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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

07.09.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 6 de Setembro de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das principais ambições de qualquer criança é ser ‘crescido’ – o que, muitas vezes, equivale, na mente dessas mesmas crianças, a ser adolescente. De facto, a combinação única entre a falta de responsabilidades e a liberdade de actuação e pensamento que essa época normalmente representa parece, muitas vezes, constituir o balanço perfeito para uma vida agradável – pelo menos até se chegar, efectivamente, à idade adolescente, e se perceber que não é bem assim…

Ainda assim, este ideal dos anos formativos constitui uma das principais razões para o sucesso, entre os pré-adolescentes, de diversas séries direccionadas à faixa etária e demográfica directamente acima da sua; e, nos anos 90, não havia melhor exemplo deste fenómeno do que ‘Beverly Hills 90210’, que em Portugal chegou também a ser conhecido pelo título ‘Febre em Beverly Hills’.

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Produzida por Aaron Spelling, responsável por uma fatia considerável do entretenimento televisivo ‘light’ norte-americano da época, ‘Beverly Hills 90210’ não é só uma daquelas séries repletas de jovens impossivelmente atraentes, na casa dos vinte anos, a representar alunos do décimo-primeiro ano – é o ‘template’ padrão para esse tipo de séries. A par de ‘Melrose Place’ e ‘Dawson’s Creek’ (ambas da mesma época), esta foi a série que introduziu e cimentou muitos dos estereótipos narrativos que este tipo de programa viria a seguir nas três décadas seguintes; digamos que, sem ‘Beverly Hills’, algo como os ‘Morangos com Açúcar’ talvez nunca tivesse existido.

Em Portugal, a série não foi menos influente do que nos seus EUA natais – muito pelo contrário, difícil era passar uma semana sem os actores e actrizes principais da série aparecerem na capa de uma Super Jovem desta vida, em entrevista exclusiva ou simplesmente como alvo de um artigo de curiosidades pessoais. O facto de a série apresentar não um, mas dois dos maiores ídolos entre as raparigas daquele tempo – Jason Priestley e o malogrado Luke Perry – também não abonava nada a favor de quem quisesse ter menor exposição à série, o mesmo se podendo dizer das presenças femininas de Jenny Garth, Tori Spelling (filha do produtor da série) ou da eterna rebelde Shannen Doherty, aqui no papel que a lançaria para o estrelato. No cômputo geral, eram quase ‘pessoas bonitas’ a mais para conviverem todas num mesmo programa – mas a verdade é que era mesmo esse o caso, e que a fórmula resultava mesmo em pleno.

Escusado será dizer que as histórias e enredos de ‘Beverly Hills’ pouco fugiam dos padrões expectáveis de uma telenovela para adolescentes – quem andava com quem, quem acabava com quem, quem engravidava de quem, e por aí adiante. Nada que puxasse demasiado pela imaginação do público-alvo – o qual, diga-se de passagem, talvez não se importasse demasiado com o assunto. Afinal, ninguém via ‘Beverly Hills 90210’ à espera de histórias envolventes e intrigantes; a série era puro escapismo ‘wish fulfillment’ para a demografia a que se destinava – e, por arrasto, também a anterior. Prova disso foi o sucesso de que a série gozou tanto nos Estados Unidos, onde esteve no ar durante toda a década de 90, como em Portugal, onde passou durante apenas metade desse tempo (de 92 a 97) mas suscitou uma ‘Febre’ que fazia jus ao título nacional.

Tal como muitas outras séries daquela época, também 'Beverly Hills 90210’ foi alvo de um ‘remake’ contemporâneo, já no novo milénio; no entanto, se a série original já estava longe de ser uma obra-prima, a nova era ainda pior - tal como, aliás, tende a acontecer na maioria dos casos análogos.

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A sério, isto é mesmo mauzinho...

Assim, mau por mau, sugerimos que se fiquem pela série original, que (apesar de datada, ou talvez precisamente por causa disso) é bem capaz de suscitar um assomo de nostalgia que rivalize com qualquer outra das abordadas até agora neste blog…

31.08.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquêela década.

Os anos 90 serviram de berço a muita e boa música, tanto a nível internacional como especificamente em Portugal – bastando, aliás, passar os olhos pela nossa secção quinzenal dedicada aos artistas musicais mais influentes da década no nosso país para perceber isso mesmo. No entanto, numa era pré-Internet (e todas as facilidades a ela inerentes) nem sempre era fácil ao jovem português comum manter-se a par do que de novo se ia fazendo no espectro do seu estilo preferido, fosse ele o pop-rock, o hip-hop, a dance music, o alternativo, ou até a música pimba.

Felizmente para os aficionados musicais da época, a RTP tinha a resposta para este dilema, sob a forma de um programa exclusiva e especificamente dedicado a passar em revista os ‘tops’ de vendas musicais, segundo as tabelas da Associação Fonográfica Portuguesa.

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Tratava-se do mítico ‘Top +’, um programa tão marcante para a juventude portuguesa como o ‘Templo dos Jogos’ ou o ‘Domingo Desportivo’, e que se inseria no mesmo segmento de emissões especializadas numa determinada área sócio-cultural (neste caso, a música, nos outros, os videojogos ou o desporto), e dirigida a um público-alvo com interesse específico na mesma. E, tal como aconteceu com os outros dois programas mencionados, a fórmula rendeu frutos quase imediatos, sendo o ‘Top +’ tão saudosamente lembrado como qualquer dos seus congéneres.

Transmitido com periodicidade semanal (sempre aos Sábados à tarde, pelas 14h00), dirigido pelo então intocável Carlos Cruz, e apresentado por Francisco Mendes e uma Isabel Figueira ainda longe da fama e das revistas cor-de-rosa, o ‘Top +’ não derivava por aí além do que se vinha fazendo no mesmo campo a nível internacional – aliás, antes da chegada da TV Cabo ao nosso país, aquela hora a seguir ao ‘Jornal da Tarde’ era o que um jovem ‘tuga’ tinha de mais aproximado a uma emissão da mítica MTV. Tal como nos programas exibidos naquele canal, os apresentadores do ‘Top +’ serviam, sobretudo, como elo de ligação entre os diversos segmentos daquilo que verdadeiramente interessava – a música, aqui (como na MTV) traduzida na emissão de ‘videoclips’ dos principais ‘campeões’ de vendas em território nacional.

