Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

04.10.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

As duas últimas semanas do mês de Setembro assinalavam, para os alunos portugueses das gerações 'X' e 'millennial', o regresso às aulas, com todos os trâmites e rituais nele implicados, das matrículas à compra de material e livros e, claro, a sempre importante decisão sobre a côr do carimbo a estampar no cartão da escola, e subsequente nível de liberdade e autonomia. Em meio a tudo isto, havia ainda outro componente, menos trabalhoso e consequente, mas nem por isso menos importante: a obtenção e preenchimento de um horário escolar.

horario-escolar-joi.jpg

Exemplo de um horário promocional, no caso alusivo aos sumos Joi.

De facto, numa era em que a maioria dos processos eram, ainda, analógicos, aquelas folhinhas de papel ou plástico com uma grelha dividida em dias da semana e número de períodos típico de um dia de aulas constituíam a principal forma de um aluno recordar as datas, horas, ordem e até salas em que teriam lugar cada uma das suas aulas, tornando-os um auxiliar essencial para as primeiras semanas de aulas, antes de essas mesmas informações serem interiorizadas e o processo se tornar 'mecanizado' na mente do aluno.

Efectivamente, a importância dos horários era tal que, mesmo servindo apenas e só uma função utilitária, os mesmos estavam sujeitos às mesmas regras estéticas que qualquer outro elemento do 'kit' escolar; embora houvesse quem preferisse simplesmente anotar essas informações no verso do cartão da escola – que oferecia uma grelha para o efeito – a maioria das crianças e jovens procurava um horário de aspecto diferenciado, muitas vezes obtido gratuitamente como brinde numa qualquer revista juvenil, ou numa loja de material escolar, e orgulhosamente exibido no verso do 'dossier' ou na parede do quarto.

Escusado será dizer que, em plena era digital, os horários perderam toda e qualquer relevância que alguma vez pudessem ter tido; para os alunos de finais do século XX e inícios do seguinte, no entanto, esta aparentemente singela parte do processo de 'rentrée´ escolar revestia-se de uma importância que a torna, ainda hoje, memorável ao recordar os inícios de ano lectivo daquela época.

20.09.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Naquela que teria sido a primeira semana de regresso às aulas para a maioria dos 'putos' dos anos 90, vêm inevitavelmente à memória certas particularidades da vida escolar daquela época. Mas entre as memórias sobre ir comprar mochilas, cadernos, tabuadas e outros materiais, as recordações relativas ao processo de matrícula e as imagens mentais das infindáveis e icónicas circulares, surge também um aspecto algo mais esquecido por essa (agora adulta) geração, mas que, a dada altura do seu desenvolvimento, constituiu um ritual de passagem tão importante quanto o primeiro café ou a passagem de 'menino/a' a 'senhor/a' nas lojas: a obtenção do 'carimbo azul' no cartão escolar.

88baaca5358d62e673f4bfc6ccfdf269.jpg

Traseira de um cartão escolar português da época; o tão importante carimbo encontrava-se no verso, ou seja, na parte da frente, junto à fotografia.

De facto, numa altura em que os cartões de aluno eram, ainda, impressos em cartão, e isentos de quaisquer funcionalidades digitais, o tradicional processo de carimbagem assumia contornos cruciais para o futuro imediato de qualquer criança ou jovem daqueles finais do século XX. Isto porque a maioria das escolas, sobretudo as dirigidas ao segundo e terceiro ciclos do ensino básico, tendiam a adoptar um sistema dualitário para controlar as entradas e saídas dos alunos, quer após, quer durante as aulas; assim, apenas os alunos cujo cartão estivesse carimbado a azul eram autorizados a transpôr os portões da escola sem a presença de um adulto, sendo os portadores de cartões com carimbo vermelho obrigados a esperar pela chegada de um maior de idade, preferencialmente um dos encarregados de educação.

