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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.01.24

NOTA: Por motivos de relevância com 'posts' recentes e futuros, esta Segunda será de Séries. Regressaremos aos Sucessos na próxima semana.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Os finais da década de 80 e inícios da seguinte representaram uma 'época áurea' para Steven Spielberg. De 'E.T.', 'Os Goonies' e 'Poltergeist', ainda nos 'oitentas', a 'Parque Jurássico' e 'Hook', na década seguinte, o realizador parecia ter o 'toque mágico' que transformava tudo aquilo em que tocava num sucesso instantâneo entre o público mais jovem. Não é, pois, de admirar que o cineasta se tenha sentido à vontade para explorar novas avenidas, entre elas o meio televisivo, no qual se adentrava logo em inícios dos anos 90; e, tendo em conta a sua pouca familiaridade com o meio em causa, tão-pouco é de admirar que esta penetração tenha sido feita ao lado do parceiro de sempre, George Lucas – à época 'entre' trilogias d''A Guerra das Estrelas' – e 'às costas' de um dos seus personagens mais reconhecíveis e mediáticos, o arqueólogo e aventureiro Henry Jones Jr., mais conhecido no meio cinematográfico como Indiana Jones.

Apesar desta adesão a um nome reconhecido e reconhecível, no entanto, Spielberg e Lucas não queriam apenas 'transitar' Indiana do grande para o pequeno ecrã; os dois génios do cinema queriam oferecer algo de novo ao público televisivo, que justificasse o regresso para cada novo episódio semanal. A solução encontrada foi a criação de uma prequela para as aventuras de 'Indy' (numa altura em que o termo e prática eram, ainda, pouco comuns) que procurasse demonstrar as raízes da veia aventureira do mesmo; estava dado o mote para o nascimento de 'The Young Indiana Jones Chronicles', que viria a estrear em 1992, e a ser transmitida em Portugal pouco depois, na RTP, com o título 'Indiana Jones – Crónicas da Juventude'.

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Como o próprio nome nacional indica, a série tem como premissa o relato das aventuras vividas por Henry Jones Jr. durante os seus tempos de juventude, primeiro acompanhando o pai (Henry Jones Sr., memoravelmente interpretado por Sean Connery no segundo filme do herói) em viagens ao redor do Mundo, para disputar tesouros com malfeitores, caçadores de prémios, ou simplesmente outros arqueólogos gananciosos e ambiciosos, e depois em desafio directo ao mesmo, como membro do exército belga (sim, belga) na I Guerra Mundial. Cada episódio era formatado como uma história contada por Indiana Jones, já idoso, a um grupo de jovens (tendo Harrison Ford surgido mesmo neste papel num dos episódios, embora o actor recorrente fosse George Hall) e possuía uma vertente educativa, pretendendo apresentar ao público-alvo factos e figuras históricas relativas às duas épocas em que a acção se desenrolava.

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As várias fases da vida do jovem Indy.

Ao todo, foram duas temporadas, num total de vinte e oito episódios (dos quais apenas seis perfaziam a primeira temporada), transmitidas originalmente entre a Primavera de 1992 e o Verão de 1993, aos quais acrescem ainda quatro telefilmes realizados entre 1994 e 1996, com o fito de tentar 'ressuscitar' a franquia, já depois da combinação dos elevados custos de cada episódio com as fracas audiências ter forçado a ABC a cancelar prematuramente as aventuras do jovem 'Indy'. Posteriormente - há sensivelmente um quarto de século, no último ano do Segundo Milénio – a série seria novamente 'repescada', 'retalhada', e transformada numa série de vinte e dois telefilmes, embora esta versão já não tenha chegado a terras lusitanas, cujos jovens exploravam já, à época, interesses bem diferentes dos de 1993 no tocante à programação televisiva.

Ainda assim, e apesar do relativo falhanço que constituíram – tanto nos seus EUA natais como em Portugal – as 'Crónicas da Juventude' de Indiana Jones deixaram, ainda assim, alguma 'pegada' cultural no nosso País, nomeadamente através da tradução e publicação da BD oficial por parte da TeleBD – braço editorial da TV Guia – e de diversos livros com as aventuras do herói, pela mão da Europa-América. Apesar deste singelo 'legado', no entanto, a série encontra-se, hoje em dia, totalmente 'Esquecida Pela Net' portuguesa, não tendo, aparentemente, deixado suficiente nostalgia entre os jovens da época para merecer destaque ou páginas próprias, como acontece com muitas outras franquias da altura. Assim, e à semelhança do que tantas vezes vem acontecendo com este nosso 'blog', esta página arrisca mesmo tornar-se a principal referência nacional para fãs da série em causa, além, claro, de principal registo e homenagem à passagem da mesma pelos televisores lusos...

