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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

21.05.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Quando se fala em marcos da História de Portugal na década de 90, há um evento que, de imediato, se sobrepõe à maioria dos acontecimentos concorrentes: a Expo '98. Aquele que foi, até pouco antes da inauguração, considerado um projecto megalómano e pouco exequível (e transformou o nome de António Mega Ferreira num remate de anedota) acabou por se traduzir numa Feira Mundial notavelmente bem sucedida, tendo inclusivamente superado a antecessora Expo '92, organizada pela vizinha Espanha.

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Subordinada ao tema 'Oceanos: Uma Herança Para o Futuro', a Feira Mundial portuguesa abriu há exactos 24 anos – a 21 de Maio de 1998 – no antigo hidroporto hoje conhecido como Parque das Nações, em Lisboa, tendo-se de imediato afirmado como um estrondoso sucesso junto do público jovem, por razões mais do que evidentes; a Expo oferecia muitos e variados pontos de interesse para os jovens, fossem eles o espectáculo audio-visual do Pavilhão do Conhecimento, o Pavilhão da Realidade Virtual (consistentemente 'dono' de uma das maiores filas do certame), o muito badalado Pavilhão de Macau, também alvo de filas constantes para ver a sua réplica de um jardim chinês, ou simplesmente as fatias de pizza ao estilo americano, cada uma do tamanho de meia pizza 'normal' portuguesa. As próprias mascotes – Gil e Docas, duas ondas do mar antropomorfizadas – estavam desenhadas à medida para agradar a esta demografia, a quem o 'merchandising' alusivo às mesmas muito agradava; isto para não falar do desafio de 'preencher' o passaporte com carimbos do máximo de países possível, uma tentativa declarada (e relativamente bem sucedida) por parte da organização para assegurar que os países com menor expressão ou menos 'truques na manga' de entre os 143 presentes não ficavam esquecidos.

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Gil e Docas, as memoráveis mascotes do evento.

Não se ficavam por aí os atractivos da Expo, no entanto; a Feira dispunha, ainda, de um ecrã gigante, onde muita gente viu os jogos do não menos lendário Mundial de futebol de França, de um aquário de vida marinha (o famoso Oceanário) e de um espaço comercial adjacente, o famoso 'shopping' Vasco da Gama, ainda hoje existente e em franca concorrência com o pioneiro Colombo, situado no outro extremo da cidade.

De facto, são ainda hoje várias e de significativa monta as alterações trazidas pelo evento à cidade de Lisboa, a começar pelo espaço: ao contrário do que acontecera com a referida Expo '92, cujo terreno ainda hoje se encontra vago e sem utilização todos os edifícios e estruturas construídos para a exposição mundial portuguesa eram alvo de um pré-acordo de reaproveitamento no final da exposição, precisamente para evitar uma situação semelhante à do certame espanhol. O resultado foi o referido Parque das Nações, hoje a área escolhido por várias companhias para instalação das respectivas sedes (todas as operadoras móveis, por exemplo, lá 'residem') bem como a localização de infra-estruturas como a Gare do Oriente, importante pólo de transportes da zona, a Altice Arena (antes MEO Arena, antes ainda Pavilhão Atlântico e, durante a exposição, Pavilhão da Utopia), a 'realojada' Feira Internacional de Lisboa (vulgo FIL) ou os referidos Oceanário e Shopping Vasco da Gama; Vasco da Gama foi, também, o nome da nova ponte construída sobre o Tejo, entre a zona Oriente de Lisboa e o Montijo, e inaugurada com uma feijoada comunitária da qual algum dia aqui falaremos.

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O Parque das Nações, ainda hoje um dos principais pólos da cidade de Lisboa, foi um dos vários legados deixados pela Expo '98 na capital portuguesa.

Por fim, o simpático Gil continua 'vivo' na imaginação dos lisboetas como embaixador da Fundação com o seu nome, que apoia crianças em risco, encontrando-se a última das suas estátuas situada à entrada da respectiva Casa, situada no bairro de Alvalade, no centro de Lisboa. Uma influência, portanto, que transcendeu o próprio evento, mudando indelevelmente a 'face' e estrutura da capital portuguesa muito para lá do apoteótico e recordista espectáculo de fogo de artifício de 30 de Setembro de 1998 – o que é mais do que se pode dizer sobre o impacto da exposição de 1992 sobre a cidade de Sevilha.

A Expo '98 foi, pois – ou, pelo menos, pareceu a quem a visitou em idade mais 'influenciável', individualmente ou com a escola – um retumbante sucesso a todos os níveis, com tanto para ver e fazer que um só dia nunca chegava; de facto, o jovem médio português da época terá visitado a feira pelo menos duas a três vezes, por forma a experienciar tudo o que a mesma oferecia. As memórias, essas, perduram quase um quarto de século depois, não sendo de prever que este evento verdadeiramente único se venha, tão depressa, a apagar da memória colectiva nacional, para a qual ainda é (ou deveria ser) motivo de enorme orgulho.

