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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

17.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 16 de Dezembro de 2025.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Já aqui em outra quadra natalícia falámos da iniciativa 'Querido Pai Natal', desenvolvida pelos CTT a partir dos anos 90, como forma de alimentar a fantasia das crianças portuguesas relativamente ao 'bom velhinho'; pois bem, já ao 'cair do pano' do século XX, a RTP levaria ainda mais longe esse conceito, transformando-o numa emissão televisiva em que uma parte da demografia em causa era surpreendida com o seu pedido de Natal em frente às câmaras.

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Com apresentação de Guilherme Leite (então em alta devido ao sucesso de 'Cromos de Portugal' e sobretudo o perene 'Malucos do Riso'), o programa homónimo da iniciativa (estreado há quase exactos vinte e cinco anos, a 14 de Dezembro de 2000) via o apresentador, uma equipa técnica e o Pai Natal (ou seja, um actor disfarçado) visitar diversas escolas de Norte a Sul do País, e distribuir entre os alunos das mesmas algumas das prendas mencionadas nas suas cartas para o Pólo Norte, para que as suas férias de Natal começassem da melhor maneira. Um conceito simples, mas perfeito para a época em causa (pleno como era de boas intenções e espírito natalício) e impossível de criticar com qualquer tipo de cinicismo - o que talvez explique a sua longevidade, já que o formato foi 'repescado' durante os sete natais seguintes, tendo desaparecido apenas após a quadra de 2007, por razões que não ficam claras com os poucos dados ainda disponíveis 'online' sobre o programa.

Ainda assim, quem quiser 'ver por si mesmo' do que constava o programa (ou simplesmente recordá-lo) pode fazê-lo mediante os três episódios ainda constantes dos Arquivos RTP, único vestígio mais 'tangível' da existência de uma emissão surpreendentemente Esquecida Pela Net, e intemporal o suficiente para poder perfeitamente ter tido continuidade nos anos subsequentes.

08.12.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em finais dos anos 80 e inícios dos 90, a televisão infantil portuguesa vivia um estado de graça, com uma série de excelentes produções dirigidas ao público mais jovem, quer na vertente mais dramática, quer a nível de concursos e programas de auditório, quer mesmo num formato mais 'híbrido', como no caso da icónica e lendária 'Rua Sésamo' – muitos deles com a participação de nomes de vulto no campo do entretenimento infantil, escrita, música, e mesmo pedagogia, dos dois 'Carlos Albertos' (Moniz e Vidal) a Alice Vieira, Ana Maria Magalhães (ambas as quais contribuíam para os 'bastidores' da referida 'Rua Sésamo') ou, como no caso a que se refere o presente 'post', José Jorge Letria. Não é, pois, de admirar que 'Os Contos do Mocho Sábio' retenha o mesmo nível de qualidade que tanto miúdos como graúdos já haviam aprendido a esperar de produções nacionais de cariz infanto-juvenil.

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O personagem titular, vivido por Francisco Cela.

Exibida ao longo de apenas uma semana há exactos trinta e três anos (entre 07 e 11 de Dezembro de 1992) 'Contos' é algo mais rudimentar do que a maioria das suas congéneres, apostando numa apresentação mais simples e minimalista (que 'esconde' parcialmente o baixo orçamento) e numa premissa mais próxima de uma peça de teatro do que de uma série com cenários ou enredos. De facto, cada episódio (cuja duração não excedia o quarto de hora) não requeria mais do que dois actores, um deles fixo (o próprio Mocho Sábio, 'vestido' por Francisco Cela) e o outro rotativo, responsável por interpretar a figura histórica ou folclórica que o personagem titular literalmente invocava, através das palavras mágicas 'Gatafunho, gafanhoto, sou direito e sou canhoto, venha de lá um herói, daqueles que eu já conheço, para ver se não me esqueço' (também parte da letra da música de abertura.)Era, assim, dado o mote para a chegada, literalmente por magia, de uma figura histórica (com letra minúscula) como Branca de Neve ou Pinóquio, ou Histórica (com maiúscula) como Marco Polo ou Cristóvão Colombo, com quem o Mocho conversava e trocava impressões, ajudando assim as crianças a conhecerem a sua história sem ter que recorrer a um reconto directo. Uma táctica engenhosa, que ajudava os pequenos espectadores a 'aprender a brincar', como os mesmos tanto gostam.

