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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

23.05.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A década de noventa ficou – em Portugal como no resto do Mundo - marcada por muitas e muito mediatizadas rivalidades comerciais: da Pepsi com a Coca-Cola, dos Blur com os Oasis (que aqui paulatinamente abordaremos) da WWF com a WCW e, claro, da Sega com a Nintendo, sendo que esta última se destacava das restantes por se dar em duas frentes, com as rivais japonesas a competirem directamente não só através dos produtos que lançavam, mas também das suas mascotes.

Efectivamente, a 'luta' entre Sonic e Super Mario pelo coração das crianças e jovens noventistas traduziu-se em muitas e boas horas de entretenimento, quer através de alguns dos melhores jogos da década (um dos quais aqui recentemente abordámos) quer através das inevitáveis séries de desenhos animados que eram praticamente um pré-requisito de qualquer propriedade comercial infanto-juvenil bem sucedida; e porque, recentemente, aqui falámos de uma das três séries de animação dedicadas ao porco-espinho da Sega (a única a chegar a Portugal) nada mais justo do que nos debruçarmos, hoje, sobre o principal veículo animado do rival, o famoso 'Super Mario Brothers Super Show.'

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Estreada na RTP1 em 1993, numa altura em que ainda não havia a preocupação de dobrar todo e qualquer conteúdo dirigido ao público infantil (situação que se alteraria a partir de meados da década), o desenho animado de Mario não teve sequer direito a nome traduzido em português, sendo que até mesmo as cassettes VHS com episódios da série entretanto lançadas em Portugal traziam a dobragem brasileira; é, pois, de crer que muitas crianças e jovens da época conhecessem a série apenas pelo nome do protagonista. Quanto à não dobragem dos conteúdos propriamente ditos, esta constitui, neste caso específico, um ponto a favor, já que os diálogos da parte em 'acção real' de cada episódio são, sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série 

Sim, dissemos mesmo 'acção real' – isto porque, ao contrário da série do rival, cada episódio do 'Super Show' estava dividido entre segmentos com actores verdadeiros a interpretar Mario e Luigi – um deles o lutador da WWF, 'Captain' Lou Albano – e outros em desenho animado, que se dividiam entre episódios das aventuras dos dois irmãos canalizadores e das de Link, o protagonista da série 'A Lenda de Zelda'. E se os primeiros eram fiéis quanto-baste ao material de base – estavam presentes a Princesa Peach, o cogumelo vivo Toad, o vilão Rei Koopa (ou Bowser), e os inimigos e poderes do jogo – o segundo tomava bastante mais liberdades com o mesmo, incluindo mudar a cor de cabelo e personalidade de Link (o qual repetia frequentemente uma frase-feita hoje tornada 'memética') e dar um papel mais proeminente a Zelda, que nos jogos não passa da princesa a ser resgatada.

Sabemos que algo se tornou um 'meme' quando tem direito a uma montagem de dez horas no YouTube

Em ambos os casos, a qualidade da animação, do trabalho de vozes e das histórias é perfeitamente típica da época em que a série foi produzida, o mesmo podendo dizer-se dos cenários, situações, diálogos e piadas dos segmentos em acção real, que não surpreenderão qualquer espectador que tenha visto sequer um episódio de uma qualquer 'sitcom' de inícios dos anos 90. O resultado é um produto extremamente 'de época', que se apoia declaradamente no interesse e procura por materiais relacionados com os personagens que o integram, mas que consegue, ainda assim, nunca descer abaixo de um nível aceitável e perfeitamente tolerável.

Não há dúvida, no entanto, de que 'Super Mario Bros. Super Show' deixou, pelo menos, um legado à cultura popular contemporânea, também ele transformado, hoje em dia, em 'meme': os seus genéricos de abertura e encerramento, que apropriam desavergonhadamente ainda mais um elemento de enorme sucesso entre os jovens – o nascente movimento 'rap'/'hip-hop', especificamente a vertente mais virada para a dança – e o misturam com efeitos sonoros retirados do jogo com resultados decididamente 'tão maus que são bons'; ver 'Captain' Lou Albano (ao que consta, alcoolizado em todo e qualquer segmento em que surge) a tentar infrutiferamente adoptar uma cadência 'rap' por cima do famoso tema do primeiro  'Super Mario Bros', enquanto executa algo que vagamente se assemelha a uma dança é tão deprimente quanto hilariante.

...palavras para quê?

De resto, tal como as tentativas de transpôr o rival Sonic para um papel menos interactivo, 'Super Mario Bros. Super Show' merece permanecer nos anos 90, sendo trazido à baila apenas ocasionalmente, no contexto de um 'post' como este – ainda que, mesmo assim, consiga ser melhor que as versões posteriores da série, já para não falar da longa-metragem de acção real, estreada no mesmo ano...

12.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 11 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 80 e 90 representaram, talvez, o auge do cinema de acção exagerado, em que heróis musculados fazem rebentar 'a esmo' estruturas, matando dezenas ou mesmo centenas de inimigos de uma só vez, sem jamais serem atingidos. E se, no cinema, este estilo de trama ficou imortalizado, à época, pelos filmes da 'trinca' Schwarzenegger-Willis-Stallone, na televisão de 'acção real', a mesma é mais comummente associada a um nome: 'The A-Team'.

