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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.12.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em finais dos anos 80 e inícios dos 90, a televisão infantil portuguesa vivia um estado de graça, com uma série de excelentes produções dirigidas ao público mais jovem, quer na vertente mais dramática, quer a nível de concursos e programas de auditório, quer mesmo num formato mais 'híbrido', como no caso da icónica e lendária 'Rua Sésamo' – muitos deles com a participação de nomes de vulto no campo do entretenimento infantil, escrita, música, e mesmo pedagogia, dos dois 'Carlos Albertos' (Moniz e Vidal) a Alice Vieira, Ana Maria Magalhães (ambas as quais contribuíam para os 'bastidores' da referida 'Rua Sésamo') ou, como no caso a que se refere o presente 'post', José Jorge Letria. Não é, pois, de admirar que 'Os Contos do Mocho Sábio' retenha o mesmo nível de qualidade que tanto miúdos como graúdos já haviam aprendido a esperar de produções nacionais de cariz infanto-juvenil.

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O personagem titular, vivido por Francisco Cela.

Exibida ao longo de apenas uma semana há exactos trinta e três anos (entre 07 e 11 de Dezembro de 1992) 'Contos' é algo mais rudimentar do que a maioria das suas congéneres, apostando numa apresentação mais simples e minimalista (que 'esconde' parcialmente o baixo orçamento) e numa premissa mais próxima de uma peça de teatro do que de uma série com cenários ou enredos. De facto, cada episódio (cuja duração não excedia o quarto de hora) não requeria mais do que dois actores, um deles fixo (o próprio Mocho Sábio, 'vestido' por Francisco Cela) e o outro rotativo, responsável por interpretar a figura histórica ou folclórica que o personagem titular literalmente invocava, através das palavras mágicas 'Gatafunho, gafanhoto, sou direito e sou canhoto, venha de lá um herói, daqueles que eu já conheço, para ver se não me esqueço' (também parte da letra da música de abertura.)Era, assim, dado o mote para a chegada, literalmente por magia, de uma figura histórica (com letra minúscula) como Branca de Neve ou Pinóquio, ou Histórica (com maiúscula) como Marco Polo ou Cristóvão Colombo, com quem o Mocho conversava e trocava impressões, ajudando assim as crianças a conhecerem a sua história sem ter que recorrer a um reconto directo. Uma táctica engenhosa, que ajudava os pequenos espectadores a 'aprender a brincar', como os mesmos tanto gostam.

A ajudar a este desiderato estava um verdadeiro contingente de figuras de proa da televisão infantil nacional da época, como Alexandra Lencastre (então ainda conhecida como a Guiomar de 'Rua Sésamo') ou o referido Carlos Alberto Vidal, entre muitos outros, capazes de atrair quem já os conhecia de outros programas da altura, e de garantir uma alta fasquia no tocante à representação. Junte-se um tema com 'sabor' a Zeca Afonso ou Sérgio Godinho (mas cantado pelo próprio Francisco Cela, numa imitação quase perfeita deste último) e do qual muitos nem saberão que se lembravam até o ouvirem, e estavam reunidos os ingredientes para uma 'experiência' de sucesso para as férias de Natal de 1992.

Infelizmente, toda esta boa-vontade e preparação esbarrava num obstáculo de alguma monta: o fato do próprio Mocho Sábio, capaz de causar algum receio à maioria do público-alvo, pese embora a atitude e tom afáveis, quase paternalistas, que Cela imprimia à personagem. Talvez por isso (ou talvez por apenas ter passado na televisão durante uma única semana de um único ano) 'A Casa do Mocho Sábio' não tenha o mesmo nível de nostalgia associada do que a referida 'Rua Sésamo' ou o posterior 'O Jardim da Celeste'.