Não é difícil, mesmo para quem não tenha vivido aqueles tempos, perceber a importância de ser autorizado a ter no cartão o selo azul: não só o mesmo tornava possível acompanhar os amigos à saída da escola (e, quiçá, até regressar a casa totalmente sozinho!) como também sair durante os intervalos ou aquando dos famosos 'furos' – algo que, no caso do autor deste 'blog', permitia ir à drogaria da esquina comprar uma bola para o intervalo seguinte, à papelaria comprar chupa-chupas ou cromos, ou ao café comer um bolo não disponível no bar da escola. Além destas considerações mais práticas, o carimbo azul era, ainda, um sinal de confiança por parte dos pais, com fortes implicações de maturidade – um dos objectivos principais de qualquer criança ou jovem, sobretudo durante os anos da pré-adolescência.

Não é, pois, de admirar que a questão do carimbo no cartão da escola assumisse, durante a presente época do ano, tal importância para os 'putos' da geração 'millennial' portuguesa, sobretudo os residentes em ambientes citadinos, onde havia uma maior preocupação com a segurança por parte das escolas. E apesar de o advento dos cartões magnéticos e electrónicos ter vindo a extinguir por completo a prática em causa, é de acreditar que exista, presentemente, um sistema alternativo, que se revista de tanta ou mais importância para a 'geração Z' quanto um simples círculo estampado teve para a dos seus pais...

21.09.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Antes da entrada no mercado laboral, o calendário de uma criança ou jovem (de qualquer época da História) tende-se a reger-se por certos acontecimentos-chave, normalmente 'balizados' por períodos de férias; e, desses, um dos principais é, sem dúvida, o regresso às aulas – aquele processo social que se inicia ou com o regresso de férias, ou na semana das matrículas, e termina cerca de um mês depois, aquando do fim da segunda semana de aulas.

regresso_aulas.jpg

Neste período de pouco menos de trinta dias, o aluno médio (português ou de outro país, dos anos 90 ou da actualidade) abastecer-se-à do material necessário no hipermercado, supermercado ou loja de bairro mais próxima, reencontrar-se-à com amigos do ano anterior (ou fará novos), voltará a entrar na 'rotina' das aulas (ou ganhá-la-à, caso seja aluno da pré-escolar ou do primeiro ano do ensino básico), familiarizar-se-à com os livros de estudo e com o horário lectivo, conhecerá os novos professores e colegas de turma (e parece sempre haver novos colegas, mesmo em turmas que transitam do ano transacto) e, no caso dos praticantes de actividades extra-curriculares, perceberá como as mesmas se encaixam no seu quotidiano; a nível social, há ainda que impressionar os amigos com as histórias de férias (ou ter inveja, caso as deles tenham sido melhores do que as nossas), e aproveitar para perceber quais as 'modas' vigentes entre o corpo discente naquele ano, por forma a não ser apanhado desprevenido nesse campo.

Uma experiência relativamente imutável ao longo dos anos (e décadas, e séculos) cuja única diferença hoje em dia, em relação ao que se verificava há trinta anos atrás, se prende com o imediatismo da comunicação; isto porque, num período em que as redes sociais ainda não existiam e os telemóveis eram coisas básicas com ecrãs a preto-e-branco, era muito mais difícil saber dos amigos que não moravam perto de nós ou frequentavam os mesmos espaços – e, mesmo nestes casos, era preciso que os mesmos não tivessem ido de férias para fora, passar o Verão com a família remota, ou para uma colónia balnear. Assim, na prática, a maioria dos jovens em idade escolar acabava por só saber dos amigos e colegas aquando do recomeço das aulas, servindo aquelas semanas, também, para 'pôr a conversa em dia' e comparar 'notas' sobre o que os infindáveis três meses do Verão haviam rendido – informações que, hoje em dia, são praticamente inescapáveis por quaisquer duas pessoas que estejam conectadas numa rede social, reduzindo a necessidade de 'fofocar' com os colegas nos primeiros dias de aulas.

No cômputo geral, no entanto, pode considerar-se que a experiência do regresso às aulas se mantém, para os alunos portugueses, relativamente inalterada desde o tempo dos seus pais; as lousas podem ter sido substituídas por quadros inteligentes, e as fichas e circulares por emails ou 'apps' para telemóvel, mas o processo propriamente dito continua a ser essencialmente o mesmo das décadas de 80, 90 ou 2000, o que permite à geração que se 'estreia' agora na paternidade aconselhar, com conhecimento de causa, as novas gerações – um luxo a que eles próprios não chegaram a ter direito...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub