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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

06.01.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

O segmento adolescente é, tradicionalmente, um dos mais directamente desejados pela maioria das companhias de venda e criação de produtos, seja qual for o sector. Armados com dinheiro próprio, ao contrário do público infantil, e sem despesas obrigatórias em que o gastar – além dos impulsos e desejos ainda por refrear e das emoções constantemente à flor da pele – este segmento de mercado é um dos que mais gastos não-essenciais faz, pelo que não é de admirar que, ano após ano, surjam inúmeros produtos exclusivamente a eles dedicados.

Nos anos 90, antes do advento da Internet e do subsequente acesso directo a toda e qualquer informação desejada (bem, excepto imagens de certos produtos de época que ninguém se lembrou de registar...) um dos mais prolíferos sectores no que toca a produções dirigidas em específico a adolescentes era a imprensa. Ainda sem 'smartphones' nem 'websites' de onde extrair a informação (o píncaro da tecnologia móvel no final dos 90s ainda eram os telemóveis Nokia, e os sites ainda consistiam de 'layouts' básicos, em cores berrantes, e com muitos 'gif's à mistura) os adolescentes procuravam nas bancas as últimas novidades sobre os temas que mais lhes interessavam – e a imprensa oferecia-lhes precisamente o que procuravam. Dos videojogos à música e do desporto às 'fofocas' sobre celebridades atraentes, os quiosques e tabacarias portugueses dos anos 90 tinham de tudo um pouco para agradar aos jovens, e a maioria das publicações desta era da imprensa portuguesa tiveram ciclos de vida de vários anos, senão mesmo décadas, acabando por ter como carrasco, precisamente, a Internet 2.0.

Um destes títulos, que encerrou funções em 2018 após honrosos quinze anos de publicação, foi a versão portuguesa da revista 'Ragazza', um conceito originalmente idealizado em Espanha (e não em Itália, como se poderia pensar) e que se posicionava, em termos simples, como a resposta a publicações como a 'Cosmopolitan' para um público adolescente.

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Capa de uma edição moderna da versão portuguesa da revista

Lançada em Portugal em 1993, e recheada, mês após mês, com exactamente o tipo de artigos em que se pensa quando se pensa neste tipo de revistas – de supostos 'truques' para atrair o sexo oposto a artigos com conselhos sobre saúde ou moda, passando pelos inevitáveis 'posters' de artistas bem-parecidos e pela ainda menos evitável secção de cartas das leitoras – a 'Ragazza' servia, para grande parte do seu público, como um complemento ao binómio 'Super Pop' e 'Bravo', na altura ainda importadas dos respectivos países de origem, e cujos conteúdos tendiam a ser bem mais leves e superficiais; já a 'Ragazza' conseguia combinar essa leviandade com temas bem mais sérios, mas nem por isso de menos interesse para um público ávido de conselhos, e que, regra geral, tendia a não confiar nos adultos que lhe eram próximos para os elucidar.

Não é, pois, de estranhar, que a revista tenha sido um verdadeiro sucesso de vendas à época do seu lançamento, conseguindo um nível de tracção entre a demografia-alvo (e, consequentemente, de sucesso e longevidade) a que nenhuma das suas duas concorrentes directas à época do lançamento conseguiu alguma vez almejar. Prova disso é que não existe, na Internet actual, qualquer vestígio da '20 Anos', e o artigo da Wikipédia relativo à 'Teenager' consiste de...uma linha, que menciona apenas as datas de início e fim da publicação e o nome do editor: já a ´Ragazza´ tem páginas e blogs a si dedicados, maioritariamente por ex-leitoras desiludidas com o encerramento da publicação.

A esses memoriais junta-se agora mais este, por parte de alguém que, apesar de fazer parte da metade errada da população humana para alguma vez ter lido sequer uma linha desta publicação (ainda mais à época!), nem por isso deixa de reconhecer a influência e importância, no contexto da imprensa juvenil nacional de finais do século XX e inícios do seguinte, de uma revista que, mesmo tendo sido descontinuada, continua ainda assim a viver nas mentes e nos corações das suas antigas leitoras.