Um conceito simples, mas de sucesso quase garantido, não tendo o ‘Top +’ sido excepção - no total foram uns impressionantes VINTE E DOIS ANOS no ar, desde o período analógico até ao dealbar da era do 4G, vinte e um dos quais com o mesmo formato (a partir de 2011, passaram também a ser mencionadas no programa as tabelas de vendas digitais, à medida que esta forma de aquisição de música ia ganhando força e presença no mercado.) Quando o programa foi descontinuado, em 2012, tinha o mesmo formato, a mesma duração, os mesmos apresentadores e até o mesmo horário de quando havia começado, em 1990, um feito nada menos do que histórico para qualquer emissão num meio tão volátil como o televisivo (ainda mais em Portugal) e uma prova cabal da relutância dos fãs de música em abandonar um formato que funciona – mesmo quando, como neste exemplo, este já se encontra mais que obsoleto…

A última emissão do Top +, de 2012, em tudo semelhante à primeira, exibida VINTE E DOIS anos antes

 

24.08.21

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 23 de Agosto de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Ainda que, hoje em dia, seja acima de tudo um ‘meme’ ambulante (obrigado, Internet) nos anos 90, Chuck Norris era ainda levado (muito) a sério como herói de acção da ‘velha guarda’, à semelhança do seu homónimo Bronson – estatuto esse que permitia à ‘máquina’ de Hollywood construir toda uma série alicerçada, tão-somente, na sua aura de ‘durão’, e fazer dessa série um dos mais memoráveis sucessos da televisão da década.

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Falamos, é claro, de ‘Walker, Ranger do Texas’, o quase-western cruzado de aventura série B – ou não fosse uma produção da Cannon, famosa por esse estilo de cinema - que, durante anos a fio, marcou as tardes de fim-de-semana das crianças e jovens portugueses, sobretudo as que acompanhavam a programação da SIC, onde a série era transmitida. De 1993 a 2001, foram oito temporadas (embora nem todas tenham passado em Portugal) coroadas por um filme longa-metragem de 2005, que pôs cobro às aventuras de Cordell Walker e Jimmy Trivette, a dupla de xerifes texanos peritos em combate mano-a-mano (ou não fosse um deles interpretado por Chuck Norris) que perseguem criminosos procurados e protegem inocentes famílias do vilão da semana, ao melhor estilo ‘Esquadrão Classe A’ - sempre bem aconselhados pelo veterano ‘ranger’ C. D. Parker e pela advogada Alex Cahill.

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O pequeno mas carismático elenco da série

A fórmula pouco ou nada mudou em quase dez anos (!) de transmissão, mas também nunca deixou de ter sucesso, justificando mesmo a criação de uma série ‘remake’, agora produzida pela The CW e com Jared Padalecki (o Sam de ‘Sobrenatural’) no papel imortalizado por Norris; e embora o sucesso não tenha sido, nem de longe, semelhante, a verdade é que também esta nova série já foi renovada para uma segunda temporada…

Não haja dúvida, no entanto, que no caso de ‘Walker’, se aplica a famosa máxima da Kellogg’s relativa aos seus Corn Flakes – ‘o original é sempre o melhor’. Por muito ‘azeiteira’ que fosse – e era! – a série original traduzia-se numa excelente mistura de um conceito interessante – um ‘western’ moderno com toques de policial ‘grindhouse’ dos anos 80, e de filme de artes marciais dos 90 – com um herói carismático e bem do agrado do público-alvo. Sendo esta uma fórmula ‘feita’ para ter sucesso nos anos 90, não se afigura de todo surpreendente que tenha sido exactamente esse o caso; já em pleno século XXI, com as mentalidades e valores totalmente alteradas em relação à referida época e uma oferta televisiva e de séries vastamente alargada, um programa algo ‘antiquado’ e ‘de época’ como ‘Walker’ terá mais dificuldades em se impor ou se tornar memorável – ainda que a corrente apetência para a nostalgia possa fazer com que o original continue a ser visto como objecto de culto. Para já, a série de Norris vai passando na RTP Memória, dando aos mais curiosos ou saudosistas a oportunidade de ver se aquela série mítica da sua infância é das que resiste à passagem do tempo, ou se, afinal, a aura 'cool' que a parecia rodear à época não passava de um ‘sintoma’ da infância…

26.07.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quantas mascotes de eventos desportivos conhecem que tenham a sua propria série animada, com personagens criados propositadamente e até um antagonista? Caso tenham sido crianças, em Portugal, no Verão de 1992, é provável que a resposta seja ‘pelo menos uma’.

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Isto porque Cobi, a simpática mascote de Barcelona 92 que era uma representação minimalista de uma raça de cão local, teve uma breve mas bastante honrosa passagem pelas ondas de UHF, na forma de ‘The Cobi Troupe’, uma série de 26 episódios que via o personagem e um grupo de amigos embarcar em aventuras e estragar os típicos planos malévolos do vilão, o Dr. Normal. Uma premissa algo rebuscada para uma mascote olímpica – seria talvez mais de esperar algo ao estilo Sport Billy – mas que funcionou bastante bem no contexto de curta duração da série.

Em termos técnicos, ‘The Cobi Troupe’ era bastante bem conseguido; a animação era fluida, os personagens tinham um estilo próprio – típico do seu criador, Mariscal – e as histórias, apesar de não serem particularmente originais ou memoráveis, eram divertidas o suficiente para passar o tempo. Isto, claro, sem esquecer o genérico, que era daqueles que ‘cola’ no cérebro durante literalmente décadas, e que provavelmente se irão encontrar a trautear, um belo dia, vinte anos depois de terem visto a série pela última vez…

Em suma, para série declaradamente ‘cash-in’ de um evento específico, com um contexto específico, e que não tinha qualquer hipótese de perdurar para lá do fim do mesmo, ‘The Cobi Troupe’ é melhor do que tinha qualquer direito de ser, e muito melhor do que teria precisado de ser. E embora a sua passagem pela TV portuguesa (na RTP, no ano da olimpíada, em versão original) não tinha sido particularmente memorável (à parte o genérico) em Espanha, a animação deu origem a uma mini-série de revistas aos quadradinhos, com seis números, e até a um CD de músicas alusivas a Cobi e aos Jogos Olímpicos!! (Com sorte, tinha a música do genérico da série, que era mesmo muito boa…) Enfim, nada mau para um membro de um grupo de personagens que muito raramente é lembrada durante os eventos que representam, quanto mais depois deles…

Desculpas antecipadas pela má qualidade de imagem...

