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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

24.11.22

NOTA: As imagens neste post foram cedidas em exclusivo ao Anos 90 pelo Sr. Joel Pereira, a partir da sua colecção pessoal. Ao mesmo, os nossos sinceros agradecimentos.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Enquanto principal competição futebolística ao nível das Selecções, não é de estranhar que cada novo Campeonato do Mundo desperte, durante as duas semanas em que se desenrola, o interesse dos periódicos desportivos um pouco por todo o Mundo, não sendo Portugal, de todo, excepção neste campo. No entanto, enquanto a maioria das publicações se contenta em fazer algumas capas alusivas ao certame, outros há que vão mais longe, dedicando suplementos inteiros à análise da competição em curso. O lendário jornal desportivo português 'A Bola' insere-se nesta última categoria, tendo dedicado, ao longo dos anos, vários números especiais da sua revista-suplemento a diferentes Mundiais – incluindo, em 1994, ao dos Estados Unidos.

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A capa do suplemento (crédito: Joel Pereira/OLX)

Esta revista, simplesmente designada pelo mesmo nome da competição, e que se encontra hoje quase totalmente Esquecida Pela Net (obrigado, Sr. Joel, pela cooperação no envio de fotos) tinha uma estrutura semelhante à de outros números do Magazine A Bola, reunindo uma série de artigos e secções mais ou menos detalhadas alusivas ao tema em causa; no caso, podemos encontrar entre as suas páginas, entre outros, uma galeria de cartazes alusivos à competição, bem exemplificativos do estilo gráfico adoptado pelos organizadores, e uma relação de atletas com ligação ao Campeonato Português presentes entre as equipas em prova – sempre com a qualidade jornalística que era, e continua a ser, apanágio do jornal em causa. O resultado é um suplemento que, à época, terá certamente feito as delícias dos leitores do periódico – entre os quais não deixavam de se contar uma enorme quantidade de crianças e jovens – da mesma forma que alguns dos seus outros congéneres, como o relativo à Geração de Ouro, lançado alguns anos depois, e de que aqui, paulatinamente, falaremos.

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Algumas das páginas e secções da revista (crédito: Joel Pereira/OLX)

Em suma, com a produção e lançamento desta revista em conjunto com o diário-base, 'A Bola' soube capitalizar sobre um nicho de mercado pouco explorado – é, aliás, de admirar que este seja o único suplemento deste tipo a surgir na senda de um certame como um Mundial de Futebol – sem com isso descurar os seus habituais padrões de qualidade, criando uma publicação com um 'tempo de vida' e interesse forçosamente mais limitado do que outros da mesma série, mas que não deixa, ainda assim, de ser um valioso documento de época para fãs de futebol que desejem reviver (ou, até, conhecer) um dos Mundiais da fase áurea de finais do século XX

03.11.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

As décadas de 80 e 90 representou, em Portugal, talvez o período mais activo e de maior desenvolvimento da imprensa escrita. De facto, aquele espaço de pouco menos de vinte anos viu surgir (e extinguirem-se) publicações tanto generalistas como especializadas em campos como os passatempos, o conteúdo infanto-juvenil, a música (popularmais pesada), os videojogos, os desportos radicais e a motor, a moda, a vida quotidana e as celebridades.

Neste último campo, em particular, Portugal ganhou, a partir de 1995, uma forte concorrente a revistas como a TV Guia, Ana, Maria ou TV7Dias, e que – como a maioria destas – se continua até hoje a afirmar como um dos 'bastiões' da imprensa escrita portuguesa: a revista 'Caras'.

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Baseada, ou pelo menos fortemente inspirada, na espanhola 'Hola!' (basta olhar para o grafismo de ambas para perceber a semelhança) a nova revista apostava numa premissa em tudo semelhante, dissecando de forma mais ou menos imparcial a vida e acções privadas das 'personalidades sociais' portuguesas, de políticos a jogadores de futebol, passando pelas inevitáveis 'socialites', então prestes a entrar num período de 'alta'.

