série 

Sim, dissemos mesmo 'acção real' – isto porque, ao contrário da série do rival, cada episódio do 'Super Show' estava dividido entre segmentos com actores verdadeiros a interpretar Mario e Luigi – um deles o lutador da WWF, 'Captain' Lou Albano – e outros em desenho animado, que se dividiam entre episódios das aventuras dos dois irmãos canalizadores e das de Link, o protagonista da série 'A Lenda de Zelda'. E se os primeiros eram fiéis quanto-baste ao material de base – estavam presentes a Princesa Peach, o cogumelo vivo Toad, o vilão Rei Koopa (ou Bowser), e os inimigos e poderes do jogo – o segundo tomava bastante mais liberdades com o mesmo, incluindo mudar a cor de cabelo e personalidade de Link (o qual repetia frequentemente uma frase-feita hoje tornada 'memética') e dar um papel mais proeminente a Zelda, que nos jogos não passa da princesa a ser resgatada.

Sabemos que algo se tornou um 'meme' quando tem direito a uma montagem de dez horas no YouTube

Em ambos os casos, a qualidade da animação, do trabalho de vozes e das histórias é perfeitamente típica da época em que a série foi produzida, o mesmo podendo dizer-se dos cenários, situações, diálogos e piadas dos segmentos em acção real, que não surpreenderão qualquer espectador que tenha visto sequer um episódio de uma qualquer 'sitcom' de inícios dos anos 90. O resultado é um produto extremamente 'de época', que se apoia declaradamente no interesse e procura por materiais relacionados com os personagens que o integram, mas que consegue, ainda assim, nunca descer abaixo de um nível aceitável e perfeitamente tolerável.

Não há dúvida, no entanto, de que 'Super Mario Bros. Super Show' deixou, pelo menos, um legado à cultura popular contemporânea, também ele transformado, hoje em dia, em 'meme': os seus genéricos de abertura e encerramento, que apropriam desavergonhadamente ainda mais um elemento de enorme sucesso entre os jovens – o nascente movimento 'rap'/'hip-hop', especificamente a vertente mais virada para a dança – e o misturam com efeitos sonoros retirados do jogo com resultados decididamente 'tão maus que são bons'; ver 'Captain' Lou Albano (ao que consta, alcoolizado em todo e qualquer segmento em que surge) a tentar infrutiferamente adoptar uma cadência 'rap' por cima do famoso tema do primeiro  'Super Mario Bros', enquanto executa algo que vagamente se assemelha a uma dança é tão deprimente quanto hilariante.

...palavras para quê?

De resto, tal como as tentativas de transpôr o rival Sonic para um papel menos interactivo, 'Super Mario Bros. Super Show' merece permanecer nos anos 90, sendo trazido à baila apenas ocasionalmente, no contexto de um 'post' como este – ainda que, mesmo assim, consiga ser melhor que as versões posteriores da série, já para não falar da longa-metragem de acção real, estreada no mesmo ano...

26.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 25 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A programação de teor ou conteúdo educativo tende, tradicionalmente, a ser rejeitada pela grande maioria das crianças, precisamente pela sua intenção declarada de não só entreter, mas também ensinar, algo a que esta demografia já é diariamente sujeita, contra vontade, no contexto da escola; por sua vez, este paradigma também não é minimamente beneficiado pelo facto de grande parte dos conteúdos desta índole adoptarem um tom excessivamente simplista ou condescendente, não dando ao seu público-alvo o devido crédito, e tratando-o como se fosse menos inteligente do que de facto é.

Talvez seja por isso que, quando surge um programa educativo verdadeiramente bem-feito e cuidado, o mesmo é capaz de atingir tanto sucesso junto da demografia-alvo como qualquer 'anime' ou série de acção. Foi assim com a excelente versão portuguesa da Rua Sésamo – ainda hoje recordada com afecto pela geração para quem foi auxiliar de estudo nos primeiros anos de aprendizagem – e é assim, também, com a série de que hoje falamos, para a qual este ano de 2022 marca, simultaneamente, a sua última temporada 'no ar' e um exacto quarto de século desde a sua estreia em Portugal.

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Criada pela PBS, a cadeia de televisão norte-americana especializada em conteúdos educativos também responsável pela criação da 'Sesame Street' original, e baseada na série de livros do mesmo nome, criada por Marc Brown, 'Artur' (ou 'Arthur') tornou-se conhecido, em Portugal, sobretudo pelo seu tema de abertura, um concentrado de alegria em ritmo 'reggae' que rivaliza com a lendária canção da Rua Sésamo pelo título de melhor música de abertura de uma série educativa, e tem também definitivamente lugar entre os melhores da década em geral.