05.01.22

NOTA: Este post teve como referência de pesquisa os blogs Divulgando Banda Desenhada e Blog da Banda Desenhada. As imagens utilizadas são retiradas destes blogs, e devidamente creditadas.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas semanais com conteúdos divididos entre informações sobre a grelha de programação televisiva, 'fofocas' sobre celebridades e rubricas de carácter geral foram, a par da própria televisão, um dos meios de comunicação mais omnipresentes do último quarto do século 20, sendo presença assídua quer em casas particulares, quer nas mesas da sala de espera de consultórios, cabeleireiros, ginásios e outros serviços afins. Por sua vez, esta dispersão permitiu às publicações em causa abrangerem os mais diversos tipos de público, das donas de casa a que principalmente se destinavam até uma demografia mais jovem, que muitas vezes as lia em casa de familiares, ou enquanto acompanhava os ditos familiares aos locais acima descritos.

Assim, não é de espantar que pelo menos uma das referidas revistas se tenha procurado aventurar no mundo dos suplementos juvenis; tratava-se da TV Guia, uma das mais populares publicações do género, que a partir de Julho de 1996 veiculou entre as suas páginas um suplemento descartável com banda desenhada e passatempos, singelamente apelidado TV Guia Júnior.

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Página frontal do primeiro número do suplemento (Crédito: http://divulgandobd.blogspot.com/)

Composta por quatro páginas, das quais uma de passatempos, esta algo esquecida iniciativa serviu, acima de tudo, como mostruário para o trabalho de um dos poucos criadores de BD declaradamente infantil em Portugal: o entretanto malogrado Carlos Roque, cujo trabalho mais notável se desenvolveu no estrangeiro, nomeadamente na Bélgica, como parte das equipas das históricas revistas de BD 'Tintin' - que chegou a ter edição portuguesa entre meados dos anos 60 e inícios da década de 80 - e Spirou.

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Carlos Roque, autor dos conteúdos do suplemento, chegou a trabalhar com alguns dos maiores nomes da BD franco-belga, como membro das revistas 'Tintin' e 'Spirou' (Crédito da imagem: http://bloguedebd.blogspot.com/)

Em território nacional, Roque teve de se contentar com trabalhos em bem menor escala, pelo menos em termos de visibilidade, mas não deixou créditos por mãos alheias: para o suplemento TV Guia Júnior, foram criadas (pelo 'cartoonista' e a sua mulher, a belga Monique) uma série episódica, com continuação de uma semana para a outra, e duas de 'gags' avulsas, 'Tropelias de Malaquias' (cujo protagonista não escondia a inspiração em Dennis the Menace, da histórica publicação inglesa 'Beano') e outra centrada em torno de uma paródia de Mandrake, baptizada. bem ao estilo das BDs da época, com o pouco subtil nome de Patrake. Em todas elas, era evidente o cuidado e dedicação que Roque trazia para o seu trabalho, fazendo com que valesse bem a pena investir uns minutos todas as semanas a inteirar-se das novas aventuras de cada um destes grupos de personagens.

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Uma tira de 'Patrake, o Mágico' (Crédito da imagem: http://bloguedebd.blogspot.com/)

Roque não se ficou, no entanto, pela criação de todas as BDs do suplemento; o 'cartoonista' português seria também responsável pela página de passatempos, assegurando assim o monopólio criativo de todos os conteúdos inseridos naquelas quatro páginas. E a verdade é que o 'TV Guia Júnior' não ficou a perder por isso, antes pelo contrário - tivesse Roque a publicidade e fama de que gozavam alguns dos nomes com quem trabalhara na Bélgica, os fascículos deste suplemento constituiriam, hoje em dia, artigos de coleccionador altamente procurados; sem esse mesmo renome, no entanto, Carlos Roque acaba, para toda uma geração, por ficar somente associado a um suplemento pouco lembrado, oferecido durante um Verão por uma revista popularucha - uma pena, pois como os conteúdos deste suplemento bem demonstram, tratava-se de um talento ao nível de qualquer daqueles.

 

17.12.21

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Numa era em que quase todo o conteúdo é consumido por via digital, pode custar a acreditar que, num passado não muito distante, um dos principais meios pelos quais o público infanto-juvenil consumia 'novidades' sobre as suas propriedades favoritas era através da leitura, quer de publicações generalistas, quer de outras especificamente dedicadas ao assunto ou artista em causa. E destas últimas, em particular, havia mesmo muitas entre meados e finais dos anos 90 - de publicações centradas em torno de personagens fictícias como a Barbie a complementos a programas televisivos, como a Rua Sésamo e o Batatoon, ou revistas com origem em clubes de fãs, como a do Rik e Rok, havia muito por onde escolher para uma criança dos anos 90 com interesse na cultura 'pop' ou em curiosidades generalistas apropriadas à sua faixa etária.

