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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

17.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Grande parte do humor é intemporal. Apesar de a definição do que tem ou não piada tender a divergir de geração para geração e de cultura para cultura, há coisas que nunca deixam de ter graça – um jovem dos dias de hoje pode, por exemplo, derivar tanto prazer de um episódio de Mr. Bean ou Tom e Jerry como os seus pais ou avós quando eram da mesma idade. Assim, não é de estranhar que, de quando em vez, alguém decida recuperar um destes conceitos perpetuamente divertidos e apresentá-lo a todo um novo público, na esperança de que o legado desse material se perpetue ainda por mais uma geração.

Foi precisamente isso que a RTP fez quando, há pouco mais de um quarto de século, no Verão de 1996, decidiu recuperar a obra humorística de José de Oliveira Cosme, criada e transmitida na rádio sessenta anos antes, e adaptá-la para a televisão estatal de meados da década de 90. O resultado foi uma série que ainda hoje faz sorrir quem era da idade certa para lhe achar piada na altura, e que merece certamente ombrear com a obra de Herman José no panteão de séries humorísticas nacionais de finais do século XX.

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De facto, e apesar de expandir consideravelmente sobre o conceito original, a versão 'anos 90' de 'As Lições do Tonecas' não perde a sua essência, continuando a centrar-se na relação entre um aluno da instrução primária cábula, gozão e de 'inteligência saloia', embora de bom coração – o titular Tonecas – e o seu agastado professor, a quem a simples missão de leccionar uma aula com Tonecas na sala deixa sempre à beira de um ataque de nervos. Uma premissa simples, mas que já rendeu dividendos em obras como 'O Menino Nicolau', de Sempé e Goscinny, e que o torna a fazer aqui – mesmo que, na adaptação para televisão, o aluno tenha uma idade algo avançada (em várias décadas...) para ainda andar na instrução primária (se bem que, tratando-se de Tonecas, é perfeitamente possível que tenha simplesmente reprovado uma quantidade infinita de vezes...)

E por falar no aluno, é na interpretação de Luís Aleluia – e, diga-se de passagem, do seu coadjuvante, o 'professor' Morais e Castro – que está um dos grandes trunfos do 'Tonecas' televisivo. O comediante está em grande forma, soltando com gosto as suas piadas de humor brejeiro e, por vees, físico (muitas delas tiradas dos textos originais de Cosme, embora obviamente não todas), e exibindo grande química com o seu parceiro 'straight-man', que leva a muitos momentos divertidos; e, quanto mais não seja, Aleluia tem mérito por conseguir que o seu Tonecas obviamente adulto (mas sempre vestido como um típico 'puto' da escola) não seja, em nenhum momento, estranho ou perturbante – como o Chaves sul-americano, este era um 'miúdo graúdo' que a própria faixa etária alvo aceitava sem reservas, facto que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso do programa.

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As interacções entre o Tonecas de Luís Aleluia e o professor de Morais e Castro estavam na base do sucesso da série

É claro que, sendo uma produção da RTP na década áurea da publicidade e 'marketing', o 'Tonecas' moderno não se mostra averso à expansão para lá do material original, nomeadamente no que toca a conceitos como os convidados especiais. De facto, embora a maioria dos episódios se desenrolassem apenas com os personagens principais e alguns alunos coadjuvantes (estes, verdadeiramente com idade para ainda andarem no ensino básico) surgiam de vez em quando algumas presenças externas para perturbar ainda mais as aulas; alguns destes eram apenas novos personagens representados por actores convidados (como a 'tia' Pureza Bucelas, de Ana Bola), mas outros apareciam a interpretar-se a si mesmos, como naquele episódio em que, sem razão aparente e sem qualquer pré-aviso ou antecipação, os Excesso entram pela sala de Tonecas adentro e se preparam para assistir à aula!

Um daqueles segmentos que definem a expressão 'ver para crer'

É claro que estes 'crossovers' se destinavam, pura e simplesmente, a publicitar os artistas e convidados em causa – não fossem os Excesso a sensação do momento da música portuguesa em 1997-98 – mas o facto é que a ousadia em arriscar este tipo de manobras, numa série que se pretendia fiel à obra de humor clássico que lhe estava na base, pode também ter tido um papel importante na longevidade de 'Tonecas', que se manteria no ar até praticamente ao fim do milénio, tornando-se presença assídua e constante nos televisores das crianças e jovens portuguesas da época.