Há outra abertura posterior, mas sejamos realistas - esta é a única que conta. POR ISSO; HEI!

Felizmente, os atractivos de 'Artur' não se ficam pelo tema de abertura; a própria série em si é extremamente bem pensada, com personagens e temas memoráveis, e sem medo de abordar assuntos controversos ou delicados (dos medos de infância e problemas cognitivos e educativos ao racismo, tolerância, trauma e até morte de alguém chegado ou querido) sempre de forma frontal, mas também com grande sensibilidade.

E o mínimo que se pode dizer é que este esforço em tratar as crianças como elas querem e merecem ser tratadas rendeu dividendos – nos seus EUA natais, 'Artur' foi transmitido durante mais de um quarto de século (e em Portugal, ficou próximo, tendo passado impressionantes dezoito anos na grelha de programação da RTP2), sempre com o mesmo grau de sucesso entre as diversas gerações de crianças. E a verdade é que não é preciso ver mais do que um ou dois episódios da série para perceber porquê; esta é daquelas séries que não só conseguem ser intemporais, como também conciliam de forma perfeita objectivos aparentemente díspares, como são a educação e o entretenimento, e o mundo da programação infantil ficará mais pobre sem ela. 'Por isso, HEI!'

12.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 11 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 80 e 90 representaram, talvez, o auge do cinema de acção exagerado, em que heróis musculados fazem rebentar 'a esmo' estruturas, matando dezenas ou mesmo centenas de inimigos de uma só vez, sem jamais serem atingidos. E se, no cinema, este estilo de trama ficou imortalizado, à época, pelos filmes da 'trinca' Schwarzenegger-Willis-Stallone, na televisão de 'acção real', a mesma é mais comummente associada a um nome: 'The A-Team'.

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Criada em 1983, a série é, em muitos aspectos, perfeitamente típica, e até emblemática, da 'era Reagan' dos Estados Unidos, com a sua nostalgia pelo Vietname e conceito centrado num grupo de ex-combatentes dessa guerra, transformados em mercenários após serem injustamente condenados de um crime militar; mesmo sem esse enquadramento contextual, no entanto, é extremamente fácil situar esta série no tempo após apenas alguns minutos de visualização, já que os elementos típicos do cinema de acção da época estão absolutamente todos presentes, a ponto de a série se ter tornado sinónima com os estereótipos desse género cinematográfico. Semana após semana, ao longo de quatro anos e cinco temporadas, Hannibal, Faceman, 'Howlin' Mad' Murdoch e, claro, o inesquecível e inimitável B. A. Baracus enfrentaram inimigos de mira muito pouco afinada, explodiram bases e locais-chave para a estratégia dos mesmos e realizaram arriscadas fugas na sua icónica carrinha, a fim de defender inocentes moçoilas e honestos agricultores dos poderes que os queriam prejudicar; uma fórmula tão previsível que beirava a auto-paródia, mas que conseguiu cativar toda uma geração de jovens americanos (tanto da parte Norte como Sul) e nada menos do que DUAS gerações de portugueses.

Isto porque, em território nacional, a série teve duas transmissões distintas: primeiro em versão original, logo no ano seguinte à estreia nos EUA e com o título 'Soldados da Fortuna', e mais tarde na icónica dobragem brasileira (sim, de Herbert Richards!) que transformava o grupo no 'Esquadrão Classe A'. Terá sido esta a versão a que a maioria dos leitores deste blog terá assistido nas manhãs em que não havia escola, e será nesta que o presente post, maioritariamente, se centrará.

O lendário genérico de abertura da série, na sua versão brasileira

Exibida pela TVI ali por volta de meados da década, 'Esquadrão Classe A' é até hoje tida como o exemplo perfeito de uma dobragem que supera o original; isto porque a adaptação para português do Brasil era tão, mas tão bem feita que ajudava a tornar a série ainda mais aliciante para o público-alvo do que ela já era. O trabalho dos actores brasileiros era (foi) tão marcante, que quem tenha visto sequer um episódio desta versão da série certamente não esquecerá, por exemplo, a exclamação do Baracus de Mr. T, que jurava a cada episódio 'não entrar em avião nenhum' - invariavelmente, momentos antes de ser visto a bordo de um avião. Estes pequenos detalhes, que também se podiam encontrar, por exemplo, nas dobragens dos filmes Disney da época, ajudavam a acentuar o sub-texto cómico da série, dando-lhe o balanço perfeito entre acção e momentos mais 'leves' - receita quase infalível para o sucesso de qualquer série da época.

