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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

05.12.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de inspirar e servir de tema a inúmeros filmes e especiais televisivos, o Natal teve, ao longo dos anos, muitíssimo poucas séries completas a ele dedicadas; talvez pela dificuldade em manter o interesse das audiências nesta época muito específica do ano em meses menos festivos, escasseiam os exemplos de programas – sejam de acção real ou em desenho animado – com o Pólo Norte ou a época das festas como pano de fundo. Mesmo a época 'áurea' para este tipo de conteúdo a que este blog diz respeito apenas rendeu um exemplo totalmente tematizado no período natalino (de que falaremos na Segunda de Séries mais próxima da festa em si) e um outro que, sem ser dedicamente natalício, tinha o Pai Natal como personagem recorrente, e um antagonista que pretendia tomar o lugar do bom velhinho; é sobre esta última que nos debruçaremos esta semana.

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Trata-se de 'Bebés em Festa' (no original, 'Baby Folies') série animada francesa produzida em 1993 e transmitida nos dois canais da televisão estatal, em versão dobrada, a partir de 1996. Como o próprio nome indica, o programa debruça-se sobre as aventuras e desventuras dos habitantes de Vila Bebé, a localidade onde os bebés esperam pela cegonha que os levará aos futuros pais; no entrementes, os rebentos (que, apesar de ainda não terem tecnicamente nascido, já andam e falam, entre outras acções) desfrutam de uma sociedade totalmente funcional, com presidente da câmara, bares de 'leitinho', forças da lei, empresários, tecnocratas, detectives privados e até 'gangsters' ao estilo Al Capone, sem esquecer a 'menina' da praxe (a série segue, aliás, a 'fórmula Estrumpfe', sendo a Bebé Lauren uma das poucas personagens femininas, a par da Bebé Executiva.) E como se este conceito não fosse, já em si, suficientemente bizarro, os bebés têm, ainda, interacções frequentes com o Pai Natal (que surge mesmo 'fora de época') e com o malvado Scrogneugneu, um mago cujo objectivo máximo é tornar-se 'Pai Natal em vez do Pai Natal' - uma mistura algo aleatória de elementos que acaba, no entanto,por resultar.

Não que 'Bebés em Festa' seja uma série de particular destaque a nível técnico ou de enredos – pelo contrário, muitas das aventuras vividas pelos personagens (como a que apresentamos abaixo) poderiam perfeitamente ser transpostas para um contexto adulto sem que nada excepto alguns elementos superficiais se alterasse; nesse aspecto, o programa fica muito atrás do concorrente mais directo, 'Rugrats – Os Meninos de Coro', que tira o máximo proveito das potencialidades de um elenco composto por bebés (e a vontade de ver 'Rugrats' fica, ainda, exacerbada pela presença de algumas das vozes que davam vida a Tommy, Chucky e amigos em Portugal, aqui em papéis bem menos desafiantes, interessantes ou memoráveis.)

No entanto, para aquilo que é - entretenimento infantil descartável e sem pretensões à imortalidade nostálgica - 'Bebés em Festa' resulta, ainda que (como o excerto abaixo também demonstra) não seja tão inocente quanto à primeira vista parece, contendo elementos que apenas uma companhia europeia se atreveria a inserir num programa infantil – como se não bastasse o 'rebolado' da Bebé Lauren, o único excerto disponívell no YouTube mostra um enredo focado no vício do jogo (!) com personagens supostamente honestos a roubarem cofres (!!) e até uma cena que se pode interpretar como levemente racista para com o único bebé negro (!!!). Detalhes que terão, decerto, 'passado por cima da cabeça' do público-alvo da época, mas capazes de arrepiar qualquer produtor televisivo dos dias que correm.

Excerto de um episódio que apresenta alguns elementos surpreendentemente 'adultos'

Em última instância, no entanto, nem mesmo estes pormenores algo inesperados e chocantes chegam para tirar 'Bebés em Festa' da mediania, sendo o único elemento verdadeiramente longevo o tema de abertura, um daqueles que ainda se recordam literais décadas depois de o programa sair do ar; no restante, a série merece destaque apenas por ser uma das poucas que incorpora o Natal no seu conceito-base a tempo inteiro, ficando bastante aquém da maioria dos outros produtos nostálgicos de que aqui vimos falando desde o início deste 'blog' – bem como de outro, de conceito semelhante, que aqui paulatinamente abordaremos. Ainda assim, numa época que peca pela falta de foco ao nível das séries, esta produção francesa sempre vai sendo das poucas a 'dar o corpo à causa', fazendo assim por merecer estas breves linhas de destaque neste início de época festiva.

O contagiante genérico da série sobrevive mesmo a uma qualidade de som praticamente inexistente.