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Criada em 1983, a série é, em muitos aspectos, perfeitamente típica, e até emblemática, da 'era Reagan' dos Estados Unidos, com a sua nostalgia pelo Vietname e conceito centrado num grupo de ex-combatentes dessa guerra, transformados em mercenários após serem injustamente condenados de um crime militar; mesmo sem esse enquadramento contextual, no entanto, é extremamente fácil situar esta série no tempo após apenas alguns minutos de visualização, já que os elementos típicos do cinema de acção da época estão absolutamente todos presentes, a ponto de a série se ter tornado sinónima com os estereótipos desse género cinematográfico. Semana após semana, ao longo de quatro anos e cinco temporadas, Hannibal, Faceman, 'Howlin' Mad' Murdoch e, claro, o inesquecível e inimitável B. A. Baracus enfrentaram inimigos de mira muito pouco afinada, explodiram bases e locais-chave para a estratégia dos mesmos e realizaram arriscadas fugas na sua icónica carrinha, a fim de defender inocentes moçoilas e honestos agricultores dos poderes que os queriam prejudicar; uma fórmula tão previsível que beirava a auto-paródia, mas que conseguiu cativar toda uma geração de jovens americanos (tanto da parte Norte como Sul) e nada menos do que DUAS gerações de portugueses.

Isto porque, em território nacional, a série teve duas transmissões distintas: primeiro em versão original, logo no ano seguinte à estreia nos EUA e com o título 'Soldados da Fortuna', e mais tarde na icónica dobragem brasileira (sim, de Herbert Richards!) que transformava o grupo no 'Esquadrão Classe A'. Terá sido esta a versão a que a maioria dos leitores deste blog terá assistido nas manhãs em que não havia escola, e será nesta que o presente post, maioritariamente, se centrará.

O lendário genérico de abertura da série, na sua versão brasileira

Exibida pela TVI ali por volta de meados da década, 'Esquadrão Classe A' é até hoje tida como o exemplo perfeito de uma dobragem que supera o original; isto porque a adaptação para português do Brasil era tão, mas tão bem feita que ajudava a tornar a série ainda mais aliciante para o público-alvo do que ela já era. O trabalho dos actores brasileiros era (foi) tão marcante, que quem tenha visto sequer um episódio desta versão da série certamente não esquecerá, por exemplo, a exclamação do Baracus de Mr. T, que jurava a cada episódio 'não entrar em avião nenhum' - invariavelmente, momentos antes de ser visto a bordo de um avião. Estes pequenos detalhes, que também se podiam encontrar, por exemplo, nas dobragens dos filmes Disney da época, ajudavam a acentuar o sub-texto cómico da série, dando-lhe o balanço perfeito entre acção e momentos mais 'leves' - receita quase infalível para o sucesso de qualquer série da época.

Apesar de essa dobragem ter sido o principal motivo pelo qual 'The A-Team' perdurou na memória da 'Geração X' e 'millennial' portuguesas, no entanto, a mesma foi sumariamente deixada de parte em subsequentes transmissões da série na televisão nacional: tanto a repetição que passou na SIC Radical como a que a RTP Memória exibiu se baseavam na versão 'Soldados da Fortuna', exibida nos anos 80 com a trilha sonora original legendada em Português; uma pena, já que, para muitas ex-crianças e jovens da época, 'The A-Team' é daquelas séries que (como Power Rangers, por exemplo) nunca parece totalmente 'certa' sem os personagens a falar português...

17.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Grande parte do humor é intemporal. Apesar de a definição do que tem ou não piada tender a divergir de geração para geração e de cultura para cultura, há coisas que nunca deixam de ter graça – um jovem dos dias de hoje pode, por exemplo, derivar tanto prazer de um episódio de Mr. Bean ou Tom e Jerry como os seus pais ou avós quando eram da mesma idade. Assim, não é de estranhar que, de quando em vez, alguém decida recuperar um destes conceitos perpetuamente divertidos e apresentá-lo a todo um novo público, na esperança de que o legado desse material se perpetue ainda por mais uma geração.

Foi precisamente isso que a RTP fez quando, há pouco mais de um quarto de século, no Verão de 1996, decidiu recuperar a obra humorística de José de Oliveira Cosme, criada e transmitida na rádio sessenta anos antes, e adaptá-la para a televisão estatal de meados da década de 90. O resultado foi uma série que ainda hoje faz sorrir quem era da idade certa para lhe achar piada na altura, e que merece certamente ombrear com a obra de Herman José no panteão de séries humorísticas nacionais de finais do século XX.

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De facto, e apesar de expandir consideravelmente sobre o conceito original, a versão 'anos 90' de 'As Lições do Tonecas' não perde a sua essência, continuando a centrar-se na relação entre um aluno da instrução primária cábula, gozão e de 'inteligência saloia', embora de bom coração – o titular Tonecas – e o seu agastado professor, a quem a simples missão de leccionar uma aula com Tonecas na sala deixa sempre à beira de um ataque de nervos. Uma premissa simples, mas que já rendeu dividendos em obras como 'O Menino Nicolau', de Sempé e Goscinny, e que o torna a fazer aqui – mesmo que, na adaptação para televisão, o aluno tenha uma idade algo avançada (em várias décadas...) para ainda andar na instrução primária (se bem que, tratando-se de Tonecas, é perfeitamente possível que tenha simplesmente reprovado uma quantidade infinita de vezes...)