De referir que, segundo o Arquivo RTP, foram produzidos mais dois 'Contos do Mocho Sábio' posteriores a 1992: um logo no ano seguinte, em Junho, em que o Mocho Sábio conhecia o Patinho Feio, e outro na Primavera de 1995, em que o personagem interagia com uma rainha. Desconhece-se, infelizmente, a razão destes regressos não mais que 'esporádicos' à fórmula, que nunca chegou a ter uma segunda temporada; uma pena, já que (fatos 'arrepiantes' e baixos orçamentos à parte) se tratava de uma proposta válida e bem executada de entretenimento infantil, digna de ser celebrada exactos trinta e três anos após a sua estreia.

14.10.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 13 de Outubro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa ocasião passada, relembrámos nestas páginas 'Uma Aventura', a série literária infanto-juvenil que, apesar de já quadragenária, continua, de alguma forma, a conseguir tracção suficiente entre o seu público-alvo (por esta altura, membro da Geração Alfa) para justificar a edição regular de novos tomos relativos ao mesmíssimo grupo de 'eternos adolescentes' que entreteve as crianças das gerações X, 'Millennial' e até 'Z'. Face a este sucesso, e à própria premissa da série de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. não é de espantar que a mesma tenha dado azo a uma adaptação televisiva, transmitida no equivalente infantil ao horário nobre (as manhãs de fim-de-semana) e sobre cuja estreia se celebram, no dia da publicação deste 'post', exactos vinte e cinco anos.

Foi, efectivamente, a 14 de Outubro de 2000 (um Sábado), que Pedro, Chico, João, as gémeas Teresa e Luísa e os seus respectivos cães, 'Caracol' e 'Faial', se apresentaram pela primeira vez em 'carne e osso' aos fãs dos livros, e a todo um novo segmento de potencial público que ficava assim a conhecer pela primeira vez a colecção. E apesar de não serem exactamente fiéis à sua caracterização nas páginas escritas – sendo vividos por actores mais velhos e com um visual mais actualizado e em linha com as sensibilidades juvenis da viragem do Milénio – eram suficientemente apelativos e interessantes para fazer os 'fiéis' regressar semana após semana, transformando a série da SIC num sucesso à altura do material de base. Tanto assim que 'Uma Aventura' lograria regressar para uma segunda série (em 2004, com um elenco logicamente totalmente renovado) e serviria de inspiração a outras adaptações de séries literárias infantis, como 'O Clube das Chaves' ou 'Triângulo Jota', as quais nunca conseguiram, no entanto, replicar o sucesso daquela primeira tentativa.

Grande parte deste sucesso devia-se ao facto de que a série d''Uma Aventura' (em ambas as suas 'encarnações') logrou sempre manter o espírito das 'Aventuras' originais (embora cada uma delas fosse expandida para se adaptar melhor ao formato televisivo) e a qualidade apresentada pela série original. O resto resumia-se a preferências individuais relativas aos actores escolhidos e à sua forma de abordar a personagem que viviam, que faziam com que alguns preferissem um grupo de actores sobre o outro, embora reconhecendo que ambos eram excelentes. Qualquer das séries continua, aliás, a ser uma excelente proposta para um serão em família, reunindo duas ou até três das múltiplas gerações cuja infância ou adolescência ficaram marcadas não só pela colecção original de livros mas também, quiçá, pelas referidas adaptações televisivas...

29.07.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 29 de Julho de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As séries animadas têm, tradicionalmente, sido um dos principais 'ramos' da 'árvore de divulgação' de qualquer franquia dirigida a crianças e jovens. O mundo dos super-heróis não é, de todo, excepção a esta regra (antes pelo contrário) pelo que, numa altura em que o género volta a estar na ribalta graças às estreias de 'Super-Homem' e 'Quarteto Fantástico', faz sentido recordar os vários exemplos de programas do género estreados em Portugal durante os últimos anos do século passado. E se os desenhos animados da DC, icónicos para o público norte-americano, ficavam 'grosso modo' ausentes da programação nacional (excepção feita a 'Batman – A Série Animada', de que já aqui falámos numa ocasião anterior) já os da Marvel viriam a encontrar o seu espaço na grelha televisiva da SIC, em diferentes pontos durante a segunda metade dos anos 90 – ainda que algumas se tenham afirmado como bastante mais memoráveis que outras.

