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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.09.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O início dos anos 90 viu chegar a Portugal a febre das séries de adolescentes norte-americanas, a qual teve tal impacto entre a demografia-alvo que levou, inclusivamente, a que um dos quatro canais portugueses tentasse produzir um equivalente ‘tuga’, do qual paulatinamente falaremos; e depois de na última Segunda de Séries termos abordado o principal expoente desta febre, chega hoje a vez de examinarmos uma das duas alternativas mais cómicas à suposta seriedade de 90210. Agarrem, portanto, nas vossas roupas e acessórios mais berrantes e espalhafatosamente ‘90s’, pois está na hora de viajar até ao liceu de Bayside, na Califórnia, onde…Já Tocou!

Sim, ‘Já Tocou’, mais conhecido hoje em dia pelo seu nome original, ‘Saved By The Bell’, e que se perfilava como a resposta em formato ‘sitcom’ à ‘soap opera’ de ‘Beverly Hills 90210’. Tal como naquela série, o foco principal eram as desventuras de um grupo de jovens – estes verdadeiramente adolescentes, e como tal bem mais realistas do que os ‘vintões’ ebonecados vide Beverly Hills – durante o seu dia-a-dia numa típica escola secundária americana. Entre namoricos e confrontos com o desafortunado director Mr. Belding, a pandilha liderada pelo ‘loirinho’ de farripas Zack Morris (Mark-Paul Gosselaar) lá ia resolvendo um problema por semana, não podendo também faltar os habituais episódios especiais sobre problemáticas tão 90s como o consumo de drogas - no caso, comprimidos de cafeína, naquele que é o episódio mais memético e recordado da série.

Um dos melhores momentos de comédia involuntária da história da televisão moderna...

Tal como em outras séries deste tipo, no entanto, os enredos eram o que menos interessava; o que fazia a série resultar (e resultava) eram os diálogos cheios de ‘one-liners’ e a química entre os personagens, com destaque para o impagável Screech, o ‘totó’ do grupo, interpretado pelo malogrado Dustin Diamond, à época ainda verdadeiramente adolescente (Diamond tinha apenas 11 anos quando a série estreou nos EUA, o que torna as suas prestações simultaneamente mais naturalistas e mais impressionantes que as dos seus coadjuvantes mais velhos.) Dos restantes, destaque para Mario Lopez, o musculado Slater, e para a paixoneta de todos os jovens da altura, Tiffani-Amber Thiessen – ou antes, Kelly Kapowski, o vértice feminino do habitual triângulo amoroso, aqui com os ‘frenemies’ Zack e Slater como pretendentes.

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Os protagonistas principais da série

No fundo, pois, uma típica série de comédia juvenil norte-americana, mas que resultava muito bem, e que conseguiu o seu público em Portugal (como, aliás, aconteceu também nos seus Estados Unidos natais) aquando da sua transmissão pela TVI, em 1993-94. O mesmo, infelizmente, não se pode dizer das sequelas, das quais apenas ‘Já Tocou…Na Faculdade’ passou em Portugal, tendo um impacto e sucesso consideravelmente menores relativamente ao original, talvez porque as premissas nas quais a série se baseava não resultassem tão bem fora do contexto do secundário, ou talvez porque o público tivesse simplesmente ‘partido para outra’…

Seja como for, no entanto, é inegável que ‘Já Tocou’ – o original – foi uma série marcante para muitos jovens portugueses da primeira metade dos anos 90 (entre eles este que vos escreve) que não tinham grande ‘pachorra’ para o dramalhão de ‘90210’, e só queriam dar umas gargalhadas antes do jantar - e só isso já é´suficiente para a fazer merecer um espaço nesta série de artigos sobre séries adolescentes do ‘nosso’ tempo.

07.09.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 6 de Setembro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das principais ambições de qualquer criança é ser ‘crescido’ – o que, muitas vezes, equivale, na mente dessas mesmas crianças, a ser adolescente. De facto, a combinação única entre a falta de responsabilidades e a liberdade de actuação e pensamento que essa época normalmente representa parece, muitas vezes, constituir o balanço perfeito para uma vida agradável – pelo menos até se chegar, efectivamente, à idade adolescente, e se perceber que não é bem assim…

Ainda assim, este ideal dos anos formativos constitui uma das principais razões para o sucesso, entre os pré-adolescentes, de diversas séries direccionadas à faixa etária e demográfica directamente acima da sua; e, nos anos 90, não havia melhor exemplo deste fenómeno do que ‘Beverly Hills 90210’, que em Portugal chegou também a ser conhecido pelo título ‘Febre em Beverly Hills’.

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Produzida por Aaron Spelling, responsável por uma fatia considerável do entretenimento televisivo ‘light’ norte-americano da época, ‘Beverly Hills 90210’ não é só uma daquelas séries repletas de jovens impossivelmente atraentes, na casa dos vinte anos, a representar alunos do décimo-primeiro ano – é o ‘template’ padrão para esse tipo de séries. A par de ‘Melrose Place’ e ‘Dawson’s Creek’ (ambas da mesma época), esta foi a série que introduziu e cimentou muitos dos estereótipos narrativos que este tipo de programa viria a seguir nas três décadas seguintes; digamos que, sem ‘Beverly Hills’, algo como os ‘Morangos com Açúcar’ talvez nunca tivesse existido.