E por falar no aluno, é na interpretação de Luís Aleluia – e, diga-se de passagem, do seu coadjuvante, o 'professor' Morais e Castro – que está um dos grandes trunfos do 'Tonecas' televisivo. O comediante está em grande forma, soltando com gosto as suas piadas de humor brejeiro e, por vees, físico (muitas delas tiradas dos textos originais de Cosme, embora obviamente não todas), e exibindo grande química com o seu parceiro 'straight-man', que leva a muitos momentos divertidos; e, quanto mais não seja, Aleluia tem mérito por conseguir que o seu Tonecas obviamente adulto (mas sempre vestido como um típico 'puto' da escola) não seja, em nenhum momento, estranho ou perturbante – como o Chaves sul-americano, este era um 'miúdo graúdo' que a própria faixa etária alvo aceitava sem reservas, facto que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso do programa.

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As interacções entre o Tonecas de Luís Aleluia e o professor de Morais e Castro estavam na base do sucesso da série

É claro que, sendo uma produção da RTP na década áurea da publicidade e 'marketing', o 'Tonecas' moderno não se mostra averso à expansão para lá do material original, nomeadamente no que toca a conceitos como os convidados especiais. De facto, embora a maioria dos episódios se desenrolassem apenas com os personagens principais e alguns alunos coadjuvantes (estes, verdadeiramente com idade para ainda andarem no ensino básico) surgiam de vez em quando algumas presenças externas para perturbar ainda mais as aulas; alguns destes eram apenas novos personagens representados por actores convidados (como a 'tia' Pureza Bucelas, de Ana Bola), mas outros apareciam a interpretar-se a si mesmos, como naquele episódio em que, sem razão aparente e sem qualquer pré-aviso ou antecipação, os Excesso entram pela sala de Tonecas adentro e se preparam para assistir à aula!

Um daqueles segmentos que definem a expressão 'ver para crer'

É claro que estes 'crossovers' se destinavam, pura e simplesmente, a publicitar os artistas e convidados em causa – não fossem os Excesso a sensação do momento da música portuguesa em 1997-98 – mas o facto é que a ousadia em arriscar este tipo de manobras, numa série que se pretendia fiel à obra de humor clássico que lhe estava na base, pode também ter tido um papel importante na longevidade de 'Tonecas', que se manteria no ar até praticamente ao fim do milénio, tornando-se presença assídua e constante nos televisores das crianças e jovens portuguesas da época.

Todos os truques publicitários do Mundo são em vão, no entanto, se o produto que tentam promover não tiver qualidade; felizmente, mesmo sem estas 'artimanhas', 'Tonecas' revelava-se uma série bem escrita – dentro dos seus parâmetros de humor simples e directo – magnificamente interpretada, e que, no cômputo geral, ainda se aguenta bem nos dias de hoje, mesmo depois das significativas mudanças sociais e culturais que um período de um quarto de século inevitavelmente acarreta. Um bom exemplo, pois, do tal humor intemporal de que se falava no início deste texto, e que tende a ser tão difícil de executar...

04.01.22

NOTA: Este post é correspondente a Segunda-feira, 03 de Janeiro de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Que melhor maneira de começar o ano do que com um dos melhores e mais icónicos temas de abertura da sua época, pertencente a uma das melhores e mais icónicas séries animadas do seu tempo?

Sim, hoje vamos falar da série original de 'Pokémon', um dos pontos de partida e um dos muitos elementos responsáveis pelo sucesso continuado daquele 'franchise' da Nintendo, o qual perdura até aos dias de hoje; e para quem conhece o império 'Pokémon' de hoje em dia, torna-se quase pitoresco (para além de nostálgico) revisitá-lo e recordar como o mesmo era, aqui, nos seus primórdios remotos.

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Chegado a Portugal mesmo a tempo de conquistar a crescente legião de fãs dos primeiros dois jogos lançados para Game Boy (dos quais, aliás, falaremos aqui muito em breve), a primeira temporada do 'anime' original de 'Pokémon' (uma das três do período hoje conhecido como 'Liga Kanto' ou 'Liga Indigo') estreava na SIC em Outubro de 1999, mesmo ao cair do pano da última década do século XX, bem como do segundo milénio; e a verdade é que este 'timing' não poderia ter sido melhor para uma iniciativa deste tipo, já que o final dos anos 90 e inícios de 2000 constituem a última década em que uma série descaradamente destinada a vender um produto poderia esperar almejar algum sucesso nas ondas televisivas . E não nos iludamos: por muito bom que seja enquanto série, o 'anime' de 'Pokémon' destinava-se, só e unicamente, a aumentar os volumes de vendas dos dois jogos, os verdadeiros catalistas de todo o 'franchise'.

As características muito particulares (e exclusivas) do desenho animado, no entanto, acabariam por exercer maior influência sobre os restantes produtos ligados aos monstrinhos de bolso do que se poderia, a princípio, imaginar - logo a começar pelos personagens. Enquanto que nos jogos o protagonista de boné não tinha nome, e os membros do maléfico Team Rocket eram todos rigorosamente iguais (militares de meia-idade, de uniforme descaradamente fascista), o 'anime' tratou de dar a ambas as partes personalidades únicas e absolutamente marcantes. Assim, o rapaz de boné passou a chamar-se Ash Ketchum (sendo 'Ash' uma das opções para o nomear no jogo, e o apelido um trocadilho com 'catch 'em', o bordão do 'franchise' e objectivo principal do protagonista), enquanto que o Team Rocket passou a estar (bem) representado pelo inesquecível duo cómico de Jessie e James, um casal de colegas-que-talvez-namorem com direito a récita introdutória (que muitas ex-crianças daquele tempo ainda saberão de cor e salteado) e capanga Pokémon, na pessoa do não menos inesquecível Meowth - o único Pokémon capaz de falar como os humanos, ao invés de apenas repetir variações sobre o seu nome.