30.04.22

NOTA: Apesar de este dever ser um Sábado aos Saltos, alterámos ligeiramente o calendário para o nosso post sobre este evento poder coincidir aproximadamente com a data em que o mesmo se realizava. Os Saltos voltam nos próximos dois Sábados.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

A par do 25 de Abril, o feriado do 1º de Maio (Dia do Trabalhador) reveste-se de especial importância no calendário português, por representar, juntamente com o seu 'parceiro', uma das mais significativas instâncias da luta por direitos e igualdade da História não só do nosso País, como mundial. Assim, não é de estranhar que, todos os anos, essa mesma data seja assinalada pela realização de marchas e comícios nas principais cidades portuguesas, a maioria organizadas ou com participação substancial de organismos como o Partido Comunista Português ou as uniões de trabalhadores UGT e CGTP.

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A Alameda, local habitual do comício do 1º de Maio em Lisboa e, até à década de 2000, da respectiva feira de rua

Para os adolescentes residentes nessas mesmas cidades nas décadas de 90 e 2000, no entanto (pelo menos aqueles que eram menos politicamente engajados) as celebrações oficiais do feriado nunca foram o principal motivo de interesse do mesmo, nem justificaram uma Saída de Sábado no dia 1 de Maio; ao invés, a razão pela qual a maioria dos jovens citadinos portugueses se deslocava ao local dos comícios na referida data estava ligada àquilo que sempre o rodeava – nomeadamente, a feira de rua que invariavelmente ali era montada.

Isto porque, ainda mais do que nas feiras tradicionais (das quais, aliás, já aqui falámos) era ali o local para encontrar as últimas novidades em roupa de contrafacção, normalmente a preços ainda mais 'simpáticos' do que era costume. Havia ali um pouco de tudo por onde escolher: calças de fato de treino com riscas, a imitar Adidas, ténis 'tirados a papel químico' dos caríssimos modelos oficiais, cópias perfeitas das lendárias camisas da Sacoor - que tinham a vantagem de oferecer padrões não disponibilizados pela própria marca, como o xadrez - meias de raquetes, t-shirts com os 'bonecos' da moda (dos personagens do Dragon Ball Z aos Simpsons, Tweety, Tartarugas Ninja, Power Rangers, Pokémon ou o que mais fosse popular entre a criançada), 'sweats' (supostamente) da No Fear, Gap ou Gant, 'pullovers' pseudo-Burberry's ou Polo Sport, pólos a imitar Lacoste, camisolas de futebol 'quase-oficiais' (entretanto monopolizadas pelas lojas de souvenirs para turistas) pólos de râguebi de origem duvidosa (e que, mesmo assim, continuavam a ser caros), e muito mais; com sorte, até se conseguia encontrar um ou outro resto de loja ou fábrica ou protótipo com defeito, adquirindo assim um artigo verdadeiramente de marca (apesar de rejeitado pela mesma) a um preço irrisório. Mesmo as contrafacções mais declaradas eram, por vezes, mais bem conseguidas do que os artigos oficiais, sobretudo por se basearem em padrões e desenhos experimentais, alguns nunca lançados pela marca, e que chegavam a ser mais interessantes do que os presentes nos referidos artigos 'de loja'.

Só a possibilidade de adquirir artigos como os mencionados no parágrafo acima já era suficiente para despertar o interesse da maioria dos jovens, mas como era (e é) tradicional neste tipo de eventos, a feira do 1º de Maio dispunha, também, das tradicionais roulottes de churros e farturas, que tornavam irresistível a proposta de uma 'asneira' gastronómica, a juntar às 'asneiras' económico-comerciais do resto da feira. O resultado era, invariavelmente, um dia bem passado (por menos que se comprasse, e comprava-se sempre alguma coisa) e a determinação de, no ano seguinte, voltar a estar presente no evento.

Infelizmente, com o passar dos anos, as feiras em torno do comício do 1º de Maio parecem ter deixado de se realizar – foi, pelo menos, esse o caso na capital, Lisboa; para quem teve a sorte de conseguir presenciar um destes eventos, no entanto, a recordação e nostalgia de passear no mesmo e admirar as camisas Sacoor de contrafacção (entre outros artigos da mesma índole) estarão, ainda hoje, bem presentes...

25.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Sábado, 23 de Abril de 2022.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Na vida de uma criança (seja dos anos 90 ou contemporânea) o dia dos anos perde apenas para o Natal como evento mais importante do ano; afinal, são essas as duas datas em que se recebem, sem quaisquer condições de reciprocidade, presentes de todos os tamanhos e feitios, em que se comem sem quaisquer restrições toda a espécie de doces e iguarias, e em que (não menos importante) se recebe em casa os amigos, para uma tarde de diversão.

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Sim, nos anos 90 (como agora) a festa de anos era um dos pontos altos do ano para uma criança, e o ritual organizativo de que esse evento se revestia apenas servia para o tornar ainda mais entusiasmante. Isto porque, enquanto alguns países tornaram tradição celebrar a data no McDonald's ou semelhante, Portugal continua a ser das nações que opta pela via mais tradicional e económica da festa em casa, com uma mesa cheia de bolos, batatas fritas, sumos, gasosas e outras iguarias à disposição do aniversariante e convidados, e quiçá, à saída, um saquinho com Smarties, Sugus, rebuçados e outras lembranças para agradecer a presença dos mesmos.

Esta opção, por sua vez, apenas fazia com que a perspectiva de ir à festa de um amigo ou colega de escola (especialmente se o mesmo fosse mais chegado) fosse quase tão entusiasmante para a maioria das crianças como a ideia do seu próprio aniversário; da excitação de receber o tradicional envelope com o convite no recreio (um ritual a que a era da Internet veio tirar a magia) à descoberta de todas as possibilidades oferecidas pela casa do aniversariante, uma festa de anos representava, para um pré-adolescente da época, a garantia de um dia bem passado a 'fazer asneiras' com outras crianças da sua idade. E, claro, toda a experiência se tornava ainda melhor se o colega fosse daqueles poucos cujos pais estavam dispostos a alugar um espaço especialmente para a festa, ou a convidar artistas para animar a mesma, como os tradicionais palhaços.

Mesmo depois de chegada a adolescência, o apelo de uma festa de anos para o 'puto' médio português não esmorecia; isto porque, nessa altura, as festas em casa eram, progressivamente, substituídas por saídas com os amigos, primeiro às 'pizzas' e ao shopping, cinema ou feira de diversões, e mais tarde para uma jantarada e saída à noite. E apesar de este tipo de festas nem sempre envolver (ou mesmo requerer) presente, as mesmas tinham, ainda assim, uma série de atractivos extra, que as tornavam não menos entusiasmantes ou antecipadas do que as suas congéneres dos tempos de infância – mesmo que, agora, os convites fossem enviados por SMS, em vez de entregues em mão na sala de aula.

Em suma, para um jovem dos anos 90, os anos (próprios ou dos amigos) estavam, sem dúvida, entre os acontecimentos mais aguardados do ano – um paradigma que, queremos acreditar, nem mesmo a tendência crescente para o isolamento digital terá conseguido contrariar. Afinal, seja qual fôr a altura da História, uma festa é sempre uma festa...

10.04.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

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Numa edição anterior desta rubrica, falámos da experiência de, em criança, acompanhar os pais ao café; no entanto (apesar de termos, nessa ocasião, abordado a fase posterior da experiência) dedicámos muito pouca atenção às particularidades inerentes à visita a esse mesmo espaço enquanto ainda jovem, mas já mais velho, nomeadamente na época da adolescência.

Apesar de não ser claro se essa experiência continua a ser tão relevante para as novas gerações como o foi para a de finais do século XX e inícios do seguinte, para os jovens daquele tempo, ir ao café com os amigos, e sem o acompanhamento de adultos, era um verdadeiro ritual de passagem para a vida adulta - uma das primeiras vezes em que um jovem em idade de ensino secundário se sentia, verdadeiramente, adulto. A sensação de pedir (e, posteriormente, consumir) esse primeiro café é difícil de transmitir em 'segunda mão' a quem não lá tenha estado, mas quem passou por essa experiência sabe, exactamente, o que sentiu (e COMO se sentiu) nesse momento - e entende por que razão a mesma merece o seu próprio post.

Curioso era que não tardava mais do que um par de anos até essa mesma visita ao café se tornar corriqueira, e o verdadeiro ritual de passagem passar a ser o consumo de cerveja em vez do café, ou como complemento do mesmo; durante aquela pequena janela sensivelmente a meio da adolescência, no entanto, poucas coisas havia mais gratificantes do que tomar o primeiro café, na esplanada, com os colegas de turma, sem que a nenhum ponto alguém questionasse a validade dessa acção, ou sequer pensasse em recusar serviço. Tanto assim, que esta é daquelas experiências que esperamos não terem sido perdidas pelas novas gerações, e que devemos procurar preservar junto das mesmas...

26.03.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

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Não são todas as crianças que gostam de ler, mas para aquelas que gostam, uma ida à biblioteca é (ou era) uma Saída de Sábado tão válida quanto uma ida ao jardim ou ao parque infantil. Aquelas prateleiras atrás de prateleiras, cheias de segredos, aventuras, surpresas e mistérios prestes a serem revelados (quer 'in loco', quer mais tarde, com calma, em casa) conseguiam, no contexto certo, surtir o mesmo efeito de um corredor de hipermercado ou loja de brinquedos – até porque, para quem tem apetência para a leitura, os livros acabam por quase ser brinquedos...