Em Portugal, a série não foi menos influente do que nos seus EUA natais – muito pelo contrário, difícil era passar uma semana sem os actores e actrizes principais da série aparecerem na capa de uma Super Jovem desta vida, em entrevista exclusiva ou simplesmente como alvo de um artigo de curiosidades pessoais. O facto de a série apresentar não um, mas dois dos maiores ídolos entre as raparigas daquele tempo – Jason Priestley e o malogrado Luke Perry – também não abonava nada a favor de quem quisesse ter menor exposição à série, o mesmo se podendo dizer das presenças femininas de Jenny Garth, Tori Spelling (filha do produtor da série) ou da eterna rebelde Shannen Doherty, aqui no papel que a lançaria para o estrelato. No cômputo geral, eram quase ‘pessoas bonitas’ a mais para conviverem todas num mesmo programa – mas a verdade é que era mesmo esse o caso, e que a fórmula resultava mesmo em pleno.

Escusado será dizer que as histórias e enredos de ‘Beverly Hills’ pouco fugiam dos padrões expectáveis de uma telenovela para adolescentes – quem andava com quem, quem acabava com quem, quem engravidava de quem, e por aí adiante. Nada que puxasse demasiado pela imaginação do público-alvo – o qual, diga-se de passagem, talvez não se importasse demasiado com o assunto. Afinal, ninguém via ‘Beverly Hills 90210’ à espera de histórias envolventes e intrigantes; a série era puro escapismo ‘wish fulfillment’ para a demografia a que se destinava – e, por arrasto, também a anterior. Prova disso foi o sucesso de que a série gozou tanto nos Estados Unidos, onde esteve no ar durante toda a década de 90, como em Portugal, onde passou durante apenas metade desse tempo (de 92 a 97) mas suscitou uma ‘Febre’ que fazia jus ao título nacional.

Tal como muitas outras séries daquela época, também 'Beverly Hills 90210’ foi alvo de um ‘remake’ contemporâneo, já no novo milénio; no entanto, se a série original já estava longe de ser uma obra-prima, a nova era ainda pior - tal como, aliás, tende a acontecer na maioria dos casos análogos.

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A sério, isto é mesmo mauzinho...

Assim, mau por mau, sugerimos que se fiquem pela série original, que (apesar de datada, ou talvez precisamente por causa disso) é bem capaz de suscitar um assomo de nostalgia que rivalize com qualquer outra das abordadas até agora neste blog…

24.08.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 23 de Agosto de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Ainda que, hoje em dia, seja acima de tudo um ‘meme’ ambulante (obrigado, Internet) nos anos 90, Chuck Norris era ainda levado (muito) a sério como herói de acção da ‘velha guarda’, à semelhança do seu homónimo Bronson – estatuto esse que permitia à ‘máquina’ de Hollywood construir toda uma série alicerçada, tão-somente, na sua aura de ‘durão’, e fazer dessa série um dos mais memoráveis sucessos da televisão da década.

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Falamos, é claro, de ‘Walker, Ranger do Texas’, o quase-western cruzado de aventura série B – ou não fosse uma produção da Cannon, famosa por esse estilo de cinema - que, durante anos a fio, marcou as tardes de fim-de-semana das crianças e jovens portugueses, sobretudo as que acompanhavam a programação da SIC, onde a série era transmitida. De 1993 a 2001, foram oito temporadas (embora nem todas tenham passado em Portugal) coroadas por um filme longa-metragem de 2005, que pôs cobro às aventuras de Cordell Walker e Jimmy Trivette, a dupla de xerifes texanos peritos em combate mano-a-mano (ou não fosse um deles interpretado por Chuck Norris) que perseguem criminosos procurados e protegem inocentes famílias do vilão da semana, ao melhor estilo ‘Esquadrão Classe A’ - sempre bem aconselhados pelo veterano ‘ranger’ C. D. Parker e pela advogada Alex Cahill.

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O pequeno mas carismático elenco da série

A fórmula pouco ou nada mudou em quase dez anos (!) de transmissão, mas também nunca deixou de ter sucesso, justificando mesmo a criação de uma série ‘remake’, agora produzida pela The CW e com Jared Padalecki (o Sam de ‘Sobrenatural’) no papel imortalizado por Norris; e embora o sucesso não tenha sido, nem de longe, semelhante, a verdade é que também esta nova série já foi renovada para uma segunda temporada…

Não haja dúvida, no entanto, que no caso de ‘Walker’, se aplica a famosa máxima da Kellogg’s relativa aos seus Corn Flakes – ‘o original é sempre o melhor’. Por muito ‘azeiteira’ que fosse – e era! – a série original traduzia-se numa excelente mistura de um conceito interessante – um ‘western’ moderno com toques de policial ‘grindhouse’ dos anos 80, e de filme de artes marciais dos 90 – com um herói carismático e bem do agrado do público-alvo. Sendo esta uma fórmula ‘feita’ para ter sucesso nos anos 90, não se afigura de todo surpreendente que tenha sido exactamente esse o caso; já em pleno século XXI, com as mentalidades e valores totalmente alteradas em relação à referida época e uma oferta televisiva e de séries vastamente alargada, um programa algo ‘antiquado’ e ‘de época’ como ‘Walker’ terá mais dificuldades em se impor ou se tornar memorável – ainda que a corrente apetência para a nostalgia possa fazer com que o original continue a ser visto como objecto de culto. Para já, a série de Norris vai passando na RTP Memória, dando aos mais curiosos ou saudosistas a oportunidade de ver se aquela série mítica da sua infância é das que resiste à passagem do tempo, ou se, afinal, a aura 'cool' que a parecia rodear à época não passava de um ‘sintoma’ da infância…

09.08.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

 

Sim, este é um daqueles posts – como o dos Ficheiros Secretos – que tem mesmo de começar com a música de abertura da série a que diz respeito. Isto porque, para uma determinada faixa da população nacional, a referida música é talvez o mais icónico tema de abertura da sua infância, encontrando pares apenas em Dragon Ball Z, Power Rangers e nos próprios Ficheiros Secretos em termos de longevidade nostálgica para as crianças da época.

E o melhor é que a série em si, embora não tão memorável ou ‘viciante’ como a música que a abria, também não deixava nada a desejar a muitas produções bem mais ‘caras’ da época; antes pelo contrário, tanto o programa original como a sua ainda mais famosa sequela ofereciam uma adaptação divertida de material literário clássico, com o qual muitas crianças provavelmente nunca teriam tido contacto, não fora o estatuto de fã incondicional de um director de animação espanhol.

O referido realizador, e criador da série, Claudio Biern Boyd, foi inspirado pela sua paixão pela obra de Alexandre Dumas, em particular ‘Os Três Mosqueteiros’, a desenvolver uma versão da história que agradasse a um público jovem mais contemporâneo – daí a opção por transformar os personagens em cães, um animal de que quase todas as crianças naturalmente gostam. Com a ajuda de uma companhia de animação japonesa, o conceito de Boyd viria a tornar-se realidade ainda em inícios dos anos 80, tendo ‘Dartacán y Los Tres Mosqueperros’ estreado na TVE espanhola em 1982; e o mínimo que se pode dizer é que a intuição inicial de Boyd estava absolutamente correcta – a série foi um sucesso imediato, tanto em Espanha como em Portugal, onde viria a estrear pouco depois, e em vários outros países pelo Mundo fora.

O sucesso tão-pouco se ficaria por aí; antes pelo contrário, o êxito estrondoso do seu conceito inicial inspiraria Boyd a conceber uma sequela, a qual viria a surgir já na década seguinte, a tempo de cativar tanto o público da série original como uma nova fornada de crianças, ainda pouco familiarizadas com o perdigueiro cinzento de roupa vermelha e os seus ‘bons companheiros’ - o bravo Dogos, o bonacheirão Mordos e o vaidoso Arãomis.

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O quarteto de heróis da série

É essa série, explicitamente intitulada ‘O Regresso de Dartacão’, que mora na imaginação da esmagadora maioria das crianças portuguesas da década de 90, não só pelo seu tema de abertura modelo ‘pastilha elástica’, como também pela animação dinâmica (agora a cargo de uma companhia da Formosa, a conhecida Wang Productions) e personagens memoráveis, com especial destaque para os ‘maus da fita’, o Cardeal Richelieu e a gata Milady. A sequela introduzia, ainda, os filhos de Dartacão e da ‘predilecta do seu coração, Julieta – os quais, à boa maneira dos desenhos animados da época, saíam cada um ao progenitor do respectivo sexo, com o rapaz a assemelhar-se a Dartacão e a menina a Julieta. (Também aqui, aliás, a série mostrava mestria, ao conseguir criar personagens infantis que não faziam o espectador querer estrangulá-los ao fim de dois segundos no ecrã.)

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Os filhos de Dartacão e Julieta

Em suma, uma série memorável por fazer tudo bem, que merece o seu lugar na curta mas interessante História da animação ibérica, e que viu recentemente o seu legado prolongado (ou antes, revivido) por um filme em animação CGI, estreado há poucas semanas nos cinemas lusitanos.

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O cartaz do novo filme, estreado em Julho de 2021

Não deixa, por isso, de ser atempada esta nossa homenagem a uma daquelas séries de que TODOS nos lembramos, e que rapidamente vem à conversa sempre que o tema se volta para a nostalgia sobre a ‘nossa’ época. ‘DARTACÃO, DARTACÃO, CORRENDO GRAN-DES PERI-GOOOOOS / DARTACÃO, DARTACÃO, PERSEGUEM OS BAN-DI-DOOOOOS…

26.07.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quantas mascotes de eventos desportivos conhecem que tenham a sua propria série animada, com personagens criados propositadamente e até um antagonista? Caso tenham sido crianças, em Portugal, no Verão de 1992, é provável que a resposta seja ‘pelo menos uma’.

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Isto porque Cobi, a simpática mascote de Barcelona 92 que era uma representação minimalista de uma raça de cão local, teve uma breve mas bastante honrosa passagem pelas ondas de UHF, na forma de ‘The Cobi Troupe’, uma série de 26 episódios que via o personagem e um grupo de amigos embarcar em aventuras e estragar os típicos planos malévolos do vilão, o Dr. Normal. Uma premissa algo rebuscada para uma mascote olímpica – seria talvez mais de esperar algo ao estilo Sport Billy – mas que funcionou bastante bem no contexto de curta duração da série.

Em termos técnicos, ‘The Cobi Troupe’ era bastante bem conseguido; a animação era fluida, os personagens tinham um estilo próprio – típico do seu criador, Mariscal – e as histórias, apesar de não serem particularmente originais ou memoráveis, eram divertidas o suficiente para passar o tempo. Isto, claro, sem esquecer o genérico, que era daqueles que ‘cola’ no cérebro durante literalmente décadas, e que provavelmente se irão encontrar a trautear, um belo dia, vinte anos depois de terem visto a série pela última vez…

Em suma, para série declaradamente ‘cash-in’ de um evento específico, com um contexto específico, e que não tinha qualquer hipótese de perdurar para lá do fim do mesmo, ‘The Cobi Troupe’ é melhor do que tinha qualquer direito de ser, e muito melhor do que teria precisado de ser. E embora a sua passagem pela TV portuguesa (na RTP, no ano da olimpíada, em versão original) não tinha sido particularmente memorável (à parte o genérico) em Espanha, a animação deu origem a uma mini-série de revistas aos quadradinhos, com seis números, e até a um CD de músicas alusivas a Cobi e aos Jogos Olímpicos!! (Com sorte, tinha a música do genérico da série, que era mesmo muito boa…) Enfim, nada mau para um membro de um grupo de personagens que muito raramente é lembrada durante os eventos que representam, quanto mais depois deles…

Desculpas antecipadas pela má qualidade de imagem...

12.07.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

 

Este é mais um daqueles posts que se podia perfeitamente ficar pelo vídeo reproduzido acima, e decerto não deixaria de ter impacto junto dos leitores deste blog; este tema, como os de Dragon Ball Z ou Power Rangers, é daqueles que é ASSIM TÃO icónico para a nossa geração, e que fará qualquer jovem dos anos 90 recordar onde e quando o ouviu pela primeira vez.

A série a que pertence (ou pertencia) não é, no entanto, menos lendária ou memorável – pelo contrário, o tema e o programa estavam bem um para o outro. Tratava-se, como é evidente, de ‘Ficheiros Secretos’, a série que apresentou ao mundo o duo de David Duchovny e Gillian Anderson, duas estrelas em potência que, infelizmente, nunca confirmaram o potencial que demonstravam como co-estrelas deste lendário programa.

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A icónica dupla de protagonistas da série

Criada em setembro de 1993 por Chris Carter – um nome, a dada altura, não menos mítico do que o da própria série – ‘Ficheiros Secretos’ demorou menos de um ano a chegar a Portugal (uma raridade à época), tendo estreado na TVI em 1994, a tempo de cativar toda uma geração de jovens com a sua mistura de enredos sobrenaturais e de terror a uma típica série policial e de mistério – uma mistura que ajudava, e muito, a tornar o programa original, e a fazê-lo destacar-se de uma concorrência que, já na altura, jogava demasiado pelo seguro. Mulder e Scully viam-se, semanalmente, a braços com estranhas ocorrências, as quais, invariavelmente, acabavam por envolver fantasmas e/ou extraterrestres – por muito que a Scully de Anderson teimasse em manter o seu cepticismo empedernido, mesmo depois de duas temporadas inteiras de fenómenos deste tipo. Já o Mulder de David Duchovny seria, hoje, inevitavelmente tachado de ‘teórico da conspiração’ – ainda que os seus palpites e o seu ‘querer acreditar’ se acabassem sempre por revelar acertados. Junte-se a esta interessante dicotomia a óbvia química exibida pelos dois actores (que chegaram mesmo a ser um casal em consequência do seu trabalho na série) e o que temos é mesmo uma grande maneira de passar uma noite de sexta-feira.

E sim, dissemos ‘noite’, pois embora ‘Ficheiros Secretos’ fosse extremamente popular entre crianças e jovens, a verdade é que era transmitido já depois da ‘hora da cama’, obrigando muito do seu público a ficar acordado – aberta ou clandestinamente – para conseguir ver cada novo episódio. Valia o facto de no dia seguinte ser fim-de-semana…

E como qualquer programa de sucesso entre a miudagem, ‘Ficheiros Secretos’ deu origem a variado ‘merchandise’, de filmes originais (lançados no cinema!) à inevitável reedição de episódios em DVD, e das habituais t-shirts a números especiais de revistas como a ‘Super Jovem’, e até – famosamente – um daqueles jogos de cartas que, não se chamando ‘Magic: The Gathering’, nunca eram coleccionados (e muito menos jogados) seja por quem fosse. Em suma, sem ser uma força da natureza como os outros programas referidos no início deste texto, ‘Ficheiros Secretos’ tinha um lugar confortável nas preferências dos jovens (fossem portugueses ou estrangeiros) tendo, inclusivamente, ajudado a lançar a ‘febre’ dos extraterrestres, e a reavivar a dos fantasmas.

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Um dos muitos livros inspirados pelo sucesso da série

Infelizmente, mais uma vez, a velha máxima de que ‘tudo o que é bom acaba’ se provou acertada em relação a esta série, a qual – a partir da quarta temporada – decidiu retirar o foco do sobrenatural para se transformar em ‘só mais uma’ série sobre traições e espionagem; e o mais irónico é que o ‘arauto’ dessa viragem foi um personagem que muitos estavam desejosos por conhecer, após a série ter criado um enorme e aliciante mistério à sua volta. Infelizmente, quando se revelou a Mulder e Scully, o ‘Cigarette Smoking Man’ acarretou consigo o início do fim daquela que houvera sido uma série excelente, precisamente, por ser original. Daí para a frente, foi sempre a decrescer em termos de interesse, até já ninguém sequer saber que ‘Ficheiros’ ainda estava no ar, e muito menos se interessar. Uma pena, visto a série ter potencial para se ter tornado ainda mais lendária entre a geração que entrava na adolescência em finais dos anos 90. Mesmo com este desaire, no entanto, não a podemos considerar menos do que histórica entre a juventude portuguesa – e, como tal, bem merecedora de um lugar na rubrica sobre séries deste blog explicitamente nostálgico…

 

02.07.21

NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 28 de Junho de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Hoje em dia, quando se fala em clones dos lendários Simpsons, a primeira série que vem à cabeça é ‘Pai de Família’. No entanto, esta não foi, nem por sombras, a primeira tentativa de emular a super-popular série de Matt Groening; pelo contrário, os anos 90 viram surgir inúmeras séries exactamente nos mesmos moldes de ‘Os Simpsons’, apenas com uma ligeira mudança. No fundo, uma situação semelhante à daqueles filmes descritos como ‘Assalto ao Arranha-Céus mas com…’, só que neste caso relativa a séries – uma situação, aliás, semelhante à que se verificava, na mesma altura, relativamente aos ‘clones’ de ‘Tartarugas Ninja’.

Um dos mais populares de entre esta vaga de ‘imitadores’ de ‘Os Simpsons’ era uma série produzida em início dos anos 90 pela Jim Henson Television, em parceria com a Disney, e cujo conceito se pode resumir como ‘Os Simpsons, mas na pré-história’. Falamos, claro, de ‘Os Dinossauros’, uma ‘sitcom’ criada através de uma mistura de fantoches estilo ‘Marretas’ e actores dentro de fatos de borracha, que também se poderia descrever como ‘Os Flintstones, mas com dinossauros’.

Estreada nos Estados Unidos em 1991 e em Portugal no ano seguinte, em versão dobrada e com transmissão nas tardes de fim-de-semana da RTP, ‘Os Dinossauros’ segue as peripécias diárias dos Sinclair, uma família de classe média composta pelo pai, Earl, a mãe, Fran, e três filhos: os adolescentes Robbie e Charlene, e a ‘estrela da companhia’, o descritivamente nomeado Bebé (inicialmente baptizado, devido a uma situação insólita, como Ai, Ai, Estou a Morrer Seu Idiota Sinclair). Ou seja, exactamente a mesma estrutura de uma outra família televisiva da mesma época, só que com pele verde em vez de amarela…

(Curiosamente, segundo os produtores, Jim Henson teria desenvolvido o conceito de ‘Os Dinossauros’ ainda antes da estreia de ‘Os Simpsons’; no entanto, o ‘timing’ da estreia, no auge da popularidade da série de Matt Groening, torna inevitáveis as comparações e acusações de ‘cópia’.)

A verdade, no entanto, é que ‘Os Dinossauros’ TINHA algumas diferenças em relação a ‘Os Simpsons’. Para começar, o agregado familiar dos Sinclair incluía também a mãe de Fran, Zilda (no original, Ethyl), uma típica ‘sogra do pior’, sempre a atormentar Earl do conforto da sua cadeira de rodas; depois, Earl trabalhava num estaleiro de desflorestação, por oposição a uma central nuclear, como ‘um outro’ careca, ou a uma pedreira, como o ‘quase-contemporâneo’ Fred Flintstone; por fim, o facto de os filhos do casal serem mais velhos do que os das outras famílias (quer os ainda bebés Pedrita e Bam-Bam, quer os estudantes primários Bart e Lisa) permitia alguma variedade nas histórias em relação às suas duas inspirações.

Também pode ser considerado que, ao mostrarem um casamento entre duas espécies diferentes de dinossauro, os produtores estavam inconscientemente a transmitir uma mensagem sobre tolerância inter-racial – embora nada disso explique o facto de TODOS os dinossauros da família (excepto Earl e o Bebé) serem de espécies diferentes, mesmo os que são filhos uns dos outros! Poder-se-ia, claro está, debater que essa incongruência é, em si mesma, uma piada – nomeadamente, uma alusão a Fran ter tido casos extra-conjugais que resultaram no nascimento de Robbie e Charlene – não fosse o facto de a própria Fran ser filha de uma espécie de dinossauro completamente diferente da sua! Ou havia muitos casos extra-maritais na pré-história, ou este era mesmo um daqueles absurdos em que ninguém pensou antes de encetar o processo de pré-produção…

À parte estas diferenças intencionais ou acidentais, no entanto, tudo o resto - das dinâmicas familiares, a algumas das situações, ao facto de Earl ter um grupo de amigos no trabalho, exactamente como Homer com Lenny e Carl, à sua relação com o chefe, Sr. Richfield, decalcada da de Fred Flintstone com o Sr. Slate - ‘tresanda’ às duas principais inspirações da série – o que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso da série, tanto nos seus Estados Unidos natais como, mais tarde, em Portugal.

A outra parte desse sucesso deve-se àquela que, ainda hoje, continua a ser a parte mais memorável desta série, nomeadamente as ‘catchphrases’ dos diversos personagens. Quem se lembra de, ali por volta de 1992, gritar no recreio ‘Queridaaa, chegueeeei!’ ou ‘Não és a Mamã!’ (enquanto fingia agredir a outra pessoa com um golpe de caçarola na cabeça) certamente saberá do que estou a falar. No que toca ao público infantil, estes dichotes (e os constantes e hilariantes ataques do Bebé ao pai) eram, praticamente, razão suficiente para ver a série, porque mesmo quando os episódios eram de compreensão mais obscura ou adulta, havia sempre estes ‘bordões’ aos quais se agarrar para rir um bocado.

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Eh, eh, eh...ainda hoje tem piada...

Como resultado desta tendência, o Bebé, em particular, tornou-se um personagem extremamente popular - uma espécie de Bart Simpson de fraldas, com toda a irreverência e jeito para a frase-feita deste, mas de uma perspectiva algo mais inocente. Era, aliás, nele que se centrava o pouco ‘merchandise’ alusivo à série que chegou a Portugal, com particular destaque para o jogo de tabuleiro, precisamente intitulado 'Não És a Mamã!’, e cujo objetivo envolvia arranjar comida para o membro mais novo da família.

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Mas existem Funkos...porque CLARO que existem Funkos 

Enfim, apesar de não ter ficado no ar muito tempo (pelo menos em Portugal – nos EUA, teve várias temporadas) ‘Os Dinossauros’ conseguiu ser uma série bem memorável para a juventude da altura, e deixar a sua marca num dos períodos áureos da televisão infanto-juvenil em Portugal. Nada mau, para um clone de segunda linha dos Simpsons…

15.06.21

NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 14 de Junho de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A imagem é icónica – um jovem adolescente, de cabelo pontiagudo, conduz a bola por um campo interminável afora, aproximando-se de uma baliza que vai, gradualmente, aparecendo no horizonte. Uma vez as redes à vista, o mesmo desfere um potente remate; o guarda-redes adversário estica-se, mas em vão – a bola ultrapassa-o, em arco, e anicha-se literalmente nas redes, por vezes chegando mesmo a furá-las, tal a violência do tiro.

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Podem começar já a festejar...este já lá mora

A cena é, claro, retirada de ‘Captain Tsubasa’, quiçá a mais famosa série animada sobre futebol de todos os tempos, e uma velha conhecida das crianças portuguesas de finais do século XX e inícios do XXI. Isto porque, ainda antes da memorável transmissão, no canal Panda, da dobragem espanhola de ‘Captain Tsubasa J', e das subsequentes (e múltiplas) transmissões da série original e de ‘Road to 2002’ com dobragem portuguesa, sob o título ‘Oliver e Benji - Super Campeões’, a primeira encarnação da série já havia passado nas RTPs, no início da década de 90, com o título ‘Capitão Hawk’ - uma ‘mais ou menos tradução’ do título original da série – e na sua versão original em japonês. Ou antes, os primeiros 50 e poucos episódios passaram em japonês (na RTP1); a partir do episòdio 54, a série passa para a RTP2, e é, inexplicavelmente, transmitida na dobragem italiana!

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Cena-título do genérico da série original de 'Captain Tsubasa', transmitida na RTP em 1993

Ainda assim, este foi, para muitas crianças, o primeiro contacto com uma das mais míticas séries da primeira vaga de anime – contacto que se viria, posteriormente, a restabelecer aquando da transmissão da série no Panda (a ‘reprise’ na SIC e TVI já foi mais relevante para a geração seguinte do que propriamente para a que seguira a série em 93-94.)

O que muitos dos jovens fãs de Tsubasa talvez não soubessem (ou que entretanto podem ter esquecido) é que houve, durante os anos a que este blog diz respeito, várias outras séries sobre futebol a passar na televisão portuguesa – nenhuma, obviamente, com o nível de sucesso de Oliver, Benji e seus companheiros, caso contrário seriam recordadas até hoje. Ainda assim, em tempo de Europeu, vale a pena recordar estes desenhos animados, ainda que nenhum deles fizesse referência a esta competição ou fosse sequer feito neste continente.

E já que iniciámos este post com uma referência a Oliver e Benji, nada melhor do que continuar com uma breve alusão a uma série que pouco ou nada tinha a ver com esta. Senão veja-se – ‘O Ponta de Lança’ (no original ‘Ganbare, Kickers!’ trata de uma equipa de futebol de um colégio, que tenta a todo o custo não ser o ‘bombo da festa’ dos torneios inter-escolas, até se ver reforçada com um estudante de intercâmbio com algum jeito para a coisa, e que revoluciona o estilo de jogar do colectivo, bem como as suas ‘performances’ em campo. Ah, e o capitão e líder desta equipa é o guarda-redes, o único outro elemento com algum talento. E o dito guarda-redes usa boné. E o titular ponta-de-lança tem cabelo preto espetado. E o equipamento da equipa é branco. NADA a ver com ‘Tsubasa’, portanto…

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Qualquer semelhança é pura coincidência...

Sarcasmos à parte, ‘O Ponta-de-Lança’ é TÃO parecido com ‘Super Campeões’ que um espectador mais distraido corre mesmo o risco de confundir as duas séries. Previsivelmente, esta táctica declaradamente ‘copycat’ (‘Tsubasa’ foi criado em 1981 e transformado em anime em 1983; ‘Kickers’ é de 1985, e a versão anime, do ano seguinte) não se traduziu em sucesso, tendo a série tido apenas uma temporada, de 26 episódios, e passado quase despercebida pela RTP1, sensivelmente um ano depois de ‘Tsubasa’ ter sido transmitido na mesma emissora (até aqui o padrão se manteve!), sem no entanto conseguir suprir a lacuna deixada pela partida de Oliver e Benji.

E já que falamos em animes de futebol, uma breve nota para recordar ‘I Ragazzi del Mundial’, ou ‘Soccer Fever’ (o título português era algo como 'A Febre do Mundial de Futebol'), uma co-produção entre o Japão e a Itália alusiva ao Mundial de 1994, e a única das séries aqui abordadas a ter ligação directa a uma prova real do mundo do futebol, ainda que não ao Campeonato Europeu.

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As personagens principais de Soccer Fever, de 1994

Nela, um jornalista reformado aproveita o entusiasmo do jovem neto pela prova em causa para recordar as peripécias que vivera mais de 60 anos antes, durante a cobertura do Mundial de 1930. Estas histórias serviam, então de pretexto para dar lições de ‘história ficcionada’ sobre a prova do início do século, numa espécie de ‘Horrible Histories’ futebolístico. Uma série bem escrita, bem animada e com um grande tema de abertura, mas que por qualquer razão passou despercebida aquando da sua transmissão no Canal Panda, em finais da década de 90 – e escusado será dizer que pelo menos essa transmissão portuguesa se insere na cada vez mais vasta categoria de Esquecidos Pela Internet…

Uma série com ESTE tema de abertura não merece cair no esquecimento...

O mesmo, aliás, se pode dizer da última série abordada neste post. Transmitida no Batatoon com o genérico título de ‘Histórias do Futebol’, afirmava-se como a verdadeira trasladação do conceito de ‘Horrible Histories’ para um contexto futebolístico, apresentando as viagens através do tempo de um locutor de futebol escocês (de boina e kilt – afinal, estávamos nos anos 90…) e do seu microfone, que tinha vida própria. Em cada episódio, este duo visitava uma época diferente da História (daí a parecença com Horrible Histories) para assistir a uma partida de futebol entre equipas convenientemente ‘adaptadas’ ao período em causa, durante os quais havia ensejo de realçar e explicar uma das regras oficiais do jogo (daí a tradução inglesa do título como ‘Official Rules of Football’.)

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Esta era, também, uma série bastante boa, sem ser nada de extraordinário; no entanto, nos dias que correm, a mesma parece ter sido quase totalmente esquecida pelos internautas, a ponto de haver exactamente UM tópico em toda a Internet lusófona que a recorda – e episódios, só em Inglês, naturalmente...

Como tema de abertura, este também não é nada mau...

Mesmo esquecidas como hoje em dia são (com a óbvia excepção de ‘Tsubasa’ que, qual fénix, regressa de tempos a tempos para cativar mais uma geração de jovens adeptos) vale a pena fazer menção a estas séries, que procuravam unir duas das principais paixões das crianças, sejam de que época forem. É de lamentar, pois, que apenas uma o tenha conseguido – se bem que, no fim das contas, uma seja melhor do que nada…

31.05.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O primeiro post 'a sério' deste blog, precisamente uma Segunda de Séries, foi dedicada à série de ‘anime’ mais vista de sempre em Portugal, 'Dragon Ball Z'. O post de hoje é dedicado à segunda colocada nessa ‘corrida’ em particular, a saga de um espadachim a soldo no Japão medieval e dos seus companheiros – uma jovem decidida, um órfão pré-adolescente e um ex-soldado do exército japonês. O seu nome? 'Rouronin Kenshin', mais frequentemente conhecida como 'Samurai X'.

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Originalmente produzido entre 1995 e 96, o relato animado das aventuras de Kenshin Himura ‘Battousai’ – o Samurai do título –  chegaria a Portugal já ao ‘cair do pano’ do século XX (e do segundo milénio), ainda a tempo de cativar toda uma geração de jovens, e de aumentar exponencialmente a média de idades dos espectadores do progama onde estreou, o Batatoon. De facto, o ‘anime’ foi das poucas séries de índole mais séria veiculadas pelo popular segmento infanto-juvenil da TVI, e a sua colocação na grelha do mesmo - onde era o primeiro desenho animado a ser exibido - fazia com que muitos dos espectadores mais velhos, pouco ou nada interessados no programa em si, dessem um ‘saltinho’ ao quarto canal durante a meia-hora que durava a série, e mudassem para outra emissão logo a seguir. Quanto aos mais novos – o público-alvo do Batatoon propriamente dito – a série era, para eles, não menos cativante, especialmente pelo seu carácter mais violento (embora em moderação) relativamente aos restantes ‘animes’ transmitidos em Portugal à época, como Sailor Moon.

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O memorável grupo de personagens principais da série.

Este apelo transversal, e quase universal, devia-se a um simples factor: ‘Samurai X’ estava muito, mas mesmo muito bem feito. O material original já era, em si mesmo de grande qualidade – bem escrito, com animação fluida e excelentes temas de abertura e, principalmente, fecho – e a dobragem portuguesa ainda adicionava mais charme ao todo, sendo universalmente considerada uma das melhores e mais cuidadas alguma vez feitas no nosso país (neste aspecto em particular, ‘X’ era o exacto oposto de ‘Dragon Ball Z’, que ficou bem conhecido pela sua ‘gag dub’ maioritamente improvisada.) Os enredos eram empolgantes (e apropriados a todas as idades, o que também não deixava de ser raro) e o esforço de todos os envolvidos com a tradução e localização da série era evidente a cada episódio. Os jovens – que, ao contrário do que normalmente se pensa, são tudo menos parvos – reconheceram essa dedicação, e transformaram ‘Samurai X’ num ‘hit’ de culto, longe da popularidade estratosférica de ‘Dragon Ball Z’, mas ainda saudosamente recordado pela maioria dos ‘putos’ daquela época.

Embora não caísse nos extremismos de 'Dragon Ball Z', 'Samurai X' deixava lugar aos momentos de humor semi-improvisados.

Com a dose certa de mistério, aventura, acção e um toque de humor bem característico, ‘Samurai X’ merece o lugar que ainda ocupa entre os ‘otakus’ portugueses crescidos nos anos 90 – e que, mesmo desde então, apenas ‘Naruto’ conseguiu ameaçar…

Os temas de abertura e fecho do 'anime' ,tão cuidados e memoráveis como os restantes aspectos técnicos

17.05.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

E se a última edição desta rubrica foi dedicada a um dos desenhos animados mais emblemáticos da ‘nossa’ década – as Tartarugas Ninja – hoje falamos de uma série que não só explora um conceito muito próximo, mas é também das mais mencionadas entre os entusiastas deste nosso blog: os Moto-Ratos de Marte.

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À primeira vista, o conceito-base desta série pode parecer uma cópia mais ou menos descarada dos referidos Heróis de Meia-Casca; estas críticas são, no entanto, infundadas, pois a série pouco tem a ver com aquele mega-sucesso de ‘merchandising’. Senão vejamos – ESTA série trata de ratos (e NÃO tartarugas) antropomórficos (de origem, logo, sem mutação nenhuma) oriundos de outro planeta (e portanto, sem nada a ver com lojas de animais em Nova Iorque) e que gostam de andar de mota (por oposição a comer pizza) e cujos adversários são outra raça extraterrestre (ou seja, de outro PLANETA, e não de outra DIMENSÃO.) Nada a ver, portanto. O facto de os referidos personagens serem jovens, se expressarem em calão radical dos anos 90 e terem uma amiga e aliada humana é, claro, mera coincidência – quem diz o contrário, é porque é má-língua.

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Nada a ver uns com os outros, realmente... 

Fora de brincadeiras, a verdade é que esta criação de Rick Ungar deriva forte inspiração da congénere de Eastman e Laird (tal como, aliás, acontecia com várias outras ‘cópias’ mais ou menos descaradas da época, como Street Sharks.) A data de criação do conceito (em 1993, no auge da Tarta-Mania) não deixa, aliás, quaisquer dúvidas quanto à intenção de ‘Biker Mice From Mars’ – isto, claro está, se o próprio conceito do ‘cartoon’ e os ‘designs’ dos personagens não as tivessem já dissipado. ‘Moto-Ratos’ queria mesmo ser o novo ‘Tartarugas Ninja’ – e embora nunca o tivesse conseguido (como, aliás, nenhum destes ‘clones’ conseguiu), foi mesmo a que chegou mais perto, tendo conseguido conquistar o público infantil em vários países, entre eles Portugal, e até vender algum ‘merchandise (por aqui, por exemplo, há uma vaga memória de um boneco do personagem cinzento ‘habitar’ lá por casa.) Este sucesso talvez se devesse ao facto de, para esse mesmo público-alvo, as semelhanças com as Tartarugas Ninja serem uma vantagem, e não um defeito; isto, claro, para além do puro ‘cool factor’ de três ratos espaciais gigantes de 'jeans' e armadura, montados em Harley-Davidsons, a desviarem-se de tiros de 'laser' disparados por extraterrestres - um conceito que fica muito perto do ideal de acção de qualquer miúdo pré-adolescente.

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Aos dez anos de idade, esta é uma daquelas coisas que grita 'FIXE' em maiúsculas

Como já devem ter percebido – aqueles que nunca viram a série, pelo menos – a premissa-base deste ‘cartoon’ era ainda mais pateta do que a da maioria das séries deste tipo – o que, por si só, já é um feito. No entanto, enquanto o espectador adulto pondera exactamente PORQUE é que o ‘hobby’ destes ratos de MARTE era guiar um modelo específico de veículo produzido e encontrado NA TERRA, para o público-alvo, isso pouco interessava – ‘Moto-Ratos’ tinha acção, tiros, piadolas radicais, e personagens com um visual ‘cyberpunk’ estilo ‘Mad Max’ que estava também ainda muito em voga à época. Ou seja, a receita perfeita para ser um sucesso de audiências e vender muito ‘merchandising’ licenciado – objectivos que ‘Biker Mice’ conseguiu atingir, ainda que nunca chegasse ao limiar de ser uma ‘febre’, como a série que procurava emular. Este era, ‘apenas’, um desenho animado ‘fixe’ – o que, feitas as contas, nem é uma coisa má de se ser…

E vocês? Viam os Moto-Ratos? Que recordações guardam desta série? Partilhem nos comentários! E para vos avivar a memória, aqui fica o genérico inicial, tal como era transmitido na SIC nos idos de 1994...

 

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