06.07.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

(NOTA: Este post é dedicado ao José Miguel, primeiro a sugerir este programa como futuro tema aqui do blog.)

‘Huuuugoooo…p’rá esquerda e p’rá direita, sem fazer asneiras…’ Qualquer jovem que visse televisão pública da parte da tarde entre os anos de 1997 e 2000 sabia estas palavras de cor, e estará provavelmente a vivenciar um enorme momento de nostalgia ao assistir ao vídeo acima. Isto porque ‘Hugo’ – o programa cujo genérico incluía as referidas palavras – foi um dos maiores sucessos de programação infanto-juvenil durante aqueles anos, cativando espectadores desde a idade pré-primária até ao final da adolescência com o seu formato original, apresentadores carismáticos e, claro, a possibilidade de ganhar prémios, ainda e sempre um dos maiores catalisadores de acção entre os jovens.

O que a maioria dos espectadores do programa talvez não soubesse na altura era que Portugal era apenas a paragem mais recente na ‘volta ao Mundo’ do personagem central. Criado na Dinamarca mesmo no início da década, e baseado em criaturas do folclore local, os ‘trolls’, Hugo não tardou a expandir as suas aventuras a outros países; curiosamente, a primeira paragem internacional foi a vizinha Espanha, que recebeu o programa cinco anos antes da outra metade da Península Ibérica. Ao completar uma década de vida, o simpático duende surgira já em 26 dos 40 países que eventualmente atingiria, e a sua presença mediática extravasara a televisão, estendendo-se a vários jogos de vídeo e computador (a maioria recriações fiéis do programa televisivo, mas jogados com o comando ou teclas, em vez de por telefone), bem como a artigos periféricos, como peças de roupa. A influência do personagem continua, aliás, a fazer-se sentir até hoje, existindo vários jogos recentes com o duende como personagem principal, muitos deles já longe do formato e história que o tornaram conhecido, e com Hugo no papel de condutor de corridas ou até agente secreto.

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O primeiro jogo de Hugo para PlayStation é basicamente uma compilação das suas aventuras televisivas em formato caseiro

No início, no entanto, a vida do carismático ‘troll’ era bem mais simples, embora não menos aventurosa; nessa época, a única preocupação de Hugo era – como a música original portuguesa prestavelmente informa – ‘salvar a familia da Bruxa Maldiva’. Para tal, era necessário conquistar uma série de diferentes cenários, normalmente centrados em torno de ambientes naturais, como uma floresta ou uma montanha. Fosse qual fosse o local da aventura, no entanto, a formula de jogo era a mesma – Hugo era controlado pelos jovens jogadores através do telefone, normalmente por meio das teclas correspondentes às setas direccionais, ou seja, 2, 4 e 6. O resto era uma questão de ‘timing’, a fim de evitar os obstáculos (tanto naturais como criados por Maldiva) e recolher os sacos de dinheiro estrategicamente colocados pelo caminho. Quanto mais sacos recolhidos e obstáculos evitados, melhor era a pontuação final; de igual modo, cada vida perdida equivalia a um decréscimo na pontuação (três ‘mortes’ equivaliam automaticamente a ‘Game Over’.)

Caso o jogador fosse bem-sucedido e conseguisse chegar ao fim desta prova, o jogo passava a uma segunda fase (sempre semelhante, independentemente do cenário jogado) em que Hugo defrontava directamente Maldiva, ficando o destino da sua família, neste caso, dependente não tanto da habilidade, mas da sorte e escolha da tecla correcta por parte do jogador. Uma escolha acertada atirava Maldiva para a sua morte no sopé da montanha, permitindo a Hugo e Hugolina ter um final feliz num idílico prado; qualquer outra tecla via a família de Hugo ser novamente aprisionada pela Bruxa, num final inglório para os esforços do jogador.

Uma boa demonstração da mecânica dos jogos, aqui aplicada a uma missão já da segunda série de aventuras.

No fim de cada jogo, a pontuação do participante era somada e adicionada à tabela geral da semana, sendo que (pelo menos na versão portuguesa) o ‘Craque’ de cada dia recebia um dos muito cobiçados prémios, que iam desde ‘merchandising’ alusivo ao duende até produtos bem desejáveis para os jovens da época, como Discmans e patins em linha; já o ‘Craque’ da semana recebia uma bicicleta. No final da mês, os ‘Craques’ de cada semana defrontavam-se pelo direito a ganhar o prémio máximo – um magnífico computador modelo ‘anos 90’. Em ocasiões especiais, havia também eventos como a ‘Grande Final Semestral’ anunciada abaixo, e que teve lugar no Dia da Criança de 1998, pondo frente a frente os seis ‘Craques’ mensais do ano até então.

Um conceito aliciante e altamente competitivo, portanto, o qual era envolvido num programa não menos cativante, com apresentadores jovens e dinâmicos, que sabiam criar e transmitir o entusiasmo necessário, bem como estabelecer uma ligação com os diferentes participantes, fazendo perguntas, admirando os desenhos e trabalhos manuais que enviavam, ou até oferecendo dicas para os ajudar a ultrapassar os diferentes obstáculos e momentos de cada jogo. Tendo em conta a vasta faixa etária que constituía o público-alvo do programa, estes jovens mostravam-se bem versados em tornar o mesmo atraente para todas as idades, sabendo manter o interesse do público sem nunca simplificar ou complicar demais a sua abordagem. A auxiliar os diferentes apresentadores nessa tarefa estava o próprio Hugo, que interagia com o estúdio a partir da sua casa na Hugolândia.

Quanto aos participantes, este ganhavam o direito a jogar o jogo daquela semana ou da semana seguinte, quer através do envio de uma frase subordinada a um tema previamente estabelecido, comunicada por telefone na primeira meia-hora após o programa, quer de trabalhos alusivos ao personagem principal; claro està que ambos estes métodos dependiam tanto da sorte como da criatividade, e apenas uns poucos sortudos chegavam a participar, variando o seu número consoante a habilidade dos seus predecessores – quanto mais rápidos fossem os ‘Game Overs’, mais pessoas cabiam na meia-hora de transmissão, o que terá, decerto, feito muitas crianças desejarem ‘mortes’ rápidas àqueles que jogavam antes deles…

Enfim, um programa que marcou absolutamente a época em que foi transmitido, apesar da sua estadia relativamente curta no ar. Tanto assim foi que Hugo regressaria, não uma, mas duas vezes às televisões nacionais, já no novo milénio, com novos jogos, amigos e apresentadores.

