Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

12.01.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

A veia competitiva é uma das características integrantes de qualquer ser vivo. Todos queremos sair vencedores de alguma coisa, nem que seja uma vez; e enquanto a maioria das outras espécies lida com este ímpeto de forma primitiva (através de lutas ou brincadeiras simples), o Homem encontrou as mais diversas formas de lhe dar vazão, dos diferentes tipos de jogos e desportos ao debate intelectual, passando pela que inspira o tema de hoje, e que certamente trará memórias agridoces à maioria das crianças dos anos 90: os concursos e promoções que davam prémios.

Pato Donald - PT0246 - 1990 013NesquikGrandeConcur

(Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Todos nos lembramos deles – ou antes, das suas publicidades, que prometiam mil e um prémios mirabolantes simplesmente por responder a uma questão, ou inventar uma frase. Demasiado bom para ser verdade? Talvez, a menos que se fosse o 'sortudo' que ganhava a bicicleta, a prancha de 'surf', o computador ou a consola - os equivalentes infanto-juvenis ao carro, apartamento, férias exóticas e electrodomésticos dos concursos para adultos.

Claro que, para sequer almejar a entrar na 'corrida' por qualquer destes prémios, era normalmente necessário gastar muito, muito dinheiro – embora nem sempre de forma semelhante. Nos concursos mais 'simpáticos' e legítimos (normalmente patrocinados por uma qualquer marca ou produto) o investimento surgia da necessidade de juntar pontos, ou as famosas 'provas de compra', as quais só podiam ser obtidas comprando os produtos da marca em causa (e normalmente, o número de pontos ou provas de compra necessário obrigava a consumos repetidos).

Já as companhias mais falhas de escrúpulos associavam os seus concursos a números de valor acrescentado, os quais, nove vezes em cada dez, se encontravam impedidos – e se, por algum milagre, se conseguisse conexão, ainda era preciso ouvir uma explicação das regras e condições lida M U I T O L E N T A M E N T E, por forma a 'chupar' o máximo de dinheiro possível da conta telefónica de quem participava... Escusado será dizer que, em ambos os casos, as hipóteses de ganhar eram extremamente remotas – o que,no entanto, não impedia as crianças da época de tentar a sua sorte...porque era mesmo disso que dependia, da sorte.

hqdefault.jpg

Exemplo de uma das famosas linhas de valor acrescentado (Crédito da imagem: Nostalgia Lusa)

Quem quisesse hipóteses melhor delineadas e uma deliberação mais legítima podia sempre recorrer àquele tipo de concursos – normalmente veiculados por uma publicação ou programa de televisão – que envolviam, não apenas sorte, mas também engenho, nomeadamente para a produção de um desenho ou texto, que era depois avaliado por comparação com os seus pares para decidir o vencedor; aqui, pelo menos, eram os melhores que ganhavam (ou aqueles que o júri julgava serem os melhores, o que, claro dava sempre margem para discordar) e não apenas os mais sortudos ou com mais dinheiro para gastar.

Pato Donald - PT0263 - 1991 52CobiDanoneJogosOlimp

Exemplo de um concurso baseado no talento, veiculado pela Danone durante as Olimpíadas de 1992 (Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Fossem quais fossem os moldes, no entanto, os concursos e promoções que envolviam prémios são parte integrante da vivência da geração que nasceu e cresceu entre os anos 70 e 2000. E embora hoje em dia este tipo de iniciativa continue a ter lugar, a mesma tende a desenrolar-se, invariavelmente, nas redes sociais, mediante um clique num ícone num ecrã, ou o preenchimento de um formulário 'online', o que lhe retira um pouco daquela mística inerente ao envio de uma carta para a Panrico ou Longa Vida, ou de pegar no velho telefone fixo, marcar um daqueles números começados por 506 ou 0670 para tentar ganhar uma Mega Drive, e esperar que os pais não se importassem...

22.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Na era pré-telemóveis, a única maneira de recordar e guardar datas e contactos importantes era registá-los nuns livrinhos especialmente criados para o assunto, em que cada página correspondia a um dia, e continha linhas especiais para anotar todas estas informações.