Todos os truques publicitários do Mundo são em vão, no entanto, se o produto que tentam promover não tiver qualidade; felizmente, mesmo sem estas 'artimanhas', 'Tonecas' revelava-se uma série bem escrita – dentro dos seus parâmetros de humor simples e directo – magnificamente interpretada, e que, no cômputo geral, ainda se aguenta bem nos dias de hoje, mesmo depois das significativas mudanças sociais e culturais que um período de um quarto de século inevitavelmente acarreta. Um bom exemplo, pois, do tal humor intemporal de que se falava no início deste texto, e que tende a ser tão difícil de executar...

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

13.12.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Corriam os primeiros anos da década de 90 quando se começaram a popularizar, no mercado de roupa de criança, artigos (muitos deles piratas) com o desenho de um rapazinho de cabelo espetado, pele amarela, figa em riste, e camisola ora azul, ora vermelha; pouco tempo mais tarde, o 'raio de acção' desse mesmo personagem havia-se estendido não só a outros artigos de vestuário como também a produtos como mochilas; mais algum tempo, e o mesmo (juntamente com a sua família) adquiria o direito à sua própria caderneta de cromos (da Panini, claro), colecção de autocolantes, série de decalcomanias e tatuagens temporárias, vários videojogos para os sistemas mais populares da altura, como a Mega Drive e o Game Boy, e até honras de foco central de um dos melhores posters centrais da história da TV Guia. Em apenas um par de anos, este boneco havia surgido do nada para se tornar um verdadeiro 'ídolo' da demografia infanto-juvenil – um feito tanto mais extraordinário quando levamos em conta que a série que protagonizava não era, nem nunca viria a ser, um programa para crianças.

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Não nos enganemos, no entanto – as crianças daqueles inícios dos 90 VIAM 'Os Simpsons'. Não tanto por causa do famoso humor sarcástico e algo negro – que lhes passava, certamente, um pouco 'por cima da cabeça' – mas para ver Bart Simpson fazer a vida negra à família e aos colegas de escola, a ponto de ser, frequentemente, estrangulado pelo pai em pleno quarto (coisa que, claro está, já não sucede hoje em dia – aliás, só é de surpreender como é que ninguém ainda tentou 'cancelar' Matt Groening por incentivar maus tratos a menores através do comportamento de Homer...) O primogénito da família Simpson tornou-se, quase sem querer, o epítoma da rebelião infantil para a década de 90, e – juntamente com personagens como Sonic ou as Tartarugas Ninja – ajudou a criar o protótipo para 'milhentas' personagens 'radicais' ao longo da próxima década, numa tendência que o seu próprio programa satirizou, num dos seus melhores episódios.

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A inevitável caderneta de cromos punha, inevitavelmente, o foco em Bart

Ainda que Bart fosse o principal motivo de interesse para o público infanto-juvenil, no entanto, o personagem estava longe de ser o único trunfo da série criada em 1989, e estreada na RTP dois anos depois; qualquer dissertação sobre o génio dos argumentos daquelas primeiras temporadas de 'Os Simpsons' é, aliás, redundante hoje em dia – TODA a gente sabe o quão bons eram aqueles episódios, especialmente as crianças e jovens dos anos 90, que os viram em primeira mão.

De facto, em Portugal (como, aliás, no resto do Mundo) a série reunia consenso entre jovens e adultos, afirmando-se como um dos primeiros fenómenos transversais a todas as camadas da sociedade, vários anos antes de 'Harry Potter' e duas décadas antes da esteia do Multiverso Marvel nas salas de cinema. O facto de quase todo o 'merchandise' da época ser dirigido especificamente a crianças, e se centrar na figura sardonicamente sorridente de Bart – a mais imediatamente apelativa para a demografia em causa – era fruto, tão-somente, de uma boa interpretação do mercado por parte das companhias em causa, não retirando à série qualquer credibilidade ou atractivo junto do público mais velho.

Infelizmente, a continuação da história d''Os Simpsons' é, também, sobejamente conhecida: demasiadas temporadas, demasiados personagens secundários, concessões a celebridades e ao politicamente correcto, mudanças desnecessárias e controversas, e uma eventual diluição de tudo o que havia tornado aquelas primeiras temporadas tão especiais. Ainda assim, quem tem idade suficiente para recordar 'a vida antes de Bart Simpson' sabe o impacto que o personagem, e a sua respectiva série, verdadeiramente tiveram na sociedade portuguesa de inícios dos anos 90, e em particular junto dos mais jovens – até porque quem tem interesse neste blog terá, quase certamente, sido um desses jovens vestidos com t-shirt alusiva a Bart Simpson, com o personagem desenhado na mochila da escola, e os bolsos cheios de cromos d''Os Simpsons' para a troca...

