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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

05.05.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Os anos 90 e 2000 foram, talvez, a última grande década para o coleccionismo. Antes de a Internet 2.0 transformar tudo em digital e efémero, praticamente não havia criança que não arrebanhasse, numa gaveta da cómoda ou orgulhosamente dispostos na prateleira do quarto, diferentes objectos de um determinado tipo, muitos deles conseguidos à custa de muito suor e lágrimas; e, destes, um dos mais clássicos eram os porta-chaves.

Uma escolha curiosa, visto a maioria das crianças não possuir quaisquer chaves para neles colocar, mas fácil de explicar pelo simples facto de os porta-chaves dos anos 90 serem verdadeiras obras de arte publicitária; de facto, fossem alusivos a um determinado local, licenciados a uma qualquer propriedade intelectual ou simplesmente destinados a divulgar uma marca ou produto, quase todos os exemplos deste tipo de objecto criados durante esta época eram extremamente apelativos do ponto de vista visual, não sendo, pois, de estranhar que 'caíssem no gosto' do público jovem, tradicionalmente susceptível a esse factor.

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Alguns porta-chaves dos anos 90 e 2000, da nossa colecção pessoal

Esta preferência tornou-se, aliás, ainda mais arraigada na ponta final da década, com o advento dos porta-chaves em formato de peluche, os quais se transformaram numa verdadeira 'febre' nos primeiros anos do novo milénio, sobretudo entre o público adolescente. Fossem os tradicionais ursinhos ou algo mais 'interessante', como personagens de banda desenhada ou de desenhos animados, este tipo de porta-chaves passou a ter lugar cativo em redor dos fechos da mochila de qualquer estudante do ensino secundário, posição essa que não perderia até já bem tarde na década seguinte. Apenas mais uma desculpa para se coleccionar este tipo de objecto (por aqui, reuniram-se os quatro personagens principais da série South Park) agora com o bónus adicional de o mesmo poder, também, servir a sua verdadeira função – afinal, ao contrário das crianças mais novas, o adolescente português comum da época já dispunha, pelo menos, das chaves de casa...

Fossem quais fossem os motivos por trás do fascínio daquela geração com os porta-chaves, no entanto, o mesmo era inegável – tanto assim que apostamos que, se muitos dos ex-jovens daquela época remexerem hoje nas gavetas ou garagens da sua infância e juventude, não deixarão de encontrar vários exemplares desse tipo bem particular de 'quinquilharia'...

14.04.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

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Quando se é criança, 'vale tudo' para 'desligar', mesmo que por momentos, de uma aula chata; e nos anos 90, quando os telemóveis ainda eram mais excepção que regra e os 'tablets' ainda nem eram ideia no cérebro de um qualquer cientista, uma das principais formas que as crianças de todo o Mundo encontravam para 'matar tempo' nessas alturas mais chatas (quando não estavam a passar papéis entre si, claro) eram as confecções em papel, criadas com as folhas dos cadernos e 'dossiers'.

Da mais famosa destas - o quantos-queres - já falámos numa edição anterior desta rubrica; hoje, dedicaremos a nossa atenção às outras principais categorias de criações deste tipo - a saber, os barcos, os chapéus e, claro, os aviões de papel.

Dos três tipos, o mais universal era, sem dúvida, o último, até por um avião de papel ser tão fácil de criar - e a definição do que constituía uma criação deste tipo tão lata - que até quem não tinha grande jeito podia rapidamente 'fabricar' um destes artefactos e gerar algum entusiasmo, fosse na sala de aula ou cá fora, no recreio (as competições para ver que avião voava mais longe eram praticamente um ritual entre jovens de uma certa idade); por contraste, os barquinhos requeriam água nas proximidades (e tendiam a desfazer-se rapidamente) e os chapéus deixavam de servir após uma certa (pouca) idade. Ainda assim, qualquer destes três elementos constituía uma 'quinquilharia' artesanal perfeitamente válida - e, mais importante, uma forma divertida de fazer 'acelerar' o tempo num dia de escola mais lento...

