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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.10.21

Hoje, a nossa Sessão não vai recordar qualquer filme nostálgico, mas sim dar a conhecer uma série de filmes modernos cuja temática certamente não deixará de interessar aos leitores deste blog.

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Trata-se da saga ‘Rouronin Kenshin’, uma adaptação em imagem real do nosso bem conhecido (e querido) ‘Samurai X’, produzida e lançada pela Netflix e que se estende, até agora, ao longo de cinco de filmes, ao longo dos quais podemos seguir todo o percurso de Kenshin Himura, desde os seus inícios como assassino profissional até à época da sua vida retratada no ‘anime’ original. E embora os personagens não falem com as icónicas vozes da dobragem portuguesa, e nem todos os elementos estejam cem por cento correctos ou bem conseguidos – é estranho, por exemplo, ver Kenshin de cabelo preto, embora o penteado em si esteja perfeitamente retratado – não deixa de ser uma boa aposta para quem era fã do mítico ‘anime’ e quer travar conhecimento com uma nova versão dos seus heróis de infância. Recomenda-se é que reservem algum tempo para o fazer, pois cada um dos filmes dura perto de duas horas e meia…

Ainda assim, fica a dica, para quem quiser fazer uma ‘maratona’ de Netflix e não souber o que ver!

05.10.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 5 de Outubro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Nas últimas edições desta rubrica, temos vindo a falar de séries para adolescentes americanas dos anos 90 que, por alguma razão, tiveram igual repercussão por terras lusitanas; e depois de termos falado das principais representantes da vertente mais séria e mais cómica do estilo, chega hoje a vez de falarmos do terceiro concorrente nesta competição pelo interesse dos espectadores mais jovens, o qual não chegou a conseguir o mesmo nível de sucesso das suas congéneres, mas deixou ainda assim a sua marca entre o público infanto-juvenil da época.

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Falamos de ‘Parker Lewis’ (ou ‘Parker Lewis Can’t Lose’, como era conhecido no seu país de origem), uma ‘sitcom’ da Fox que pegava em alguns dos elementos utilizados pela série rival, ‘Já Tocou!’, os aumentava a um nível quase caricatural, e os misturava com uma boa dose de inspiração retirada do filme ‘O Rei dos Gazeteiros’, que muitos dos nossos leitores mais provavelmente conhecerão pelo seu título original, ‘Ferris Bueller’s Day Off’.

Tal como o filme de 1982, ‘Parker Lewis’ segue as aventuras do gazeteiro e ‘gozão’ do mesmo nome (interpretado por Corin Nemec, que não viria a ter quaisquer outros papéis de nota), um sucedâneo (ou sucessor) de Ferris Bueller que frequenta  uma escola secundária californiana e que, com a ajuda dos seus dois melhores amigos e alguns outros colegas menos chegados, faz a vida negra à directora da escola, enquanto tenta evitar os ‘ataques’ estilo partida de Carnaval da sua maléfica irmã mais nova.

Uma premissa bastante comum, e até algo gasta, para uma série deste tipo, mas que, neste caso específico, era apimentada com uma dose considerável de referências à cultura ‘pop’da época e daquilo a que se convencionou chamar ‘fourth wall breaking’ – aquele fenómeno em que os personagens sabem estar dentro de uma ficção, e utilizam alguns dos elementos da mesma a seu favor. Embora não totalmente original – Zack Morris, de ‘Já Tocou!’, também era conhecido por se dirigir directamente aos espectadores, por exemplo – esta abordagem granjeava algum interesse a ‘Parker Lewis’, e ajudava a série a cimentar um lugar no concorrido mercado de ‘sitcoms’ para adolescentes, tanto nos EUA como em Portugal.

parker-lewis-cant-lose-the-complete-first-season-2O personagem principal em modo 'fourth wall break'

Ainda assim, o sucesso das aventuras de Parker e seus amigos não foi tão pronunciado que levasse à exibição em Portugal das três séries criadas pela Fox entre 1990 e 1993; a série passou em terras lusas durante apenas um ano, substituindo precisamente ‘Já Tocou!’ na grelha da TVI. Nesta batalha em particular, no entanto (e apesar dos ‘gadgets’ de que Parker e os seus comparsas dispunham na sua base secreta por baixo do ginásio) pode dizer-se que o liceu de Bayside saiu claramente a ganhar do confronto com o liceu de Santo Domingo - e que Parker Lewis, que segundo o próprio título da série, 'não pode perder'...perdeu. Ainda assim, os planos de Parker foram suficientemente bem sucedidos para lhe granjear algumas linhas – bem como a honra de concluir a retrospectiva sobre séries para adolescentes dos anos 90 - aqui neste nosso blog…

07.09.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 6 de Setembro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das principais ambições de qualquer criança é ser ‘crescido’ – o que, muitas vezes, equivale, na mente dessas mesmas crianças, a ser adolescente. De facto, a combinação única entre a falta de responsabilidades e a liberdade de actuação e pensamento que essa época normalmente representa parece, muitas vezes, constituir o balanço perfeito para uma vida agradável – pelo menos até se chegar, efectivamente, à idade adolescente, e se perceber que não é bem assim…

Ainda assim, este ideal dos anos formativos constitui uma das principais razões para o sucesso, entre os pré-adolescentes, de diversas séries direccionadas à faixa etária e demográfica directamente acima da sua; e, nos anos 90, não havia melhor exemplo deste fenómeno do que ‘Beverly Hills 90210’, que em Portugal chegou também a ser conhecido pelo título ‘Febre em Beverly Hills’.

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Produzida por Aaron Spelling, responsável por uma fatia considerável do entretenimento televisivo ‘light’ norte-americano da época, ‘Beverly Hills 90210’ não é só uma daquelas séries repletas de jovens impossivelmente atraentes, na casa dos vinte anos, a representar alunos do décimo-primeiro ano – é o ‘template’ padrão para esse tipo de séries. A par de ‘Melrose Place’ e ‘Dawson’s Creek’ (ambas da mesma época), esta foi a série que introduziu e cimentou muitos dos estereótipos narrativos que este tipo de programa viria a seguir nas três décadas seguintes; digamos que, sem ‘Beverly Hills’, algo como os ‘Morangos com Açúcar’ talvez nunca tivesse existido.

Em Portugal, a série não foi menos influente do que nos seus EUA natais – muito pelo contrário, difícil era passar uma semana sem os actores e actrizes principais da série aparecerem na capa de uma Super Jovem desta vida, em entrevista exclusiva ou simplesmente como alvo de um artigo de curiosidades pessoais. O facto de a série apresentar não um, mas dois dos maiores ídolos entre as raparigas daquele tempo – Jason Priestley e o malogrado Luke Perry – também não abonava nada a favor de quem quisesse ter menor exposição à série, o mesmo se podendo dizer das presenças femininas de Jenny Garth, Tori Spelling (filha do produtor da série) ou da eterna rebelde Shannen Doherty, aqui no papel que a lançaria para o estrelato. No cômputo geral, eram quase ‘pessoas bonitas’ a mais para conviverem todas num mesmo programa – mas a verdade é que era mesmo esse o caso, e que a fórmula resultava mesmo em pleno.

Escusado será dizer que as histórias e enredos de ‘Beverly Hills’ pouco fugiam dos padrões expectáveis de uma telenovela para adolescentes – quem andava com quem, quem acabava com quem, quem engravidava de quem, e por aí adiante. Nada que puxasse demasiado pela imaginação do público-alvo – o qual, diga-se de passagem, talvez não se importasse demasiado com o assunto. Afinal, ninguém via ‘Beverly Hills 90210’ à espera de histórias envolventes e intrigantes; a série era puro escapismo ‘wish fulfillment’ para a demografia a que se destinava – e, por arrasto, também a anterior. Prova disso foi o sucesso de que a série gozou tanto nos Estados Unidos, onde esteve no ar durante toda a década de 90, como em Portugal, onde passou durante apenas metade desse tempo (de 92 a 97) mas suscitou uma ‘Febre’ que fazia jus ao título nacional.

Tal como muitas outras séries daquela época, também 'Beverly Hills 90210’ foi alvo de um ‘remake’ contemporâneo, já no novo milénio; no entanto, se a série original já estava longe de ser uma obra-prima, a nova era ainda pior - tal como, aliás, tende a acontecer na maioria dos casos análogos.

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A sério, isto é mesmo mauzinho...

Assim, mau por mau, sugerimos que se fiquem pela série original, que (apesar de datada, ou talvez precisamente por causa disso) é bem capaz de suscitar um assomo de nostalgia que rivalize com qualquer outra das abordadas até agora neste blog…

24.08.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 23 de Agosto de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Ainda que, hoje em dia, seja acima de tudo um ‘meme’ ambulante (obrigado, Internet) nos anos 90, Chuck Norris era ainda levado (muito) a sério como herói de acção da ‘velha guarda’, à semelhança do seu homónimo Bronson – estatuto esse que permitia à ‘máquina’ de Hollywood construir toda uma série alicerçada, tão-somente, na sua aura de ‘durão’, e fazer dessa série um dos mais memoráveis sucessos da televisão da década.

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Falamos, é claro, de ‘Walker, Ranger do Texas’, o quase-western cruzado de aventura série B – ou não fosse uma produção da Cannon, famosa por esse estilo de cinema - que, durante anos a fio, marcou as tardes de fim-de-semana das crianças e jovens portugueses, sobretudo as que acompanhavam a programação da SIC, onde a série era transmitida. De 1993 a 2001, foram oito temporadas (embora nem todas tenham passado em Portugal) coroadas por um filme longa-metragem de 2005, que pôs cobro às aventuras de Cordell Walker e Jimmy Trivette, a dupla de xerifes texanos peritos em combate mano-a-mano (ou não fosse um deles interpretado por Chuck Norris) que perseguem criminosos procurados e protegem inocentes famílias do vilão da semana, ao melhor estilo ‘Esquadrão Classe A’ - sempre bem aconselhados pelo veterano ‘ranger’ C. D. Parker e pela advogada Alex Cahill.

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O pequeno mas carismático elenco da série

A fórmula pouco ou nada mudou em quase dez anos (!) de transmissão, mas também nunca deixou de ter sucesso, justificando mesmo a criação de uma série ‘remake’, agora produzida pela The CW e com Jared Padalecki (o Sam de ‘Sobrenatural’) no papel imortalizado por Norris; e embora o sucesso não tenha sido, nem de longe, semelhante, a verdade é que também esta nova série já foi renovada para uma segunda temporada…

Não haja dúvida, no entanto, que no caso de ‘Walker’, se aplica a famosa máxima da Kellogg’s relativa aos seus Corn Flakes – ‘o original é sempre o melhor’. Por muito ‘azeiteira’ que fosse – e era! – a série original traduzia-se numa excelente mistura de um conceito interessante – um ‘western’ moderno com toques de policial ‘grindhouse’ dos anos 80, e de filme de artes marciais dos 90 – com um herói carismático e bem do agrado do público-alvo. Sendo esta uma fórmula ‘feita’ para ter sucesso nos anos 90, não se afigura de todo surpreendente que tenha sido exactamente esse o caso; já em pleno século XXI, com as mentalidades e valores totalmente alteradas em relação à referida época e uma oferta televisiva e de séries vastamente alargada, um programa algo ‘antiquado’ e ‘de época’ como ‘Walker’ terá mais dificuldades em se impor ou se tornar memorável – ainda que a corrente apetência para a nostalgia possa fazer com que o original continue a ser visto como objecto de culto. Para já, a série de Norris vai passando na RTP Memória, dando aos mais curiosos ou saudosistas a oportunidade de ver se aquela série mítica da sua infância é das que resiste à passagem do tempo, ou se, afinal, a aura 'cool' que a parecia rodear à época não passava de um ‘sintoma’ da infância…

09.08.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

 

Sim, este é um daqueles posts – como o dos Ficheiros Secretos – que tem mesmo de começar com a música de abertura da série a que diz respeito. Isto porque, para uma determinada faixa da população nacional, a referida música é talvez o mais icónico tema de abertura da sua infância, encontrando pares apenas em Dragon Ball Z, Power Rangers e nos próprios Ficheiros Secretos em termos de longevidade nostálgica para as crianças da época.