Até mesmo quem não era muito de leituras, no entanto, tinha na biblioteca (quer municipal, quer de bairro ou até no contexto da escola) motivos de algum interesse, fossem os computadores de uso (quase) livre – durante muito tempo, a única forma de acesso à Internet para muitos jovens portugueses – fossem as pequenas, mas honestas, secções de filmes e CD's de música, onde se podia, com sorte, descobrir um novo filme para ver numa sexta à noite (sem que para isso fosse necessário ir ao videoclube) ou um álbum nunca antes ouvido de um artista favorito. Muitas bibliotecas tinham, ainda, arquivos de revistas de interesse cultural e científico, pelo que quem gostava de passar uma tarde a folhear volumes desse tipo acabava também, muitas vezes, por se inscrever para um cartão na biblioteca local.

Em suma, na sua essência, as bibliotecas (as quais existiam, e continuam a existir, na maioria das povoações portuguesas acima de um certo tamanho) serviam como um repositório de informação gratuita e acessível a qualquer instante – um papel que a então incipiente Internet estava ainda a algumas décadas de vir a desempenhar. Num mundo em que o Google não só existe, como é quase sinónimo com pesquisas de todos os tipos – e em que a maioria dos lares portugueses tem pelo menos um dispositivo capaz de aceder à Internet – este tipo de estabelecimento encontra-se, a par dos videoclubes e salões de jogos, numa rápida e inexorável espiral rumo à obsolescência, subsistindo hoje muito à custa de um público mais envelhecido e tradicionalista, bem como de eventos temporários, como exposições. Quem, nas décadas a que este blog remete, gostava de ler, de filmes ou de descobrir novos artistas musicais, no entanto, não esquecerá o papel e a influência que a 'sua' biblioteca, por muito humilde que fosse, desempenhou no cultivar desse gosto durante os seus anos de infância – razão mais que suficiente para que lhe sejam dedicadas estas breves linhas...

12.03.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Comprar ou receber brinquedos é um dos pontos altos da vida quotidiana de qualquer criança, independentemente da época em que viva. Seja algo mais pequeno e simbólico, como uma boneca ou uma figura de acção, ou um presente 'grande' – normalmente de anos ou Natal – este é daqueles momentos que, por muito que a sociedade mude, nunca deixa de perder o impacto para as gerações mais novas.

O que muitos destes actualmente jovens nunca saberão, no entanto – ou saberão apenas em 'segunda mão', através dos relatos dos pais – é que, nas últimas décadas do século XX, o acto de adquirir um brinquedo tinha, ainda, mais UM aspecto memorável e que adicionava (e muito) à experiência – nomeadamente, o próprio acto de ir à loja escolher o que se queria comprar.

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Sim, a Saída de hoje tem como destino um bastião da cultura e vida quotidiana infanto-juvenil do século XX, que não sobreviveu à 'viragem' digital do novo milénio: as lojas de brinquedos, na sua concepção tradicional. E por mais difícil que seja às crianças de hoje em dia conceber a existência de um ou mais destes estabelecimentos na maioria dos pequenos centros comerciais situados em bairros urbanos – ou mesmo a existência de brinquedos fora das prateleiras dos supermercados e hipermercados – a verdade é que a geração que tem hoje idade para ser progenitor dessas mesmas crianças passou muito tempo em lojas deste tipo, de boca aberta e olhos a brilhar, a tentar assimilar as possibilidades contidas naquilo que os rodeava.

De facto, as lojas de brinquedos, tal como eram entendidas à época, eram verdadeiros 'baús do tesouro', repletos de sonhos e potenciais brincadeiras, e cujas prateleiras – normalmente apenas meia dúzia, em duas ou três secções – pareciam não ter fim. Nas mais pequenas, este efeito era ainda exacerbado pela disposição anárquica do inventário, normalmente exposto onde havia espaço, independentemente de qualquer lógica – o que resultava, inevitavelmente, em 'pilhas' de brinquedos apenas vagamente relacionados uns com os outros, exactamente como se de um tesouro se tratasse; já as lojas maiores colmatavam a disposição mais organizada dos seus produtos com a presença de consolas, muitas vezes disponíveis para jogos de teste, embora a presença de comandos desligados ou escondidos atrás de um vidro protector fosse também frequente.