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Capa do número 1 da revista, que evidencia não só a premissa do conteúdo como também as semelhanças com a espanhola 'Hola!'

Previsivelmente, tendo em conta a demografia-alvo e o que esta procurava nas suas revistas, cada uma das peças dava primazia a fotos 'indiscretas', tipo 'paparazzi', do evento ou acontecimento em questão, com apenas algumas linhas de texto a acompanhá-las; a excepção eram os 'perfis' de celebridades várias, em que as fotos eram bem mais compostas (ou não fosse a peça combinada de antemão) e o texto se expandia para incluir várias citações da personalidade em foco. O objectivo, esse, era o mesmo em ambas as situações: mostrar um modo de vida idealizado, de que os leitores e leitoras podiam partilhar, ainda que indirectamente, através dos artigos da revista – uma fórmula intemporal, e que, conforme referimos, continua até hoje a render dividendos e a atrair uma parcela considerável de público-alvo, mesmo em plena era da Internet.

Em meio aos artigos 'cor-de-rosa', a 'Caras' incluía ainda as habituais e quase obrigatórias peças sobre moda, culinária, beleza ou decoração; no entanto, estas eram meros 'apêndices' ao verdadeiro 'prato principal', destinados apenas a tornar a revista mais completa, balançada, e ainda mais atractiva para a demografia-alvo.

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As palavras cruzadas da revista, da autoria de Paulo Freixinho, centravam-se, previsivelmente, sobre as celebridades que figuravam nas páginas da mesma.

E o mínimo que se pode dizer a esse respeito é que o objectivo foi mais do cumprido – além de Portugal, a 'Caras' chegou a ter distribuição em Angola e versões próprias em países da América Latina, como o Brasil, a Argentina e até o Chile – estas, claro, adaptadas à realidade e personalidades locais. A revista foi, ainda, a vencedora do galardão correspondente a publicações sobre a 'sociedade' nos Prémios Meios e Publicidade de 2014 – uma recompensa até algo tardia para o impacto que teve, e continua a ter, na imprensa escrita portuguesa, onde é uma das poucas resistentes não-noticiosas num mercado em clara vertigem para a obsolescência, mas cujo público continua, aparentemente, a estar disposta a pagar para poder ter um vislumbre periódico sobre as vidas das suas celebridades...

20.10.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar de os jornais não fazerem, regra geral, parte do lote de preferências dos jovens no respeitante a periódicos – surgindo bem atrás das revistas aos quadradinhos e das publicações especializadas nos campos da músicados videojogos, da moda, das celebridades ou do desporto – esta demografia não deixava, ainda assim, de ter contacto com este meio de comunicação, noemalmente por intermédio dos adultos, que o compravam; mas se o suplemento de BD era, normalmente a secção para a qual os mais novos gravitavam, a verdade é que havia outra parte do jornal que não deixava de causar algum fascínio junto dos mesmos: a secção de classificados.

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Conceito cada vez menos imaginável na era do OLX e Facebook Market, as páginas de classificados formaram parte integrante de muitas publicações até às primeiras décadas do Terceiro Milénio, servindo como alternativa mais abrangente aos tradicionais anúncios em montras de lojas ou quadros de associações, bem como a publicações como as Páginas Amarelas. O fascínio, aliás, residia justamente no facto de, ao folhear uma destas secções, se poder encontrar absolutamente de tudo, desde produtos para compra, venda e troca (de pequenos electrodomésticos e artigos de colecção até casas ou carros) até ofertas de emprego, anúncios de serviços ao estilo das referidas Páginas Amarelas, pedidos de correspondência, e, claro 'gatinhas peitudas solitárias, sozinhas em casa, Alameda'; um verdadeiro microcosmos social, portanto, que não podia deixar de cativar a imaginação de qualquer criança ou jovem.

