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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

10.04.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 70, 80 e 90 viram chegar a Portugal um considerável influxo – quase uma 'inundação' – de títulos de banda desenhada oriundos do Brasil, de qualidade variável, mas quase sempre acima da média. Disponíveis em qualquer quiosque – e havia-os em número quase infindável de Norte a Sul do País – as revistas das editoras Abril e Globo deram a conhecer aos jovens portugueses muitos dos mais populares personagens e grupos entre os seus contemporâneos do outro lado do oceano, dos inúmeros heróis da Marvel, DC ou Disney (companhias que, mais tarde, viriam a ser editadas a nível nacional) a colectivos como a Turma da Mônica ou Os Trapalhões, e popularizaram entre esta demografia nomes como os de Mauricio de Sousa ou do criador a quem dedicamos este 'post', e que faleceu este fim-de-semana, com a provecta idade de 91 anos.

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Falamos de Ziraldo Alves Pinto - mais conhecido apenas pelo seu primeiro nome – à época já um dos mais destacados criadores de banda desenhada do Brasil, tendo sido pioneiro na criação de obras de banda desenhada de 'autor único' por terras de Vera-Cruz, feito que logrou almejar logo em inícios dos anos 60 (mais de uma década antes do 'rival' Mauricio) com a criação da revista 'Turma do Pererê', centrada num grupo de criaturas da mata liderado pelo inconfundível saci, um dos principais personagens do folclore brasileiro. Por essa altura, o estilo inconfundivel do autor – quer a nível de desenhos, quer de diálogos – era já bem conhecido de diversos jornais brasileiros, pelo que o sucesso de que o título imediatamente gozou entre o seu público-alvo não foi, de todo, surpreendente; ainda mais do que os referidos trabalhos, no entanto, foi 'Turma do Pererê' (revista que teve duas fases distintas, uma antes e outra depois da ditadura militar ter sido instaurada no Brasil) a responsável por popularizar o nome do desenhista entre as crianças da época.

Não se ficaria por esses anos, no entanto, a fama de Ziraldo – antes pelo contrário, o personagem mais icónico e sinónimo com o desenhista ainda estava para ser criado, surgindo apenas no início da década de 80, já depois de outras duas tentativas menos bem sucedidas por parte do autor. Tratava-se d''O Menino Maluquinho', uma típica criança da época, de imaginação delirante e sempre pronta a criar brincadeiras, planos e esquemas mirabolantes, nos quais não tardava a envolver os restantes jovens do seu prédio: o melhor amigo Bocão, a namoradinha Julieta, a melhor amiga desta, Carolina, o intelectual e sensato Lúcio, o pequeno, tímido e ansioso Junim, e até, por vezes, o 'valentão' Herman e a namorada deste, a bonita e vaidosa Shirley Valéria. O resultado eram histórias e aventuras tão 'mirabolantes' quanto ancoradas na realidade, quase como uma 'Turma da Mônica' mais urbana e contemporânea, ou não vivesse Maluqinho num prédio de apartamentos.

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A revista que popularizaria Ziraldo entre o público infanto-juvenil português.

Mais uma vez, o sucesso desta publicação foi imediato, com a revista de Maluqinho (editada como resultado da boa recepção que o seu álbum de tirinhas havia recebido aquando da sua edição em 1980) a competir com os 'mega-sucessos' de Mauricio ou dos estúdios Disney pelas semanadas do seu público-alvo, e a lograr permanecer nas bancas durante um período inicial de oito anos, de 1988 a 1996. Foi, também, durante esta fase que os leitores portugueses ficaram a conhecer Maluquinho, e que Ziraldo conseguiria maior penetração no mercado nacional – além do periódico de banda desenhada, o autor veria também chegar a solo luso os livros das séries ilustradas 'Corpim', dedicada às diferentes partes do corpo, e 'O Bichinho da Maçã', talvez o seu trabalho mais conhecido a seguir a 'Maluquinho'.

Infelizmente, tal como a maioria dos autores de BD brasileiros à excepção de Mauricio, também Ziraldo não resistiria ao 'colapso' do mercado de banda desenhada periódica português, posteriormente reduzido a meia-dúzia de títulos da Turma da Mônica, Disney, Marvel e DC, por oposição à 'bonança' desfrutada pela geração 'millennial'. Assim, enquanto no seu Brasil natal as suas franquias seguiam de 'vento em popa' (com Maluquinho a ficar nas bancas até inícios da presente década, e a ter inclusivamente direito a títulos de 'crossover' com Mônica e Cebolinha e adaptações cinematográficas) a sua popularidade em Portugal não resistiu à chegada à idade adulta da geração nascida nos anos 80 e 90. Para esses, no entanto, a notícia da morte do autor – pacífica, no seu apartamento – não deixará de gerar uma 'pontada' de dor, saudade e nostalgia por mais um elemento da sua infância que desaparece para sempre, sem retorno... Que descanse em paz.

08.04.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos dias que correm, expressões como 'ícone' e 'icónico' são utilizadas de forma algo gratuita, levando a que o seu significado original se dilua, tornando-se assim necessário fazer uso do pensamento crítico para discernir quem, de facto, merece esse epíteto, por oposição às inúmeras 'sensações da semana' a quem o mesmo é recorrentemente atribuído. No entanto, mesmo nesta época de uso excessivo de tais termos, continuam a existir figuras incontornáveis, que reúnem o consenso de várias gerações quanto ao seu estatuto como verdadeiras 'lendas' da cultura popular ocidental – e, destas, uma das maiores continua a ser um eterno jovem de cabelo loiro, comprido e desgrenhado, barbicha, roupas coçadas, voz rouca e olhos claros e penetrantes, cuja aparência quase fazia lembrar uma versão moderna da tradicional representação de Jesus Cristo, e que, apesar de nunca ter querido ser profeta, conheceu, á semelhança deste, um fim trágico e tragicamente prematuro, embora, ao contrário do filho de Deus, pela sua própria mão. Falamos, claro, de Kurt Donald Cobain, o ícone da cena grunge e membro do infame 'clube dos vinte e sete', sobre cuja morte auto-inflingida se contaram, na passada Sexta-feira, exactos trinta anos.