Apesar de essa dobragem ter sido o principal motivo pelo qual 'The A-Team' perdurou na memória da 'Geração X' e 'millennial' portuguesas, no entanto, a mesma foi sumariamente deixada de parte em subsequentes transmissões da série na televisão nacional: tanto a repetição que passou na SIC Radical como a que a RTP Memória exibiu se baseavam na versão 'Soldados da Fortuna', exibida nos anos 80 com a trilha sonora original legendada em Português; uma pena, já que, para muitas ex-crianças e jovens da época, 'The A-Team' é daquelas séries que (como Power Rangers, por exemplo) nunca parece totalmente 'certa' sem os personagens a falar português...

28.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A adaptação de bandas desenhadas para um formato animado não é, de todo, um conceito novo, ou até moderno; pelo contrário, desde há várias décadas que companhias como a Hanna-Barbera e a Warner Bros. vêm tirando dividendos da adaptação de BD's, nomeadamente de super-heróis, a um formato igualmente serializado, mas em meios audio-visuais.

A 'nossa' década não é excepção - de Batman a Charlie Brown, são vários os exemplos desta tendência que deram azo a séries animadas de grande qualidade, e extremamente bem-sucedidas. E à cabeça desta ilustre lista de nomes encontra-se um dos poucos casos em que a série animada é melhor e mais conhecida e respeitada do que o próprio material original: a fabulosa adaptação animada das tiras de Garfield, de Jim Davis.

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Com um conceito, ao mesmo tempo, demasiado simples para sustentar episódios de vários minutos de duração e demasiado sofisticado para o público consumidor de animação televisiva, 'Garfield' não parecia, à partida, ser um candidato natural a este tipo de tratamento; o feito de Mark Evanier e Sharman DiVorno não pode, portanto, ser considerado menos do que portentoso, já que os dois guionistas responsáveis pela adaptação conseguiram criar, a partir do material de Davis, uma das melhores séries animadas de finais dos anos 80 e princípios de 90.

De facto, as aventuras de Garfield, do seu dono, o neurótico solteirão Jon Arbuckle, do 'melhor inimigo' Odie (o cão de Jon) e do irritante Nermal, o autoproclamado 'gatinho mais querido do Mundo', provaram ser capazes não só de realizar a transição da página para o ecrã, mas de melhorarem como resultado da mesma; com uma tela mais vasta sobre a qual criar novas situações, e o contexto animado a permitir explorar os limites do realismo, os dois argumentistas deram asas à imaginação, criando situações progressivamente mais mirabolantes nas quais colocar o gato laranja e a sua sofredora família adoptiva. De tramas de mistério a situações de meta-humor – alguns dos episódios mais memoráveis incluem disputas com membros da equipa de guionistas e artistas da série – sem esquecer alguns episódios mais tradicionais e de estilo 'slice of life', Evanier e DiVorno não só conseguiram transformar Garfield numa série animada acima da média, como demonstraram criatividade suficiente para a manter no ar durante SETE TEMPORADAS (de 1988 a 1994), sempre com material original, e na sua maioria perfeitamente hilariante.

A verdade, no entanto, é que mesmo que as tirinhas de Garfield não tivessem rendido como fonte de inspiração, os criadores de 'Garfield e Amigos' – pois assim se chamava a versão animada – tinham um 'plano B' na manga, assente precisamente nos 'Amigos' do título. Isto porque, à semelhança de outro gato alaranjado, gordo e preguiçoso de quem aqui recentemente falámos, Garfield não era estrela única do programa com o seu nome; mas enquanto Heathcliff partilhava o seu titulo com personagens criados pela equipa de animadores, os criadores de Garfield tinham a sorte de poder contar, como protagonistas secundários, com o outro grupo de personagens criados por Jim Davis – os animais da Quinta do Orson, cenário das menos conhecidas séries de tiras U. S. Acres.

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Os habitantes de U. S. Acres - a 'Quinta do Orson' - dividiam o protagonismo com o próprio Garfield

E embora estes segmentos do programa não fossem tão unânimes entre o público-alvo como os protagonizados por Garfield, o certo é que havia também muito do que gostar nos episódios de Orson e companhia – dos medos muitas vezes infundados do paranóico Pato Wade à 'esperteza saloia' do Galo Roy, ou à comédia física e silenciosa de Sheldon, um pintainho ainda na casca, e apenas com as pernas de fora. No cômputo geral, a Quinta do Orson servia honradamente a sua função de adicionar diversidade ao programa, sem com isso retirar protagonismo ao seu personagem principal, e constituía mais um dos trunfos da série.

