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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.04.24

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Na última edição das Sextas com Style, falámos das 'pulseiras da sorte' brasileiras, um marco do visual jovem nos anos da viragem do Milénio; nada melhor, pois, do que, num Sábado de sol e calor, realizarmos uma Saída até aos espaços onde estas e outras peças podiam ser encontradas: as feiras de artesanato.

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Um mercado do género, no Porto.

Realizadas de Norte a Sul do País ao longo de todo o ano - sobretudo nos meses de Verão, quando podiam ser organizadas no exterior – e, muitas vezes, até permanentes, este tipo de feiras ofereciam uma excelente forma de 'matar' alguns minutos, ou até horas, numa tarde de fim-de-semana. Isto porque, quer se acabasse ou não por adquirir alguma coisa, era sempre agradável passear entre as bancas e simplesmente admirar os produtos em exposição, fossem eles as referidas pulseiras e outros adereços, muitas vezes criados à mão no próprio local, ou algo mais complexo, como objectos em couro ou madeira, muitos deles tradicionais de países africanos, asiáticos ou do médio oriente (embora nem sempre exactamente artesanais), e vendidos por naturais dessas mesmas regiões, o que permitia também ficar a conhecer outras culturas e a sua arte de forma relativamente em conta.

Quer se fosse lá apenas comprar adereços ou usufruir desta vertente mais expositiva e cultural, no entanto, as feiras de artesanato eram, e continuam a ser, uma aposta segura para uma Saída de Sábado simples e capaz de entreter toda a família. De facto, embora algo diferentes das suas 'versões' de alturas da viragem do Milénio, este tipo de eventos continua a ter, regularmente, lugar um pouco por todo o território nacional, permitindo aos mesmos homens e mulheres que os visitaram enquanto jovens proporcionar aos seus próprios filhos, familiares ou amigos mais novos uma experiência semelhante à que terão vivido quando eles próprios eram crianças, e manter viva a prática das vendas de artesanato de rua em fins-de-semana de sol.

13.01.24

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Na última Sessão de Sexta, falámos dos ciclos e mostras de cinema independente, bem como das salas que escolhiam prescindir dos maiores êxitos de bilheteira para divulgar este tipo de filmes, por intermédio de distribuidoras como a Medeia Filmes. Nada melhor, portanto, do que dedicarmos a Saída deste Sábado a explorar um pouco mais a fundo esses espaços emblemáticos de finais do século XX, e – infelizmente – praticamente desaparecidos nos dias que correm.

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Normalmente situadas nos locais mais insuspeitos – em ruas residenciais ou paralelas às grandes artérias urbanas, caves de centros comerciais de bairro, ou até no interior de instituições e centros culturais – estas salas mais pequenas e independentes tinham, normalmente, em comum o clima e atmosfera no seu interior, que remetia a tempos mais clássicos, com poucos lugares, o ecrã muito próximo até mesmo das filas de trás, e aquele silêncio quase reverente que as gerações anteriores ao aparecimento dos 'multiplex' se habituaram a associar com a experiência de ir ao cinema. Este claro contraste com as luzes, ruído e banca de pipocas e refrigerantes das referidas salas de 'shopping', coadunava-se com a própria oferta de filmes, sendo as obras exibidas neste tipo de cinema, regra geral, mais intimistas e menos 'bombásticas' do que os típicos filmes de Verão ou Natal.

Não quer isto dizer, é claro, que um ou outro desses filmes não surgisse nos cinemas em causa, sendo que os filmes da Disney, em particular, tendiam a ser exibidos nestes espaços. Mesmo nesses casos, no entanto, estas salas marcavam a diferença, normalmente através da exibição da versão legendada, por oposição à dobrada, mantendo assim a vertente mais inteligente e intelectual que as caracterizava, ao mesmo tempo que se estabeleciam como a única escolha para quem quisesse ver os filmes em versão original, atraindo assim uma quota-parte garantida de público.

