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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O conceito de que as crianças não gostam de aprender, e são especialmente aversas a conteúdos televisivos didácticos, é tão falacioso como comum; de facto, programas como 'Rua Sésamo' ou 'Artur' provam precisamente o contrário – que o truque está em saber COMO fazer chegar a informação às crianças, de uma forma que as mesmas considerem interessante e cativante.

Outro exemplo deste mesmo axioma, e que chegou mesmo a partilhar tempo de antena com a 'Rua Sésamo', foi a trilogia Era Uma Vez... . Criado pelo francês Albert Barillé em finais dos anos 70 e início de 80, e tendo como ponto comum a família de personagens central, este conjunto de três séries co-produzidas por companhias francesas e japonesas ('Era Uma Vez...O Espaço', a segunda peça da trilogia, chegou mesmo a ser considerada uma série de 'anime'!) foi tão bem-sucedida na sua missão de veicular conteúdos educativos que continua, ainda hoje, a ser 'repescada' a espaços, na tentativa de educar toda uma nova geração de crianças e jovens sobre os temas da evolução humana, do corpo humano, e ainda do espaço sideral.

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O grupo central de personagens comum às três séries, aqui em 'Era Uma Vez...O Homem'

A primeiríssima destas transmissões deu-se, no entanto, cerca de uma década após a criação da trilogia, em inícios dos anos 90, quando a RTP2 apresentou as aventuras de Pedrinho, Psi (ou Pierrette) e Mestre, o carismático personagem barbudo que se viria a tornar o elemento mais identificável da série, e uma espécie de 'mascote' da mesma.

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O carismático Mestre, figura central da trilogia

Foi este o grupo de personagens que os jovens espectadores acompanharam através da evolução humana em 'Era Uma Vez...O Homem', do espaço exterior em 'Era Uma Vez...O Espaço' - esta com um maior balanço entre elementos dramáticos e didácticos, por oposição às restantes duas, que eram declaradamente educativas - e, finalmente, do corpo humano em 'Era Uma Vez...A Vida' (que viria mais tarde, aquando da dobragem para português, a ser conhecida, também, como 'Era Uma Vez..O Corpo Humano').

Em comum, além do núcleo central de personagens, as três séries tinham a animação – primitiva, mas bem conseguida – e a escrita de qualidade, capaz de transmitir informações ao público-alvo sem que com isso os conteúdos se tornassem maçudos ou aborrecidos; pelo contrário, grande parte dos membros da geração que cresceu entre finais dos anos 80 e inícios do novo milénio recorda com carinho esta trilogia de programas, que sem nunca se afirmarem como favoritos de ninguém, conseguiam ainda assim encontrar o seu espaço junto das crianças e jovens da época.

O sucesso desta trilogia não viria, aliás, a ficar-se pelas sucessivas transmissões televisivas, sendo que duas das três séries que a compunham (ficaria apenas a faltar 'Era Uma Vez...O Espaço') viriam a ser lançadas pela Planeta deAgostini em formato VHS, com nova dobragem, e acompanhados de livros complementares, naquela que foi uma das raras incursões da editora por formatos diferentes dos habituais fascículos. Do sucesso desta iniciativa, no entanto, falaremos na próxima Quinta-feira, quando formos ao Quiosque completar esta retrospectiva sobre as séries de Claude Barillé; entretanto, aqui ficam os genéricos das três séries, para ajudar a matar saudades...

14.06.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

No auge da 'era YouTube', em que todo e qualquer vídeo – seja profissional ou amador – está disponível em algum local da Internet, o conceito de um programa que consistia, precisamente, na exibição de vídeos caseiros e amadores afigura-se totalmente redundante e obsoleta; e no entanto, a verdade é que, na era pré-Internet, este tipo de emissão era um sucesso absoluto em várias partes do Mundo, Portugal incluído.

De facto, este formato era tão popular a nível internacional que, nos anos 90, a RTP apostou numa versão cem por cento nacional do conceito, e lhe deu honras de exibição em horário nobre (curiosamente, precisamente às Terças).

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Intitulada 'Isto Só Vídeo', esta adaptação do clássico formato 'Funniest Home Videos' foi, durante grande parte do tempo que esteve no ar, um dos maiores sucessos da emissora estatal, e ajudou a transformar Virgílio Castelo – até então um discreto actor de teatro, para quem esta era a primeira 'aventura' no campo da apresentação televisiva – num nome reconhecido de Norte a Sul do País.

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O carismático Virgílio Castelo tornou-se praticamente sinónimo do programa

O conceito simples mas extremamente eficaz do programa – vídeos caseiros de índole voluntária ou involuntariamente cómica, enviados por espectadores ou 'descobertos' pela produção do programa, e transformados pela produção em montagens temáticas narradas pelo próprio Castelo – aliado aos custos de produção extremamente baixos (já que o 'trabalho pesado' acabava por ser feito pelos próprios autores dos vídeos mostrados) permitiram ao programa manter-se no ar durante cinco anos, de 1992 a 1997, tendo as três primeiras temporadas sido calorosamente recebidas por parte do público nacional, que tornou a emissão um sucesso; já as últimas duas temporadas, em que Castelo era substituído pela mais fotogénica, mas menos carismática Rute Marques, padeceram de um considerável decréscimo de interesse por parte da sociedade em geral, que levaria ao inevitável cancelamento do programa, já em finais dos 90, mas ainda a alguns anos do advento dos vídeos em ambiente 'web'.

