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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

02.02.26

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Se houve género em que a televisão nacional dos anos 80, 90 e 2000 foi pródiga e floresceu, foi na programação dirigida às crianças. Fosse em segmentos como o Vitinho ou os Patinhos, concursos como 'Hugo', 'Arca de Noé' e 'Tal Pai, Tal Filho', animações como 'A Maravilhosa Viagem Às Ilhas Encantadas', programas como o Brinca Brincando, Clube Disney, Oh! Hanna Barbera, Vitaminas, Buereré, A Hora do LecasCirco Alegria, Batatoon, Um-Dó-Li-Tá e A Casa do Tio Carlos, séries educativas como o 'Zás Trás', 'Jardim da Celeste', 'No Tempo dos Afonsinhos', 'Os Contos do Mocho Sábio' ou a incontornável 'Rua Sésamo', ou outras mais tradicionais como 'Riscos', 'Uma Aventura', 'As Lições do Tonecas' ou 'Super Pai' (sem falar, claro, nos posteriores e igualmente incontornáveis 'Morangos Com Açúcar'), era raro o produto audiovisual infanto-juvenil produzido em Portugal que não encontrava o seu público. No entanto, tal como em tudo, existem excepções a esta regra – séries que, apesar de bem conseguidas e bem-sucedidas no imediato, ficaram (por uma razão ou outra) menos presentes na consciência colectiva das gerações então menores de idade; é, precisamente, sobre uma delas – estreada há exactos trinta e cinco anos, a 02 de Fevereiro de 1991 – que versam as próximas linhas.

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Antes mesmo de passar ao resumo, no entanto, há que louvar 'Quem Manda Sou Eu' como produto vanguardista, bem à frente do seu tempo no tocante à comunicação de assuntos importantes aos jovens. Isto porque a série não só dá aos seus protagonistas adolescentes (desempenhados por dois verdadeiros irmãos) agência na gestão do seu lar, como também ousa fazer da progenitora dos mesmos uma figura irresponsável, com problemas de alcoolismo, e dar a um dos irmãos uma personalidade boémia, em contraste com o da irmã, mais inteligente, engajada e responsável. A somar a isto tudo há ainda o facto de os pais dos dois jovens se encontrarem amigavelmente divorciados (tema, aliás, central à premissa da série) e activamente em busca de ligações românticas, não se coibindo a série de mostrar os efeitos deste paradigma, e de um lar dividido, na vida quotidiana e desenvolvimento psicológico dos dois jovens – um risco louvável e inusitado para uma série infanto-juvenil, especialmente em inícios da década de 90.

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Os protagonistas da série.

Pena que, talvez por isso, estes conceitos nunca sejam totalmente explorados, ficando a trama de cada episódio (e o cariz da série como um todo) mais próxima das 'sitcoms' com protagonistas jovens que então grassavam na televisão norte-americana, e onde temas sérios eram aflorados de forma igualmente superficial e passageira; uma pena, já que, tivesse arriscado um pouco mais, 'Quem Manda Sou Eu' poderia ter sido uma das pioneiras do género do drama juvenil, mais de meia década antes de 'Riscos' ter, mesmo, ousado adoptar esse ângulo. Tal como existiu, no entanto, trata-se de uma série divertida, merecedora de recordação à data deste seu aniversário marcante, mas que fica aquém do potencial que a premissa indicava, acabando por ser algo 'descartável' e por se encontrar algo esquecida pela consciência nostálgica daquele que foi o seu público-alvo.

19.01.26

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quis o destino que, num curioso acaso, a primeira semana do ano visse estrearem no mesmo canal nacional – a RTP 1 – com distância de exactos cinco anos, duas séries com o Alentejo como pano de fundo. A primeira era 'Alentejo Sem Lei', de 1991, um 'western spaghetti' à portuguesa (portanto, 'western açorda', como lhe chamou José Diogo Quintela no famoso segmento) com pretensões históricas, mas que sucumbia aos parcos recursos técnicos; a segunda, que trazia um registo mais sério e contemporâneo, era a telenovela portuguesa 'Roseira Brava', estreada há quase exactos trinta anos, e que abordaremos nas próximas linhas.

Gravada durante um período de cinco meses (entre Fevereiro e Julho) numa verdadeira aldeia alentejana (bem como nos estúdios da Nicolau Breyner Produções, em Vialonga) 'Roseira Brava' foi submetida a um atraso que a veria estrear apenas no ano seguinte, mesmo a tempo de competir com 'Explode Coração', na rival SIC. E se bem a produção nacional tenha (talvez inevitavelmente) perdido a 'guerra' de audiências para a congénere 'canarinha', o certo é que 'Roseira Brava' teve, ainda assim, um bom desempenho, conseguindo cativar números suficientes de audiência para justificar e cimentar a aposta da RTP em telenovelas de produção nacional.

E o facto é que, concorrência directa à parte, a produção em causa não tinha como não 'dar certo'; afinal, marcavam presença nas suas fileiras todos os 'suspeitos do costume' da televisão portuguesa da época – de Rogério Samora a Canto e Castro, José Raposo, Luís Esparteiro, Margarida Carpinteiro, Nuno Homem de Sá, Rita Salema, Virgílio Castelo, José Martinho e mesmo Simone de Oliveira, na sua estreia no mundo das telenovelas – os quais ajudavam a dar alguma dignidade ao habitual enredo cheio de reviravoltas, drama e relações interpessoais complexas e problemáticas, bem típico do género em causa. No total, foram cento e trinta episódios (os quais, curiosamente, demoraram praticamente tanto tempo a exibir como a filmar, tendo a rodagem tido lugar de Fevereiro a Julho de 1995 e a novela em si sido exibida de Janeiro a Junho do ano seguinte) que cimentavam a validade da RTP como produtora de telenovelas portuguesas naqueles anos anteriores à eventual hegemonia da TVI nesse capítulo, e que, como tal, merecem bem ser recordados neste espaço, cerca de dez dias depois de se terem celebrado os trinta anos sobre a sua estreia em televisão.

O primeiro episódio da novela, exibido a 08 de Janeiro de 1996

 

06.01.26

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 05 de Janeiro de 2026.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Com a excepção de algumas séries e programas de comédia, o objectivo declarado de qualquer empreitada criativa passa por ser levado a sério. No entanto, ainda que se possa dizer que essa seja a norma, existem, ainda assim, exemplos de filmes, séries de televisão, obras literárias, videojogos e até mesmo discos que, não se inserindo no contexto da paródia ou sátira, acabam ainda assim por ser mais conhecidos como alvo da mesma do que como criações com mérito próprio. Na televisão portuguesa, um dos mais famosos exemplos desse paradigma é (ou foi) uma série estreada há exactos trinta e cinco anos, que se pretendia totalmente séria e até historicamente relevante, mas cuja fama (ou infâmia) surgiria mais de uma década e meia depois, como resultado de um 'sketch' humorístico.

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Falamos de 'Alentejo Sem Lei', a hoje mítica mini-série em três episódios transmitida pela RTP entre 05 e 07 de Janeiro de 1991, e para a qual a melhor descrição talvez seja mesmo a de José Diogo Quintela, que lhe chamou 'western-açorda' – ou seja, uma versão 'à portuguesa' dos famosos 'western-spaghetti' produzidos em Itália nos anos 60 e 70, por realizadores como Sergio Leone. De facto, tanto o título como a ambientação (nas planícies alentejanas, o equivalente nacional aos planaltos do Velho Oeste, e no rescaldo da Guerra Civil de 1834, a versão lusitana para a famosa Guerra da Secessão norte-americana), as indumentárias dos personagens (com capotes, camisas brancas, lenços e chapéus de abas) e até o enredo parecem sugerir a vontade de fazer uma história de 'cowboys' à portuguesa; no entanto, e apesar do elenco recheado de grandes nomes da TV lusitana da época (de Rita Blanco e Canto e Castro a António Feio, Guilherme Leite, Rogério Samora, Vítor Norte – a 'milhas' do afável marceneiro André de 'Rua Sésamo', que ainda interpretava à época - Maria Vieira ou mesmo Herman José, num raro papel mais sério) e da banda sonora assinada pelo actual candidato presidencial Manuel João Vieira (dos icónicos Ena Pá 2000) em modo 'Enio Morrico-mpadre', os parcos meios técnicos e direcção de actores fazem com que o resultado final se assemelhe mais a uma 'coboiada'.