Isso mesmo - as agendas, um daqueles produtos que, a certo ponto durante os anos 80 e 90, representava um dos marcos da passagem à vida adulta, em que havia a necessidade de manter registos sobre coisas sérias. Talvez por isso tantas crianças quisessem ter o seu próprio exemplar, e talvez por isso a alternativa especificamente dirigida a esta demografia - lançada anualmente pela editorial O Livro, em parceria com a RTP, de meados da década de 80 até aos primeiros anos do novo milénio, e novamente em 2010, numa edição especial alusiva ao programa 'Caderneta de Cromos', apresentado por Nuno Markl - tenha feito tanto sucesso à época do lançamento.

23560112.jpg

23523070._UY464_SS464_.jpg

Capas das edições relativas aos anos de 1994 e 96

De facto, no período a que este blog diz respeito, 'A Minha Agenda', a agenda infantil da RTP - que além dos espaços para registo de informação, continha curiosidades, jogos, receitas e outros artigos de interesse para o público-alvo - tornou-se um verdadeiro marco da época natalícia portuguesa, sobretudo graças ao seu anúncio televisivo, cujo 'jingle' era tão ou mais 'pegajoso' que o actual do Pingo Doce, e terá decerto vindo à cabeça de pelo menos alguns dos nossos leitores assim que foi mencionado.

Por aqui, anda-se há dias a cantarolar isto...

Esse anúncio era, aliás, responsável pela criação de grande parte do desejo pel''A Minha Agenda', que no restante, não passava precisamente disso - de uma agenda, ainda que 'apimentada' pelos referidos conteúdos extra. Aliás, na mesma época, existia pelo menos uma opção tão boa ou melhor do que a publicação da RTP, no caso a Agenda Disney, que aliava um conceito semelhante ao d''A Minha Agenda' ao atractivo extra da licença oficial para uso das personagens Disney (lá por casa, era esta que se tinha, e nunca houve qualquer desejo pela troca).

No entanto, tal como no caso do 'Um Bongo', aqui explorado há algumas semanas, 'A Minha Agenda' era (foi, é) um produto cuja estratégia de vendas assentava, sobretudo, na força do seu 'jingle', que lhe dava uma vantagem em relação à concorrência, por muito forte que ela fosse; que o diga quem ficou quase imediatamente a desejar receber um destes volumes no sapatinho após ter sido sujeito ao anúncio num qualquer intervalo dos desenhos animados...

08.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

luzia2-1024x441.jpg

Para mutas crianças – de qualquer idade, nacionalidade ou era – a escola primária é a única que chega a ser divertida, em grande parte graças aos esforços dos professores deste sector em tornar a aprendizagem intuitiva, variada e até algo relaxada, o que deixa quase totalmente de acontecer do quinto ano em diante. Nos anos 90, em Portugal, a situação não era diferente, e havia certas alturas do ano – sobretudo na aproximação aos diferentes períodos de férias – em que os professores ajuizavam (acertadamente) que qualquer tentativa de aprendizagem sairia frustrada, e as aulas eram passadas a pintar desenhos alusivos à estação ou período festivo em curso.

O Natal não era, claro, diferente – afinal de contas, das diversas festas que povoam o calendário português, essa é, talvez, a que maior significado tem para as crianças e jovens. E se na Páscoa havia ovos e desenhos de coelhinhos, e no S. Martinho se comiam castanhas no pátio, era certo e sabido que, no Natal, a sala de aula se iria decorar com motivos alusivos a esta festa (e, com sorte, uma árvore com luzinhas, junto à qual se tiravam fotos), e que se iriam pintar desenhos de Pais Natais, árvores, anjos e estrelinhas para pendurar à entrada da sala (alguns, inevitavelmente, com a cara verde, roxa ou amarela e a roupa da cor errada), fazer presentes artesanais para os pais, e que (com sorte) iria ter lugar uma festa de Natal ou troca de prendas – ou, melhor ainda, se iria tão simplesmente RECEBER uma prenda, entregue por um dos ajudantes do velhote de barbas brancas (a quem, a propósito, já se escrevera uma carta, em papel especial fornecido pelos CTT, que os pais ou a própria professora haviam ajudado a depositar no marco do correio, em envelope também expressamente fornecido para o efeito.) Eram dias mágicos em que a sensação de férias se combinava com o típico ambiente natalício para criar memórias que, à distância de duas ou três décadas, parecem ainda mais idílicas.

