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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

02.09.22

NOTA: Este post é respeitante a Quinta-feira, 01 de Setembro de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar de não figurar entre os interesses mais imediatos da juventude portuguesa dos anos 90, a moda não deixava de encontrar parte do seu mercado entre a referida demografia, mais concretamente entre o sector adolescente feminino, o qual, entre procurar respostas para questões afectivas e identitárias e admirar celebridades atraentes, reservava também algum tempo para se colocar a par das novas tendências de vestuário, acessórios e aparência; assim, não é de admirar que, quando uma das maiores e mais históricas publicações internacionais nesse campo se decidiu 'aventurar' pelo mercado nacional, a mesma tenha sido recebida com entusiasmo e sucesso imediato, e desfrutado de uma longa e ilustre carreira nas bancas nacionais.

Falamos da Elle Portugal, a versão adaptada para o mercado luso da histórica líder de mercado francesa, cujo primeiro número sairia ainda na década de 80 (em Outubro de 1998), e que lograria manter-se nas bancas durante mais de três décadas, até as acentuadas mudanças no mercado dos periódicos a nível mundial terem forçado o seu cancelamento – o qual, ainda assim, se processou de forma digna e honrosa.

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O primeiro número nacional da revista, lançado em 1988.

Com estética e conteúdos em linha com as suas congéneres de outros países, o título editado pela RBA não seguia, no entanto o mesmo caminho adoptado por outras publicações 'importadas' da época, nomeadamente, o da simples localização de conteúdos originalmente escritos em outros idiomas; talvez ciente da reputação que o seu nome acarretava, a revista tentava, ao invés, oferecer às suas leitoras (e leitores) conteúdos originais e adaptados à realidade portuguesa, resultando numa publicação de enorme interesse para quem gostava de moda e decoração; no caso do mercado adolescente, acrescia ainda o facto de a Elle ser uma revista, a todos os níveis, sofisticada e adulta, algo distante das outras publicações habitualmente encontradas em mesas de sala de espera ou na 'pilha' em casa da avó, e cuja leitura proporcionava algum 'élan', elemento sempre crucial para a demografia em causa.

O sucesso da revista foi tal, aliás, que a RBA viria, mais tarde, a lançar também uma versão portuguesa da publicação-irmã, a Elle Decoration, dedicada (como o próprio nome indica) exclusivamente a artigos sobre decoração de interiores e exteriores; além disso, a boa recepção à Elle Portugal motivaria, quase uma década e meia depois, o lançamento de uma edição portuguesa para outro periódico 'histórico' do mundo da moda – a Vogue Portugal, cuja trajectória nas bancas nacionais foi mais curta, mas também consideravelmente bem-sucedida.

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Exemplar da Elle Decoration portuguesa.

Conforme referimos, as alterações no mercado dos jornais e revistas, derivados da rápida transição para o digital e agravados pela pandemia, forçaram ao cancelamento, em 2021, da edição fisica daquela que foi a primeira revista de moda internacional a ser lançada em Portugal após o 25 de Abril, e que se conseguiu manter na vanguarda não só da moda e beleza, mas também de questões como os direitos cívicos e a cidadania – tornando, assim, mais que merecida esta pequena eulogia, em homenagem à influência que exerceu sobre todo um sector da população nacional durante o período englobado por este blog.

25.08.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Hoje em dia - quando quase todas as páginas de Internet ligadas ao comércio possuem uma funcionalidade que permite deixar críticas sobre os serviços ou produtos adquiridos - saber o que pensam os especialistas ou consumidores sobre seja o que for é tão fácil, que é já tomado como adquirido até (sobretudo) pelas gerações mais velhas. No tempo em que essas mesmas gerações viveram, no entanto, o panorama era significativamente diferente, sendo necessário esperar pela opinião publicada ou publicamente veiculada de um especialista - a qual, além de constituir apenas uma opinião de um único utilizador, era também, necessariamente, subjectiva, e sujeita a todo o tipo de deturpações.

Nos últimos anos da década de 70, num esforço para equipar a sociedade portuguesa da era pré-Internet com um leque de opiniões mais variado, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (vulgarmente conhecida como DECO, mas que não deve ser confundida com o ex-futebolista do mesmo nome) lançava a Pro-Teste, uma revista dedicada, precisamente, ao teste de bens de consumo de distribuição em massa, independentemente do seu raio de acção, podendo um mesmo número apresentar testes a gamas de produtos tão variadas como ovos, micro-ondas, detergentes da loiça ou antivírus para computador.