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Rute Marques encabeçou o programa na sua fase descendente de popularidade

Ainda assim, e mesmo tendo saído pela 'porta pequena' dos ecrãs nacionais, o 'Isto Só Vídeo' constituiu, nos anos em que esteve no ar, um conceito verdadeiramente apelativo e inovador para a época, tendo divertido espectadores de todas as idades (entre eles muitas crianças e jovens, junto de quem o programa fazia furor) com o seu misto de 'acidentes' caseiros, animais e bebés a fazerem coisas engraçadas, e um ou outro vídeo obviamente encenado para parecer casual – precisamente a mesma mistura de elementos que pode, hoje em dia, ser encontrada numa pesquisa rápida no YouTube ou TikTok, inviabilizando por completo a hipótese de um programa nestes moldes alguma vez voltar a ser produzido. Fica, pois, a recordação daquele que foi um dos mais marcantes baluartes do horário nobre da RTP em inícios de 90, que toda uma geração de crianças e jovens fez por não perder todas as semanas.

06.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Hoje comum ao ponto de ser considerado apenas mais uma faceta da cultura pop, o anime – e a sua congénere impressa, a 'manga' – era, ainda há bem pouco tempo, uma curiosidade pouco mais do que de nicho em terras portuguesas. Embora o estilo, e os animadores japoneses, viessem exercendo subtil influência sobre os desenhos animados ocidentais já desde a década de 80, poucos eram os exemplos de animação declaradamente oriental (a ridiculamente denominada 'Japanimação') a fazer a transição para o Velho Continente, sendo que mesmo essas chegavam com vários anos de atraso, como era habitual em produtos mediáticos importados. Assim, o Portugal de finais da década de 80 e inícios da seguinte recebia, sobretudo, animações japonesas criadas entre dez a quinze anos antes, de que eram exemplo a lendária série animada de 'Tom Sawyer', o não menos lendário 'Esquadrão Águia' e o programa que hoje abordamos, 'Cavaleiros do Zodíaco'.

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De facto, entre a produção de 'Saint Seiya', como era originalmente conhecido, e a sua transmissão inicial na RTP (em versão original legendada) em Setembro de 1992 (ou Novembro, no caso da RTP Madeira), passaram-se nada menos do que seis anos – o que, numa época de evolução tecnológica sem paralelo, representava uma verdadeira eternidade em termos técnicos; assim, embora tipicamente ilustrativa do 'anime' que ia chegando a terras lusitanas à época, a série era, pelos padrões japoneses, já algo antiquada, pelo menos de uma perspectiva visual, quando comparada com produtos como 'Dragon Ball Z', estreado três anos depois, mas que apenas chegaria a Portugal quase uma década depois, ainda a tempo de causar uma 'febre' sem precedentes nos recreios nacionais. Ainda assim, e apesar de não terem conseguido, nem de longe, tal culto em Portugal (mas a verdade é que NADA conseguiu) as aventuras de Seiya e dos restantes Cavaleiros – cada um com um nome de código inspirado num signo astrológico ou constelação – não deixam de constituir uma referência nostálgica dentro da programação infantil do Portugal pré-'Tartarugas Ninja' e 'Power Rangers'.

Tanto assim é que – tal como acontecera anteriormente, e viria a acontecer, com 'Esquadrão Águia' – a série não esgotou naqueles oitos meses do início da década a sua longevidade nos ecrãs portugueses, tendo sido um dos muitos programas dessa época 'repescados' anos mais tarde, a tempo de cativar uma nova audiência; no caso de Saint Seiya, foi uma SIC na ressaca de 'Z' quem tentou apresentar a série como alternativa viável às aventuras de Son Goku e companhia – tentativa que, escusado será dizer, não foi de todo bem sucedida. Ainda assim, esta nova versão – agora dobrada em português, e hoje lembrada sobretudo pelo seu memorável genérico de abertura – não deixou de conquistar o seu público, tanto nessa primeira transmissão como na repetição, três anos mais tarde, na entretanto inaugurada (e hoje defunta) SIC Gold. Já na ponta final da primeira década do novo milénio, a série viria ainda a ser transmitida uma quarta vez, desta vez no canal infantil a cabo Animax, e, curiosamente, em ambas as versões – dobrada e original.

A versão dobrada transmitida pela SIC contava com um genérico significativamente mais marcante do que o original

Por via destas constantes repetições, 'Cavaleiros do Zodíaco' acabou mesmo por fazer parte da infância de muitas crianças que haviam sido demasiado novas (ou ainda não nascidas) aquando da transmissão original na RTP; e mesmo quem já tinha visto essa, decerto apreciou a oportunidade de voltar a viver as aventuras daquela equipa de heróis intergalácticos, algures entre G-Force e as Navegantes da Lua, e de comparar a dobragem portuguesa a cargo da Novaga com o original japonês...

 

01.06.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem cresceu nos anos 90, sobretudo na primeira metade dos mesmos, certamente reconhecerá o nome de Filipe La Féria, principal instigador nacional do chamado 'Teatro de Revista', uma peculiar mistura de rábulas humorísticas e números musicais, por vezes sujeitos a um só tema, outras totalmente desconexos entre si, que vivia precisamente nessa época um 'boom' de popularidade – tanto assim que chegou a dar azo a uma versão criada especialmente para a televisão.