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A história de vida de Cobain é bem conhecida: oriundo de uma família modesta dos subúrbios de Washington, nos EUA, o futuro músico viveu, na infãncia e adolescência, uma série de problemas familiares, escolares e sociais, que transformaram a criança tímida e introvertida num jovem rebelde, que encontrava na música agressiva, confrontatória e 'barulhenta' o seu escape dos problemas do dia-a-dia. Da paixão partilhada com outro 'desajustado' da sua escola – um adolescente alto, magro e sorumbático, de ascendência balcânica, que dava os primeiros passos no baixo – surge a ideia de formar uma banda, que viria a adoptar vários nomes para os primeiros concertos, até se fixar naquele que lhe outorgaria, em apenas alguns anos, um lugar indelével na cultura pop contemporânea: Nirvana.

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A formação clássica dos Nirvana: Krist Novoselic, Kurt Cobain e o baterista Dave Grohl, hoje líder dos Foo Fighters.

Daí em diante, o percurso da banda dispensa apresentações: em menos de meia década, Cobain e o eterno parceiro Krist Novoselic conseguiriam levar o seu grupo das garagens de Seattle ao estrelato mundial, criando um dos maiores clássicos da história da música rock, o sublime 'Nevermind', de 1991, e inspirando milhões de jovens inadaptados um pouco por todo o Mundo a pegarem em instrumentos e fazerem, eles próprios, barulho na sua garagem, num efeito semelhante ao gerado pelo movimento 'punk' britânico, cerca de década e meia antes.

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O segundo disco do grupo, 'Nevermind', é ainda hoje um álbum obrigatório para qualquer fã de rock.

Curiosamente, no entanto, o sucesso da banda não caía bem ao seu líder, que nunca procurara a ribalta, e que se via, de um momento para o outro, apelidado de 'voz de uma geração', entre outros epítetos que nunca esperara ou quisera. Tal como sucedia (e continua, infelizmente, a suceder) com tantos outros artistas da sua índole, a solução encontrada por Cobain para lidar com esta pressão foi refugiar-se nas drogas, hábito que não foi, de todo, desencorajado pela namorada e futura esposa do músico, Courtney Love – um nome que rivaliza apenas com Yoko Ono no panteão de influências tóxicas em músicos geniais. Nem o nascimento da filha Frances Bean – baptizada em homenagem a uma heroína local, passe o trocadilho involuntário – ajudava a animar Cobain, que sofria de depressão e se degladiara toda a vida com problemas de saúde.

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Com a mulher, Courtney Love, e a filha, Frances Bean Cobain, pouco depois do nascimento desta última.

Não foi, no entanto, a bronquite crónica, nem mesmo o vício em heroína, que acabou com a vida de Cobain, mas sim o próprio músico, que, nos primeiros dias de Abril de 1994, se terá alvejado a si próprio com uma caçadeira, deixando junto a si aquela que talvez seja o mais famoso e icónico 'adeus' de sempre: 'it's better to burn out than to fade away', algo como 'é melhor arder do que desaparecer aos poucos', uma frase que reflectia na perfeição a filosofia e modo de vida de Kurt.

Apesar de aparentemente claro, o suicídio do músico foi, ao longo das três décadas subsequentes, tema de inúmeros documentários (bem como de uma dramatização, 'Last Days - Últimos Dias', realizada por Gus Van Sant em 2005) e suscitou debates e teorias da conspiração que, trinta anos volvidos, não dão sinais de abrandar. Destas, a mais famosa é a que propões que terá sido a mulher, Courtney Love, a realizar o infame acto – à qual não ajuda a espinhosa relação de Love com os colegas de banda de Kurt, nem a sua recusa em deixar que seja publicado material inédito e de arquivo do grupo.

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'Last Days - Últimos Dias', talvez a mais conhecida obra cinematográfica sobre Kurt, apesar de não utilizar o nome do mesmo.

Seja qual fôr a verdade sobre a sua morte, no entanto, o facto inegável é que o falecimento de Cobain privou o Mundo de uma das mais interessantes bandas de rock 'mainstream' da sua época, e de várias décadas de novas e inspiradas canções por parte daquele que foi um dos mais geniais compositores da música popular de finais do século XX (e não só). Talvez ainda mais significativo seja o facto de que, trinta anos volvidos, a saudade daquele 'Jesus moderno' que nunca quis ser profeta continua a ser fortemente sentida pelos seus milhões de fãs, tendo-se as suas atraentes feições tornado tão omnipresentes e imediatamente identificáveis na cultura popular moderna como as dos também prematuramente malogrados Che Guevara e Bob Marley, com os quais partilha o estatuto de personalidade verdadeiramente icónica da História contemporânea. Que continue a descansar em paz.

07.04.24

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

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O jogador com a camisola que o celebrizou.

No futebol português dos anos 80, 90 e 2000 (ainda mais do que no actual) existiu um conjunto bem demarcado de jogadores que, sem atingirem o nível de fama ou os altos vôos de alguns dos seus contemporâneos (nomeadamente os da chamada 'Geração de Ouro') conseguiram, ainda assim, afirmar-se como ícones de um ou mais clubes e, pela sua presença constante nos campeonatos nacionais da época, atingir o estatuto de Lendas da Primeira Divisão. Um dos principais nomes desse grupo – onde se incluem ainda jogadores como Emílio Peixe, Rui Barros ou Folha – foi um médio que, após iniciar a carreira como Cara (Des)conhecida ainda na década de 80, acabou eventualmente por fazer também parte do selecto contingente de jogadores que representaram mais do que um 'grande' em Portugal durante a sua carreira; falamos de António Manuel Pacheco Domingos (vulgarmente conhecido apenas pelo seu primeiro apelido), o 'histórico' do Benfica que chegou, também, a representar o Sporting, e que faleceu há cerca de duas semanas – a 20 de Março de 2024 – aos cinquenta e sete anos, em consequência de um ataque cardíaco. E porque, à data da sua morte, o 'blog' se encontrava em hiato temporário, fica agora, embora já com algum atraso, a nossa merecida homenagem a uma das muitas caras icónicas do futebol nacional de finais do século XX.

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Ainda jovem, no Torralta.

Nascido em Portimão, Algarve, no primeiro dia de Dezembro de 1966, António Pacheco iniciou carreira no modesto Torralta, clube em que realizara a maior parte da sua formação enquanto futebolista. Durante a única época em que representou o emblema, o médio fez pouco mais de três dezenas de jogos, contribuindo com oito golos, marca que se provaria suficiente para lhe garantir três presenças na Selecção Nacional Sub-18 despertar o interesse do outro clube por onde Pacheco passara enquanto jovem - o Portimonense, que representara na categoria de Iniciados. Assim, com apenas dezanove anos, e exactamente meia década após ter deixado o clube da sua terra natal, o atleta voltava a vestir de preto e branco, dando assim o considerável 'salto' das divisões distritais para o principal escalão nacional.