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O denominador comum entre todas estas análises era o facto de serem testadas, não por um único especialista, mas por todo um painel, e mediante uma série de critérios pré-definidos, invariavelmente publicados numa tabela juntamente com os próprios resultados dos testes. As notas obtidas nas diferentes categorias (devidamente fundamentadas no texto do artigo em si) eram, então, sujeitas a um cálculo de média, que ditava a classificação final de cada produto; o produto com melhor média final e aquele que apresentasse melhor relação qualidade-preço tinham as honras de receber a recomendação Pro-Teste, a qual, naquele tempo, equivalia praticamente a um selo de qualidade.

Esta fórmula, bem conhecida dos portugueses até uma determinada geração, manteve-se praticamente incólume até aos dias de hoje (sim, a Pro-Teste continua a ser publicada, embora o seu âmbito e influência tenham diminuído consideravelmente) e atingiu, quiçá, o seu auge nos anos finais do século XX, em que a revista tinha praticamente o estatuto de Bíblia para os consumidores nacionais, que invariavelmente lhe recorriam na hora de escolher ou comprar um determinado tipo de produto; o sucesso era tanto, aliás, que, no novo milénio, o catálogo da Edideco - a editora fundada pela DECO para o lançamento de publicações próprias - se expandiu para uma série de outros títulos, dedicados aos conselhos de saúde, financeiros e de investimento, além de publicar uma série de guias sobre os mais variados temas ligados à defesa do consumidor.

Apesar de direccionados, sobretudo, a adultos, todos estes títulos - e, em especial, a Pro-Teste original - apresentavam um fascínio especial para as crianças de então, talvez por apresentarem uma vertente de comparação e 'competição' entre diferentes modelos, que tende a despertar o interesse inato de qualquer jovem; e ainda que as gerações mais novas vão buscar os seus conselhos, opiniões e críticas a outros locais, para os seus pais (e até avós) há uma fonte cujas análises se continuam a sobrepôr a todas as outras, nem que seja por virtude de, em tempos, terem sido o único órgão a disponibilizá-las...

14.07.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

As 'fanzines' – publicações criadas por e para fãs de determinado artista ou propriedade intelectual – eram, ainda, relativamente comuns nos anos 90, o mesmo podendo ser dito das revistas afiliadas a clubes de fãs oficiais, ou a clubes comerciais para jovens, bastando aqui lembrar a popular Revista Rik e Rok ou os fantásticos Almanaques Clube Caminho Fantástico. O que era significativamente menos comum era ver revistas deste tipo fazer a transição para o circuito de distribuição alargada e venda comercial – e, no entanto, foi isso mesmo que se passou com, não apenas uma, mas duas publicações deste tipo, em meados da década.

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Falamos das publicações oficiais dos Clubes Sega e Nintendo, que - como todos os outros aspectos relativos a estas duas instituições - partilhavam mais semelhanças do que diferenças, a começar no nome, que, em ambos os casos, seguia precisamente a mesma nomenclatura, juntando metade do nome da consola mais popular de cada companhia à época a um adjectivo indicativo de pujança e atitude dominadora - Mega Force no caso da Sega, Super Power no da Nintendo.

Também os conteúdos de ambas as revistas eram, previsivelmente, muito semelhantes, com cada uma a apresentar notícias, críticas e outros artigos relativos às últimas novidades lançadas por cada companhia, sendo que a Nintendo se limitou a manter a fórmula que já apresentava na sua publicação exclusiva para assinantes, embora agora com textos originais, por oposição a traduções do Francês. Até mesmo a editora era a mesma para ambas as publicações – no caso, a todo-poderosa Abril Jovem (mais tarde Abril Controljornal), à época a magnata das publicações temáticas em Portugal, quer se tratasse de banda desenhada ou de revistas especializadas, como as que abordamos neste post; com este facto em mente, não é de espantar que o formato de ambas as revistas fosse suficientemente aproximado para quase poder ser considerado idêntico.

Apesar de a Nintendo ter o benefício da experiência prévia, no entanto, no que toca a longevidade, foi a revista da Sega quem levou a melhor, tendo conseguido manter-se nas bancas dois anos, entre 1993 e 1995 – uma 'vida' curta, mas, ainda assim, duas vezes mais longa que a da sua congénere, que apareceu e se extinguiu no mesmo ano, 1994 (talvez por a Abril oferecer uma modalidade de assinatura anual, em exclusivo, a membros do Club Sega, os quais receberam ainda o primeiro número da revista de forma gratuita). Ainda assim, apesar da pouca longevidade (nenhuma das duas revistas viu dealbar a geração 32-bit) qualquer destas duas publicações terá, decerto, feito as delícias dos fãs dos videojogos de ambas as companhias, os quais talvez ainda guardem um ou outro exemplar algures na arrecadação dos pais...e que, não sendo esse o caso, sempre poderão recordar a infância clicando aqui ou aqui!