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Uma daquelas imagens que 'falam'...

De igual modo, os líderes dos dois primeiros ginásios Pokémon dos jogos (Brock, o fã de Pokémon ligados à terra, e a 'aquática' Misty) foram promovidos de adversários a aliados do herói, que acompanham até ao final da série, criando uma dinâmica digna dos melhores trios do seu tipo, ao nível da de Ron, Harry e Hermione em 'Harry Potter' ou Aang, Sokka e Katara de 'Avatar'. Juntamente com aquela que se tornaria a figura de proa de todo o 'franchise' - Pikachu, o Pokémon eléctrico rebelde de Ash - e o imprevisível aliado de Misty, um Psyduck sem controlo dos seus poderes, está constituído um núcleo de personagens perfeitamente inesquecível para toda uma geração - com a particularidade de, ao contrário do que acontece na maioria destes tipos de casos, a afinidade pelos heróis e vilões desta série ser transversal a ambos os sexos, ainda mais do que acontecia com os jogos.

De facto, este núcleo duro de protagonistas tornou-se de tal forma popular que não só conseguiu tornar quase insignificantes os pontos fracos da série - como a estrutura repetitiva da maioria dos episódios e alguma tendência para 'encher chouriços' - como forçou a Nintendo a adaptar os restantes elementos do 'franchise' de forma permanente - ainda hoje, haverá muitas ex-crianças prontas a recordar o pasmo que sentiram ao descobrir que, nos jogos originais, Pikachu era apenas 'mais um' Pokémon (e até algo fraco por comparação a outros!) e que as fileiras do Team Rocket não continham uma rapariga de cabelo até aos joelhos nem o seu algo efeminado parceiro de crimes. Mais - a influência da série foi tal que motivou a Nintendo a lançar um terceiro jogo, 'Pokémon Yellow', que mais não era do que os originais 'Blue' e 'Red' com uma única, mas crucial mudança: o Pokémon de início do jogador era agora, por defeito, um Pikachu, que seguia o seu dono como um cão, em vez de ser carregado numa Pokébola - exactamente como acontecia com o rato eléctrico da série! E apesar de esta ser uma manobra de 'marketing' algo cínica - tratava-se, afinal de contas, do mesmo jogo, mas agora com todos os 150 Pokémon num só cartucho, prejudicando quem havia investido num dos títulos originais - para as crianças de finais de 90, o surgimento de 'Yellow' representava um importante elo unificador dos universos da série e dos jogos, e o cartucho foi um sucesso de vendas.

Em suma, e apesar de inicialmente ter sido concebido como apenas um elemento de uma estratégia omnicanal, o 'anime' de 'Pokémon' acabou por se tornar numa das partes mais influentes daquele que se viria a tornar um dos maiores 'franchises' comerciais de sempre - ainda que, para alguns 'gamers' mais velhos, fosse um daqueles programas que só se podiam ver às escondidas (ao contrário dos jogos, que eram socialmente aceitáveis até mesmo entre adolescentes, e muitas vezes jogados na presença, e com a ajuda, dos amigos.) E ainda que não tivesse atingido a popularide de Dragon Ball Z, pelo menos no imediato (poucas coisas atingiram), poucos constestarão o seu lugar no pódio das séries de 'anime' estreadas em Portugal, atrás das aventuras de Son Goku mas ombro a ombro com o outro clássico 'made in Japan' da época, Samurai X; e apesar de nunca ter chegado a ser 'mais que perfeito, maior do que a imaginação', é, ainda assim, um dos desenhos animados mais saudosamente lembrados pela geração em idade escolar naqueles anos de final do milénio, e que ainda demonstra qualidade suficiente para cativar Pokéfanáticos mais novos...

13.12.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Corriam os primeiros anos da década de 90 quando se começaram a popularizar, no mercado de roupa de criança, artigos (muitos deles piratas) com o desenho de um rapazinho de cabelo espetado, pele amarela, figa em riste, e camisola ora azul, ora vermelha; pouco tempo mais tarde, o 'raio de acção' desse mesmo personagem havia-se estendido não só a outros artigos de vestuário como também a produtos como mochilas; mais algum tempo, e o mesmo (juntamente com a sua família) adquiria o direito à sua própria caderneta de cromos (da Panini, claro), colecção de autocolantes, série de decalcomanias e tatuagens temporárias, vários videojogos para os sistemas mais populares da altura, como a Mega Drive e o Game Boy, e até honras de foco central de um dos melhores posters centrais da história da TV Guia. Em apenas um par de anos, este boneco havia surgido do nada para se tornar um verdadeiro 'ídolo' da demografia infanto-juvenil – um feito tanto mais extraordinário quando levamos em conta que a série que protagonizava não era, nem nunca viria a ser, um programa para crianças.

