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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

24.02.26

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

O início dos anos 2000, e respectiva chegada da geração 'millennial' ao fim da adolescência, representou o primeiro momento em que, na História do Portugal pós-ditatorial, toda uma demografia teve acesso facilitado ao ensino superior, dependendo apenas de si mesma para, por mérito académico, assegurar um dos lugares de entrada no seu curso de eleição. De facto, apenas em inícios da década anterior, era ainda muito difícil à maioria da população atingir, ou mesmo almejar atingir, este nível de educação, resultando numa tapeçaria profissional menos qualificada e, por consequência, pior paga. Era, por isso, totalmente de louvar a iniciativa da RTP, que, inspirada por programas já existentes em outros países, inseria na grelha da 'culta e adulta' RTP2 um programa que visava, precisamente, servir como 'tele-aula' para aspirantes a um curso universitário, bem como para aqueles que não tinham meios conducentes a algo deste tipo. É a essa rubrica, estreada há quase exactos trinta e seis anos, que dedicamos as próximas linhas.

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Transmitida pela primeira vez a 17 de Fevereiro de 1990, a 'Universidade Aberta' foi transmitida em diversos horários, primeiro logo após a abertura 'oficial' da emissão (da responsabilidade de Vera Roquette e patrocinada pela Frisumo), e, mais tarde, antes do lendário 'Hugo', ao início do serão. Qualquer que fosse o horário, no entanto, o segmento era, mais do que um programa, uma verdadeira aula do ensino superior, ministrada por docentes vinculados à homónima instituição de ensino à distância, fundada no ano anterior; quem estivesse interessado podia, assim, obter conhecimentos na área em foco apenas por sintonizar o programa, num método então inovador e praticamente inaudito, mas quase pitoresco na presente era hiper-digital. Ainda assim, este protocolo ajudaria a Universidade Aberta a estabelecer-se como instituição de referência para o ensino remoto a nível mundial, título que lhe foi oficialmente outorgado pela União Europeia em 2008. Antes disso, em 1995, a 'alma mater' em causa havia já atraído atenções por ter sido o primeiro estabelecimento de ensino superior em Portugal a introduzir um curso de Estudos Femininos, num gesto incrivelmente progressista para a época em causa.

Quanto ao programa da RTP, o mesmo voltaria a ser transmitido a partir da década de 2010, agora com um formato mais voltado para o debate sobre assuntos ligados ao ensino superior, por oposição ao modelo pedagógico da emissão original, o qual transitou, de forma natual, para a Internet. Quem viveu aquele tempo à vez tão próximo e tão longínquo recordará certamente, no entanto, o formato então veiculado diariamente, e que talvez tenha até motivado algum dos seus familiares ou amigos a procurar 'cultivar-se' e a almejar completar, ainda que à distância, o tão cobiçado curso superior...

 

 

 

 

10.02.26

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 09 de Fevereiro de 2026.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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A juntar à excelente produção nacional da época – uma das melhores no que ao audiovisual português diz respeito – a televisão portuguesa dos anos 90 tinha também como prática corrente a importação de programas de sucesso no estrangeiro, tanto sob a forma de adaptações ou localizações nacionais como directamente da 'fonte', sem quaisquer alterações ou mesmo dobragem. Foi assim, por exemplo, que muitos jovens lusitanos das gerações 'X' e 'millennial' tiveram pela primeira vez contacto com muitas 'britcoms', bem como com programas icónicos da televisão de outros países, como 'Top of the Pops' ou 'Candid Camera', com Dom DeLuise. que inspiraria as posteriores tentativas nacionais de criar programas de 'apanhados'.

Outro exemplo desta mesma tendência surgia na então ainda única emissora nacional, algures em Fevereiro de 1991, e fazia de imediato as delícias dos fãs de rock progressivo, um estilo então já em declínio mas que encontrava, ainda, alguma repercussão em Portugal naqueles inícios dos 'noventa'. Tratava-se de 'Gas Tank' (traduzido como 'A Todo O Gás') um conceito dividido em seis episódios e que via dois dos mais conceituados músicos ingleses do género – os teclistas Rick Wakeman (dos lendários Yes) e John Ashton – convidarem para estúdio algumas das outras 'luminárias' do género, cada uma das quais, após a tradicional entrevista, se juntava aos anfitriões e à banda residente numa 'jam session' bem típica da cena 'prog'.