Fosse qual fosse a configuração, no entanto, o efeito no público-alvo era o mesmo – algo equivalente ao consumo de açúcar em excesso, que fazia a criança querer comprar tudo o que via, independentemente do preço. E apesar de o produto adquirido ser, na maioria das vezes, de índole menos extravagante (por aqui, por exemplo, era normalmente um conjunto de veículo e mini-figura da LEGO, embora, numa ocasião memorável, se tenha regressado de uma das lojas do nosso bairro com um Game Boy edição especial, verde, e o então novíssimo jogo 'Pokémon Blue') a verdade é que, ao sair de uma loja de brinquedos, a criança deixava intactas todas as possibilidades da mesma, com a promessa mental de voltar muito em breve - e quiçá com mais disponibilidade monetária - para novamente as explorar...

Este efeito foi, aliás, exacerbado a partir de 1993, quando os jovens portugueses ficaram a conhecer esse verdadeiro 'hipermercado dos brinquedos' que os seus congéneres americanos conheciam há já várias décadas: o Toys'R'Us. As primeiras lojas da multi-nacional especializada norte-americana a abrir em Portugal, situadas em Lisboa, e em Vila Nova de Gaia, tiveram sobre o seu público-alvo o previsível impacto, tornando uma 'romaria' periódica a esse mesmo espaço algo obrigatório para quem morava na área - o autor deste blog, por exemplo, visitou várias vezes a loja de Lisboa, situada no espaço do supermercado Carrefour (hoje Continente) na zona de Telheiras.

Isto porque, embora o Toys'R'Us não tivesse o charme e ambiente de 'caixinha de surpresas' das lojas a que a juventude daquele tempo estava habituada, este factor era mais do que compensado por uma loja do tamanho de um hipermercado, mas em que os brinquedos e outros produtos de interesse directo para as crianças, como as bicicletas, não ficavam confinados a apenas uma secção, dominando antes, pelo contrário, todo o espaço; onde o Carrefour, mesmo ali ao lado, tinha roupa, electrodomésticos ou produtos alimentares, o Toys'R'Us tinha brinquedos, bicicletas, jogos de tabuleiro, consolas e respectivos jogos, e muitos outros produtos altamente desejáveis para a demografia que procurava aliciar; e quem visitou este espaço na idade certa, certamente se lembrará da sensação que tal visita provocava, tornando ainda mais deprimente a realidade do desaparecimento da companhia, por motivos de insolvência, em 2019.

Qualquer que fosse o tipo de loja de brinquedos visitado, no entanto, a experiência saldava-se, invariavelmente, como extremamente positiva, e até memorável – afinal, qual a criança que não gosta de ter brinquedos novos, especialmente por si escolhidos? Infelizmente, e como já referimos no início deste texto, esta é, à semelhança de outras Saídas de que aqui falamos, uma visita irrepetível; a loja de brinquedos 'de bairro', como conceito, desapareceu, 'esmagada' pelos hipermercados e pelo vertiginoso crescimento dos retalhistas 'online', como a Amazon. Os poucos estabelecimentos deste tipo que ainda restam têm a tradicionalidade como parte do seu conceito distintivo, ou seja, são especificamente concebidos para evocarem uma loja de brinquedos tradicional, por oposição a serem apenas um negócio de venda de brinquedos, igual a tantos outros, que alguém montou numa loja de segunda-cave de um centro comercial 'à moda antiga'; essas, onde tantos jovens de fins do século XX passaram tantos bons momentos na infância e adolescência, são hoje do domínio exclusivo do 'álbum de retratos' mental que a maioria de nós ainda retém daquele tempo...

26.02.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Sim, leram bem – o 'post' de hoje é uma combinação estilo '2-em-1' dos nossos dois tipos de posts de Sábado. Isto porque a festa que se celebra deste fim-de-semana até à próxima quarta-feira – o Carnaval – envolve tanto Saídas (para que o Mundo possa ver a nossa bela fatiota de máscara) e Saltos (ou não fosse esta, em anos 'normais', uma semana de férias da escola, em que o tempo parece interminável.) Falemos, pois, do modo característico como esta festa era celebrada em Portugal nos anos 90, e de tudo aquilo que, em criança, lhe tendia a estar associado.

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E começamos, precisamente, pelo factor mais comummente associado ao Carnaval – as máscaras. Enquanto que hoje estas se cingem quase exclusivamente a propriedades intelectuais populares – não se pode ser 'apenas' uma princesa, tem de se ser uma princesa DISNEY, de preferência a Elsa – nos anos 90, havia ainda uma mistura saudável entre este tipo de fatos (com destaque para as Tartarugas Ninja, Homem-Aranha, Super-Homem e Power Rangers) e os mais 'clássicos' disfarces de cowboy, princesa, palhaço, monstro, ou o que mais se conseguisse imaginar sem ter que gastar muito dinheiro.