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O plantel do Portimonense para a época 1986-87; Pacheco está em baixo, à direita.

Este desafio não intimidou, no entanto, o médio, que partiria para nova época de destaque: sem ser titular indiscutível, Pacheco logrou registar vinte e três presenças ao serviço do Portimonense, bem como nove pela Selecção Nacional Sub-21, no decurso das quais demonstrou qualidade suficiente para alargar ainda mais os seus horizontes futebolísticos. Previsivelmente, não tardou a surgir na secretaria portimonense uma oferta pelos préstimos do promissor futebolista, oriunda da capital portuguesa, e de um dos principais emblemas dos campeonatos nacionais, o Sport Lisboa e Benfica.

Face a esta oferta nada menos do que irrecusável, o jovem Pacheco não teve outra escolha senão 'fazer as malas' e mudar-se de 'armas e bagagens' para Lisboa, no Verão de 1987, para equipar de vermelho e branco. E se muitos jogadores nas mesmas condições têm uma entrada mais gradual na equipa, por forma a habituá-los ao desafio, já no caso de Pacheco, o impacto foi imediato, tendo o médio logrado participar em mais de três dezenas e meia de partidas logo na sua primeira época, e contribuído com seis golos.

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Ao serviço da Selecção Nacional A.

Estava dado o mote para seis épocas a espalhar classe na zona intermédia benfiquista, sempre como peça-chave, durante as quais levantaria por duas vezes o troféu de Campeão Nacional (em 1988-89 e 1990-91), bem como uma Taça de Portugal e uma Supertaça, além de marcar presença em duas finais da então Taça dos Campeões Europeus (hoje Liga dos Campeões). Um autêntico 'conto de fadas', que estabeleceria Pacheco como um dos grandes ícones do clube encarnado, lhe carimbaria um lugar na Selecção Nacional A (que representaria seis vezes) e só viria a terminar no 'Verão quente' de 1993, fruto de um desentendimento com o então treinador do Benfica, Toni; pouco depois, os adeptos encarnados viam, com horror, Pacheco juntar-se ao colega de sector (e membro da 'Geração de Ouro') Paulo Sousa, e atravessar a Segunda Circular, ingressando no plantel do maior rival das 'águias', o Sporting.

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Com a 'listrada' do maior rival benfiquista.

Embora muito lembrado em Alvalade, no entanto, duraria apenas duas épocas a estadia de Pacheco no referido estádio, tendo o médio sido praticamente 'carta fora do baralho' na segunda (a de 1994-95), após ter estado ao seu nível na época anterior, em que foi um dos infelizes intervenientes num dos mais famosos 'derbies' da História do futebol português. Ainda assim, e apesar das 'desavenças' com o treinador Carlos Queiroz, as três presenças do médio na sua segunda temporada de leão ao peito chegariam para adicionar novo título ao seu palmarés pessoal, com a conquista da Taça de Portugal, um ano depois de ter visto o seu antigo clube voltar a sagrar-se campeão. Em Alvalade, Pacheco foi, ainda, colega de nomes tão ilustres no 'reino do leão' como Balakov, Oceano, Iordanov, Cherbakov, Stan Valckx, Juskowiak, Jorge Cadete, Emílio Peixe, Amunike, Ricardo Sá Pinto ou mesmo Luís Figo, além de uma futura Cara (Des)conhecida, um promissor jovem de nome Nuno Valente

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A homenagem do Belenenses, um dos vários clubes por que passou após deixar o Sporting.

Sem que ainda se soubesse, começava aí o declínio da carreira de Pacheco, que as épocas seguintes transformariam naquilo a que os britânicos chamam um 'journeyman' – um jogador que transita de clube em clube, sem nunca ter grande impacto em qualquer deles. Assim, foi decerto com tristeza que os fãs do médio viram um ex-internacional português ser peça 'periférica' dos plantéis de Belenenses, Santa Clara e Atlético, bem como da Reggiana, de Itália, que lhe proporcionou a primeira e única experiência 'fora de portas' – emblemas, note-se, que, pese embora o fugaz envolvimento com o jogador, não deixaram de lhe prestar homenagem aquando da notícia do seu falecimento.

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A única 'aventura' do médio fora de Portugal foi em Itália, ao serviço da Reggiana, que também lhe prestou homenagem aquando da nota de falecimento.

Seria, pois, necessário esperar até à ponta final do Segundo Milénio para ver a carreira de Pacheco ganhar um 'segundo fôlego': uma boa época ao serviço do Estoril garantiu alguma visibilidade ao então já veterano médio, que contribuiu para a campanha dos 'canarinhos' com quatro golos em cerca de duas dezenas e meia de presenças.

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Com a camisola do Estoril-Praia, na sua 'última salva' enquanto futebolista profissional.

Não foi, no entanto, suficiente para revitalizar o interesse no jogador, que saía pela 'porta pequena' logo na época seguinte, novamente ao serviço do Atlético, clube no qual faria a transição para cargos técnicos, assumindo a posição de treinador. Seguir-se-ia nova experiência como técnico, agora na sua 'casa-mãe', o Portimonense, antes de o ex-futebolista decidir enveredar por novos rumos, com a abertura de um bar em Lagos, estabelecimento que viria a gerir até ao seu prematuro falecimento em Março de 2024.

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No papel de treinador.

Para a história fica uma carreira honrosa, mas algo prejudicada pelo temperamento rebelde, sem o qual Pacheco talvez tivesse conseguido inscrever o seu nome junto dos de alguns dos seus mais ilustres contemporâneos – o que não invalida que o médio seja, por direito próprio, uma das Lendas da Primeira Divisão portuguesa noventista. Que descanse em paz.

09.02.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Além dos muitos e bons novos filmes que saíam durante a sua infância e adolescência, os jovens da geração 'millennial' portuguesa eram também, inevitavelmente, influenciados por produções um pouco mais antigas, veiculadas através das 'sessões de repetição' de cinemas locais, da televisão ou, mais tarde, dos videoclubes. Terá, aliás, sido através de uma combinação destes meios que a maioria da demografia-alvo terá tido o seu primeiro contacto com figuras tão icónicas para a geração de finais do século XX como Arnold Schwarzenegger, ou Sylvester Stallone, além de alguns 'coadjuvantes de luxo', que marcavam presença em muitos dos principais filmes das décadas de 70, 80 e 90. É a um desses actores, falecido há cerca de uma semana, aos setenta e seis anos de idade, que dedicamos a Sessão de Sexta de hoje.