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Crédito da imagem: Ainda Sou Do Tempo

Transmitido semanalmente pela RTP durante os três primeiros anos da década, 'Grande Noite' não era mais nem menos do que um espectáculo de Filipe La Féria – posto em cena no histórico Teatro Politeama, parte do não menos icónico Parque Mayer lisboeta – cujas únicas particularidades eram ser gravado e conter segmentos situados em outros locais que não o palco, o que não teria sido possível no contexto de uma 'revista' normal; de resto, todos os elementos característicos do género marcavam presença, do humor brejeiro à música estilo 'cabaret'.

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Muitos dos segmentos do programa consistiam de números de 'revista' tradicionais

Não eram, no entanto, apenas estes fundamentos da 'revista' que aproximavam 'Grande Noite' da verdadeira experiência de assistir a um espectáculo de La Féria; o programa contava, também, com a participação de alguns dos maiores nomes do género em Portugal, como José Viana e Carlos Quintas, além de jovens valores como Joaquim Monchique e João Baião, que em breve se viriam a tornar referências da televisão portuguesa.

Este 'sketch' do último episódio do programa reuniu num só segmento três dos maiores nomes da comédia televisiva portuguesa: Herman José, Joaquim Monchique e João Baião.

Esta mistura de veteranos e seus sucessores – todos de talento acima da média – era garantia de interpretações vivas e memoráveis, que ajudavam o programa a cativar públicos de todas as idades, desde os fãs de 'revistas' tradicionais até espectadores mais novos, para quem este terá sido o primeiro contacto com o estilo. Esse apelo massificado – ao qual se juntava um genérico de abertura memorável, que alguns leitores deste blog certamente ainda recordarão – terá, sem dúvida, contribuído para o sucesso continuado do programa, e para a sua permanência no ar por um período relativamente alargado, e nas memórias de toda uma geração por ainda mais tempo...

 

23.05.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A década de noventa ficou – em Portugal como no resto do Mundo - marcada por muitas e muito mediatizadas rivalidades comerciais: da Pepsi com a Coca-Cola, dos Blur com os Oasis (que aqui paulatinamente abordaremos) da WWF com a WCW e, claro, da Sega com a Nintendo, sendo que esta última se destacava das restantes por se dar em duas frentes, com as rivais japonesas a competirem directamente não só através dos produtos que lançavam, mas também das suas mascotes.

Efectivamente, a 'luta' entre Sonic e Super Mario pelo coração das crianças e jovens noventistas traduziu-se em muitas e boas horas de entretenimento, quer através de alguns dos melhores jogos da década (um dos quais aqui recentemente abordámos) quer através das inevitáveis séries de desenhos animados que eram praticamente um pré-requisito de qualquer propriedade comercial infanto-juvenil bem sucedida; e porque, recentemente, aqui falámos de uma das três séries de animação dedicadas ao porco-espinho da Sega (a única a chegar a Portugal) nada mais justo do que nos debruçarmos, hoje, sobre o principal veículo animado do rival, o famoso 'Super Mario Brothers Super Show.'

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Estreada na RTP1 em 1993, numa altura em que ainda não havia a preocupação de dobrar todo e qualquer conteúdo dirigido ao público infantil (situação que se alteraria a partir de meados da década), o desenho animado de Mario não teve sequer direito a nome traduzido em português, sendo que até mesmo as cassettes VHS com episódios da série entretanto lançadas em Portugal traziam a dobragem brasileira; é, pois, de crer que muitas crianças e jovens da época conhecessem a série apenas pelo nome do protagonista. Quanto à não dobragem dos conteúdos propriamente ditos, esta constitui, neste caso específico, um ponto a favor, já que os diálogos da parte em 'acção real' de cada episódio são, sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série 

Sim, dissemos mesmo 'acção real' – isto porque, ao contrário da série do rival, cada episódio do 'Super Show' estava dividido entre segmentos com actores verdadeiros a interpretar Mario e Luigi – um deles o lutador da WWF, 'Captain' Lou Albano – e outros em desenho animado, que se dividiam entre episódios das aventuras dos dois irmãos canalizadores e das de Link, o protagonista da série 'A Lenda de Zelda'. E se os primeiros eram fiéis quanto-baste ao material de base – estavam presentes a Princesa Peach, o cogumelo vivo Toad, o vilão Rei Koopa (ou Bowser), e os inimigos e poderes do jogo – o segundo tomava bastante mais liberdades com o mesmo, incluindo mudar a cor de cabelo e personalidade de Link (o qual repetia frequentemente uma frase-feita hoje tornada 'memética') e dar um papel mais proeminente a Zelda, que nos jogos não passa da princesa a ser resgatada.

Sabemos que algo se tornou um 'meme' quando tem direito a uma montagem de dez horas no YouTube

Em ambos os casos, a qualidade da animação, do trabalho de vozes e das histórias é perfeitamente típica da época em que a série foi produzida, o mesmo podendo dizer-se dos cenários, situações, diálogos e piadas dos segmentos em acção real, que não surpreenderão qualquer espectador que tenha visto sequer um episódio de uma qualquer 'sitcom' de inícios dos anos 90. O resultado é um produto extremamente 'de época', que se apoia declaradamente no interesse e procura por materiais relacionados com os personagens que o integram, mas que consegue, ainda assim, nunca descer abaixo de um nível aceitável e perfeitamente tolerável.