Chegamos assim, inevitavelmente, à razão para os 'quinze minutos de fama' de 'Alentejo Sem Lei' entre a maioria dos portugueses na casa dos trinta a quarenta anos, e à qual temos vindo a aludir ao longo deste texto: o 'sketch' dos lendários 'Gato Fedorento' que conferia à série o estatuto de 'Tesourinho Deprimente', e que a terá posto no 'radar' de muito boa gente, a quem a transmissão do próprio material de base talvez tenha passado despercebido. E a verdade é que, apesar da admirável ambição do realizador João Canijo, 'Alentejo Sem Lei' se presta mesmo a esse tipo de crítica, dadas as suas inúmeras falhas a nível técnico (inexplicáveis e inadmissíveis numa série da própria RTP) e aspirações 'acima do seu posto'.

Ainda assim, e como reza o ditado, 'qualquer publicidade é positiva', e é facto inegável que o trabalho de José Diogo Quintela e seus comparsas ajudou mesmo a conferir uma 'segunda vida' a uma série que, de outro modo, talvez tivesse sido Esquecida Pela Net, mas que, em vez disso, se encontra em posição de ser homenageada por ocasião do trigésimo-quinto aniversário da sua estreia - um caso que vem dar razão a ainda outros dois ditados da língua Portuguesa, nomeadamente, os que dizem que 'Deus escreve direito por linhas tortas' e que 'mais vale tarde do que nunca'. Para quem, nos entrementes, quiser tirar as suas próprias conclusões a respeito da série, deixamos abaixo o 'link' para um vídeo que edita os três episódios para formar um filme de duas hors e meia – além, claro está, do 'sketch' que garantiria à obra de João Canijo um lugar permanente na cultura 'pop' e de 'memes' portuguesa...

23.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O dia de Natal não é normalmente, em Portugal, data privilegiada para a estreia de novas séries, sendo a programação televisiva da data tradicionalmente dominada por filmes infantis ou de família. Ainda assim, no primeiro Natal do século XXI, foi precisamente esta a data escolhida pela TVI para lançar uma nova série, a qual viria a gozar de considerável sucesso e a tornar-se aposta ganha pela estação de Queluz, que demonstrou que talvez houvesse algo a ganhar em romper com a tradição.

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O programa em causa era 'Super Pai', série nacional de cariz cómico que acompanhava as aventuras de um empresário viúvo 'às voltas' com a educação de três filhas, entre os oito e os dezassete anos, a qual deve balancear com as exigências da sua vida profissional como dono de um bem-sucedido grupo de empresas têxteis - uma situação com que muitos adultos se identificavam, vivida de forma fácil de simpatizar, e pouco 'lamechas', por Luís Esparteiro, e que garantia desde logo uma 'fatia' de audiências à nova proposta da TVI. 

Seria, no entanto, junto de uma outra demografia que 'Super Pai' encontraria o seu maior sucesso - no caso, o público jovem, que se 'revia' nas três travessas meninas e nas suas múltiplas formas de 'fazer a vida negra' ao pai, e que teria papel fulcral na longevidade da série, que permaneceria parte integrante da grelha da TVI durante os três anos seguintes. E embora o 'fim de ciclo' fosse inevitável - até pelo natural crescimento das jovens actrizes, em simultâneo com o próprio público - a série não deixaria de marcar larga parte da geração 'millennial' portuguesa, para quem seria, futuramente, lembrada como um dos grandes programas da sua juventude e adolescência, a par dos posteriores 'Morangos Com Açúcar', por exemplo; motivo mais que suficiente para lhe dedicarmos estas linhas, a poucos dias de se celebrarem os vinte e cinco anos sobre a sua chegada aos televisores nacionais.

 

08.12.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em finais dos anos 80 e inícios dos 90, a televisão infantil portuguesa vivia um estado de graça, com uma série de excelentes produções dirigidas ao público mais jovem, quer na vertente mais dramática, quer a nível de concursos e programas de auditório, quer mesmo num formato mais 'híbrido', como no caso da icónica e lendária 'Rua Sésamo' – muitos deles com a participação de nomes de vulto no campo do entretenimento infantil, escrita, música, e mesmo pedagogia, dos dois 'Carlos Albertos' (Moniz e Vidal) a Alice Vieira, Ana Maria Magalhães (ambas as quais contribuíam para os 'bastidores' da referida 'Rua Sésamo') ou, como no caso a que se refere o presente 'post', José Jorge Letria. Não é, pois, de admirar que 'Os Contos do Mocho Sábio' retenha o mesmo nível de qualidade que tanto miúdos como graúdos já haviam aprendido a esperar de produções nacionais de cariz infanto-juvenil.