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Destas, a mais frequentemente lembrada (tanto pela escrita madura e inteligente como pelo seu icónico tema de abertura e fecho) será 'X-Men', produzida em 1992 e transmitida, com dobragem portuguesa, no icónico 'Buereré' em meados da década. Baseada na fase então contemporânea da equipa de mutantes liderada pelo Prof. Xavier, a série tomava, ainda assim, bastantes liberdades por comparação com o material original, apresentando novas histórias e até um personagem inédito, Morph, que participaria de um único episódio antes de ser morto em combate. Mesmo com estas diferenças, no entanto, a série não deixou de agradar aos fãs dos mutantes da Marvel, tendo o seu continuado sucesso no seu país natal levado mesmo à produção, já na década de 2020, de uma sequela, 'X-Men '97', actualmente disponível na Disney+.

O icónico genérico da série.

Apesar de servirem como 'porta-estandarte' das séries de animação da Marvel, no entanto, os X-Men estavam longe de ser os únicos personagens da editora convertidos a um formato televisivo. O não menos icónico Homem-Aranha também teria direito a série própria – que trazia outro excelente tema de genérico e que, mesmo suplantada por exemplos posteriores, não deixa ainda assim de ser lembrada com carinho pelos fãs - e o mesmo se passaria também com o Homem de Ferro e o Quarteto Fantástico, embora qualquer destas séries tivesse tido uma passagem pelas Tvs nacionais bem mais discreta que a de Peter Parker ou da equipa mutante.

A série do 'aranhiço' tinha também uma introdução memorável.

Em comum, estes programas tinham a animação limitada, típica de produções da altura (mas ainda assim funcional para o efeito pretendido) e o grafismo e desenho dos personagens, que se saldava numa versão mais simplificada e algo mais infantil do típico estilo Marvel. O resultado era uma série de 'pratos cheios' para fãs dos super-heróis em questão, os quais, mesmo não chegando ao apuro técnico e de narrativa das séries da 'concorrente' DC, se perfilavam ainda assim como opções acima da média naquela que terá sido uma das melhores épocas de sempre para a animação televisiva, e faziam por merecer a reputação de que continuam a usufruir entre quem foi jovem naquele tempo, em Portugal e não só.

17.06.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 16 de Junho de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de se encontrar ainda em estado extremamente embrionário relativamente a mercados como os Estados Unidos ou a Inglaterra, a produção televisiva portuguesa atravessava, nos anos 80 e 90, um período de expansão, não só no tocante a séries de acção real, como também a animações ou projectos mais experimentais, abstractos ou diferentes. E depois de já aqui termos abordado vários exemplos das duas primeiras categorias, chega agora a altura de falarmos de uma série que se enquadra na última, destacando-se vincadamente da restante produção da época e, por esse meio, tornando-se memorável.

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Falamos de 'No Tempo dos Afonsinhos', série educativa que, como o próprio nome indica, pretendia oferecer uma versão ficcionalizada e 'artística' da vida quotidiana dos portugueses primitivos (os Afonsinhos do título) nos castros onde residiam; no fundo, uma espécie de 'Astérix à portuguesa', mas com menor ênfase nos elementos fantásticos e maior preocupação com a veracidade histórica, ainda que com as devidas e compreensíveis 'licenças artísticas' destinadas a captar a atenção do público-alvo. Ainda assim, e mesmo com estes elementos ficcionalizados, a série não deixava de retratar verdadeiras ocupações dos castrenses, como a olaria ou o fabrico artesanal do pão.

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Para além desta abordagem diferenciada, 'No Tempo dos Afonsinhos' destacava-se, ainda, pelo uso exclusivo de marionetas para criar e retratar os seus personagens e histórias – um método que já não era novidade para as crianças portuguesas na fase pós-'Rua Sésamo', mas que, aqui, é utilizada de forma talvez até mais extensa do que no supracitado programa, constituindo meio único de veicular as aventuras dos Afonsinhos, eles mesmos inspirados nos tradicionais 'cabeçudos' presentes em festas populares, e nos personagens de cerâmica típicos do Norte português. E ainda que esta escolha visual não seja para todos – lá por casa, por exemplo, evitava-se activamente esta série – o mesmo não deixa, ainda assim, de ser original o suficiente para se tornar memorável, e trazer lembranças tão logo se veja mencionado o título do programa.