A ajudar a este desiderato estava um verdadeiro contingente de figuras de proa da televisão infantil nacional da época, como Alexandra Lencastre (então ainda conhecida como a Guiomar de 'Rua Sésamo') ou o referido Carlos Alberto Vidal, entre muitos outros, capazes de atrair quem já os conhecia de outros programas da altura, e de garantir uma alta fasquia no tocante à representação. Junte-se um tema com 'sabor' a Zeca Afonso ou Sérgio Godinho (mas cantado pelo próprio Francisco Cela, numa imitação quase perfeita deste último) e do qual muitos nem saberão que se lembravam até o ouvirem, e estavam reunidos os ingredientes para uma 'experiência' de sucesso para as férias de Natal de 1992.

Infelizmente, toda esta boa-vontade e preparação esbarrava num obstáculo de alguma monta: o fato do próprio Mocho Sábio, capaz de causar algum receio à maioria do público-alvo, pese embora a atitude e tom afáveis, quase paternalistas, que Cela imprimia à personagem. Talvez por isso (ou talvez por apenas ter passado na televisão durante uma única semana de um único ano) 'A Casa do Mocho Sábio' não tenha o mesmo nível de nostalgia associada do que a referida 'Rua Sésamo' ou o posterior 'O Jardim da Celeste'.

De referir que, segundo o Arquivo RTP, foram produzidos mais dois 'Contos do Mocho Sábio' posteriores a 1992: um logo no ano seguinte, em Junho, em que o Mocho Sábio conhecia o Patinho Feio, e outro na Primavera de 1995, em que o personagem interagia com uma rainha. Desconhece-se, infelizmente, a razão destes regressos não mais que 'esporádicos' à fórmula, que nunca chegou a ter uma segunda temporada; uma pena, já que (fatos 'arrepiantes' e baixos orçamentos à parte) se tratava de uma proposta válida e bem executada de entretenimento infantil, digna de ser celebrada exactos trinta e três anos após a sua estreia.

18.11.25

NOTA: Este 'post' é parcialmente correspondente a Segunda-feira, 17 de Novembro de 2025.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Qualquer português nascido ou crescido nas décadas de 80 e 90 recorda programas musicais de referência como 'Top +', ou até mesmo 'Pop Off' ou 'Mapa Cor de Rock', que ofereciam à juventude de então uma experiência o mais próxima possível do que era ver a MTV norte-americana antes da chegada da TV Cabo e de canais como o Sol Música, em meados dos anos 90. No entanto, enquanto esses programas se focavam em divulgar os mais entusiasmantes sucessos e artistas nacionais e internacionais da época, existia uma vertente paralela da TV musical, voltada a um público mais adulto, que punha na personalidade do anfitrião – normalmente um músico de renome – o principal foco, quase que se aproximando mais de um tradicional 'talk show' do que do conceito vulgarmente associado a um programa de música. Era assim com 'Marco Paulo Com Música No Coração', em finais da década, e era assim com um programa exibido na RTP2 vários anos antes (algures em 1994) e centrado numa figura não menos proeminente (embora de cariz menos popular) da música portuguesa: Luís Represas.

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Falamos de 'A Música dos Outros', formato apresentado pelo ex-Trovante e Resistência no auge da sua popularidade, mas que, apesar de ter chegado aos vinte e seis episódios (o equivalente a duas 'temporadas' de uma série, ou a seis meses de emissões semanais) se encontra hoje algo Esquecido Pela Net, sendo pouca e contraditória a informação disponível a respeito do programa. As poucas fontes fidedignas que sequer falam do mesmo sugerem que Luís Represas recebia uma série de convidados ligados às principais cenas musicais portuguesas (que incluía todos os 'suspeitos do costume') com os quais interpretava duetos ao vivo em estúdio, após conduzir a habitual entrevista.