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O personagem titular, vivido por Francisco Cela.

Exibida ao longo de apenas uma semana há exactos trinta e três anos (entre 07 e 11 de Dezembro de 1992) 'Contos' é algo mais rudimentar do que a maioria das suas congéneres, apostando numa apresentação mais simples e minimalista (que 'esconde' parcialmente o baixo orçamento) e numa premissa mais próxima de uma peça de teatro do que de uma série com cenários ou enredos. De facto, cada episódio (cuja duração não excedia o quarto de hora) não requeria mais do que dois actores, um deles fixo (o próprio Mocho Sábio, 'vestido' por Francisco Cela) e o outro rotativo, responsável por interpretar a figura histórica ou folclórica que o personagem titular literalmente invocava, através das palavras mágicas 'Gatafunho, gafanhoto, sou direito e sou canhoto, venha de lá um herói, daqueles que eu já conheço, para ver se não me esqueço' (também parte da letra da música de abertura.)Era, assim, dado o mote para a chegada, literalmente por magia, de uma figura histórica (com letra minúscula) como Branca de Neve ou Pinóquio, ou Histórica (com maiúscula) como Marco Polo ou Cristóvão Colombo, com quem o Mocho conversava e trocava impressões, ajudando assim as crianças a conhecerem a sua história sem ter que recorrer a um reconto directo. Uma táctica engenhosa, que ajudava os pequenos espectadores a 'aprender a brincar', como os mesmos tanto gostam.

A ajudar a este desiderato estava um verdadeiro contingente de figuras de proa da televisão infantil nacional da época, como Alexandra Lencastre (então ainda conhecida como a Guiomar de 'Rua Sésamo') ou o referido Carlos Alberto Vidal, entre muitos outros, capazes de atrair quem já os conhecia de outros programas da altura, e de garantir uma alta fasquia no tocante à representação. Junte-se um tema com 'sabor' a Zeca Afonso ou Sérgio Godinho (mas cantado pelo próprio Francisco Cela, numa imitação quase perfeita deste último) e do qual muitos nem saberão que se lembravam até o ouvirem, e estavam reunidos os ingredientes para uma 'experiência' de sucesso para as férias de Natal de 1992.

Infelizmente, toda esta boa-vontade e preparação esbarrava num obstáculo de alguma monta: o fato do próprio Mocho Sábio, capaz de causar algum receio à maioria do público-alvo, pese embora a atitude e tom afáveis, quase paternalistas, que Cela imprimia à personagem. Talvez por isso (ou talvez por apenas ter passado na televisão durante uma única semana de um único ano) 'A Casa do Mocho Sábio' não tenha o mesmo nível de nostalgia associada do que a referida 'Rua Sésamo' ou o posterior 'O Jardim da Celeste'.

De referir que, segundo o Arquivo RTP, foram produzidos mais dois 'Contos do Mocho Sábio' posteriores a 1992: um logo no ano seguinte, em Junho, em que o Mocho Sábio conhecia o Patinho Feio, e outro na Primavera de 1995, em que o personagem interagia com uma rainha. Desconhece-se, infelizmente, a razão destes regressos não mais que 'esporádicos' à fórmula, que nunca chegou a ter uma segunda temporada; uma pena, já que (fatos 'arrepiantes' e baixos orçamentos à parte) se tratava de uma proposta válida e bem executada de entretenimento infantil, digna de ser celebrada exactos trinta e três anos após a sua estreia.

24.11.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Os 'remakes' 'à portuguesa' de formatos de sucesso no estrangeiro não são nada de novo na televisão lusa, tendo mesmo rendido alguns sucessos de relevo ao longo dos anos, quer a nível dos concursos, quer das séries. É sobre uma destas últimas que hoje nos debruçamos, poucas semanas após se terem celebrado os vinte e cinco anos da sua estreia, a 4 de Novembro de 2000.