Excerto de 'Hora H', o primeiro dos dois programas de 'regresso' de Hugo à televisão nacional

No entanto, nenhuma destas novas séries teve o impacto da original, que continua, ainda hoje, a perdurar na memória daqueles que, tarde após tarde, desejavam ter conseguido um lugar na emissão daquele dia, e poder ajudar Hugo com qualquer que fosse a sua missão naquela semana - o mesmo se passando, aliás, com o tema-título. 'Huuugo, p'ra cima e para baixo, até à Caverna das Caveeeeiraaaaas...'

02.07.21

NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 28 de Junho de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Hoje em dia, quando se fala em clones dos lendários Simpsons, a primeira série que vem à cabeça é ‘Pai de Família’. No entanto, esta não foi, nem por sombras, a primeira tentativa de emular a super-popular série de Matt Groening; pelo contrário, os anos 90 viram surgir inúmeras séries exactamente nos mesmos moldes de ‘Os Simpsons’, apenas com uma ligeira mudança. No fundo, uma situação semelhante à daqueles filmes descritos como ‘Assalto ao Arranha-Céus mas com…’, só que neste caso relativa a séries – uma situação, aliás, semelhante à que se verificava, na mesma altura, relativamente aos ‘clones’ de ‘Tartarugas Ninja’.

Um dos mais populares de entre esta vaga de ‘imitadores’ de ‘Os Simpsons’ era uma série produzida em início dos anos 90 pela Jim Henson Television, em parceria com a Disney, e cujo conceito se pode resumir como ‘Os Simpsons, mas na pré-história’. Falamos, claro, de ‘Os Dinossauros’, uma ‘sitcom’ criada através de uma mistura de fantoches estilo ‘Marretas’ e actores dentro de fatos de borracha, que também se poderia descrever como ‘Os Flintstones, mas com dinossauros’.

Estreada nos Estados Unidos em 1991 e em Portugal no ano seguinte, em versão dobrada e com transmissão nas tardes de fim-de-semana da RTP, ‘Os Dinossauros’ segue as peripécias diárias dos Sinclair, uma família de classe média composta pelo pai, Earl, a mãe, Fran, e três filhos: os adolescentes Robbie e Charlene, e a ‘estrela da companhia’, o descritivamente nomeado Bebé (inicialmente baptizado, devido a uma situação insólita, como Ai, Ai, Estou a Morrer Seu Idiota Sinclair). Ou seja, exactamente a mesma estrutura de uma outra família televisiva da mesma época, só que com pele verde em vez de amarela…

(Curiosamente, segundo os produtores, Jim Henson teria desenvolvido o conceito de ‘Os Dinossauros’ ainda antes da estreia de ‘Os Simpsons’; no entanto, o ‘timing’ da estreia, no auge da popularidade da série de Matt Groening, torna inevitáveis as comparações e acusações de ‘cópia’.)

A verdade, no entanto, é que ‘Os Dinossauros’ TINHA algumas diferenças em relação a ‘Os Simpsons’. Para começar, o agregado familiar dos Sinclair incluía também a mãe de Fran, Zilda (no original, Ethyl), uma típica ‘sogra do pior’, sempre a atormentar Earl do conforto da sua cadeira de rodas; depois, Earl trabalhava num estaleiro de desflorestação, por oposição a uma central nuclear, como ‘um outro’ careca, ou a uma pedreira, como o ‘quase-contemporâneo’ Fred Flintstone; por fim, o facto de os filhos do casal serem mais velhos do que os das outras famílias (quer os ainda bebés Pedrita e Bam-Bam, quer os estudantes primários Bart e Lisa) permitia alguma variedade nas histórias em relação às suas duas inspirações.

Também pode ser considerado que, ao mostrarem um casamento entre duas espécies diferentes de dinossauro, os produtores estavam inconscientemente a transmitir uma mensagem sobre tolerância inter-racial – embora nada disso explique o facto de TODOS os dinossauros da família (excepto Earl e o Bebé) serem de espécies diferentes, mesmo os que são filhos uns dos outros! Poder-se-ia, claro está, debater que essa incongruência é, em si mesma, uma piada – nomeadamente, uma alusão a Fran ter tido casos extra-conjugais que resultaram no nascimento de Robbie e Charlene – não fosse o facto de a própria Fran ser filha de uma espécie de dinossauro completamente diferente da sua! Ou havia muitos casos extra-maritais na pré-história, ou este era mesmo um daqueles absurdos em que ninguém pensou antes de encetar o processo de pré-produção…

À parte estas diferenças intencionais ou acidentais, no entanto, tudo o resto - das dinâmicas familiares, a algumas das situações, ao facto de Earl ter um grupo de amigos no trabalho, exactamente como Homer com Lenny e Carl, à sua relação com o chefe, Sr. Richfield, decalcada da de Fred Flintstone com o Sr. Slate - ‘tresanda’ às duas principais inspirações da série – o que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso da série, tanto nos seus Estados Unidos natais como, mais tarde, em Portugal.

A outra parte desse sucesso deve-se àquela que, ainda hoje, continua a ser a parte mais memorável desta série, nomeadamente as ‘catchphrases’ dos diversos personagens. Quem se lembra de, ali por volta de 1992, gritar no recreio ‘Queridaaa, chegueeeei!’ ou ‘Não és a Mamã!’ (enquanto fingia agredir a outra pessoa com um golpe de caçarola na cabeça) certamente saberá do que estou a falar. No que toca ao público infantil, estes dichotes (e os constantes e hilariantes ataques do Bebé ao pai) eram, praticamente, razão suficiente para ver a série, porque mesmo quando os episódios eram de compreensão mais obscura ou adulta, havia sempre estes ‘bordões’ aos quais se agarrar para rir um bocado.

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Eh, eh, eh...ainda hoje tem piada...