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Carl Weathers nos dois papéis que o imortalizaram junto de duas gerações.

Nascido em Nova Órleães, Louisiana, EUA logo nos primeiros dias do ano de 1948, Carl Weathers iniciou a sua carreira no cinema cerca de um quarto de século depois, deixando para trás uma carreira como 'eterno suplente' de equipas da liga de futebol americano NFL para se concentrar na sua verdadeira paixão. Inicialmente apenas coadjuvante, o talentoso actor encontrou o seu nicho como protagonista no então imensamente lucrativo mercado 'blaxploitation', que produzia filmes com personagens quase exclusivamente negros, dirigidos ao público afro-americano.

O seu verdadeiro momento de fama, no entanto, surgiria após, em 1978, se juntar a outro aspirante a actor,- um italiano vindo de outro mercado de nicho, o do 'soft porn' – para tornar realidade o sonho deste último, um filme independente sobre a ascensão de um lutador de boxe que ele mesmo realizaria. Escusado será dizer que esse ambicioso projecto se tornou um dos mais conceituados filmes de desporto de sempre, dando azo a cinco sequelas, das quais Weathers só não participou nas duas últimas, tendo primeiro surgido como adversário do personagem titular, Rocky Balboa, e depois como seu aliado inseparável. É, aliás, através da sua prestação como Apollo Creed na referida franquia que Weathers é mais lembrado pelos membros das gerações 'X' e 'millennial', embora o actor tenha, também, sido responsável por pelo menos mais uma referência do período formativo dessa demografia – o Coronel Al Dillon, parceiro de Arnold Schwarzenegger em 'Predador', e mais conhecido por ser chamado de 'filho da mãe' pela personagem deste último, numa das mais icónicas linhas de diálogo do cinema de acção da época.

E a verdade é que, apesar de a sua carreira não contar com muitos mais papéis de relevo, estas duas prestações foram suficientes para, no auge da sua fama, Weathers aparecer em 'videoclips' de Michael Jackson e estabelecer uma parceria com Adam Sandler, com quem contracenou em três filmes: 'Happy Gilmore', de 1996, 'Nicky, Filho...do Diabo', já nos primeiros meses do Novo Milénio, e 'Oito Noites Loucas', em 2002. A veia cómica demonstrada nestes papéis viria, aliás, a valer a Weathers um papel recorrente como 'ele próprio' na popular 'sitcom' 'De Mal a Pior', alguns anos mais tarde. Esse talento para a comédia valeu, também, a Weathers uma 'segunda vida' como dobrador de filmes e séries de animação, com um 'portfólio' que vai de 'Regular Show' a 'Star Contra as Forças do Mal' ou 'Toy Story'.

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Como Greef Karga em 'O Mandaloriano'.

Em termos de visibilidade cultural, no entanto, foi sem dúvida a associação à franquia 'Guerra das Estrelas' (com a interpretação como Greef Karga na série 'O Mandaloriano', o êxito que ajudou a catapultar a popularidade da plataforma Disney+) a que mais proveito trouxe ao actor, tendo-lhe permitido 'despedir-se' 'em grande' não só da geração que crescera a vê-lo lutar com Rocky ou combater extraterrestres ao lado de Schwarzenegger como dos filhos desta última, a quem a mesma transmitira a paixão por propriedades como 'Star Wars' – ambas as quais sentirão, sem dúvida, a sua falta. Que descanse em paz.

20.11.23

NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Segunda será novamente de Sucessos. Voltamos às Séries na próxima semana.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de ser, hoje em dia, um dos conceitos mais 'batidos' e reutilizados do panorama televisivo mundial – a ponto de muita gente o considerar já cansado e com pouco interesse – o concurso de talentos musicais era, ainda, um género totalmente novo e 'fresco' na televisão portuguesa em meados dos anos 90. Sim, havia o Sequim D'Ouro e o inevitável Festival da Canção, mas ambos eram espectáculos de índole mais tradicional, (ainda) sem o 'glamour' e entusiasmo que mais tarde marcaria o formato.

Assim, não é de admirar que o 'Chuva de Estrelas', um dos programas-âncora da nova, independente e 'rebelde' SIC, tivesse almejado o mega-sucesso de audiências aquando da sua estreia, há cerca de trinta anos. O conceito de jovens cantores em competição directa uns com os outros, e a fazer as suas próprias rendições de temas mundialmente famosos, não tardou a atrair a atenção de grande parte da audiência, que passou a seguir com atenção as eliminatórias e, por consequência, assistiu em primeira mão ao dealbar e ascensão de uma talentosa adolescente, que em 1994, com dezasseis anos recém-completos, se sagraria vencedora da primeira temporada do concurso, com a sua versão de “One Moment In Time” e, meses depois, repetiria o feito em pleno Festival da Canção, terminando por levar o tema “Chamar a Música” a uma das melhores classificações de sempre para Portugal no Festival da Eurovisão, ao atingir o oitavo lugar. Chamava-se Sara Alexandra Lima Tavares, e acaba de falecer, com apenas quarenta e cinco anos, deixando um considerável vazio no panorama da música 'étnica' e 'world music' portuguesas.

Sara interpretaria o mesmo tema, que a tornou famosa nos dois Festivais da Canção em que participou, ambos em 1994, quando a cantora tinha apenas dezasseis anos.

De ascendência cabo-verdiana, Sara não teve um início de vida propriamente fácil, tendo sido deixada a cargo de uma pessoa de confiança quando a mãe, recém-divorciada, se mudava com os restantes filhos para o Sul de Portugal. As dificuldades não impediram, no entanto, que Sara demonstrasse desde cedo talento para a música, o qual cultivaria desde essa tenra idade, permitindo-lhe estar em posição para concretizar o seu triplo feito enquanto ainda aluna do ensino secundário. No entanto, apesar do sucesso que tal façanha lhe rendeu, e de a mesma a ter posto nas 'bocas do Mundo' naquele ano de 1994, passariam ainda dois anos até que Sara editasse o seu primeiro registo oficial, um EP gravado em colaboração com o grupo Shout. No mesmo ano, daria voz à música cantada pela cigana Esmeralda em 'O Corcunda de Notre Dame', o então mais recente êxito da Walt Disney, numa versão que seria considerada pela própria 'casa do Rato Mickey' como a melhor adaptação internacional da música em causa.

