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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

19.03.24

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 18 de Março de 2024.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O final dos anos 80 e inícios dos 90 representaram uma 'era dourada' para a produção de comédias televisivas - as chamadas 'sitcoms' - em solo norte-americano, tendo este período sido responsável pela criação de inúmeras boas recordações de infância para cidadãos não só norte-americanos, como de vários outros países aos quais as séries chegavam, com mais ou menos atraso. Um desses países era, precisamente, Portugal, que ao longo da última década do século XX recebia 'tesouros' como 'Já Tocou!', 'Parker Lewis', 'Quem Sai Aos Seus' ou a série de que falamos hoje, 'The Nanny', traduzida em português primeiro como 'Feita À Medida' e, mais tarde, como 'Competente e Descarada'.

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Idealizada em 1993 pela humorista Fran Drescher, que reservava para si mesma o papel principal, a série foi uma das muitas apostas da TVI para as suas primeiras grelhas de programação, no caso ocupando uma das 'vagas' dos Domingos à tarde, posição que lhe garantia a atenção indivisa de uma grande fatia do público infanto-juvenil nacional. Não é, pois, de admirar que, embora declaradamente dirigido a adultos - com diálogos, premissas e situações assentes nos habituais trocadilhos brejeiros - o programa faça parte das memórias nostálgicas da geração 'millennial' portuguesa, à época ainda menor de idade, e que tinha no genérico animado e de melodia contagiante e na igualmente contagiante e icónica gargalhada de Fran os principais pontos de atracção e interesse na série.

A série contava com um daqueles temas de abertura absolutamente icónicos.

Apesar deste sucesso inicial, no entanto, 'Competente e Descarada' não conseguiu, em Portugal, o mesmo sucesso de que gozara nos seus EUA natais, onde as aventuras da ex-vendedora de cosméticos em casa da família milionária renderam seis temporadas, ficando no ar até quase à viragem do Milénio; em terras lusitanas, a série ficou no ar não mais do que um par de anos na primeira metade da década de 90, sendo que, em 1999, o panorama televisivo nacional já dificilmente encontraria espaço para 'encaixar' uma produção antiquada deste tipo. Ainda assim, quem, em pequeno, se divertiu com os 'dichotes' da desbocada Fran e com as lutas verbais entre o mordomo e a secretária da família (que acabam juntos, claro) certamente terá, após ler estas linhas, tido vontade de ir ao YouTube e procurar um par de episódios da série para 'matar saudades' e reavivar memórias...

04.03.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Aquando do trigésimo aniversário do nascimento da TVI, referimos aqui que, nessa fase inicial, a 'Quatro' chamou, em parte, a atenção pela sua aposta em séries e filmes de qualidade. De facto, a adesão a parâmetros religiosos (que impediam a divulgação de material mais violento ou polémico, mas que certamente traria audiências) não impediu a estação de Queluz de montar um arquivo de ficção televisiva importada de enorme qualidade, dividido entre produções mais modernas (como a emblemática 'Marés Vivas') e 'clássicos' de décadas passadas, 'repescados' e apresentados a toda uma nova geração. Era neste último grupo que se inseria a Série sobre o qual versaremos esta Segunda – a adaptação televisiva da colecção de livros semi-autobiográficos de Laura Ingalls Wilder, 'Uma Casa Na Pradaria'.

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A família Ingalls, sobre a qual se centra a série.

Criada ainda nos anos 70 e produzida até 1983, num total de sete temporadas, a série em causa não era, de todo, desconhecida do público nacional mais velho, que já a acompanhara aquando da sua primeira exibição na emissora estatal, em inícios da década de 80, 'suspirando' pelo galã Michael Landon, da também mega-popular produção 'western' 'Bonanza'. Não era a essa demografia, no entanto, que esta reposição da TVI se dirigia; o 'repescar' da série como parte da grelha televisiva inicial da estação de Queluz tinha como fito captar a atenção de toda uma nova geração do público-alvo da produção – as crianças e jovens.

Nesse aspecto, no entanto, 'Uma Casa Na Pradaria' almejou resultados por demais modestos; por oposição à 'febre' que a sua transmissão inicial causara, a reposição dos anos 90 pouca ou nenhuma tracção conseguiu entre os telespectadores mais novos, à época mais 'ocupados' com material mais voltado à acção e aventura, ou com desenhos animados como 'Tiny Toon Adventures'. De facto, no pátio de recreio comum, havia pouco quem visse (ou, pelo menos, admitisse ver) a série da TVI, e mesmo na 'era da nostalgia', o discurso saudosista sobre a mesma pauta por escasso – mesmo no contexto de uma geração que recorda e sente a falta de anúncios de telemóveis, cartões telefónicos ou mesmo dinheiro em nota!