29.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa edição recente desta mesma rubrica, abordámos a série animada dos Pequenos Póneis, transmitida pela RTP em meados da década de 90; hoje, é a vez de focarmos a outra grande representante dos desenhos animados 'fofinhos' e inofensivos a passar naquela época em Portugal, e que partilha muitos aspectos com a nossa primeira visada: os Ursinhos Carinhosos.

As semelhanças entre as duas séries – que são daquelas que costumam ser mencionadas juntas na mesma frase, à semelhança de outros binómios famosos como 'Survivor e Europe' ou 'FIFA e PES' – começam logo no seu intuito puramente comercial; como tantas e tantas outras séries daquela época, 'Os Ursinhos Carinhosos' (no original, 'Care Bears') destinava-se sobretudo a criar a vontade, entre o público-alvo, de adquirir os adoráveis bichinhos de peluche homónimos. No entanto, pelo menos em Portugal, esse objectivo saiu algo 'furado', já que a série (e respectivos filmes) era bem mais conhecida entre a miudagem do que os brinquedos em si, cujo principal mercado eram os seus Estados Unidos natais.

Também como 'Pequenos Póneis', esta era daquelas séries que, sendo do sexo masculino e tendo mais do que uma certa (pouca) idade, não se podia sob circunstância nenhuma admitir que se via; como os póneis de cor pastel, os ursinhos risonhos e amigos de ajudar com casa nas terra das nuvens e arco-íris eram do domínio exclusivo das raparigas, reunindo num só programa absolutamente TODOS os ingredientes para se tornarem objecto de escárnio de qualquer 'macho' que se prezasse – fosse o dito escárnio mais ou menos sincero.

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Menos másculo do que isto, era difícil...

Não que a referida reacção não fosse, em parte, justificada – como 'Pequenos Póneis', 'Ursinhos Carinhosos' contentava-se em oferecer o mínimo possível para agradar ao seu público-alvo. Embora a animação fosse bastante razoável (e bem melhor que a dos póneis) o teor simplista e moralista das histórias de cada mini-episódio reduzia o interesse da série estritamente ao sector menos exigente do público infantil, preferindo a maioria dos restantes dedicar o seu tempo a concorrentes como 'Tartarugas Ninja', 'Moto-Ratos de Marte' ou até 'Garfield'.

Ainda assim, os ursinhos multi-cores com tatuagens na barriga conseguiram ter impacto suficiente no nosso país para justificarem TRÊS transmissões da série original de 1985, no espaço de apenas 16 anos, das quais duas na década que nos concerne: primeiro na RTP (1990) e mais tarde na TVI (1996). Em 2006, o Canal Panda viria a completar esta tríade, apresentando os Ursinhos a toda uma nova geração de crianças e assegurando que os mesmos se mantinham relevantes duas décadas depois da sua criação e transmissão nos seus EUA natais. E se é verdade que existirão decerto séries menos merecedoras deste ciclo de vida artificialmente prolongado, também é inegável que mesmo o mais distraído seguidor da produção animada internacional das décadas de 80 e 90 conseguirá nomear, em questão de segundos, cinco ou seis séries que fazem muito mais por justificar o mesmo tratamento...

26.11.21

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 25 de Novembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar da variedade e qualidade das publicações periódicas dos anos 90 – que se estendiam de revistas sobre jogos de computador ou ciência a um jornal de música – a imagem que vem imediatamente à mente da maioria das ex-crianças ou jovens daquela época ao ouvir falar em 'revistas' será, quase certamente, uma qualquer capa de uma das muitas publicações semanais que ofereciam uma mistura de informações sobre a programação televisiva naquela semana com muitos, muitos artigos dedicados a 'fofocas' sobre as celebridades do momento; títulos tão icónicos quanto a TV Guia, TV 7 Dias, Nova Gente ou Maria, que pareciam 'habitar' nas mesas dos consultórios médicos ou na casa de familiares, sempre prontas a serem folheadas num momento de maior ócio, em que não houvesse nada melhor para fazer.