Assim, embora as secções correspondentes nas referidas revistas especializadas serem mais interessantes do ponto de vista prático (nomeadamente, por os produtos à venda e pedidos de correspondência serem menos generalistas e mais focados numa área de interesse específica) os classificados de jornais generalistas eram bastante mais apelativos do ponto de vista sociológico – conceito que a maioria da demografia em causa nem sequer conhecia, mas que activamente praticava. Infelizmente, conforme acima referido, é altamente improvável que uma secção deste tipo volte a gozar do mesmo sucesso das suas congéneres dos anos 90, ou sequer a figurar numa publicação periódica – uma categoria, ela mesma, em vias de extinção. Embora a existência de fóruns e 'sites' como o OLX seja extremamente conveniente, no entanto (evitando estar a 'esquadrinhar' a tipografia frequentemente microscópica destas páginas) os classificados são daqueles conceitos que, certamente, a geração que cresceu naquele tempo terá alguma pena de não poder partilhar com os jovens de hoje, para que também eles possam experienciar o poder transformativo de encontrar, pela primeira vez, nas páginas do jornal uma 'loirinha peituda carente e discreta' residente no Parque das Nações...

22.09.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Há algumas edições atrás, falámos nesta rubrica da revista Riff, tendo à data erroneamente insinuado tratar-se da primeira revista nacional dedicada ao som de peso, vulgo metal; nas próximas linhas, iremos desfazer esse equívoco, e falar da revista que merece, verdadeiramente, essa distinção, e que foi a verdadeira pioneira das publicações especializadas sobre rock pesado em solo nacional – a Rock Power.

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Capa do número 1 da revista. (Crédito da foto: Rock no Sótão)

'Braço' nacional de uma publicação de âmbito internacional, publicada em oito países (a edição lusa mantinha, aliás, o 'slogan' em inglês), a Rock Power portuguesa 'rebentava' nas bancas em Junho de 1991, tendo como editor o antigo colaborador inglês da Música e Som, Ray Bonici, e como redactores a equipa por detrás do também imensamente popular programa 'Lança-Chamas', liderada pelo inevitável António Freitas - talvez o principal dinamizador do 'som de peso' na imprensa portuguesa, e que viria também a colaborar nas duas outras revistas nacionais sobre este tópico, a Riff e a ainda mais famosa e bem-sucedida Loud! Quanto à Rock Power, a sua função e dos seus colaboradores passava, primeiramente, apenas por traduzir e adaptar os textos da edição inglesa (a qual, aliás, servia também de base à edição espanhola, em tudo idêntica à portuguesa), num molde semelhante aos de revistas 'multinacionais' como a Mega Force, Super Power ou Revista Oficial Playstation; com o passar dos números, no entanto – e à medida que a revista se estabelecia – os mesmos principiaram também a criar, de raiz, tópicos especificamente ligados à cena rock e 'heavy metal' lusa, dando à publicação uma personalidade mais vincadamente portuguesa, à semelhança do que, lá por fora, iam fazendo congéneres como a Kerrang! e Metal Hammer espanholas.

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Outro número da revista, no caso, o Nº8 (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Além das habituais notícias, entrevistas, biografias e críticas aos mais recentes lançamentos, a revista destacava-se, ainda, por incluir banda desenhada, nomeadamente a famosa série 'Judge Dredd', originalmente publicada na compilação de culto inglesa '2000 AD'; apenas mais uma razão para os 'metaleiros' nacionais, até então totalmente privados de conteúdos editoriais oficiais relativos à sua 'cena', desembolsarem mensalmente os 350 escudos que a revista custava - muita 'massa' em dinheiro de 1991, talvez, mas – como as linhas anteriores terão, espera-se, demonstrado – um 'sacrifício' mais do que justificado para quem, até então, tivera de recorrer a 'fanzines' amadoras para se manter a par do que se ia passando no seu panorama musical de eleição.

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Uma página de Judge Dredd, tal como apareceu no número 8 da revista. (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Quanto à revista em si, e apesar de não ter tido um ciclo de vida particularmente longo, nada lhe tira a distinção de ter desbravado um caminho sem o qual as posteriores 'versões melhoradas' da fórmula não poderiam ter existido – facto que, só por si, já torna merecido que se levantem um par de 'chifres' e uma imperial bem geladinha em sua homenagem.