 

 

24.10.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quando se fala em programação educativa transmitida em Portugal, a referência maior e imediata é a mítica 'Rua Sésamo', a localização do formato americano feita pela RTP e que ensinou conceitos básicos a toda uma geração de crianças. No entanto, apesar da avassaladora (e merecida) popularidade, Poupas, Ferrão e os seus amigos não detinham o monopólio sobre o conteúdo de 'edutenimento' exibido no nosso país na altura, havendo uma mão-cheia de competidores directos, a maioria dos quais também bastante bem sucedida. De um deles, 'Artur', já aqui falámos numa ocasião anterior; de outro, falaremos nas linhas que se seguem.

Um daqueles genéricos passíveis de causar nostalgia instantânea

Produzido a partir de 1994 e durante três temporadas (até 1997) e baseada numa série de livros iniciada quase uma década antes, em 1986, 'A Carrinha Mágica' provou-se, aquando da sua estreia no espaço infantil da RTP2, 'Um-Dó-Li-Tá', em 1995, capaz de cativar até os alunos mais relutantes, com o seu genérico, personagens e até histórias altamente memoráveis. As aventuras da professora Frisadinha (um nome ainda melhor que o original Miss Frizzle, sendo ambos inspirados no característico cabelo da personagem) e dos respectivos alunos a bordo do veículo que dá título à série (um autocarro escolar amarelo, tipicamente norte-americano) atingiam aquele balanço perfeito entre a transmissão de informação relevante e a capacidade de deixar as crianças 'coladas ao ecrã', fascinadas pelo desenvolvimento das diferentes tramas em que o grupo se 'metia' a cada semana, graças aos métodos de ensino muito pouco ortodoxos da Frisadinha.

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A professora Frisadinha e os seus alunos formavam um conjunto de personagens memorável

O resultado era um desenho animado que, sem fazer parte da lista de favoritos de ninguém (não deixa, ainda hoje, de suscitar boas memórias a quem com ele cresceu. Tanto assim que a série suscitou a criação e comercialização de uma série de CD-ROM educativos para PC produzidos pela Microsoft, os quais tiveram, à época, relativo sucesso – embora, estranhamente, este tenha mesmo sido o limite do 'merchandising' do programa no nosso país, não tendo sequer havido as habituais t-shirts piratas com o logotipo da série mal reproduzido e com as cores trocadas. Já no que toca à presença mediática, a história foi um pouco diferente, tendo A Carrinha Mágica acabado mesmo por granjear uma continuação oficial, agora com a prima de Frisadinha ao volante do autocarro escolar; para além disso, a série deverá também, num futuro próximo, ser também alvo de uma adaptação cinematográfica com actores de 'carne e osso' - uma ideia capaz de fazer tremer os mais nostálgicos, receosos de que mais uma parte da sua infância seja desnecessariamente arruinada.

Enquanto isso não acontece, no entanto, a geração que cresceu a ver Frisadinha encolher a carrinha para entrar no nariz de um dos seus alunos para uma lição sobre saúde e o corpo humano, ou transformá-la num submarino para poder ir ao fundo do mar, pode continuar a recordar com afecto essas e outras 'lições' da professora que todos queriam ter, e a apresentar a mesma (ou quiçá a prima) a uma nova geração, para que o legado do bom 'edutenimento' televisivo da década de 90 não se perca nas 'brumas' do tempo – algo que a própria Frisadinha nunca deixaria que acontecesse...

Um dos episódios mais famosos da série, aqui com a segunda dobragem

18.10.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

É sempre triste ver mais uma parte da nossa infância e juventude desaparecer para sempre – e, por coincidência, a últimas semana viu serem retirados à geração que cresceu em finais do século XX não uma, mas duas personalidades directa ou indirectamente ligadas à programação nacional da época: o espanhol Claudio Biern Boyd, criador de algumas das animações mais conhecidas da época, e a portuguesa Ruth Rita, cujos quinze minutos de fama surgiram como assistente de Herman José na memorável versão portuguesa de 'A Roda da Sorte'.

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Boyd com as suas duas criações mais famosas

Sobre o primeiro, há a exaltar a capacidade que teve de tornar dois textos clássicos mais apelativos para as crianças da era pré-digital através do seu reconto em formato animado, com animais antropomórficos no lugar dos heróis. Tanto 'Willy Fog: A Volta ao Mundo em 80 Dias' como o imortal e incontornável 'Dartacão' combinavam as duas paixões de Boyd (a literatura clássica e a animação) e se afirmaram como marcos na televisão portuguesa dos anos 80 e 90, tornando-se (juntamente com 'David, o Gnomo', outra produção de Boyd, esta totalmente original) de visionamento quase obrigatório para milhares de crianças e jovens lusos, tal como já o haviam sido na vizinha Espanha; e tudo isto sem recurso a violência ou linguagem 'forte', elementos que o produtor espanhol fazia questão de evitar nas suas produções. Quanto mais não seja pelo sucesso dessas duas séries, Claudio Biern Boyd será para sempre recordado por toda uma geração de crianças ibéricas. Tinha 82 anos.