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Exemplos do grafismo da TV Guia em finais dos anos 80 e inícios de 90

Embora muito semelhantes, tanto estruturalmente como a nível de temáticas, estas publicações dividiam-se, ainda assim, em dois grandes grupos – de um lado, as mais declaradamente dedicadas ao jornalismo cor-de-rosa (onde se destacavam a Maria, a Ana, e a Nova Gente) e do outro, as que procuravam servir, em primeira instância, como um verdadeiro guia de programação, sendo a vertente de 'fofocas' secundária, caso da TV Guia, TV 7 Dias ou ainda da TV Mais. Não que as revistas pertencentes a este último grupo não tivessem páginas atrás de páginas dedicadas à vida dos famosos, que tinham; no entanto, as mesmas traziam, também, artigos de outro tipo, desde pequenas notícias mais sérias a peças sobre alguns dos filmes que iriam passar na televisão nessa semana, ou que se encontravam em exibição no cinema à data de publicação, entrevistas a actores e personalidades, notícias sobre desporto, ou o principal atractivo para a geração que lê este blog, os destacáveis.

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Exemplo dos conteúdos menos 'cor de rosa' proporcionado por revistas como a TV Guia

Parte tradicionalmente integrante das revistas sobre televisão desta época – sobretudo da TV Guia – os destacáveis tomavam mais frequentemente a forma de 'posters' de temas variados, que podiam ir desde uma foto de um actor ou de desportistas a uma cena retirada de uma série popular (por aqui, ficaram especialmente na memória os 'posters' do Bart Simpson a escrever no quadro, e do Sporting vencedor da Taça de Portugal 1994/95, ambos os quais tiveram lugar cativo na parede até a fita-cola secar.) No entanto, a referida TV Guia ganhava também pontos por oferecer 'capas' para filmes, que permitiam transformar uma qualquer 'cassette' gravada da televisão num 'facsimile' da fita comercial do respectivo filme, completa com texto de resumo nas costas e o título na lombada – uma solução extremamente apelativa numa altura em que a maioria dos filmes em VHS era mesmo gravado directamente a partir da transmissão televisiva, dado o preço algo proibitivo dos vídeos comerciais. Esta é, aliás a vertente pela qual a TV Guia 'clássica' mais é lembrada hoje em dia pela geração de 80 e 90, que muito e bom uso fez da mesma.

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Depois de postas nas caixas, as capas da TV Guia eram virtualmente indistinguíveis das dos lançamentos comerciais

Hoje em dia, a maioria destas revistas continua a ser publicada, e a encontrar o seu 'habitat' natural em salões de beleza e consultórios médicos por esse Portugal fora, ao lado de publicações como a Caras e a tradicional Hola!; no entanto, qualquer das mesmas é uma mera 'sombra' do que foi nos anos 90, reflectindo a mudança de paradigma introduzido pela Internet 2.0, e que teve um impacto considerável sobre os meios de comunicação tradicionais. Para quem cresceu com estas revistas resta, portanto, recorrer à memória do que costumavam ser, e às recordações de as folhear no médico, no salão de beleza ou em casa da avó...

 

23.11.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A tradição oral é, normalmente, imortal e praticamente imutável. Gerações de crianças conhecem as mesmas histórias, canções, tradições e até jogos do que os seus pais e avós, aprendendo-as muitas vezes destes, e mais tarde passando-as aos seus filhos, sensivelmente na mesma forma em que lhes foram passadas.

Por vezes, no entanto, a 'máquina' criativo-mediática revela-se tão influente que é mesmo capaz de se intrometer e moldar uma tradição; os filmes da Disney são disto perfeito exemplo, sendo as suas interpretações das histórias e fábulas tradicionais consideradas, hoje em dia, quase como que as versões 'oficiais' desses mesmos contos.

O Portugal dos anos 90 viu ocorrer, já no final da década, um fenómeno muito semelhante - ainda que a uma escala bastante mais reduzida – quando o segundo grande trabalho da companhia de animação lisboeta Animanostra (do primeiro, já aqui falámos recentemente) conseguiu a proeza de fazer com que a sua versão de uma canção tradicional se tornasse a versão definitiva da mesma para toda uma geração de crianças.

Qualquer desafio de 'tentar não cantar' com esta música estaria condenado ao fiasco...