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O registo de estreia da cantora, gravado com o grupo vocal Shout.

Os anos seguintes veriam Sara Tavares continuar a 'somar e seguir' na carreira, com participações no espectáculo musical de tributo a George Gershwin na Expo '98, colaborações com o popular grupo pop-rock Ala dos Namorados e, finalmente, a edição do seu primeiro álbum de longa-duração, 'Mi Ma Bô', editado no último ano do século XX e cujo título, em crioulo cabo-verdiano, remetia às suas raízes. Apesar do sucesso do mesmo, no entanto, o nome da cantora continuaria, em inícios do Terceiro Milénio, a surgir sobretudo ligado à gravação de músicas individuais para discos de tributo ou colaborações com outros músicos, vindo o segundo registo, 'Balancé', a sair apenas em 2005, mais de uma década após o 'momento' mediático da cantora. Mesmo assim, o interesse pela música de Sara continuava a existir, como o provam as vendas de Ouro do disco, e a selecção de uma das suas músicas para uma campanha do Millennium BCP.

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Os dois primeiros álbuns da cantora, de 1999 e 2005, respectivamente...

Mais quatro anos se passariam, no entanto, até Sara voltar a editar um disco. 'Xinti', lançado dez anos depois da estreia com 'Mi Ma Bô', surgia já depois de a cantora ter lançado o primeiro DVD, 'Alive in Lisboa' e viria a suscitar mais um sem-número de colaborações, com artistas tão díspares como Nelly Furtado e Buraka Som Sistema. Assim, até ao advento do disco seguinte, 'Fitxadu', passar-se-iam nada menos do que oito anos, em que o nome Sara Tavares se manteria relevante sobretudo no contexto da participação em faixas de outros artistas.

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...e os dois últimos, lançados em 2009 e 2013.

Sem que ninguém soubesse, no entanto, esse viria mesmo a ficar para a História como o último registo da cantora, que viria a falecer seis anos depois (a 19 de Novembro último, um dia depois da publicação original deste post e poucos meses depois da morte da 'musa' Tina Turner, cuja música a lançara) em consequência de um tumor cerebral diagnosticado uma década antes, em 2013. Uma perda trágica, não só por Sara fazer parte da geração que marcou, e que frequenta este nosso blog, mas também pelo talento que a cantora demonstrou ao longo de uma carreira que, apesar de apenas fugazmente mediática, ficou pautada pelas inúmeras e sonantes colaborações, e por vários registos de qualidade uniformemente alta, que marcaram a 'world music' em Portugal. Que descanse em paz.

27.07.23

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Era uma das presenças perenes no cartaz da Olá, sempre ali, no canto inferior direito, abaixo do Super Maxi e Perna de Pau e ao lado do Epá, pronto a servir como 'solução de compromisso' para crianças e jovens cujo dinheiro não dava para mais, ou pais que não quisessem que os filhos comessem quantidades excessivas de gelado; chamava-se Mini Milk, surgiu há exactos trinta e cinco anos, e é omissão de vulto no cartaz da companhia para 2023, após ter sido descontinuado. Neste 'post', recordamos aquele que, sem ter sido o gelado favorito de ninguém, não deixou de ser um dos mais nostálgicos para a maioria dos jovens noventistas.

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Introduzido pela primeira vez no Verão de 1988, o Mini Milk consistia, tão simplesmente, de um pequeno cilindro de leite gelado (daí o nome, apesar de mais tarde terem surgido também variantes de morango e chocolate) vendido a um preço condicente com o seu tamanho, e que – ao contrário da maioria dos produtos que o rodeavam no cartaz - 'cabia' no bolso de qualquer 'puto' armado de parte da mesada. Simultaneamente, a ausência de chocolate, baunilha ou qualquer outro dos ingredientes presentes nos restantes gelados, aliado ao tamanho mais pequeno do que a média e à predominância do leite como ingrediente, faziam com que parecesse uma opção mais saudável – uma impressão que era reforçada pela imagética de prados verdejantes com calmas vacas a pastar, por oposição às mascotes mais típicas dos outros gelados especificamente dirigidos ao público infanto-juvenil da época. Esta combinação de factores tornou, por sua vez, o Mini Milk num dos produtos Olá mais frequentemente consumidos pela referida demografia, tornando-o, assim, nostálgico por definição, e denotante de despreocupados dias de praia ou piscina ou períodos de férias.

Será, portanto, sobretudo essa faixa etária a sentir a falta do icónico gelado, uma daquelas presenças reconfortantemente familiares que faziam crer que, por muito que o Mundo mudasse, certas coisas se manteriam para sempre inalteradas – uma ideia que a Olá acaba de desmentir, fazendo desaparecer, poucos meses após ter feito regressar o Rol e um par de anos após a volta do Super Maxi, uma parte da infância 'millennial' tão importante como qualquer delas. Até sempre, Mini Milk.

23.07.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

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O jogador com a última camisola que envergaria.

Era só mais uma jornada, de só mais um Campeonato Nacional da Primeira Divisão. O Benfica viajava até Guimarães para defrontar o Vitória local, numa fria noite de Janeiro de 2004. Do banco, saltava um avançado loiro, contratado a custo zero após rescisão com o FC Porto, e que vinha, a pouco e pouco, conquistando o seu espaço na equipa. E a verdade é que, neste jogo, o mesmo jogador não tarda a deixar a sua marca, fazendo a assistência para o golo da vitória dos encarnados, o único da partida, marcado por Fernando Aguiar. Mais tarde, o mesmo jogador seria admoestado com um cartão amarelo e, em reacção, esboçaria um sorriso irónico e inclinar-se-ia para a frente, pondo as mãos nos joelhos; momentos mais tarde – mas que pareceram uma eternidade – colapsaria no terreno de jogo, suscitando acção imediata por parte das equipas médicas de ambos os clubes, bem como do INEM, que levaria o jogador de urgência para o hospital. Infelizmente, o jovem não viria a conseguir recuperar do acidente cardíaco e, nesse mesmo dia, era noticiado o seu falecimento, aos vinte e quatro anos de idade. Chamava-se Miklos Feher, teria feito há poucos dias quarenta e quatro anos, e a sua morte é ainda hoje lembrada por qualquer adepto português daquela época como talvez a maior tragédia de sempre no desporto-rei nacional.