 

24.10.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O ambientalismo e a ecologia foram, a par da luta contra as drogas e da informação sobre o flagelo da SIDA, dois dos principais temas para os quais qualquer jovem português dos anos 90 foi extensivamente sensibilizado, quer pelos próprios pais, quer pelos educadores e até pelos 'media' de informação e entretenimento. De facto, além de constituírem assunto frequente nos noticiários dos 'graúdos', estes temas 'infiltraram' a grande maioria da programação infanto-juvenil da época, com quase todas as séries dirigidas a um público menor de idade lançadas à época a terem direito ao 'episódio especial' em que os protagonistas tentam evitar que um amigo experimente drogas, ou travar um industrialista malvado que pretende arrasar uma floresta.

No dealbar dos anos 90, uma companhia decidiu levar este conceito ainda mais longe, e dedicar toda uma série animada a um super-herói defensor da ecologia e do planeta; o resultado foi uma das séries mais meméticas de sempre, e a primeira a 'vir à baila' sempre que se tentam recordar exemplos de produtos mediáticos descaradamente destinados a educar sobre um único tema, de forma totalmente falha de qualquer subtileza.

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Criado por Ted Turner – patrão da Turner Entertainment e principal responsável pela divulgação da maior concorrente da WWF no mercado da luta-livre americana, a WCW – o Capitão Planeta e os seus fiéis ajudantes, os Planeteiros, começaram por 'condicionar' para a ecologia as crianças norte-americanas, em 1990, antes de, no ano seguinte, atravessarem o Atlântico para surgir nos écrãs dos jovens lusitanos, pela mão da RTP, e em versão legendada, dado estar-se, ainda, nos primórdios da dobragem 'made in Portugal'. As crianças portuguesas da época puderam, assim, desfrutar precisamente da mesma experiência dos seus congéneres norte-americanos, com todos os elementos hoje amplamente parodiados, como as frases de efeito – 'by your powers combined, I am Captain Planet!', 'the power is YOURS!', 'GOOOO PLANET!' - e o irresistível tema-título, a marcarem presença sem qualquer 'localização' para a língua-pátria. E se, nos Estados Unidos, 'Capitão Planeta' beneficiou, sobretudo, do horário único, sem a oposição de qualquer outro conteúdo infantil, em Portugal, a vantagem veio da inclusão no popular bloco 'Brinca Brincando', da RTP, que quase garantia o visionamento por parte de uma percentagem significativa da população jovem nacional.

E a verdade é que 'Capitão Planeta' bem pode agradecer por essa 'benesse', dado tratar-se de uma série do mais 'azeiteiro', que apenas seria possível naqueles últimos anos do século XX – cuja estética, aliás, permeia cada 'frame' de animação. A premissa até não é má, e chega para cativar qualquer criança fã de super-heróis, mas as constantes 'lições' sócio-ecológicas do herói de cabelo verde (e também, diga-se de passagem, dos seus mini-coadjuvantes) são tão forçadas quanto se poderia pensar, e claramente dirigidas ao espectador para lá da 'quarta parede', em vez de inseridas nos episódios de forma natural e subtil; subtileza, aliás, é coisa que não existe em 'Capitão Planeta', o tipo de série que conta com vilões denominados 'Capitão Poluição' – uma versão maléfica do protagonista, naturalmente – e Looten Plunder.

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Os próprios personagens são do mais irritante que há, com os Planeteiros como aquele tipo de herói infantil culturalmente diverso, insuportavelmente virtuoso e 'espertinho' que 'infectava' a programação para crianças da época, e o próprio Capitão a habitual cópia do Super-Homem com ainda menos personalidade (e, neste caso, poderes ambientais). Pela lógica, a série não deveria resultar, mas a verdade é que se passava o oposto, com o programa a fazer o suficiente para cativar jovens bastante menos cínicos do que os de hoje em dia, e a conseguir algum sucesso enquanto foi transmitida na RTP.