E o melhor é que a série em si, embora não tão memorável ou ‘viciante’ como a música que a abria, também não deixava nada a desejar a muitas produções bem mais ‘caras’ da época; antes pelo contrário, tanto o programa original como a sua ainda mais famosa sequela ofereciam uma adaptação divertida de material literário clássico, com o qual muitas crianças provavelmente nunca teriam tido contacto, não fora o estatuto de fã incondicional de um director de animação espanhol.

O referido realizador, e criador da série, Claudio Biern Boyd, foi inspirado pela sua paixão pela obra de Alexandre Dumas, em particular ‘Os Três Mosqueteiros’, a desenvolver uma versão da história que agradasse a um público jovem mais contemporâneo – daí a opção por transformar os personagens em cães, um animal de que quase todas as crianças naturalmente gostam. Com a ajuda de uma companhia de animação japonesa, o conceito de Boyd viria a tornar-se realidade ainda em inícios dos anos 80, tendo ‘Dartacán y Los Tres Mosqueperros’ estreado na TVE espanhola em 1982; e o mínimo que se pode dizer é que a intuição inicial de Boyd estava absolutamente correcta – a série foi um sucesso imediato, tanto em Espanha como em Portugal, onde viria a estrear pouco depois, e em vários outros países pelo Mundo fora.

O sucesso tão-pouco se ficaria por aí; antes pelo contrário, o êxito estrondoso do seu conceito inicial inspiraria Boyd a conceber uma sequela, a qual viria a surgir já na década seguinte, a tempo de cativar tanto o público da série original como uma nova fornada de crianças, ainda pouco familiarizadas com o perdigueiro cinzento de roupa vermelha e os seus ‘bons companheiros’ - o bravo Dogos, o bonacheirão Mordos e o vaidoso Arãomis.

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O quarteto de heróis da série

É essa série, explicitamente intitulada ‘O Regresso de Dartacão’, que mora na imaginação da esmagadora maioria das crianças portuguesas da década de 90, não só pelo seu tema de abertura modelo ‘pastilha elástica’, como também pela animação dinâmica (agora a cargo de uma companhia da Formosa, a conhecida Wang Productions) e personagens memoráveis, com especial destaque para os ‘maus da fita’, o Cardeal Richelieu e a gata Milady. A sequela introduzia, ainda, os filhos de Dartacão e da ‘predilecta do seu coração, Julieta – os quais, à boa maneira dos desenhos animados da época, saíam cada um ao progenitor do respectivo sexo, com o rapaz a assemelhar-se a Dartacão e a menina a Julieta. (Também aqui, aliás, a série mostrava mestria, ao conseguir criar personagens infantis que não faziam o espectador querer estrangulá-los ao fim de dois segundos no ecrã.)

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Os filhos de Dartacão e Julieta

Em suma, uma série memorável por fazer tudo bem, que merece o seu lugar na curta mas interessante História da animação ibérica, e que viu recentemente o seu legado prolongado (ou antes, revivido) por um filme em animação CGI, estreado há poucas semanas nos cinemas lusitanos.

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O cartaz do novo filme, estreado em Julho de 2021

Não deixa, por isso, de ser atempada esta nossa homenagem a uma daquelas séries de que TODOS nos lembramos, e que rapidamente vem à conversa sempre que o tema se volta para a nostalgia sobre a ‘nossa’ época. ‘DARTACÃO, DARTACÃO, CORRENDO GRAN-DES PERI-GOOOOOS / DARTACÃO, DARTACÃO, PERSEGUEM OS BAN-DI-DOOOOOS…

12.07.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

 

Este é mais um daqueles posts que se podia perfeitamente ficar pelo vídeo reproduzido acima, e decerto não deixaria de ter impacto junto dos leitores deste blog; este tema, como os de Dragon Ball Z ou Power Rangers, é daqueles que é ASSIM TÃO icónico para a nossa geração, e que fará qualquer jovem dos anos 90 recordar onde e quando o ouviu pela primeira vez.

A série a que pertence (ou pertencia) não é, no entanto, menos lendária ou memorável – pelo contrário, o tema e o programa estavam bem um para o outro. Tratava-se, como é evidente, de ‘Ficheiros Secretos’, a série que apresentou ao mundo o duo de David Duchovny e Gillian Anderson, duas estrelas em potência que, infelizmente, nunca confirmaram o potencial que demonstravam como co-estrelas deste lendário programa.