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A primeira experiência de Feher fora da Hungria foi a sua passagem atribulada pelo Porto.

Do que muitos talvez não se recordem, no entanto, é que Feher vinha já fazendo uma carreira honrosa em Portugal antes da sua chegada à Segunda Circular lisboeta, tendo sido Cara (Des)conhecida num par de 'históricos', e tido mesmo a sua afirmação num deles. Contratado pelo FC Porto ao Gyori ETO, da sua Hungria natal, no defeso de Verão de 1998, pouco antes ou pouco depois de completar dezanove anos de idade (nasceu a 20 de Julho de 1979), o ponta-de-lança já internacional sub-21 pelo seu país ver-se-ia, no entanto, sem espaço no plantel portista da altura, tendo conseguido amealhar apenas dez presenças pela equipa principal dos Dragões (um golo) e mais sete pela equipa B (dois golos) antes de seguir o habitual percurso de empréstimos para ganhar experiência.

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O jogador no Salgueiros...

A primeira paragem foi o 'vizinho' Salgueiros, onde ingressou logo no dealbar do ano 2000, ainda a tempo de efectuar catorze jogos e contribuir com cinco golos; já a primeira época completa do Milénio vê-lo-ia afirmar-se no Braga, onde marcaria catorze golos em vinte e seis jogos, uma média de mais de um golo a cada dois jogos. Pelo meio, ficariam ainda vinte e cinco internacionalizações pela equipa A da Hungria, pela qual marcaria sete golos.

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...e no Braga, onde faria a sua melhor época.

Seriam estas boas exibições que viriam a despertar o interesse do Benfica, com o qual Feher assinaria contrato no final da época 2001-2002, após mais uma temporada 'gorada' no Porto, e por quem chegaria aos trinta jogos e sete golos, sendo opção regular a partir do banco, e ganhando aos poucos a confiança dos adeptos. Tudo viria, no entanto, a terminar naquela noite de Janeiro, em que a morte ceifaria uma carreira que, caso contrário, talvez ainda tivesse continuado durante pelo menos mais uma década, quiçá nas divisões inferiores, ou em outros 'históricos' das ligas portuguesas, até se dar a inevitável transição para o posto de treinador, que talvez ainda ocupasse nos dias de hoje.

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A estátua a Feher no Estádio da Luz.

Tal como sucedeu, no entanto, a História trataria de eternizar Miklos Feher como aquele jovem de 'farripas' loiras e sorriso malandro, vestido com a camisola encarnada com patrocínio da Vodafone, que tiraria um momento para descansar no fim de um jogo físico e intenso, e não tornaria a levantar-se, e que é hoje homenageado com uma estátua no Estádio da Luz, e tributado sempre que uma equipa húngara visita Portugal. Que descanse em paz.

27.06.23

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Tinha início o último fim-de-semana do mês de Julho de 2023 quando alastrava a notícia: o mundo do espectáculo português, e do humor em particular, ficava órfão de mais um nome, e logo de um actor bem mais jovem do que alguns dos 'históricos' lusitanos ainda em actividade. Tratava-se de Luís Aleluia, actor com extensa e reconhecida carreira no teatro e televisão mas que, para uma certa geração de portugueses, ficará para sempre eternizado como a versão televisiva, de 'carne e osso', do Menino Tonecas de José de Oliveira Cosme, protagonista de quatro temporadas de enorme sucesso na RTP1, em finais da década de 90.

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O actor no papel que o celebrizou junto de toda uma geração.

Nascido em Setúbal a 23 de Fevereiro de 1960, Luís Filipe Aleluia da Costa desde sempre esteve ligado à representação, na qual se estreou aos dez anos, numa récita da filial local da Casa do Gaiato, instituição caridosa à qual esteve ligado até aos dezasseis anos; a primeira experiência mais 'a sério', no entanto, surgiria já no final da adolescência, quando se junta a um grupo de teatro amador e ajuda a fundar outro na Escola Comercial de Setúbal, onde era aluno de Humanísticas.

O início da década de 80 vê o jovem actor entrar, pela mão de Vasco Morgado, no mundo do teatro de revista, onde ganharia fama, chegando mesmo a ganhar o prémio de Revelação do Teatro Musicado atribuído pela revista Nova Gente, no caso referente ao ano de 1984. Simultaneamente, vai acumulando também experiência em companhias de teatro itinerantes, onde adquire conhecimentos que põe, posteriormente, a uso no contexto da sua própria empresa de produção, a Cartaz, fundada em 1991.

É, também, por volta dessa altura que surge a oportunidade de trabalhar em televisão, primeiro como actor convidado na série 'Os Homens da Segurança', e posteriormente como membro fixo de 'Sétimo Direito', com Henrique Santana, Lia Gama e Cláudia Cadima. Torna-se, em seguida, membro da companhia de Nicolau Breyner, com quem leva a palco uma série de espectáculos teatrais, além de participar da novela 'Na Paz dos Anjos'. De volta ao teatro de revista, participa como convidado no 'Cabaret' televisionado de Filipe La Féria, e acumula participações especiais nos mais populares programas de humor da época, d''Os Malucos do Riso' da SIC (que aqui terá, paulatinamente, o seu espaço) à 'Companhia do Riso' da RTP.

É em 1996, no entanto, que se dá o grande momento de mudança para Luís Aleluia, quando, ao lado de Morais e Castro, ajuda a dar vida aos textos escritos no início do século por José de Oliveira Cosme, sobre um aluno pouco inteligente e muito atrevido, e respectivo professor 'sofredor'. Caracterizado como uma criança em idade de instrução primária estereotipada, de boné às riscas e calções com suspensórios, mas com rugas que não enganavam, dizia numa voz propositalmente esganiçada piadas brejeiras, muitas escritas por Cosme, outras tantas originais, num formato semelhante ao de programas como 'Escolinha do Professor Raimundo' ou 'El Chavo del Ocho' ('Chaves', na sua icónica dobragem brasileira).

Tinha tudo para dar errado, mas deu muito, muito certo, considerada a série de maior impacto na televisão portuguesa em toda a década de 90, 'As Lições do Tonecas' ficaria no ar de 1996 a 2000, e levaria mesmo à criação de um 'spin-off', 'O Recreio do Tonecas', que não conseguiu o mesmo sucesso. De súbito, a cara daquele actor até então restrito a papéis convidados ou de apoio tornava-se, para uma geração de crianças e jovens lusos, tão sinónima com o humor como a de Herman José ou Camilo de Oliveira. A própria indústria reconheceria o excelente trabalho de Aleluia, que voltaria a ganhar um troféu Nova Gente em 1997, agora na categoria de Melhor Actor de Televisão.