E já que falamos em trunfos, nenhuma análise de 'Garfield e Amigos' fica completa sem que se faça referência à sonoplastia. Simplesmente falando, quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da decisão da RTP de, em 1991, 'importar' Garfield em versão original, a mesma foi, sem dúvida, acertada – teria sido um crime dobrar a série em português, perdendo assim o excelente trabalho vocal de Lorenzo Music (A voz de Garfield por excelência), Frank Welker, e restantes artistas de voz. Isto sem falar dos pequenos toques de génio na banda sonora (como o icónico tema de Odie, que toca sempre que o mesmo surge em cena) ou do magnífico genérico inicial, um dos melhores e mais contagiantes de toda a década, e que fãs da série certamente ainda saberão 'de cor e salteado' três décadas depois. E não, não estamo a falar do tema 'assim-assim' que muita gente ainda hoje crê ser o genérico de 'Garfield', mas que na verdade apenas foi usado nas últimas séries:

Ponto a favor: este vídeo inclui um episódio da genial série de 'gags' 'Gritando com o Binky'

Falamos DESTA obra de arte, que introduziu os episódios das duas primeiras temporadas do programa:

Mesmo sem os diálogos do início e fim, continua a ser uma 'bomba'

Em suma, com argumentos inteligentes, excelentes desempenhos e uma banda-sonora acima da média, não é de admirar que 'Garfield e Amigos' tenha sido do melhorzinho que se produziu a nível da televisão infanto-juvenil, não só da sua época, como das últimas décadas em geral; efectivamente, como Tom e Jerry e outros clássicos, esta é daquelas séries das quais não só não é preciso ter vergonha de ter gostado (ou ainda gostar, mesmo em adulto) como também se tem pena de as novas gerações não poderem conhecer em primeira mão, pois decerto lhes agradaria mais do que as fraquinhas séries actuais de Garfield (em CGI, como não podia deixar de ser) e os divertiria tanto como aos seus pais, na mesma idade...

14.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Embora presente em Portugal desde os anos 80, com séries como 'Tom Sawyer', 'Heidi e Marco' ou 'Bana e Flapy', foi na década seguinte que a animação japonesa – vulgo 'anime' – verdadeiramente se afirmou no nosso país. Séries como 'As Navegantes da Lua', 'Capitão Hawk', 'Esquadrão Águia', 'Os Cavaleiros do Zodíaco' e, claro, o incontornável 'Dragon Ball Z' davam a conhecer a toda uma nova geração de crianças e jovens aquele estilo cheio de 'linhas de velocidade' e caretas exageradas, e com enredos cheios de acção e aventura.

O sucesso foi imediato, e à entrada para a segunda metade da década, os 'animes' eram já parte integrante da vida quotidiana de qualquer criança; não constituiu, pois, qualquer surpresa ver o número de séries deste tipo exibidas nos quatro canais nacionais aumentar exponencialmente durante esses anos, com novas propostas a surgirem regularmente, muitas delas em substituição directa de outras do mesmo tipo.

Foi neste âmbito que, há quase exactamente um quarto de século, acabaram por coincidir na TVI três 'animes' com conceitos e premissas extremamente semelhantes, hoje em dia lembrados por muitas ex-crianças portuguesas como uma espécie de 'pacote 3-em-1', apesar de nem sempre terem sido transmitidos juntos.

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Falamos de 'A Lenda de Zorro' (Kaiketsu Zorro), 'A Cinderela' (Cinderella Monogatari) e 'As Aventuras de Robin dos Bosques' (Robin Fuddo no Daibōken) as três adaptações (extremamente) livres de histórias clássicas para um formato de animação serializada que a TVI foi adquirir a Itália para integrar na sua programação infantil para os anos de 1996 e 97, nomeadamente no âmbito do programa matinal 'Mix Max'.

Apesar de, conforme referimos, tratarem o material original em que eram baseadas com a maior das liberdades, nenhuma das três séries ficava a perder, em termos de qualidade, em relação à média das séries de 'anime' da altura; pelo contrário, todas as três eram bem desenhadas (ainda que sofressem um pouco da síndrome 'orçamento gasto na sequência de abertura'), com Cinderela e Zorro a terem traços algo mais realistas, próximos dos das 'Navegantes' e 'Samurai X', respectivamente, enquanto Robin (talvez por ter protagonistas infantis) contava com um estilo mais caricatural, a lembrar as séries dos anos 70 e 80, como o já referido 'Esquadrão Águia'.