No entanto, talvez haja uma razão para, até hoje, não ter havido segunda exibição da série, algo quase inédito no contexto dos desenhos animados da época. A verdade é que 'Capitão Planeta' envelheceu muito, mas mesmo muito mal, sendo fácil perceber a razão porque muitos adultos da época se envergonham de ter assistido a esta série quando eram pequenos. Não é o caso deste que vos escreve (e que vai mesmo ao extremo de admitir que o seu Planeteiro favorito era o muito 'gozado' Ma-Ti, o elemento do Coração) mas a verdade é que os argumentos em desfavor deste desenho animado são perfeitamente válidos, merecendo o mesmo ser relegado a memória remota e difusa de um tempo muito diferente no tocante a entretenimento para crianças. O épico tema de abertura, de longe o melhor elemento do programa, merece um lugar no panteão de grandes exemplos do género; o resto é perfeitamente dispensável, excepto para uma sessão de nostalgia semi-irónica ou para perceber porque razão os anos 90 são considerados uma das épocas mais satirizáveis dos últimos cem anos...

Outro dos grandes genéricos dos anos 90, e de longe o melhor elemento da série.

19.06.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Há quem ainda tenha pesadelos com eles. Há quem ainda os use como 'pano de fundo' para experiências com substãncias ilícitas, à falta de 'Dark Side of the Moon' ou d''O Feiticeiro de Oz'. E há, claro, quem os tenha como simples memória nostálgica da infância remota, uma espécie de substituto da 'Rua Sésamo' para quem teve o 'azar' de já ter nascido após o ocaso desse marco da televisão portuguesa. De quem falamos? De quatro extra-terrestes multi-coloridos, de vocabulário rudimentar, oriundos de um planeta perpetuamente soalheiro e pacífico, onde as disputas mais acirradas versam sobre simples mal-entendidos e outros sobressaltos da vida quotidiana, e que 'aterraram' na televisão portuguesa há quase exactamente vinte e cinco anos, para não mais deixar nenhum 'puto' português indiferente.

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De facto, consoante a faixa etária, os protagonistas homónimos da série educativa infantil 'Teletubbies' suscitavam reacções de amor, ódio, escárnio ou perplexidade, ajudando o programa a que davam a cara a atingir um estatuto quase instantaneamente lendário. Mesmo hoje, um quarto de século após a estreia na SIC do primeiro episódio, a 9 de Maio de 1998, a mera menção dos nomes de Tinky Winky, Dipsy, Laa Laa e Po, bem como da série propriamente dita, é capaz de provocar em adultos responsáveis reacções extremas de hilaridade ou embaraço. E porque deixámos passar em branco a verdadeira data do seu vigésimo-quinto aniversário (quando preferimos falar do Inspector Engenhocas) corrigimos agora, cerca de um mês e meio depois, esse erro, dedicando algumas linhas a uma série que suscitou milhares delas ao longo das últimas duas décadas e meia.

Isto porque, além do aspecto algo perturbante dos quatro protagonistas, que caía no chamado 'vale assombroso' ('uncanny valley'), 'Teletubbies' esteve, praticamente desde a sua origem, envolto em controvérsias das mais diversas índoles, de acusações de 'estupidificação' do público-alvo (com os seus argumentos simplistas, a narração redundante e condescendente e o vocabulário ao 'estilo Pokémon' dos personagens principais) até insinuações de que Po, o Teletubby roxo, seria LGBTQ+, dado o símbolo geométrico que ostentava na cabeça. Tudo isto apenas serviu, claro, para despertar ainda mais interesse em 'Teletubbies' por parte de demografias que não a do público-alvo, tornando o programa uma espécie de 'versão oposta' da referida 'Rua Sésamo' – se, dessa, pouca gente tinha (ou tem) algo mau a dizer, com 'Teletubbies' passava-se precisamente o oposto.

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Os argumentos demasiado simplistas da série davam azo a críticas.