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Ruth Rita e Herman José , um 'duo dinâmico' que marcou o entretenimento português de inícios dos anos 90

Já Ruth Rita mereceu destaque por ter sido - a par de Lenka da Silva, já no novo milénio – uma das poucas assistentes de concurso a exibir qualquer laivo de personalidade, no caso derivado das suas reacções aos dichotes de Herman José, que não perdia qualquer oportunidade de 'picar' a bela assistente encarregue do quadro de letras d''A Roda da Sorte'; os seus sorrisos envergonhados e ocasional resposta 'à letra', o nome quase inacreditavelmente perfeito (e que seria um crime ter sido desperdiçado num qualquer anónimo) e a sua presença semanal nos lares portugueses, durante nada menos do que quatro anos, ajudaram a gravar a figura da apresentadora na memória de ambas as demografias que, à época, assistiam religiosamente ao concurso de Herman, as quais, certamente, sentem actualmente a sua perda,

Duas personalidades, portanto, que, sem serem 'celebridades' no sentido mais literal da palavra, não deixaram de ter impacto na infância e juventude da geração nascida e criada entre as décadas de 80 e 2000. Que descansem em paz.

12.09.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de, hoje em dia, fazer parte integrante da cultura popular portuguesa, o 'anime' – nome por que é genericamente conhecido qualquer produto animado oriundo do Japão – tardou a penetrar na consciência popular lusa da mesma forma que havia feito no resto do Mundo...pelo menos, aparentemente. Isto porque, mesmo sem o saberem, as crianças e jovens nacionais já vinham sendo expostas a produtos mediáticos inseríveis nesta categoria pelo menos dez anos antes das primeiras séries declaradamente identificadas como tal; de facto, quem, na infância, viu 'desenhos animados japoneses' já conhecia o género muito antes do mesmo ser categorizado como tal. Mais – além de séries de traços declaradamente nipónicos, como 'Capitão Hawk' ou 'Cavaleiros do Zodíaco', a influência japonesa fazia-se também sentir em grande parte das séries ocidentais, as quais, à época, não só 'encomendavam' muita da sua animação ao País do Sol Nascente como também tratavam de adaptar e dobrar material originalmente produzido naquela nação.

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Um exemplo deste último fenómeno, cuja criação precede qualquer das séries atrás mencionadas, mas que seria exibido em Portugal sensivelmente na mesma altura das mesmas, é ´Esquadrão Águia', o nome nacional para a adaptação norte-americana do 'anime' 'Gatchaman' que – dependendo a quem se pergunte – é conhecida ora como 'G-Force', ora como 'Battle of the Planets', ora ainda como 'Eagle Riders'. Originalmente criada e exibida no Japão em 1978, a série demoraria nada menos do que catorze anos a chegar às televisões nacionais – um 'atraso' impressionante, mesmo pelos padrões da época!

É claro que, com tal intervalo de tempo desde a sua criação, os aspectos técnicos de 'Esquadrão Águia' ficavam, naturalmente, muito atrás dos das restantes séries com que competia, incluindo os supramencionados 'Saint Seiya' e 'Captain Tsubasa'; vista mais de quarenta anos depois, a animação da série é quase dolorosamente limitada, mais próxima de um 'Speed Racer' (outra série que chegaria 'atrasada' aos televisores nacionais) do que do desenho animado médio daquele início dos anos 90. Assim, o único factor de espanto é o facto de, após essa transmissão na RTP em 1992, em versão legendada, a série ter sido repescada, não uma, mas DUAS vezes, ambas com nova dobragem a cargo da Somnorte – primeiro, na mesma década, pela SIC (onde passou em 1997) e, já na década seguinte, pela RTP2, onde passaria em 2003, um exacto QUARTO DE SÉCULO após a sua criação!

As razões para tal cariz perene da série na televisão portuguesa são pouco claras, tendo, presumivelmente, a ver com a combinação ideal entre baixos custos de aquisição e (desde há alguns anos) nostalgia apresentado pelas aventuras dos Eagle Riders no combate aos Vorak, soldados alienígenas que procuram dominar a Terra em nome da sua entidade, Cybercon; no fundo, o mesmo tipo de premissa que tem vindo a fazer das sucessivas séries de 'Power Rangers' um sucesso inter-generacional, e que parece nunca perder o apelo para as demografias mais jovens. Ainda assim, para essas, havia – na altura, e especialmente hoje em dia – opções bem melhores do que esta série meio 'tosca', que beneficiou (e muito) por ter surgido no sítio certo e na altura certa para ter feito parte do grupo de animações pioneiras do seu género em Portugal, mas cujo valor é, nos dias que correm, quase exclusivamente nostálgico.

A introdução da série permite, desde logo, verificar as deficiências técnicas da mesma por comparação à 'concorrência'.