Não há dúvida, no entanto, de que 'Super Mario Bros. Super Show' deixou, pelo menos, um legado à cultura popular contemporânea, também ele transformado, hoje em dia, em 'meme': os seus genéricos de abertura e encerramento, que apropriam desavergonhadamente ainda mais um elemento de enorme sucesso entre os jovens – o nascente movimento 'rap'/'hip-hop', especificamente a vertente mais virada para a dança – e o misturam com efeitos sonoros retirados do jogo com resultados decididamente 'tão maus que são bons'; ver 'Captain' Lou Albano (ao que consta, alcoolizado em todo e qualquer segmento em que surge) a tentar infrutiferamente adoptar uma cadência 'rap' por cima do famoso tema do primeiro  'Super Mario Bros', enquanto executa algo que vagamente se assemelha a uma dança é tão deprimente quanto hilariante.

...palavras para quê?

De resto, tal como as tentativas de transpôr o rival Sonic para um papel menos interactivo, 'Super Mario Bros. Super Show' merece permanecer nos anos 90, sendo trazido à baila apenas ocasionalmente, no contexto de um 'post' como este – ainda que, mesmo assim, consiga ser melhor que as versões posteriores da série, já para não falar da longa-metragem de acção real, estreada no mesmo ano...

19.04.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quando se fala de humor feito em Portugal, pelo menos na era pré-Gato Fedorento, um nome se levanta acima de todos os outros: Herman José. Com carreira iniciada ainda no tempo do preto-e-branco, o actor e humorista (cuja carreira não dá, aliás, sinais de abrandar) atingiu o seu auge na década de 80, tendo explanado o seu humor entre o brejeiro e o satírico (e sempre no limiar do politicamente incorrecto) ao longo uma série de programas de enorme sucesso, como 'O Tal Canal' e 'Hermanias'; na década seguinte, no entanto, o luso-alemão sofreu uma inflexão na carreira, que o tornou conhecido, sobretudo, como apresentador de concursos e programas de variedades, entre os quais se destacam 'A Roda da Sorte' e 'Parabéns', dois programas de que paulatinamente aqui falaremos.

Já no final da referida década, no entanto, Herman sentiu o 'bichinho' da comédia (que nunca, verdadeiramente, o abandonara) 'morder' de novo, e não tardou a reunir novamente a sua posse de fiéis seguidores e cúmplices, com vista à criação de um novo programa de 'sketches' humorísticos, semelhante aos que o haviam notabilizado nos 'velhos tempos'; o que nem ele, nem ninguém poderia saber é que o mesmo se tornaria, aos olhos de muitos, não só o seu melhor programa, como um sério concorrente ao título de melhor programa de humor português de sempre.

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Falamos, é claro, da mítica 'Herman Enciclopédia', sobre cuja estreia se celebrararam neste fim-de-semana pascal exactos vinte e cinco anos (foi ao ar pela primeir vez a 15 de Abril de 1997) mas que continua, de uma forma ou de outra, a influenciar o humor criado em território nacional até aos dias de hoje.

Larga porção dessa influência deve-se ao facto de a geração que hoje cria programas de humor ter crescido com Herman, e ter provavelmente passado uma grande parte da sua infância e adolescência a citar ou até imitar cenas da 'Enciclopédia'. De facto, a penetração do programa na cultura popular portuguesa de finais do século XX foi tal que até mesmo quem não via conhecia (e utilizava no dia-a-dia) todos os principais personagens e bordõe; do mítico Diácono Remédios, para quem nunca 'habia nexexidade, ze, ze' (e respectiva mãe, sexóloga liberal) à não menos lendária Super Tia e o seu 'caturreiraaaa!', passando pelos televendedores Mike e Melga, da MELGASHOP, para quem tudo era 'fantáááástico!' ou pelos 'pastiches' de Artur Albarran (vivido por José Pedro Gomes, e conhecido por iniciar cada segmento com as palavras 'a tragédia, o drama, o horror') ou Lauro António (Lauro Dérmio, sinónimo com a sugestão 'let's luque et da treila'), foram inúmeros os 'bonecos' introduzidos pela 'Enciclopédia' no imaginário popular, muitos dos quais ainda nostalgicamente recordados por quem assistiu 'em tempo real' ao seu aparecimento.

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Diácono Remédios, provedor da 'Enciclopédia' e talvez o personagem mais popular de todos os introduzidos pelo programa.

Pode parecer incrível que um programa com este tipo de penetração e impacto cultural apenas tenha tido direito a duas temporadas, mas acredite-se ou não, foi esse o tempo de vida da 'Herman Enciclopédia' na televisão portuguesa; período talvez curto para uma emissão com o sucesso de que esta desfrutou, mas mais que suficiente para que, um quarto de século depois, toda uma geração retenha, ainda, memórias vívidas e nostálgicas das criações de Herman e seus asseclas, fazendo com que haja - ao contrário do que o Diácono Remédios poderia pensar - mesmo muita 'nexexidade' de prestar homenagem, por alturas do seu aniversário, a mais este marco da televisão portuguesa.

12.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 11 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 80 e 90 representaram, talvez, o auge do cinema de acção exagerado, em que heróis musculados fazem rebentar 'a esmo' estruturas, matando dezenas ou mesmo centenas de inimigos de uma só vez, sem jamais serem atingidos. E se, no cinema, este estilo de trama ficou imortalizado, à época, pelos filmes da 'trinca' Schwarzenegger-Willis-Stallone, na televisão de 'acção real', a mesma é mais comummente associada a um nome: 'The A-Team'.