Ainda assim, 'Uma Casa...' terá gerado suficientes audiências para ser 'ressuscitada' ainda uma terceira vez por um canal, no caso a RTP Memória, que exibia a série em 2009, uma década e meia após a aposta da TVI - um intervalo suficientemente alargado para suscitar quaisquer sentimentos de nostalgia que essa segunda transmissão pudesse ter causado, ao mesmo tempo que apresentava o programa aos novos jovens da 'era digital'. Esse parecia ter mesmo sido o 'último suspiro' da família Wilder nos televisores portugueses, mas eis que, volvidos mais quinze anos, voltamos a ver este ano Charles, Caroline e as filhas Mary, Laura e Carrie na grelha de programação do principal canal saudosista da TV Cabo - um verdadeiro testamento à longevidade de uma série que, sem ser especialmente lembrada, se recusa terminantemente a ser esquecida.

24.10.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O ambientalismo e a ecologia foram, a par da luta contra as drogas e da informação sobre o flagelo da SIDA, dois dos principais temas para os quais qualquer jovem português dos anos 90 foi extensivamente sensibilizado, quer pelos próprios pais, quer pelos educadores e até pelos 'media' de informação e entretenimento. De facto, além de constituírem assunto frequente nos noticiários dos 'graúdos', estes temas 'infiltraram' a grande maioria da programação infanto-juvenil da época, com quase todas as séries dirigidas a um público menor de idade lançadas à época a terem direito ao 'episódio especial' em que os protagonistas tentam evitar que um amigo experimente drogas, ou travar um industrialista malvado que pretende arrasar uma floresta.

No dealbar dos anos 90, uma companhia decidiu levar este conceito ainda mais longe, e dedicar toda uma série animada a um super-herói defensor da ecologia e do planeta; o resultado foi uma das séries mais meméticas de sempre, e a primeira a 'vir à baila' sempre que se tentam recordar exemplos de produtos mediáticos descaradamente destinados a educar sobre um único tema, de forma totalmente falha de qualquer subtileza.

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Criado por Ted Turner – patrão da Turner Entertainment e principal responsável pela divulgação da maior concorrente da WWF no mercado da luta-livre americana, a WCW – o Capitão Planeta e os seus fiéis ajudantes, os Planeteiros, começaram por 'condicionar' para a ecologia as crianças norte-americanas, em 1990, antes de, no ano seguinte, atravessarem o Atlântico para surgir nos écrãs dos jovens lusitanos, pela mão da RTP, e em versão legendada, dado estar-se, ainda, nos primórdios da dobragem 'made in Portugal'. As crianças portuguesas da época puderam, assim, desfrutar precisamente da mesma experiência dos seus congéneres norte-americanos, com todos os elementos hoje amplamente parodiados, como as frases de efeito – 'by your powers combined, I am Captain Planet!', 'the power is YOURS!', 'GOOOO PLANET!' - e o irresistível tema-título, a marcarem presença sem qualquer 'localização' para a língua-pátria. E se, nos Estados Unidos, 'Capitão Planeta' beneficiou, sobretudo, do horário único, sem a oposição de qualquer outro conteúdo infantil, em Portugal, a vantagem veio da inclusão no popular bloco 'Brinca Brincando', da RTP, que quase garantia o visionamento por parte de uma percentagem significativa da população jovem nacional.

E a verdade é que 'Capitão Planeta' bem pode agradecer por essa 'benesse', dado tratar-se de uma série do mais 'azeiteiro', que apenas seria possível naqueles últimos anos do século XX – cuja estética, aliás, permeia cada 'frame' de animação. A premissa até não é má, e chega para cativar qualquer criança fã de super-heróis, mas as constantes 'lições' sócio-ecológicas do herói de cabelo verde (e também, diga-se de passagem, dos seus mini-coadjuvantes) são tão forçadas quanto se poderia pensar, e claramente dirigidas ao espectador para lá da 'quarta parede', em vez de inseridas nos episódios de forma natural e subtil; subtileza, aliás, é coisa que não existe em 'Capitão Planeta', o tipo de série que conta com vilões denominados 'Capitão Poluição' – uma versão maléfica do protagonista, naturalmente – e Looten Plunder.

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Os próprios personagens são do mais irritante que há, com os Planeteiros como aquele tipo de herói infantil culturalmente diverso, insuportavelmente virtuoso e 'espertinho' que 'infectava' a programação para crianças da época, e o próprio Capitão a habitual cópia do Super-Homem com ainda menos personalidade (e, neste caso, poderes ambientais). Pela lógica, a série não deveria resultar, mas a verdade é que se passava o oposto, com o programa a fazer o suficiente para cativar jovens bastante menos cínicos do que os de hoje em dia, e a conseguir algum sucesso enquanto foi transmitida na RTP.

No entanto, talvez haja uma razão para, até hoje, não ter havido segunda exibição da série, algo quase inédito no contexto dos desenhos animados da época. A verdade é que 'Capitão Planeta' envelheceu muito, mas mesmo muito mal, sendo fácil perceber a razão porque muitos adultos da época se envergonham de ter assistido a esta série quando eram pequenos. Não é o caso deste que vos escreve (e que vai mesmo ao extremo de admitir que o seu Planeteiro favorito era o muito 'gozado' Ma-Ti, o elemento do Coração) mas a verdade é que os argumentos em desfavor deste desenho animado são perfeitamente válidos, merecendo o mesmo ser relegado a memória remota e difusa de um tempo muito diferente no tocante a entretenimento para crianças. O épico tema de abertura, de longe o melhor elemento do programa, merece um lugar no panteão de grandes exemplos do género; o resto é perfeitamente dispensável, excepto para uma sessão de nostalgia semi-irónica ou para perceber porque razão os anos 90 são considerados uma das épocas mais satirizáveis dos últimos cem anos...

Outro dos grandes genéricos dos anos 90, e de longe o melhor elemento da série.

11.09.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 80 e 90 representaram a chegada ao Ocidente, e respectiva expansão na popularidade, de um género televisivo e filmográfico já com cerca de década e meia de vida no seu país natal do outro lado do Mundo, à época designado 'Japanimação' e mais tarde conhecido pelo seu nome original: 'anime'. E se, em anos vindouros, este género viria a contribuir com uma mão cheia de clássicos absolutos para a juventude da geração 'millennial' – do inigualável fenómeno que foi Dragon Ball Z a séries tão nostálgicas como Samurai X, Navegantes da Lua ou Doraemon – os seus primeiros passos, embora mais modestos, também não foram, de todo, falhos em séries marcantes, bastando para esse efeito referir Esquadrão Águia, Capitão Falcão (mais tarde 'Oliver e Benji) ou Cavaleiros do Zodíaco.

A juntar a estas séries há, ainda – sobretudo para os 'millennials' mais velhos – uma outra, que iniciava há quase exactos trinta anos a sua terceira e última transmissão em Portugal e que, apesar de ficar ligada, sobretudo, à década anterior, ainda chegou a tempo de influenciar a grande maioria dos 'putos' lusitanos de inícios de 90; e, tal como sucede com alguns dos outros programas de que aqui falamos, este é daqueles casos em o primeiro passo tem, forçosamente, de passar pela partilha do tema de abertura.

Por esta altura, muitos dos nossos leitores já estarão, decerto, a cantar a plenos pulmões a letra...

Isto porque – apesar de notoriamente incompleta – a música introdutória (adaptada, como em tantos outros casos, da versão espanhola, e cantada por Francisco Ceia) é, sem qualquer dúvida, o elemento identificativo mais icónico de As Aventuras de Tom Sawyer (ou apenas Tom Sawyer), a adaptação livre, em formato animado, do famoso livro infantil do século XIX, da autoria de Mark Twain. Composta de cerca de cinquenta episódios, originalmente produzidos em 1979 e lançados no inícios do ano seguinte (tendo passado a quase totalidade de 1980 em exibição na televisão japonesa), a série chegaria a Portugal logo de seguida, sem a 'décalage' cultural habitual à época, indo pela primeira vez ao ar na RTP1 entre 1981 e 1982, já em versão dobrada, num exemplo de celeridade pouco habitual naqueles anos pré-digitais.

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Imagem promocional da série.

Escusado será dizer (pelo menos a quem faz parte da faixa de leitores deste 'blog') que a série se revelou um sucesso imediato, tendo marcado os jovens portugueses da 'Geração X' – sobretudo, como já referimos, através do seu icónico tema de abertura – e justificando a repetição, já no fim da década, com o intuito de a apresentar a quem não tinha tido oportunidade de a ver da primeira vez. Seria, assim, entre Março de 1989 e Fevereiro de 1990 que os 'millennials' tomariam, pela primeira vez, contacto com o 'anime' que fizera as delícias dos seus irmãos mais velhos anos antes, e que tornaria a 'repetir a dose' com a nova geração – tanto assim que viria ainda a ser exibida uma terceira vez, há cerca de trinta anos, novamente no então Canal 1, e com a mesmíssima dobragem realizada mais de uma década antes pela Nacional Filmes.

Esta última transmissão seria, no entanto, o 'canto do cisne' para Tom Sawyer, um desenho animado que, embora icónico, já pertencia, nessa época, a uma outra 'era' televisiva, algo distante dos produtos que vinham 'enlouquecendo' os jovens daqueles inícios dos anos 90. Para as crianças da década transacta, no entanto – tanto as que haviam seguido a transmissão original como as que tinham 'saltado a bordo' aquando da segunda exibição – a série é, ainda hoje, um dos principais pontos de referência nostálgicos ao falar da infância em Portugal em finais do século XX, ao nível dos referidos Dragon Ball Z e Navegantes da Lua, ou ainda de séries como Dartacão ou Power Rangers. E nunca é demais repetir que grande parte dessa fama se deve à lendária canção de abertura, sem a qual esta adaptação animada de um clássico da literatura talvez tivesse passado tão despercebida quanto as suas congéneres posteriores alusivas a Mogli, Zorro, Cinderela ou Robin dos Bosques – mais um testamento, caso ainda fosse necessário, do poder de um bom tema de abertura; e, no que toca à televisão infantil portuguesa, este talvez seja 'O' tema de abertura, mais icónico ainda do que 'Dragon Ball, de puro cristal', 'Vive a vida, como uma festa', 'Dartacão, Dartacão!' ou mesmo 'Eu quero ser, mais que perfeito, maior do que a imaginação'. Razão mais que suficiente para o recordarmos, e à série que introduzia e ajudou a tornar memorável. 'Tu andas sempre descalço, Tom Sawyer...'