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A revista 'Batatoon', uma das mais bem-sucedidas publicações infantis dos anos 90

A estrutura destas revistas era, regra geral, muito semelhante - havia, normalmente, a referida secção de curiosidades, uma de passatempos (quer do tipo para completar na própria revista, ao estilo quebra-cabeças, quer do tipo em que se ganhavam prémios ao enviar uma frase ou responder a uma pergunta), uma de banda desenhada (própria ou 'licenciada') e outra alusiva à propriedade que encabeçava a revista - afinal, havia que vender o peixe... As revistas mais 'sofisticadas' teriam ainda, provavelmente, uma entrevista com uma qualquer personalidade, ou páginas centrais temáticas, enquanto as menos ambiciosas preencheriam o restante espaço com testes de personalidade ou artigos 'descartáveis' relacionados aos problemas do público-alvo. Uma receita simples, mas que dava invariavelmente bons resultados - que o digam as referidas revistas da Barbie e Batatoon, que, sem atingirem a longevidade de uma Bravo ou Super Jovem, conseguiram ter uma 'vida' relativamente digna nas prateleiras portuguesas.

À medida que o Mundo se ia tornando cada vez mais digital, no entanto, estas revistas acabaram, naturalmente, por perder espaço, até se tornarem em meras 'relíquias' nostálgicas - uma situação que, infelizmente, não dá sinais de se inverter num futuro próximo, antes pelo contrário. Ainda assim, estas revistas marcaram época, e quem as leu certamente terá delas boas memórias, justificando portanto a 'lembrança' aqui no blog...

26.11.21

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 25 de Novembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar da variedade e qualidade das publicações periódicas dos anos 90 – que se estendiam de revistas sobre jogos de computador ou ciência a um jornal de música – a imagem que vem imediatamente à mente da maioria das ex-crianças ou jovens daquela época ao ouvir falar em 'revistas' será, quase certamente, uma qualquer capa de uma das muitas publicações semanais que ofereciam uma mistura de informações sobre a programação televisiva naquela semana com muitos, muitos artigos dedicados a 'fofocas' sobre as celebridades do momento; títulos tão icónicos quanto a TV Guia, TV 7 Dias, Nova Gente ou Maria, que pareciam 'habitar' nas mesas dos consultórios médicos ou na casa de familiares, sempre prontas a serem folheadas num momento de maior ócio, em que não houvesse nada melhor para fazer.

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Exemplos do grafismo da TV Guia em finais dos anos 80 e inícios de 90

Embora muito semelhantes, tanto estruturalmente como a nível de temáticas, estas publicações dividiam-se, ainda assim, em dois grandes grupos – de um lado, as mais declaradamente dedicadas ao jornalismo cor-de-rosa (onde se destacavam a Maria, a Ana, e a Nova Gente) e do outro, as que procuravam servir, em primeira instância, como um verdadeiro guia de programação, sendo a vertente de 'fofocas' secundária, caso da TV Guia, TV 7 Dias ou ainda da TV Mais. Não que as revistas pertencentes a este último grupo não tivessem páginas atrás de páginas dedicadas à vida dos famosos, que tinham; no entanto, as mesmas traziam, também, artigos de outro tipo, desde pequenas notícias mais sérias a peças sobre alguns dos filmes que iriam passar na televisão nessa semana, ou que se encontravam em exibição no cinema à data de publicação, entrevistas a actores e personalidades, notícias sobre desporto, ou o principal atractivo para a geração que lê este blog, os destacáveis.