24.03.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Os anos 90 foram, como já por várias vezes documentámos nestas páginas, pródigos em fenómenos infantis baseados num qualquer tipo de jogo; e, durante um período de alguns anos na segunda metade da década, muitos destes fenómenos surgiam sob a forma de jogos de cartas. Destes, o mais lembrado é, evidentemente, o Magic: The Gathering (que teve, já no novo milénio, uma semi-ressurgência na forma dos jogos de Pokémon e Yu-gi-oh, que dele tiravam óbvia inspiração) mas houve outro tipo de baralho que, embora menos imediatamente nostálgico, proporcionou também muitos e bons momentos competitivos às crianças portuguesas da época: aqueles da Majora com fotografias de carros, aviões ou motas, e respectivos valores técnicos impressos por baixo.

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Curiosamente, apesar de já de há muito terem 'passado de moda' por terras lusas, este tipo de baralho continua a existir no estrangeiro, onde surge em edições licenciadas e tematizadas e tem, mesmo, uma marca definida – Top Trumps. Escusado será dizer que, em Portugal, a situação não era, nem de perto, semelhante, sendo os baralhos da Majora (oficialmente identificados pela expressão 'Super Cartas') invariavelmente conhecidos pela designação genérica do tema a que diziam respeito – por exemplo, 'Carros', 'Aviões', 'Motas' ou o que mais estivesse representado na carta-frontispício que todos eles tinham.

Fosse qual fosse o tema, no entanto, a mecânica destes jogos era sempre a mesma – cada carta tinha uma série de estatísticas relativas ao veículo, animal, personagem ou até planeta que representava, e que os jogadores (após dividirem o baralho irmamente entre si, e determinarem qual o dado a ser tomado em conta) comparavam directamente, caso a caso, para determinar quem ganhava aquele turno. Por exemplo, no início de um turno de um jogo relativo a carros, e tendo os jogadores decidido comparar cilindradas, cada um dos mesmos apresentava a carta que encabeçava a sua pilha, e quem tivesse o carro com maior cilindrada ganhava esse turno.

Uma mecânica simples, mas que dava azo a largos momentos de diversão (bem) competitiva, com a vantagem adicional de um jogo demorar bem menos do que uma partida de Magic ou até de Uno – a duração estava mais próxima da de uma partida de 'Peixinho' ou outro jogo de cartas infantil convencional. Não era, como tal, incomum ver crianças a aproveitarem o intervalo da escola, ou aquele período entre o segundo toque e a chegada da professora, para encetarem um jogo rápido, sem compromisso, dado ser este, também, daqueles tipos de jogo que se podem interromper ou até parar a qualquer altura, sem que fique aquela sensação de ter deixado algo a meio.

Essa característica, aliada ao potencial competitivo e preço convidativo para os bolsos infantis, terá contribuído em grande parte para o sucesso destas cartas, que – numa era em que a Internet era ainda mais do que incipiente, e jogos como o 'Cards Against Humanity' nem sonhavam ser concebidos – fez as delícias de muitas crianças e jovens nacionais, chegando mesmo o Bollycao a aproveitar a sua mecânica para a sua popular colecção de cartas 'Kaos', lançadas sensivelmente na mesma época. Enfim – outros tempos, em que algo tão simples quanto um baralho de cartas com fotografias de carros ou aviões conseguia divertir até mesmo quem já tinha mais idade...

03.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Um dos mais demonstráveis axiomas dos anos 90 era que qualquer propriedade intelectual popular entre o público jovem seria alvo da sua própria colecção de cromos; e com bom motivo, já que s autocolantes temáticos coleccionáveis estavam em alta entre a referida demografia, e lançar uma colecção alusiva a uma série, artista ou obra literária de sucesso era receita segura para manter a mesma ou o mesmo relevante junto do sector infanto-juvenil, prolongando assim a sua popularidade ao mesmo tempo que se aumentavam as receitas de vendas. Foi assim com o Dragon Ball Z, as Tartarugas Ninja, os Simpsons, A Máscara e – numa altura em que o Cavaleiro das Trevas atravessava a sua fase de maior exposição mediática até então, graças à sua popular série de filmes e a algumas excelentes histórias nas suas bandas desenhadas – era de prever que assim fosse, também, com Batman.

A diferença entre o caso do Vingador Mascarado e os referidos no parágrafo anterior reside no facto de que, sendo a sua popularidade bem mais 'continuada' do que a da maioria das propriedades intelectuais para crianças, o mesmo teve direito, não a uma, mas a duas colecções de cromos durante a década a que este blog respeita, conseguindo através das mesmas fazer parte das memórias coleccionistas de duas gerações distintas.