29.08.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Qualquer criança ou adolescente que tenha crescido entre finais dos anos 80 e inícios do Terceiro Milénio saberá que esse mesmo intervalo constitui o período áureo para os desportos radicais, cuja globalização ajudou a atrair o interesse da camada da população sempre 'à coca' de novos 'hobbies' e passatempos; assim, não é de estranhar que essa 'febre' rapidamente tenha sido apropriada pelas corporações mediáticas e comerciais e utilizada como chamariz na divulgação dos mais variados produtos e serviços. Os personagens 'radicais', de crista, boné para trás e dialecto a condizer – mas sempre com bom coração e preocupados com questões como o ambiente ou a solidariedade social, claro - não só tomaram conta das prateleiras de supermercado, como também dos ecrãs, tanto de cinema como de televisão.

Este último campo, em particular, viu surgir, em finais dos anos 80, um dos exemplos mais flagrantes desta tendência, e que a combinava descaradamente com outro grande foco de interesse da demografia-alvo da altura, os dinossauros, e com o também sempre apetecível conceito das viagens no tempo, para criar o sonho de qualquer dirigente televisivo da altura – uma série perfeitamente sinergética e pronta a fazer sucesso entre os jovens daquela época.

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A série em causa, 'Denver, O Último Dinossauro' provou ter 'pernas' suficientes para não só se 'esticar' para uma segunda temporada como ser exportada internacionalmente, uma honra que nem todas as séries almejavam (em Portugal, passou na RTP, em versão dobrada, logo nos dois anos seguintes à sua estreia nos Estados Unidos). E apesar de, trinta anos volvidos, parecer uma daquelas séries que é tão 'de época' que chega a doer – ao mesmo nível de 'Power Rangers' ou 'Tartarugas Ninja' – foi precisamente essa especificidade que lhe permitiu ganhar tracção entre o público jovem do seu tempo.

De facto, a 'datação em carbono' desta série poderia ser feita simplesmente com base na premissa, que vê quatro jovens praticantes de skate e BMX descobrirem e albergarem um dinossauro (ou aquilo que, à época, se entendia como um) que ensinam a falar, a andar de skate (obviamente) tocar guitarra eléctrica (naturalmente) e a usar óculos escuros 'radicais' (claro) e que, em troca, os leva a viajar pelo tempo até à Pré-História, permitindo-lhes aprender mais sobre a vida durante esse período. Uma espécie de mistura entre 'ET' e 'Bill e Ted', que resulta numa daquelas sinopses mirabolantes que só podia mesmo ter vindo de um período em que répteis especialistas em artes marciais e ratos antropomórficos aficionados de Harley-Davidsons eram considerados conceitos normais para a programação infantil.

Infelizmente, 'Denver' nunca chega a esse patamar de qualidade, ficando-se pelo nível médio de séries da altura – onde se incluem outros programas contemporâneos, como 'Widget' ou 'Capitão Planeta' – e sendo sobretudo memorável (além de por ter servido de inspiração a um dos brinquedos 'movidos a moedas' mais comuns daquele tempo) pelo seu 'bem esgalhado' tema de abertura, um dos muitos clássicos que a época em causa nos proporcionou, e que (juntamente com o conceito totalmente 'ver para crer') lhe merece lugar de destaque nesta nossa rubrica nostálgica.

A versão portuguesa do mítico tema de abertura da série (em cima) e alguns episódios-tipo da mesma (em baixo)

01.08.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de apenas recentemente ter penetrado na cultura 'mainstream' ocidental, a animação japonesa (o chamado 'anime') vinha, já, informando em grande medida os conteúdos mediáticos produzidos na Europa e, sobretudo, nos EUA desde a década de 70. Além da adaptação de séries clássicas do género (como 'Esquadrão Águia') e da criação de outras constituídas por episódios (mal) dobrados e colados de dois 'animes' diferentes (como 'Robotech'), os estúdios ocidentais vinham já, também, recrutando a ajuda dos seus congéneres ocidentais na criação de animações para séries tão conhecidas como 'Tiny Toons', 'Capitão Planeta', e até algo como 'As Aventuras do Bocas'.

Apesar desta aparente expansão em termos estilísticos e temáticos, no entanto, não há dúvida de que os estúdios japoneses eram recrutados, a maior parte das vezes, para prestar assistência num género específico de conteúdo animado: a série de acção e ficção científica, em que as décadas de 80 e 90 foram especialmente pródigas. De 'GI Joe' e 'Transformers' a 'Tartarugas Ninja', 'M.A.S.K', 'Rambo' ou 'X-Men', a maioria das séries deste tipo lançadas durante as referidas décadas tinham 'dedinho' japonês, com algumas a nem sequer esconderem a influência nipónica nos seus traços.