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O casal de protagonistas da série.

Adaptação lusitana da série espanhola 'Querido Maestro', originalmente transmitida no país vizinho em 1997, 'Querido Professor' era uma produção da Endemol (responsável por grande parte do que passava na SIC à época) e trazia Ricardo Carriço no papel do titular docente, e Alexandra Lencastre (já longe da inocência da Guiomar da 'Rua Sésamo') como a sua ex-namorada, que o mesmo reencontra ao regressar à 'terrinha' para ali leccionar. Uma premissa em tom de comédia romântica que, ancorada no charme dos dois protagonistas e nas situações criadas pelos alunos de Miguel e pelos restantes habitantes da aldeia (interpretados por veteranos como Rogério Samora, Jorge Gabriel e Rita Blanco, entre outros nomes sonantes da comédia televisiva portuguesa) logrou render duas temporadas, e um total de quarenta episódios – marca honrosa, sem ser extraordinária, para uma série que até chegou a reunir algum consenso à época de transmissão.

Infelizmente, e apesar dessa relativa notabilidade nos primeiros meses do Terceiro Milénio, a série encontra-se, hoje em dia, quase totalmente Esquecida Pela Net (àparte o inevitável IMDb e um ou outro 'blog' de que foram tiradas as parcas informações desta peça) não restando mesmo, sequer, o habitual par de 'clips' de YouTube para recordar ou conhecer a obra. Resta, pois, a memória nostálgica e remota para 'encorpar' aquela que acaba por ser uma homenagem talvez demasiado curta e breve para uma celebração de um quarto de século, mesmo atrasada...

11.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 10 de Novembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca a realizadores de cinema e televisão, David Lynch é, sem dúvida, um dos mais polarizantes, a par de nomes como Quentin Tarantino, James Cameron ou, mais recentemente, Christopher Nolan: a tendência do cineasta para 'abusar' dos elementos surreais e do subtexto, muitas vezes em detrimento de uma história coerente, faz com que a sua obra não seja, decididamente, para todos os gostos. No entanto, um trabalho de Lynch em particular tende a reunir maior consenso do que a sua restante produção, talvez por ser mais linear, ou talvez pelas 'ondas' de espanto que causou aquando da sua estreia: 'Twin Peaks'.

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De facto, a história da investigação em torno do assassinato de Laura Palmer (cujo assassino suscitou tanta especulação e teorização quanto o famoso JR de 'Dallas') constitui um daqueles casos em que, apesar de estar muito 'à frente' do seu tempo, uma série consegue reunir o consenso da crítica e do público, cimentando o seu lugar na História da televisão moderna e sendo lembrada e discutida até aos dias de hoje. Em Portugal – onde a série estreou há precisamente trinta e cinco anos, em Novembro de 1990, às quintas-feiras à noite – o caso não terá sido diferente, embora (ao contrário do que acontece com séries posteriores, como 'Sopranos' ou 'Os Homens do Presidente') sobrevivam hoje muito poucos registos da recepção do público português à 'bizarrice' de Lynch e Mark Frost.

Ainda assim, o número de emissões celebratórias de que a série foi alvo por ocasião dos seus trinta anos dá a entender que 'Twin Peaks' terá tido os seus fãs à época – entre os quais, quiçá, se contem alguns dos leitores mais velhos deste 'blog', membros da chamada 'Geração X', e que teriam siido adolescentes à época da transmissão original. É a eles que dedicamos estas poucas linhas celebratórias de uma das mais intrigantes e originais séries televisivas dos últimos quarenta anos, por ocasião do aniversário da sua estreia em Portugal.

27.10.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na sua coluna no jornal Público, algures nos primeiros meses do Novo Milénio, Eduardo Cintra Torres – uma das mais proeminentes e preeminentes figuras no espectro da crítica e análise mediática em Portugal – acusava os telespectadores portugueses de não conseguirem 'acompanhar uma boa série, mesmo divertida e electrizante', 'preferindo ver as telenovelas e outros programas' como 'as Noites Marcianas e o Big Brother', rematando com um acintoso 'que façam bom proveito'. A série que tanta bílis desencadeava ao catedrático e colunista, acabada de estrear na RTP2 (há quase exactos vinte e cinco anos, a 16 de Outubro de 2000, dois dias após a estreia na SIC da primeia série d' 'Uma Aventura') e que vivenciava enormes dificuldades para encontrar o 'seu' público e replicar o sucesso obtido nos seus EUA natais, era tão-sómente uma série de culto, que alguns dos nossos leitores talvez conheçam, chamada 'Os Sopranos'.