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O disfarce de Tartaruga Ninja era um dos mais populares nos anos 90

No entanto, mesmo com esta vasta gama de disfarces à disposição, havia um que suplantava todos os outros, senão em popularidade, pelo menos em frequência: o de Zorro. Não havia, à época, praticamente nenhum Carnaval em que não se vissem pelo menos uns dois ou três Zorros, fosse na rua, na escola ou no clube desportivo. A popularidade do herói mascarado era tão indisputável quanto inexplicável, já que o mesmo estava ainda a alguns anos do seu 'renascimento' às mãos de Antonio Banderas, e era apenas vagamente conhecido da maioria das crianças; a verdade, no entanto, é que – vá-se lá saber porquê... - a sua característica roupagem era mesmo uma das escolhas mais populares no que tocava a fatos de máscara.

Os fatos completos não eram, no entanto, a única opção no tocante a disfarces de Carnaval; pelo contrário, a maioria das crianças via-se mesmo restrita às chamadas 'caraças', aquelas máscaras de cara completa, com elástico, que se podiam comprar em qualquer drogaria, loja de brinquedos ou até dos trezentos, por um preço relativamente acessível – o que ajudava, talvez, a explicar a popularidade. Curiosamente, estas máscaras eram perfeitamente bem aceites entre o normalmente hiper-crítico público infantil, e embora um fato fosse mais admirado e invejado, a criança que se disfarçava apenas com uma máscara não seria alvo da chacota dos colegas, como se poderia talvez pensar, tornando-as uma boa alternativa para quem tinha menos dinheiro.

Nem só de máscaras e disfarces, no entanto, vivia o Carnaval – e, aqui, há que falar da enorme panóplia de acessórios associados à celebração desta festa pelas crianças e jovens, que ajudava a dar vigência à expressão 'BRINCAR ao Carnaval'. À época, a gama de diversões de Carnaval ia das mais inócuas - como as serpentinas que se penduravam das grades da janela ou varanda e que acabavam invariavelmente na rua, a dar trabalho aos lixeiros – às irritantes (como os martelinhos, as pistolas de água ou os balões de água atirados de andares altos para quem passava cá em baixo) ou activamente perigosas, como os inenarráveis estalinhos ou as sempre populares pistolas de fulminantes. Alguns destes acessórios tinham uma ligação mais óbvia ao Carnaval que outros, mas a verdade é que todos eles fizeram parte da infância de qualquer português que tenha celebrado esta festa nos anos 90 – senão a título próprio, pelo menos manuseados por alguém nas proximidades.

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Alguns dos mais populares brinquedos do Carnaval português dos anos 90

No cômputo geral, todos estes elementos – as máscaras, as partidas, os brinquedos, até mesmo as férias da escola - contribuíam para moldar a experiência do Carnaval português dos anos 90; e embora, hoje, as regras mais apertadas de segurança tenham tornado esta festa significativamente diferente, quem a viveu nos anos 90 certamente nunca vai esquecer as emoções, sensações e brincadeiras daquela última semana de Fevereiro. Feliz Carnaval!

13.02.22

Nota: Este post é respeitante a Sábado, 12 de Fevereiro de 2022.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

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Das muitas experiências típicas da adolescência, namorar é uma das mais características. Há quem comece mais cedo, outros mais tarde; há relações que duram mais, e outras (nessa etapa da vida, a maioria) menos; mas há muito poucos jovens que não tenham, a uma ou outra altura do seu desenvolvimento, sentido e explorado sentimentos românticos por outrem.

Na época a que este blog concerne (e, queremos acreditar, ainda hoje em dia) uma das formas mais tradicionais de demonstrar esses mesmos sentimentos era com uma saída (mais ou menos) romântica – os hoje chamados, graças à influência anglófila, 'dates'. E uma das alturas mais apropriadas para combinar uma saída com a cara-metade, pela simbologia a ele associada, era precisamente a 14 de Fevereiro, no chamado Dia dos Namorados.

É claro que, para jovens ainda em idade dependente, os gestos românticos ligados a este dia ficavam muito longe das extravagâncias vistas nos filmes ou na televisão, sendo as camas de pétalas de rosa, caixas de chocolates em forma de coração, jóias e saídas a restaurantes finos típicos desses meios substituídas por lembranças mais simbólicas (de ursinhos de peluche a cassettes ou CDs feitos em casa, as famosas 'mixtapes') e idas a locais como o cinema, o bowling, o 'shopping', um dos inúmeros restaurantes de 'fast food' que se começavam à época a espalhar pelo país, ou simplesmente o jardim ao pé da escola ou de casa.

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O ideal romântico da cultura popular estava fora do alcance da esmagadora maioria dos jovens

Qualquer que fosse o destino, o que interessava era passar tempo com a cara-metade, arriscar uns 'namoricos' em público, e quiçá comprar um ou outro presente para simbolizar a ocasião – nem que fosse apenas uma daquelas flores de plástico ou chupetas luminosas entusiasticamente propostas por vendedores ambulantes.