02.09.22

NOTA: Este post é respeitante a Quinta-feira, 01 de Setembro de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar de não figurar entre os interesses mais imediatos da juventude portuguesa dos anos 90, a moda não deixava de encontrar parte do seu mercado entre a referida demografia, mais concretamente entre o sector adolescente feminino, o qual, entre procurar respostas para questões afectivas e identitárias e admirar celebridades atraentes, reservava também algum tempo para se colocar a par das novas tendências de vestuário, acessórios e aparência; assim, não é de admirar que, quando uma das maiores e mais históricas publicações internacionais nesse campo se decidiu 'aventurar' pelo mercado nacional, a mesma tenha sido recebida com entusiasmo e sucesso imediato, e desfrutado de uma longa e ilustre carreira nas bancas nacionais.

Falamos da Elle Portugal, a versão adaptada para o mercado luso da histórica líder de mercado francesa, cujo primeiro número sairia ainda na década de 80 (em Outubro de 1998), e que lograria manter-se nas bancas durante mais de três décadas, até as acentuadas mudanças no mercado dos periódicos a nível mundial terem forçado o seu cancelamento – o qual, ainda assim, se processou de forma digna e honrosa.

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O primeiro número nacional da revista, lançado em 1988.

Com estética e conteúdos em linha com as suas congéneres de outros países, o título editado pela RBA não seguia, no entanto o mesmo caminho adoptado por outras publicações 'importadas' da época, nomeadamente, o da simples localização de conteúdos originalmente escritos em outros idiomas; talvez ciente da reputação que o seu nome acarretava, a revista tentava, ao invés, oferecer às suas leitoras (e leitores) conteúdos originais e adaptados à realidade portuguesa, resultando numa publicação de enorme interesse para quem gostava de moda e decoração; no caso do mercado adolescente, acrescia ainda o facto de a Elle ser uma revista, a todos os níveis, sofisticada e adulta, algo distante das outras publicações habitualmente encontradas em mesas de sala de espera ou na 'pilha' em casa da avó, e cuja leitura proporcionava algum 'élan', elemento sempre crucial para a demografia em causa.

O sucesso da revista foi tal, aliás, que a RBA viria, mais tarde, a lançar também uma versão portuguesa da publicação-irmã, a Elle Decoration, dedicada (como o próprio nome indica) exclusivamente a artigos sobre decoração de interiores e exteriores; além disso, a boa recepção à Elle Portugal motivaria, quase uma década e meia depois, o lançamento de uma edição portuguesa para outro periódico 'histórico' do mundo da moda – a Vogue Portugal, cuja trajectória nas bancas nacionais foi mais curta, mas também consideravelmente bem-sucedida.

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Exemplar da Elle Decoration portuguesa.

Conforme referimos, as alterações no mercado dos jornais e revistas, derivados da rápida transição para o digital e agravados pela pandemia, forçaram ao cancelamento, em 2021, da edição fisica daquela que foi a primeira revista de moda internacional a ser lançada em Portugal após o 25 de Abril, e que se conseguiu manter na vanguarda não só da moda e beleza, mas também de questões como os direitos cívicos e a cidadania – tornando, assim, mais que merecida esta pequena eulogia, em homenagem à influência que exerceu sobre todo um sector da população nacional durante o período englobado por este blog.

25.08.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Hoje em dia - quando quase todas as páginas de Internet ligadas ao comércio possuem uma funcionalidade que permite deixar críticas sobre os serviços ou produtos adquiridos - saber o que pensam os especialistas ou consumidores sobre seja o que for é tão fácil, que é já tomado como adquirido até (sobretudo) pelas gerações mais velhas. No tempo em que essas mesmas gerações viveram, no entanto, o panorama era significativamente diferente, sendo necessário esperar pela opinião publicada ou publicamente veiculada de um especialista - a qual, além de constituir apenas uma opinião de um único utilizador, era também, necessariamente, subjectiva, e sujeita a todo o tipo de deturpações.