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Não nos enganemos, no entanto – as crianças daqueles inícios dos 90 VIAM 'Os Simpsons'. Não tanto por causa do famoso humor sarcástico e algo negro – que lhes passava, certamente, um pouco 'por cima da cabeça' – mas para ver Bart Simpson fazer a vida negra à família e aos colegas de escola, a ponto de ser, frequentemente, estrangulado pelo pai em pleno quarto (coisa que, claro está, já não sucede hoje em dia – aliás, só é de surpreender como é que ninguém ainda tentou 'cancelar' Matt Groening por incentivar maus tratos a menores através do comportamento de Homer...) O primogénito da família Simpson tornou-se, quase sem querer, o epítoma da rebelião infantil para a década de 90, e – juntamente com personagens como Sonic ou as Tartarugas Ninja – ajudou a criar o protótipo para 'milhentas' personagens 'radicais' ao longo da próxima década, numa tendência que o seu próprio programa satirizou, num dos seus melhores episódios.

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A inevitável caderneta de cromos punha, inevitavelmente, o foco em Bart

Ainda que Bart fosse o principal motivo de interesse para o público infanto-juvenil, no entanto, o personagem estava longe de ser o único trunfo da série criada em 1989, e estreada na RTP dois anos depois; qualquer dissertação sobre o génio dos argumentos daquelas primeiras temporadas de 'Os Simpsons' é, aliás, redundante hoje em dia – TODA a gente sabe o quão bons eram aqueles episódios, especialmente as crianças e jovens dos anos 90, que os viram em primeira mão.

De facto, em Portugal (como, aliás, no resto do Mundo) a série reunia consenso entre jovens e adultos, afirmando-se como um dos primeiros fenómenos transversais a todas as camadas da sociedade, vários anos antes de 'Harry Potter' e duas décadas antes da esteia do Multiverso Marvel nas salas de cinema. O facto de quase todo o 'merchandise' da época ser dirigido especificamente a crianças, e se centrar na figura sardonicamente sorridente de Bart – a mais imediatamente apelativa para a demografia em causa – era fruto, tão-somente, de uma boa interpretação do mercado por parte das companhias em causa, não retirando à série qualquer credibilidade ou atractivo junto do público mais velho.

Infelizmente, a continuação da história d''Os Simpsons' é, também, sobejamente conhecida: demasiadas temporadas, demasiados personagens secundários, concessões a celebridades e ao politicamente correcto, mudanças desnecessárias e controversas, e uma eventual diluição de tudo o que havia tornado aquelas primeiras temporadas tão especiais. Ainda assim, quem tem idade suficiente para recordar 'a vida antes de Bart Simpson' sabe o impacto que o personagem, e a sua respectiva série, verdadeiramente tiveram na sociedade portuguesa de inícios dos anos 90, e em particular junto dos mais jovens – até porque quem tem interesse neste blog terá, quase certamente, sido um desses jovens vestidos com t-shirt alusiva a Bart Simpson, com o personagem desenhado na mochila da escola, e os bolsos cheios de cromos d''Os Simpsons' para a troca...

15.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca à animação, Portugal é um país com pouca tradição; como acontece em quase todos os outros sectores do meio audio-visual, os lusitanos são, sobretudo, consumidores de animação importada do estrangeiro, com particular ênfase nos Estados Unidos (claro), Inglaterra e Canadá.

No entanto, de tempos a tempos, um animador ou empresa de animação nacional consegue não só levar o seu produto adiante como expô-lo a um público mais alargado – e, nos anos 90, foi exactamente isso que aconteceu com a lisboeta Animanostra, responsável por não uma, mas duas das principais produções animadas nacionais durante aquela década e a seguinte. Do momento de maior fama da companhia, falaremos noutra ocasião – hoje, cabe recordar a série que lançou a Animanostra enquanto grande nome do meio dentro de portas, e se tornou uma das mais memoráveis produções animadas nacionais de sempre.

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'A Maravilhosa Expedição Às Ilhas Encantadas' pode não ter tido um título por aí além de apelativo, mas a sua combinação do ambiente directamente ligado à História e tradições portuguesas com um cuidado trabalho técnico (dentro das limitações vigentes) permitiram-lhe ultrapassar essa pecha, e conseguir sucesso suficiente entre o público-alvo para justificar a criação e exibição de uma segunda temporada, mesmo que desfasada no tempo em relação à primeira. Até porque desfasamentos temporais não eram, de todo, um conceito estranho para a equipa da Animanostra, que havia criado a série em 1992, mas só a veria ir ao ar quatro longos anos depois, no Natal de 1996.

Uma vez chegada à RTP, no entanto, 'A Maravilhosa Expedição...' conseguiria 'segurar' o seu lugar na grelha de programação da mesma durante praticamente um ano, tempo que a emissora estatal demorou a transmitir os oitenta episódios (cada um com cerca de cinco minutos) da série original. Findo esse período, a série facilmente encontraria outra casa, desta vez num canal privado, tendo a SIC sido a responsável tanto pela repetição da primeira temporada como pela exibição de vinte episódios inéditos, relativos à segunda - e tudo isto num ano (1998) em que a realização da Expo '98 havia colocado novamente em voga o tema dos Descobrimentos, sohre o qual o desenho animado versa. As aventuras de Simão, Oliveirinha, Libório, Dom Fuas e os restantes tripulantes do 'Destemido' chegavam assim, através do popular Buereré, a todo um novo contigente de crianças – além daquelas que já haviam acompanhado a primeira temporada, dois anos antes, e que teriam assim a oportunidade de acompanhar a continuação das referidas aventuras.