Os méritos dos três programas não se ficavam, no entanto, pelos aspectos técnicos; todas as três contavam, também, com histórias que se desenrolavam a um ritmo dinâmico e conseguiam o balanço perfeito entre a acção, o drama, a comédia, e até alguns momentos mais românticos, especialmente no caso da adaptação de 'Cinderela'. Talvez ainda mais importante, para uma geração que vivia de primeiras impressões, todos os três tinham temas de abertura absolutamente fabulosos; o de Zorro, em particular, ainda hoje se conta entre os melhores de sempre da televisão infantil em Portugal – o que, para um país que conviveu com as aberturas de 'Pokémon', 'Digimon', 'Power Rangers' ou 'Rua Sésamo', não deixa de ser notável! A música de 'Robin dos Bosques', em particular, teve ainda o mérito extra de ensinar a muitas crianças o significado da palava 'liça', utilizada na letra cantada por Helena Isabel, e que muitos jovens da altura pensavam ser a homófona 'missa'.

No fundo, tratavam-se de três séries que, sem quererem ser um fenómeno cultural ou até mesmo revolucionar o género em que se inseriam, não deixavam de ser uma excelente opção para passar uma manhã 'de folga' da escola, a 'preguiçar' em frente à televisão – o que, no fundo, era tudo o que muitas crianças da época pediam no tocante a programação. Mais, odas as três demonstravam qualidade e interesse suficientes para justificarem o regresso, no dia seguinte, para ver outro episódio, algo que era, também, apenas privilégio das melhores séries e desenhos animados da época. Assim, e apesar de algo esquecidas hoje em dia, qualquer das três séries é bem merecedora deste destaque, ficando a sensação de que fazem falta produções cuidadas deste tipo na programação infanto-juvenil de hoje em dia...

28.02.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa era em que o Universo Marvel gera consensos críticos positivos e bate recordes de bilheteira duas vezes por ano, pode parecer difícil de acreditar que, em tempos, qualquer propriedade intelectual associada aos heróis da Marvel e DC que extravasasse o universo das revistas aos quadradinhos tinha tantas hipóteses de ser razoável como de não corresponder às (baixas) expectativas geradas. E, no entanto, foi precisamente esse o paradigma até à ponta final do século XX, altura em que as produções audio-visuais e multimédia alusivas a super-heróis de banda desenhada conseguiram, finalmente, aringir o nível que os fãs de 'comics' há tanto desejavam; e se, no caso do cinema, a 'viragem' se deu já no dealbar do século XXI, com o na altura considerado excelente 'X-Men', de Bryan Singer, no que toca à animação, o estigma já tinha sido eliminado alguns anos antes, por uma produção não menos icónica, influente ou importante – a série animada de Batman produzida pela Warner Brothers.

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Emitida nos seus EUA natal entre 1993 e 1995, e transmitida em Portugal pela RTP 2, alguns anos mais tarde, a simplesmente intitulada 'Batman: The Animated Series' conseguiu o impensável ao afirmar-se como o primeiro produto audio-visual relacionado com super-heróis a ser bem recebida pela sempre exigente crítica especializada. Muita desta boa-vontade advinha do seu guião cuidado e de qualidade, que não poupava esforços na tentativa de desfazer a má impressão deixada por 'coisas' como 'The Super Friends', a série animada produzida pela DC nos anos 70 e que, desde então, passou a simbolizar tudo o que de errado se passava com a abordagem televisiva ao mundo dos super-poderes.

Talvez tenha sido precisamente essa má reputação a motivar os criadores de 'Batman: The Animated Series' a seguirem na direcção exactamente oposta: às mascotes 'fofinhas', piadas 'secas', histórias politicamente correctas e positividade forçadas do seu antecessor, a nova série respondia com uma Gotham City declaradamente escura e opressiva com toques de 'noir' e 'pulp' (inspirada na criada por Tim Burton na sua interpretação cinematográfica do herói), guiões coesos e que levavam o público-alvo a sério, uma narrativa estruturada e personagens que, grosso modo, se mantinham fiéis às personalidades para eles criadas, ao longo das décadas, pelas diversas equipas criativas encarregadas de trabalhar na BD. Bruce Wayne, Dick Grayson, o mordomo Alfred, o comissário Gordon e a sua filha Barbara eram precisamente as mesmas pessoas que os leitores conheciam da BD, o mesmo se passando com a clássica galeria de vilões do Morcego, da qual todos os principais nomes marcavam presença, acrescidos de algumas novas adições – entre elas uma personagem tão bem sucedida que viria a fazer o percurso inverso, transitando do ecrã onde nascera para as páginas dos 'comics', e daí para o grande ecrã. O seu nome? Harley Quinn.