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Criada em 1983, a série é, em muitos aspectos, perfeitamente típica, e até emblemática, da 'era Reagan' dos Estados Unidos, com a sua nostalgia pelo Vietname e conceito centrado num grupo de ex-combatentes dessa guerra, transformados em mercenários após serem injustamente condenados de um crime militar; mesmo sem esse enquadramento contextual, no entanto, é extremamente fácil situar esta série no tempo após apenas alguns minutos de visualização, já que os elementos típicos do cinema de acção da época estão absolutamente todos presentes, a ponto de a série se ter tornado sinónima com os estereótipos desse género cinematográfico. Semana após semana, ao longo de quatro anos e cinco temporadas, Hannibal, Faceman, 'Howlin' Mad' Murdoch e, claro, o inesquecível e inimitável B. A. Baracus enfrentaram inimigos de mira muito pouco afinada, explodiram bases e locais-chave para a estratégia dos mesmos e realizaram arriscadas fugas na sua icónica carrinha, a fim de defender inocentes moçoilas e honestos agricultores dos poderes que os queriam prejudicar; uma fórmula tão previsível que beirava a auto-paródia, mas que conseguiu cativar toda uma geração de jovens americanos (tanto da parte Norte como Sul) e nada menos do que DUAS gerações de portugueses.

Isto porque, em território nacional, a série teve duas transmissões distintas: primeiro em versão original, logo no ano seguinte à estreia nos EUA e com o título 'Soldados da Fortuna', e mais tarde na icónica dobragem brasileira (sim, de Herbert Richards!) que transformava o grupo no 'Esquadrão Classe A'. Terá sido esta a versão a que a maioria dos leitores deste blog terá assistido nas manhãs em que não havia escola, e será nesta que o presente post, maioritariamente, se centrará.

O lendário genérico de abertura da série, na sua versão brasileira

Exibida pela TVI ali por volta de meados da década, 'Esquadrão Classe A' é até hoje tida como o exemplo perfeito de uma dobragem que supera o original; isto porque a adaptação para português do Brasil era tão, mas tão bem feita que ajudava a tornar a série ainda mais aliciante para o público-alvo do que ela já era. O trabalho dos actores brasileiros era (foi) tão marcante, que quem tenha visto sequer um episódio desta versão da série certamente não esquecerá, por exemplo, a exclamação do Baracus de Mr. T, que jurava a cada episódio 'não entrar em avião nenhum' - invariavelmente, momentos antes de ser visto a bordo de um avião. Estes pequenos detalhes, que também se podiam encontrar, por exemplo, nas dobragens dos filmes Disney da época, ajudavam a acentuar o sub-texto cómico da série, dando-lhe o balanço perfeito entre acção e momentos mais 'leves' - receita quase infalível para o sucesso de qualquer série da época.

Apesar de essa dobragem ter sido o principal motivo pelo qual 'The A-Team' perdurou na memória da 'Geração X' e 'millennial' portuguesas, no entanto, a mesma foi sumariamente deixada de parte em subsequentes transmissões da série na televisão nacional: tanto a repetição que passou na SIC Radical como a que a RTP Memória exibiu se baseavam na versão 'Soldados da Fortuna', exibida nos anos 80 com a trilha sonora original legendada em Português; uma pena, já que, para muitas ex-crianças e jovens da época, 'The A-Team' é daquelas séries que (como Power Rangers, por exemplo) nunca parece totalmente 'certa' sem os personagens a falar português...

05.04.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há alguns meses atrás, falámos aqui do Lecas, o personagem 'criança grande' que, em finais da década de 80 e inícios de 90, apresentava a sua Hora homónima, e que se tornou tão popular que chegou a gravar e editar um disco de músicas originais; hoje, vamos falar do próximo projecto abraçado pelo homem que o criara e lhe vestira a pele durante vários anos – o apresentador José Jorge Duarte.

Em estado de graça entre o público infantil, como resultado do seu estilo hiperactivo e energético de actuar enquanto Lecas, Duarte decidiu, em 1991, despir o 'fato' de personagem, e tentar a sua sorte em nome próprio, e num formato diferente: enquanto que a 'Hora do Lecas' era um programa de variedades com foco na apresentação de desenhos animados, o novo projecto seria um concurso de moldes clássicos. Em comum, os dois programas tinham, apenas, o facto de serem gravados em auditório, e dirigidos a um público infanto-juvenil, aquele que mais facilmente reconheceria o nome do apresentador, e teria interesse numa emissão por ele apresentada.

O resultado final deste desiderato foi 'Tal Pai, Tal Filho', concurso produzido pela Duvídeo, de Teresa Guilherme, e estreado na mesma RTP d''A Hora', menos de um ano depois de a mesma ter saído do ar - um 'timing' presumivelmente destinado a evitar que o nome de Duarte se esvaísse da sempre efémera memória das crianças.

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Com muitas semelhanças com outros concursos da época, como a mítica 'Arca de Noé' – então no pico da popularidade, e que adoptaria um formato semelhante para as suas últimas temporadas, apresentadas por outro ícone da televisão infantil da época – 'Tal Pai, Tal Filho' via equipas de um adulto e uma criança (normalmente familiar ou amiga) competir entre si em provas de cariz criativo e cultural, que iam desde criar um conto a cantar uma música ou representar uma peça de teatro.