E a verdade é que valia mesmo a pena assistir às viagens da fictícia caravela portuguesa e dos seus carismáticos tripulantes; além da curta duração dos episódios, que fazia com que nunca chegasse a cansar, 'A Maravilhosa Expedição...' era uma série bem escrita, bem animada e bem sonorizada (o genérico era do melhor que por cá se fez durante aquela época), com um estilo muito próprio, e que pouco ficava a dever a muitas das séries produzidas no resto da Europa durante a mesma época - só faltava, mesmo, o orçamento e a publicidade de que dispunham as criações inglesas e norte-americanas. Esta afirma-se, pois, como uma série bem merecedora de ser revisitada ou descoberta, por quem não conhece e nunca viu – especialmente por ser um produto nacional num país onde estes não primavam (nem primam) pela abundância...

 

10.11.21

NOTA: Este post é correspondente a Terça-feira, 09 de Novembro de 2021.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem sintonizava a RTP às tardes de semana no final dos anos 80 e início dos 90 (no tempo dos logotipos C1 e TV2 e dos separadores RDP) certamente terá memórias de uma senhora loira, de cabelo comprido, que se sentav a contra um fundo acinzentado e apresentava séries e uma sucessão dedesenhos animados nada menos que históricos, desde o lendário anime de Tom Sawyer ao visado na nossa última Segunda de Séries, o inesquecível Bocas.

Pois é desse mesmo programa (e dessa mesma senhora, que dele é indissociável) que vamos hoje falar. O programa, como quem viu decerto estará lembrado, chamava-se Agora, Escolha, e a senhora era Vera Roquette, figura-chave da RTP durante aquelas décadas, e não apenas por virtude deste programa.

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Nascido em 1986, da mente de Carlos Pinto Coelho, o Agora, Escolha destacava-se, desde logo, pelo conceito inovador – em vez de simplesmente apresentar ao espectador aquilo que a estação havia determinado, era-lhe dada a escolha entre duas opções (daí o nome do programa). Essas mesmas opções – sempre diferentes de um programa para o seguinte, e muitas vezes díspares ao ponto da quase aleatoriedade – eram delineadas pela apresentadora no início de cada emissão, juntamente com instruções sobre como os espectadores poderiam votar no seu 'bloco' preferido, A ou B; e se, hoje em dia, este tipo de votação teria lugar numa rede social, à época, a mesma efectivava-se pelo meio de comunicação mais imediato de entre os disponíveis, o telefone (numa linha de valor acrescentado, claro está.) Enquanto os espectadores votavam no 'bloco' que mais lhes agradava, Roquette ia apresentando desenhos e cartas que lhe chegavam, a grande maioria de leitores mais novos, cuja audiência era motivada pelo desenho animado que também sempre passava neste interregno.

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A carismática apresentadora, como muitos se lembrarão dela

É claro que o carácter democrático do programa era, em parte, simulado, através da criação de parelhas desequilibradas ao ponto de o resultado final ser óbvio; a primeiríssima emissão, por exemplo, propunha a escolha entre uma popular série de ficção científica norte-americana e um bailado – e não será decerto preciso pensar muito para perceber quem ganhou... Ainda assim, o conceito era 'transparente' o suficiente para ganhar a adesão do público (à qual também não ficava alheio o carisma da apresentadora) e se manter no ar durante oito anos, de meados dos anos 80 a meados da seguinte, tendo tido, inclusivamente, direito a 'promoção' da ainda hoje periférica RTP 2 para o Canal 1, à época ainda o maior dos canais portugueses.

Escusado será também dizer que um programa com o nível de sucesso do 'Agora, Escolha' (e lembrado com saudade por tanta gente) não poderia deixar de originar tentativas de repetir a fórmula – as quais, neste caso específico, vieram da própria RTP, que tentou ressuscitar o formato não uma, mas duas vezes no espaço de apenas quatro anos: primeiro em 2011, com apresentação de Marta Leite de Castro, e mais tarde em 2015. No entanto, isoladas do contexto das transmissões originais – sem o factor novidade, a grelha de programação da época, a apresentadora simpática, os desenhos dos miúdos, o Bocas e o Tom Sawyer – e com a adição de alguns detalhes perfeitamente inúteis a uma fórmula que funcionava (como o 'focus group' da versão de 2015, cujas sugestões destinadas a influenciar a escolha destroem por completo a premissa de liberdade de escolha oferecida pelo original) não é de surpreender que ambas estas tentativas tenham falhado redondamente, e tido um impacto praticamente nulo na memória colectiva portuguesa, e embora seja possível que, daqui a vinte anos, alguém escreva um artigo nostálgico sobre a edição de 2011 ou 2015 do Agora Escolha, é também muito pouco provável...

Já o original continua a viver na memória de milhares de portugueses que o experienciaram à época – entre os quais, certamente, milhares de ex-jovens que, ao verem o título e tema deste post, já terão provavelmente corrido ao YouTube, para recordar um dos programas mais inovadores e merecidamente populares da sua infância e adolescência. Para esses, deixamos aqui uma ajudinha...

 

05.10.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 5 de Outubro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Nas últimas edições desta rubrica, temos vindo a falar de séries para adolescentes americanas dos anos 90 que, por alguma razão, tiveram igual repercussão por terras lusitanas; e depois de termos falado das principais representantes da vertente mais séria e mais cómica do estilo, chega hoje a vez de falarmos do terceiro concorrente nesta competição pelo interesse dos espectadores mais jovens, o qual não chegou a conseguir o mesmo nível de sucesso das suas congéneres, mas deixou ainda assim a sua marca entre o público infanto-juvenil da época.