Sim, existe uma letra completa...

 

29.08.23

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Estava-se nos primeiros anos da década de 60 quando um produtor musical norte-americano tinha a genial ideia de gravar cantores a interpretar canções de forma deliberadamente lenta e, utilizando técnicas de aceleração, alterar as suas vozes para que ficassem com um timbre exageradamente alto, quase 'cartoonesco'. Para combinar com esta voz 'de hélio', o mesmo produtor criaria, então, três personagens animados: esquilos antropomórficos e falantes, adoptados por um músico, e subsequentemente transformados em grupo vocal. Nascia, nesse instante, um fenómeno que poucos preveriam vir a perdurar durante as seis décadas seguintes, mas que continua até hoje a fazer as delícias da criançada, bastando para isso atentar no desenho animado CGI actualmente disponível no Netflix e Nickelodeon, já a terceira a contar com os personagens em causa.

Falamos, é claro, dos Esquilos (actualmente designados como Alvin e os Esquilos) o grupo virtual criado por Ross Bagdasarian (também conhecido como Dave Seville, o 'pai' adoptivo dos três rapazes) e que foi muito além do seu estatuto como 'one-hit wonder' vagamente piadético, tendo chegado a ganhar dois Grammys (!) e tido direito, desde a sua criação, a uma série de banda desenhada, quatro (!!) filmes de acção real, um sem-fim de 'merchandising' e, claro, as referidas séries animadas, das quais a mais famosa (em Portugal e não só) é a segunda, produzida em 1983 e exibida no nosso País em duas ocasiões na década seguinte.

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Responsável pela criação e apresentação das Esquiletes (as namoradas dos personagens, que, como não podia deixar de ser, são versões femininas exactas dos mesmos) a série não deixa, no entanto, que as novas personagens ofusquem os três protagonistas principais; de facto, o foco continua declaradamente sobre Alvin (o travesso e teimoso Esquilo de boné e t-shirt vermelha), Simon (o Esquilo 'marrão' e atinado, oposto do irmão, e que veste de azul) e Theodore (o 'gordinho' sensível, tímido e comilão, cuja cor é o verde) e na sua relação por vezes difícil, mas sempre bem-intencionada, com o pai adoptivo humano. As histórias, essas, giram em torno dos habituais assuntos da vida quotidiana, pertinentes para o público-alvo, como as relações interpessoais ou as emoções próprias, intercalados com o aspecto mais 'show-business' da vida das três 'crianças', e uma ou outra aventura mais mirabolante. O resultado é um programa bem animado, bem conseguido a nível global, e que possui a característica mais importante para se destacar no mercado televisivo infanto-juvenil dos anos 90: um genérico de abertura daqueles instantaneamente reconhecíveis e entusiasmantes, que é já 'meio caminho andado' para o sucesso.

A segunda versão da abertura, quase uma transcrição literal do original.

E sucesso foi coisa que não faltou a esta série, que foi transmitida um pouco por todo o Mundo, incluindo (conforme acima referido) por duas vezes em Portugal, em ambos os 'extremos' da década de 90: primeiro logo a abrir a mesma, na RTP (então Canal 1) e com os nomes dos personagens 'aportuguesados', e mais tarde no Batatoon da TVI, em 1999, com nova dobragem a cargo da Nacional Filmes, e mais fiel ao original. Tal como 'Dennis o Pimentinha', esta foi, portanto, daquelas séries que tiveram a oportunidade de captar duas gerações de público-alvo totalmente distintas, e de as cativar a seguir as aventuras daquela pequena e invulgar família.

Tal como também já vimos acima, este desenho animado esteve longe de ditar o fim da popularidade dos Esquilos, que renovariam ainda a audiência por mais duas vezes ao longo das três décadas seguintes, primeiro através dos filmes e, mais tarde, do actual desenho animado. Nada mal para uma 'ideia parva' tida por um descendente de Arménios de Fresno, Califórnia em meados do século passado...

 

16.08.23

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 14 de Agosto de 2023.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na passada Sexta-feira, falámos aqui dos dois filmes de 'acção real' alusivos ao personagem de Dennis, o Pimentinha (ou Dennis, The Menace) lançados durante os anos 90, numa época em que era grande o volume de séries animadas a terem direito a uma adaptação deste género; nada mais justo, portanto, do que recordarmos agora a animação original cujo sucesso deu azo às referidas tentativas cinematográficas.