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Sim, antes de ser unanimemente considerada uma das melhores produções televisivas de sempre, 'Os Sopranos' passava de forma discreta, quase desapercebida, pela televisão generalista e estatal portuguesa, no caso pela mão da inevitável RTP2, a televisão que já era 'culta e adulta' antes de o assumir no seu 'slogan', e que já começava a ser conhecida (como ainda o é) por 'importar' e exibir séries algo mais 'fora da caixa' que o habitual, e mais densas no tocante ao conteúdo. O êxito da HBO encaixava, pois, na perfeição na linha editorial do canal; o problema é que, como televisão mais intelectual e 'de culto', a RTP2 sofria, por definição, de um défice de audiências relativamente aos outros canais nacionais, ficando a visibilidade do novo programa assim automaticamente reduzida - um paradigma ainda mais agravado pela falta de promoção ao mesmo por parte do próprio canal. E embora seja discutível se 'Os Sopranos' teria singrado na grelha de uma SIC ou TVI (muiro superiores, no campo do 'marketing' e publicidade, à televisão estatal) é ainda assim impossível contornar o facto de que quase ninguém, à época, estava a ver a série, pura e simplesmente, porque quase ninguém, à época via a RTP2, por comparação com os canais concorrentes.

Curiosamente, um mesmo fenómeno viria a ocorrer, anos depois, com uma outra série hoje elevada a obra-prima – no caso, 'Breaking Bad', que passou totalmente despercebida na SIC Radical de inícios dos anos 2000 (algo que parecia impossível para aquele canal naquela época), perdendo assim os jovens portugueses uma oportunidade de dizer que haviam visto a nova 'coqueluche' mundial vários anos antes de a mesma 'estourar' – situação análoga à vivida em relação a 'Os Sopranos' aquando da sua transmissão na 'Dois'. E apesar de ambas as séries virem a ser 'vingadas' junto da opinião pública portuguesa, anos mais tarde, a verdade é que poucos serão os 'X' e 'millennials' nacionais que se lembrem de ter acompanhado os 'primórdios' de Tony Soprano e restante família em emissão 'aberta', no primeiro Inverno do século XXI, num dos mais flagrantes casos de um programa estar 'à frente do seu tempo' já vividos na televisão portuguesa.

14.10.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 13 de Outubro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa ocasião passada, relembrámos nestas páginas 'Uma Aventura', a série literária infanto-juvenil que, apesar de já quadragenária, continua, de alguma forma, a conseguir tracção suficiente entre o seu público-alvo (por esta altura, membro da Geração Alfa) para justificar a edição regular de novos tomos relativos ao mesmíssimo grupo de 'eternos adolescentes' que entreteve as crianças das gerações X, 'Millennial' e até 'Z'. Face a este sucesso, e à própria premissa da série de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. não é de espantar que a mesma tenha dado azo a uma adaptação televisiva, transmitida no equivalente infantil ao horário nobre (as manhãs de fim-de-semana) e sobre cuja estreia se celebram, no dia da publicação deste 'post', exactos vinte e cinco anos.

Foi, efectivamente, a 14 de Outubro de 2000 (um Sábado), que Pedro, Chico, João, as gémeas Teresa e Luísa e os seus respectivos cães, 'Caracol' e 'Faial', se apresentaram pela primeira vez em 'carne e osso' aos fãs dos livros, e a todo um novo segmento de potencial público que ficava assim a conhecer pela primeira vez a colecção. E apesar de não serem exactamente fiéis à sua caracterização nas páginas escritas – sendo vividos por actores mais velhos e com um visual mais actualizado e em linha com as sensibilidades juvenis da viragem do Milénio – eram suficientemente apelativos e interessantes para fazer os 'fiéis' regressar semana após semana, transformando a série da SIC num sucesso à altura do material de base. Tanto assim que 'Uma Aventura' lograria regressar para uma segunda série (em 2004, com um elenco logicamente totalmente renovado) e serviria de inspiração a outras adaptações de séries literárias infantis, como 'O Clube das Chaves' ou 'Triângulo Jota', as quais nunca conseguiram, no entanto, replicar o sucesso daquela primeira tentativa.