Uma proposta simples, mas sem dúvida apelativa para fãs de progressivo – mesmo tendo em conta que, aquando da sua chegada a Portugal, o programa tinha já cerca de sete anos, tendo sido originalmente transmitido em Inglaterra em 1983. Assim, é provável que os principais espectadores do formato durante a sua breve 'estadia' nas ondas portuguesas tenham sido, não as gerações então mais novas, mas os seus pais, os quais haviam, efectivamente, crescido a ouvir este tipo de música 'em tempo real' e, como tal, talvez identificassem melhor os músicos envolvidos em cada episódio.

Ainda assim, para quem se interessava por música e gostava de descobrir novos nomes, 'A Todo O Gás' podia, ainda assim, constituir uma ferramenta didáctica de algum valor, dado o seu foco num género e 'cena' em particular, e a sucessão de nomes ligados ao mesmo que 'visitavam' Wakeman e Ashton. E se, à distância de trinta e cinco anos, o programa se encontra praticamente apagado da memória colectiva nacional, terá, ainda assim, havido quem, durante um mês e meio em finais do Inverno de 1991, se tivesse 'colado' semanalmente à televisão para acompanhar esta original mistura audiovisual e, através dela, ficar a conhecer mais uns quantos candidatos a 'novo artista favorito'...

02.02.26

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Se houve género em que a televisão nacional dos anos 80, 90 e 2000 foi pródiga e floresceu, foi na programação dirigida às crianças. Fosse em segmentos como o Vitinho ou os Patinhos, concursos como 'Hugo', 'Arca de Noé' e 'Tal Pai, Tal Filho', animações como 'A Maravilhosa Viagem Às Ilhas Encantadas', programas como o Brinca Brincando, Clube Disney, Oh! Hanna Barbera, Vitaminas, Buereré, A Hora do LecasCirco Alegria, Batatoon, Um-Dó-Li-Tá e A Casa do Tio Carlos, séries educativas como o 'Zás Trás', 'Jardim da Celeste', 'No Tempo dos Afonsinhos', 'Os Contos do Mocho Sábio' ou a incontornável 'Rua Sésamo', ou outras mais tradicionais como 'Riscos', 'Uma Aventura', 'As Lições do Tonecas' ou 'Super Pai' (sem falar, claro, nos posteriores e igualmente incontornáveis 'Morangos Com Açúcar'), era raro o produto audiovisual infanto-juvenil produzido em Portugal que não encontrava o seu público. No entanto, tal como em tudo, existem excepções a esta regra – séries que, apesar de bem conseguidas e bem-sucedidas no imediato, ficaram (por uma razão ou outra) menos presentes na consciência colectiva das gerações então menores de idade; é, precisamente, sobre uma delas – estreada há exactos trinta e cinco anos, a 02 de Fevereiro de 1991 – que versam as próximas linhas.

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Antes mesmo de passar ao resumo, no entanto, há que louvar 'Quem Manda Sou Eu' como produto vanguardista, bem à frente do seu tempo no tocante à comunicação de assuntos importantes aos jovens. Isto porque a série não só dá aos seus protagonistas adolescentes (desempenhados por dois verdadeiros irmãos) agência na gestão do seu lar, como também ousa fazer da progenitora dos mesmos uma figura irresponsável, com problemas de alcoolismo, e dar a um dos irmãos uma personalidade boémia, em contraste com o da irmã, mais inteligente, engajada e responsável. A somar a isto tudo há ainda o facto de os pais dos dois jovens se encontrarem amigavelmente divorciados (tema, aliás, central à premissa da série) e activamente em busca de ligações românticas, não se coibindo a série de mostrar os efeitos deste paradigma, e de um lar dividido, na vida quotidiana e desenvolvimento psicológico dos dois jovens – um risco louvável e inusitado para uma série infanto-juvenil, especialmente em inícios da década de 90.

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Os protagonistas da série.