Infelizmente, não é possível expandir mais sobre este tema, já que apenas resta na Internet um único 'clip' do programa, o qual apenas mostra Represas a interpretar uma música dos UHF, não dando qualquer pista quanto ao conteúdo da restante meia-hora de programa. Resta, pois, imaginar (ou recordar, para quem tenha presenciado as emissões em primeira mão) como seria este veículo televisivo para o cantor de 'Timor', e de que forma se encaixaria no panorama televisivo nacional de há mais de trinta anos...

               

O único vestígio do programa remanescente na Internet.

27.10.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na sua coluna no jornal Público, algures nos primeiros meses do Novo Milénio, Eduardo Cintra Torres – uma das mais proeminentes e preeminentes figuras no espectro da crítica e análise mediática em Portugal – acusava os telespectadores portugueses de não conseguirem 'acompanhar uma boa série, mesmo divertida e electrizante', 'preferindo ver as telenovelas e outros programas' como 'as Noites Marcianas e o Big Brother', rematando com um acintoso 'que façam bom proveito'. A série que tanta bílis desencadeava ao catedrático e colunista, acabada de estrear na RTP2 (há quase exactos vinte e cinco anos, a 16 de Outubro de 2000, dois dias após a estreia na SIC da primeia série d' 'Uma Aventura') e que vivenciava enormes dificuldades para encontrar o 'seu' público e replicar o sucesso obtido nos seus EUA natais, era tão-sómente uma série de culto, que alguns dos nossos leitores talvez conheçam, chamada 'Os Sopranos'.

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Sim, antes de ser unanimemente considerada uma das melhores produções televisivas de sempre, 'Os Sopranos' passava de forma discreta, quase desapercebida, pela televisão generalista e estatal portuguesa, no caso pela mão da inevitável RTP2, a televisão que já era 'culta e adulta' antes de o assumir no seu 'slogan', e que já começava a ser conhecida (como ainda o é) por 'importar' e exibir séries algo mais 'fora da caixa' que o habitual, e mais densas no tocante ao conteúdo. O êxito da HBO encaixava, pois, na perfeição na linha editorial do canal; o problema é que, como televisão mais intelectual e 'de culto', a RTP2 sofria, por definição, de um défice de audiências relativamente aos outros canais nacionais, ficando a visibilidade do novo programa assim automaticamente reduzida - um paradigma ainda mais agravado pela falta de promoção ao mesmo por parte do próprio canal. E embora seja discutível se 'Os Sopranos' teria singrado na grelha de uma SIC ou TVI (muiro superiores, no campo do 'marketing' e publicidade, à televisão estatal) é ainda assim impossível contornar o facto de que quase ninguém, à época, estava a ver a série, pura e simplesmente, porque quase ninguém, à época via a RTP2, por comparação com os canais concorrentes.

Curiosamente, um mesmo fenómeno viria a ocorrer, anos depois, com uma outra série hoje elevada a obra-prima – no caso, 'Breaking Bad', que passou totalmente despercebida na SIC Radical de inícios dos anos 2000 (algo que parecia impossível para aquele canal naquela época), perdendo assim os jovens portugueses uma oportunidade de dizer que haviam visto a nova 'coqueluche' mundial vários anos antes de a mesma 'estourar' – situação análoga à vivida em relação a 'Os Sopranos' aquando da sua transmissão na 'Dois'. E apesar de ambas as séries virem a ser 'vingadas' junto da opinião pública portuguesa, anos mais tarde, a verdade é que poucos serão os 'X' e 'millennials' nacionais que se lembrem de ter acompanhado os 'primórdios' de Tony Soprano e restante família em emissão 'aberta', no primeiro Inverno do século XXI, num dos mais flagrantes casos de um programa estar 'à frente do seu tempo' já vividos na televisão portuguesa.

22.07.25

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

No tocante a programas de música e telediscos no Portugal dos anos 90, a referência imediata (e praticamente única) para a maioria dos 'millennials' nacionais será o icónico 'Top +', o mais próximo a que a televisão lusa da altura chegava do estilo de programação de uma MTV, cuja reputação atravessava, à época, o oceano, fazendo muitos jovens sonhar com algo equivalente mas falado e criado em Português. No entanto, nessa mesma época, a própria RTP veiculava um segundo magazine sobre música, hoje mais esquecido, mas que, à época, representou uma importante mudança de paradigma na grelha audiovisual do Portugal pré-SIC e TVI.