Infelizmente, o advento do DVD, e a maior diversificação dos lançamentos em formato caseiro – que passaram a incluir muitos títulos independentes e 'de autor', antes totalmente inacessíveis fora do contexto de salas deste tipo – veio ditar o 'início do fim' dos cinemas independentes, que passariam as duas décadas seguintes a definhar numa triste 'morte lenta', até ao inevitável fecho e reconversão em qualquer outro tipo de negócio. Como consequência, hoje em dia, apenas um número irrisório de entre todas as salas deste género existentes no País à época se encontra ainda em actividade, tendo as mostras e ciclos de cinema passado, quase exclusivamente, para as cinematecas e instituições culturais como a Culturgest, em Lisboa – p que não invalida que as salas em causa vivam na memória de quem nelas assistiu a muitos e bons filmes que, de outra forma, talvez nunca tivesse visto, justificando assim a sua escolha como destino para a primeira Saída de Sábado do ano de 2024.

25.02.23

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Qualquer criança ou jovem dos anos 90 apreciava uma boa ida às compras, fosse com familiares ou, quando mais velho, com os amigos. O aparecimento, durante a referida década, de estruturas como os 'shoppings' e os hipermercados ajudava a tornar essa experiência ainda mais entusiasmante, oferecendo uma alternativa aos supermercados, drogarias, centros comerciais de bairro e lojas tradicionais de brinquedos, desporto, roupa ou discos e vídeos que formavam o 'itinerário' da maioria destes passeios. No entanto, qualquer que fosse o destino, havia sempre o problema de o dinheiro – da mesada, semanada, economias, ou simplesmente oferecido pelos pais no próprio dia – raramente chegar para o que se queria comprar; os mais pequenos, em especial, ficavam inevitavelmente 'reféns' das possibilidades e disposição dos pais no que tocava a levar para casa um 'presente' simbólico para recordar a viagem.

Ainda na primeira metade da década de 90, no entanto (bem antes do advento das grandes superfícies) um novo tipo de loja veio ajudar a resolver esse problema, oferecendo uma enorme variedade de produtos a um preço fixo e – mais importante – acessível aos bolsos e carteiras infantis – a princípio, cem ou duzentos escudos, que mais tarde viriam a subir para o valor que 'baptizou' oficialmente este tipo de estabelecimento, os famosos trezentos.

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Configuração típica de um estabelecimento deste tipo. (Crédito da foto: Ainda Sou do Tempo.)

Escusado será dizer que este conceito, por essa altura já presente em países como os EUA ou o Reino Unido, se afirmou absolutamente revolucionário em Portugal, onde o consumidor médio – sobretudo jovem – estava pouco habituado a tal variedade de produtos por tão baixos preços. Isto porque as 'lojas dos trezentos' vendiam desde as previsíveis 'quinquilharias' sem grande serventia até utensílios de cozinha, artigos de casa, livros (normalmente os famosos volumes da editora Europa-América, praticamente monopolista neste sector) e até artigos de vestuário ou plantas decorativas! E se é evidente que a qualidade destes produtos deixava muito a desejar – inclusivé no que toca às traduções dos livros – também não deixa de ser verdade que poder entrar numa loja com a semanada no bolso e sair de lá com QUALQUER produto em exposição era (e provavelmente continua a ser) o sonho de qualquer menor de idade. Assim, não é de estranhar que estas lojas tenham tido enorme adesão aquando do seu aparecimento, multiplicando-se rapidamente e espalhando-se por todo o País no espaço de poucos anos.