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O apresentador, junto ao quadro com as diferentes categorias de provas disponíveis

A julgar cada 'performance' estava um júri de celebridades e respectivos mini-companheiros (também eles familiares ou amigos próximos dos jurados), cujas classificações numéricas de 0 a 10 perfaziam o total de pontos de cada equipa. No final, a equipa vencedora tinha direito a escolher entre uma série de prémios bastante típicos dos concursos da época e, na altura, incrivelmente aliciantes, desde viagens a computadores e outros produtos electrónicos. Pelo meio, havia ainda lugar aos interlúdios musicais típicos deste tipo de programa à época.

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Um típico painel de jurados do programa

Nada de incrivelmente inovador, portanto, mas suficiente para satisfazer o público-alvo, para quem o conceito interessante e um Duarte tão energético como sempre (já para não falar do tema inicial, daqueles tão 'peganhentos' que por aqui, ainda é parcialmente recordado três décadas depois) eram suficientes para justificar a hora passada à frente da televisão – embora não chegassem para manter o concurso no ar mais do que um ano.

Sim, 'Tal Pai, Tal Filho' foi mais um de entre vários concursos noventistas a desaparecer das televisões portuguesas tão rapidamente quanto tinha surgido; no caso, foram 41 emissões semanais, entre Outubro de 1991 e Agosto do ano seguinte, uma marca bem aquém da referida Arca de Noé (que se manteria no ar mais três anos, estabelecendo-se como o programa de concursos infantil mais duradouro da época) e mais condicente com emissões tão Esquecidas Pela Net como o Trocado em Miúdos (do qual, em tempo, também aqui falaremos.)

Ainda assim, para quem viu e fazia parte da demografia-alvo, tratou-se de um programa bem conseguido, que tentou afirmar-se por mais do que apenas o nome do apresentador, missão que, de um certo prisma, se pode dizer ter sido cumprida – ainda que não de forma tão longeva quanto, presume-se, teria sido desejável para a direcção da RTP. O referido apresentador, esse, transitaria para novos e mais altos vôos, nem todos direccionados ao sector infanto-juvenil (embora os mais famosos definitivamente o sejam). Desses, talvez um dia falemos; para já, e para quem não viu ou quiser matar saudades, partilhamos abaixo o único episódio de 'Tal Pai, Tal Filho' disponível online, para que os nossos leitores tirem as suas próprias conclusões sobre se o mesmo merecia ou não ter permanecido mais tempo no ar...

28.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A adaptação de bandas desenhadas para um formato animado não é, de todo, um conceito novo, ou até moderno; pelo contrário, desde há várias décadas que companhias como a Hanna-Barbera e a Warner Bros. vêm tirando dividendos da adaptação de BD's, nomeadamente de super-heróis, a um formato igualmente serializado, mas em meios audio-visuais.

A 'nossa' década não é excepção - de Batman a Charlie Brown, são vários os exemplos desta tendência que deram azo a séries animadas de grande qualidade, e extremamente bem-sucedidas. E à cabeça desta ilustre lista de nomes encontra-se um dos poucos casos em que a série animada é melhor e mais conhecida e respeitada do que o próprio material original: a fabulosa adaptação animada das tiras de Garfield, de Jim Davis.

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Com um conceito, ao mesmo tempo, demasiado simples para sustentar episódios de vários minutos de duração e demasiado sofisticado para o público consumidor de animação televisiva, 'Garfield' não parecia, à partida, ser um candidato natural a este tipo de tratamento; o feito de Mark Evanier e Sharman DiVorno não pode, portanto, ser considerado menos do que portentoso, já que os dois guionistas responsáveis pela adaptação conseguiram criar, a partir do material de Davis, uma das melhores séries animadas de finais dos anos 80 e princípios de 90.

De facto, as aventuras de Garfield, do seu dono, o neurótico solteirão Jon Arbuckle, do 'melhor inimigo' Odie (o cão de Jon) e do irritante Nermal, o autoproclamado 'gatinho mais querido do Mundo', provaram ser capazes não só de realizar a transição da página para o ecrã, mas de melhorarem como resultado da mesma; com uma tela mais vasta sobre a qual criar novas situações, e o contexto animado a permitir explorar os limites do realismo, os dois argumentistas deram asas à imaginação, criando situações progressivamente mais mirabolantes nas quais colocar o gato laranja e a sua sofredora família adoptiva. De tramas de mistério a situações de meta-humor – alguns dos episódios mais memoráveis incluem disputas com membros da equipa de guionistas e artistas da série – sem esquecer alguns episódios mais tradicionais e de estilo 'slice of life', Evanier e DiVorno não só conseguiram transformar Garfield numa série animada acima da média, como demonstraram criatividade suficiente para a manter no ar durante SETE TEMPORADAS (de 1988 a 1994), sempre com material original, e na sua maioria perfeitamente hilariante.

A verdade, no entanto, é que mesmo que as tirinhas de Garfield não tivessem rendido como fonte de inspiração, os criadores de 'Garfield e Amigos' – pois assim se chamava a versão animada – tinham um 'plano B' na manga, assente precisamente nos 'Amigos' do título. Isto porque, à semelhança de outro gato alaranjado, gordo e preguiçoso de quem aqui recentemente falámos, Garfield não era estrela única do programa com o seu nome; mas enquanto Heathcliff partilhava o seu titulo com personagens criados pela equipa de animadores, os criadores de Garfield tinham a sorte de poder contar, como protagonistas secundários, com o outro grupo de personagens criados por Jim Davis – os animais da Quinta do Orson, cenário das menos conhecidas séries de tiras U. S. Acres.