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Tratava-se do 'Pop-Off', da autoria de José de Freitas, à época figura de proa nos esforços de representação do 'pop-rock' português nos 'media', e que decidia, com este formato, deitar ele próprio 'mãos à obra'. Não é, pois, de estranhar que este programa se destaque do 'irmão' do 'Canal 1' pelo seu foco exclusivo na cena portuguesa, à época num dos seus muitos períodos de florescimento. As habituais bandas internacionais que dominavam os 'tops' (incluindo o '+') eram, assim, substituídas tanto por 'suspeitos do costume' como Xutos & Pontapés, Delfins, GNR, Resistência ou Madredeus como por novas sensações do movimento, como LX-90 ou Sitiados. Eram, no total, cerca de vinte e cinco minutos diários dedicados a telediscos, reportagens e notícias sobre música portuguesa, com a apresentadora Sofia Morais a servir de elo de ligação entre os diferentes segmentos que perfaziam o programa.

Um formato que tinha tudo para agradar ao público-alvo e que, sem surpresas, viria a reter um lugar na grelha de programação do 'Canal Dois' durante dois anos - período que até parece pouco, tendo em conta a relevância da temática e a excelente execução técnica do programa, sobretudo se se tiver em conta a duração substancialmente mais considerável do contemporâneo dedicado aos 'tops' internacionais. O curto ciclo de vida não impediu, no entanto, que 'Pop-Off' conquistasse um lugar tanto no coração dos melómanos da época como na própria história dos programas musicais na televisão portuguesa, tornando praticamente obrigatórias estas poucas linhas a ele dedicadas neste nosso 'blog' dedicado, precisamente, a recordar esses e outros aspectos da sociedade portuguesa de outros tempos.

 

 

 

 

 

17.06.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 16 de Junho de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de se encontrar ainda em estado extremamente embrionário relativamente a mercados como os Estados Unidos ou a Inglaterra, a produção televisiva portuguesa atravessava, nos anos 80 e 90, um período de expansão, não só no tocante a séries de acção real, como também a animações ou projectos mais experimentais, abstractos ou diferentes. E depois de já aqui termos abordado vários exemplos das duas primeiras categorias, chega agora a altura de falarmos de uma série que se enquadra na última, destacando-se vincadamente da restante produção da época e, por esse meio, tornando-se memorável.

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Falamos de 'No Tempo dos Afonsinhos', série educativa que, como o próprio nome indica, pretendia oferecer uma versão ficcionalizada e 'artística' da vida quotidiana dos portugueses primitivos (os Afonsinhos do título) nos castros onde residiam; no fundo, uma espécie de 'Astérix à portuguesa', mas com menor ênfase nos elementos fantásticos e maior preocupação com a veracidade histórica, ainda que com as devidas e compreensíveis 'licenças artísticas' destinadas a captar a atenção do público-alvo. Ainda assim, e mesmo com estes elementos ficcionalizados, a série não deixava de retratar verdadeiras ocupações dos castrenses, como a olaria ou o fabrico artesanal do pão.

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Para além desta abordagem diferenciada, 'No Tempo dos Afonsinhos' destacava-se, ainda, pelo uso exclusivo de marionetas para criar e retratar os seus personagens e histórias – um método que já não era novidade para as crianças portuguesas na fase pós-'Rua Sésamo', mas que, aqui, é utilizada de forma talvez até mais extensa do que no supracitado programa, constituindo meio único de veicular as aventuras dos Afonsinhos, eles mesmos inspirados nos tradicionais 'cabeçudos' presentes em festas populares, e nos personagens de cerâmica típicos do Norte português. E ainda que esta escolha visual não seja para todos – lá por casa, por exemplo, evitava-se activamente esta série – o mesmo não deixa, ainda assim, de ser original o suficiente para se tornar memorável, e trazer lembranças tão logo se veja mencionado o título do programa.

Apesar da sua curta duração, a série produzida pela RTP-Porto em 1993 fez, pois, durante os seus poucos meses no ar, o suficiente para 'cravar' um lugar na memória remota das gerações 'X' e 'Millennial' portuguesas, e deixar na mesma imagens e recordações, sejam mais ou menos positivas. Para quem quiser reviver algumas dessas memórias, aqui fica o link para uma playlist do YouTube com alguns episódios.