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Baseada na decana banda desenhada do mesmo nome, a série animada de 'Dennis, O Pimentinha' foi produzida originalmente em 1986, através da então habitual cooperação entre estúdios norte-americanos e asiáticos, ficando estes a cargo de grande parte da componente animada. A título de curiosidade, este programa em particular contava, ainda, com o patrocínio da companhia de cereais norte-americana General Mills, que surgia, inclusivamente, como detentora dos direitos, mas sobre a qual os 'putos' portugueses não tinham qualquer referência.

Àparte este curioso 'sponsor', no entanto, 'Dennis, o Pimentinha' trazia todos os elementos comuns às séries infantis da altura, do genérico ritmado e ultra-memorável (com animação a condizer) ao formato com duas histórias por episódio, aos próprios argumentos, que seguiam a linha das situações quotidianas, focando-se, sobretudo, nas brincadeiras do protagonista e dos amigos Joey, Margaret e Gina, além do cão Ruff, e nos 'tormentos' causados pelo grupo aos vizinhos reformados, os Wilsons, e sobretudo ao sofredor patriarca George. Uma receita que arriscava pouco, mas não deixava de render vinte minutos bem passados a quem gostava desse tipo de conteúdo, como era o caso lá por casa.

Um daqueles genéricos que 'reside' de graça na cabeça de muitos 'millennials'.

Essa opinião devia, aliás, ser generalizada um pouco por todo o País, já que 'Dennis, o Pimentinha' passou, não uma, mas duas vezes na televisão portuguesa - primeiro na RTP, em versão original legendada, e mais tarde na TVI, onde surgiu em 1995 com uma nova dobragem em Português da Somnorte, em que a família Mitchell se transformava em Meireles. E apesar de se ter ficado por aí a presença de Dennis e seus amigos nos televisores portugueses (a menos que se conte a transmissão no Canal Panda, ainda alguns anos mais tarde) a influência do 'pestinha' de seis anos estendeu-se até finais da década seguinte, tendo uma série de DVDs sido lançada no mercado em 2008, com ainda uma outra dobragem em Português, agora a cargo da PSB. Nada mau para um desenho animado lançado mais de duas décadas antes e que, para o público original norte-americano, era já algo passado e bafiento, tendo constituído um daqueles casos em que o maior sucesso é encontrado num país que não o de origem.

E se, hoje, o 'puto' Dennis é algo menos conhecido - tendo a Geração Z encontrado os seus próprios heróis animados, do qual não faz parte - para os 'millennials', o rapazito loiro de jardineiras vermelhas e 't-shirt' às riscas será, para sempre, um ícone das tardes de infância passadas em frente à televisão a ver os 'bonecos', justificando por isso estas breves linhas recordatórias da sua passagem pelas ondas televisivas nacionais.

31.07.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No primeiríssimo 'post' deste blog, falámos do inesquecível e irrepetível fenómeno que foi Dragon Ball Z; já na última Segunda de Séries, comemorámos os vinte e cinco anos da sua algo desapontante sequela, Dragon Ball GT. Agora, apenas será de bom tom completar a 'trilogia', e falar da série que deu início a toda a 'febre', o Dragon Ball original.

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Criada por Akira Toriyama em 1986 e livremente baseada no antigo conto épico chinês sobre o Rei Macaco, Dragon Ball contava a história de Son Goku (ou Songoku, como era muitas vezes chamado) um rapaz de força prodigiosa, a beirar os super-poderes, com uma estranha cauda de macaco e detentor de uma nuvem mágica que obedece ao seu comando, que procura, simultaneamente, aprender artes marciais e reunir as sete bolas de cristal espalhadas pelo seu fantástico Mundo e que, quando juntas, invocam um dragão realizador de desejos; no caso de Son Goku, o desejo seria o de ressuscitar o avô, detentor original da quarta bola, agora na posse do jovem herói. O destino reúne-o a Bulma, uma adolescente desmiolada que também quer encontrar as bolas de cristal, Yamcha, um fora-da-lei, e Krillin, o outro discípulo do Mestre Tartaruga Genial, de quem Son Goku se torna aluno. Juntamente com personagens mais periféricos como Lunch (uma inocente e tímida menina que, ao espirrar, se torna numa irascível guerrilheira loira e musculada, ao estilo Rambo) Oolong (um ganancioso e oportunista porco antropomórfico) e Puar (um gatinho azul voador e transmorfo) este grupo irá viver muitas aventuras e enfrentar muitos inimigos, entre eles os alunos do Mestre Corvo Genial, Ten Shin Han (um monge com um terceiro olho implantado na testa) e Chaos (um príncipe com a aparência de um boneco de cristal), e os malvados extraterrestes Pilaf e Satã (sim, é mesmo esse o seu nome) cujo 'rabugento' filho se viria a tornar aliado dos heróis em 'Z'.

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O grupo de protagonistas - e alguns rivais.