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Os habitantes de U. S. Acres - a 'Quinta do Orson' - dividiam o protagonismo com o próprio Garfield

E embora estes segmentos do programa não fossem tão unânimes entre o público-alvo como os protagonizados por Garfield, o certo é que havia também muito do que gostar nos episódios de Orson e companhia – dos medos muitas vezes infundados do paranóico Pato Wade à 'esperteza saloia' do Galo Roy, ou à comédia física e silenciosa de Sheldon, um pintainho ainda na casca, e apenas com as pernas de fora. No cômputo geral, a Quinta do Orson servia honradamente a sua função de adicionar diversidade ao programa, sem com isso retirar protagonismo ao seu personagem principal, e constituía mais um dos trunfos da série.

E já que falamos em trunfos, nenhuma análise de 'Garfield e Amigos' fica completa sem que se faça referência à sonoplastia. Simplesmente falando, quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da decisão da RTP de, em 1991, 'importar' Garfield em versão original, a mesma foi, sem dúvida, acertada – teria sido um crime dobrar a série em português, perdendo assim o excelente trabalho vocal de Lorenzo Music (A voz de Garfield por excelência), Frank Welker, e restantes artistas de voz. Isto sem falar dos pequenos toques de génio na banda sonora (como o icónico tema de Odie, que toca sempre que o mesmo surge em cena) ou do magnífico genérico inicial, um dos melhores e mais contagiantes de toda a década, e que fãs da série certamente ainda saberão 'de cor e salteado' três décadas depois. E não, não estamo a falar do tema 'assim-assim' que muita gente ainda hoje crê ser o genérico de 'Garfield', mas que na verdade apenas foi usado nas últimas séries:

Ponto a favor: este vídeo inclui um episódio da genial série de 'gags' 'Gritando com o Binky'

Falamos DESTA obra de arte, que introduziu os episódios das duas primeiras temporadas do programa:

Mesmo sem os diálogos do início e fim, continua a ser uma 'bomba'

Em suma, com argumentos inteligentes, excelentes desempenhos e uma banda-sonora acima da média, não é de admirar que 'Garfield e Amigos' tenha sido do melhorzinho que se produziu a nível da televisão infanto-juvenil, não só da sua época, como das últimas décadas em geral; efectivamente, como Tom e Jerry e outros clássicos, esta é daquelas séries das quais não só não é preciso ter vergonha de ter gostado (ou ainda gostar, mesmo em adulto) como também se tem pena de as novas gerações não poderem conhecer em primeira mão, pois decerto lhes agradaria mais do que as fraquinhas séries actuais de Garfield (em CGI, como não podia deixar de ser) e os divertiria tanto como aos seus pais, na mesma idade...

15.03.22

NOTA: Em função da ocorrência a que este post diz respeito, vamos mais uma vez alterar a nossa sequência de posts; as Terças Tecnológicas voltarão nas próximas duas semanas.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A luta livre americana – vulgo 'wrestling' – foi, e continua a ser, parte integrante da infância de muitos jovens pelo mundo fora, não sendo Portugal excepção à regra nesse respeito. Mas enquanto que, hoje, o acesso a esse e outros programas é tão fácil quanto imediato, graças aos serviços de 'streaming' e canais por subscrição, nos anos 90, o panorama era um pouco diferente; nesses anos, quem gostava de ver luta livre estava limitado a um programa, de uma companhia, em um canal, a um dia da semana (pelo menos até a chegada da TV Cabo ter trazido aos lares portugueses os combates da WCW...comentados em alemão).

Falamos, claro, do programa de Luta Livre Americana transmitido pela RTP1 na primeira metade da década, e narrado pelos lendários Tarzan Taborda (o 'nosso' Campeão do Mundo) e António Macedo, que faziam as vezes de Bobby Heenan e Gorilla Monsoon, a então dupla de comentadores da World Wrestling Federation, ainda longe de 'pôr o F a andar' e se dedicar ao Entertainment. Estava-se, então, em plena era dos personagens 'maiores que a realidade' no 'wrestling' americano, e foi na companhia das vozes de Taborda e Macedo que muitas crianças portuguesas da época viram Hulk Hogan, Macho Man Randy Savage e o Ultimate Warrior (os principais 'bons da fita' da altura) derrotar rivais desonestos como Doink, Ted DiBiase (o 'Homem de Um Milhão de Dólares') Yokozuna, e o recém-falecido atleta que hoje aqui homenageamos, o 'Mauzão' em pessoa, Scott Hall – ou, como era conhecido na Federação, Razor Ramon.

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Hall nos tempos da WWF, como Razor Ramon

Nascido em Miami, Flórida, a 20 de Outubro de 1958, Scott Oliver Hall estreou-se como lutador profissional relativamente tarde – em 1984, quando contava já 25 anos – como parte do elenco da então dominante NWA, da qual faziam parte futuros colegas como Dusty Rhodes (que também delineava as 'histórias' e combates da companhia) e Marty Jannetty. Apenas um ano depois, no entanto, muda-se para a rival AWA, onde foi moldado para ser o sucessor do todo-poderoso Hulk Hogan, entretanto contratado pela WWF. Ao lado do também futuro membro da companhia de Vince McMahon, Curt Hennig, Hall conquistaria um título de combate em equipas (tag team), mas optaria por regressar à NWA, pesem embora os planos do promotor Verne Gagne para lhe outorgar o título mundial. Ao todo, seriam quatro anos ao serviço da companhia de Gagne, de 1985 a 1989.