Infelizmente, este tipo de experiência não perdurava para lá do quinto ano, altura em que o sistema de ensino principia o seu processo de formatação dos futuros adultos que acolhe; ainda assim, qualquer pessoa que tenha vivenciado aquelas semanas antes do Natal numa sala de aula primária ainda hoje, certamente, os recorda, e espera sinceramente que os filhos, sobrinhos e outras crianças na sua vida possam, a seu tempo, vivenciar algo semelhante...

24.11.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Encontramo-nos, novamente, na altura do ano em que se aproxima a passos largos a época natalícia. Por todo o lado, começam a acender-se iluminações e a aparecerem Pais Natais nas montras do comércio local – e, como tal, nada melhor do que recordar uma tradição que nunca deixava de entusiasmar a criança média portuguesa criada em finais do século XX e inícios do Terceiro Milénio: a chegada às caixas de correio dos catálogos de Natal.

21217016_Kr2gU.jpeg

catalogo-de-natal-toysrus-8.jpg

Exemplo moderno de um clássico catálogo de Natal, ao estilo dos que recebíamos em casa nos anos 90

Inevitavelmente distribuídos por esta altura do ano a lares de Norte a Sul do País, da parte de todas as principais grandes superfícies, e quase tão inescapáveis e representativos da época natalícia como a transmissão de 'Mary Poppins' ou 'Sozinho em Casa', estes catálogos eram, para as crianças daquele tempo, o equivalente do que um super-saldo 'Black Friday' numa loja 'online' é hoje em dia para um adulto: um repositório de sonhos, de possibilidades infinitas ali mesmo ao alcance da mão – ou melhor, de uma visita ao supermercado ou hipermercado mais próximo. De brinquedos para recém-nascidos a bonecas (fossem Barbies ou Nenucos), figuras de acção e respectivas 'moradias', carros telecomandados, jogos de tabuleiro e computador, consolas, peluches, bicicletas, artigos de desporto e mil e um outros produtos de interesse directo para a faixa etária em causa, estes folhetos punham diante dos seus destinatários tudo aquilo que eles alguma vez pudessem desejar – e até alguns artigos que os mesmos não sabiam que queriam até os verem nas páginas do catálogo, o que no fundo era o objectivo declarado de todas e cada uma destas publicações.

Ainda assim, e apesar da vertente abertamente comercial, estes catálogos estavam sempre entre os folhetos mais cuidados e criativos do ano, com a competição entre os diferentes retalhistas a motivar a criação de verdadeiras obras de arte da publicidade física, dos quais o exemplo máximo talvez fossem os invariavelmente magníficos catálogos da Toys'R'Us, capazes de fazer qualquer 'puto' sonhar, e de quase o colocar ali, em meio a todos aqueles brinquedos, a partilhar alegres brincadeiras com aquelas crianças felizes que lhe sorriam da página...

Em suma, o prazer de folhear um catálogo de Natal e assinalar os presentes desejados, na esperança que um deles nos aparecesse debaixo da árvore, é só mais uma das muitas experiências que dá pena não poder recriar para a nova geração, para que também eles possam sentir o que nós sentíamos, naqueles idos anos 90, sempre que se aproximava o mês de Dezembro e a caixa do correio se enchia de folhetos de múltiplas páginas exclusivamente dedicados a brinquedos...

10.11.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Quem vive imerso no actual Mundo digital, em que a comunicação à distância depende apenas de um ou dois cliques numa de muitas aplicações virtuais especialmente concebidas para o efeito, pode não recordar – ou procurar esquecer – um tempo, ainda bastante presente, em que para comunicar com alguém remoto era necessário adquirir uma série de elementos físicos – como papel, caneta, selos e envelopes – e levar a cabo todo um processo que, na melhor das hipóteses, demorava dias a completar, e na pior das hipóteses semanas.

img_5409_1_1024_2500.jpg

Sim, nos anos 90 (e ainda um pouco na primeira década do século e milénio seguintes) praticamente a única maneira de contactar familiares e amigos que se encontrassem longe – e de quem não se tivesse o telefone, bem entendido – era através de cartas, as quais tinham depois de ser seladas e postas no marco do correio, onde eram recolhidas pelo carteiro e, ao fim de dois ou três dias (ou mais, dependendo da distância a que o destinatário se encontrava) finalmente entregues. Um processo demorado, algo moroso, e que – numa altura da História em que o envio de cartas está praticamente reservado a encomendas postais e contactos com entidades oficiais - parece absurdamente arcaico e ultrapassado.