Falamos, é claro, d''Os Patinhos'; a lendária animação que veio, em 1999, substituir o ainda mais lendário Vitinho, a quem os pais haviam desejado boa noite em formato musical durante quase vinte anos ininterruptos. Para seu máximo crédito, no entanto, a animação da Animanostra não só conseguiu ser uma digna sucessora da mítica série de vídeos musicais patrocinados pela Milupa, como acabou por se tornar tão icónica quanto estes.

As razões para este triunfo são variadas, e diferem consoante a idade da pessoa a quem se pergunte. Alguns dirão que a música, e respectivo 'videoclip' animado, estavam simplesmente muito bem feitos, transmitindo a sua mensagem com um bem-vindo toque de humor e sem condescender para com o público alvo, o que não deixa de ser verdade; outros, mais velhos, vociferarão contra a interpretação irritantemente memorável do tradicional tema infantil pelo patinho de roupa de marinheiro e voz esganiçada, o que também é um argumento perfeitamente válido; outros ainda indicarão a omnipresença de 'merchandising' (oficial e pirata) com a figura do Patinho nos anos que se seguiram à introdução do 'clip' na grelha de programação da RTP, causando uma rápida saturação.

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Exemplo de 'merchandising' oficial da animação

Seja qual for a razão, no entanto, a conclusão é a mesma: muito pouca gente que tenha estado exposta à música de abertura do horário nobre da RTP no final dos anos 90 se consegue esquecer da mesma, o que apenas valida a eficácia da campanha desenvolvida pela emissora. Mais – existe toda uma faixa etária que ainda hoje, mais de duas décadas após a estreia da animação, decerto defenderá veementemente que a música SEMPRE FOI sobre os rituais pré-sono das crias de aves aquáticas, ignorando por completo o anterior foco da música na eficácia das lições de natação das mesmas.

De facto, o sucesso do Patinho aquando do seu aparecimento foi tal que suscitou o lançamento de toda uma série de versões de outras músicas infantis, cada qual acompanhada de um videoclip animado, e que mais tarde foram reunidas num CD oficial alusivo à animação (e que trazia como bónus o vídeo da mesma, em formato CD-ROM) também ele um sucesso de vendas.

A série completa de animações protagonizadas pelo Patinho e seus amigos

E apesar de todas estas animações terem, entretanto, caído no esquecimento, a primeira – a original – continua, e provavelmente sempre continuará, a afirmar-se como um dos momentos-chave da programação televisiva infantil da segunda metade da década de 90, a par de um Samurai X ou Dragon Ball Z (embora numa perspectiva diferente de ambos). E se pensam que estamos a exagerar, considerem o seguinte: o Patinho precisou de apenas um minuto e meio para fazer aquilo que levou a Son Goku e Kenshin dezenas de episódios a conseguir: conseguir um lugar, para si e para a sua canção, na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas. Só esse facto já torna criação de Rui Cardoso e Teresa Sobral merecedora de respeito, bem como de um destaque aqui no anos 90...

16.11.21

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Quando se fala em inovações tecnológicas, em particular durante as décadas de 90 e 2000, a maioria das pessoas pensa, de imediato, nos avanços feitos durante essa década no campo da informática e programação, as 'faces' mais visíveis do enorme salto vivenciado durante essa época; no entanto, esta evolução esteve longe de se manifestar apenas nesse campo, tendo as referidas décadas assistido a uma série de 'revoluções silenciosas' sob a forma de inovações que, por serem menos óbvias e aparentes, não gozaram de tanta atenção. É precisamente de um desses avanços mais discretos – mas não menos memorável para quem dele usufruiu – que vamos hoje falar.

A passagem dos tradicionais televisores de antena para os então inovadores modelos digitais, sensivelmente em meados da década, veio revelar tanto aos fabricantes como aos responsáveis de programação uma série de potencialidades tecnológicas, que os mesmos não tardaram a explorar; uma dessas potencialidades – já conhecida pelos ingleses há mais de duas décadas, mas ainda inovadora no Portugal de então - prendia-se, precisamente, com a possibilidade de transmitir informação em formato de texto digital, semelhante ao que se veria num computador da época, o qual podia ser acedido com o simples premir de um botão no comando do televisor. O resultado foi uma funcionalidade que, naqueles anos pré-Internet 2.0, constituiu a principal forma de muito boa gente interagir com o seu canal de televisão favorito: o Teletexto.