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A icónica dupla de protagonistas da série

Criada em setembro de 1993 por Chris Carter – um nome, a dada altura, não menos mítico do que o da própria série – ‘Ficheiros Secretos’ demorou menos de um ano a chegar a Portugal (uma raridade à época), tendo estreado na TVI em 1994, a tempo de cativar toda uma geração de jovens com a sua mistura de enredos sobrenaturais e de terror a uma típica série policial e de mistério – uma mistura que ajudava, e muito, a tornar o programa original, e a fazê-lo destacar-se de uma concorrência que, já na altura, jogava demasiado pelo seguro. Mulder e Scully viam-se, semanalmente, a braços com estranhas ocorrências, as quais, invariavelmente, acabavam por envolver fantasmas e/ou extraterrestres – por muito que a Scully de Anderson teimasse em manter o seu cepticismo empedernido, mesmo depois de duas temporadas inteiras de fenómenos deste tipo. Já o Mulder de David Duchovny seria, hoje, inevitavelmente tachado de ‘teórico da conspiração’ – ainda que os seus palpites e o seu ‘querer acreditar’ se acabassem sempre por revelar acertados. Junte-se a esta interessante dicotomia a óbvia química exibida pelos dois actores (que chegaram mesmo a ser um casal em consequência do seu trabalho na série) e o que temos é mesmo uma grande maneira de passar uma noite de sexta-feira.

E sim, dissemos ‘noite’, pois embora ‘Ficheiros Secretos’ fosse extremamente popular entre crianças e jovens, a verdade é que era transmitido já depois da ‘hora da cama’, obrigando muito do seu público a ficar acordado – aberta ou clandestinamente – para conseguir ver cada novo episódio. Valia o facto de no dia seguinte ser fim-de-semana…

E como qualquer programa de sucesso entre a miudagem, ‘Ficheiros Secretos’ deu origem a variado ‘merchandise’, de filmes originais (lançados no cinema!) à inevitável reedição de episódios em DVD, e das habituais t-shirts a números especiais de revistas como a ‘Super Jovem’, e até – famosamente – um daqueles jogos de cartas que, não se chamando ‘Magic: The Gathering’, nunca eram coleccionados (e muito menos jogados) seja por quem fosse. Em suma, sem ser uma força da natureza como os outros programas referidos no início deste texto, ‘Ficheiros Secretos’ tinha um lugar confortável nas preferências dos jovens (fossem portugueses ou estrangeiros) tendo, inclusivamente, ajudado a lançar a ‘febre’ dos extraterrestres, e a reavivar a dos fantasmas.

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Um dos muitos livros inspirados pelo sucesso da série

Infelizmente, mais uma vez, a velha máxima de que ‘tudo o que é bom acaba’ se provou acertada em relação a esta série, a qual – a partir da quarta temporada – decidiu retirar o foco do sobrenatural para se transformar em ‘só mais uma’ série sobre traições e espionagem; e o mais irónico é que o ‘arauto’ dessa viragem foi um personagem que muitos estavam desejosos por conhecer, após a série ter criado um enorme e aliciante mistério à sua volta. Infelizmente, quando se revelou a Mulder e Scully, o ‘Cigarette Smoking Man’ acarretou consigo o início do fim daquela que houvera sido uma série excelente, precisamente, por ser original. Daí para a frente, foi sempre a decrescer em termos de interesse, até já ninguém sequer saber que ‘Ficheiros’ ainda estava no ar, e muito menos se interessar. Uma pena, visto a série ter potencial para se ter tornado ainda mais lendária entre a geração que entrava na adolescência em finais dos anos 90. Mesmo com este desaire, no entanto, não a podemos considerar menos do que histórica entre a juventude portuguesa – e, como tal, bem merecedora de um lugar na rubrica sobre séries deste blog explicitamente nostálgico…

 

02.07.21

NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 28 de Junho de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Hoje em dia, quando se fala em clones dos lendários Simpsons, a primeira série que vem à cabeça é ‘Pai de Família’. No entanto, esta não foi, nem por sombras, a primeira tentativa de emular a super-popular série de Matt Groening; pelo contrário, os anos 90 viram surgir inúmeras séries exactamente nos mesmos moldes de ‘Os Simpsons’, apenas com uma ligeira mudança. No fundo, uma situação semelhante à daqueles filmes descritos como ‘Assalto ao Arranha-Céus mas com…’, só que neste caso relativa a séries – uma situação, aliás, semelhante à que se verificava, na mesma altura, relativamente aos ‘clones’ de ‘Tartarugas Ninja’.