O problema de um papel de tal sucesso – especialmente ao tratar-se do primeiro, ao qual se ficará para sempre associado – reside, normalmente, na dificuldade em lhe dar seguimento, acabando muitos actores por nunca conseguir o mesmo nível de expressividade; tal não foi, no entanto, o caso com Aleluia, que continuou a 'somar e seguir' na televisão portuguesa, com papéis em diversas séries tanto humorísticas como mais 'sérias', além de posto fixo como argumentista e actor nos popularíssimos 'talk-shows' matinais da RTP, 'Praça da Alegria' e 'Portugal no Coração'. A carreira do actor continuaria, assim, a par e passo até ao fatídico dia 23 de Junho, quando foi encontrado sem vida na sua própria garagem, no que se veio mais tarde a revelar ter sido um suicídio. O mundo do teatro e da televisão portuguesas ficam mais pobres, e uma geração de ex-jovens chora o personagem (e actor) que tantas alegrias e risos lhes proporcionou durante quatro dos seus anos formativos, na recta final do século e Milénio passados. Descansa em paz, Tonecas.

29.05.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de a maioria dos artistas musicais se manter na activa tanto tempo quanto os seus corpos, mentes e motivação lhes permitem, a esmagadora maioria acaba, ao longo desse percurso, por cair na irrelevância, ignorada pela maior parte do que havia sido a sua base de fãs, e resignada a perseverar em prol de uma minoria fiel que vai mantendo a sua carreira 'à tona'. Tão-pouco é este um destino reservado apenas a artistas 'do momento' – até mesmo nomes a dada altura tão famosos como Whitney Houston, AC/DC ou Britney Spears se viram 'apanhados' nesta teia quase inescapável.

De longe em longe, no entanto, surge um nome que consegue transcender este paradigma, e conquistar (e manter) uma base de fãs desde os seus primeiros momentos até ao final da carreira. Um desses nomes foi Anna Mae Bullock, a cantora afro-helvético-americana mais conhecida pelo nome artístico de Tina Turner, e que se conseguiu estabelecer como um dos grandes nomes da música 'pop' e 'soul' durante quase três décadas, permanecendo relevante durante a maior parte desse período.

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A cantora com o seu mais icónico visual.

Nascida a 26 de Novembro de 1939, e falecida a 24 de Maio deste ano de 2023, aos 83 anos, Tina Turner despontou para o mundo da música ainda adolescente, quando – durante um intervalo na 'performace' da banda do futuro marido Ike Turner – demonstrou os seus dotes vocais por intermédio de uma balada de BB King. Contratada de imediato como vocalista principal da banda, a então adolescente faria a sua estreia em disco no ano seguinte, mas a verdadeira revelação surgiria em 1960, quando – após uma falha de comparência de um tal Art Lassiter, para quem Bullock compusera uma música – a própria se encarregaria da voz principal, no que seria, à partida, apenas uma faixa-guia para a posterior composição finalizada com Lassiter como vocalista. O resultado, no entanto, foi tão impressionante que ajudaria mesmo a lançar a carreira da jovem, entretanto rebaptizada com um nome mais sonante, pelo qual viria a ser conhecida em todo o Mundo durante as três décadas seguintes, primeiro ao lado de Ike na chamada 'Ike & Tina Turner Revue', e mais tarde por conta própria.

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O casal nos tempos como duo.

Os anos seguintes foram passados a estabelecer a reputação no circuito de clubes de 'rhythm and blues', até a sua música chegar aos ouvidos de Phil Spector, que prontamente pagou pelo direito de realizar sessões de gravação com Ike e Tina. Seria delas que viria a sair 'Mountain High – River Deep', uma das mais icónicas músicas daquele período, que ajudaria Ike e Tina a assegurar o posto de banda de abertura na turnê dos Rolling Stones, e a metade feminina do duo a aparecer na capa da revista homónima, tendo sido a primeira artista negra a conseguir tal feito.

Estava dado o mote para dez anos de sucesso como dueto, durante os quais conseguiriam uma sucessão de êxitos, e presença assídua nos programas de variedades norte-americanos. Este 'estado de graça', no entanto, viria a terminar em 1976, quando o entretanto tornado casal viu a sua relação fracturar-se devido ao abuso de substâncias por parte de Ike, que resultaria mesmo no divórcio entre os dois, e óbvia dissolução do duo que formavam. Destemida, Tina lançar-se-ia como artista a solo, mas os seus discos seguintes encontrariam pouco sucesso; ainda assim, o nome que estabelecera ao lado de Ike ajudá-la-ia a manter-se relevante, com nova digressão ao lado dos Stones, em 1981, e duetos com nomes como Rod Stewart, além de algumas controvérsias típicas de uma estrela em ascensão.

Seria apenas em 1983, quando já era considerada (imagine-se!) uma cantora 'retro-nostálgica', que Tina viria a atingir, finalmente, o mega-sucesso que lhe vinha escapando desde a separação com Ike, através do single 'Let´s Stay Together', cujo inesperado sucesso levou à gravação, em apenas duas semanas, do álbum 'Private Dancer', que viria a atingir a marca de quíntupla platina e as posições cimeiras dos 'tops' norte-americanos e britânicos, além de valer a Turner três prémios Grammy. É, também, deste álbum que sai 'What´s Love Got To Do With It', talvez a música-estandarte de Tina Turner na consciência popular, e única música da artista a atingir o número 1 da tabela da Billboard. Aos quarenta e quatro anos, a cantora conseguia, finalmente, viver a experiência normalmente gozada por artistas com metade da sua idade.

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O álbum que granjeou o mega-estrelato à cantora.

Os anos seguintes trariam 'mais do mesmo', com os três álbuns subsequentes de Tina a atingirem marcas muito semelhantes a 'Private Dancer', e com o estrelato da cantora a ser cimentado por um papel de apoio no terceiro filme da série 'Mad Max', o infame 'Para Além da Cúpula do Trovão', de 1985. À entrada para a última década do século XX, Tina parecia não conseguir 'pôr pé em ramo verde', batendo (em 1990) o recorde de audiências numa turnê previamente estabelecido pelos Rolling Stones, bem como o seu recorde pessoal de vendas, com a compilação 'Simply the Best', certificada óctupla platina (!!) no Reino Unido. No ano seguinte, Ike e Tina são adicionados ao lendário Rock and Roll Hall of Fame, mas Tina escusa-se a comparecer, alegando fadiga após a última digressão.