Pena que, talvez por isso, estes conceitos nunca sejam totalmente explorados, ficando a trama de cada episódio (e o cariz da série como um todo) mais próxima das 'sitcoms' com protagonistas jovens que então grassavam na televisão norte-americana, e onde temas sérios eram aflorados de forma igualmente superficial e passageira; uma pena, já que, tivesse arriscado um pouco mais, 'Quem Manda Sou Eu' poderia ter sido uma das pioneiras do género do drama juvenil, mais de meia década antes de 'Riscos' ter, mesmo, ousado adoptar esse ângulo. Tal como existiu, no entanto, trata-se de uma série divertida, merecedora de recordação à data deste seu aniversário marcante, mas que fica aquém do potencial que a premissa indicava, acabando por ser algo 'descartável' e por se encontrar algo esquecida pela consciência nostálgica daquele que foi o seu público-alvo.

19.01.26

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quis o destino que, num curioso acaso, a primeira semana do ano visse estrearem no mesmo canal nacional – a RTP 1 – com distância de exactos cinco anos, duas séries com o Alentejo como pano de fundo. A primeira era 'Alentejo Sem Lei', de 1991, um 'western spaghetti' à portuguesa (portanto, 'western açorda', como lhe chamou José Diogo Quintela no famoso segmento) com pretensões históricas, mas que sucumbia aos parcos recursos técnicos; a segunda, que trazia um registo mais sério e contemporâneo, era a telenovela portuguesa 'Roseira Brava', estreada há quase exactos trinta anos, e que abordaremos nas próximas linhas.

Gravada durante um período de cinco meses (entre Fevereiro e Julho) numa verdadeira aldeia alentejana (bem como nos estúdios da Nicolau Breyner Produções, em Vialonga) 'Roseira Brava' foi submetida a um atraso que a veria estrear apenas no ano seguinte, mesmo a tempo de competir com 'Explode Coração', na rival SIC. E se bem a produção nacional tenha (talvez inevitavelmente) perdido a 'guerra' de audiências para a congénere 'canarinha', o certo é que 'Roseira Brava' teve, ainda assim, um bom desempenho, conseguindo cativar números suficientes de audiência para justificar e cimentar a aposta da RTP em telenovelas de produção nacional.

E o facto é que, concorrência directa à parte, a produção em causa não tinha como não 'dar certo'; afinal, marcavam presença nas suas fileiras todos os 'suspeitos do costume' da televisão portuguesa da época – de Rogério Samora a Canto e Castro, José Raposo, Luís Esparteiro, Margarida Carpinteiro, Nuno Homem de Sá, Rita Salema, Virgílio Castelo, José Martinho e mesmo Simone de Oliveira, na sua estreia no mundo das telenovelas – os quais ajudavam a dar alguma dignidade ao habitual enredo cheio de reviravoltas, drama e relações interpessoais complexas e problemáticas, bem típico do género em causa. No total, foram cento e trinta episódios (os quais, curiosamente, demoraram praticamente tanto tempo a exibir como a filmar, tendo a rodagem tido lugar de Fevereiro a Julho de 1995 e a novela em si sido exibida de Janeiro a Junho do ano seguinte) que cimentavam a validade da RTP como produtora de telenovelas portuguesas naqueles anos anteriores à eventual hegemonia da TVI nesse capítulo, e que, como tal, merecem bem ser recordados neste espaço, cerca de dez dias depois de se terem celebrado os trinta anos sobre a sua estreia em televisão.

O primeiro episódio da novela, exibido a 08 de Janeiro de 1996

 

06.01.26

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 05 de Janeiro de 2026.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Com a excepção de algumas séries e programas de comédia, o objectivo declarado de qualquer empreitada criativa passa por ser levado a sério. No entanto, ainda que se possa dizer que essa seja a norma, existem, ainda assim, exemplos de filmes, séries de televisão, obras literárias, videojogos e até mesmo discos que, não se inserindo no contexto da paródia ou sátira, acabam ainda assim por ser mais conhecidos como alvo da mesma do que como criações com mérito próprio. Na televisão portuguesa, um dos mais famosos exemplos desse paradigma é (ou foi) uma série estreada há exactos trinta e cinco anos, que se pretendia totalmente séria e até historicamente relevante, mas cuja fama (ou infâmia) surgiria mais de uma década e meia depois, como resultado de um 'sketch' humorístico.