05.07.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

A 'guerra das consolas' de finais dos anos 80 e inícios de 90, entre a Sega e a Nintendo (antes de a Sony entrar em cena e 'varrer' a concorrência) é, ainda hoje, tida como um dos grandes confrontos comerciais não só daquela era, como da História do marketing e vendas, tendo tido repercussões um pouco por todo o Mundo – incluindo em Portugal.

Por terras lusitanas, os métodos de combate foram, aliás, além do mero despique directo entre consolas de jogos, jogos em si e desenhos animados alusivos às respectivas mascotes, tendo-se estendido à criação de clubes exclusivos para membros e assinantes por parte de cada uma das companhias; em plena era dos clubes de jovens e clubes de fãs por correspondência, ambos os rivais japoneses decidiram 'entrar na onda', e criar a tão cobiçada lealdade por parte dos seus jovens consumidores através de métodos muito semelhantes.

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Os folhetos de ambos os clubes, um dos muitos aspectos em que os dois eram semelhantes

De facto, tanto o Club Nintendo Portugal como o Clube Sega – ambos, aliás, com designações por demais incomuns e originais – proporcionavam aos seus sócios acesso a materiais exclusivos, dos mais 'descartáveis', como folhetos, aos mais apetecíveis, como cartas personalizadas (um momento apoteótico para qualquer criança da época) catálogos com as próximas novidades – havia, afinal de contas, que criar antecipação entre o público-alvo – linhas de apoio para truques e dicas sobre os principais jogos de cada companhia, revistas exclusivas (ambas as quais fariam, eventualmente, a transição para as bancas generalistas, como veremos na próxima Quinta no Quiosque), e até, no caso da Sega, cassettes VHS promocionais (ou não estivesse o clube afiliado à Ecofilmes, à época uma das principais distribuidoras de vídeo em Portugal) com 'clipes' dos próximos lançamentos da editora – o que, na era pré-Internet, era bem mais apetecível do que possa hoje parecer. Claro que, para ambos os clubes, não podiam também faltar os cartões de sócio personalizados e de grafismo atraente. outro aspecto cuja importância para os jovens daquele tempo é difícil de transmitir a quem não o tenha sido.

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Exemplos dos cartões de sócio de ambos os clubes

Abordagens, portanto, extremamente semelhantes, até mesmo no modo de angariar sócios, residindo a única diferença no facto de a Sega incluir cupões de inscrição nas caixas das suas consolas, e a Nintendo, nas dos jogos – uma táctica que angariava ao seu clube mais visibilidade, mas também gastava mais recursos, pois quem já fosse membro não precisaria, decerto, de vários cupões repetidos.

Dois clubes, portanto, bastante semelhantes em todos os aspectos, e que terão certamente feito as delícias de inúmeras crianças e jovens fanáticas dos videojogos de cada uma das duas companhias durante os seus poucos, mas marcantes, anos de existência em inícios da década de 90...

 

03.06.22

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 2 de Junho de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A par de países como o Brasil, a Alemanha ou a Finlândia, Portugal é um dos países onde o movimento 'hard rock' e 'heavy metal' continua a ser mais popular. Apesar da pouca quantidade de bandas de expressão verdadeiramente internacional saídas das suas fronteiras (a lista resume-se a Moonspell, e pouco mais) e da falta de infra-estruturas para concertos e gravações (problema recorrente há mais de quatro décadas) o nosso País continua a apresentar uma considerável densidade populacional de 'metaleiros', 'rockers' e 'punks', prontos a consumir todas as novidades do estilo.

Assim, não é de estranhar que, na era pré-Internet 2.0, tenham surgido em território nacional não uma, mas duas revistas especificamente dedicadas a divulgar essas mesmas novidades, fossem elas novos lançamentos, concertos, notícias sobre os mais populares artistas do estilo, entrevistas, ou até classificados para procura de músicos ou anúncios de lançamento de maquetes. Das duas, foi a mítica revista Loud! que acabou por singrar, tornando-se A referência do género em Portugal (referência essa, aliás, ainda hoje existente, embora apenas em formato online) e acumulando bem mais de uma centena de números, sempre num padrão de qualidade elevadíssimo; no entanto, é a sua antecessora que adquire maior importância histórica, por ter sido pioneira no que toca a publicações sobre o tema, acabando por desbravar caminho para o sucesso da revista lançada nos primeiros meses do novo milénio.