Um dos mais populares de entre esta vaga de ‘imitadores’ de ‘Os Simpsons’ era uma série produzida em início dos anos 90 pela Jim Henson Television, em parceria com a Disney, e cujo conceito se pode resumir como ‘Os Simpsons, mas na pré-história’. Falamos, claro, de ‘Os Dinossauros’, uma ‘sitcom’ criada através de uma mistura de fantoches estilo ‘Marretas’ e actores dentro de fatos de borracha, que também se poderia descrever como ‘Os Flintstones, mas com dinossauros’.

Estreada nos Estados Unidos em 1991 e em Portugal no ano seguinte, em versão dobrada e com transmissão nas tardes de fim-de-semana da RTP, ‘Os Dinossauros’ segue as peripécias diárias dos Sinclair, uma família de classe média composta pelo pai, Earl, a mãe, Fran, e três filhos: os adolescentes Robbie e Charlene, e a ‘estrela da companhia’, o descritivamente nomeado Bebé (inicialmente baptizado, devido a uma situação insólita, como Ai, Ai, Estou a Morrer Seu Idiota Sinclair). Ou seja, exactamente a mesma estrutura de uma outra família televisiva da mesma época, só que com pele verde em vez de amarela…

(Curiosamente, segundo os produtores, Jim Henson teria desenvolvido o conceito de ‘Os Dinossauros’ ainda antes da estreia de ‘Os Simpsons’; no entanto, o ‘timing’ da estreia, no auge da popularidade da série de Matt Groening, torna inevitáveis as comparações e acusações de ‘cópia’.)

A verdade, no entanto, é que ‘Os Dinossauros’ TINHA algumas diferenças em relação a ‘Os Simpsons’. Para começar, o agregado familiar dos Sinclair incluía também a mãe de Fran, Zilda (no original, Ethyl), uma típica ‘sogra do pior’, sempre a atormentar Earl do conforto da sua cadeira de rodas; depois, Earl trabalhava num estaleiro de desflorestação, por oposição a uma central nuclear, como ‘um outro’ careca, ou a uma pedreira, como o ‘quase-contemporâneo’ Fred Flintstone; por fim, o facto de os filhos do casal serem mais velhos do que os das outras famílias (quer os ainda bebés Pedrita e Bam-Bam, quer os estudantes primários Bart e Lisa) permitia alguma variedade nas histórias em relação às suas duas inspirações.

Também pode ser considerado que, ao mostrarem um casamento entre duas espécies diferentes de dinossauro, os produtores estavam inconscientemente a transmitir uma mensagem sobre tolerância inter-racial – embora nada disso explique o facto de TODOS os dinossauros da família (excepto Earl e o Bebé) serem de espécies diferentes, mesmo os que são filhos uns dos outros! Poder-se-ia, claro está, debater que essa incongruência é, em si mesma, uma piada – nomeadamente, uma alusão a Fran ter tido casos extra-conjugais que resultaram no nascimento de Robbie e Charlene – não fosse o facto de a própria Fran ser filha de uma espécie de dinossauro completamente diferente da sua! Ou havia muitos casos extra-maritais na pré-história, ou este era mesmo um daqueles absurdos em que ninguém pensou antes de encetar o processo de pré-produção…

À parte estas diferenças intencionais ou acidentais, no entanto, tudo o resto - das dinâmicas familiares, a algumas das situações, ao facto de Earl ter um grupo de amigos no trabalho, exactamente como Homer com Lenny e Carl, à sua relação com o chefe, Sr. Richfield, decalcada da de Fred Flintstone com o Sr. Slate - ‘tresanda’ às duas principais inspirações da série – o que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso da série, tanto nos seus Estados Unidos natais como, mais tarde, em Portugal.