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Falamos de 'Alentejo Sem Lei', a hoje mítica mini-série em três episódios transmitida pela RTP entre 05 e 07 de Janeiro de 1991, e para a qual a melhor descrição talvez seja mesmo a de José Diogo Quintela, que lhe chamou 'western-açorda' – ou seja, uma versão 'à portuguesa' dos famosos 'western-spaghetti' produzidos em Itália nos anos 60 e 70, por realizadores como Sergio Leone. De facto, tanto o título como a ambientação (nas planícies alentejanas, o equivalente nacional aos planaltos do Velho Oeste, e no rescaldo da Guerra Civil de 1834, a versão lusitana para a famosa Guerra da Secessão norte-americana), as indumentárias dos personagens (com capotes, camisas brancas, lenços e chapéus de abas) e até o enredo parecem sugerir a vontade de fazer uma história de 'cowboys' à portuguesa; no entanto, e apesar do elenco recheado de grandes nomes da TV lusitana da época (de Rita Blanco e Canto e Castro a António Feio, Guilherme Leite, Rogério Samora, Vítor Norte – a 'milhas' do afável marceneiro André de 'Rua Sésamo', que ainda interpretava à época - Maria Vieira ou mesmo Herman José, num raro papel mais sério) e da banda sonora assinada pelo actual candidato presidencial Manuel João Vieira (dos icónicos Ena Pá 2000) em modo 'Enio Morrico-mpadre', os parcos meios técnicos e direcção de actores fazem com que o resultado final se assemelhe mais a uma 'coboiada'.

Chegamos assim, inevitavelmente, à razão para os 'quinze minutos de fama' de 'Alentejo Sem Lei' entre a maioria dos portugueses na casa dos trinta a quarenta anos, e à qual temos vindo a aludir ao longo deste texto: o 'sketch' dos lendários 'Gato Fedorento' que conferia à série o estatuto de 'Tesourinho Deprimente', e que a terá posto no 'radar' de muito boa gente, a quem a transmissão do próprio material de base talvez tenha passado despercebido. E a verdade é que, apesar da admirável ambição do realizador João Canijo, 'Alentejo Sem Lei' se presta mesmo a esse tipo de crítica, dadas as suas inúmeras falhas a nível técnico (inexplicáveis e inadmissíveis numa série da própria RTP) e aspirações 'acima do seu posto'.

Ainda assim, e como reza o ditado, 'qualquer publicidade é positiva', e é facto inegável que o trabalho de José Diogo Quintela e seus comparsas ajudou mesmo a conferir uma 'segunda vida' a uma série que, de outro modo, talvez tivesse sido Esquecida Pela Net, mas que, em vez disso, se encontra em posição de ser homenageada por ocasião do trigésimo-quinto aniversário da sua estreia - um caso que vem dar razão a ainda outros dois ditados da língua Portuguesa, nomeadamente, os que dizem que 'Deus escreve direito por linhas tortas' e que 'mais vale tarde do que nunca'. Para quem, nos entrementes, quiser tirar as suas próprias conclusões a respeito da série, deixamos abaixo o 'link' para um vídeo que edita os três episódios para formar um filme de duas hors e meia – além, claro está, do 'sketch' que garantiria à obra de João Canijo um lugar permanente na cultura 'pop' e de 'memes' portuguesa...

24.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 23 de Dezembro de 2025.

NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Terça será de TV.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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Uma das coisas com que os portugueses aprenderam a contar ao longo dos Natais dos últimos trinta a quarenta anos é com o aparecimento, nos quatro canais, de produções especialmente criadas para servir de complemento aos tradicionais filmes de família, Sequim D'Ouro, Natal dos Hospitais e circo de Monte Carlo; e, apesar de ainda hoje se verificar, é inegável que esta tendência teve o seu auge no 'período de ouro' da televisão portuguesa, entre os anos 80 e 2000, período em que nasceram muitos dos melhores 'especiais de Natal' (e também de Ano Novo) da História do audiovisual nacional. Um desses programas - sobre o qual se completam exactos trinta e cinco anos à data original de criação deste 'post' - foi imaginado e apresentado por um ícone da televisão portuguesa, o incomparável Júlio Isidro, como forma de prestar homenagem à quadra através de um dos seus mais emblemáticos elementos - a música.