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Sim, foi aqui que nasceu a hoje idolatrada parceira profissional e (por vezes) amorosa do Joker, uma criação do argumentista Paul Dini com trabalho vocal a cargo da mulher deste, Arleen Sorkin, cuja interpretação teve um papel fulcral no sucesso obtido pela personagem, e ajudou a moldar e definir de forma permanente a sua personalidade. Ainda longe da loucura sensual de Margot Robbie, a Harley Quinn de Sorkin pauta-se pela sua personalidade exageradamente extrovertida, animada, 'desbocada' e hiperactiva, bem como pelos toques masoquistas e psicóticos e paixão assolapada pelo seu chefe (aqui, ao contrário do que acontece na versão cinematográfica, não correspondida) que partilha com a revisão posterior de Robbie; é, precisamente, esta complexidade dicotómica que transforma aquilo que poderia ser apenas a habitual personagem cómica vagamente irritante, dirigida às crianças, numa das mais populares criações de sempre da DC, e presença, hoje, quase que excessivamente constante no seu universo mediático.

Foi exactamente esta mentalidade – extensível também aos outros personagens da série – que ajudou a fazer de 'Batman: The Animated Series' um dos programas mais importantes de sempre, não só para a causa dos super-heróis nos 'mass media', como também para o próprio panorama da animação nos anos 90; isto porque o sucesso da série não só ajudou a lançar todo um universo animado da DC, sempre encabeçado pelos criadores Paul Dini e Bruce Timm, como também inspirou muitas criações posteriores a seguirem o seu exemplo, contribuindo assim para alterar positivamente o paradigma das séries de aventuras para crianças; por outras palavras, se a geração seguinte teve muitos e bons programas deste género por onde escolher, ao 'Batman' dos anos 90 o deve.

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Um desses programas foi, precisamente, uma espécie de 'sequela' para a série original, intitulada 'Batman do Futuro' (no original, 'Batman Beyond') e que seguia as aventuras do sucessor de Bruce Wayne no fato do Homem-Mercego. Apesar de estreada originalmente em 1999, no entanto, essa série apenas chegaria a Portugal já no século XXI, ficando assim fora do âmbito deste blog; ficamo-nos, por isso, pela original – que, convenhamos, está longe de ser a pior maneira de abrir uma semana de homenagem ao Homem-Morcego...

14.02.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quer se goste ou não, o romance é parte integrante da maioria dos produtos mediáticos. Grande parte da população gosta de ver duas pessoas apaixonarem-se e encetarem uma relação amorosa; como tal, naturalmente, a maioria dos criadores não hesita em incluir este aspecto nas suas obras para consumo massificado, sejam elas dirigidas a adultos ou a um público mais juvenil.

Nos anos 90, o paradigma era exactamente o mesmo – por muito que nós, os miúdos, torcêssemos o nariz a tudo o que envolvesse 'beijinhos', a verdade é que a maioria das séries, filmes e livros que consumíamos acabavam, mesmo, por ter um casalinho romântico algures. Mais – alguns destes pares conseguiam mesmo ultrapassar a nossa renitência inicial, e tornar-se presença marcante dos respectivos produtos; hoje, em homenagem ao Dia dos Namorados, o Anos 90 vasculhou o 'baú' de séries da nossa infância para 'desenterrar' cinco dos mais icónicos casais televisivos da 'nossa' década.

Antes de começarmos, no entanto, um pequeno reparo: esta lista não inclui casos em que a relação é implícita, mas nunca oficialmente declarada (como é o caso com Tico e Gidget em 'Tico e Teco: Comando Salvador' ou Fred e Daphne em 'Scooby-Doo', por exemplo), relacionamentos que gostávamos que acontecessem mas nunca chegaram a ocorrer (como Brock e Misty de 'Pokémon') ou relacionamentos cuja índole é ambígua e nunca explicitada (como Jesse e James, o Team Rocket do mesmo 'Pokémon'.) Feito este áparte, vamos à lista!

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E porque qualquer pesquisa deste tipo tem, inevitavelmente, de começar no mundo das séries para adolescentes, iniciamos a nossa lista com um exemplo extraído da mítica 'telenovela americana' 'Beverly Hills 90210', também conhecida como 'A Febre de Beverly Hills'. Isto porque, embora os dois parzinhos centrados no galã Luke Perry (primeiro ao lado de Jennie Garth, e mais tarde de Shannen Doherty) fossem o principal foco da série, era num dos casais 'laterais' que podíamos encontrar a verdadeira relação estável e saudável. Donna Martin e David Silver (interpretados por Tori Spelling, filha do produtor Aaron, e Ian Ziering, respectivamente) conhecem-se logo no início da série, e – à parte alguns percalços derivados da decisão de Donna em permanecer virgem até ao final do secundário – ficam juntos durante as dez temporadas da série, acabando mesmo por se casar no último episódio da mesma. Se isto não é digno de figurar numa lista de melhores casais dos anos 90, então não sabemos o que seja...