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O primeiro dos dois lançamentos (nenhum dos quais, surpreendentemente, lançado pela Panini) deu-se logo no início da década, aquando da estreia do primeiríssimo filme do justiceiro de Gotham, da autoria de Tim Burton, o qual foi alvo de uma aguerrida campanha de marketing e divulgação, na qual a caderneta da Editorial Impala se inseria. Com cromos que retratavam as diferentes cenas do filme, o álbum oferecia às crianças e jovens um meio de recordar o filme de que tanto haviam gostado no cinema, ao mesmo tempo que aguçava o 'apetite' de quem ainda não o tinha visto – exactamente como se pede a uma publicação deste tipo.

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O mesmo, aliás, se passava com a segunda caderneta, lançada em 1995 pela Merlin como complemento ao terceiro filme da série, 'Batman Para Sempre'. De facto, apesar do aspecto visual algo mais cuidado, e que reflectia a passagem de tempo que se havia verificado deste a caderneta original, esta colecção possuía estrutura e conteúdos muito semelhantes aos da sua antecessora, oferecendo uma visão geral simplificada do filme, passível de agradar tanto a quem o vira no cinema, como a quem ainda não tinha tido oportunidade. E é claro que também não faltavam os habituais cromos 'especiais', duplos e quádruplos, que tornavam a experîência de completar a colecção ainda mais desafiante e emocionante.

No cômputo geral, e apesar de não apresentarem rigorosamente nada de novo em relação a outras colecções marcantes da época, os dois álbuns de cromos de Batman lançados nos anos 90 mostravam-se exímios naquilo que se pedia a uma colecção de cromos à época, possuindo múltiplos pontos de interesse para o público que se dedicava a este tipo de actividade.

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Uma das cadernetas de Batman lançadas já no novo milénio

O Homem-Morcego seria, aliás, um filão que o meio continuaria a explorar em décadas subsequentes, com pelo menos mais dois álbuns alusivos ao Cavaleiro das Trevas a serem lançados desde então; esses, no entanto, ficam já fora do âmbito deste blog, pelo que hoje nos ficamos por recordar as duas colecções que marcaram o início do percurso do herói de Gotham no mundo das cadernetas de cromos...

 

10.02.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Uma das maiores falácias de qualquer narrativa nostálgica – e mesmo de algumas narrativas sociológicas – é a ideia de que, assim que os computadores e jogos de vídeo se popularizaram como consumíveis electrónicos para a casa, todas as brincadeiras que vinham, até aí, sendo norma entre a população jovem se extinguiram de imediato, tendo os miúdos passado a não se interessar por nada que não tivesse um ecrã. Esta assumpção é prevalente ao ponto de constituir um lugar-comum – e, no entanto, a mesma adapta-se melhor, e é mais verdadeira, na actualidade do que em qualquer das décadas a que pretende dizer respeito.

Não, nós não abandonámos as bicicletas e os patins em linha assim que a Sega e a Nintendo nos apareceram debaixo da árvore de Natal; nem tão-pouco deitámos imediatamente fora os jogos de tabuleiro, bonecas e figuras de acção que as mesmas supostamente viram substituir. Na verdade, quem cresceu durante os anos 80 e 90 continuou a divertir-se com muito pouco (e raramente de teor electrónico) durante quase a infância inteira – sendo a quinquilharia de hoje um exemplo perfeito disso mesmo.

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Embora também existam em versão maior, os 'jogos de água', como eram à época conhecidos, ganharam fama em Portugal como diversões portáteis – o tipo de coisa que se levava no bolso para uma viagem de carro, autocarro ou comboio quando não se podia levar o Game Boy ou um jogo electrónico, ou que se usava para matar tempo durante as férias na praia. Relativamente baratos e desafiantes o suficiente para manterem a maioria dos miúdos entretidos mais do que os cinco minutos da praxe, estes brinquedos eram presença comum entre a demografia em causa, pela qual são, aliás, ainda hoje saudosamente recordados.