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Capa e grafismo do primeiro número da revista (crédito das imagens: blog Rock no Sótão)

Falamos da revista Riff, surgida nas bancas sensivelmente um ano antes da Loud! (em Janeiro de 2000) e que tinha como principal impulsionador António Freitas, nome maior do jornalismo 'metálico' nacional, tendo sido, entre outros, colaborador de música do programa Curto Circuito, apresentador de programas de rock pesado na Antena 3 e Rádio Comercial, e membro da redacção da referência Blitz, bem como da referida Loud!. A Riff representava uma tentativa de colocar o seu estilo de eleição também nas bancas portuguesas, desiderato esse que, no entanto, apenas seria aperfeiçoado com a sucessora desta publicação, deixando este primeiro esforço algo a desejar; entre 'gralhas', gramática duvidosa e um grafismo mais a dar para 'fanzine' do que publicação oficial, a Riff só se destacava mesmo pelo CD que oferecia com cada edição, no qual se incluíam temas dos mais recentes trabalhos de muitos dos artistas mencionados ou abordados em cada edição.

Ainda assim, num panorama isento de quaisquer outras opções, a Riff representava uma forma – ainda que algo amadora - de os 'metaleiros' de Norte a Sul do País poderem ir sabendo o que se passava dentro do seu género de eleição; no entanto, o surgimento da Loud!, apenas um ano depois, veio tornar mesmo esse objectivo obsoleto, visto oferecer uma alternativa de muito melhor qualidade, que não deixava qualquer motivo para continuar a apoiar a revista mais 'fraquinha'.

Assim, não foi minimamente de estranhar que a longevidade da Riff nas bancas após o aparecimento da sucessora tenha sido extremamente reduzido, e que, nos dias que correm (e ao contrário da referida sucessora) a mesma esteja praticamente Esquecida Pela Net, e seja descrita pelo próprio Freitas como 'não tendo corrido muito bem'; há, no entanto, que atribuir crédito à publicação pelo trabalho 'de sapa' e de desbravamento de caminho que realizou em prol do jornalismo musical 'pesado' em Portugal, dando aos milhares de 'metaleiros' do País uma primeira representação dentro da imprensa escrita portuguesa, e ajudando-os, assim, a sentirem-se menos ostracizados dentro da cena musical nacional como um todo.

26.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Quarta-feira, 25 de Maio de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas-compilação, que reuniam, em cada número, trechos de diversas obras distintas, foram, até há relativamente pouco tempo, presença comum no mercado tipográfico português, sendo o seu expoente máximo as Selecções do Reader's Digest, que além de trechos de obras publicavam também artigos sobre temas de interesse, bem como textos originais mais curtos.

Curiosamente, no mercado da banda desenhada, este tipo de revista viu-se representada, não por uma, mas por duas publicações distintas: primeiro, nos anos 60 e 70, a excelente revista 'Tintim', que conseguiu fazer vingar o formato por impressionantes quinze anos, e mais tarde, já nos anos 90, a revista 'Selecções BD', de expressão bem menor, mas que conseguiu, ainda assim, almejar duas séries.

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Capa do número 1 da primeira série da revista

Com periodicidade mensal, e da responsabilidade da editora Meribérica-Liber, o conceito da 'Selecções BD' estava descrito no próprio título, e era em tudo semelhante ao da sua antecessora; tal como 'Tintim', também a nova revista se propunha reunir em cada número trechos de obras de vários autores, publicados em ordem cronológica de modo a formar, a médio prazo, uma história completa. Também à semelhança da revista dos anos 60, cada número incluía autores tanto nacionais como internacionais, com particular ênfase no excelente e sempre prolífero mercado franco-belga, em que a editora tradicionalmente se especializou, ede onde eram provenientes nomes como Blake & Mortimer, Blueberry e Michel Vaillant, que 'ancoravam' a revista e lhe davam apelo extra entre os 'bedéfilos'.

Com esta fórmula, chegaram às bancas 36 números, entre 1988 e 1991, custando cada um uns exorbitantes 550$00, cerca de cinco vezes mais do que um adepto de BD poderia esperar pagar, à época por uma revista Disney ou de super-heróis; será caso para dizer que a qualidade se paga, já que tanto o conteúdo como o grafismo destas revistas eram de alta qualidade.

Apesar do preço proibitivo, essa primeira série das Selecções terá feito sucesso suficiente para justificar um regresso às bancas, sete anos depois da extinção da revista original, agora com um grafismo bem mais tradicional para uma publicação deste tipo, em linha com o que a Abril-Controljornal vinha fazendo com títulos como 'Heróis'.