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Exemplo dos conteúdos menos 'cor de rosa' proporcionado por revistas como a TV Guia

Parte tradicionalmente integrante das revistas sobre televisão desta época – sobretudo da TV Guia – os destacáveis tomavam mais frequentemente a forma de 'posters' de temas variados, que podiam ir desde uma foto de um actor ou de desportistas a uma cena retirada de uma série popular (por aqui, ficaram especialmente na memória os 'posters' do Bart Simpson a escrever no quadro, e do Sporting vencedor da Taça de Portugal 1994/95, ambos os quais tiveram lugar cativo na parede até a fita-cola secar.) No entanto, a referida TV Guia ganhava também pontos por oferecer 'capas' para filmes, que permitiam transformar uma qualquer 'cassette' gravada da televisão num 'facsimile' da fita comercial do respectivo filme, completa com texto de resumo nas costas e o título na lombada – uma solução extremamente apelativa numa altura em que a maioria dos filmes em VHS era mesmo gravado directamente a partir da transmissão televisiva, dado o preço algo proibitivo dos vídeos comerciais. Esta é, aliás a vertente pela qual a TV Guia 'clássica' mais é lembrada hoje em dia pela geração de 80 e 90, que muito e bom uso fez da mesma.

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Depois de postas nas caixas, as capas da TV Guia eram virtualmente indistinguíveis das dos lançamentos comerciais

Hoje em dia, a maioria destas revistas continua a ser publicada, e a encontrar o seu 'habitat' natural em salões de beleza e consultórios médicos por esse Portugal fora, ao lado de publicações como a Caras e a tradicional Hola!; no entanto, qualquer das mesmas é uma mera 'sombra' do que foi nos anos 90, reflectindo a mudança de paradigma introduzido pela Internet 2.0, e que teve um impacto considerável sobre os meios de comunicação tradicionais. Para quem cresceu com estas revistas resta, portanto, recorrer à memória do que costumavam ser, e às recordações de as folhear no médico, no salão de beleza ou em casa da avó...

 

17.11.21

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Nos anos 90, a Disney vivia um estado de graça em todas as frentes. Os seus filmes de animação (a principal vertente por que eram conhecidos) atravessavam uma segunda era de ouro, o mesmo se passando com as suas séries animadas; os seus parques temáticos estavam entre os destinos mais desejáveis do Mundo; e, apesar da pouca presença no mercado norte-americano, os seus livros de banda desenhada continuavam a fazer sucesso em mercados como o brasileiro, o italiano ou o português, onde as revistas Disney apenas eram rivalizadas em popularidade pelas de super-heróis da Marvel e DC – que, por serem publicadas pela mesma editora, não se podiam exactamente considerar concorrentes – e pelas da Turma da Mônica (estas sim, em competição directa.) Em Portugal em particular, não havia, à época, praticamente, criança ou jovem de uma certa idade que não conhecesse e lesse as histórias de Mickey, Pateta, Donald e companhia, as quais marcavam mesmo presença em suplementos de jornais e até em manuais escolares.

Tendo em conta este panorama, não é de todo surpreendente que a referida editora Abril se tenha sentido à vontade para expandir o seu raio de acção a histórias e personagens mais periféricos dentro do universo Disney, alguns dos quais acabavam de fazer a transição do mundo do cinema ou televisão para o dos quadradinhos, de Aladino, Ursinho Puff ou Mulan a Doug ou Pato da Capa Preta.

Estes e outros heróis Disney chegariam mesmo, no entanto, às bancas portuguesas em meados da década, através de uma colecção de álbuns temáticos em formato 'de luxo', com páginas A4 e papel grosso e brilhante. Simplesmente intitulada 'Álbuns Disney' (o que não ajuda nada no que toca à procura de referências um quarto de século depois) estes volumes faziam por justificar o preço mais elevado em relação às publicações Disney 'normais', algumas das quais ofereciam mesmo mais páginas de histórias, ainda que com personagens mais corriqueiros dentro do universo da companhia.

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Lá em casa havia este.

E por falar em histórias, as contidas em cada um destes volumes mais não eram do que traduções do material que saía na popular 'Disney Adventures' norte-americana, na altura uma das poucas fontes de banda desenhada Disney naquele continente, e conhecida precisamente por elaborar enredos aos quadradinhos para heróis mais conhecidos pelos seus feitos no mundo do celulóide ou das ondas televisivas; e a verdade é que estas se tratavam de histórias cuidadas, bem escritas e desenhadas, e bem merecedoras da atenção do seu público-alvo.