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Uma imagem que não pode deixar de evocar memórias

Sim, o Teletexto – aquele conjunto de ecrãs saídos directamente de um computador IBM de inícios da década, e que permitia aos responsáveis pelo mesmo divulgar informações sobre a programação da semana, curiosidades sobre os mais diversos temas, resultados desportivos, concursos e promoções exclusivos, bem como implementar serviços de legendagem para surdos, serviços de 'chat' ou até pequenos jogos; no fundo, uma espécie de 'mini-website' ou motor de pesquisa embutido na própria onda do canal, e que não requeria a obtenção de qualquer tecnologia adicional, bastando possuir uma televisão compatível e o respectivo comando para poder desfrutar deste serviço.

Inicialmente disponibilizado apenas pelos canais estatais – a SIC e a TVI só 'apanhariam a carruagem' já no novo milénio – este serviço foi, quase de imediato, um enorme sucesso entre públicos de todas as idades; a conjugação entre a comodidade e acessibilidade do serviço, os conteúdos verdadeiramente úteis e a facilidade de navegação – que permitia até aos mais informaticamente iletrados encontrar aquilo que procuravam – tornaram aquele botãozinho na fila de topo ou base dos comandos televisivos da época um dos mais frequentemente pressionados, particularmente quando se queria matar uns minutinhos até ao próximo programa.

A chegada ao país da TV Cabo, também em meados da década, apenas veio exacerbar este fenómeno, já que quase todos os inúmeros canais estrangeiros disponibilizados nos pacotes iniciais da Cabo em Portugal vinham equipados com Teletexto; e se ler as informações e curiosidades generalistas disponibilizadas pela RTP já era entusiasmante, imagine-se o que sentiriam fãs da MTV, Eurosport ou Cartoon Network ao descobrirem que podiam ler páginas inteiras sobre a sua temática favorita, mesmo ali, no ecrã da televisão...

É claro que a 'avalanche' tecnológica das duas primeiras décadas do século XXI rapidamente veio tornar o Teletexto obsoleto; hoje em dia, apesar de resistir ainda e sempre à 'invasora' Internet, o serviço é praticamente redundante, estando a maioria das informações disponibilizadas pelo mesmo acessíveis em qualquer página de Internet – a qual pode, inclusivamente, ser aberta na própria televisão, desde que a mesma possua as funcionalidades correctas. Ainda assim, para muitos ex-jovens dos Anos 90 – bem como, suspeitamos, algumas das gerações mais velhas – esta continua a ser uma ferramenta saudosa, associada a muitos e bons momentos de esforço ocular para tentar ler aquele texto em cores garridas sobre fundo preto...

15.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca à animação, Portugal é um país com pouca tradição; como acontece em quase todos os outros sectores do meio audio-visual, os lusitanos são, sobretudo, consumidores de animação importada do estrangeiro, com particular ênfase nos Estados Unidos (claro), Inglaterra e Canadá.

No entanto, de tempos a tempos, um animador ou empresa de animação nacional consegue não só levar o seu produto adiante como expô-lo a um público mais alargado – e, nos anos 90, foi exactamente isso que aconteceu com a lisboeta Animanostra, responsável por não uma, mas duas das principais produções animadas nacionais durante aquela década e a seguinte. Do momento de maior fama da companhia, falaremos noutra ocasião – hoje, cabe recordar a série que lançou a Animanostra enquanto grande nome do meio dentro de portas, e se tornou uma das mais memoráveis produções animadas nacionais de sempre.

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'A Maravilhosa Expedição Às Ilhas Encantadas' pode não ter tido um título por aí além de apelativo, mas a sua combinação do ambiente directamente ligado à História e tradições portuguesas com um cuidado trabalho técnico (dentro das limitações vigentes) permitiram-lhe ultrapassar essa pecha, e conseguir sucesso suficiente entre o público-alvo para justificar a criação e exibição de uma segunda temporada, mesmo que desfasada no tempo em relação à primeira. Até porque desfasamentos temporais não eram, de todo, um conceito estranho para a equipa da Animanostra, que havia criado a série em 1992, mas só a veria ir ao ar quatro longos anos depois, no Natal de 1996.