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Capa do número 1 da segunda série da revista

O conceito e o material, esses, não se haviam alterado, embora o acervo de autores se apresentasse significativamente mais reduzido, tornando os astronómicos 900$00 pedidos pela Meribérica bem mais questionáveis do que os equivalentes 550$00 do início da década. Ainda assim, a segunda série conseguiu ser quase tão longeva quanto a original, vendo 31 números publicados entre 1998 e 2001.

Hoje em dia, a possibilidade de uma publicação deste tipo granjear sucesso é quase tão reduzida quanto a sua própria validade e viabilidade: num mundo em que tudo está ao alcance dos dedos, em formato digital, não faz qualquer sentido estar um mês à espera de mais uma tranche de uma história, pela qual se tem depois de pagar um preço exorbitante. Como tal, é provável que o mercado português – bem como o internacional – jamais tornem a ver outra publicação como esta 'Selecções BD', que constitui hoje, ainda assim, um excelente documento do que foi o 'boom' da banda desenhada franco-belga em Portugal durante os anos 80 e 90.

 

31.03.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui por diversas vezes mencionámos o fascínio que a juventude da década de 90 nutria pelos desportos radicais – perfeitamente ilustrada pelo sucesso não só de meios de locomoção como o skate, os patins em linha ou a BMX, mas também pelo sucesso do primeiro programa nacional inteiramente dedicado a este tipo de modalidade, o lendário Portugal Radical, que teve inclusivamente direito a uma versão em revista e a CD's de banda sonora lançados pelas principais editoras discográficas portuguesas.

Os desportos praticados na água não ficavam, de todo, de fora deste leque – antes pelo contrário, o 'surf', o 'bodyboard' e os seus 'parentes' menos famosos eram tão ou mais aliciantes para os jovens portugueses de finais do século XX e inícios do seguinte como qualquer dos desportos 'terrestres', como o demonstra a popularidade de toda e qualquer  marca de vestuário alusiva a esse tipo de modalidade. Mais - ao passo que estes se tinham de contentar com 'clipes' no Portugal Radical e um ou outro jogo para PlayStation ou Nintendo 64 como forma de se 'mostrarem' ao público-alvo nacional, os desportos aquáticos gozavam, cada um, de várias publicações especializadas, exclusivamente dedicadas a noticiar os mais recentes desenvolvimentos e eventos no seio de cada modalidade.

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No caso do 'surf', essa tarefa cabia, durante os anos 90, à Surf Magazine, uma daquelas publicações cujo conteúdo ficava bem explícito logo a partir do título: eram páginas atrás de páginas dedicadas à divulgação de novas pranchas, cobertura de eventos especializados, apresentação do perfil de alguns dos principais nomes da modalidade, e, claro, os inevitáveis concursos, ainda e sempre parte integrante de qualquer publicação comercial. Com um grafismo estranhamente sóbrio para uma publicação dedicada ao 'surf' e lançada em inícios de 90 – quando imperavam, na sociedade em geral, os padrões chamativos e cheios de contrastes entre cores pastel e 'neon' de fazer doer os olhos – a Surf afirmava-se, desde logo, como uma publicação sóbria, que tratava tanto os praticantes como os adeptos deste desporto de forma séria, e que não descurava a cobertura de outros elementos culturais populares entre a sua demografia-alvo, como a música; talvez por isso a publicação tenha conseguido ultrapassar a marca da década e meia de vida nas bancas, do seu lançamento em 1987 até à eventual extinção em 2003.

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Edição de 1992 da Surf Portugal, ainda com o grafismo mais vibrante

Por muito impressionante que essa marca fosse, no entanto – e era – outra ainda mais admirável foi estabelecida pela principal 'concorrente' da Surf Magazine nas bancas noventistas, a Surf Portugal. De conteúdo muito semelhante à da 'rival' (não é, afinal de contas, possível expandir muito sobre o conceito de uma única modalidade desportiva) esta publicação terá, presumivelmente, encetado com a Surf Magazine uma relação semelhante à que, no final da década, se verificaria no mundo da imprensa de jogos de vídeo, com as famosas Mega Score e BGamer – sendo que a 'Surf Portugal' tinha o atractivo extra de, nos primeiros anos, ter lançado calendários anuais, que os fãs da modalidade certamente apreciariam poder ter na parede.