Nos últimos anos da década de 70, num esforço para equipar a sociedade portuguesa da era pré-Internet com um leque de opiniões mais variado, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (vulgarmente conhecida como DECO, mas que não deve ser confundida com o ex-futebolista do mesmo nome) lançava a Pro-Teste, uma revista dedicada, precisamente, ao teste de bens de consumo de distribuição em massa, independentemente do seu raio de acção, podendo um mesmo número apresentar testes a gamas de produtos tão variadas como ovos, micro-ondas, detergentes da loiça ou antivírus para computador.

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O denominador comum entre todas estas análises era o facto de serem testadas, não por um único especialista, mas por todo um painel, e mediante uma série de critérios pré-definidos, invariavelmente publicados numa tabela juntamente com os próprios resultados dos testes. As notas obtidas nas diferentes categorias (devidamente fundamentadas no texto do artigo em si) eram, então, sujeitas a um cálculo de média, que ditava a classificação final de cada produto; o produto com melhor média final e aquele que apresentasse melhor relação qualidade-preço tinham as honras de receber a recomendação Pro-Teste, a qual, naquele tempo, equivalia praticamente a um selo de qualidade.

Esta fórmula, bem conhecida dos portugueses até uma determinada geração, manteve-se praticamente incólume até aos dias de hoje (sim, a Pro-Teste continua a ser publicada, embora o seu âmbito e influência tenham diminuído consideravelmente) e atingiu, quiçá, o seu auge nos anos finais do século XX, em que a revista tinha praticamente o estatuto de Bíblia para os consumidores nacionais, que invariavelmente lhe recorriam na hora de escolher ou comprar um determinado tipo de produto; o sucesso era tanto, aliás, que, no novo milénio, o catálogo da Edideco - a editora fundada pela DECO para o lançamento de publicações próprias - se expandiu para uma série de outros títulos, dedicados aos conselhos de saúde, financeiros e de investimento, além de publicar uma série de guias sobre os mais variados temas ligados à defesa do consumidor.

Apesar de direccionados, sobretudo, a adultos, todos estes títulos - e, em especial, a Pro-Teste original - apresentavam um fascínio especial para as crianças de então, talvez por apresentarem uma vertente de comparação e 'competição' entre diferentes modelos, que tende a despertar o interesse inato de qualquer jovem; e ainda que as gerações mais novas vão buscar os seus conselhos, opiniões e críticas a outros locais, para os seus pais (e até avós) há uma fonte cujas análises se continuam a sobrepôr a todas as outras, nem que seja por virtude de, em tempos, terem sido o único órgão a disponibilizá-las...

04.08.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

O mercado nacional para periódicos semanais, quinzenais ou mensais era, nos anos 90, suficientemente vasto para englobar todo o tipo de publicações, desde revistas especializadas a vários tipos de bandas desenhadas, passando pelas revistas de 'fofocas', guias de televisão, jornais temáticos, revistas didácticasedições em fascículos e outras publicações de teor mais generalista; existia, no entanto, um denominador comum entre a maioria destes títulos, nomeadamente, o facto de a esmagadora maioria dos mesmos se dirigirem a um de dois públicos – o infanto-juvenil ou o feminino, quer jovem, quer mais maduro.

De facto, mais ainda do que às publicações para jovens, era às revistas 'para senhoras' que cabia a maior fatia do mercado nacional de revistas da época, sobretudo pela diversidade de títulos que acabavam por caber dentro dessa denominação, os quais iam das referidas revistas de 'fofocas' a publicações especializadas sobre moda (das quais, aliás, paulatinamente aqui falaremos), passando pelo título de que falamos nesta visita ao Quiosque, e que era algo único no panorama português da época.