E se à distância de vinte e cinco anos no futuro estas críticas e controvérsias em torno de um programa para crianças em idade pré-escolar podem parecer algo caricatas, a verdade é que a série da BBC (que, em Portugal, viu serem substituídas algumas cenas com actores reais por outras gravadas em exclusivo no nosso País) está longe de representar os habituais padrões de qualidade da emissora, pautando-se pela repetitividade (não são poucas as vezes em que um dos Teletubbies repete palavra a palavra o que o narrador acabou de dizer) e pelo cariz aborrecido, incapaz de prender a atenção de quem já tenha idade para frequentar a escola, e muito menos de quem tenha atingido os dois dígitos na idade. Mais uma vez, trata-se de um marcado contraste com 'Rua Sésamo' (e até com séries mais contemporâneas, como 'Noddy', de que em tempo aqui falaremos) que apenas deixa a nu as fraquezas de 'Teletubbies'. Basta, aliás, comparar os genéricos de qualquer das séries referidas anteriormente com o desta para perceber que não existe qualquer semelhança entre os mesmos - ainda que o do programa aqui analisado tenha, indubitavelmente, enorme potencial 'memético', o qual foi explorado em pleno pela juventude portuguesa antes mesmo de esse termo existir.

Quem nunca 'avacalhou' com a canção dos Teletubbies e respectiva dança, que se acuse...

Ainda assim, 'Teletubbies' chegou a encontrar o seu público entre os (muito) mais pequenos daquela época, que adquiriam as inevitáveis cassettes de vídeo e DVDs e o 'merchandise' oficial e pirata da série sem qualquer sentido de ironia; aliás, a par de 'Neco – A Minha Família É Uma Animação' e do inevitável e incontornável 'Dragon Ball Z', este foi dos programas que maiores volumes de produtos não-oficiais suscitou.

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Um dos muitos artigos piratas inspirados na série - aqui, com a criação acidental de um novo Teletubby, de cor verde e com uma antena de telefone como símbolo.

É com essa demografia em mente – mais do que aquela para quem 'Teletubbies' era (foi) pouco mais do que um objecto de escárnio, daqueles que se 'botam abaixo' no pátio da escola ou entre amigos – que aqui deixamos esta breve recordação de uma série tudo menos consensual, que, há vinte e cinco anos, dividia o Portugal 'dos pequeninos' em dois campos distintos (o do amor e o do ódio) de uma forma que muito poucos dos seus antecessores haviam, até então, conseguido; prova de que, desinteressante como era, o programa conseguia, pelo menos, fazer-se notar, ainda que junto das demografias erradas...

22.05.23

NOTA: Este 'post' é dedicado ao leitor e colega 'bloguista' Pedro Serra, que deixou a sugestão nos nossos comentários.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Embora, hoje em dia, seja conhecida como uma televisão de índole popular (senão mesmo 'popularucha') aquando do seu surgimento há quase exactos trinta anos, a TVI posicionava-se como algo diametralmente oposto: um canal 'bem-comportado', ao estilo RTP2, com uma programação pouco controversa e focada, sobretudo, em conteúdos de índole mais cultural, didáctica e religiosa – ou não fosse a estação de Queluz directamente financiada, em parte, pela Igreja Católica. Naturalmente, esta abordagem estendia-se, também, à programação infantil da emissora, bastando comparar a proposta infanto-juvenil da 'Quatro' nessa primeira fase, 'A Casa do Tio Carlos', com o 'Buereré' da rival SIC para se perceber a diferença de estilos - um paradigma que se manteria, aliás, durante alguns anos, até à chegada de 'Batatoon', esse sim, um concorrente directo ao programa de Ediberto Lima e Ana Malhoa.

De facto, é difícil imaginar a SIC, mesmo a daqueles primeiros tempos, a transmitir algo tão declaradamente pouco laico como 'No Princípio: As Histórias Mais Bonitas', série transmitida pelo quarto canal em 1994 e cuja proposta passava por recontar as histórias do Velho Testamento num formato passível de agradar ao público-alvo – no caso, a animação japonesa, ou 'anime'. Anos antes de 'Zorro', 'Cinderela', 'Robin dos Bosques' e do ex-libris 'Samurai X' – e anos antes de a concorrente de Carnaxide trazer 'Dragon Ball Z' para Portugal e iniciar a maior febre de recreio do século XX no nosso país – já a emissora de Queluz dava os primeiros passos pelo Mundo dos personagens de olhos grandes, embora, novamente, por meio de uma série que os professores de Catequese podiam mostrar aos alunos como complemento educativo, e que contrastava abertamente com os conteúdos comercializantes e voltados à acção exibidos pelas outras televisões.