De destacar, ainda, o grafismo mais 'radical' dos primeiros anos desta revista – mais na linha do que se esperaria, tendo em conta o tema e o público-alvo – o qual rapidamente se transmutaria em algo bem mais sóbrio e adulto, presumivelmente como forma de ser levada mais 'a sério', ou apenas de competir com a rival. Fosse qual fosse o motivo, a verdade é que esta abordagem claramente resultou, levando a quase três décadas de publicação ininterrupta – uma marca impensável para a maioria das revistas especializadas, e ainda mais para as que versam sobre interesses 'de nicho'.

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Número de 1993, já com o grafismo mais sóbrio

No final desta análise, fica a sensação de que, entre elas, as duas revistas de surf portuguesas terão feito as delícias dos adeptos da modalidade, que certamente apreciariam a possibilidade de escolher entre duas fontes de informação sobre o seu desporto favorito.

Não era apenas o 'surf' que tinha direito a representação nos quiosques e tabacarias nacionais, no entanto; o 'irmão pequeno' desta modalidade, o 'bodyboard', também contava com mais do que uma publicação disponível durante a época a que este texto respeita.

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Exemplo dos diversos grafismos da Vert magazine ao longo das décadas

Destas, a mais famosa era a ainda resistente Vert Magazine, a auto-proclamada 'Bíblia do bodyboard nacional', que continua até hoje a servir como elo de ligação entre os membros da 'triBBo' e a sua modalidade de eleição, apresentando toda a gama de artigos acima discutidos aquando da análise às publicações de 'surf' e – como estas – assentando num grafismo sóbrio e abordagem séria à modalidade, que qualquer entusiasta certamente apreciará – um facto, aliás, corroborado pela longevidade da revista, cujo ciclo de publicação caminha também já a passos largos para as três décadas.

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Como acontecia no caso do 'surf', também a referência do 'bodyboard' nacional tinha, na década em causa, concorrência à altura, sob a forma da explicitamente intitulada Body Board Portugal. De conteúdo bastante semelhante ao da rival – como também acontecia com as duas publicações dedicadas ao 'surf' - esta revista destaca-se, no entanto, por ser a única a aderir (ainda que apenas ocasionalmente) aos 'clichés' visuais normalmente associados aos desportos radicais da época – como o comprova a caveira demoníaca e puramente 'heavy metal' que se afadiga a tentar engolir o logotipo da capa do número da revista que abaixo reproduzimos... Ainda assim, tais ocorrências pautavam-se por excepções, sendo o grafismo, no cômputo geral, tão discreto como o de qualquer das outras revistas de que aqui falámos nos parágrafos anteriores.

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Em suma, os adeptos de 'surf' e 'bodyboard' dos anos 80, 90 e 2000 tinham, no que toca a publicações especializadas, tantas e tão boas opções como os entusiastas de carros ou motociclos – e mais do que os da maioria dos outros 'hobbies', como por exemplo a música. Uma situação, aliás, que se manteve no novo milénio, com o aparecimento de ainda mais publicações alusivas a estas duas modalidades – algumas, aliás, ainda existentes - embora nenhuma tão longeva quanto as analisadas neste post; ainda assim, mais uma prova de que a referida era foi mesmo a época de ouro dos desportos radicais...

10.03.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A relutância da população portuguesa (e mundial, em geral) por se dedicar à leitura é um problema que vem sendo debatido por especialistas há já várias décadas, ao mesmo tempo que têm lugar inúmeras iniciativas – oficiais ou oficiosas – para tentar alterar esta situação, tanto da parte de entidades oficiais ou estatais, quanto privadas.

De entre as privadas, destaca-se (ou destacou-se, nos anos 80 e 90) um nome: Reader's Digest. A companhia norte-americana, fundada no início dos anos 20 com o conceito de dstribuir por correspondência revistas com o tema da leitura, conheceu êxito absoluto, quase meio século depois, nos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente no Brasil e em Portugal, onde a revista penetrou, como tantas outras, por via da importação, mas onde atingiu sucesso suficiente para justificar um escritório de redacção próprio, a partir de finais dos anos 80.

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A revista Seleções, o principal título editado pela companhia

De facto, eram muitos os lares onde, periodicamente, chegavam pelo correio tanto a histórica revista Seleções (com o seu característico formato, mais pequeno e 'gordo' do que as tradicionais revistas portuguesas, e mais próximo dos 'gibis' infantis tão populares à época) como os não menos icónicos livros, que ofereciam versões 'condensadas' de clássicos da literatura, com foco no enredo e a maioria dos pormenores e descrições removidos – ou seja, mesmo à medida de quem não tinha grande apetência para a leitura, e só queria 'saber a história' sem ter de se preocupar com a 'palha'.