Como resultado desta tendência, o Bebé, em particular, tornou-se um personagem extremamente popular - uma espécie de Bart Simpson de fraldas, com toda a irreverência e jeito para a frase-feita deste, mas de uma perspectiva algo mais inocente. Era, aliás, nele que se centrava o pouco ‘merchandise’ alusivo à série que chegou a Portugal, com particular destaque para o jogo de tabuleiro, precisamente intitulado 'Não És a Mamã!’, e cujo objetivo envolvia arranjar comida para o membro mais novo da família.

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Mas existem Funkos...porque CLARO que existem Funkos 

Enfim, apesar de não ter ficado no ar muito tempo (pelo menos em Portugal – nos EUA, teve várias temporadas) ‘Os Dinossauros’ conseguiu ser uma série bem memorável para a juventude da altura, e deixar a sua marca num dos períodos áureos da televisão infanto-juvenil em Portugal. Nada mau, para um clone de segunda linha dos Simpsons…

15.06.21

NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 14 de Junho de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A imagem é icónica – um jovem adolescente, de cabelo pontiagudo, conduz a bola por um campo interminável afora, aproximando-se de uma baliza que vai, gradualmente, aparecendo no horizonte. Uma vez as redes à vista, o mesmo desfere um potente remate; o guarda-redes adversário estica-se, mas em vão – a bola ultrapassa-o, em arco, e anicha-se literalmente nas redes, por vezes chegando mesmo a furá-las, tal a violência do tiro.

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Podem começar já a festejar...este já lá mora

A cena é, claro, retirada de ‘Captain Tsubasa’, quiçá a mais famosa série animada sobre futebol de todos os tempos, e uma velha conhecida das crianças portuguesas de finais do século XX e inícios do XXI. Isto porque, ainda antes da memorável transmissão, no canal Panda, da dobragem espanhola de ‘Captain Tsubasa J', e das subsequentes (e múltiplas) transmissões da série original e de ‘Road to 2002’ com dobragem portuguesa, sob o título ‘Oliver e Benji - Super Campeões’, a primeira encarnação da série já havia passado nas RTPs, no início da década de 90, com o título ‘Capitão Hawk’ - uma ‘mais ou menos tradução’ do título original da série – e na sua versão original em japonês. Ou antes, os primeiros 50 e poucos episódios passaram em japonês (na RTP1); a partir do episòdio 54, a série passa para a RTP2, e é, inexplicavelmente, transmitida na dobragem italiana!

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Cena-título do genérico da série original de 'Captain Tsubasa', transmitida na RTP em 1993

Ainda assim, este foi, para muitas crianças, o primeiro contacto com uma das mais míticas séries da primeira vaga de anime – contacto que se viria, posteriormente, a restabelecer aquando da transmissão da série no Panda (a ‘reprise’ na SIC e TVI já foi mais relevante para a geração seguinte do que propriamente para a que seguira a série em 93-94.)

O que muitos dos jovens fãs de Tsubasa talvez não soubessem (ou que entretanto podem ter esquecido) é que houve, durante os anos a que este blog diz respeito, várias outras séries sobre futebol a passar na televisão portuguesa – nenhuma, obviamente, com o nível de sucesso de Oliver, Benji e seus companheiros, caso contrário seriam recordadas até hoje. Ainda assim, em tempo de Europeu, vale a pena recordar estes desenhos animados, ainda que nenhum deles fizesse referência a esta competição ou fosse sequer feito neste continente.

E já que iniciámos este post com uma referência a Oliver e Benji, nada melhor do que continuar com uma breve alusão a uma série que pouco ou nada tinha a ver com esta. Senão veja-se – ‘O Ponta de Lança’ (no original ‘Ganbare, Kickers!’ trata de uma equipa de futebol de um colégio, que tenta a todo o custo não ser o ‘bombo da festa’ dos torneios inter-escolas, até se ver reforçada com um estudante de intercâmbio com algum jeito para a coisa, e que revoluciona o estilo de jogar do colectivo, bem como as suas ‘performances’ em campo. Ah, e o capitão e líder desta equipa é o guarda-redes, o único outro elemento com algum talento. E o dito guarda-redes usa boné. E o titular ponta-de-lança tem cabelo preto espetado. E o equipamento da equipa é branco. NADA a ver com ‘Tsubasa’, portanto…

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Qualquer semelhança é pura coincidência...

Sarcasmos à parte, ‘O Ponta-de-Lança’ é TÃO parecido com ‘Super Campeões’ que um espectador mais distraido corre mesmo o risco de confundir as duas séries. Previsivelmente, esta táctica declaradamente ‘copycat’ (‘Tsubasa’ foi criado em 1981 e transformado em anime em 1983; ‘Kickers’ é de 1985, e a versão anime, do ano seguinte) não se traduziu em sucesso, tendo a série tido apenas uma temporada, de 26 episódios, e passado quase despercebida pela RTP1, sensivelmente um ano depois de ‘Tsubasa’ ter sido transmitido na mesma emissora (até aqui o padrão se manteve!), sem no entanto conseguir suprir a lacuna deixada pela partida de Oliver e Benji.

E já que falamos em animes de futebol, uma breve nota para recordar ‘I Ragazzi del Mundial’, ou ‘Soccer Fever’ (o título português era algo como 'A Febre do Mundial de Futebol'), uma co-produção entre o Japão e a Itália alusiva ao Mundial de 1994, e a única das séries aqui abordadas a ter ligação directa a uma prova real do mundo do futebol, ainda que não ao Campeonato Europeu.

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As personagens principais de Soccer Fever, de 1994

Nela, um jornalista reformado aproveita o entusiasmo do jovem neto pela prova em causa para recordar as peripécias que vivera mais de 60 anos antes, durante a cobertura do Mundial de 1930. Estas histórias serviam, então de pretexto para dar lições de ‘história ficcionada’ sobre a prova do início do século, numa espécie de ‘Horrible Histories’ futebolístico. Uma série bem escrita, bem animada e com um grande tema de abertura, mas que por qualquer razão passou despercebida aquando da sua transmissão no Canal Panda, em finais da década de 90 – e escusado será dizer que pelo menos essa transmissão portuguesa se insere na cada vez mais vasta categoria de Esquecidos Pela Internet…

Uma série com ESTE tema de abertura não merece cair no esquecimento...