A outra parte desse sucesso deve-se àquela que, ainda hoje, continua a ser a parte mais memorável desta série, nomeadamente as ‘catchphrases’ dos diversos personagens. Quem se lembra de, ali por volta de 1992, gritar no recreio ‘Queridaaa, chegueeeei!’ ou ‘Não és a Mamã!’ (enquanto fingia agredir a outra pessoa com um golpe de caçarola na cabeça) certamente saberá do que estou a falar. No que toca ao público infantil, estes dichotes (e os constantes e hilariantes ataques do Bebé ao pai) eram, praticamente, razão suficiente para ver a série, porque mesmo quando os episódios eram de compreensão mais obscura ou adulta, havia sempre estes ‘bordões’ aos quais se agarrar para rir um bocado.

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Eh, eh, eh...ainda hoje tem piada...

Como resultado desta tendência, o Bebé, em particular, tornou-se um personagem extremamente popular - uma espécie de Bart Simpson de fraldas, com toda a irreverência e jeito para a frase-feita deste, mas de uma perspectiva algo mais inocente. Era, aliás, nele que se centrava o pouco ‘merchandise’ alusivo à série que chegou a Portugal, com particular destaque para o jogo de tabuleiro, precisamente intitulado 'Não És a Mamã!’, e cujo objetivo envolvia arranjar comida para o membro mais novo da família.

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Mas existem Funkos...porque CLARO que existem Funkos 

Enfim, apesar de não ter ficado no ar muito tempo (pelo menos em Portugal – nos EUA, teve várias temporadas) ‘Os Dinossauros’ conseguiu ser uma série bem memorável para a juventude da altura, e deixar a sua marca num dos períodos áureos da televisão infanto-juvenil em Portugal. Nada mau, para um clone de segunda linha dos Simpsons…

18.03.21

 

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Que melhor maneira de dar início a um blog sobre os anos 90 em Portugal do que com A febre – provavelmente a maior febre que os recreios portugueses da era pré-TikTok e YouTube alguma vez conheceram? Um fenómeno tão popular que fazia parar aulas e jogos de bola, e chegou ao ponto de gerar ‘mercados negros’ de imagens fotocopiadas, geridos com grande sentido comercial por mini-empreendedores do 6º ano?

Falamos, claro, de Dragon Ball Z, talvez a série animada mais popular de sempre em Portugal. Transmitida no nosso país pela SIC a partir de Novembro de 1996, o ‘anime’ criado sete anos antes por Akira Toriyama tornou-se um daqueles fenómenos que suscitavam a pergunta: ‘onde é que estavas no dia da estreia do Dragon Ball Z?’

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Nem o Son Goku percebe a razão da 'febre'...

Se não tiverem estado lá em pessoa, tentem imaginar um típico dia de semana em Novembro de 1996, ali por volta das 17h30, hora de muitas crianças regressarem da escola e se sentarem com o seu ‘lanchinho’ a ver qualquer dos programas infantis da tarde. Nesta tarde em particular, no entanto, os outros canais são quase totalmente negligenciados, sobretudo pelos rapazes, que sintonizam quase unanimemente a televisão para a SIC. A razão? Após algumas semanas de anúncios e ‘spots’ televisivos para criar ‘hype’, está finalmente prestes a estrear uma nova série cheia de acção e aventura, mesmo à medida de quem ainda não é adolescente, ou mesmo de quem já é mais velho, mas não tem vergonha de ver desenhos animados.

Alguns minutos depois de televisores de Norte a Sul do país terem sintonizado o canal de Carnaxide, o genérico da nova série irrompe pelas casas de milhões de crianças e jovens, no que seria a primeira de muitas vezes – mais do que alguém ousaria imaginar. Alguns momentos depois, a cabeça de um veado emerge de fora do ecrã, ouve-se a voz de uma personagem feminina a chamar ‘Son Gohaaaaaannn!’…e estava lançado o fenómeno.