Apesar da sua curta duração, a série produzida pela RTP-Porto em 1993 fez, pois, durante os seus poucos meses no ar, o suficiente para 'cravar' um lugar na memória remota das gerações 'X' e 'Millennial' portuguesas, e deixar na mesma imagens e recordações, sejam mais ou menos positivas. Para quem quiser reviver algumas dessas memórias, aqui fica o link para uma playlist do YouTube com alguns episódios.

25.03.25

NOTA: Este 'post' é correspondente a Segunda-feira, 24 de Março de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Já aqui por várias vezes nos referimos aos anos 90 como a grande era da sensibilização para a ecologia, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo; e, sendo esta mensagem dirigida, sobretudo, a um público jovem, não é de admirar que a mesma surgisse frequentemente em produtos dirigidos a esta demografia, com especial ênfase nos filmes, videojogos e desenhos animados. De facto, os últimos dez anos do século XX viram surgir uma série de criações de pendor ecológico, de 'Awesome Possum', um titulo algo obscuro para Sega Mega Drive, até filmes como 'Ferngully - As Aventuras de Zack e Krysta Na Floresta Tropical', passando por programas televisivos como 'Capitão Planeta' ou o desenho animado que focamos esta segunda-feira, 'Widget'

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Criada logo nos primeiros meses da década e chegada à RTP três anos depois (um ano após a Prisvídeo a ter lançado em vídeo, com dobragem em Português do Brasil), a série em causa foca-se num pequeno alienígena roxo, capaz de se transformar nos mais diversos seres e objectos, conforme a necessidade, e cuja missão é velar pela manutenção do equilbrio ecológico da galáxia. Enviado à Terra em missão urgente pelo seu superior, o Grande Sábio, este agente juvenil não tarda a juntar-se a dois jovens habitantes do planeta, no caso dois irmãos, para o proteger das diversas ameaças ecológicas e intergalácticas que enfrenta.

Uma premissa que requeria algum tacto para não parecer forçada e 'lamechas', algo em que 'Widget' é algo mais bem-sucedido do que 'Capitão Planeta' – não que tal fosse difícil. Infelizmente, no restante, a série tem muito pouco de especial, sendo bastante típica da sua época e uma das representantes mais famosas do género do 'amigo mágico', uma espécie de versão actualizada da 'fórmula Scooby-Doo', popular duas décadas antes. Em suma, da perspectiva de um 'trintão' ou 'quarentão' nostálgico pela sua infância, será perfeitamente 'visível', mas muito pouco entusiasmante – à parte, claro está, o tema de abertura, um daqueles 'épicos' também tão típicos do período, hoje interessante sobretudo como 'cápsula' de uma certa era da animação televisiva, em que muitas séries nada mais eram do que veículos (fossem para mensagens ou brinquedos) produzidos com o menor orçamento possível, e repletos de mascotes 'fofinhas' e comercializáveis, algumas mais bem sucedidas na sua aceitação pelo público-alvo do que outras, ficando Widget nesta última categoria.

Ainda assim, a série foi bem-sucedida (ou era barata) o suficiente para ter sido repetida anos depois no Canal Panda - agora em versão legendada, por oposição à dobragem original – dando a conhecer a toda uma nova geração as mensagens ecológicas do pequeno mas poderoso guardião da galáxia a quem estas linhas são dedicadas; quem sabe, pois, não venhamos, ainda, a assistir a um segundo regresso de Widget, desta vez quiçá em 3D e criado por CGI, mesmo a tempo de ensinar à Geração Alfa como cuidar do ambiente?

28.01.25

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Os anos intermédios da década de 90 foram palco de um dos mais significativos avanços da História da tecnologia moderna, a saber, o surgimento e popularização de computação gráfica e efeitos digitais a três dimensões. Aparentemente de um dia para o outro, o grande público – até então habituado a métodos de animação mais tradicionais e programas de computador com gráficos cada vez mais detalhados, mas sempre limitados às duas dimensões então possíveis – era confrontado com jogos, programas de 'software' e mesmo filmes ou séries de televisão povoadas por personagens poligonais, que habitavam cenários com tanta profundidade como eles próprios – algo, à época, perfeitamente impensável, e suficiente para deixar de 'queixo caído' qualquer cidadão comum. E se, no campo dos jogos de computador e consola, esta mudança foi 'anunciada' por títulos como 'V.R. Racing' ou 'Virtua Fighter', e no cinema por 'Toy Story' (que aqui em breve terá o seu espaço) no tocante a programas televisivos a referência é uma única, e incontornável: 'ReBoot'.

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Estreada na RTP1 em 1997, três anos depois de surgir pela primeira vez no seu Canadá natal e um par de anos depois de os portugueses terem pela primeira vez visto gráficos em 3D, a série não deixou, ainda assim, de ter impacto, e de representar na perfeição o momento vivido naqueles últimos anos do século XX. Isto porque, tradicionalmente, os 'saltos' tecnológicos do sector da televisão tendem a dar-se com algum atraso relativamente aos dos campos da informática ou cinema, devido aos reduzidos orçamentos disponíveis: assim, ainda que os PC's e consolas como a PlayStation ou Sega Saturn já apresentassem gráficos bem melhores que os da série da Mainframe Entertainment, esta continuava, paradoxalmente, a representar o padrão máximo do que se podia fazer com tecnologias 3D num contexto televisivo, não deixando assim de impressionar os jovens telespectadores nacionais.

Além desta vantagem contextual, 'ReBoot' era, também, bastante inteligente na forma como posicionava a sua trama de forma a tirar o melhor partido possível da tecnologia ao seu dispôr e, ao mesmo tempo, 'disfarçar' as lacunas da mesma. Isto porque a série era ambientada dentro da 'mainframe' de um computador (representada como uma cidade futurista) o que permitia justificar a aparência angulosa dos cenários e personagens, já que os mesmos se tratavam, literalmente, de gráficos computorizados! De facto, o grupo central da série distingue-se por ser constituído por algumas das poucas personagens humanóides daquele Mundo, conhecidas como Sprites (quase todas com tons de pele pouco ortodoxos, a fazer lembrar 'Doug', da Disney) cuja função é proteger os Game Cubes (nada a ver com a posterior consola da Nintendo!) enviados pelo Utilizador, de vírus como Megabye e Hexadecimal, os principais vilões da série, numa incorporação inteligente de alguns dos principais termos de informática da época, que permitia aos jovens espectadores familiarizarem-se com o vocabulário digital então em ascensão, ao mesmo tempo que se divertiam com as aventuras de Bob, Dot e restantes heróis da série - e que, pela primeira vez, qualifica uma série para inclusão tanto na rubrica Segundas de Séries como nas Terças Tecnológicas!

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Alguns dos personagens principais da série.

Apesar de mais famosa nos EUA e Canadá, onde continua a ser lembrada com nostálgico carinho, 'ReBoot' logrou também deixar a sua marca em Portugal, sobretudo pelo seu aspecto distinto, imediatamente reconhecível e diferente de tudo o que se havia feito e viria a fazer em termos de televisão animada. De facto, mesmo depois da popularização da tecnologia CGI, poucas séries haveria que se assemelhassem, visualmente, a esta pioneira, cujos gráficos ficam mais próximos dos de um jogo de PC ou PlayStation da época do que da tradicional série animada de Sábado de manhã, o que permitiu que, num País cuja demografia infanto-juvenil se encontrava completamente rendida a Dragon Ball Z, Power Rangers, Tomb Raider e Quake II, 'ReBoot' conseguisse, ainda assim, afirmar-se como memorável o suficiente para ainda hoje ser lembrada por certos sectores do seu público-alvo.

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O jogo alusivo à série.