14.10.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

De entre as muitas salas de espectáculos e bares da noite lisboeta, o Rock Rendez-Vous foi, a par do Johnny Guitar, uma das mais históricas e influentes, e continua até hoje a ser das que mais memórias e nostalgia despertam entre os portugueses de uma certa idade e com gosto pela música. E ainda que os muitos concertos ali realizados tenham uma palavra a dizer no tocante a esse estatuto, é inegável que grande parte do mesmo se devia ao histórico Concurso de Música Moderna, tão sinónimo com o espaço que muitas vezes se confunde com o mesmo, naquilo a que hoje se chama um 'efeito Mandela'.

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O livre-trânsito de uma das bandas a concurso, os Gritos Oleosos.

De facto, foi o referido concurso - realizado consecutivamente entre 1984 e 1989 – que deu a conhecer grupos como os Mler Ife Dada (vencedores da primeira edição), Ritual Tejo e Sitiados, todos os quais tiveram oportunidade de gravar para a Dansa do Som, a editora ligada ao concurso e ao próprio Rock Rendez-Vous em si. Assim, não é de estranhar que, cinco anos após a última edição anual, a competição tenha sido 'revivida' a título esporádico, e proporcionado uma despedida 'em alta' para um dos grandes eventos musicais do Portugal oitentista. Isto porque o sétimo e último Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous - levado a cabo há quase exactos trinta anos, a 16 de Outubro de 1994 - teve honras de transmissão na RTP, um facto que demonstra bem a importância cultural e mediatismo que o evento havia adquirido desde a sua criação, dez anos antes.

Curiosamente, esta última edição do concurso manteve a tendência, verificada na esmagadora maioria dos seus antecessores, de atribuir a vitória a bandas que acabariam por nunca singrar, pese embora o disco lançado como prémio pela classificação no concurso. Para a História, nesta 'reencarnação' do evento, ficavam Drowning Men (mais tarde Geração X, e depois Os Vultos), Jardim Letal e Neura, nenhum dos quais é hoje lembrado ou conhecido pela esmagadora maioria da população nacional, até mesmo a que era já viva à época. O único nome 'sonante' desta edição de 1994 seria, assim, o dos Ornatos Violeta, que levavam para casa o último Prémio de Originalidade alguma vez atribuído pelo Rock Rendez-Vous, saindo assim como nome destacado da última edição de um certame histórico do panorama musical português.

A extinção do Concurso de Música Moderna não significaria, no entanto, o fim do nome Rock Rendez-Vous, o qual seria 'repescado', já no Novo Milénio, para título de uma compilação de novos talentos lançada pela Worten, em homenagem às edições do mesmo tipo que a Dansa do Som fazia sair durante o seu período áureo. E apesar de o local em si, bem como o nome, terem entretanto voltado a mergulhar nas 'brumas' da memória, haverá sempre uma certa faixa etária de portugueses para quem aquelas três palavras meio 'estrangeiradas', e o concurso que lhes estava associado, serão, eternamente, sinónimas com o melhor que se fazia, e fez, no meio pop-rock e alternativo em Portugal.

07.10.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na passada edição desta rubrica, falámos de 'Zás Trás', uma das muitas produções portuguesas da década de 90 a procurar emular o sucesso da icónica 'Rua Sésamo' com recurso a uma fórmula muito semelhante, centrada no 'edutenimento' veiculado através de segmentos que combinavam fantoches e marionetas com acção real. No entanto, de todas as referidas séries (e foram várias) apenas uma logrou aproximar-se da popularidade e notabilidade da original, ainda que ficando mesmo assim a uma certa distância: o 'Jardim da Celeste'.