Transmitido pela RTP 1 a 23 de Dezembro de 1990, 'Cantar o Natal' oferece precisamente aquilo a que o título alude - uma série de números musicais com temática natalícia, interpretados por alguns convidados musicais de 'monta' como Vitorino e Dulce Pontes, unidos por segmentos de entrevista a estes e outros convidados, numa tentativa de recriar e reviver a noite de consoada de 1960 (então distante no tempo exactas três décadas), que servia de linha narrativa ao especial. O resultado era um programa 'ameno' e confortável, bem ao estilo não só de Isidro como da produção nacional da época em geral, perfeita para servir de 'ruído de fundo' a uma noite de Terça-feira em plenas férias do Natal.

No entanto, talvez este cariz declaradamente virado para o conforto do espectador tenha contribuído para que este especial fosse, em décadas posteriores, algo Esquecido Pela Net, já que o mesmo não rendia quaisquer momentos memoráveis, daqueles em que Herman José (por exemplo) era 'perito' nos seus especiais de Ano Novo. Ainda assim, na data em que se assinalam exactas três décadas e meia sobre a sua ida ao ar, vale bem a pena recordar um especial de cariz único no panorama televisivo nacional, e que terá decerto entretido um sem-número de pequenos 'X' e 'millennials' nacionais - ainda que os mesmos pouco ou nada o recordem; para quem desejar rectificar esse erro, o programa encontra-se disponível, em duas partes, nos arquivos da RTP, pronto a ser recordado por ocasião desta data marcante.

17.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 16 de Dezembro de 2025.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Já aqui em outra quadra natalícia falámos da iniciativa 'Querido Pai Natal', desenvolvida pelos CTT a partir dos anos 90, como forma de alimentar a fantasia das crianças portuguesas relativamente ao 'bom velhinho'; pois bem, já ao 'cair do pano' do século XX, a RTP levaria ainda mais longe esse conceito, transformando-o numa emissão televisiva em que uma parte da demografia em causa era surpreendida com o seu pedido de Natal em frente às câmaras.

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Com apresentação de Guilherme Leite (então em alta devido ao sucesso de 'Cromos de Portugal' e sobretudo o perene 'Malucos do Riso'), o programa homónimo da iniciativa (estreado há quase exactos vinte e cinco anos, a 14 de Dezembro de 2000) via o apresentador, uma equipa técnica e o Pai Natal (ou seja, um actor disfarçado) visitar diversas escolas de Norte a Sul do País, e distribuir entre os alunos das mesmas algumas das prendas mencionadas nas suas cartas para o Pólo Norte, para que as suas férias de Natal começassem da melhor maneira. Um conceito simples, mas perfeito para a época em causa (pleno como era de boas intenções e espírito natalício) e impossível de criticar com qualquer tipo de cinicismo - o que talvez explique a sua longevidade, já que o formato foi 'repescado' durante os sete natais seguintes, tendo desaparecido apenas após a quadra de 2007, por razões que não ficam claras com os poucos dados ainda disponíveis 'online' sobre o programa.

Ainda assim, quem quiser 'ver por si mesmo' do que constava o programa (ou simplesmente recordá-lo) pode fazê-lo mediante os três episódios ainda constantes dos Arquivos RTP, único vestígio mais 'tangível' da existência de uma emissão surpreendentemente Esquecida Pela Net, e intemporal o suficiente para poder perfeitamente ter tido continuidade nos anos subsequentes.

08.12.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em finais dos anos 80 e inícios dos 90, a televisão infantil portuguesa vivia um estado de graça, com uma série de excelentes produções dirigidas ao público mais jovem, quer na vertente mais dramática, quer a nível de concursos e programas de auditório, quer mesmo num formato mais 'híbrido', como no caso da icónica e lendária 'Rua Sésamo' – muitos deles com a participação de nomes de vulto no campo do entretenimento infantil, escrita, música, e mesmo pedagogia, dos dois 'Carlos Albertos' (Moniz e Vidal) a Alice Vieira, Ana Maria Magalhães (ambas as quais contribuíam para os 'bastidores' da referida 'Rua Sésamo') ou, como no caso a que se refere o presente 'post', José Jorge Letria. Não é, pois, de admirar que 'Os Contos do Mocho Sábio' retenha o mesmo nível de qualidade que tanto miúdos como graúdos já haviam aprendido a esperar de produções nacionais de cariz infanto-juvenil.