Foram assim os Dias dos Namorados de muitos adolescentes dos anos 80, 90 e 2000 – aqueles que tinham namorado ou namorada, bem entendido; os outros afirmavam, sarcasticamente, ligarem pouco ou nada à data; portanto, esta Segunda-feira, porque não recordar aqueles tempos com uma ida ao Mac, à Pull and Bear e ver um filme 'de gaja', acompanhados do vosso 'gajo' ou 'garina'?

Façam o que fizerem, feliz Dia dos Namorados!

29.01.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

De entre todos os possíveis 'hobbies' de uma criança dos anos 80 e 90, os videojogos ocupavam muitas vezes lugar de destaque, especialmente entre o sexo masculino; e com bom motivo – estas duas décadas (e, em menor escala, também a primeira do século XXI) viram esta indústria nascer e desenvolver-se a passos largos. Os anos 90, em particular, são muitas vezes tidos como o apogeu da primeira fase da indústria, tendo sido berço daqueles que são, ainda hoje, considerados alguns dos melhores títulos e personagens da História dos 'games'.

E embora a década fosse também pródiga em consolas de qualidade – da Mega Drive à PlayStation – muitos desses jogos surgiam, primeiro e muitas vezes em exclusivo, nas máquinas de jogos operadas por moeda, vulgo 'arcades', tornando os locais que vulgarmente as alojavam, os salões de jogos, num local de peregrinação para os jovens fãs de videojogos...

...pelo menos nos Estados Unidos, já que em Portugal a história era significativamente diferente.

Sim, enquanto que do outro lado do Atlântico – e mesmo na América do Sul – os salões de jogos eram locais de reunião de crianças e jovens por excelência, por terras lusitanas, passava-se precisamente o oposto – estes espaços destinavam-se, exclusivamente, a adultos, estando os jovens abaixo de uma certa idade proibidos de os frequentar, pelo menos sem supervisão adulta. E com bom motivo, como quem alguma vez entrou num destes espaços durante aquela década certamente atestará; não era à toa que os salões de jogos tinham uma reputação sensivelmente equivalente à dos 'pubs', o outro grande tipo de 'local misterioso só para adultos' da época.

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Um salão de jogos ao estilo clássico dos anos 90...

De facto, os salões de jogos dos anos 90 tendiam a ser locais esconsos e escuros, vagamente amedrontadores, frequentados por indivíduos algo menos que recomendáveis e impregnados de cheiro a fumo de cigarro, antes de estes serem banidos dos espaços interiores. Qualquer criança ou até adolescente que lá entrasse era alvo de olhares não muito convidativos, e até algo suspeitos, fazendo com que o mesmo rapidamente tivesse vontade de se ir embora – antes mesmo de ser convidado a sair pelo dono do salão.

Mesmo tendo tudo isto em mente – ou talvez precisamente pela 'aura' que estes locais possuíam – muitas crianças portuguesas fãs de jogos de vídeo sonhavam em ter idade suficiente para frequentar um destes espaços, não só pela oportunidade de jogar todos os seus títulos favoritos e exclusivos das máquinas de arcada, como também pelo 'atestado de adultidade' que tal acção representava nas suas mentes. E escusado será dizer que quem tivesse um adulto disposto a levá-lo a um salão de jogos podia considerar-se quase tão sortudo como se lhe tivesse saído a lotaria...

Havia, é claro, opções mais 'kid-friendly' para quem quisesse jogar uns joguitos na máquina; em Lisboa, por exemplo, a Feira Popular oferecia uma variedade de espaços para esse propósito, enquanto o CascaiShopping albergava o primeiro espaço totalmente dedicado a videojogos no interior de um 'shopping'. O advento de outros locais deste tipo, como o Colombo em Lisboa ou o NorteShopping no Porto, ajudou também a popularizar o conceito de 'PlayCenters', os quais incluíam zonas de máquinas de arcada, aproximando assim a experiência dos jovens portugueses daquela de que já gozavam os seus congéneres brasileiros, por exemplo.

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...e outro mais moderno, espaçoso, iluminado e convidativo

Esta democratização da experiência de 'arcade' levou, por sua vez, a que os salões de jogos tradicionais – aqueles antros de vício fumarentos, sempre a debitar para a rua sons de máuinas diversas – fossem, progressivamente, caindo em desuso, e principiando a desaparecer; ainda assim, a sua morte foi tão ou mais lenta que a de outros espaços em processo de obsolescência, como os clubes de vídeo, sendo que na segunda década do século XXI ainda se podia encontrar, por esse país fora, um ou outro exemplo de salão de jogos 'clássico'.

Na sua grande maioria, no entanto, estes espaços foram mesmo substituídos por versões mais 'assépticas', para toda a família – o que mostra, cabalmente, a mudança de paradigma a este respeito em território nacional, já que, conforme referido, os salões de jogos clássicos tudo faziam para impedir a família de entrar...