E ainda que a sequela tenha sido o verdadeiro 'fenómeno' (ainda hoje inigualado em Portugal), a verdade é que Dragon Ball foi também imediatamente bem recebido pela juventude portuguesa aquando da sua estreia no mítico Buereré da SIC, quase uma década após a sua criação. Com o seu excelente balanço de acção e humor (com o segundo a ganhar largamente, ao contrário do que acontece com 'Z') história cativante e personagens imediatamente icónicos, a série não tardou a tornar-se uma das favoritas de uma demografia que já tinha acolhido de braços abertos séries como Tartarugas Ninja ou Moto-Ratos de Marte, de índole muito semelhante. Em relação a essas, no entanto – e a animes da 'primeira vaga', como Esquadrão Águia – Dragon Ball é mais centrado na fantasia, por oposição à ficção científica, destacando-se assim da maioria dos seus congéneres, o que também ajudou à sua rápida popularização; a versão portuguesa contou, ainda, com as vantagens acrescidas de uma dobragem abertamente cómica e largamente improvisada - que se tornaria um dos aspectos mais memoráveis tanto desta série como da sua sucessora– e de um tema de abertura absolutamente épico e clássico, considerado por muitos portugueses como sendo muito superior ao de 'Z' e mesmo ao de 'GT' (e que, decerto, figurará neste preciso momento na cabeça de muitos leitores).

Impossível não cantar.

Em suma, apesar de não ter atingido os contornos de fenómeno de massas do seu sucessor (e de alguma polémica relativa à suposta morte de uma criança ao cair de uma janela, esperando ser recolhida pela Nuvem Mágica) o Dragon Ball original não deixou de se afirmar como um sucesso entre os jovens portugueses de meados da década de 90, que, sem ter gerado tanto 'merchandising' como o seu sucessor, teve ainda assim direito às inevitáveis cassettes da Prisvídeo, no caso com filmes inéditos, como foi também o caso com 'Z'.

Uma das OVAs do Dragon Ball original lançadas pela Prisvídeo, no caso a terceira, e que serve como uma excelente introdução à série.

E a verdade é que a série faz por merecer essa recepção calorosa por parte do público-alvo, tratando-se, ainda hoje, de uma excelente série animada, dirigida a espectadores mais novos, sim, mas que os trata com respeito, e que talvez até seja mais agradável de rever do que o interminável 'Z', com as suas sagas de centenas de episódios em que apenas metade é relevante e avança a história – algo muito menos frequente nesta primeira série. Assim, quem quiser mostrar aos filhos – ou simplesmente a membros da geração mais nova – o que estava 'na berra' entre os 'putos' na sua infância, pode bem começar por lhes inculcar indelevelmente na cabeça o mesmo tema que tanto 'cantarolou' no recreio naquela época já longínqua: 'Dragon Ba-all, de puro cristaaaal...'

17.07.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O 'post' que inaugurou este nosso blog nostálgico versou sobre o único ponto de partida possível para uma empreitada deste tipo: Dragon Ball Z, provavelmente a maior 'febre de recreio' da História da juventude portuguesa, pelo menos no que toca a propriedades intelectuais. O Dragon Ball original já havia feito sucesso aquando da sua inclusão na grelha do mítico Buereré da SIC, mas a sequela levou a 'coisa' a níveis que não voltariam a ser verificados até à verdadeira 'explosão' da série 'Harry Potter', já no Novo Milénio. Assim, não era, de todo, de estranhar que os níveis de entusiasmo dos jovens portugueses estivessem em alta quando a SIC anunciou que transmitiria a segunda (e, até então, última) sequela do 'anime', Dragon Ball GT, sobre cuja estreia se celebrou há precisamente uma semana um quarto de século. E por, nesse dia, o nosso foco ter recaído sobre a música, procuramos agora corrigir tal erro, e assinalar a efeméride com algumas linhas sobre a terceira parte da saga Dragon Ball; afinal, como diz o ditado, mais vale tarde do que nunca...

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Infelizmente, Dragon Ball GT acabou por não gozar do mesmo fanaticismo do que os seus antecessores – não por a 'febre' de Dragon Ball ter terminado (embora estivesse já em fase decrescente) mas apenas porque o produto em si ficava aquém das expectativas lançadas pelos últimos episódios de 'Z', a chamada 'saga Buu', que havia sido transmitida aos Sábados de manhã, ficando as tardes reservadas para a repetição integral da restante série – sim, Dragon Ball Z fez tanto sucesso que foi exibida, na íntegra, duas vezes! Já 'GT' sobreviveu, sobretudo, em infinitas repetições na futura SIC Radical, ao lado dos seus dois antecessores, e novamente na 'sombra' dos mesmos, não tendo sequer almejado ao estatuto de 'culto'; seria provavelmente incorrecto dizer que NINGUÉM gostou de Dragon Ball GT, mas é inegável que a terceira série é a menos acarinhada pela geração que cresceu a ver infinitos episódios de 'acção estática', não fosse dar-se subitamente um acontecimento 'de arromba' que pudesse ser discutido no dia seguinte na escola.