Regra geral (e embora existissem múltiplas variações) o princípio destes jogos tendia a ser sempre o mesmo: o botão ou botões no painel frontal controlavam jactos de água emitidos de cima para baixo em cada um dos extremos do brinquedo, os quais faziam saltar e flutuar as argolas ou bolinhas contidas no interior do mesmo; o objectivo passava, então, por fazer com que essas mesmas argolas ou bolinhas assentassem nos 'pinos' estrategicamente colocados no campo de jogo, numa mecânica semelhante à do popular jogo das argolas. Um objectivo simples, mas tudo menos fácil, dada a natureza volátil da água, que tendia invariavelmente a enviar as peças para muito mais longe do que seria necessário ou desejável, obrigando a mais largos segundos de 'maningâncias' por parte do jogador, para as conseguir trazer para mais perto de onde as queria...

Enfim, um brinquedo extremadamente simples, e de que a Geração iPad certamente faria troça se alguma vez tivesse sabido da sua existência, mas que ajudou a colmatar muitos tempos mortos das nossas infâncias, sem precisar de estar com o nariz colado a um écrã. Só por isso, estes brinquedos já valem a homenagem nesta nossa Quinta de Quinquilharia...

20.01.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Uma das principais características da maioria das crianças e jovens – seja qual for a época em que nascem e crescem – é o gosto pelo coleccionismo. Há algo na perspectiva de acumular todas as variantes disponíveis de alguma coisa que desperta o interesse inato do ser humano em fase formativa, sendo essa predisposição intangível o principal factor por detrás do sucesso de fenómenos como as colecções de cromos, jogos como os Tazos, o Magic the Gathering e conceitos como o do 'franchise' Pokémon.

No entanto, e ainda que todos os produtos atrás enumerados convidem ao coleccionismo parametrizado (no caso, pelo número de cromos, Tazos, cartas ou até monstrinhos virtuais à disposição do utilizador) existe – ou pelo menos existiu – uma vertente bem mais espontânea e anárquica deste passatempo, traduzida no coleccionismo de um determinado tipo de produto ou objecto, independentemente da sua proveniência e sem estar restrito aos moldes artificialmente criados por uma determinada empresa.

Esta vertente do 'hobby' de coleccionar, que encontra raízes em décadas mais ou menos remotas da sociedade ocidental, estava ainda bem viva nos anos 90, sendo que muitas crianças e jovens desse tempo tinham, ainda, o hábito de coleccionar 'quinquilharias', fossem elas selos, autocolantes, seixos da praia, postais, caricas, fotografias de artistas, ou até algo mais inusitado, como Credifones.

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Os porta-chaves eram apenas um dos muitos objectos quotidianos potencialmente coleccionáveis para um jovem dos anos 90

Dependendo da seriedade de cada indivíduo, estas colecções podiam chegar a durar anos, e – pela sua organização e armazenamento tão anárquicos quanto o próprio método de colecção – corriam sério risco de serem deitadas fora, oferecidas a terceiros ou (na melhor das hipóteses) vendidas quando se tornasse necessário desocupar espaço nos armários, juntar dinheiro, ou proceder a uma alteração no estilo de vida. Melhor sorte tinham as que ficavam guardadas na garagem depois de o seu dono perder o interesse, à espera de serem encontradas e nostalgicamente recordadas algumas décadas depois.

Fosse qual fosse o seu fado, no entanto, a verdade é que as colecções eram, nos anos 90, levadas muito a sério pela faixa mais jovem da população – ao ponto de, nas habituais secções de correspondência que eram parte integrante de qualquer revista para jovens da época, aparecerem muitas vezes anúncios relativos à troca de elementos de colecção, fossem essas trocas directas – selos por selos, por exemplo – ou entre elementos de dois tipos distintos (como um coleccionador de caricas que trocasse tampas raras por postais ou autocolantes potencialmente interessantes, por exemplo.) A natureza necessariamente postal destas interacções fazia ainda com que, muitas vezes, aquilo que começava como um 'negócio' de interesse puro e duro se transformasse em algo mais, por força do volume de cartas e encomendas trocadas entre ambas as partes – decerto terá havido muitas amizades a ter início na secção de Trocas do Correio do Leitor de uma qualquer revista dirigida ao público juvenil...