Uma vez chegada à RTP, no entanto, 'A Maravilhosa Expedição...' conseguiria 'segurar' o seu lugar na grelha de programação da mesma durante praticamente um ano, tempo que a emissora estatal demorou a transmitir os oitenta episódios (cada um com cerca de cinco minutos) da série original. Findo esse período, a série facilmente encontraria outra casa, desta vez num canal privado, tendo a SIC sido a responsável tanto pela repetição da primeira temporada como pela exibição de vinte episódios inéditos, relativos à segunda - e tudo isto num ano (1998) em que a realização da Expo '98 havia colocado novamente em voga o tema dos Descobrimentos, sohre o qual o desenho animado versa. As aventuras de Simão, Oliveirinha, Libório, Dom Fuas e os restantes tripulantes do 'Destemido' chegavam assim, através do popular Buereré, a todo um novo contigente de crianças – além daquelas que já haviam acompanhado a primeira temporada, dois anos antes, e que teriam assim a oportunidade de acompanhar a continuação das referidas aventuras.

E a verdade é que valia mesmo a pena assistir às viagens da fictícia caravela portuguesa e dos seus carismáticos tripulantes; além da curta duração dos episódios, que fazia com que nunca chegasse a cansar, 'A Maravilhosa Expedição...' era uma série bem escrita, bem animada e bem sonorizada (o genérico era do melhor que por cá se fez durante aquela época), com um estilo muito próprio, e que pouco ficava a dever a muitas das séries produzidas no resto da Europa durante a mesma época - só faltava, mesmo, o orçamento e a publicidade de que dispunham as criações inglesas e norte-americanas. Esta afirma-se, pois, como uma série bem merecedora de ser revisitada ou descoberta, por quem não conhece e nunca viu – especialmente por ser um produto nacional num país onde estes não primavam (nem primam) pela abundância...

 

12.11.21

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 11 de Novembro de 2021.

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

A associação a fenómenos culturais de sucesso é, desde há pelo menos três quartos de século, uma das principais tácticas publicitárias utilizadas por companhias, produtos e marcas que se procuram destacar no mercado. Dos anúncios em que os Flintstones exaltavam as virtudes de um bom cigarro, nos anos 60, até à passagem da roupa do Pai Natal de verde para vermelha (cores da Coca-Cola, responsável pela campanha que cimentou a mudança) ou simplesmente ao patrocínio de eventos desportivos, culturais ou sociais (muito bem parodiado pelos Fúria do Açúcar no hino 'Eu Gosto É Do Verão'), esta união afirma-se, desde sempre, como um dos pilares da publicidade moderna, e vem tendo cada vez mais preponderância na vida quotidiana da sociedade ocidental.

Nos anos 90, não era diferente, sendo numerosas as companhias e marcas que procuravam elevar o seu perfil através da ligação a fenómenos mediáticos, sobretudo se apreciados pelo público jovem, à época o principal visado por grande parte das mensagens publicitárias; e um dos melhores exemplos deste fenómeno foi a associação da companhia de bebidas Frisumo a um programa de televisão não directamente dirigido à referida demografia, mas que era inequivocamente apreciado pela mesma – o Agora Escolha.

A referida ligação, que tomou a forma de patrocínio, efectivou-se a partir de 1993, tendo o 'timing' da Frisumo sido perfeito no que toca a exposição mediática, já que este foi, precisamente, o ano em que o programa de Vera Roquette transitou da periférica RTP2 para o Canal 1 - então ainda o principal canal da televisão portuguesa – ganhando, assim, uma exposição significativamente maior tanto para si, como para a marca em causa e para o seu recém-criado representante, o Tampinhas, uma carica de ténis, atitude 'radical' e (mais tarde) boné para trás, como convinha a qualquer mascote que se prezasse nos anos 90. Elevado a mascote oficial do programa, o Tampinhas surgia no ecrã ao lado de Vera Roquette, com quem interagia, tanto quanto a limitada tecnologia de inícios dos 90 permitia.

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A mascote da Frisumo em destaque num dos programas da época

Uma jogada certeira, que ajudou a catapultar a Frisumo de 'apenas' mais uma fabricante de refrigerantes, menos badalada e apreciada do que rivais como a Sumol ou a própria Coca-Cola, para uma das marcas preferidas da juventude, e a transformar o Tampinhas numa das caras mais reconhecíveis da publicidade infanto-juvenil da época, a par do Urso Tuli ou das mascotes de cereais da Kellogg's e Nestlé – e, apesar de o Agora Escolha ter durado menos de um ano após a celebração do contrato com a Frisumo, ainda um dos melhores exemplos de sinergia entre marcas e veículos mediáticos da história da publicidade portuguesa