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Nem revista 'cor-de-rosa', nem título especializado, e muito menos compilação de 'posters' para adolescentes, a 'Guia' deixava o seu intuito bem explícito no subtítulo: 'a revista prática'. De facto, esta publicação – lançada mesmo no dealbar da década, anos antes da sua congénere mais próxima, e que tinha como base a espanhola 'Mia' – pretendia afirmar-se como uma fonte de conhecimento sobre temas relevantes para a vida quotidiana de uma mulher portuguesa da época, os quais podiam passar tanto pelas habituais tendências de moda ou guias de presentes como por sugestões de trabalhos manuais ou conselhos sobre etiqueta e segurança em espaços públicos (nos 'Guias da Mulher', editados à parte e totalmente dedicados a esta vertente) ou até crédito à habitação (!)

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De cima para baixo: a espanhola 'Mia', base para a 'Guia' portuguesa, um exemplar do 'Guia da Mulher', publicado periodicamente pela revista, e o 'dossier' para arquivar as edições da mesma

Como era hábito nas revistas da altura, não podia também faltar uma vertente 'aspiracional', no caso representada pelo foco e destaque dado, em cada edição, a uma 'beldade' nacional ou internacional de renome, que tinha – como também é óbvio – honras de capa nessa semana.

Uma publicação, portanto, ao mesmo tempo única e bastante típica para o padrão português de inícios de 90, que sobreviveria até meados da década seguinte (contando mesmo, embora brevemente, com um espaço televisivo na RTP, nos primeiros anos da mesma) e ajudaria a abrir caminho para a chegada de revistas tão ou mais inovadoras e revolucionárias - que viriam a incluir versões portuguesas das principais publicações internacionais de moda da época – ao mesmo tempo que ocupava, sem destoar, lugar na habitual 'pilha' dos consultórios médicos ou cabeleireiros, ao lado das 'Nova Gentes' e 'TV7 Dias' desta vida. Certo é, no entanto, que nas mais de três décadas desde o seu desaparecimento, não tornou a haver título semelhante lançado no mercado português, restando saber se tal se deveu a redundância e falta de procura, ou simplesmente incapacidade de recriar uma fórmula, à época, totalmente inovadora e única...

 

14.07.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

As 'fanzines' – publicações criadas por e para fãs de determinado artista ou propriedade intelectual – eram, ainda, relativamente comuns nos anos 90, o mesmo podendo ser dito das revistas afiliadas a clubes de fãs oficiais, ou a clubes comerciais para jovens, bastando aqui lembrar a popular Revista Rik e Rok ou os fantásticos Almanaques Clube Caminho Fantástico. O que era significativamente menos comum era ver revistas deste tipo fazer a transição para o circuito de distribuição alargada e venda comercial – e, no entanto, foi isso mesmo que se passou com, não apenas uma, mas duas publicações deste tipo, em meados da década.

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Falamos das publicações oficiais dos Clubes Sega e Nintendo, que - como todos os outros aspectos relativos a estas duas instituições - partilhavam mais semelhanças do que diferenças, a começar no nome, que, em ambos os casos, seguia precisamente a mesma nomenclatura, juntando metade do nome da consola mais popular de cada companhia à época a um adjectivo indicativo de pujança e atitude dominadora - Mega Force no caso da Sega, Super Power no da Nintendo.

Também os conteúdos de ambas as revistas eram, previsivelmente, muito semelhantes, com cada uma a apresentar notícias, críticas e outros artigos relativos às últimas novidades lançadas por cada companhia, sendo que a Nintendo se limitou a manter a fórmula que já apresentava na sua publicação exclusiva para assinantes, embora agora com textos originais, por oposição a traduções do Francês. Até mesmo a editora era a mesma para ambas as publicações – no caso, a todo-poderosa Abril Jovem (mais tarde Abril Controljornal), à época a magnata das publicações temáticas em Portugal, quer se tratasse de banda desenhada ou de revistas especializadas, como as que abordamos neste post; com este facto em mente, não é de espantar que o formato de ambas as revistas fosse suficientemente aproximado para quase poder ser considerado idêntico.