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Surgida pela primeira vez nos ecrãs portugueses algures em 1997, no bloco infantil da RTP1, a série produzida, tal como a antecessora, pela RTP centrava-se na titular Celeste, interpretada por Ana Brito e Cunha, uma educadora que viajava por todo o País numa carrinha mágica (embora não a da série homónima) acompanhada pelo seu cão, Sócrates, e interagia tanto com os fantoches seus 'alunos' como com crianças reais, exactamente como sucedia com as personagens humanas de 'Rua Sésamo'. A demografia-alvo era, também, claramente a mesma – crianças em idade pré-escolar – embora esta série não tivesse o 'apelo universal' da antecessora, sendo pouco provável que tenha conquistado muitos fãs fora desse espectro etário. Por comparação com a antecessora, 'Jardim da Celeste' tão pouco deu origem ao mesmo volume de 'merchandising' e produtos relacionados ou complementares (não chegaria, por exemplo, a haver uma revista alusiva a esta série) embora tenha chegado a ser editada em vídeo ainda durante a sua transmissão original.

Ainda assim, para quem foi criança no momento certo para dela desfrutar, tratou-se de uma série de qualidade e que terá, sem dúvida, deixado tão boas memórias quanto 'Rua Sésamo' criara aos (ligeiramente) mais velhos, enquanto a sua frequente repetição nos diversos canais da RTP a terá, sem dúvida, ajudado a encontrar novos fãs desde então. Razões mais que suficientes para lhe dedicarmos um espaço próprio neste nosso 'blog' dedicado a tudo o que de melhor teve a década de 90.

23.09.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma análise, mesmo que superficial, à televisão infanto-juvenil portuguesa de inícios dos anos 90 revela uma 'era de ouro' não só no tocante à importação de materiais estrangeiros de grande qualidade (vários dos quais já aqui abordámos) mas mesmo à própria produção nacional, a qual se 'aventurava' com enorme sucesso por uma série de formatos, que iam de programas como 'A Hora do Lecas', 'Os Segredos do Mimix', 'Clube Disney' ou 'Oh! Hanna-Barbera' a concursos como 'Arca de Noé', 'Tal Pai, Tal Filho' e 'Vitaminas', vídeos musicais como os do Vitinho e, claro, séries, com a icónica 'Rua Sésamo' à cabeça. Poupas, Ferrão e companhia não eram, no entanto, os únicos personagens cem por cento nacionais a procurar conquistar o coração das crianças da época – a RTP da era pré-concorrência privada (ou seja, monopolista do tempo de antena) abria também espaço para conteúdos como 'A Maravilhosa Viagem Às Ilhas Encantadas', 'Histórias de Corpo Inteiro', ou a série que abordamos nesta Segunda, 'Zás Trás'.

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Da autoria de Isabel Cerqueira e Teresa Messias, e realizada por Alexandre Montenegro (nome bastante requisitado à época) 'Zás Trás' estreava na televisão estatal há quase exactos trinta e três anos (em Setembro de 1991) e desde logo se posicionava como 'alternativa' à hegemonia da incontornável 'Rua Sésamo', apresentando um formato muito semelhante - centrado em 'sketches' protagonizados por um núcleo central de personagens representados por marionetes em cenários reais – e até um tema de abertura capaz de rivalizar com o da referida série, e que é, sem dúvida, o seu elemento mais destacado e memorável.

No entanto, tal como a série sobre higiene oral acima referida (com a qual chegou a partilhar tempo de antena em finais de 1991), 'Zás Trás' nem sequer chegaria a fazer 'cócegas' aos habitantes da Rua mais famosa da televisão portuguesa, tendo a sua passagem pela RTP sido discreta, e – ao contrário da 'concorrente' - deixado poucas memórias ao público-alvo da época, com excepção do 'contagioso' tema título e de um personagem com papel proeminente que, embora aceitável na altura como caricatura animada, seria hoje considerado problemático e até ofensivo para a população asiática. Tal como os 'designs' algo 'uncanny' de 'Histórias de Corpo Inteiro', este aspecto talvez tenha tido influência no desempenho da série a longo-prazo – ou, talvez, 'Zás Trás' apenas não fosse tão memorável como 'Rua Sésamo', com ou sem caricaturas obsoletas entre o seu núcleo central.

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Um dos personagens centrais é...digamos, problemático.