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O Tampinhas viria a tornar-se uma das principais mascotes alimentícias portuguesas

10.11.21

NOTA: Este post é correspondente a Terça-feira, 09 de Novembro de 2021.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem sintonizava a RTP às tardes de semana no final dos anos 80 e início dos 90 (no tempo dos logotipos C1 e TV2 e dos separadores RDP) certamente terá memórias de uma senhora loira, de cabelo comprido, que se sentav a contra um fundo acinzentado e apresentava séries e uma sucessão dedesenhos animados nada menos que históricos, desde o lendário anime de Tom Sawyer ao visado na nossa última Segunda de Séries, o inesquecível Bocas.

Pois é desse mesmo programa (e dessa mesma senhora, que dele é indissociável) que vamos hoje falar. O programa, como quem viu decerto estará lembrado, chamava-se Agora, Escolha, e a senhora era Vera Roquette, figura-chave da RTP durante aquelas décadas, e não apenas por virtude deste programa.

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Nascido em 1986, da mente de Carlos Pinto Coelho, o Agora, Escolha destacava-se, desde logo, pelo conceito inovador – em vez de simplesmente apresentar ao espectador aquilo que a estação havia determinado, era-lhe dada a escolha entre duas opções (daí o nome do programa). Essas mesmas opções – sempre diferentes de um programa para o seguinte, e muitas vezes díspares ao ponto da quase aleatoriedade – eram delineadas pela apresentadora no início de cada emissão, juntamente com instruções sobre como os espectadores poderiam votar no seu 'bloco' preferido, A ou B; e se, hoje em dia, este tipo de votação teria lugar numa rede social, à época, a mesma efectivava-se pelo meio de comunicação mais imediato de entre os disponíveis, o telefone (numa linha de valor acrescentado, claro está.) Enquanto os espectadores votavam no 'bloco' que mais lhes agradava, Roquette ia apresentando desenhos e cartas que lhe chegavam, a grande maioria de leitores mais novos, cuja audiência era motivada pelo desenho animado que também sempre passava neste interregno.

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A carismática apresentadora, como muitos se lembrarão dela

É claro que o carácter democrático do programa era, em parte, simulado, através da criação de parelhas desequilibradas ao ponto de o resultado final ser óbvio; a primeiríssima emissão, por exemplo, propunha a escolha entre uma popular série de ficção científica norte-americana e um bailado – e não será decerto preciso pensar muito para perceber quem ganhou... Ainda assim, o conceito era 'transparente' o suficiente para ganhar a adesão do público (à qual também não ficava alheio o carisma da apresentadora) e se manter no ar durante oito anos, de meados dos anos 80 a meados da seguinte, tendo tido, inclusivamente, direito a 'promoção' da ainda hoje periférica RTP 2 para o Canal 1, à época ainda o maior dos canais portugueses.

Escusado será também dizer que um programa com o nível de sucesso do 'Agora, Escolha' (e lembrado com saudade por tanta gente) não poderia deixar de originar tentativas de repetir a fórmula – as quais, neste caso específico, vieram da própria RTP, que tentou ressuscitar o formato não uma, mas duas vezes no espaço de apenas quatro anos: primeiro em 2011, com apresentação de Marta Leite de Castro, e mais tarde em 2015. No entanto, isoladas do contexto das transmissões originais – sem o factor novidade, a grelha de programação da época, a apresentadora simpática, os desenhos dos miúdos, o Bocas e o Tom Sawyer – e com a adição de alguns detalhes perfeitamente inúteis a uma fórmula que funcionava (como o 'focus group' da versão de 2015, cujas sugestões destinadas a influenciar a escolha destroem por completo a premissa de liberdade de escolha oferecida pelo original) não é de surpreender que ambas estas tentativas tenham falhado redondamente, e tido um impacto praticamente nulo na memória colectiva portuguesa, e embora seja possível que, daqui a vinte anos, alguém escreva um artigo nostálgico sobre a edição de 2011 ou 2015 do Agora Escolha, é também muito pouco provável...

Já o original continua a viver na memória de milhares de portugueses que o experienciaram à época – entre os quais, certamente, milhares de ex-jovens que, ao verem o título e tema deste post, já terão provavelmente corrido ao YouTube, para recordar um dos programas mais inovadores e merecidamente populares da sua infância e adolescência. Para esses, deixamos aqui uma ajudinha...

 

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