Hoje em dia, é já raro ver um jogo aparecer nas arcadas, sendo a esmagadora maioria dos novos títulos lançado directamente para o mercado caseiro, e a maioria das máquinas vistas 'no seu ambiente natural' relativas a jogos da 'era clássica' dos 'arcades', sobre a qual este post versou. Ainda assim, quem viveu aquela época não pode deixar de se lembrar da sensação de querer rapidamente ter idade suficiente para entrar num daqueles salões de jogos 'à moda antiga', e desfrutar de umas 'jogatanas' de Street Fighter ou Mortal Kombat...

15.01.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Os anos 80 viram nascer aquele que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos e revolucionários aparelhos tecnológicos da História, o leitor de videocassettes. Ao contrário do que se passava até então – em que um qualquer filme tinha de ser visto enquanto estivesse em cena, caso contrário havia que esperar por uma eventual repetição – graças ao leitor de vídeo, qualquer cinéfilo podia, agora, ver o seu filme preferido no conforto da sua casa, quantas vezes quisesse e sempre que quisesse.

Esta premissa apenas tinha um problema – nomeadamente que, como qualquer tecnologia recém-criada, tanto os próprios leitores de VHS e Betamax como as cassettes com eles compatíveis eram proibitivamente caros para a carteira média da época; mesmo dez anos mais tarde, já depois de a tecnologia se ter popularizado, e de o VHS ter ganho a batalha dos formatos e tornado obsoleto o seu 'irmão mais velho', continuava a não ser barato alimentar o 'vício' por filmes em casa. Não foi, pois, de surpreender que o sempre oportunista mundo dos negócios tenha 'inventado' toda uma nova forma de lucrar com este paradigma e, ao mesmo tempo, permitir ao cidadão médio ver filmes em videocassette sem ter que abrir os cordões à bolsa.

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Surgidos ainda nos anos 80, precisamente como resposta ao problema acima delineado, os videoclubes não tardaram a popularizar-se, primeiro nos dois extremos do continente americano, e mais tarde um pouco por todo o Mundo – incluindo Portugal. O seu conceito era simples: a inscrição como sócio de um destes serviços permitia a qualquer pessoa alugar filmes por um período de uma a cinco noites, tendo cada modalidade um preço fixo – uma solução que, apesar de temporária, caiu no gosto da tal percentagem da sociedade ocidental que não tinha meios para comprar vídeos de forma permanente. Graças aos clubes de vídeo, a prática de juntar toda a família frente a um filme numa Sexta ou Sábado à noite tornou-se prática corrente, e muita gente deixou de ter desculpa para ainda não ter visto tal ou tal filme.

Com o seu aspecto e atmosfera característicos – em Portugal, a maioria eram pequenas 'lojecas' de bairro, longe do 'glamour' de uma Blockbuster – e o óbvio atractivo de oferecer filmes de todos os tipos, desde os maiores 'blockbusters' aos filmes de série B mais 'chungas' – os clubes de vídeo tinham, para as crianças dos anos 80, 90 e 2000, uma atracção muito especial, que apenas aumentava no caso dos videoclubes que permitiam alugar jogos de vídeo. Ir ao clube de vídeo alugar um filme, ou até devolvê-lo, era uma parte marcante da semana de qualquer criança ou jovem da época, e terá sido nestes espaços que muitos deles terão descoberto alguns dos seus filmes favoritos - uma situação que não se alteraria durante as duas décadas seguintes, mesmo depois de o VHS sofrer o mesmo destino que inflingira ao Betamax, e ser tornado obsoleto pelo formato DVD.

Não, a 'morte' dos clubes de vídeo viria a dar-se, como é tantas vezes o caso com os produtos e conceitos que abordamos neste blog, com o dealbar da era digital 2.0, com as suas plataformas de vídeo e streaming, que tornariam obsoletos não só este tipo de estabelecimentos, como o próprio conceito de formatos físicos para gravação e reprodução de filmes. Após o aparecimento de serviços como o YouTube, não tardaria muito até aqueles carismáticos 'buracos' escuros e esconsos, cheios de uma ponta à outra com estantes repletas de filmes de todos os tipos, estilos e géneros, fecharem portas para sempre, e para o próprio conceito que representavam desaparecer da consciência popular da sociedade ocidental. Os mais velhos, no entanto – aqueles que se lembram da sensação de ir, sozinho ou acompanhado, buscar os 'filmes da semana' ao videoclube mais próximo – não deixarão morrer a memória destes espaços, tão icónicos e indissociáveis da cultura jovem da época como as lojas de discos, os cinemas de bairro, os salões de jogos 'manhosos' ou as discotecas de cave de centro comercial.

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