Tal como muitos outros fenómenos de que falamos nestas páginas, no entanto, também o coleccionismo acabou por cair em desuso. Embora o sucesso da série de jogos de 'Pokémon' demonstre que a atracção quase obsessiva pelo coleccionismo não desapareceu por completo entre a demografia mais jovem, os membros da mesma parecem mais interessados em coleccionar seguidores no YouTube ou Instagram do que em juntar paciente e dedicadamente produtos físicos semelhantes ao longo de vários anos; uma pena, pois – além de divertido – o coleccionismo fomenta conceitos tão valiosos quanto as supracitadas dedicação e paciência, a perserverança, o desenvolver de interesses próprios ou o sentido de organização e responsabilidade. Ainda não é, no entanto, demasiado tarde – talvez a última geração a ter crescido a coleccionar 'bricabraques' em caixas e frascos mantidos na prateleira do quarto ainda consiga mostrar à que lhes sucedeu o porquê de este passatempo ter sido, em tempos, a tal ponto popular...

30.12.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E porque na última Quinta-feira falámos aqui da importância dos brindes no contexto do bolo-rei, porque não dedicar o post de hoje a debruçarmo-nos um pouco mais a fundo sobre os mesmos?

Como quem comeu um bolo-rei na era pré-legislação europeia certamente saberá, os referidos brindes consistiam, única e invariavelmente, de um pequeno objecto em metal (sendo esta um dos principais pontos contenciosos da inclusão dos mesmos num produto alimentar, visto que os metais podem criar diversas substâncias nocivas, as quais poderiam depois ser transmitidas para o próprio bolo) com a forma de um qualquer elemento tradicional, quer da gastronomia ou cultura portuguesa (por aqui, reside bem viva a memória de uma posta de bacalhau em miniatura, obtida num qualquer bolo-rei em meados dos anos 90) quer apenas da vida quotidiana. Por vezes (embora nem sempre) o brinde incluía uma pequena argola, que permitia a sua acoplagem a um porta-chaves ou ao fecho de uma típica mochila escolar, acentuando o potencial destes objectos como 'quinquilharias' infantis.

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Exemplos de brindes do bolo-rei

E a verdade é que, embora não fossem residentes permanentes de bolsos, estojos e bolsas de mochila, estes objectos tinham o seu pequeno lugar ao sol, logo a seguir ao Ano Novo, quando o seu interesse ainda não se havia esmorecido ao ponto de os relegar para o fundo de uma qualquer gaveta de casa; e embora esse período não se prolongasse, normalmente, além da primeira semana de aulas, não deixava de ser com um sorriso que, meses mais tarde e com a época das Festas já muito distante, se tornava a encontrar o brinde do ano anterior no fundo da referida gaveta, voltando o mesmo a ser motivo de interesse, ainda que por poucos minutos. Razão mais que suficiente para que, nesta quadra que caminha a passos largos para o fim, dediquemos estas poucas linhas a este elemento clássico e tradicional das Festas portuguesas dos anos 90, entretanto extinto para sempre, mas que perdura nas nossas memórias daquele tempo.

09.12.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Numa edição anterior desta rubrica, dedicámos a nossa atenção às colecções de cromos, uma das principais categorias de 'quinquilharia' presentes no bolso ou estojo de qualquer criança dos anos 90. Os 'stickers' para a caderneta estavam, no entanto, longe de ser o único artigo deste tipo a merecer a atenção dos mais pequenos durante aquela época; pelo contrário, qualquer pedaço de papel plastificado com verso aderente era grandemente apreciado – e avidamente procurado – pela demografia em causa.

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As famosas folhas de autocolantes dos anos 90

Os autocolantes estavam longe de ser um fenómeno exclusivo dos anos 90 – na verdade, a sua época áurea tivera início na década anterior – mas não há como negar que, no final do século XX, os mesmos se encontravam ainda muito em voga entre as crianças e jovens, fossem eles adquiridos por via promocional ou adquiridos na tabacaria, naquelas famosas folhas com séries de pequenos desenhos relacionados ao mesmo tema. E havia autocolantes alusivos a tudo, desde as óbvias motas, monstros, princesas e cenas 'fofinhas' até bandas, países, desenhos animados e, claro, produtos e serviços oferecidos por companhias que procuravam estabelecer-se no mercado - isto, claro, sem esquecer os oferecidos como brinde na compra de artigos alimentares, como as famosas colecções dos 'Tou's' do Bollycao ou dos jogos da Sega, das Donetes.