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O personagem titular, vivido por Francisco Cela.

Exibida ao longo de apenas uma semana há exactos trinta e três anos (entre 07 e 11 de Dezembro de 1992) 'Contos' é algo mais rudimentar do que a maioria das suas congéneres, apostando numa apresentação mais simples e minimalista (que 'esconde' parcialmente o baixo orçamento) e numa premissa mais próxima de uma peça de teatro do que de uma série com cenários ou enredos. De facto, cada episódio (cuja duração não excedia o quarto de hora) não requeria mais do que dois actores, um deles fixo (o próprio Mocho Sábio, 'vestido' por Francisco Cela) e o outro rotativo, responsável por interpretar a figura histórica ou folclórica que o personagem titular literalmente invocava, através das palavras mágicas 'Gatafunho, gafanhoto, sou direito e sou canhoto, venha de lá um herói, daqueles que eu já conheço, para ver se não me esqueço' (também parte da letra da música de abertura.)Era, assim, dado o mote para a chegada, literalmente por magia, de uma figura histórica (com letra minúscula) como Branca de Neve ou Pinóquio, ou Histórica (com maiúscula) como Marco Polo ou Cristóvão Colombo, com quem o Mocho conversava e trocava impressões, ajudando assim as crianças a conhecerem a sua história sem ter que recorrer a um reconto directo. Uma táctica engenhosa, que ajudava os pequenos espectadores a 'aprender a brincar', como os mesmos tanto gostam.

A ajudar a este desiderato estava um verdadeiro contingente de figuras de proa da televisão infantil nacional da época, como Alexandra Lencastre (então ainda conhecida como a Guiomar de 'Rua Sésamo') ou o referido Carlos Alberto Vidal, entre muitos outros, capazes de atrair quem já os conhecia de outros programas da altura, e de garantir uma alta fasquia no tocante à representação. Junte-se um tema com 'sabor' a Zeca Afonso ou Sérgio Godinho (mas cantado pelo próprio Francisco Cela, numa imitação quase perfeita deste último) e do qual muitos nem saberão que se lembravam até o ouvirem, e estavam reunidos os ingredientes para uma 'experiência' de sucesso para as férias de Natal de 1992.

Infelizmente, toda esta boa-vontade e preparação esbarrava num obstáculo de alguma monta: o fato do próprio Mocho Sábio, capaz de causar algum receio à maioria do público-alvo, pese embora a atitude e tom afáveis, quase paternalistas, que Cela imprimia à personagem. Talvez por isso (ou talvez por apenas ter passado na televisão durante uma única semana de um único ano) 'A Casa do Mocho Sábio' não tenha o mesmo nível de nostalgia associada do que a referida 'Rua Sésamo' ou o posterior 'O Jardim da Celeste'.

De referir que, segundo o Arquivo RTP, foram produzidos mais dois 'Contos do Mocho Sábio' posteriores a 1992: um logo no ano seguinte, em Junho, em que o Mocho Sábio conhecia o Patinho Feio, e outro na Primavera de 1995, em que o personagem interagia com uma rainha. Desconhece-se, infelizmente, a razão destes regressos não mais que 'esporádicos' à fórmula, que nunca chegou a ter uma segunda temporada; uma pena, já que (fatos 'arrepiantes' e baixos orçamentos à parte) se tratava de uma proposta válida e bem executada de entretenimento infantil, digna de ser celebrada exactos trinta e três anos após a sua estreia.

11.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 10 de Novembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca a realizadores de cinema e televisão, David Lynch é, sem dúvida, um dos mais polarizantes, a par de nomes como Quentin Tarantino, James Cameron ou, mais recentemente, Christopher Nolan: a tendência do cineasta para 'abusar' dos elementos surreais e do subtexto, muitas vezes em detrimento de uma história coerente, faz com que a sua obra não seja, decididamente, para todos os gostos. No entanto, um trabalho de Lynch em particular tende a reunir maior consenso do que a sua restante produção, talvez por ser mais linear, ou talvez pelas 'ondas' de espanto que causou aquando da sua estreia: 'Twin Peaks'.