O mesmo, aliás, se pode dizer da última série abordada neste post. Transmitida no Batatoon com o genérico título de ‘Histórias do Futebol’, afirmava-se como a verdadeira trasladação do conceito de ‘Horrible Histories’ para um contexto futebolístico, apresentando as viagens através do tempo de um locutor de futebol escocês (de boina e kilt – afinal, estávamos nos anos 90…) e do seu microfone, que tinha vida própria. Em cada episódio, este duo visitava uma época diferente da História (daí a parecença com Horrible Histories) para assistir a uma partida de futebol entre equipas convenientemente ‘adaptadas’ ao período em causa, durante os quais havia ensejo de realçar e explicar uma das regras oficiais do jogo (daí a tradução inglesa do título como ‘Official Rules of Football’.)

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Esta era, também, uma série bastante boa, sem ser nada de extraordinário; no entanto, nos dias que correm, a mesma parece ter sido quase totalmente esquecida pelos internautas, a ponto de haver exactamente UM tópico em toda a Internet lusófona que a recorda – e episódios, só em Inglês, naturalmente...

Como tema de abertura, este também não é nada mau...

Mesmo esquecidas como hoje em dia são (com a óbvia excepção de ‘Tsubasa’ que, qual fénix, regressa de tempos a tempos para cativar mais uma geração de jovens adeptos) vale a pena fazer menção a estas séries, que procuravam unir duas das principais paixões das crianças, sejam de que época forem. É de lamentar, pois, que apenas uma o tenha conseguido – se bem que, no fim das contas, uma seja melhor do que nada…

08.06.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Só a música já deve ter feito a maioria dos leitores deste blog viajar no tempo até aos primeiros anos da década a que este blog diz respeito -altura em que estreava, no principal canal televisivo português, um dos melhores programas infantis da história da televisão nacional.

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Uma adaptação localizada do (também universalmente bem recebido e recordado) original americano, a versão portuguesa da ‘Rua Sésamo’ chegava á RTP1 em 1989, mesmo a tempo de ensinar as primeiras letras, números e conceitos de cidadania a toda uma geração de crianças. Constituído por uma mistura de segmentos ‘made in Portugal’ – basicamente todos os que se passavam no espaço da Rua Sésamo propriamente dita, e ainda algumas das animações – com dobragens dos ‘sketches’ originais da Jim Henson Creature Workshop, o programa gozava de uma produção cuidada, claramente feita com amor, e de uma equipa criativa composta por grandes nomes da literatura e televisão infanto-juvenis da época. O resultado final era um programa, previsivelmente, de enorme qualidade, e que não tardou a capturar a imaginação do público-alvo.

O talento, no entanto, não se ficava pela equipa técnica; os dobradores, bonecreiros e actores da série estavam, também, entre os melhores em solo nacional, sendo que o elenco de ‘carne e osso’ contava com uma mistura de actores consagrados, como Fernanda Montemor, e nomes que se viriam a tornar clássicos da televisão portuguesa em anos subsequentes, como Alexandra Lencastre, Vítor Norte ou José Jorge Duarte. No entanto, e apesar destes grandes nomes, as verdadeiras ‘estrelas da companhia’ eram os bonecos Poupas e Ferrão, adaptações portuguesas do Big Bird e Oscar the Grouch americanos, a quem, a partir da segunda série do programa, se juntaria um terceiro elemento, a dengosa Gata Tita.

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O elenco do programa contava com estrelas tanto presentes como futuras.

Na ‘outra parte’ do programa, eram também os emblemáticos personagens de Jim Henson quem mais captava a atenção do público-alvo, com destaque para Cocas, o Sapo, o frenético e exagerado ‘drama king’ Gualter, o esfomeado Monstro das Bolachas, e a impagável dupla Egas e Becas, companheiros de casa em modo ‘inimigos inseparáveis’ cujos segmentos eram os únicos sem propósito educativo, tendo apenas como finalidade fazer rir - e conseguiam-no, com louvor!

Quem não se lembrou imediatamente desta vinheta assim que viu o nome do Egas e do Becas, não deve ter boa memória...

Um personagem, entretanto, primava pela ausência – e logo o mais famoso de todos os bonecos da versão original. Pois é, a versão nacional da ‘Rua Sésamo’ nunca teve Elmo – e haverá quem diga que os miúdos portugueses tiveram sorte nesse aspecto…

Parte do sucesso do programa devia-se precisamente ao facto de tratarem o seu público com respeito, nunca forçando a vertente educativa, e fornecendo-lhes material adequado à idade e aprendizagens, mas que simultaneamente puxava pela imaginação e incentivava à curiosidade, sem nunca se tornar lamechas - um feito apenas à altura da equipa de ‘craques’ pedagógicos a cargo da adaptação. Foi, em parte, esta abordagem frontal e honesta que permitiu ao programa manter-se no ar durante espantosos sete anos, sem nunca deixar de ter a mesma recepção calorosa e interessada por parte das crianças que a acompanhavam, e chegando mesmo a ser referenciada no titulo de uma música punk de intervenção (!) Em suma, a ‘Rua Sésamo’ é daqueles programas com estatuto de clássico tanto entre as crianças da altura como entre os seus pais – e que o justifica plenamente, em ambos os casos.

Não, não estávamos a inventar aquilo da malha punk de intervenção...

Como não podia deixar de ser, um programa com este grau de popularidade abria vastas oportunidades de mercado, e não tardaram a começar a aparecer nas prateleiras das lojas produtos com a chancela ‘Rua Sésamo’. Muitos destes, como a maioria os livros e algumas das cassettes VHS, eram simples importações directas e traduzidas de material pré-existente no mercado norte-americano, com os correspondentes personagens de ‘cores erradas’ e cenários nova-iorquinos; no entanto, havia também um grande número de produtos totalmente concebidos em Portugal, dos quais os mais memoráveis talvez sejam os discos de ‘Canções da Rua Sésamo’, cujo sucesso justificou vários volumes.

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Alguns dos muitos produtos alusivos ao programa comercializados em Portugal na época, tanto com os personagens portugueses como americanos

Um produto, no entanto, destaca-se dos demais, não só pela sua qualidade ‘à parte’ como também por ter sobrevivido como elemento independente do programa que o originara. Falamos, é claro, da revista com o mesmo nome, talvez o melhor exemplo de revista de passatempos e variedades para um público infantil alguma vez criada em Portugal.