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Uma das mais famosas séries de autocolantes da década

Qualquer que fosse a origem ou temática, no entanto, os autocolantes eram invariavelmente açambarcados, e tinham sensivelmente os mesmos destinos: a capa do caderno ou 'dossier' (que, se fosse lisa, era revestida de autocolantes na frente e verso para formar uma colagem ao estilo mosaico), o armário do quarto ou cabeceira da cama, a tampa da consola, o 'skate' ou bicicleta e até, para os mais imaginativos, locais como o tanque do peixinho ou tartaruga (nos anos 90, rara era a casa com crianças que não tinha, pelo menos, um autocolante num sítio insólito ou inesperado.) As crianças dos anos 90 simplesmente adoravam o efeito que aqueles pedaços de papel adesivo colorido davam a superfícies que, sem eles, pouco brilho tinham, e não é portanto de admirar que os mesmos fossem presença assídua nos bolsos dos mesmos, no meio de todas as outras 'quinquilharias' de que aqui falamos regularmente.

Como quase tudo de que aqui falamos, também os autocolantes foram praticamente 'obliterados' pelo advento da era digital – excepto, estranhamente, no mundo da música, onde continuam a ser um brinde bastante utilizado e apreciado. Ainda assim, qualquer pessoa que tenha decorado a tampa do seu portátil com um cromo ou adesivo se lembrará do tempo em que não era só um, mas muitos, espalhados um pouco por todo o quarto, nos brinquedos e nos livros da escola...

18.11.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Na primeiríssima edição desta rubrica, falámos um pouco sobre os 'Tazos', talvez o brinde alimentício mais recordado e nostálgico dos anos 90; hoje, falamos finalmente da 'febre' que lhes sucedeu, e que atingiu níveis de sucesso quase (QUASE) semelhantes, embora se tenha afirmado como menos icónica a longo prazo.

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Falamos das Matutolas, pequenas figuras de plástico sólido ou translúcido em forma de cabeça (ou se quiserem, 'tola') que, tal como os seus antecessores, fomentavam não só a vertente coleccionista inerente a qualquer criança, mas também a veia competitiva existente dentro dela. Isto porque, como os 'Tazos', as Tolas eram, ao mesmo tempo, objectos de colecção e peças de jogo, destinadas a serem apostadas, ganhas e perdidas nos recreios e pátios por esse Portugal afora – objectivo esse que, previsivelmente, foi mais do que confortavelmente atingido.

Tão-pouco era este o único ponto em comum entre as Tolas e a colecção que lhes antecedera; as próprias regras de como jogas Matutolas eram muito semelhantes às do jogo dos 'Tazos', ainda que esta variante se desenrolasse numa perspectiva vertical, ao invés de horizontal. Como nos 'Tazos', cada jogador apostava as suas Tolas, no caso colocando-as em pé, lado a lado, sobre uma superfície plana; cada participante utilizava, então, outra Tola para tentar derrubar o maior número possível de peças em jogo, passando (ou voltando) cada peça derrubada a ser pertença desse jogador.

Um jogo, no mínimo, tão viciante como o dos 'Tazos', e que veio preencher o 'vazio' que o fim dessa colecção havia deixado no instinto coleccionador das crianças portuguesas – pelo que não é de admirar que a recepção e expansão do mesmo tenham sido tão rápidas, e praticamente tão abrangentes, como as dos seus antecessores. No ano após o fim dos 'Tazos', não havia criança portuguesa que não coleccionasse, trocasse e apostasse as pequenas cabeças grotescas da Matutano com os amigos, e que não tivesse em casa um qualquer recipiente (fosse um Portatolas oficial ou simplesmente um qualquer tubo ou 'tupperware') recheado com as suas várias aquisições, muitas delas com falhas à laia de 'cicatrizes de batalha' (as Tolas de plástico translúcido, em particular) rachavam-se com surpreendente facilidade, e haverá decerto muito poucas que tenham sobrevivido inteiras até aos dias de hoje.)

Menos popular seria a inexplicável caderneta de autocolantes (?!) que servia função dupla como livro de regras - como se um jogo de recreio necessitasse de regras oficiais escritas num livro de instruções...