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Continuando no mundo das séries 'teen', fazemos em seguida uma viagem até ao liceu de Bayside, onde encontramos o nosso segundo casalinho-modelo: Zack Morris e Kelly Kapowski. O rebelde de Mark-Paul Gosselaar e a menina bonita de Tiffani-Amber Thiessen, principais protagonistas de 'Já Tocou!', derretiam corações no ecrã e fora dele, e a química que exibiam, mesmo nos maus momentos, fazia com que os espectadores torcessem sempre por Zack nos confrontos com o 'melhor inimigo' Slater pelo coração da jovem, ou quando os seus planos mirabolantes para levar a relação ao patamar seguinte pareciam não ter hipóteses de dar certo...

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O mundo dos adolescentes não era, no entanto, o único a possuir casais icónicos; também nas séries infantis encontramos alguns exemplos de relacionamentos memoráveis e marcantes – por vezes, nos locais menos esperados, como é o caso da relação entre Tommy Oliver e Kimberly Ann Hart em 'Power Rangers'. Sim, a série conhecida por ter personagens quase caricaturalmente assexuados e puros de coração permitiu, na sua segunda e terceira temporadas, que existisse uma relação amorosa (com direito a cenas de beijos!) entre dois dos seus heróis! As crianças, essas, não se importaram grandemente, já que os personagens de Jason David Frank e Amy Jo Johnson eram perfeitos um para o outro, pelo que o seu namoro parecia fazer todo o sentido; pena, pois, que a relação tenha acabado abruptamente, quando Kimberly partiu para uma cimeira de ginástica para não mais voltar – tendo, tempos depois, Tommy recebido uma carta a oficializar o fim do relacionamento, a pior maneira de ficar a par de algo deste tipo. Ainda assim, enquanto durou, o namoro entre os dois foi um dos pontos altos das duas excelentes temporadas de 'Power Rangers', e um marco icónico entre as relações amorosas mostradas em programas infantis da década.

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Outro casal marcante do mundo da TV infantil da época vinha, mais uma vez, de uma fonte inesperada – no caso, a série entre séries da década de 90, 'Dragon Ball Z'. Embora mais conhecida pelas intermináveis lutas super-poderosas e torneios de artes marciais, a série criada por Akira Toriyama foi, também, capaz de levar ao ecrã não um, mas DOIS relacionamentos não só plausíveis como extremamente funcionais, no caso entre o protagonista Son Goku e Kika (Chi Chi no original), a sua melhor entre a melhor amiga de Goku, Bulma, e Vegeta, 'melhor inimigo' do herói. Dois casais improváveis, mas que resultaram surpreendentemente bem, sobretudo pelo facto de as duas personalidades de ambos os casais se complementarem perfeitamente, tendo Kika a maturidade (e mau-génio) necessários para incutir sentido de responsabilidade no imaturo Goku (o qual, por sua vez, colmata o lado por vezes demasiado sério da mulher com a sua natural despreocupação e bom-humor), e Bulma compaixão e carisma social suficientes para minimizar a má impressão causada pelo seu irascível e mal-humorado marido, e trazer ao de cima o seu lado mais humano. É precisamente esta dicotomia que potencia a longevidade de ambos os casais, que permanecem juntos até ao fim da série, sendo que no caso de Goku e Kika, o relacionamento vinha já desde o fim do Dragon Ball original, quando se conheceram no Torneio de Artes Marciais.

Aqui temos, portanto, cinco exemplos de casais mediáticos dos anos 90 que, embora tenham estado longe de ser os únicos (basta lembrarmo-nos, por exemplo, de Doug e Patty Maionese, de 'Doug', ou de Dartacão e Julieta) tiveram relacionamentos bem escritos o suficiente para deixar marca entre a juventude da época, e justificarem um 'post' celebratório neste Dia de S. Valentim. E porque não vimos todas as séries que passaram na televisão na época, e como tal é bem possível que nos tenhamos esquecido de algum, ficamos abertos às vossas sugestões – quem caberia aqui, que não está? Digam de vossa justiça nos comentários. Até lá, resto de bom Dia dos Namorados!