Mas como cantava George Harrison, 'tudo deve terminar', e também o 'ciclo' das 'lojas dos trezentos' acabou, eventualmente, por chegar ao fim – embora de forma muito mais lenta do que outros estabelecimentos de que aqui falámos em rubricas passadas, tendo o formato sobrevivido durante tempo suficiente para o nome 'loja dos trezentos' se transformar em 'loja do Euro'. Por essa altura, no entanto, já este tipo de loja enfrentava o adversário que o viria a destronar – a famosa 'loja dos chineses', que 'tomou de assalto' o sector comercial das 'lojas dos trezentos' e, mesmo sem a vantagem do preço fixo, as conseguiu paulatinamente eliminar do léxico dos portugueses. De facto, hoje em dia vai-se 'aos chineses' da mesma forma que, dez ou vinte anos antes, se ia 'aos trezentos', tendo o novo tipo de loja conseguido suplantar o estigma que lhe foi inicialmente associado – exactamente como aconteceu com os 'trezentos' no seu tempo. Para quem viu nascer e florescer esse tipo de loja, no entanto, a memória de um local onde tudo custava pouco mais de uma semanada permanecerá, sem dúvida, bem viva até aos dias de hoje, e remeterá inevitavelmente àqueles anos em que o conceito veio 'agitar' o comércio quotidiano e de bairro em Portugal...

11.02.23

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Já aqui por várias vezes fizemos referência aos centros comerciais tradicionais, 'residência' habitual de espaços hoje tão ultrapassados como videoclubes, lojas de discos independentes ou pequenas discotecas; estava, no entanto, ainda a faltar um artigo sobre estes espaços em si – falha que procuraremos, hoje, corrigir dedicando algumas linhas àquilo que passava por uma 'grande superfície' antes do advento dos 'shoppings' e hipermercados.

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O Apolo 70, em Lisboa, um dos mais icónicos estabelecimentos deste tipo

Presentes em quase todas as localidades ou povoações de algum tamanho em Portugal (e, ainda hoje, existentes em algumas delas, embora sob uma forma marcadamente mais 'esquelética' do que naqueles tempos) os centros comerciais tradicionais dividiam-se, grosso modo, em dois tipos: as chamadas galerias, que reuniam num mesmo espaço vários tipos de pequenos retalhistas, e aqueles que serviam, principalmente, de apoio a um supermercado. Ambos os tipos eram bastante comuns, não se podendo dizer que qualquer deles se superiorizasse ao outro, e ambos tendiam a oferecer algumas das 'necessidades básicas' do consumidor de bairro: boutiques, tabacarias, pequenos snack-bars, livrarias ou lojas de impressão, brinquedos ou informática (além dos espaços supramencionados) eram apenas alguns dos tipos de estabelecimento mais comummente encontrados em espaços deste tipo.

A ideia era, portanto, que um consumidor conseguisse encontrar num só edifício tudo aquilo de que necessitava, independentemente da sua natureza – daí o nome 'centro comercial'. Um conceito que, mais tarde, seria 'apropriado' e expandido pelas grandes superfícies, fazendo, ironicamente, com que os inovadores originais parecessem ultrapassados e pitorescos por comparação aos novos mega-espaços.

Ainda assim, a persistência do 'comércio de bairro' em muitas localidades portuguesas permitiu à maioria dos centros comerciais 'clássicos' protelar a sua extinção – ainda que, muitas vezes, a mesma se tenha apenas traduzido num modelo de 'morte lenta' tão deprimente quanto prejudicial às companhias que ocupavam o espaço. Na maioria dos casos, era o fecho do supermercado ou de uma das lojas principais (ou ainda a extinção da sala de cinema, outro apanágio deste tipo de espaços) que ditava o fim da galeria, sendo que muitas arriscavam, ainda, numa tentativa de renovação, invariavelmente (e infelizmente) malograda.

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O estado e aparência actual da maioria dos centros comerciais tradicionais portugueses.

Ainda assim, os habitantes das principais cidades do País (bem como de muitas vilas mais pequenas) terão ainda, potencialmente, contacto diário com este tipo de espaço, quanto mais não seja por lhes passarem à porta a caminho de casa, do emprego ou de qualquer outra actividade; e, nessas alturas, é de crer que a mente lhes 'voe' para outros tempos, em que percorriam com regularidade aqueles mesmos corredores, em busca das lojas favoritas e dos 'tesouros' que as mesmas escondiam.