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Os tubos de transporte 'Portatolas' e a inexplicável caderneta

Um último ponto em comum entre as Tolas e os 'Tazos' prendia-se com o facto de, também aqui, existirem modelos não ligados à Matutano, facilmente adquiríveis se se soubesse onde procurar, e muitas vezes mais esteticamente cuidadas que as próprias originais; no entanto, ao contrário do que acontecia com os 'Tazos', as Tolas 'falsas' eram tão bem acabadas que acabavam por ser poucos os jogadores que não as aceitassem como 'moeda de aposta' em meio às oficiais – o que, simultaneamente, facilitava sobremaneira a vida a quem não tinha por hábito (ou não era autorizado a) comer batatas fritas.

gogos-crazy-bones-nostalgia-anos-90-matutolas.jpgUm pacote de Matutolas 'não-oficiais' - ou antes, de Go Go Crazy Bones, o conceito que havia sido adaptado e renomeado como Matutolas...

Em suma, uma moda que, embora algo derivativa da que a precedera, foi ainda assim uma das três maiores da Matutano durante aquela década - juntamente com os Tazos e os Pega-Monstros, vindo as Caveiras Luminosas ainda um pouco atrás em termos de nostalgia nos tempos que correm - que marcou época tanto quanto qualquer uma delas, e que, como elas, acabou por conseguir lugar cativo no coração de muitas ex-crianças daquele tempo – embora as mesmas apenas tendam a lembrar-se dela após (e geralmente como consequência de) terem recordado os 'Tazos'...

29.10.21

Nota: Este post é relativo a Quinta-feira, 29 de Outubro de 2021.

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Hoje em dia, a Matutano dos anos 90 é, sobretudo, recordada pela febre extrema e até hoje inigualada que foram os Tazos; no entanto, a verdade é que a marca de batatas fritas teve várias outras promoções de sucesso ao longo da década. De uma delas, os Pega-Monstros, já aqui falámos, e das Matutolas, falaremos noutra ocasião; desta vez, e porque é Halloween, vamos falar do brinde que a marca lançou em 1993 – as Caveiras Luminosas.

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Ao contrário dos Tazos e das Tolas, não há muito que saber sobre os pequenos moldes plásticos em forma de esqueleto que passaram a sair nas batatas por volta de 1996 ou 97. De facto, este é daqueles produtos em que a informação está (quase) toda contida no próprio nome; tratam-se de Caveiras que brilham no escuro – portanto, Luminosas. A parte do 'quase' diz respeito ao facto de estes brindes terem, cada um, um capuz ou carapuço distinto – o qual 'servia' a todas as outras figuras da colecção, permitindo assim trocar as caras e criar, essencialmente, Caveiras novas e diferentes, num sistema de constante mutação que tornava a linha essencialmente infinita – bem como um buraco na parte inferior, onde uma cabeça real ligaria ao pescoço. O objectivo deste orifício, e um dos principais pontos distintivos da colecção das Caveiras Luminosas, era permitir às crianças usar as suas caveiras na ponta dos dedos, de um lápis, ou de qualquer outra superfície onde as mesmas coubessem – um toque inteligente, que ajudava a dar alguma versatilidade às Caveiras, e que ajudou a torná-las populares entre a juventude da época.

Não que a colecção precisasse de qualquer ajuda, atenção – com as suas caras ao estilo Skeletor do He-Man, os carapuços estilo Ceifeira da Morte e o esquema de cores estilo álbum de heavy metal clássico da década anterior, as Caveiras eram feitas à medida para o público-alvo (essencialmente rapazes em idade pré-adolescente, embora possam também ter sido do agrado de jovens mais velhos de inclinação gótica) e conseguiram uma recepção previsivelmente positiva por parte do mesmo. Sem chegar ao nível dos Tazos (mas nada, nunca mais, chegou) estes brindes eram também avidamente trocados e coleccionados nos recreios do Portugal de então, e conseguiram afirmar-se como a última de três promoções verdadeiramente bem-sucedidas por parte da Matutano (quatro, se quisermos incluir os Pega-Monstros) durante a década de 90 – além do assunto perfeito para uma viagem nostálgica por brindes e quinquilharias por alturas do Halloween...

 

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