Esta abordagem foi, aliás, um dos grandes impulsionadores da 'fórmula' da Reader's Digest, que soube como cultivar o seu público-alvo sem por isso deixar de lhe dar o que este queria. Por intermédio do seu serviço de assinatura, esta companhia terá sido responsável por pôr muita gente que não gostava de ler a fazer precisamente isso, e familiarizado muitos desses mesmos leitores relutantes com alguns dos principais clássicos da literatura mundial – mesmo que em versão resumida e simplificada.

O sucesso desta mesma fórmula foi tanto, aliás, que a Reader's Digest continua firmemente implementada em Portugal, onde acaba de entrar na sua quarta década de existência; e apesar de os livros terem mudado um pouco de cariz – hoje em dia, a editora oferece sobretudo volumes de cariz cultural generalista ou centrados na saúde e bem-estar – continua ainda hoje a ser possível assinar e receber em casa a tradicional revista. Se os conteúdos também terão mudado permanece uma incógnita - provavelmente, terá mesmo sido esse o caso - mas não deixa de ser bom saber que um dos esteios da cultura portuguesa dos anos 90 (em todos os sentidos da palavra) continua vivo e de boa saúde até hoje...

18.02.22

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

NOTA: Este post não pretende promover qualquer ideologia religiosa, destinando-se, tão-somente, a recordar uma publicação que, coincidentalmente, tem ligações a determinada fé. 

Embora as escolas públicas sejam (ou devam ser) um espaço onde as crianças são livres de desenvolver as suas próprias ideologias sociais e religiosas, tal não impediu que, nos anos 90, houvesse uma tentativa de fazer com que as crianças portuguesas compreendessem, especificamente, a religião católica, nomeadamente através das aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, que muitas escolas primárias incluíam no seu horário lectivo semanal; verdade seja dita, no entanto, aquelas horas semanais tendiam, muitas vezes, a focar assuntos que se podiam considerar do foro laico – como era o caso da cidadania, do respeito ao próximo ou da problemática da liberdade 'versus' libertinagem, por exemplo – e que era importante incutir nas crianças logo a partir de tenra idade, seguissem elas ou não a religião cristã e católica.

Era precisamente este princípio – ensinar princípios, não só cristãos como de sociabilidade geral, de forma descomprometida e divertida – que informava, na mesma época, uma publicação oriunda do Brasil, e disponível em Portugal exclusivamente através de assinatura, normalmente contraída, precisamente, em ambiente escolar: a famosa revista Nosso Amiguinho.

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Edição de  Novembro de 1986 da revista, distribuído numa escola primária de Lisboa cerca de meia década depois, como 'amostra grátis' durante uma campanha de angariação de assinaturas

Concebida em 1952 pelo editor Miguel J. Malty, a revista vem, desde então, sendo ininterruptamente publicada pela Casa Publicadora Brasileira, uma editora ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia, uma das fés mais populares naquele país. No total, são já setenta anos em que (à parte as habituais adaptações ao correr dos tempos, como a passagem de uma para várias cores) a revista manteve, grosso modo, o mesmo formato – uma mistura de banda desenhada, passatempos, receitas, curiosidades e, claro, transmissão de valores morais, éticos e comportamentais associados à religião em causa,. No papel de anfitriões (e, muitas vezes, receptores) neste processo de aprendizagem encontrava-se a Turma do Noguinho, um conjunto de personagens infantis criados em 1972 pelo então editor Ivn Schimidt e pelo desenhador uruguaio Heber Pintos que pretendia ser a resposta religiosa a outras 'turmas' super-populares da banda desenhada secular brasileira da época, como a da Mônica, dos Trapalhões ou do Menino Maluquinho. E apesar de os conteúdos da Nosso Amiguinho não terem (obviamente) o elemento humorístico e politicamente incorrecto que fazia com que esses trabalhos fossem tão apreciados pelo público-alvo, a verdade é que os mesmos conseguiram suficiente popularidade junto do mesmo para manter a revista no mercado durante as referidas sete décadas.

Na verdade, mesmo para quem não é Adventista de Sétimo Dia, a revista lê-se (ou, pelo menos, lia-se, nos anos 90) extremamente bem, embora os seus conteúdos não escapem – nem queiram escapar – àquele tom levemente moralista demais, que pode (e poderá) ter levado alguns a torcer o nariz à revista, tanto à época como nos dias de hoje. O preço da assinatura (que chegava a ser mais cara do que a de algumas revistas equivalentes do mercado secular) terá sido o outro principal entrave à expansão da revista no mercado português, onde penetrou em 1986, e onde permanece firme (ainda que apenas num pequeno nicho, conforme descrito acima) até aos dias de hoje.