E a verdade é que 'GT' tinha tudo para 'dar certo', apresentando desenvolvimentos interessantes para o núcleo principal de personagens, e oferecendo até alguns 'bónus para fãs', como ver Krillin com cabelo ou conhecer a filha de Son Gohan, Pan; ademais, a dobragem portuguesa trazia precisamente a mesma equipa que ajudara a transformar 'Z' numa das adaptações mais divertidas e memoráveis da História da televisão portuguesa, além de um genérico de abertura absolutamente épico, em contraste total com a fraca música-título do antecessor, talvez o seu ponto mais fraco.

Se, ao menos, a série estivesse toda a este nível...

O único factor em falta era, pois, o mais relevante – o envolvimento do criador Akira Toriyama, que famosamente não viria a trabalhar na série, e cuja falta se fez sentir, nomeadamente ao nível da história, que não conseguia suscitar o mesmo interesse ou entusiasmo das dos seus antecessores. Nem a (assumidamente espectacular) imagem de Goku transformado em gorila, ou de longos cabelos pretos como parte da sua quarta transformação, foi suficiente para interessar a 'massa' afecta a Dragon Ball Z, que rapidamente deixou de sentir a necessidade de seguir a série com o mesmo nível de fervor que dedicara ao capítulo anterior - ainda que, como naquele caso, tenham chegado a sair em Portugal todos os vídeos associados à terceira parte, novamente pela mão da inevitável Prisvídeo, e com capas apenas ligeiramente menos 'manhosas' que as das 'cassettes' de 'Z' e da série original.

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Como Dragon Ball e Dragon Ball Z, 'GT' também teve direito ao lançamento dos seus filmes em formato VHS pela Prisvídeo.

Assim, vinte e cinco anos após a sua estreia, continua a ser difícil ver Dragon Ball GT como algo mais do que um falhanço, em grande parte responsável pelo fim de um fenómeno cultural, social e económico até então sem paralelo no contexto da juventude portuguesa; e embora a série tenha, decerto, os seus apreciadores, não será descabido afirmar que, no que toca à última parte da trilogia original, a maioria dos leitores deste blog se ficará mesmo pela 'malha' de abertura, o único elemento da série que merece verdadeiramente ser preservado. 'GT, DRAGON BALL GT, GUE-RREI-RO...!'

03.07.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quem já nasceu na década de 90, sobretudo a partir de meados da mesma, certamente terá a mesma reacção à expressão 'Abram alas para o Noddy!' que os 'bebés' da década anterior têm ao genérico da 'Rua Sésamo' – nomeadamente, começar de imediato a cantar o tema de abertura da referida série, numa daquelas vagas de nostalgia que só as propriedades mais adoradas da infância e adolescência conseguem proporcionar. 

De facto, para quem já não conviveu com Poupas, Ferrão e os restantes amigos, Noddy foi – a par dos Teletubbies e quiçá do Ruca – A personagem de infância por excelência, companheiro de muitos momentos bem passados em frente à televisão em inícios do século XXI. O que muitos dos espectadores devotos dessa série talvez não tenham sabido é que a mesma era já a segunda incursão do boneco de madeira criado por Enid Blyton nas ondas televisivas, não só nacionais como mundiais – a verdadeira estreia de Noddy e dos restantes habitantes da Terra dos Brinquedos dera-se mais de meia década antes, com a bem menos famosa série auto-intitulada do personagem, produzida pela Cosgrove Hall entre 1992 e 1994 e exibida na 'culta e adulta' RTP2 um par de anos depois.

Genérico da série original.

Originalmente intitulada 'Noddy´s Toyland Adventures', esta série tem uma premissa muito semelhante à da sua mais 'ilustre' sucessora, seguindo a cada episódio as aventuras de Noddy e do seu inseparável amigo Orelhas Grandes, um gnomo de jardim, enquanto os dois viajam pela Terra dos Brinquedos no icónico carro amarelo de Noddy (imortalizado no genérico português da série de 2002) procurando resolver os problemas corriqueiros dos seus habitantes, ou aqueles que eles próprios causam com a sua ingenuidade e propensão para acidentes. O tom geral, tal como sucede com os livros, é um 'slice of life' ligeiro e 'fofinho', mas não totalmente inofensivo, perfeitamente adequado ao público-alvo de crianças em idade pré-escolar e primária.

A razão para esta primeira série de Noddy ser bastante menos conhecida ou popular que a sua sucessora é, assim, pouco clara, podendo potencialmente prender-se com o maior e melhor volume de séries e programas infanto-juvenis transmitidos em Portugal em meados dos 90, por comparação com o início do Novo Milénio; seja qual for o motivo, no entanto, ambos os programas (bem como a 'tri-quela' 'A Loja do Noddy') são bem merecedores de serem apresentados a uma nova geração falha de conteúdos infantis de qualidade e, certamente, pronta a acolher de 'braços abertos' o 'palhacito' Noddy e os seus amigos brinquedos.