12.11.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Esta sexta-feira, celebrou-se o feriado bem português do São Martinho, que fica marcado, de Norte a Sul do País, pelas tradicionais festas do magusto que em ambientes mais citadinos se resumem praticamente ao consumo de castanhas assadas (em tempos disponibilizadas pelos tradicionais vendedores de rua), mas que em povoações mais pequenas acarretam uma série de outros elementos que as tornam uma Saída de Sábado (ou antes, de qualquer dia em que se dê a festa) verdadeiramente memorável, para os mais novos e não só.

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Nos anos 90, não era diferente, sendo as celebrações do magusto desse período muito semelhantes às actuais, ou às de décadas passadas, sendo esta, felizmente, daquelas tradições imunes a quaisquer avanços sociais ou tecnológicos – até pelo seu carácter bem presencial, com as famílias (e, por vezes, até grupos maiores, sobretudo nas aldeias, onde se trata de uma festa comunitária) a reunirem-se à volta da mesa ou de uma fogueira para conviver, comer as referidas castanhas e beber bebidas típicas da época (neste caso, mais os adultos que as crianças, dado o teor alcoólico da maioria dos acompanhamentos líquidos ligados à festa, dos quais se destaca o vinho novo.) Em certas partes do País, o magusto fica ainda ligado a tradições localizadas, como o 'furar das adegas' praticado nas Beiras, ou a matança do porco minhota.

Todos estes elementos – aliados aos que cada bairro ou povoação não deixava de adicionar à sua própria celebração – tornavam (e tornam) a noite de S. Martinho marcante para quem era (é) jovem e impressionável, sobretudo em ambientes menos urbanizados, onde as tradições eram, e continuam a ser, observadas a rigor - sendo que, para os citadinos, a data era, sobretudo, memorável pela oportunidade que oferecia de comer castanhas assadas na escola, muitas vezes no exterior, na companhia dos colegas de turma. Motivos mais que suficientes, portanto, para recordamos esta festa nas nossas páginas, e (espera-se) provocarmos nostalgia em todos aqueles que, em pequenos, as viveram....

26.03.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

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Não são todas as crianças que gostam de ler, mas para aquelas que gostam, uma ida à biblioteca é (ou era) uma Saída de Sábado tão válida quanto uma ida ao jardim ou ao parque infantil. Aquelas prateleiras atrás de prateleiras, cheias de segredos, aventuras, surpresas e mistérios prestes a serem revelados (quer 'in loco', quer mais tarde, com calma, em casa) conseguiam, no contexto certo, surtir o mesmo efeito de um corredor de hipermercado ou loja de brinquedos – até porque, para quem tem apetência para a leitura, os livros acabam por quase ser brinquedos...

Até mesmo quem não era muito de leituras, no entanto, tinha na biblioteca (quer municipal, quer de bairro ou até no contexto da escola) motivos de algum interesse, fossem os computadores de uso (quase) livre – durante muito tempo, a única forma de acesso à Internet para muitos jovens portugueses – fossem as pequenas, mas honestas, secções de filmes e CD's de música, onde se podia, com sorte, descobrir um novo filme para ver numa sexta à noite (sem que para isso fosse necessário ir ao videoclube) ou um álbum nunca antes ouvido de um artista favorito. Muitas bibliotecas tinham, ainda, arquivos de revistas de interesse cultural e científico, pelo que quem gostava de passar uma tarde a folhear volumes desse tipo acabava também, muitas vezes, por se inscrever para um cartão na biblioteca local.