De facto, a Nosso Amiguinho continua, hoje, a seguir 'de vento em popa', tendo actualmente o atractivo adicional de poder ser assinada directamente online, sem recurso ao mediador escolar, e continuando a oferecer a pais afectos à religião em causa (e a outros a quem a declarada afiliação religiosa não incomode) um meio de transmitir aos seus filhos em idade escolar básica mensagens e conceitos importantes, de uma forma divertida – isto, claro, se tiverem dinheiro para a assinatura...

27.01.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Numa altura em que a música portuguesa viva um dos seus mais notáveis 'estados de graça' desde o tempo da ditadura – com um número impressionante de novos grupos e artistas a surgir ou a estabelecerem-se em todos os estilos – não é, de todo, de espantar que uma grande parte da população jovem nacional tenha desenvolvido ambições e sonhos de grandeza musical no instrumento da sua preferência. A educação musical básica adquirida na escola passava a ser manifestamente insuficiente – afinal de contas, Ian Anderson, dos Jethro Tull, continua ainda hoje a ser o único roqueiro a ficar famoso pela prática da flauta – e as escolas de música enchiam-se de jovens aspirantes a Joe Satriani, Steve Harris ou Dave Lombardo, ansiosos por aperfeiçoar a sua técnica para emular os seus ídolos e, com sorte, fazer carreira em nome próprio.

Sendo este o paradigma vigente, não foi de todo surpreendente que, já na recta final do século XX e do segundo milénio (mais concretamente, no dealbar do ano de 1997), tenha surgido nas bancas nacionais uma revista especificamente dedicada a estes aspirantes a músicos – nem tão-pouco que a mesma tenha conseguido durar uns honrosos quatro anos, e divulgar os seus artigos tanto técnicos como generalistas também junto dos profissionais e amadores de música do novo milénio.

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Exemplos de capas da revista

E a verdade é que, à época, não existia em Portugal nenhuma revista como a Promúsica. A grande referência do jornalismo musical nacional – o jornal Blitz – tinha um carácter exclusivamente generalista, e as revistas que propunham um tipo de conteúdo mais técnico eram, invariavelmente, importadas – e, como tal, mais caras e de distribuição muito mais limitada. A criação de uma publicação deste tipo totalmente produzida dentro de portas permitia a músicos fora dos centros urbanos conseguir uma revista à sua medida, todos os meses, e sem ter que 'abrir os cordões à bolsa'. A revista, bem ciente desta exclusividade de mercado, apostava assim, quase exclusivamente, na vertente técnica e profissionalizante do universo da música, deixando em segundo plano as habituais entrevistas e perfis de bandas (embora essas também fizessem parte, bem entendido) em favor de testes e análises técnicas a instrumentos musicais, divulgação de fabricantes nacionais dos mesmos, notícias com foco nos 'bastidores' do ramo, e outros conteúdos destnados a fornecer informação directa sobre o mundo da música a quem ela mais interessava.

Este foco na vertente técnica e na divulgação de novos artistas não se ficava, tão-pouco, pelas páginas da revista em si, antes pelo contrário – um dos maiores atractivos da Promúsica eram precisamente as colectâneas em CD que oferecia com cada número, e através das quais divulgava alguns dos mais promissores artistas contemporâneos nacionais, ao mesmo tempo que oferecia exemplos 'auditivos' ou interactivos de alguns dos instrumentos, equipamentos e programas testados no interior da publicação. Um acrescento de cariz dois-em-um portanto, e que tornava a revista atractiva tanto para os músicos a quem se destinava como, simplesmente, para os entusiastas da boa música portuguesa, para quem estes CD's justificavam, só por si, o preço de venda.

Em suma, embora sem a longevidade de algumas das suas congéneres internacionais, a Promúsica marcou época entre um determinado segmento da população jovem portuguesa de finais do século XX e inícios do seguinte; e ainda que menos abrangente, em termos de público, do que outras publicações especializadas (como a Mega Score ou o próprio Blitz) terá, ainda assim, deixado saudades dentro dessa mesma demografia, a quem certamente agradará recordar a publicação que os acompanhou no seu percurso musical à época. Aqui fica, pois, essa homenagem a um tipo de publicação que, nesta era digital em que tudo é acessível, deixou totalmente de fazer sentido, mas que em tempos representou praticamente a única fonte de acesso a informação verdadeiramente interessante e relevante em relação ao mundo da música em Portugal...

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