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Falamos de ‘Parker Lewis’ (ou ‘Parker Lewis Can’t Lose’, como era conhecido no seu país de origem), uma ‘sitcom’ da Fox que pegava em alguns dos elementos utilizados pela série rival, ‘Já Tocou!’, os aumentava a um nível quase caricatural, e os misturava com uma boa dose de inspiração retirada do filme ‘O Rei dos Gazeteiros’, que muitos dos nossos leitores mais provavelmente conhecerão pelo seu título original, ‘Ferris Bueller’s Day Off’.

Tal como o filme de 1982, ‘Parker Lewis’ segue as aventuras do gazeteiro e ‘gozão’ do mesmo nome (interpretado por Corin Nemec, que não viria a ter quaisquer outros papéis de nota), um sucedâneo (ou sucessor) de Ferris Bueller que frequenta  uma escola secundária californiana e que, com a ajuda dos seus dois melhores amigos e alguns outros colegas menos chegados, faz a vida negra à directora da escola, enquanto tenta evitar os ‘ataques’ estilo partida de Carnaval da sua maléfica irmã mais nova.

Uma premissa bastante comum, e até algo gasta, para uma série deste tipo, mas que, neste caso específico, era apimentada com uma dose considerável de referências à cultura ‘pop’da época e daquilo a que se convencionou chamar ‘fourth wall breaking’ – aquele fenómeno em que os personagens sabem estar dentro de uma ficção, e utilizam alguns dos elementos da mesma a seu favor. Embora não totalmente original – Zack Morris, de ‘Já Tocou!’, também era conhecido por se dirigir directamente aos espectadores, por exemplo – esta abordagem granjeava algum interesse a ‘Parker Lewis’, e ajudava a série a cimentar um lugar no concorrido mercado de ‘sitcoms’ para adolescentes, tanto nos EUA como em Portugal.

parker-lewis-cant-lose-the-complete-first-season-2O personagem principal em modo 'fourth wall break'

Ainda assim, o sucesso das aventuras de Parker e seus amigos não foi tão pronunciado que levasse à exibição em Portugal das três séries criadas pela Fox entre 1990 e 1993; a série passou em terras lusas durante apenas um ano, substituindo precisamente ‘Já Tocou!’ na grelha da TVI. Nesta batalha em particular, no entanto (e apesar dos ‘gadgets’ de que Parker e os seus comparsas dispunham na sua base secreta por baixo do ginásio) pode dizer-se que o liceu de Bayside saiu claramente a ganhar do confronto com o liceu de Santo Domingo - e que Parker Lewis, que segundo o próprio título da série, 'não pode perder'...perdeu. Ainda assim, os planos de Parker foram suficientemente bem sucedidos para lhe granjear algumas linhas – bem como a honra de concluir a retrospectiva sobre séries para adolescentes dos anos 90 - aqui neste nosso blog…

20.09.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O início dos anos 90 viu chegar a Portugal a febre das séries de adolescentes norte-americanas, a qual teve tal impacto entre a demografia-alvo que levou, inclusivamente, a que um dos quatro canais portugueses tentasse produzir um equivalente ‘tuga’, do qual paulatinamente falaremos; e depois de na última Segunda de Séries termos abordado o principal expoente desta febre, chega hoje a vez de examinarmos uma das duas alternativas mais cómicas à suposta seriedade de 90210. Agarrem, portanto, nas vossas roupas e acessórios mais berrantes e espalhafatosamente ‘90s’, pois está na hora de viajar até ao liceu de Bayside, na Califórnia, onde…Já Tocou!

Sim, ‘Já Tocou’, mais conhecido hoje em dia pelo seu nome original, ‘Saved By The Bell’, e que se perfilava como a resposta em formato ‘sitcom’ à ‘soap opera’ de ‘Beverly Hills 90210’. Tal como naquela série, o foco principal eram as desventuras de um grupo de jovens – estes verdadeiramente adolescentes, e como tal bem mais realistas do que os ‘vintões’ ebonecados vide Beverly Hills – durante o seu dia-a-dia numa típica escola secundária americana. Entre namoricos e confrontos com o desafortunado director Mr. Belding, a pandilha liderada pelo ‘loirinho’ de farripas Zack Morris (Mark-Paul Gosselaar) lá ia resolvendo um problema por semana, não podendo também faltar os habituais episódios especiais sobre problemáticas tão 90s como o consumo de drogas - no caso, comprimidos de cafeína, naquele que é o episódio mais memético e recordado da série.

Um dos melhores momentos de comédia involuntária da história da televisão moderna...

Tal como em outras séries deste tipo, no entanto, os enredos eram o que menos interessava; o que fazia a série resultar (e resultava) eram os diálogos cheios de ‘one-liners’ e a química entre os personagens, com destaque para o impagável Screech, o ‘totó’ do grupo, interpretado pelo malogrado Dustin Diamond, à época ainda verdadeiramente adolescente (Diamond tinha apenas 11 anos quando a série estreou nos EUA, o que torna as suas prestações simultaneamente mais naturalistas e mais impressionantes que as dos seus coadjuvantes mais velhos.) Dos restantes, destaque para Mario Lopez, o musculado Slater, e para a paixoneta de todos os jovens da altura, Tiffani-Amber Thiessen – ou antes, Kelly Kapowski, o vértice feminino do habitual triângulo amoroso, aqui com os ‘frenemies’ Zack e Slater como pretendentes.