Em suma, na sua essência, as bibliotecas (as quais existiam, e continuam a existir, na maioria das povoações portuguesas acima de um certo tamanho) serviam como um repositório de informação gratuita e acessível a qualquer instante – um papel que a então incipiente Internet estava ainda a algumas décadas de vir a desempenhar. Num mundo em que o Google não só existe, como é quase sinónimo com pesquisas de todos os tipos – e em que a maioria dos lares portugueses tem pelo menos um dispositivo capaz de aceder à Internet – este tipo de estabelecimento encontra-se, a par dos videoclubes e salões de jogos, numa rápida e inexorável espiral rumo à obsolescência, subsistindo hoje muito à custa de um público mais envelhecido e tradicionalista, bem como de eventos temporários, como exposições. Quem, nas décadas a que este blog remete, gostava de ler, de filmes ou de descobrir novos artistas musicais, no entanto, não esquecerá o papel e a influência que a 'sua' biblioteca, por muito humilde que fosse, desempenhou no cultivar desse gosto durante os seus anos de infância – razão mais que suficiente para que lhe sejam dedicadas estas breves linhas...

15.01.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Os anos 80 viram nascer aquele que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos e revolucionários aparelhos tecnológicos da História, o leitor de videocassettes. Ao contrário do que se passava até então – em que um qualquer filme tinha de ser visto enquanto estivesse em cena, caso contrário havia que esperar por uma eventual repetição – graças ao leitor de vídeo, qualquer cinéfilo podia, agora, ver o seu filme preferido no conforto da sua casa, quantas vezes quisesse e sempre que quisesse.

Esta premissa apenas tinha um problema – nomeadamente que, como qualquer tecnologia recém-criada, tanto os próprios leitores de VHS e Betamax como as cassettes com eles compatíveis eram proibitivamente caros para a carteira média da época; mesmo dez anos mais tarde, já depois de a tecnologia se ter popularizado, e de o VHS ter ganho a batalha dos formatos e tornado obsoleto o seu 'irmão mais velho', continuava a não ser barato alimentar o 'vício' por filmes em casa. Não foi, pois, de surpreender que o sempre oportunista mundo dos negócios tenha 'inventado' toda uma nova forma de lucrar com este paradigma e, ao mesmo tempo, permitir ao cidadão médio ver filmes em videocassette sem ter que abrir os cordões à bolsa.

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Surgidos ainda nos anos 80, precisamente como resposta ao problema acima delineado, os videoclubes não tardaram a popularizar-se, primeiro nos dois extremos do continente americano, e mais tarde um pouco por todo o Mundo – incluindo Portugal. O seu conceito era simples: a inscrição como sócio de um destes serviços permitia a qualquer pessoa alugar filmes por um período de uma a cinco noites, tendo cada modalidade um preço fixo – uma solução que, apesar de temporária, caiu no gosto da tal percentagem da sociedade ocidental que não tinha meios para comprar vídeos de forma permanente. Graças aos clubes de vídeo, a prática de juntar toda a família frente a um filme numa Sexta ou Sábado à noite tornou-se prática corrente, e muita gente deixou de ter desculpa para ainda não ter visto tal ou tal filme.

Com o seu aspecto e atmosfera característicos – em Portugal, a maioria eram pequenas 'lojecas' de bairro, longe do 'glamour' de uma Blockbuster – e o óbvio atractivo de oferecer filmes de todos os tipos, desde os maiores 'blockbusters' aos filmes de série B mais 'chungas' – os clubes de vídeo tinham, para as crianças dos anos 80, 90 e 2000, uma atracção muito especial, que apenas aumentava no caso dos videoclubes que permitiam alugar jogos de vídeo. Ir ao clube de vídeo alugar um filme, ou até devolvê-lo, era uma parte marcante da semana de qualquer criança ou jovem da época, e terá sido nestes espaços que muitos deles terão descoberto alguns dos seus filmes favoritos - uma situação que não se alteraria durante as duas décadas seguintes, mesmo depois de o VHS sofrer o mesmo destino que inflingira ao Betamax, e ser tornado obsoleto pelo formato DVD.