31.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quando aqui falámos do primeiro programa infantil de sempre da TVI, 'A Casa do Tio Carlos', referimos que o mesmo tinha, inicialmente, tido dificuldade em se estabelecer como alternativa aos super-populares Brinca Brincando (da RTP) e Buereré (da SIC), e que tal desiderato só havia sido atingido depois de o bloco ter adquirido aquela que viria a ser a sua série-estandarte.

Essa série era 'Heathcliff', um 'cartoon' de inspiração declarada no então super-popular 'Garfield', mas que demonstrava originalidade e competência de execução suficientes para levar o seu público-alvo a sintonizar a TVI às tardes de semana, e para assegurar três anos de transmissão contínua no canal de Queluz - um ciclo de vida quase exactamente coincidente com o do programa de que fazia parte - bem como um regresso, já no novo milénio e em versão dobrada em Espanhol (!) nos canais infantis da TV por cabo (a razão pela qual não voltou simplesmente a ser exibida a mesma dobragem já existente não é, infelizmente, clara.)

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Heathcliff, o personagem que dava nome à série, tinha iniciado a vida como protagonista de uma série de tirinhas de banda desenhada destinadas à inclusão nos suplementos de banda desenhada dos jornais de fim-de-semana norte-americanos (os chamados 'Sunday funnies') onde, ironicamente, partilhava do mesmo espaço com a sua principal inspiração, Garfield. Ao contrário daquele gato cor-de-laranja, listrado e gordo, no entanto, ESTE gato cor-de-laranja, listrado e gordo estava mais interessado em pregar partidas ao leiteiro, ao peixeiro e ao inevitável cão da vizinhança, ou em namoriscar a não menos inevitável gatinha bonita da casa ao lado, do que necessariamente em comer e dormir – embora também fossem numerosas as piadas em torno da sua preguiça – evitando assim o rótulo de plágio total e completo, e justificando a continuidade da sua publicação, que se estendeu por várias décadas, e ainda a proposta de adaptação para desenho animado, já na década de 80.

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Uma tirinha de Heathcliff

Esta última não vinha, no entanto, sem algumas complicações; especificamente, os responsáveis por avalizar e aprovar o projecto achavam que a base das aventuras de Heathcliff era algo redutora para uma série completa de episódios animados (um meio substancialmente diferente do das 'comic strips') e que não iria captar e cativar a atenção do público-alvo. Foi, pois, considerado necessário 'incrementar' a nova série com novos elementos – uma decisão que viria a alterar completamente o espectro, recepção e percepção da mesma.

Isto porque a solução encontrada passou pela criação de um grupo de personagens totalmente inédito - um bando de gatos de rua (que incluía uma fêmea de anatomia marcadamente humana, que terá decerto inspirado muitas fantasias 'furry'), residentes num velho carro Cadillac abandonado junto a um ferro velho, e liderados por Riff-Raff, um gato atarracado, de enorme boina de ardina e lenço ao pescoço, numa espécie de cruzamento entre Scrappy-Doo (o sobrinho de Scooby) e Manda-Chuva. Este novo grupo (conhecido, na versão original, como Catillac Cats) não tardaria a roubar protagonismo ao personagem que dava nome ao programa, tornando-se, para muitos dos pequenos espectadores, o principal motivo de interesse do mesmo.

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Os novos personagens criados em exclusivo para a série

Isto porque, enquanto os episódios centrados em Heathcliff seguiam uma vertente mais próxima dos 'comics' originais, baseada em humor pastelão e frenético de moldes clássicos, Riff-Raff e o seu bando tendiam a protagonizar histórias de cariz mais voltado à aventura, e com maior ênfase na história, num estilo mais próximos dos programas que faziam sucesso à época. No entanto, tal como havia fãs de Riff-Raff e do seu bando, também havia quem apenas quisesse acompanhar as aventuras cómicas do 'gato bem disposto e educado', considerando as segundas partes de cada episódio da série apenas como um 'mal necessário'.

No cômputo geral, no entanto – e apesar das histórias algo simplistas e da animação notoriamente barata e pouco cuidada – 'Heathcliff' conseguia oferecer um pouco de tudo, aliando (ainda que nem sempre com grande fluidez) a vertente de animação mais clássica com as características necessárias a uma série dos anos 80 e 90. Sem ser um programa histórico ou até digno de especial relevo (o seu aspecto mais memorável será mesmo o irresistível genérico, interpretado por Paulo Brissos), a série representava uma forma perfeitamente válida (e não-violenta) de passar meia-hora depois da escola, e certamente despertará memórias nostálgicas, ainda que vagas, em alguns dos leitores deste blog. E para quem não se lembra, deixamos abaixo um pequeno 'activador' de memória...

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