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Os protagonistas principais da série

No fundo, pois, uma típica série de comédia juvenil norte-americana, mas que resultava muito bem, e que conseguiu o seu público em Portugal (como, aliás, aconteceu também nos seus Estados Unidos natais) aquando da sua transmissão pela TVI, em 1993-94. O mesmo, infelizmente, não se pode dizer das sequelas, das quais apenas ‘Já Tocou…Na Faculdade’ passou em Portugal, tendo um impacto e sucesso consideravelmente menores relativamente ao original, talvez porque as premissas nas quais a série se baseava não resultassem tão bem fora do contexto do secundário, ou talvez porque o público tivesse simplesmente ‘partido para outra’…

Seja como for, no entanto, é inegável que ‘Já Tocou’ – o original – foi uma série marcante para muitos jovens portugueses da primeira metade dos anos 90 (entre eles este que vos escreve) que não tinham grande ‘pachorra’ para o dramalhão de ‘90210’, e só queriam dar umas gargalhadas antes do jantar - e só isso já é´suficiente para a fazer merecer um espaço nesta série de artigos sobre séries adolescentes do ‘nosso’ tempo.

07.09.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 6 de Setembro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das principais ambições de qualquer criança é ser ‘crescido’ – o que, muitas vezes, equivale, na mente dessas mesmas crianças, a ser adolescente. De facto, a combinação única entre a falta de responsabilidades e a liberdade de actuação e pensamento que essa época normalmente representa parece, muitas vezes, constituir o balanço perfeito para uma vida agradável – pelo menos até se chegar, efectivamente, à idade adolescente, e se perceber que não é bem assim…

Ainda assim, este ideal dos anos formativos constitui uma das principais razões para o sucesso, entre os pré-adolescentes, de diversas séries direccionadas à faixa etária e demográfica directamente acima da sua; e, nos anos 90, não havia melhor exemplo deste fenómeno do que ‘Beverly Hills 90210’, que em Portugal chegou também a ser conhecido pelo título ‘Febre em Beverly Hills’.

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Produzida por Aaron Spelling, responsável por uma fatia considerável do entretenimento televisivo ‘light’ norte-americano da época, ‘Beverly Hills 90210’ não é só uma daquelas séries repletas de jovens impossivelmente atraentes, na casa dos vinte anos, a representar alunos do décimo-primeiro ano – é o ‘template’ padrão para esse tipo de séries. A par de ‘Melrose Place’ e ‘Dawson’s Creek’ (ambas da mesma época), esta foi a série que introduziu e cimentou muitos dos estereótipos narrativos que este tipo de programa viria a seguir nas três décadas seguintes; digamos que, sem ‘Beverly Hills’, algo como os ‘Morangos com Açúcar’ talvez nunca tivesse existido.

Em Portugal, a série não foi menos influente do que nos seus EUA natais – muito pelo contrário, difícil era passar uma semana sem os actores e actrizes principais da série aparecerem na capa de uma Super Jovem desta vida, em entrevista exclusiva ou simplesmente como alvo de um artigo de curiosidades pessoais. O facto de a série apresentar não um, mas dois dos maiores ídolos entre as raparigas daquele tempo – Jason Priestley e o malogrado Luke Perry – também não abonava nada a favor de quem quisesse ter menor exposição à série, o mesmo se podendo dizer das presenças femininas de Jenny Garth, Tori Spelling (filha do produtor da série) ou da eterna rebelde Shannen Doherty, aqui no papel que a lançaria para o estrelato. No cômputo geral, eram quase ‘pessoas bonitas’ a mais para conviverem todas num mesmo programa – mas a verdade é que era mesmo esse o caso, e que a fórmula resultava mesmo em pleno.

Escusado será dizer que as histórias e enredos de ‘Beverly Hills’ pouco fugiam dos padrões expectáveis de uma telenovela para adolescentes – quem andava com quem, quem acabava com quem, quem engravidava de quem, e por aí adiante. Nada que puxasse demasiado pela imaginação do público-alvo – o qual, diga-se de passagem, talvez não se importasse demasiado com o assunto. Afinal, ninguém via ‘Beverly Hills 90210’ à espera de histórias envolventes e intrigantes; a série era puro escapismo ‘wish fulfillment’ para a demografia a que se destinava – e, por arrasto, também a anterior. Prova disso foi o sucesso de que a série gozou tanto nos Estados Unidos, onde esteve no ar durante toda a década de 90, como em Portugal, onde passou durante apenas metade desse tempo (de 92 a 97) mas suscitou uma ‘Febre’ que fazia jus ao título nacional.

Tal como muitas outras séries daquela época, também 'Beverly Hills 90210’ foi alvo de um ‘remake’ contemporâneo, já no novo milénio; no entanto, se a série original já estava longe de ser uma obra-prima, a nova era ainda pior - tal como, aliás, tende a acontecer na maioria dos casos análogos.

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A sério, isto é mesmo mauzinho...

Assim, mau por mau, sugerimos que se fiquem pela série original, que (apesar de datada, ou talvez precisamente por causa disso) é bem capaz de suscitar um assomo de nostalgia que rivalize com qualquer outra das abordadas até agora neste blog…

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