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Da autoria do mestre Ozamu Tezuka – lenda da primeira 'era' do 'anime', mais conhecido por ter criado os personagens de Astro Boy e Leo, o leão branco, cuja série chegou a passar na RTP e se diz ter inspirado fortemente 'O Rei Leão', da Disney – a série teve co-produção italiana (como acontecia, aliás, com tantas outras no mesmo período) e estreou originalmente em 1991; a Portugal, chegaria apenas três anos mais tarde, em versão dobrada, pela mão da recém-nascida estação independente de Queluz (que a viria, aliás, a repetir dentro de outros três anos, em 1997) tendo mais tarde sido editada, na íntegra, em VHS, pela distribuidora Ediclube, no habitual formato 'um episódio por cassette' que 'estourava' com as finanças de quem procurasse completar a colecção na íntegra – apesar de, neste caso, essa abordagem ser mais justificada do que é habitual, dado cada um dos vinte e seis episódios focar uma história bíblica distinta, podendo a junção de dois ou mais episódios numa só cassette diluir o impacto individual das mesmas.

Independentemente do formato, no entanto, a verdade é que a série chegou a marcar quem a ela assistiu naqueles anos longínquos de infância, possuindo qualidade suficiente para 'converter' até mesmo quem não tinha grande interesse em religião, ou simplesmente não era Católico. Infelizmente, a versão portuguesa transmitida pela TVI encontra-se, hoje, Esquecida Pela Net, encontrando-se os episódios disponíveis no YouTube dobrados em brasileiro ou espanhol; ainda assim, para quem tiver curiosidade ou simplesmente quiser reviver (parcialmente) as manhãs da infância, fica a 'dica...'

16.01.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

E depois de na última Segunda de Séries do ano passado termos falado do mais famoso 'procurado' da História da cultura juvenil, nada melhor do que, na primeira deste ano de 2023, darmos alguma atenção à outra pessoa de quem, naquela época, se perguntou frequentemente 'Onde Está?': uma espécie de congénere feminina e menos inocente do jovem de roupa listrada, e que com ele partilha o gosto pela cor vermelha e o tema de abertura épico da sua série animada. Falamos de Carmen Sandiego, a misteriosa protagonista da série com o seu nome (ou antes, para lhe dar o título completo, 'Onde Está Carmen Sandiego?') e que, durante cinco temporoadas, 'trocou as voltas' a um grupo de adolescentes determinados a encontrá-la e fazê-la pagar pelos seus crimes, maioritariamente circunscritos a roubos.

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Produzida entre 1994 e 1999, e baseada no jogo de computador educativo lançado na década anterior (e que gozou de enorme sucesso nos seus EUA natais) a série da DIC (então hegemónica no espaço televisivo infanto-juvenil internacional) tinha o total apoio da Broderbrund, produtora do jogo-base, e partilhava com este o elemento didáctico, o qual era implementado de forma subtil e se prendia, sobretudo, com as diferentes localizações pelas quais os dois jovens protagonistas (e o seu computador inteligente) viajavam em busca da ladra de gabardine vermelha, que andava, inevitavelmente, um passo à frente do 'casalinho'.

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A protagonista da série.

Esta integração de novos conhecimentos num contexto de entretenimento sem que o resultado final parecesse forçado – que 'Carmen' partilha com ilustres como 'A Carrinha Mágica', 'Artur', a trilogia 'Era Uma Vez...', 'Castelo da Eureeka' e, claro, 'Rua Sésamo' – valeu à série um 'Daytime Emmy Award' por Excelência na Programação Infantil, no final da sua primeira temporada, em 1995.

Ao contrário do que acontecia com a maioria das séries internacionais, a transmissão de 'Carmen' em Portugal deu-se com desfasamento mínimo em relação aos EUA, tendo a série passado na emissora estatal nacional logo em meados da década, em versão dobrada e, como não podia deixar de ser, com uma adaptação perfeitamente ÉPICA do genérico original – talvez o elemento mais memorável de todo o conjunto, e prova (se ainda fosse necessária) da habilidade que os estúdios de dobragem da altura tinham para criar temas de abertura marcantes.

Tema de abertura ou ária de ópera? Um pouco de ambos...