Apesar de hoje algo Esquecido Pela Net (e por aquele que foi o seu público) 'Zás Trás', e o respectivo Especial de Natal (realizado em 1992) não deixaram de ser, já no Novo Milénio, 'repescados' para a grelha programática primeiro da RTP2 e, mais tarde, também para a da RTP Memória. As alterações na cultura popular e estrutura social do Mundo ocidental desde então fazem, no entanto, prever que essa tenha sido a última aparição de 'Zás Trás' nos écrãs portugueses, estando a série destinada a ser votada ao esquecimento a breve trecho. Quem quiser ajudar a evitar esse fado (ou simplesmente deseje recordar a série mais de três décadas depois) pode, no entanto, assistir a todos os episódios no Arquivo RTP. Para quem optar por o fazer, no entanto, fica a ressalva – o tema-título continua tão cativante como sempre, e capaz de ficar no cérebro durante semanas após uma única audição...

 

25.06.24

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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As transmissões de jogos de futebol têm, tradicionalmente e consistentemente, estado entre os segmentos com maior 'share' de audiências da televisão em sinal aberto em Portugal. Mesmo depois do advento da Sport TV (e, mais tarde, de redes como a Eleven Sports ou dos canais privados de cada clube) os jogos exibidos na RTP, SIC e TVI não deixam de atrair números invulgares de público para cada uma dessas estações, o que se afirma como natural num país com tanto gosto e apetência pelo desporto-rei como é o nosso. Ainda assim, situações em que a emissora depende activamente do futebol para sair de uma crise de audiências não deixam de constituir casos extremos, tanto em Portugal como um pouco por todo o Mundo; e, no entanto, era precisamente esse o contexto em que a RTP se encontrava nos primeiros meses da viragem do Milénio, e que levou a emissora estatal a empregar medidas drásticas nesse Verão, aquando da realização do Campeonato Europeu de Futebol.

Isto porque, como detentora de acções na Sport TV, a RTP dividiria, normalmente, o 'pacote' de direitos de transmissão dos jogos com a emissora privada, exibindo apenas partidas selectas em sinal aberto, numa práctica que se mantém até aos dias de hoje; no caso do Euro 2000, no entanto, tal partilha não teve lugar, tendo a RTP retido os direitos de todas as vinte e sete partidas - de um total de trinta e uma - que logrou conseguir transmitir (as restantes quatro viriam a ser exibidas no 'outro' canal de desporto da TV Cabo da época, o Eurosport, que mostraria também algumas das partidas da RTP em diferido, numa emissão que dedicava vinte e quatro horas diárias à competição), obrigando a Sport TV a transmitir apenas debates sobre os jogos da competição, nos horários em que normalmente os estaria a exibir. Tais acções deviam-se à crise de resultados que a emissora estatal atravessava por comparação às rivais privadas, sendo que apenas o futebol conseguia equiparar a estação da 5 de Outubro às de Carnaxide ou Queluz.

Quando somada a uma série de 'picardias' entre o canal público e o seu 'sócio' privado – com a Sport TV a negar à RTP direitos de transmissão em directo dos jogos do FC Porto na Liga dos Campeões do ano transacto (obrigando a que os mesmos fossem exibidos em diferido, com uma hora de atraso), e a emissora estatal a 'vingar-se' bloqueando, no último momento, o acesso do canal codificado ao particular Portugal-Itália – esta atitude tornou inviável qualquer colaboração futura entre os dois canais, tendo a Sport TV procurado associar-se à SIC no tocante à partilha de direitos televisivos de eventos de desporto, iniciada com a transmissão conjunta do Open do Estoril em Ténis. Já a RTP beneficiria mesmo do 'choque na veia' proporcionado por um dos melhores Euros de sempre, ao qual se seguiram, quase de imediato, os Jogos Olímpicos de Sydney, também cobertos na quase totalidade pela emissora estatal. Um Verão de sucesso para as 'duas' RTPs, portanto - muito por conta daquilo a que a imprensa da época chegou a chamar uma 'overdose' de desporto – mas que, ao mesmo tempo, mudaria para sempre o paradigma e estrutura de partilhas e alianças para a transmissão de eventos desportivos em Portugal, numa alteração cujos efeitos se continuam a fazer sentir até aos dias de hoje, e que parece dar razão à máxima que diz que 'nunca é apenas futebol'...

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