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O grupo de heróis homónimo da série

É o caso da série que abordamos esta semana – 'Skysurfer' (no original, 'Skysurfer Strike Force'), apenas mais um entre tantos outros produtos semelhantes a invadirem as ondas televisivas (portuguesas e não só) durante os últimos anos do século XX; de facto, um par de minutos chega para perceber que o aspecto dos personagens tem forte influência do 'anime' televisivo da época (aqueles olhos grandes ao estilo 'Esquadrão Águia' ou 'Cavaleiros do Zodíaco' não enganam ninguém), sendo que neste caso a influência se estende, também, à escrita. Isto porque 'Skysurfer' tem um conceito semelhante aos famosos e clássicos 'tokusatsu' ou 'Super Sentai' – aquelas séries sobre heróis de fatos e capacetes a 'condizer' que lutam contra monstros de dois andares, que fazem parte da cultura japonesa há décadas e que, no ocidente, ficaram famosas por servirem de base a localizações como 'VR Troopers', 'Big Bad Beetleborgs' e, claro, as inúmeras séries de 'Power Rangers'; e embora Jack Hollister e os seus comparsas nunca cheguem a esconder a cara, os seus fatos de super-herói são activados mediante um relógio especial, que lembra muito os 'morphers' dos referidos Power Rangers.

Em tudo o resto, 'Skysurfer' é uma série absolutamente típica da época, uma espécie de cruzamento entre 'M.A.S.K.' ou 'GI Joe' e 'X-Men', e que mistura todos os elementos populares naquela era da animação ocidental: armas 'laser', veículos futuristas, super-poderes, experiências científicas, vilões cibernéticos mascarados, e até mutantes. Uma receita que parece criada em laboratório, mas que nunca chega a conseguir elevar a série acima da miríade de outras absolutamente idênticas que iam surgindo à época.

Ainda assim, o sucesso das duas temporadas do programa nos seus EUA natais terá sido suficiente para a mesma ser importada para Portugal – isso, ou a SIC já estava a vasculhar no 'fundo do barril'. Fosse qual fosse a motivação, no entanto, a verdade é que a série chegava mesmo ao nosso país, dois anos após a sua estreia, e com dobragem a cargo dos suspeitos do costume – quem, à época, via séries como 'A Lenda de Zorro', 'Robin dos Bosques', 'A Carrinha Mágica' ou os referidos 'Power Rangers' rapidamente identificará pelo menos um dos apenas quatro (!) dobradores que se revezam para dar vida aos diferentes personagens.

Ao contrário dos programas acima referidos, no entanto – ainda hoje lembrados com carinho pela geração que com eles cresceu – 'Skysurfer' não deixou, sequer, a memória de ser uma boa 'série-anúncio' para a respectiva linha de brinquedos, desaparecendo dos televisores da juventude portuguesa da mesma maneira que por eles passara: sem grande alarido - embora, aparentemente, tivesse feito o suficiente para ser 'repescada' pelo Canal Panda, três anos depois (então em versão original legendada) e para justificar o lançamento em VHS, no habitual formato de alguns episódios em cada cassette, pela inevitável Prisvídeo.

Apesar do pouco impacto cultural da série, no entanto, numa altura em que um episódio específico (disponível no Dailymotion, e que serviu de inspiração para este 'post') completa exactos vinte e cinco anos sobre a sua transmissão no canal de Carnaxide (a 2 de Agosto de 1997, presumivelmente como parte do icónico bloco infantil do canal, o inesquecível Buereré) vale a pena recordar aquela que é um dos 'concorrentes' menos lembrados dessa era da programação para jovens em Portugal.

Episódio da série transmitido há quase exactos vinte e cinco anos

 

 

 

 

 

 

 

 

18.07.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Nos anos 80, um dos maiores axiomas do 'marketing' dirigido ao pùblico mais jovem ditava que qualquer propriedade intelectual de sucesso tinha, inevitavelmente, direito a uma adaptação televisiva em formato desenho animado, independentemente de ser ou não apropriada para a demografia em causa – uma mentalidade, aliás, que se estendeu à década seguinte, que viu personagens supostamente para adultos, como Rambo, serem convertidas para animação e sujeitas a um formato episódico e serializado, com uma evidente e necessária redução dos níveis de violência, mas de outro modo inalteradas, atingindo graus maiores ou menores de sucesso entre o público-alvo.

Dada a natureza de muitas das propriedades sujeitas a este tratamento ao longo das duas décadas em causa (muitas das quais já em fase decadente, ou com relevância reduzida, como 'Highlander Os Imortais') não é de espantar que um dos maiores sucessos de bilheteira da última década do século XX tenha, também, sido convertida a este formato – no caso, 'MIB – Homens de Negro', o mega-sucesso de 1997 que misturava ficção científica, acção e comédia, e que cimentou o estatuto de Will Smith como estrela de cinema internacional.