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De facto, a história da investigação em torno do assassinato de Laura Palmer (cujo assassino suscitou tanta especulação e teorização quanto o famoso JR de 'Dallas') constitui um daqueles casos em que, apesar de estar muito 'à frente' do seu tempo, uma série consegue reunir o consenso da crítica e do público, cimentando o seu lugar na História da televisão moderna e sendo lembrada e discutida até aos dias de hoje. Em Portugal – onde a série estreou há precisamente trinta e cinco anos, em Novembro de 1990, às quintas-feiras à noite – o caso não terá sido diferente, embora (ao contrário do que acontece com séries posteriores, como 'Sopranos' ou 'Os Homens do Presidente') sobrevivam hoje muito poucos registos da recepção do público português à 'bizarrice' de Lynch e Mark Frost.

Ainda assim, o número de emissões celebratórias de que a série foi alvo por ocasião dos seus trinta anos dá a entender que 'Twin Peaks' terá tido os seus fãs à época – entre os quais, quiçá, se contem alguns dos leitores mais velhos deste 'blog', membros da chamada 'Geração X', e que teriam siido adolescentes à época da transmissão original. É a eles que dedicamos estas poucas linhas celebratórias de uma das mais intrigantes e originais séries televisivas dos últimos quarenta anos, por ocasião do aniversário da sua estreia em Portugal.

05.11.25

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 4 de Novembro de 2025.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década

Já aqui anteriormente falámos d''A Hora do Lecas', o programa que catapultou José Jorge Duarte para o sucesso e o tornou ídolo entre os mais pequenos, no papel da titular 'criança grande'. Assim, e face ao sucesso de que a referida 'Hora' desfrutava entre o público-alvo semana após semana, não é de admirar que a RTP oferecesse a Duarte a possibilidade de continuar o formato (ainda que com novo titulo), mas agora em horário 'nobre' no tocante à programação infantil – nomeadamente, as manhãs de Sábado. Surgia assim, há pouco mais de trinta e cinco anos (em Outubro de 1990) a 'continuação' d''A Hora do Lecas', com o bem menos intuitivo título de 'Lecas, Mais Certo Que Sem Dúvida'.

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Apesar deste equivocado título, no entanto, o programa continuava a oferecer tudo o que a sua demografia-alvo podia pedir de um programa deste tipo – jogos interactivos (como 'penalties' ou um jogo de pesca), convidados musicais (a começar logo, em 'grande', pelos Xutos & Pontapés), entrevistas, reportagens e, claro, muito do humor típico do 'Lecas', traduzido tanto em 'sketches' curtos como em paródias de filmes de heróis de banda desenhada ou nas 'dobragens' das 'vozes' dos animais de companhia das celebridades entrevistadas, na rubrica 'Meu Dono de Estimação'. Numa vertente algo mais 'séria', a rubrica 'Quando For Grande Quero Ser...' oferecia aos jovens espectadores, uma vez por mês, a possibilidade de viverem o seu emprego de sonho durante um dia, ao lado de um profissional do sector, enfatizando assim a ligeira vertente educativa de que o programa também gozava. No global, um formato equilibrado, e que não podia deixar de agradar ao público-alvo, pese embora a ausência de desenhos animados, normalmente a 'atracção principal' deste tipo de programa. Lecas era, no entanto, uma presença mais do que magnética o suficiente para manter as crianças portuguesas cativadas durante todo um programa, eliminando a necessidade de exibir séries entre os diferentes segmentos, e dando ao programa alguma originalidade face a outros 'concorrentes'.

De referir, ainda, que foi deste programa – e dos seus segmentos musicais, protagonizados uma vez por episódio pelo próprio Lecas – que saiu o icónico disco 'As Canções do Lecas', do qual também já aqui falámos, pouco depois do 'post' dedicado à 'Hora'. Esta nova publicação vem, pois, completar a 'trilogia' dedicada a uma das grandes figuras da televisão infantil portuguesa de finais dos anos 80 e inícios de 90, e que a porção mais velha dos leitores deste 'blog' provavelmente recordará como um dos seus ídolos de infância.

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