Apesar de a Nintendo ter o benefício da experiência prévia, no entanto, no que toca a longevidade, foi a revista da Sega quem levou a melhor, tendo conseguido manter-se nas bancas dois anos, entre 1993 e 1995 – uma 'vida' curta, mas, ainda assim, duas vezes mais longa que a da sua congénere, que apareceu e se extinguiu no mesmo ano, 1994 (talvez por a Abril oferecer uma modalidade de assinatura anual, em exclusivo, a membros do Club Sega, os quais receberam ainda o primeiro número da revista de forma gratuita). Ainda assim, apesar da pouca longevidade (nenhuma das duas revistas viu dealbar a geração 32-bit) qualquer destas duas publicações terá, decerto, feito as delícias dos fãs dos videojogos de ambas as companhias, os quais talvez ainda guardem um ou outro exemplar algures na arrecadação dos pais...e que, não sendo esse o caso, sempre poderão recordar a infância clicando aqui ou aqui!

23.06.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui por várias vezes falámos do monopólio da Planeta DeAgostini no respeitante a enciclopédias ou séries educativas em fascículos. De cursos de inglês a colecções sobre dinossauros, cães, acontecimentos históricos ou qualquer outro tema, era praticamente certo que qualquer edição deste tipo surgida nas bancas portuguesas durante um determinado período de tempo teria a chancela da editora do globo.

No entanto, como também aqui discutimos no nosso último post, o referido domínio absoluto sobre o mercado dos fascículos não se afirmou suficiente para a editora, que, ainda nos anos 90, procurou diversificar a sua oferta para os campos da banda desenhada e das colecções de livros; e se na primeira destas categorias a Planeta se ficou por uma única série de seis álbuns produzidos para uma promoção da Repsol, a segunda trouxe à editora mais dois enormes sucessos a juntar ao seu impressionante portfólio, sob a forma das versões em livro das populares séries animadas 'Era Uma Vez...', do francês Albert Barillac.

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Mais do que apenas transpôr os episódios para um formato literário, no entanto, a Agostini utilizou os mesmos – disponibilizados em VHS, e mais tarde DVD, com cada um dos livros – como base para criar uma verdadeira obra didáctica, com o envolvimento de cientistas e pedagogos; o resultado foram duas memoráveis colecções, que muitos dos ex-jovens daquela época ainda recordam.

Sim, apenas duas – o capítulo 'do meio' da trilogia, 'Era Uma Vez...O Espaço', foi deixado de lado nesta iniciativa, por razões que não são inteiramente claras; assim, apenas 'Era Uma Vez...O Homem' e 'Era Uma Vez...A Vida' (re-intitulada 'Era Uma Vez...O Corpo Humano') tiveram direito ao tratamento 'intelectual', com cada uma a fomentar cerca de trinta volumes de conteúdo, sempre apoiado nas imagens e argumentos criados duas décadas antes por Barillac.

É claro que, tratando-se da Planeta DeAgostini, não podiam faltar as habituais ofertas que incentivavam à compra da colecção inteira – e, nesse capítulo, o esqueleto humano oferecido semanalmente, membro a membro, com os livros d''O Corpo Humano' perdeu apenas para o esqueleto de dinossauro da respectiva colecção como um dos melhores de entre estes 'incentivos'. A verdade, no entanto, é que as referidas colecções não necessitavam, de todo, deste tipo de táctica de vendas, já que ambas constituíam excelentes misturas entre pedagogia, factos científicos, e uma abordagem divertida e apelativa para o público-alvo – para além de, quando completas, formarem uma bonita imagem que 'fazia vista' em qualquer estante de livros de um quarto de criança ou adolescente.

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A junção das lombadas de todos os volumes das colecções criava um bonito efeito na estante

Assim, não foi de admirar que qualquer das duas edições tenha gozado de considerável sucesso junto da referida demografia, e sejam ainda hoje recordadas com enorme carinho e nostalgia por quem as coleccionou; razão mais que suficiente para lhes dedicarmos estas breves linhas.