Infelizmente, a adesão a esta série foi bastante reduzida por comparação à das revistas mensais ou quinzenais, talvez devido ao preço mais elevado e distribuição mais limitada. De igual modo - e talvez como consequência da sua pouca popularidade na altura da publicação - hoje em dia, esta colecção entra directamente para a galeria dos 'Esquecidos Pela Net', sendo precisa uma pesquisa muito específica para encontrar sequer uma imagem de uma capa da colecção. Resta, pois, ao Anos 90 'desenterrar' mais esta pérola da época, e fornecer-lhe o 'lugar ao sol' que nunca conseguiu ter até hoje...

04.11.21

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

O ano de 1994 viu grande parte das crianças e jovens portugueses desenvolver uma verdadeira obsessão por dinossauros, as míticas criaturas pré-históricas relançadas na cultura popular pelo filme Parque Jurássico, um dos maiores êxitos de bilheteira – senão mesmo o maior – do ano anterior. Tendo a dita película encontrado grande parte do seu sucesso entre o público mais jovem, sobretudo o do sexo masculino, não foi portanto de surpreender que, durante os meses que se seguiram à sua exibição nos cinemas portugueses, essa mesma fatia de público tenha procurado coleccionar tantos objectos alusivos ao filme e à sua temática quanto possível. Fossem réplicas de dinossauros em borracha, livros sobre a vida destas criaturas ou até kits de escavação de fósseis, tudo o que se relacionasse com dinossauros ou com a pré-História em geral tinha sucesso quase garantido naquele ano de 1994.

No campo das publicações periódicas, o panorama não se afigurava por aí além diferente, pelo que a aposta de pelo menos uma editora neste autêntico filão de vendas também não se afigurou como por aí além surpreendente. A editora em causa foi a Planeta deAgostini, que aproveitou a deixa para acrescentar uma publicação sobre dinossauros ao seu já vasto leque de lançamentos pedagógicos, cursos de línguas e enciclopédias em fascículos semanais, 'adocicando-a' com um atractivo irresistível para os jovens da altura, e que garantiu que pelo menos o primeiro fascículo da série fosse um retumbante sucesso.

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Alguns dos muitos fascículos da série

Simplesmente intitulada 'Dinossauros!', esta série (originalmente oriunda do Reino Unido, onde fora criada pela Orbis Publishing) chegava às bancas na crista da onda da 'dinomania', oferecendo a quem coleccionasse todos os fascículos, não um, mas DOIS pontos de interesse; por um lado, a possibilidade de juntar todos os diferentes 'ossos' necessários à construção de um esqueleto-modelo de dinossauro, e por outro, o atractivo adicional de cada número incluir duas páginas com imagens em 3D, as quais podiam ser visualizadas com recurso aos óculos especiais oferecidos com o primeiro volume. Uma oportunidade bem aproveitada, portanto, para explorar não apenas a 'febre' dos dinossauros, mas ainda a do 3D, que na altura também grassava entre os jovens de todo o Mundo.

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Alguns dos brindes e acessórios oferecidos com a série

Qualquer conjugação destes dois elementos tinha enormes probabilidades de ser bem-sucedida, e no caso da dino-colecção da Agostini, foi exactamente isso que aconteceu, com muitas crianças a adquirirem, pelo menos, o volume inicial da série, o qual – como também era hábito naquela época – foi sujeito a uma oferta de lançamento, disponibilizando elementos extra pelo preço-base dos fascículos; a estratégia, como também era hábito, resultou em cheio, e aquele primeiro número, com o sempre popular T-Rex na capa, constituiu, à época, presença habitual nos quartos de crianças e jovens de Norte a Sul do País. Já os restantes fascículos eram comparativamente mais caros, ficando por isso reservados apenas aos mais fanáticos, e com mais dinheiro (e tempo) para gastar neste tipo de coleccionismo – o que, tendo em conta os níveis de concentração e atenção da criança média (tanto daquele tempo como de agora) poderá ter reduzido consideravelmente a dimensão do público-alvo desta série do número 2 em diante...

Ainda assim, esta foi uma colecção suficientemente memorável e temporã para justificar a inclusão neste blog nostálgico, cujo criador era, à época, da idade, sexo e persuasão ideais para sucumbir aos encantos de uma iniciativa como esta - tendo, como tal (e como muitos outros) tido em casa aquele primeiro fascículo da série...

21.10.21

NOTA: Este post corresponde a Quarta-Feira, 20 de Outubro de 2021

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar da grande expressão comercial que a banda desenhada internacional teve (e continua a ter) no nosso país ao longo das décadas, a produção nacional da mesma era, foi e continua a ser quase insignificante, tanto num contexto internacional como mesmo dentro de portas. Ao contrário, por exemplo, do mundo da música, no qual Portugal conta com muitos e muito respeitados artistas, a BD nacional não conta, praticamente, com quaisquer nomes dignos de nota, ou que possam sequer ombrear com os criadores 'de culto' de outras nações europeias ou mundiais.

Parte desta inexpressividade deve-se, admitidamente, à falta de meios através dos quais veicular a sua arte. A produção de publicações ligadas à BD em solo português tem sido, historicamente, quase tão fraca como a própria criação artística, o que também não motiva por aí além os poucos nomes ligados ao meio existentes no nosso país; mesmo em plena era da Internet, e com cada vez mais ênfase governamental na cultura, continuam a ser poucos ou nenhuns os meios ao dispôr de um desenhista que queira divulgar a sua arte – e, como seria de esperar, a situação era ainda menos encorajadora numa época em que não existiam quaisquer destes recursos.

Em inícios da década, no entanto, houve uma publicação que tentou mudar este paradigma, e oferecer aos artistas de banda desenhada nacionais pelo menos um meio que possibilitasse a sua exposição a um maior número de potenciais fãs; uma iniciativa arrojada, que acabou por não resultar, e que se afirma, hoje em dia, como pouco mais do que uma nota de rodapé na História da banda desenhada em Portugal, mas que merece ainda assim ser recordada, quanto mais não seja pela coragem que os seus criadores exibiram em tentar fazer vingar tal conceito em plena era da decadência da BD no nosso país.

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Capa do número inaugural da revista

Falamos da revista LX Comics, uma publicação editada durante apenas cerca de um ano – entre 1990 e 1991 – e que tinha como fito, precisamente, dar a conhecer alguns dos talentos lusitanos no campo dos 'quadradinhos', novelas gráficas e demais meios de narrativa plástica. Numa revista que procurava preencher o espaço deixado vago, poucos anos antes, pelas referências 'Tintim' e 'Mundo de Aventuras', não havia espaço a super-heróis da Marvel ou DC, nem a historietas cómicas da Disney – a LX Comics apresentava-se como uma publicação séria, de culto (ou nicho, se preferirem) e com pretensões abertamente artísticas...o que pode ter contribuído para o seu rotundo falhanço.

De facto, numa altura em que a banda desenhada ainda era considerada, por muitos, uma coisa 'de crianças', e em que as mesmas constituíam grande parte do público comprador de 'quadradinhos', tentar uma empreitada como a LX Comics, sem quaisquer concessões comerciais ou mesmo um grande nome através do qual despertar interesse, foi, no mínimo, arriscado; mal comparado, seria como se a World Wrestling Federation de meados dos anos 90 despedisse Bret Hart, Shawn Michaels e o Ultimate Warrior, e procurasse ainda assim competir de igual para igual com a rival World Championship Wrestling, que tinha Hulk Hogan e Ric Flair. Ainda assim, e como se disse acima, há que dar os parabéns aos criadores desta revista pela sua inabalável coragem e visão de futuro – pena que as mesmas não tenham sido postas a uso duas ou três décadas mais tarde...

15.10.21

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 14 de Outubro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Nos anos 90 e início do novo milénio, qualquer conceito ou propriedade intelectual de sucesso tinha grandes probabilidades de contar, entre o seu 'merchandising' oficial, com uma revista ou publicação, muitas vezes apenas tangencialmente conectada ao tema ou conceito em causa, outras mais directamente relevante para o mesmo. Foi assim, por exemplo, com a Rua Sésamo, no início da década, e com o Batatoon, já nos primeiros anos do novo milénio; exactamente a 'meio caminho' entre estas duas, no entanto, surgia uma outra representante do género, esta dirigida a um público um pouco mais velho - a revista 'Portugal Radical'.

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Capa de um dos números da revista

Baseada no programa do mesmo nome, exibido pela SIC, esta revista mantinha-se extremamente fiel ao conceito por detrás do mesmo, nomeadamente, o de manter informado um público ávido por desportos radicais, e espectador assíduo da emissão que esta publicação complementava. Assim, não é de surpreender que a mesma constasse, essencialmente, de página após página dedicada a dar a conhecer os mais populares desportos alternativos da época, bem como aquilo que se ia passando na 'cena' competitiva de cada um deles. Tal como acontecia na emissão televisiva, também aqui os principais desportos representativos do movimento - do skate ao surf, BTT, BMX, motocross ou patins em linha - tinham, cada um, direito ao seu próprio espaço, revezando-se no que tocava a honras de capa, mas nunca sendo deixados de fora de qualquer número da revista, abordagem que emprestava abrangência à publicação, e garantia a fidelidade do público-alvo, independentemente da sua modalidade de eleição.

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Exemplos do tipo de conteúdos da revista

Infelizmente, e apesar da notabilidade e popularidade durante a época áurea do programa, a revista 'Portugal Radical' não conseguiu emular a longevidade ou impacto cultural da sua emissão irmã; embora a maioria dos jovens daquele tempo ainda se lembrem de acompanhar o programa na televisão e de coleccionar os cromos, apenas os mais dedicados (quer aos desportos radicais, à época, quer à 'escavação' cibernética, hoje em dia) se lembrarão de que existiu também uma revista alusiva ao conceito, até porque 350 'paus' (como o anúncio televisivo apregoava) eram uma quantia considerável - quase duas semanadas para a maioria das crianças da época! - e, muitas vezes, valores mais altos se alevantavam...

Ainda assim, vale a pena recordar esta revista meio esquecida pelo passar do tempo (embora não pela Internet) e que serve, hoje em dia, como verdadeira 'cápsula do tempo' para uma época bem mais inocente, divertida, e (sim) radical...

Anúncio televisivo de promoção da revista

03.09.21

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 2 de Setembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Os anos 90 foram (em Portugal e não só) uma ‘época de ouro’ para o jornalismo especializado ou ‘de sector’. Fosse no campo dos jogos de computador e consola, desportivo ou (como veremos hoje) da música, poucos ‘hobbies’ e áreas de interesse havia que não tivessem pelo menos uma publicação a eles dedicada.

No caso da ‘cena’ musical, essa publicação era, sem qualquer margem para dúvidas, o jornal Blitz, uma espécie de ‘NME à portuguesa’ que – ali por meados da década que nos concerne – tinha popularidade suficiente para ditar opiniões no que tocava a novos lançamentos, tanto nacionais como internacionais.

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Inaugurado ainda na década de 80 – mais concretamente em 1984 – foi, no entanto, no decénio seguinte que esta publicação atingiu o auge da sua fama e popularidade, transformando-se em compra semanal (ainda mais) obrigatória para entusiastas de música de todas as idades, e espalhados um pouco por todo o país. Isto porque, para além de ser único e pioneiro na sua época, o Blitz não discriminava em termos musicais, oferecendo literalmente um pouco de tudo, desde o pop-rock ‘indie’ que fazia furor no ‘mainstream’ da altura até géneros mais de nicho, como o alternativo, o heavy metal ou a música de dança; melhor, qualquer que fosse o estilo abordado, os jornalistas da publicação mantinham-se, invariavelmente, imparciais. Ou seja, se fosse para falar bem, falava-se bem; mas se fosse para ‘bater’, ‘batia-se’ – e bem. Era esta atitude declaradamente imparcial, aliada a uma enorme qualidade jornalística em todas as frentes, que tornava o Blitz na referência que era para a juventude melómana dos anos 90.

Mais, o ‘universo’ da revista não se cingia apenas à música, estendendo-se também a áreas periféricas de interesse dos jovens, como a moda e a arte; havia, até, uma secção onde os leitores podiam dizer o que lhes ia na alma, sob a forma de ‘Pregões e Declarações’, muitas vezes de carácter alternativo ou até subversivo. Ou seja, uma publicação feita à medida do seu público, e que gozou, sem surpresas, do sucesso correspondente.

Claro que, como tudo o que faz sucesso em qualquer era da História, também o Blitz teve, durante aquela época, os seus imitadores – em particular, havia um jornal que imitava em tudo a publicação, desde o logotipo ao grafismo, mas cujo conteúdo ficava muito aquém dos altos padrões exibidos pelo Blitz. Sem qualquer surpresa, nenhum destes ‘seguidores’ atingiu alguma vez o estatuto de culto do original, e – ao contrário deste - todos foram rapidamente esquecidos pela juventude nacional.