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Surgida no mesmo ano do filme, e com envolvimento directo do criador do conceito, Lowell Cunningham, a série animada de 'MIB' é, diga-se em abono da verdade, mais fiel ao espírito do filme do que muitos dos outros esforços deste tipo, explorando as diferentes missões dos agentes J, K e L (esta, curiosamente, uma personagem totalmente distnta da sua homónima cinematográfica) e mantendo intactas as personalidades e a química entre as personagens; até mesmo a música de abertura, uma memorável faixa electrónica, não deixava ficar mal o 'rap' original de Will Smith, presente no filme. A grande pecha era, pois, a mesma da maioria das séries congéneres – a animação, que apresenta aquele estilo meio 'preso de movimentos' típico de finais dos anos 90, apesar de a série ter a chancela da Warner Brothers (o que explica, também, o porquê de o 'design' dos personagens se aproximar muito do da série animada de 'Batman'.)

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O elenco principal de personagens da série, cujo 'design' lembra o das suas homólogas da série animada de Batman

Apesar desta pecha, no entanto, a versão animada de 'MIB' fez sucesso suficiente para justificar quatro temporadas, continuando em produção nos seus EUA natais até 2001 – e, falhando assim, curiosamente e por pouco, a estreia da sequela, que sairia no ano seguinte. Já em Portugal, a série estrearia em 1999 – dois anos depois do filme, mas com a propriedade intelectual Homens de Negro ainda suficientemente relevante para o justificar – no icónico espaço infantil da TVI, Batatoon (onde passaria, também, outra adaptação animada de um 'blockbuster', no caso 'Godzilla' – sim, ESSE, Godzilla!) onde acabou, naturalmente, por passar algo despercebida em meio à mirabolante selecção que o bloco ofereceu durante o seu tempo de vida, e que incluiu séries tão inesquecíveis e populares como Samurai X, Alvin e os Esquilos, Sailor Moon, Digimon ou Sonic. Ainda assim, na semana em que o filme que a inspirou completa um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal, não fica mal recordar a mais modesta, menos icónica, mas ainda assim bem-conseguida versão animada do mesmo.

04.07.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A abertura autêntica, de época, está disponível aqui mesmo, no SAPO, mas não permite fazer 'embed'...

Este é daqueles posts que tinha, mesmo, de começar assim – com um dos mais icónicos genéricos de abertura dos anos 90, daqueles que consegue a proeza de ser memorável sem, para isso, utilizar sequer uma palavra.

Não menos memorável e icónica, no entanto, é a própria série a que este mítico instrumental serve de suporte; antes pelo contrário, serão poucos os ex-jovens da época que não se recordem de ver pelo menos alguns episódios das aventuras do grupo de bebés conhecido, na versão original, como 'Rugrats', e em Portugal como 'Os Meninos do Coro'.

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De longe a mais famosa produção da dupla Arlene Klasky e Gabor Csupó – e uma das mais famosas do catálogo da Nickelodeon, a par de 'Hey Arnold!' e 'Ren e Stimpy' – 'Rugrats' chegou a Portugal em 1992 (menos de um ano depois da sua estreia em território norte-americano, um intervalo invulgarmente célere para a época) como um dos primeiros 'trunfos na manga' da recém-nascida SIC, que transmitiria a série como parte do seu bloco infantil da manhã durante os dois anos seguintes, primeiro em versão original legendada e, mais tarde, com a icónica (e impressionantemente fiel em termos vocais) dobragem que a maioria das crianças daquela época associará, de imediato, ao nome da série.

Ao todo, foram três temporadas – as primeiras, e melhores – em que os mini-espectadores se tornaram íntimos de Tommy, Chucky, os gémeos Phil e Lil e a 'carrasca' e centro das atenções do grupo, a espalha-brasas Angélica, que, por ser mais velha e extremamente mimada, dividia o seu tempo entre enfiar ideias na cabeça dos amigos mais novos e fazer 'birras' para obter o que queria dos adultos.

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O grupo original de 'Meninos do Coro', mais tarde expandido com novos personagens.

E por falar em adultos, estava aí outro dos factores que ajudava a demarcar 'Rugrats – Os Meninos do Coro' de produções contemporâneas semelhantes; os personagens adultos tinham tanto 'tempo de antena' como os bebés, e eram tão ou mais interessantes do que estes, transmitindo (ainda que de forma leve e subtil) mensagens sobre temas tão importantes como as famílias monoparentais, a identidade de género ou os pais mais focados no trabalho que nos filhos, e que tentam suprir essa lacuna com 'mimos' excessivos. Entre si, este grupo de personagens ajudava a que houvesse um pouco de variedade nas histórias da série, e permitia retirar o foco exclusivamente das aventuras estilo 'pastelão' e 'nonsense' dos protagonistas homónimos da série.

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O grupo dos adultos adiciona uma nova dimensão aos episódios.

Estes (e outros) elementos faziam de 'Rugrats – Os Meninos do Coro' uma excelente série para todas as idades (já que os guiões também incluíam piadas de humor um pouco mais sofisticado e dirigidas ao público adulto) que perdurou na memória dos jovens portugueses mesmo depois de ter saído originalmente do ar, em 1994. E se os espectadores lusos da época apenas conheceram esses episódios dos primórdios, lá por fora, a situação era bem diferente, tendo 'Rugrats' continuado a fazer sucesso durante várias décadas, e dado origem a inúmeros produtos de merchandising (tanto oficiais como piratas), várias longas-metragens, novas séries com os mesmos personagens (a excelente 'All Grown Up!' e a experiência falhada chamada 'Angelica and Susie's Pre-School Daze') e até um 'escape room' em Los Angeles!