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Alguns dos muitos números da revista 'Rua Sésamo', um complemento de enorme qualidade ao programa televisivo

Mantendo-se fiel ao conceito do programa, a revista trazia passatempos, jogos e pequenas histórias que permitiam às crianças assimilar conhecimentos e desenvolver competências de um modo divertido e cativante, bem como um 'Guia Para Pais e Educadores', que procurava explicar os valores e competências que cada segmento da revista e do programa procurava transmitir, e sugeria actividades complementares para os próprios educadores realizarem com as crianças. Não admira, portanto, que a revista tenha sido um êxito quase tão grande como o programa, e seja hoje lembrada com tanto carinho quanto este, tanto pelas crianças a quem se dirigia como pelos seus pais.

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O programa chegou a ter honras de capa na revista 'TV Guia'

Em suma, a ‘Rua Sésamo’ portuguesa foi daqueles raros programas em que tudo foi bom, do início ao fim. Enquanto a congénere americana continua a debater-se em estertores cada vez mais comerciais, desvirtuando assim o seu legado, a congénere lusa soube quando parar, e conseguiu por isso manter fiel um público que, entretanto, talvez tivesse já crescido demasiado para ainda gostar de um programa expressamente dirigido à faixa etária dos três a sete anos. De facto, essas mesmas crianças ainda hoje relembram com nostalgia o programa – que certamente já terão feito questão de mostrar aos próprios filhos. Se esse ainda não foi o caso, deixamos abaixo o primeiríssimo episódio na íntegra, como ponto de partida para o 'aprendizado' dos gaiatos; e caso não tenham filhos, aproveitem e revivam vocês próprios as memórias daqueles bons tempos a rir e a aprender com o Poupas, o Ferrão e os restantes personagens que nos eram tão queridos…

 

 

 

31.05.21

NOTA: Este post é correspondente a Domingo, 30 de Maio de 2021.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E porque atualmente se vai desenrolando uma emocionante série de cinco jogos destinada a apurar o Campeão Nacional de Basquetebol, nada melhor do que recordar o programa que apresentou este fascinante desporto a toda uma geração, em plena ‘Golden Age’ do mesmo no seu país natal, e durante uma época de ‘vacas magras’ a nível nacional.

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Falamos, claro, do NBA Action, o saudoso programa da RTP2 que terá convertido muitos ‘90s kids’ em fãs confessos da liga profissional de basquetebol norte-americana (a famosa NBA) e de jogadores como ‘Magic’ Johnson, Shaquille O’Neal, Patrick Ewing, Dennis Rodman e, sobretudo, Michael Jordan. Numa época em que os jogos de computador e consola ainda estavam longe de conseguir capturar as emoções fortes e ritmo alucinante de um jogo de verdade, um programa como este – declaradamente estruturado como uma compilação dos melhores momentos de cada jornada do referido campeonato – eram o melhor veículo para transmitir a essência do que era o basquetebol de alta competição da época.

Um exemplo típico do conteúdo do programa

E a verdade é que era difícil a qualquer criança não se entusiasmar com os lances artísticos, contra-ataques e ‘afundanços’ característicos do principal campeonato mundial da bola ao cesto – ainda mais quando estavam montados de forma tão emocionante quanto neste programa, e relatados pelas carismáticas vozes de Carlos Barroca (conhecido por se despedir desejando aos espectadores ‘a continuação de um dia faaaaaaan-tástico!’) e João Coutinho, dois apaixonados do basquetebol cujo gosto pelo desporto transparecia nos seus relatos, tornando os jogos tão emotivos para os espectadores como para os comentadores.

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Carlos Barroca, um comentador 'faaaaan-tástico!'

Com as suas rápidas sequências de jogadas mirabolantes, culminando na inesquecível lista das ’10 melhores jogadas da semana’, e comentários apaixonantes (e apaixonados) o ‘NBA Action’  constituía uma excelente maneira de passar uma hora em frente à televisão, numa tarde preguiçosa de Sábado, e um ainda melhor veículo para fomentar uma nova paixão junto dos jovens espectadores – não será por acaso que, depois da estreia do programa, houve um abrupto aumento nas vendas de ‘merchandising’ alusivo a basquetebol entre a juventude portuguesa…

Claro que, numa era em que o resumo de qualquer jogo está disponível no YouTube minutos depois do fim do mesmo, e em que a televisão portuguesa conta com múltiplos canais desportivos, um programa como o ‘Action’ já não faz grande sentido; ainda assim, esta bem-sucedida tentativa da RTP nos anos 90 serve como forma de recordar uma época menos ‘conectada’ e imediatista, em que o espectador médio dependia deste tipo de formato para saber o que se ia passando no seu desporto favorito, ou até conhecer novos desportos de eleição…

27.04.21

NOTA: Este post corresponde a Segunda-feira, 27 de Abril de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

'Teenage Mutant Hero Turtles, Teenage Mutant Hero Turtles, TEENAGE MUTANT HERO TURTLES...'

Tinha de começar assim, com o ultra-memorável genérico de abertura, um post sobre uma das séries animadas mais populares em Portugal (e no Mundo) na década de 90: os Quatro Jovens Tarta-Heróis, ou, como são mais frequentemente conhecidos, as Tartarugas Ninja.

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A adaptação televisiva (e bastante ‘infantilizada’) da banda desenhada criada em meados da década de 80 por Kevin Eastman e Peter Laird (a qual era, aliás, bastante ‘dark’, sarcástica e com laivos de ‘BD de autor’, muito pouco adequada a um publico infantil!)  chegou às televisões portuguesas em 1991, quatro anos depois da sua data original de estreia nos Estados Unidos, e quando já havia inclusivamente sido produzido um filme de ‘acção real’ baseado nas aventuras dos répteis mascarados praticantes de artes marciais, do seu ‘sensei’ ratazana, e dos capangas igualmente antropomórficos do grande vilão Shredder, o Destruidor. Os mais atentos, no entanto, já teriam visto, em alguma loja de brinquedos ou de roupa, ‘merchandising’ oficial dos personagens, o qual, tal como acontecera com os Simpsons, chegara às nossas costas antes do material em que era baseado! O habitual (à época) atraso na chegada de produtos mediáticos estrangeiros ao nosso país fez, no entanto, com que muitas crianças só tomassem contacto com os Tarta-Heróis aquando do seu aparecimento na RTP, e subsequente estreia do segundo filme ‘live-action’, subtitulado ‘O Segredo da Lama Verde’ (no original, ‘Secret of The Ooze’.)