De resto, e apesar de bem-conseguida no cômputo geral (tanto tecnicamente como em termos de história) a série não se afirmou como particularmente marcante para as crianças portuguesas daquela geração, sendo, hoje em dia, muito menos lembrada do que a adaptação para TV de 'Onde Está o Wally?' - um daqueles casos paradoxais difíceis de explicar fora do contexto da época. Ainda assim, vale a pena recordar as aventuras televisivas da ladra americana, protagonista daquele que foi mais um bom exemplo de 'edutenimento' produzido durante a década de 90...

 

07.11.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

E porque na semana transacta se celebrou o Halloween, e na última Segunda de Séries (na semana anterior) falámos de um programa de teor educativo de grande sucesso em Portugal, porque não abordar, desta feita, uma série que combina precisamente o didatismo com uma estética de fantasia, repleta de morcegos, bruxas, gigantes e dragões?

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O logotipo tal como surgia nas transmissões portuguesas, estranhamente sem o nome do programa ao centro.

Trata-se de 'O Castelo da Eureeka', importação americana que – sem ter sido tão bem sucedida ou ser hoje tão lembrada como as lendárias 'Rua Sésamo' e 'Carrinha Mágica', com ambas as quais partilha alguns elementos – conseguiu ainda assim captar o interesse e cativar a parcela mais nova da demografia infanto-juvenil aquando das suas duas transmissões em Portugal. A razão para tal é simples – tal como qualquer das suas duas antecessoras, trata-se de um programa cuidado, que não descura a componente lúdica e humorística na sua missão de ensinar valores ao público-alvo (um dos co-criadores da série é, aliás, R. L. Stine, ele que, na mesma altura, se notabilizava como autor de uma das mais populares séries de livros infantis a nível mundial, a colecção 'Arrepios', que chegaria às bancas portuguesas já depois de Eureeka se ter despedido das ondass televisivas.)

Conceptualmente, 'Eureeka' aproxima-se bastante do formato da 'Rua Sésamo' (quer da original americana, quer da versão portuguesa) embora, ao contrário desta, com uso exclusivo de fantoches – as únicas pessoas de 'carne e osso' a surgir no programa eram os participantes em segmentos de entrevista, um dos muitos tipos de conteúdo apresentado em meio ao conflito central de cada episódio, numa abordagem, também ela, semelhante à da congénere em causa.

E, também como a Rua Sésamo, 'Castelo da Eureeka' tinha a sua quota-parte de personagens memoráveis, a começar na desenvolta 'dona' do castelo, uma jovem bruxa de penteado imponente, e passando pela fonte viva e cantante, pelo tímido e atrapalhado dragão Magalhães (um personagem muito semelhante ao Pateta, da Disney) pelo desastrado (e estrábico) morcego Cai-Cai, de quem o nome diz tudo, e por uma dupla de 'criaturas do pântano' de enormes braços e pernas e voz esganiçada, que podia ter saído da famosa oficina de criaturas de Jim Henson para fazer parte de um dos grupos de monstros da Rua Sésamo. Juntamente com outros personagens residentes no castelo-caixa-de-música pertencente a um gigante (e que, como eles, ganhavam vida quando o mesmo dava corda ao seu 'brinquedo') este núcleo procurava lidar da melhor maneira com pequenos problemas do dia-a-dia, num formato 'slice-of-life' que, quando bem feito, é sempre bem do agrado das crianças.

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O elenco do programa tinha algumas personalidades memoráveis.

Talvez por isso – ou talvez por causa do seu contagiante genérico, num daqueles casos em que a música de abertura é mesmo o melhor elemento de um todo já de si forte – Eureeka e os seus amigos tenham conquistado pequenos fãs aquando das suas passagem por Portugal - a primeira, que completa trinta anos a de 31 de Dezembro de 1992, bem cedo, no bloco das manhãs de fim-de-semana do então Canal 1, e a segunda, alguns anos mais tarde, na 'irmã' mais 'culta e adulta' – embora, conforme já referimos, tivesse ficado muito longe dos níveis de penetração social das suas concorrentes directas, não chegando a merecer a transmissão de todas as seis temporadas de que gozou nos EUA. Apesar disso, no entanto, esta divertida série não deixa de ser um exemplo válido do chamado 'edutenimento' dirigido a crianças e jovens produzido durante a década de 90, e parte integrante (e nostálgica) da infância de muitos ex-'putos' da época.

O contagiante genérico de abertura da série, talvez o seu elemento mais memorável

O genérico final do programa.

Um excerto ilustrativo do tipo de abordagem a cada episódio.

 

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