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Os personagens em idade pré-adolescente, tal como surgem na sequela 'All Grown Up!'

Por cá, no entanto, o público fã de desenhos animados apenas voltaria a tomar contacto com Tommy e os seus amigos em 2005, com o advento da versão portuguesa da própria Nickelodeon, em que a série se encontrava inserida, agora com novas dobragens.

E a verdade é que esta segunda passagem (da qual é oriundo o genérico que abre este post) se afirmou ainda mais bem-sucedida que a primeira, tendo os 'Meninos do Coro' aproveitado a especificidade da sua nova 'casa', e o estatuto de que gozavam dentro da mesma, para se tornarem presença assídua nos ecrãs da nova geração que, entretanto, substituíra o seu público-alvo original; tanto assim que, em 2021, estreava na Nickelodeon Portugal uma nova temporada desta série aparentemente perene e imorredoura, que conseguiu já a proeza de ser transversal a duas gerações de espectadores, um feito normalmente reservado apenas a produções da Disney e Hanna-Barbera. Só por isso, 'Os Meninos do Coro' já mereciam uma presença nestas páginas; o facto de serem, efectivamente, uma das melhores e mais nostálgicas de entre as séries 'importadas' dos EUA naquele período é apenas a cereja no topo deste bolo de baba, cuspo e outros ingredientes 'duvidosos', mas ainda assim extremamente saboroso...

20.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O conceito de que as crianças não gostam de aprender, e são especialmente aversas a conteúdos televisivos didácticos, é tão falacioso como comum; de facto, programas como 'Rua Sésamo' ou 'Artur' provam precisamente o contrário – que o truque está em saber COMO fazer chegar a informação às crianças, de uma forma que as mesmas considerem interessante e cativante.

Outro exemplo deste mesmo axioma, e que chegou mesmo a partilhar tempo de antena com a 'Rua Sésamo', foi a trilogia Era Uma Vez... . Criado pelo francês Albert Barillé em finais dos anos 70 e início de 80, e tendo como ponto comum a família de personagens central, este conjunto de três séries co-produzidas por companhias francesas e japonesas ('Era Uma Vez...O Espaço', a segunda peça da trilogia, chegou mesmo a ser considerada uma série de 'anime'!) foi tão bem-sucedida na sua missão de veicular conteúdos educativos que continua, ainda hoje, a ser 'repescada' a espaços, na tentativa de educar toda uma nova geração de crianças e jovens sobre os temas da evolução humana, do corpo humano, e ainda do espaço sideral.

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O grupo central de personagens comum às três séries, aqui em 'Era Uma Vez...O Homem'

A primeiríssima destas transmissões deu-se, no entanto, cerca de uma década após a criação da trilogia, em inícios dos anos 90, quando a RTP2 apresentou as aventuras de Pedrinho, Psi (ou Pierrette) e Mestre, o carismático personagem barbudo que se viria a tornar o elemento mais identificável da série, e uma espécie de 'mascote' da mesma.

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O carismático Mestre, figura central da trilogia

Foi este o grupo de personagens que os jovens espectadores acompanharam através da evolução humana em 'Era Uma Vez...O Homem', do espaço exterior em 'Era Uma Vez...O Espaço' - esta com um maior balanço entre elementos dramáticos e didácticos, por oposição às restantes duas, que eram declaradamente educativas - e, finalmente, do corpo humano em 'Era Uma Vez...A Vida' (que viria mais tarde, aquando da dobragem para português, a ser conhecida, também, como 'Era Uma Vez..O Corpo Humano').

Em comum, além do núcleo central de personagens, as três séries tinham a animação – primitiva, mas bem conseguida – e a escrita de qualidade, capaz de transmitir informações ao público-alvo sem que com isso os conteúdos se tornassem maçudos ou aborrecidos; pelo contrário, grande parte dos membros da geração que cresceu entre finais dos anos 80 e inícios do novo milénio recorda com carinho esta trilogia de programas, que sem nunca se afirmarem como favoritos de ninguém, conseguiam ainda assim encontrar o seu espaço junto das crianças e jovens da época.

O sucesso desta trilogia não viria, aliás, a ficar-se pelas sucessivas transmissões televisivas, sendo que duas das três séries que a compunham (ficaria apenas a faltar 'Era Uma Vez...O Espaço') viriam a ser lançadas pela Planeta deAgostini em formato VHS, com nova dobragem, e acompanhados de livros complementares, naquela que foi uma das raras incursões da editora por formatos diferentes dos habituais fascículos. Do sucesso desta iniciativa, no entanto, falaremos na próxima Quinta-feira, quando formos ao Quiosque completar esta retrospectiva sobre as séries de Claude Barillé; entretanto, aqui ficam os genéricos das três séries, para ajudar a matar saudades...