(De referir que, em Portugal, a série era transmitida com o título 'Teenage Mutant Hero Turtles' em vez do original 'Ninja', tendo esta medida sido adoptada aquando da exportação da série, a fim de evitar potenciais censuras em certos países mais sensíveis. Só quando a 'pop culture' norte-americana se começou a confundir com a mundial é que toda uma geração de jovens conheceria o nome original da série de que tanto haviam gostado na sua infância.)

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'Poster' original de 'Tartarugas Ninja 2: O Segredo da Lama Verde' (1991)

Apesar do atraso, no entanto, o sucesso foi instantâneo, tendo a ‘Tartamania’ invadido quase de imediato os recreios das escolas de Norte a Sul do país. Toda a gente tinha a sua tartaruga favorita, toda a gente sabia o genérico (mais ou menos) de cor (mesmo quem ainda não sabia inglês conseguia reproduzir aproximadamente os sons das palavras) e ninguém perdia sequer um episódio dessa série original – a qual, ressalve-se, era transmitida com legendas, facto que, mesmo assim, não intimidou os ‘putos’ da época, que devoravam a série e tentavam rodear-se do máximo de ‘merchandising’ possível.

E havia muito por onde escolher, desde os bonecos (oficiais e ‘piratas’, como não podia deixar de ser) passando por roupa, lençóis, porta-chaves de espuma, carteiras, dispensadores de drageias Pez, revistas de BD baseadas na série (e já com pouco a ver com a obra original de Eastman e Laird) ou a inevitável caderneta de cromos da Panini, até aos habituais items com pouco a ver com as Tartarugas, aos quais era adicionado um autocolante ou funcionalidade para justificar a licença – como pistolas espaciais (sim, a sério!) e máquinas fotográficas. Curiosamente, o único produto passível de agradar às crianças que nunca foi comercializado com a cara das Tartarugas foi o seu alimento favorito, as ‘pizzas’! Uma oportunidade de ‘marketing’ perdida, sem qualquer dúvida…

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Capas do número 1 da adaptação em BD da série e da caderneta de cromos da Panini, respectivamente

De entre os produtos licenciados disponíveis, os mais populares (até por terem preços acessíveis) eram, sem dúvida, os porta-chaves, as t-shirts, e os cromos – quer os da Panini, quer os que saíam na mesma altura nas bolachas Triunfo, que revelaram excelente ‘timing’ na aquisição da licença. No entanto, com as Tartarugas Ninja, era mesmo caso para dizer que ‘tudo o que viesse à rede era peixe’ (ou réptil…) A ‘Tartamania’ vigente em Portugal à época era tal, que se alguém se lembrasse de lançar uma linha de bases de copos ou portadores de guardanapos com as caras dos personagens, a mesma seria um êxito junto do público jovem (aqui por casa, por exemplo, havia um individual de mesa dos Tarta-Heróis, em plástico, o qual era tão utilizado quanto estimado, e ainda um protector de atacadores com a forma da cabeça de uma das Tartarugas.) Uma verdadeira ‘febre’, apenas comparável à que se deu, alguns anos mais tarde, aquando da chegada de ‘Dragon Ball Z’ a Portugal.

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Um dos populares porta-chaves da época (crédito da foto: Enciclopédia de Cromos)

Inevitavelmente, no entanto, esta ‘mania’ viria também a passar, e o interesse das crianças pela série a esmorecer gradualmente, à medida que outros interesses lhes ocupavam os tempos livres. Um terceiro filme muito, muito fraquinho – produzido em 1993 e exibido em Portugal pouco depois – também não ajudou em nada a ‘causa’, e quando, em meados da década, a SIC voltou a transmitir as aventuras de Leonardo, Rafael, Donatello e Miguel Ângelo – agora dobradas em português – a recepção foi bem mais tépida, não se tendo repetido a ‘febre’ vivida alguns anos antes.

Ainda assim, lá por fora, ‘TMNT’ continuou a gozar de suficiente popularide para justificar não só a produção de várias séries-clone (das quais falaremos paulatinamente aqui no blog), mas também de uma série de acção real - ainda pior que o último filme, mas importante por introduzir uma Tartaruga feminina, Venus de Milo - um especial de Natal, um espectáculo de teatro musical (!) com CD a acompanhar (!!) e vários ‘reboots’ oficiais, incluindo um filme em CGI (em 2007), dois de acção real – a controversa adaptação de Michael Bay e o divertidíssimo ‘Fora das Sombras’, o melhor filme do grupo desde ‘O Segredo da Lama’ - e duas séries, uma em animação tradicional (em 2003) e a outra em CGI (em 2012). É certo que a maioria destes produtos (sobretudo os lançados nos anos 90) nunca chegaram a Portugal, mas também é verdade que, ainda este ano, se voltou a falar num novo ‘reboot’ para o 'franchise' Ninja Turtles, o que prova que os ‘heróis de meia-casca’ estão para ficar na actual, e altamente revivalista, cultura ‘pop’ mundial!

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As séries modernas das Tartarugas Ninja

Se a série original valia todo este ‘culto’…é discutível. Apesar de altamente apelativa para as crianças da época, sofria dos habituais erros de animação e dobragem - frequentes em produções animadas daquele tempo – e muitas das histórias eram pouco convincentes. No entanto, no seu melhor, a série rivalizava com qualquer outra daquela época, sendo a maioria das memórias da ‘nossa’ geração totalmente justificadas.

E vocês? Eram fãs? Deste lado, a resposta é um inequívoco ‘SIM!’, estando esta série, nas nossas memórias, ao nível das posteriores ‘Dragon Ball Z’ e ‘Power Rangers’. De bonecos (um oficial e outro pirata) a uma carteira (onde orgulhosamente guardámos o dinheiro para o bolinho da manhã no primeiro ano da escola primária), passando por t-shirts, o inevitável porta-chaves ou o referido individual, até à não menos inevitável colecção de cromos ou à tal pistola espacial, havia de tudo um pouco lá por casa – e o mesmo se passava com os nossos colegas, que inclusivamente se chegavam a mascarar de Tartaruga pelo Carnaval. Também têm destas memórias? Partilhem nos comentários! Até lá, porque nunca é demais, fiquem novamente com AQUELA música…

'...heroes in a half-shell...TURTLE POWER!'

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