O próprio Blitz se veria, com o passar dos anos e o evoluir da indústria, obrigado a mudar a sua abordagem editorial, primeiro através de uma relativamente inocente ‘lavagem de cara’ a nível gráfico, e depois de forma mais drástica, abandonando o formato que adoptara durante quase vinte anos e sofrendo uma ‘mudança de pronomes’ – de O Blitz, jornal, passava a A Blitz, revista.

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Exemplo do formato revista que a publicação apresentou no novo milénio

É  esta publicação (infelizmente, de cariz muito mais corriqueiro do que o seu antecessor) que se vai ainda encontrando (com cada vez menos frequência) nas bancas portuguesas, embora muito do seu actual âmbito se situe no universo digital. Para a memória fica aquela publicação física que, durante pelo menos duas décadas, moldou as opiniões sobre música de toda uma geração de amantes de música em Portugal – incluindo, suspeitamos, muitos dos leitores deste blog…

18.08.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos clubes de jovens.

Os anos 80 e 90 foram palco de um estranho fenómeno, criado por certas entidades comerciais e culturais como forma de aliciar o público infanto-juvenil: os chamados ‘Clubes de Jovens’.E se em décadas anteriores, esta denominação tinha já sido usada para designar literais espaços onde os jovens se podiam reunir e passar os tempos livres, nestas duas décadas, a expressão passou a ser usada para designar um conceito mais abstracto, mas não menos bem-sucedido junto do público-alvo.

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Quem nunca viu esta publicidade na sua revista favorita?

Existentes para entidades tão diversas quanto editoras e supermercados, estes Clubes tendiam, ‘grosso modo’, a ter o mesmo modelo: as crianças inscreviam-se, mandavam certos dados pessoais, e passavam a fazer parte de uma lista que recebia em casa, em exclusivo e de forma periódica, brindes e outras ofertas alusivas à temática do Clube. Estes brindes consistiam, normalmente, de uma revista (de conteúdo mais ou menos interessante, mas normalmente mais cuidada do que a natureza promocional poderia fazer adivinhar) e pequenas ‘quinquilharias’ que pouco custavam a produzir e que, simultaneamente, faziam a alegria das crianças médias da época, como autocolantes.

Exemplos destes clubes eram inúmeros, começando logo nos anos 80 com o Clube Amigos Disney (este de molde um pouco diferente, suportado por um programa de televisão e mais focado em ajudar as crianças a completar as suas colecções de revistas aos quadradinhos) e expandindo-se, na década seguinte, para entidades como o Clube Rik e Rok (associado à cadeia de hipermercados Jumbo, hoje Auchan) e o Clube Caminho Fantástico, que fazia verdadeiramente jus ao seu nome, e que adquiriu estatuto de inesquecível junto de  uma ‘fatia’ específica da população jovem, muito graças aos seus fabulosos Almanaques anuais, recheados de jogos, passatempos, receitas e curiosidades, a maioria submetida pelos próprios leitores. E como estes três – os exemplos mais imediatos, sobretudo por os dois últimos serem usufruídos lá por casa – haveria muitos mais, todos sensivelmente com o mesmo ‘modus operandi’, e todos com o seu público cativo – afinal, qual é a criança que não gosta de receber coisas pelo correio, sobretudo quando lhe são relevantes e totalmente gratuitas?

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Um dos fantásticos almanaques anuais do clube da Caminho

Infelizmente, este foi mais um daqueles conceitos que a era da Internet veio tornar obsoletos – hoje em dia, os passatempos, promoções e até artigos que anteriormente sairiam na simbólica revista tendem a estar disponíveis online, tornando redundante todo o processo de inscrição e espera pelo próximo envelope recheado de coisas interessantes. Uma pena, pois – como os leitores deste blog certamente concordarão – tratava-se de um conceito apelativo, e que seria hoje visto como uma excelente manobra de ‘marketing’, por permitir a fidelização de uma demografia de grande interesse para a maioria das marcas, a um custo muitas vezes negligenciável. Mas quem sabe? Talvez nesta era das redes sociais, alguém resolva reviver o conceito, adaptando-o ao século XXI e às novas tecnologias digitais; afinal, nem seriam precisas assim tantas mudanças, e o custo seria ainda mais baixo, dado já não ser necessário produzir conteúdos físicos para justificar a inscrição. Empresários – fica a dica…

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