Não, a 'morte' dos clubes de vídeo viria a dar-se, como é tantas vezes o caso com os produtos e conceitos que abordamos neste blog, com o dealbar da era digital 2.0, com as suas plataformas de vídeo e streaming, que tornariam obsoletos não só este tipo de estabelecimentos, como o próprio conceito de formatos físicos para gravação e reprodução de filmes. Após o aparecimento de serviços como o YouTube, não tardaria muito até aqueles carismáticos 'buracos' escuros e esconsos, cheios de uma ponta à outra com estantes repletas de filmes de todos os tipos, estilos e géneros, fecharem portas para sempre, e para o próprio conceito que representavam desaparecer da consciência popular da sociedade ocidental. Os mais velhos, no entanto – aqueles que se lembram da sensação de ir, sozinho ou acompanhado, buscar os 'filmes da semana' ao videoclube mais próximo – não deixarão morrer a memória destes espaços, tão icónicos e indissociáveis da cultura jovem da época como as lojas de discos, os cinemas de bairro, os salões de jogos 'manhosos' ou as discotecas de cave de centro comercial.

30.10.21

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Nas primeiras edições desta rubrica, abordámos o fenómeno dos hipermercados e dos shoppings, e o fascínio que – por factores como a dimensão e a novidade – os mesmos exerciam nos jovens portugueses dos anos 90; hoje, damos conscientemente um passo atrás, a fim de demonstrar como uma ida ao bom e honesto supermercado do bairro podia, também, ser uma experiência divertida e fascinante, ainda que não tão memorável quanto as atrás descritas - até porque bastante mais corriqueira.

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De facto, ao passo que uma ida ao hipermercado implicava, muitas vezes, um planeamento cuidado de todo ou quase todo o dia, a visita ao supermercado fazia-se de forma bem mais espontânea, estando o único planeamento relacionado com a execução de uma lista de compras e uma vista de olhos ao folheto, para perceber onde cada produto se poderia encontrar mais barato. A partir daí, bastava pôr pés a caminho até à sucursal local do supermercado pretendido e adquirir os produtos necessários.

A simplicidade e mundaneidade deste processo escondiam, no entanto, um atractivo adicional para as crianças e jovens mais curiosos. Isto porque os supermercados dos anos 90, muito menos padronizados e mais individuais que os de hoje em dia, escondiam mil e uma surpresas, fossem os carrinhos que apenas se soltavam após a inserção de uma moeda, os expositores de nozes a granel (das quais se conseguiam sempre 'roubar' algumas para a boca) as secções de brinquedos (bem mais pequenas que as dos hipermercados, mas ainda assim de algum interesse) ou até simplesmente produtos bem do agrado das crianças, como bolachas, sobremesas, bolos, iogurtes ou cereais - já para não falar da oportunidade de ajudar os pais ou familiares a procurar cada produto, tirá-lo do expositor e colocá-lo no carrinho, um acto simples, mas que deixava muitos de nós pouco menos que ufanos da nossa utilidade.

Para as crianças mais pequenas, havia ainda o divertimento de se sentar dentro do próprio carrinho e ser 'conduzido' numa visita guiada às prateleiras, sendo que alguns supermercados incorporavam mesmo uma área para este fim nos seus carrinhos, talvez a fim de evitar que as crianças tivessem de se sentar na área destinada às compras. No fim da visita, para os mais bem comportados, havia ainda a (forte) possibilidade de ser presenteado com um doce – como um chupa-chupa, um chocolate, um pacote de Sugus ou uma simples pastilha – ou uma banda desenhada, como recompensa pela maturidade demonstrada. Razões mais do que suficientes para considerar a simples e singela visita ao supermercado da esquina, na companhia dos pais ou avós, como parte integrante da experiência da infância, quer nos anos 90, quer hoje em dia.

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