19.06.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Há quem ainda tenha pesadelos com eles. Há quem ainda os use como 'pano de fundo' para experiências com substãncias ilícitas, à falta de 'Dark Side of the Moon' ou d''O Feiticeiro de Oz'. E há, claro, quem os tenha como simples memória nostálgica da infância remota, uma espécie de substituto da 'Rua Sésamo' para quem teve o 'azar' de já ter nascido após o ocaso desse marco da televisão portuguesa. De quem falamos? De quatro extra-terrestes multi-coloridos, de vocabulário rudimentar, oriundos de um planeta perpetuamente soalheiro e pacífico, onde as disputas mais acirradas versam sobre simples mal-entendidos e outros sobressaltos da vida quotidiana, e que 'aterraram' na televisão portuguesa há quase exactamente vinte e cinco anos, para não mais deixar nenhum 'puto' português indiferente.

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De facto, consoante a faixa etária, os protagonistas homónimos da série educativa infantil 'Teletubbies' suscitavam reacções de amor, ódio, escárnio ou perplexidade, ajudando o programa a que davam a cara a atingir um estatuto quase instantaneamente lendário. Mesmo hoje, um quarto de século após a estreia na SIC do primeiro episódio, a 9 de Maio de 1998, a mera menção dos nomes de Tinky Winky, Dipsy, Laa Laa e Po, bem como da série propriamente dita, é capaz de provocar em adultos responsáveis reacções extremas de hilaridade ou embaraço. E porque deixámos passar em branco a verdadeira data do seu vigésimo-quinto aniversário (quando preferimos falar do Inspector Engenhocas) corrigimos agora, cerca de um mês e meio depois, esse erro, dedicando algumas linhas a uma série que suscitou milhares delas ao longo das últimas duas décadas e meia.

Isto porque, além do aspecto algo perturbante dos quatro protagonistas, que caía no chamado 'vale assombroso' ('uncanny valley'), 'Teletubbies' esteve, praticamente desde a sua origem, envolto em controvérsias das mais diversas índoles, de acusações de 'estupidificação' do público-alvo (com os seus argumentos simplistas, a narração redundante e condescendente e o vocabulário ao 'estilo Pokémon' dos personagens principais) até insinuações de que Po, o Teletubby roxo, seria LGBTQ+, dado o símbolo geométrico que ostentava na cabeça. Tudo isto apenas serviu, claro, para despertar ainda mais interesse em 'Teletubbies' por parte de demografias que não a do público-alvo, tornando o programa uma espécie de 'versão oposta' da referida 'Rua Sésamo' – se, dessa, pouca gente tinha (ou tem) algo mau a dizer, com 'Teletubbies' passava-se precisamente o oposto.

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Os argumentos demasiado simplistas da série davam azo a críticas.

E se à distância de vinte e cinco anos no futuro estas críticas e controvérsias em torno de um programa para crianças em idade pré-escolar podem parecer algo caricatas, a verdade é que a série da BBC (que, em Portugal, viu serem substituídas algumas cenas com actores reais por outras gravadas em exclusivo no nosso País) está longe de representar os habituais padrões de qualidade da emissora, pautando-se pela repetitividade (não são poucas as vezes em que um dos Teletubbies repete palavra a palavra o que o narrador acabou de dizer) e pelo cariz aborrecido, incapaz de prender a atenção de quem já tenha idade para frequentar a escola, e muito menos de quem tenha atingido os dois dígitos na idade. Mais uma vez, trata-se de um marcado contraste com 'Rua Sésamo' (e até com séries mais contemporâneas, como 'Noddy', de que em tempo aqui falaremos) que apenas deixa a nu as fraquezas de 'Teletubbies'. Basta, aliás, comparar os genéricos de qualquer das séries referidas anteriormente com o desta para perceber que não existe qualquer semelhança entre os mesmos - ainda que o do programa aqui analisado tenha, indubitavelmente, enorme potencial 'memético', o qual foi explorado em pleno pela juventude portuguesa antes mesmo de esse termo existir.

Quem nunca 'avacalhou' com a canção dos Teletubbies e respectiva dança, que se acuse...

Ainda assim, 'Teletubbies' chegou a encontrar o seu público entre os (muito) mais pequenos daquela época, que adquiriam as inevitáveis cassettes de vídeo e DVDs e o 'merchandise' oficial e pirata da série sem qualquer sentido de ironia; aliás, a par de 'Neco – A Minha Família É Uma Animação' e do inevitável e incontornável 'Dragon Ball Z', este foi dos programas que maiores volumes de produtos não-oficiais suscitou.

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Um dos muitos artigos piratas inspirados na série - aqui, com a criação acidental de um novo Teletubby, de cor verde e com uma antena de telefone como símbolo.

É com essa demografia em mente – mais do que aquela para quem 'Teletubbies' era (foi) pouco mais do que um objecto de escárnio, daqueles que se 'botam abaixo' no pátio da escola ou entre amigos – que aqui deixamos esta breve recordação de uma série tudo menos consensual, que, há vinte e cinco anos, dividia o Portugal 'dos pequeninos' em dois campos distintos (o do amor e o do ódio) de uma forma que muito poucos dos seus antecessores haviam, até então, conseguido; prova de que, desinteressante como era, o programa conseguia, pelo menos, fazer-se notar, ainda que junto das demografias erradas...

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