Datam desta época os primeiros testes de Hall na WWF, os quais, no entanto, não tiveram qualquer sucesso; assim, antes de chegar ao 'papel' que lhe daria a fama, Hall teria ainda uma passagem como 'jobber' (perdedor crónico) pela World Championship Wrestling (WCW) – então parte do conglomerado de territórios NWA – e aparições esporádicas em algumas das principais companhias nipónicas e porto-riquenhas, antes de finalmente chegar a acordo com Vince McMahon, em 1992.

Como sempre foi seu apanágio, o dono da WWF tratou de imediato de atribuir uma 'personagem' a Scott Hall, da qual a WWF pudesse reter todos os direitos. No caso, tratava-se de Razor Ramon, uma caricatura cubana inspirada por Tony Montana, o personagem de Al Pacino em 'Scarface' (que, como Hall, era nativo de Miami), e que, como este, era interpretada por um actor que nada tinha de Latino – e cujo sotaque forçado era, no mínimo, duvidoso.

O 'cubano' Razor Ramon em acção contra o 'havaiano' Crush

Ainda assim, Hall interpretava o personagem de forma suficientemente talentosa para se tornar, juntamente com Shawn Michaels, Ted DiBiase e Bret Hart, um dos poucos destaques da época de 'vacas magras' da WWF, em princípios de 90 – precisamente aquela a que tantas crianças portuguesas assistiriam nas transmissões da RTP. Durante este período, Hall estabeleceria um novo recorde de detenção do título Intercontinental, então considerado o 'título dos talentos', por oposição ao título mundial, que ficava normalmente com lutadores mais fisicamente dotados, mas também mais limitados; no total, foram quatro reinos em três anos, o que permitiu a Hall bater o seu próprio recorde, já que, até então, ninguém conseguira ganhar o título mais do que duas vezes.

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Hall/Ramon com o título Intercontinental da WWF

Também durante este período, a 10 de Outubro de 1993, Hall (como Razor Ramon) é um dos lutadores a actuar no espectáculo que a WWF dá no lendário pavilhão Dramático de Cascais, numa das suas primeiras passagens por Portugal.

Anúncio televisivo do evento da WWF em Portugal

A estadia de Hall na principal companhia de luta livre americana duraria até 1996, ano em que algumas peripécias de bastidores com o seu grupo de amigos, conhecido como 'The Kliq' por constituir uma 'panelinha' de lutadores com influência por detrás das cortinas, leva à sua saída para a principal rival da WWF, a WCW, onde surge pela primeira vez a 27 de Maio, como um 'invasor' vindo do público. Ao lado do ex-colega e melhor amigo Kevin Nash, Hall seria um dos responsáveis pelo início do melhor período da companhia, sendo um dos membros fundadores da popularíssima New World Order, um grupo que permitiu à WCW ultrapassar a WWF em volume de audiências durante mais de um ano!

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A estreia de Hall na WCW, a 27 de Maio de 1996

Ao serviço da companhia da Geórgia, Hall – novamente a actuar sob o seu verdadeiro nome – acumularia títulos individuais e de pares, e cimentaria o seu legado no mundo da luta livre, mas contribuiria também para o rápido declínio da companhia, que implodiu sob o peso de inúmeras complicações financeiras, decisões pouco acertadas e jogadas políticas de bastidores. Assim, em 2000, Hall deixa a companhia, voltando a frequentar o circuito independente, com aparições pontuais na Extreme Championship Wrestling – então no pico da popularidade – e novamente no Japão, antes de eventualmente voltar a encontrar o caminho da WWF, que entretanto adquirira a WCW e integrara no seu elenco muitos dos seus principais talentos.

Na sua segunda passagem pela companhia, e já com bastante mais nomeada do que aquando da sua chegada de dez anos antes, Scott Hall foi autorizado não só a manter o seu verdadeiro nome, como a trazer de volta a nWo, agora sob os auspícios da companhia que quase ajudara a derrotar! Foi 'sol de pouca dura', no entanto, e ainda no mesmo ano, 2002, Hall ruma a uma nova companhia que procurava preencher o vazio deixado pela WCW, a Total Nonstop Wrestling (TNA). Os anos seguintes passar-se-iam entre esta companhia – que sofria de muitos dos mesmos males da WCW, e nunca realizaria o seu potencial – e um regresso já tardio à agora denominada WWE, juntamente com alguns dos seus também envelhecidos colegas dos tempos áureos da Federação. Em 2021, o seu nome seria oficialmente adicionado ao Hall of Fame da companhia, coroando de forma merecida uma carreira assolada por problemas pessoais, mas de inegável mérito no contexto da sua profissão de eleição,

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Hall durante o seu discurso de indução ao WWE Hall of Fame, em 2021

Menos de um ano depois deste honroso final de carreira, Scott Oliver Hall viria a falecer ligado a máquinas de suporte de vida, num hospital em Marietta, na Geórgia, após um triplo ataque cardíaco derivado de complicações após uma operação à anca; a sua memória, no entanto, viverá para sempre na mente de quem, em pequeno, o viu derrotar adversários e ganhar títulos, sob as luzes da ribalta, e com narração de Tarzan Taborda... Que descanses em paz, Scott.

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