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A compilação de 1990 atingiria a marca de óctupla platina no Reino Unido, batendo novo recorde de vendas para a cantora.

Ainda assim, o icónico casal permanece 'nas bocas do Mundo' não só devido ao encarceramento de Ike, como também ao lançamento de um filme biográfico sobre a sua relação, e a carreira de Tina, em 1993. A ligação da cantora ao Mundo do cinema seria reatada dois anos depois, quando Tina grava o tema-título para o primeiro filme de Pierce Brosnan como James Bond, 'GoldenEye'. Seguem-se, até final da década, mais dois álbuns de originais, 'Wildest Dreams' (do ano seguinte) e 'Twenty-Four Seven', lançado em 1999, quando Tina contava já sessenta anos! Anunciado como álbum de despedida da cantora, o LP constituiu uma 'saída pela porta grande', atingindo a marca de Ouro e dando azo a mais uma digressão recordista, já no Novo Milénio.

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O último álbum da cantora, lançado quando a mesma contava já sessenta anos.

A despedida do estúdio não significou, no entanto, o fim da carreira de Tina, que – nas duas décadas subsequentes, até ao seu falecimento – se manteria activa com o lançamento de compilações, um single de beneficência para a UNICEF em parceria com a italiana Elisa e, claro, 'performances' ao vivo, uma delas ao lado de Beyoncé, na cerimónia dos Grammys de 2008. No ano seguinte, Turner fundaria, ao lado de outras personalidades musicais, a fundação Beyond, responsável por discos de música espiritual e de meditação entre 2009 e 2017. Em 2016, estreia o musical biográfico 'Tina', desta vez com o envolvimento da própria artista, e em 2018, Turner é galardoada com o Prémio de Carreira na cerimónia dos Grammys. Pelo meio, ficam três volumes de autobiografias e memórias, o último lançado em 2020, e a participação num documentário sobre a sua vida, produzido em 2021. Nesse mesmo ano, Tina é novamente adicionada ao Rock And Roll Hall of Fame, desta vez como artista a solo, e volta a não comparecer, aceitando o prémio via satélite a partir da sua casa na Suíça, onde viria a falecer cerca de dezoito meses mais tarde.

No momento em que o ciclo de Tina, inevitavelmente, se encerra, fica a ideia de uma carreira atípica, que conseguiu reunir o consenso de nada menos do que três gerações de amantes de música comercial, e sobreviver às constantes flutuações e 'modas' do mercado, tornando mais que merecida esta homenagem póstuma a uma das grandes divas 'pop' de finais do século XX. Que descanse em paz.

 

04.04.23

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 03 de Abril de 2023.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar do relativo ecletismo de estilos que os jovens de finais do século XX inseriam na sua 'dieta' musical quotidiana, o 'jazz' nunca foi um género com que essa mesma demografia se identificasse particularmente, talvez pelas pretensões intelectuais e imagem algo antiquada com que o mesmo era associado à época, e que o colocavam em claro contraste com os estilos favorecidos pela juventude, como o pop-rock e o alternativo. E, no entanto, a verdade é que, apenas uma geração antes, este género musical havia sido religiosamente escutado e seguido por grande parte dos jovens nacionais da época, sobretudo os citadinos, graças a um programa de rádio de difusão nacional exclusivamente dedicado ao estilo, inaugurado em 1966 e que continuava a manter-se 'firme' naquele fim de século, vindo inclusivamente a adentrar-se pelas primeiras duas décadas do século XXI antes de ser interrompido, há meras semanas, pela morte do seu criador.

Falamos do 'Cinco Minutos de Jazz', rubrica de título auto-explicativo da responsabilidade de José (ou 'Jazzé') Duarte - não confundir com José Jorge Duarte, o 'Lecas' - que fez parte do léxico radiofónico português durante mais de cinco décadas, ao longo das quais apresentou aos ouvintes interessados em 'jazz' um sem-número de nomes mais ou menos famosos do estilo, alguns dos quais devem, inclusivamente, ao programa a penetração e difusão do seu nome em Portugal.

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O carismático apresentador do programa, figura de proa do 'jazz' nacional

Transmitido primeiro pela Rádio Renascença, depois pela Rádio Comercial, e finalmente pela Antena 1, o programa manteve uma transmissão ininterrupta durante praticamente quarenta anos (entre 1983 e o corrente ano de 2023), sempre com a mesma fórmula que adoptara aquando da sua criação em 1966, e que consistia numa apresentação da música, seguida da transmissão integral da mesma e, finalmente, numa pequena contextualização explicativa, que revelava mais alguns dados em relação ao tema que acabara de tocar. Um formato simples, mas eficiente, que tirava o máximo partido do tempo disponível para a rubrica e eliminava muita da 'palha' que continua, até hoje, a infestar muitos programas radiofónicos. Aliada ao carisma e simpatia natural do falecido apresentador, esta economia de estilo ajudou a tornar o programa um sucesso, tendo o mesmo mantido uma audiência cativa ao longo de décadas, até se tornar o programa mais antigo da rádio portuguesa.
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Não foi, no entanto, apenas o programa que almejou fama dentro dos meios musicais portugueses - também o seu anfitrião ganhou honras de 'decano' e 'embaixador' do movimento 'jazz' português, sendo muitas vezes o escolhido para acolher certas figuras de proa do estilo (ou mesmo para as aliciar para um concerto em Portugal) e estando envolvido na organização de vários dos primeiros festivais dedicados ao género em solo nacional. Foi, também, dele e do seu programa a responsabilidade pela edição do primeiro disco de 'jazz' em Portugal, de nome 'Estilhaços' e lançado em 1972 para celebrar o sexto aniversário do programa (o qual, ironicamente, seria alvo de uma paragem forçada daí a um par de anos, antes do regresso em 1983.)

Assim, e apesar de o seu programa se afirmar já como 'de culto' (ou, se preferirmos, 'de nicho') por alturas da infância e adolescência de muitos dos leitores deste 'blog', vale, ainda assim, realçar e relevar a importância do seu apresentador, cujo falecimento representa uma perda de vulto para o movimento 'jazz' português, que se vê privado não só do seu programa de referência, como também de uma das principais personalidades propulsoras do mesmo ao longo das décadas. Que descanse em paz.

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