23.05.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A década de noventa ficou – em Portugal como no resto do Mundo - marcada por muitas e muito mediatizadas rivalidades comerciais: da Pepsi com a Coca-Cola, dos Blur com os Oasis (que aqui paulatinamente abordaremos) da WWF com a WCW e, claro, da Sega com a Nintendo, sendo que esta última se destacava das restantes por se dar em duas frentes, com as rivais japonesas a competirem directamente não só através dos produtos que lançavam, mas também das suas mascotes.

Efectivamente, a 'luta' entre Sonic e Super Mario pelo coração das crianças e jovens noventistas traduziu-se em muitas e boas horas de entretenimento, quer através de alguns dos melhores jogos da década (um dos quais aqui recentemente abordámos) quer através das inevitáveis séries de desenhos animados que eram praticamente um pré-requisito de qualquer propriedade comercial infanto-juvenil bem sucedida; e porque, recentemente, aqui falámos de uma das três séries de animação dedicadas ao porco-espinho da Sega (a única a chegar a Portugal) nada mais justo do que nos debruçarmos, hoje, sobre o principal veículo animado do rival, o famoso 'Super Mario Brothers Super Show.'

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Estreada na RTP1 em 1993, numa altura em que ainda não havia a preocupação de dobrar todo e qualquer conteúdo dirigido ao público infantil (situação que se alteraria a partir de meados da década), o desenho animado de Mario não teve sequer direito a nome traduzido em português, sendo que até mesmo as cassettes VHS com episódios da série entretanto lançadas em Portugal traziam a dobragem brasileira; é, pois, de crer que muitas crianças e jovens da época conhecessem a série apenas pelo nome do protagonista. Quanto à não dobragem dos conteúdos propriamente ditos, esta constitui, neste caso específico, um ponto a favor, já que os diálogos da parte em 'acção real' de cada episódio são, sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série 

Sim, dissemos mesmo 'acção real' – isto porque, ao contrário da série do rival, cada episódio do 'Super Show' estava dividido entre segmentos com actores verdadeiros a interpretar Mario e Luigi – um deles o lutador da WWF, 'Captain' Lou Albano – e outros em desenho animado, que se dividiam entre episódios das aventuras dos dois irmãos canalizadores e das de Link, o protagonista da série 'A Lenda de Zelda'. E se os primeiros eram fiéis quanto-baste ao material de base – estavam presentes a Princesa Peach, o cogumelo vivo Toad, o vilão Rei Koopa (ou Bowser), e os inimigos e poderes do jogo – o segundo tomava bastante mais liberdades com o mesmo, incluindo mudar a cor de cabelo e personalidade de Link (o qual repetia frequentemente uma frase-feita hoje tornada 'memética') e dar um papel mais proeminente a Zelda, que nos jogos não passa da princesa a ser resgatada.

Sabemos que algo se tornou um 'meme' quando tem direito a uma montagem de dez horas no YouTube

Em ambos os casos, a qualidade da animação, do trabalho de vozes e das histórias é perfeitamente típica da época em que a série foi produzida, o mesmo podendo dizer-se dos cenários, situações, diálogos e piadas dos segmentos em acção real, que não surpreenderão qualquer espectador que tenha visto sequer um episódio de uma qualquer 'sitcom' de inícios dos anos 90. O resultado é um produto extremamente 'de época', que se apoia declaradamente no interesse e procura por materiais relacionados com os personagens que o integram, mas que consegue, ainda assim, nunca descer abaixo de um nível aceitável e perfeitamente tolerável.

Não há dúvida, no entanto, de que 'Super Mario Bros. Super Show' deixou, pelo menos, um legado à cultura popular contemporânea, também ele transformado, hoje em dia, em 'meme': os seus genéricos de abertura e encerramento, que apropriam desavergonhadamente ainda mais um elemento de enorme sucesso entre os jovens – o nascente movimento 'rap'/'hip-hop', especificamente a vertente mais virada para a dança – e o misturam com efeitos sonoros retirados do jogo com resultados decididamente 'tão maus que são bons'; ver 'Captain' Lou Albano (ao que consta, alcoolizado em todo e qualquer segmento em que surge) a tentar infrutiferamente adoptar uma cadência 'rap' por cima do famoso tema do primeiro  'Super Mario Bros', enquanto executa algo que vagamente se assemelha a uma dança é tão deprimente quanto hilariante.

...palavras para quê?

De resto, tal como as tentativas de transpôr o rival Sonic para um papel menos interactivo, 'Super Mario Bros. Super Show' merece permanecer nos anos 90, sendo trazido à baila apenas ocasionalmente, no contexto de um 'post' como este – ainda que, mesmo assim, consiga ser melhor que as versões posteriores da série, já para não falar da longa-metragem de acção real, estreada no mesmo ano...

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