Durante os dois a três anos seguintes, Dragon Ball Z seria presença assídua na vida das crianças e adolescentes portugueses, quer através da transmissão diária de episódios, quer da compra de ‘merchandise’  - t-shirts, a caderneta de cromos da Panini, vídeos dos filmes longa-metragem da série ou do Dragon Ball original, os famosos bonecos articulados, ou até um CD de músicas Europop de origem tão duvidosa como a sua qualidade sonora - ou mesmo de meios menos esperados ou ortodoxos, como a referida ‘pirataria’ de imagens fotocopiadas, tiradas da Internet e vendidas no recreio a 5 ou 10 escudos cada, dependendo da qualidade e interesse (um ou outro mais afoito até tentava cobrar 20 escudos por uma suposta imagem de ‘hentai’ da série, saindo-lhe o plano furado apenas por conta da fraca qualidade das impressoras da época, que transformaram a suposta cena para maiores de 18 entre Bulma e Son Goku num borrão indecifrável.) Enfim, uma febre como poucas tinhas havido até então para aquela geração nascida em finais dos anos 80, e como poucas voltaria a haver nos anos subsequentes.

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Capa de um dos vídeos lançados à época, com direito a 'gralha' no título e ilustração estilo 'carrossel da Feira Popular'

O mais engraçado é que o antecessor de DBZ, o Dragon Ball original, não tinha conhecido nem metade do sucesso da sua continuação. Havia quem visse, claro – eram até muitos – e a canção do genérico era icónica q.b., mas a série original nunca levou ninguém a tentar desenhar a sua própria cena de Son Goku para vender no recreio, a interromper um jogo de futebol com os amigos ou até uma aula da Universidade (!!) para ver o episódio desse dia, ou a aceder aos incipientes recursos cibernéticos da época para encontrar ‘spoilers’ sobre o que se iria passar a seguir. Era simplesmente mais um desenho animado ‘fixe’ – um estatuto que DBZ largamente transcendeu, e que a continuação, o muito esperado ‘Dragon Ball GT’, nunca sequer esteve perto de atingir.

Mas como diria George Harrison, ‘all things must pass’ – e o fenómeno Dragon Ball Z, embora mais duradouro que muitos outros surgidos naqueles anos 90, acabou mesmo por esmorecer. Muita da responsabilidade pode ser atribuída à própria SIC, que comprou um número limitado de episódios da série e, quando milhões de crianças salivavam pela continuação da saga Cell, e pela introdução do novo vilão Bubu (Buu)…re-iniciou a exibição a partir do primeiro episódio! Sem paciência para verem novamente os quarenta mil episódios para ‘encher chouriços’ da saga Freezer (aqueles que começavam e acabavam com um herói e um vilão frente a frente, a trocar ameaças, ficando o confronto sempre para o famoso ‘próximo episódio’), a criançada tratou de arranjar outros focos de interesse, fazendo esfriar consideravelmente a ‘febre’ que se verificara até então. A SIC ainda tentou corrigir o seu erro, transmitindo os novos episódios ao Sábado de manhã para um público ainda bastante interessado, mas a loucura, tal como ela havia sido poucos meses antes, não se voltaria a verificar.

Mesmo assim, a transmissão portuguesa de Dragon Ball Z constitui, ainda hoje, uma memória indelével para toda uma geração, que acompanhou sofregamente cada novo episódio (incluindo os referidos ‘fillers’), comprou o merchandise (oficial ou, mais frequentemente, pirata) e fez daquele ‘anime’ descomprometido um verdadeiro culto da sua infância e adolescência. Fosse pelo inesquecível tema-título (que alguém de certeza já está por aí a cantar), pela dobragem cheia de referências específicas da época, e em grande parte improvisada por apenas uma mão-cheia de atores (aquilo a hoje se chamaria uma ‘gag dub’) ou simplesmente pelo fator ‘cool’ que emanava, as aventuras de Son Goku e amigos são, ainda hoje, uma das primeiras coisas que qualquer ‘90s kid’, sobretudo do sexo masculino, recordará quando chamado a relembrar a sua infância.

                   

Vá, cantem lá. Vocês sabem que querem.

E vocês? Qual a vossa melhor memória desta mítica série ‘anime’? Deixem as vossas recordações nos comentários!

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