O anúncio televisivo original para a colecção 'O Corpo Humano', datado de 1994

03.06.22

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 2 de Junho de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A par de países como o Brasil, a Alemanha ou a Finlândia, Portugal é um dos países onde o movimento 'hard rock' e 'heavy metal' continua a ser mais popular. Apesar da pouca quantidade de bandas de expressão verdadeiramente internacional saídas das suas fronteiras (a lista resume-se a Moonspell, e pouco mais) e da falta de infra-estruturas para concertos e gravações (problema recorrente há mais de quatro décadas) o nosso País continua a apresentar uma considerável densidade populacional de 'metaleiros', 'rockers' e 'punks', prontos a consumir todas as novidades do estilo.

Assim, não é de estranhar que, na era pré-Internet 2.0, tenham surgido em território nacional não uma, mas duas revistas especificamente dedicadas a divulgar essas mesmas novidades, fossem elas novos lançamentos, concertos, notícias sobre os mais populares artistas do estilo, entrevistas, ou até classificados para procura de músicos ou anúncios de lançamento de maquetes. Das duas, foi a mítica revista Loud! que acabou por singrar, tornando-se A referência do género em Portugal (referência essa, aliás, ainda hoje existente, embora apenas em formato online) e acumulando bem mais de uma centena de números, sempre num padrão de qualidade elevadíssimo; no entanto, é a sua antecessora que adquire maior importância histórica, por ter sido pioneira no que toca a publicações sobre o tema, acabando por desbravar caminho para o sucesso da revista lançada nos primeiros meses do novo milénio.

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Capa e grafismo do primeiro número da revista (crédito das imagens: blog Rock no Sótão)

Falamos da revista Riff, surgida nas bancas sensivelmente um ano antes da Loud! (em Janeiro de 2000) e que tinha como principal impulsionador António Freitas, nome maior do jornalismo 'metálico' nacional, tendo sido, entre outros, colaborador de música do programa Curto Circuito, apresentador de programas de rock pesado na Antena 3 e Rádio Comercial, e membro da redacção da referência Blitz, bem como da referida Loud!. A Riff representava uma tentativa de colocar o seu estilo de eleição também nas bancas portuguesas, desiderato esse que, no entanto, apenas seria aperfeiçoado com a sucessora desta publicação, deixando este primeiro esforço algo a desejar; entre 'gralhas', gramática duvidosa e um grafismo mais a dar para 'fanzine' do que publicação oficial, a Riff só se destacava mesmo pelo CD que oferecia com cada edição, no qual se incluíam temas dos mais recentes trabalhos de muitos dos artistas mencionados ou abordados em cada edição.

Ainda assim, num panorama isento de quaisquer outras opções, a Riff representava uma forma – ainda que algo amadora - de os 'metaleiros' de Norte a Sul do País poderem ir sabendo o que se passava dentro do seu género de eleição; no entanto, o surgimento da Loud!, apenas um ano depois, veio tornar mesmo esse objectivo obsoleto, visto oferecer uma alternativa de muito melhor qualidade, que não deixava qualquer motivo para continuar a apoiar a revista mais 'fraquinha'.

Assim, não foi minimamente de estranhar que a longevidade da Riff nas bancas após o aparecimento da sucessora tenha sido extremamente reduzido, e que, nos dias que correm (e ao contrário da referida sucessora) a mesma esteja praticamente Esquecida Pela Net, e seja descrita pelo próprio Freitas como 'não tendo corrido muito bem'; há, no entanto, que atribuir crédito à publicação pelo trabalho 'de sapa' e de desbravamento de caminho que realizou em prol do jornalismo musical 'pesado' em Portugal, dando aos milhares de 'metaleiros' do País uma primeira representação dentro da imprensa escrita portuguesa, e ajudando-os, assim, a sentirem-se menos ostracizados dentro da cena musical nacional como um todo.

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