E porque toda e qualquer propriedade infanto-juvenil bem sucedida dos anos 90 e 2000 tinha direito a um jogo de vídeo, também 'ReBoot' viu sair um título interactivo a si alusivo, lançado exclusivamente para a consola da Sony, na Primavera de 1998; infelizmente, o jogo foi mal recebido tanto pela crítica como pelo público 'gamer', acabando, ao contrário do seu material de base, por não deixar qualquer rasto na memória nostálgica dos 'X' e 'millennials' portugueses. No respeitante à série em si, no entanto, passou-se precisamente o oposto: quem alguma vez se cruzou com ela num dos muitos blocos televisivos infantis da época, decerto recorda até hoje, senão a trama ou personagens, pelo menos alguns dos elementos visuais da mesma, de forma semelhante ao que sucede ao recordar o primeiro contacto com outros pioneiros das tecnologias 3D. Motivo mais do que suficiente para aqui lhe dedicarmos um 'post' duplo, que a celebra tanto enquanto produto televisivo como na vertente digital e tecnológica...



 

16.12.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca ao Mundo dos desenhos animados, o Natal serve, sobretudo, de temática a filmes ou episódios 'especiais' alongados de séries 'generalistas', não sendo costume centrar todo um programa em torno da estação, por razões óbvias. No entanto, tal não significa que essa seja uma prática inédita, tendo já havido pelo menos duas criações episódicas a utilizar a festa de Dezembro como tema central; da primeira, 'Noeli', falámos há quase exactamente um ano, pelo que chega agora a altura de voltarmos atenções para a segunda, bastante mais obscura, mas que teve ainda assim o seu 'tempo de antena' no bloco Infantaria da RTP1, há cerca de vinte e cinco anos, nas últimas semanas do Segundo Milénio.

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Falamos de 'O Mundo Secreto do Pai Natal', série franco-canadiana que propõe precisamente o que o título sugere - nomeadamente, um olhar sobre o quotidiano do Pai Natal e dos seus infatigáveis duendes, à medida que os mesmos efectuam preparativos para mais uma quadra festiva, e tentam impedir que o malvado Padre Fouettard e o seu assistente Gueignar sabotem os seus esforços por forma a vingarem-se do bom velhinho. Uma trama com algumas semelhanças a 'Bebés em Festa' – outra série em que o Pai Natal é personagem recorrente – e que, ao mesmo tempo, faz lembrar a quase totalidade dos desenhos animados dos anos 80 e 90, com claros paralelos com 'Os Estrumpfes', por exemplo, mas que não foi suficiente para captar o interesse do público mais jovem, até pelo nível algo básico e limitado (tipicamente canadiano) da animação.

Não é, pois, de estranhar que 'O Mundo Secreto do Pai Natal' tenha caído praticamente no esquecimento, com poucas informações disponíveis a respeito da série – não sendo sequer possível discernir se a mesma passou em versão original ou legendada. Ainda assim, na época em que esta se afirma como mais relevante, nunca é demais recordar um dos poucos programas infantis com coragem de utilizar o Natal como conceito alargado, ao invés do habitual uso esporádico; pena que o resultado final tenha sido tão pouco memorável...

03.12.24

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 02 de Dezembro de 2024.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Já aqui anteriormente falámos de séries animadas que, apesar de visível e declaradamente produzidas no Japão, se destinavam sobretudo ao mercado ocidental, optando por isso por adaptar propriedades intelectuais europeias ou norte-americanas, muitas vezes em conjunção com países desses mesmos continentes. E se a maioria destas séries tinham por base trabalhos de literatura clássica, contos de fadas ou folclore, também já aqui fizemos menção a 'animes' adaptadas de filmes de sucesso, ou mesmo de histórias da Bíblia, chegando agora a altura de adicionar ainda mais uma fonte de inspiração a essa lista – no caso, as histórias de BD, que renderam pelo menos uma boa série animada deste teor durante os anos 90, curiosamente ambas com os mesmos protagonistas.

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Falamos da primeira de duas adaptações distintas de 'Luluzinha' (no original, 'Little Lulu') a menina de vestido e boina vermelhos criada pela 'cartoonista' Marge, e que a maioria das crianças e jovens portugueses da geração 'millennial' conhecerão através da sua versão brasileira, editada pela inevitável Abril Jovem e importada para a Península Ibérica juntamente com os seus restantes títulos durante as décadas de 80 e 90. Ao 'aterrar' em solo português no início da última década do século XX, a série em causa tinha já, portanto, a 'benesse' de se basear numa propriedade bem conhecida do seu público-alvo, já bem a par das personalidades e motivações de Luluzinha, Bolinha e os seus restantes amigos.

Não devendo ser confundida com as animações alusivas aos personagens criadas nos EUA nos anos 40, durante a 'era de ouro' da animação (e que também chegaram, ocasionalmente, a passar em Portugal) a primeira das duas séries japonesas (produzida em 1976, mas apenas exibida no nosso País mais de uma década e meia depois) traz o grupo de Marge em versão algo mais estilizada, tipicamente 'anime' – embora sem perder totalmente os traços da criadora - e em enredos não necessariamente tão fiéis ao material original, embora mantenham a mesma tónica de aventuras quotidianas típicas de crianças em idade de instrução primária e residentes num bairro sossegado. O principal destaque vai, no entanto, para o 'monstruoso' tema de abertura, uma daquelas 'malhas' que se aloja perpetuamente na memória, pronta a ser trauteada à mera menção da série, três décadas depois.

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Já relativamente à segunda série, desta feita produzida na América do Norte existem menos informações, tendo a mesma sido transmitida, novamente na RTP, em 1998, numa altura em que o panorama televisivo infanto-juvenil se alterara radicalmente, e em que Luluzinha enfrentava a concorrência, entre outros, de Doraemon, um adversário bem mais 'temível' que o antecessor Henbei, com quem Luluzinha disputara tempo de antena no início da década. Talvez por isso esta segunda 'iteração' da personagem de Marge em formato animado seja menos lembrada e mencionada por quem era da idade certa para ter assistido à série em causa; a primeira, no entanto, continua a deixar boas memórias (a maioria, provavelmente, do seu tema de abertura) a quem, como o autor deste 'blog', era já fã da personagem, e apreciou a oportunidade de ver as suas aventuras transpostas dos painéis estáticos de uma página de BD para o dinamismo do pequeno ecrã.

07.10.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na passada edição desta rubrica, falámos de 'Zás Trás', uma das muitas produções portuguesas da década de 90 a procurar emular o sucesso da icónica 'Rua Sésamo' com recurso a uma fórmula muito semelhante, centrada no 'edutenimento' veiculado através de segmentos que combinavam fantoches e marionetas com acção real. No entanto, de todas as referidas séries (e foram várias) apenas uma logrou aproximar-se da popularidade e notabilidade da original, ainda que ficando mesmo assim a uma certa distância: o 'Jardim da Celeste'.

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Surgida pela primeira vez nos ecrãs portugueses algures em 1997, no bloco infantil da RTP1, a série produzida, tal como a antecessora, pela RTP centrava-se na titular Celeste, interpretada por Ana Brito e Cunha, uma educadora que viajava por todo o País numa carrinha mágica (embora não a da série homónima) acompanhada pelo seu cão, Sócrates, e interagia tanto com os fantoches seus 'alunos' como com crianças reais, exactamente como sucedia com as personagens humanas de 'Rua Sésamo'. A demografia-alvo era, também, claramente a mesma – crianças em idade pré-escolar – embora esta série não tivesse o 'apelo universal' da antecessora, sendo pouco provável que tenha conquistado muitos fãs fora desse espectro etário. Por comparação com a antecessora, 'Jardim da Celeste' tão pouco deu origem ao mesmo volume de 'merchandising' e produtos relacionados ou complementares (não chegaria, por exemplo, a haver uma revista alusiva a esta série) embora tenha chegado a ser editada em vídeo ainda durante a sua transmissão original.

Ainda assim, para quem foi criança no momento certo para dela desfrutar, tratou-se de uma série de qualidade e que terá, sem dúvida, deixado tão boas memórias quanto 'Rua Sésamo' criara aos (ligeiramente) mais velhos, enquanto a sua frequente repetição nos diversos canais da RTP a terá, sem dúvida, ajudado a encontrar novos fãs desde então. Razões mais que suficientes para lhe dedicarmos um espaço próprio neste nosso 'blog' dedicado a tudo o que de melhor teve a década de 90.

23.09.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma análise, mesmo que superficial, à televisão infanto-juvenil portuguesa de inícios dos anos 90 revela uma 'era de ouro' não só no tocante à importação de materiais estrangeiros de grande qualidade (vários dos quais já aqui abordámos) mas mesmo à própria produção nacional, a qual se 'aventurava' com enorme sucesso por uma série de formatos, que iam de programas como 'A Hora do Lecas', 'Os Segredos do Mimix', 'Clube Disney' ou 'Oh! Hanna-Barbera' a concursos como 'Arca de Noé', 'Tal Pai, Tal Filho' e 'Vitaminas', vídeos musicais como os do Vitinho e, claro, séries, com a icónica 'Rua Sésamo' à cabeça. Poupas, Ferrão e companhia não eram, no entanto, os únicos personagens cem por cento nacionais a procurar conquistar o coração das crianças da época – a RTP da era pré-concorrência privada (ou seja, monopolista do tempo de antena) abria também espaço para conteúdos como 'A Maravilhosa Viagem Às Ilhas Encantadas', 'Histórias de Corpo Inteiro', ou a série que abordamos nesta Segunda, 'Zás Trás'.

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Da autoria de Isabel Cerqueira e Teresa Messias, e realizada por Alexandre Montenegro (nome bastante requisitado à época) 'Zás Trás' estreava na televisão estatal há quase exactos trinta e três anos (em Setembro de 1991) e desde logo se posicionava como 'alternativa' à hegemonia da incontornável 'Rua Sésamo', apresentando um formato muito semelhante - centrado em 'sketches' protagonizados por um núcleo central de personagens representados por marionetes em cenários reais – e até um tema de abertura capaz de rivalizar com o da referida série, e que é, sem dúvida, o seu elemento mais destacado e memorável.

No entanto, tal como a série sobre higiene oral acima referida (com a qual chegou a partilhar tempo de antena em finais de 1991), 'Zás Trás' nem sequer chegaria a fazer 'cócegas' aos habitantes da Rua mais famosa da televisão portuguesa, tendo a sua passagem pela RTP sido discreta, e – ao contrário da 'concorrente' - deixado poucas memórias ao público-alvo da época, com excepção do 'contagioso' tema título e de um personagem com papel proeminente que, embora aceitável na altura como caricatura animada, seria hoje considerado problemático e até ofensivo para a população asiática. Tal como os 'designs' algo 'uncanny' de 'Histórias de Corpo Inteiro', este aspecto talvez tenha tido influência no desempenho da série a longo-prazo – ou, talvez, 'Zás Trás' apenas não fosse tão memorável como 'Rua Sésamo', com ou sem caricaturas obsoletas entre o seu núcleo central.

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Um dos personagens centrais é...digamos, problemático.

Apesar de hoje algo Esquecido Pela Net (e por aquele que foi o seu público) 'Zás Trás', e o respectivo Especial de Natal (realizado em 1992) não deixaram de ser, já no Novo Milénio, 'repescados' para a grelha programática primeiro da RTP2 e, mais tarde, também para a da RTP Memória. As alterações na cultura popular e estrutura social do Mundo ocidental desde então fazem, no entanto, prever que essa tenha sido a última aparição de 'Zás Trás' nos écrãs portugueses, estando a série destinada a ser votada ao esquecimento a breve trecho. Quem quiser ajudar a evitar esse fado (ou simplesmente deseje recordar a série mais de três décadas depois) pode, no entanto, assistir a todos os episódios no Arquivo RTP. Para quem optar por o fazer, no entanto, fica a ressalva – o tema-título continua tão cativante como sempre, e capaz de ficar no cérebro durante semanas após uma única audição...

 

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