Grande parte deste sucesso devia-se ao facto de que a série d''Uma Aventura' (em ambas as suas 'encarnações') logrou sempre manter o espírito das 'Aventuras' originais (embora cada uma delas fosse expandida para se adaptar melhor ao formato televisivo) e a qualidade apresentada pela série original. O resto resumia-se a preferências individuais relativas aos actores escolhidos e à sua forma de abordar a personagem que viviam, que faziam com que alguns preferissem um grupo de actores sobre o outro, embora reconhecendo que ambos eram excelentes. Qualquer das séries continua, aliás, a ser uma excelente proposta para um serão em família, reunindo duas ou até três das múltiplas gerações cuja infância ou adolescência ficaram marcadas não só pela colecção original de livros mas também, quiçá, pelas referidas adaptações televisivas...

30.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 29 de Setembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As adaptações localizadas para formatos bem-sucedidos no estrangeiro não são nada de novo, tendo sido uma fórmula adoptada pelos países mais periféricos desde os primórdios dos 'mass media'. Portugal não foi, de todo, excepção a esta regra, antes pelo contrário – são inúmeros os exemplos desta prática ao longo dos anos, sobretudo no espectro televisivo, onde os produtos deste tipo se dividem entre adaptações declaradas e o mais literais possíveis, e conceitos simplesmente inspirados por outros criados 'lá por fora'. A série que abordamos neste 'post', e sobre a estreia da qual se assinalaram este mês os exactos vinte e cinco anos, insere-se na primeira categoria, 'copiando' fielmente um formato britânico e aplicando-lhe uma 'demão' de 'verniz nacional', para mais facilmente captar e cativar o seu público-alvo. O resultado é uma série que, apesar de ficar bem aquém do sucesso do original, merece ainda assim ser relembrada por ocasião do seu quarto de século.

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Estreada a 7 de Setembro de 2000, na SIC (à época a principal veiculadora de 'sitcoms' nacionais) 'Cuidado Com As Aparências' é uma adaptação da série do mesmo nome produzida pela BBC em inícios dos anos 90, e cujo título original era 'Keeping Up Appearances'. Londres dá lugar a Lisboa, Hyacinth Bucket torna-se Jacinta Bimbó, mas tanto o conceito (uma mulher de classe baixa com pretensões à 'subida' social) como muitas das situações são transferidas directamente do original britânico – o que não é de estranhar, já que a maioria das mesmas era relativamente universal, sem grande 'carga' social específica do Reino Unido, e, como tal, fácil de adaptar a uma realidade tão diferente (mas também tão semelhante) como era a portuguesa.

A dar a cara e o corpo às 'aportuguesadas' aventuras de Jacinta e da sua família declaradamente e orgulhosamente popular estavam um conjunto de actores bem habituados às lides da comédia, e capazes de fazerem até as situações mais caricatas ressoar junto do público-alvo. Catarina Avelar (que vivia Jacinta), Helena Isabel, Lídia Franco, Margarida Carpinteiro ou Vítor de Sousa eram apenas alguns dos nomes num elenco fixo cujo talento era inversamente proporcional ao seu tamanho, e que era capaz, por si mesmo, de justificar a sintonização da série – como, aliás, sucedia com a maioria dos projectos em que se envolviam.

Infelizmente, conforme mencionado nas linhas iniciais deste texto, a versão portuguesa de 'Cuidado Com As Aparências' não logrou o mesmo sucesso da original, dando origem a apenas duas temporadas (por oposição às cinco da série da BBC) e encontrando-se hoje largamente esquecida pelo público telespectador da época. Ainda assim, a mesma não deixa de ser um exemplo relativamente bem conseguido – e absolutamente típico – de 'sitcom' portuguesa do período em causa, fazendo por merecer ser revisitada por fãs deste tipo de programa, no mês em que se celebram os vinte e cinco anos da sua primeira 'ida ao ar.'

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