Nem sempre foi assim, no entanto. Tempos houve em que as cartas serviam um propósito bem mais nobre entre a juventude, um propósito que foi entretanto adoptado e expandido por recursos como os fóruns e as redes sociais – nomeadamente, a aquisição de novas amizades. Na era pré-Internet, em que para a maioria das crianças 'rede social' significava apenas o conjunto dos familiares, vizinhos, colegas da escola e amigos do treino de karaté ou ballet, as cartas eram um dos meios que permitiam à juventude – portuguesa e não só – encontrar pessoas com interesses e gostos semelhantes, que (com sorte) se poderiam transformar em novos amigos.

Naturalmente, a adesão a este fenómeno por parte das crianças e jovens foi entusiasta, e durante várias décadas (o fenómeno não se restringe, de modo algum, aos anos 90) era rara a publicação dedicada ao público mais jovem que não incluísse uma página dedicada à troca de correspondência, formação de clubes, ou até troca de artigos de colecção, como selos, cromos ou caricas. Numa era bem mais relaxada no que toca à privacidade, os jovens partilhavam livremente nome, idade e morada, na esperança de encontrar alguém de novo com quem falar, e potencialmente construir uma amizade. E a verdade é que resultava, pelo menos que chegasse para manter estas secções vivas até ao fim da primeira década do século XXI.

Outra enorme vantagem da comunicação por carta, e que meios como o telefone ainda não possuíam à época, era a sua versatilidade, a qual permitia escrever a pessoas não só no nosso país, como em outros locais do Mundo; nascia assim a moda dos 'pen friends' internacionais, encorajada por pais e professores que procuravam instigar nas crianças um interesse pelas línguas. No entanto – talvez pelas diferenças linguísticas e culturais, talvez por ser uma actividade fomentada por terceiros, e como tal menos espontânea que a variante nacional – estas interacções acabam sempre por ser um pouco forçadas, e o interesse por parte de ambas as partes rapidamente se esvaía. Ainda assim, a moda dos 'pen friends' pode ser considerada, não só parte do fenómeno em análise neste artigo, mas como uma precursora presciente do fenómeno do email, dos fóruns e, mais tarde, das redes sociais.

Fica, como tal, evidente que as cartas físicas, não obstante a sua obsolescência no novo milénio, foram parte integrante e importante do processo de socialização de muitos jovens em décadas anteriores – incluindo a de 90. E a verdade é que quem alguma vez enviou um postal ou carta física sabe que – demoras e esperas à parte – o processo transmitia uma sensação muito própria, que o imediatismo das redes sociais e plataformas de comunicação jamais conseguirá replicar...

27.10.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Em plena segunda década do século XXI, numa altura em que é possível ver filmes, comunicar por vídeo, fazer compras, reservar viagens e até actualizar documentos a partir de uma só peça de equipamento, pode tornar-se difícil de acreditar que, há escassas duas décadas e meia, quem quisesse comunicar com família, amigos ou colegas de trabalho a partir de um espaço público tinha de apostar numa combinação de sorte e preparação; sorte, porque os únicos sítios que permitiam levar a cabo tal objectivo (as cabines telefónicas) apenas eram encontradas em localizações estratégicas, quase todas elas de cariz urbanizado, e preparação, porque mesmo que se conseguisse encontrar uma cabine, ou convencer o dono de um qualquer café a ceder temporariamente o seu telefone, era preciso ter no bolso dinheiro suficiente para assegurar que o referido telefone conseguia não só ser activado, mas conectar a chamada durante o tempo necessário.

E no entanto, era precisamente isto que se passava, ainda, em finais dos anos 90, um pouco por todo o país; mesmo depois de os telemóveis serem já um acessório conhecido e em fase de rápido crescimento e globalização, grande parte das chamadas feitas do exterior ainda eram efectuadas das velhinhas cabines, com recurso às boas e velhas moedas de 10, 20, 50 ou 100 escudos.

Terá, pois, sido para pôr cobro – ou, pelo menos, facilitar – a situação dos viajantes frequentes desta era das telecomunicações nacionais que a Portugal Telecom (então ainda conhecida como Telecom Portugal) terá introduzido, na década de 90, o conceito do Credifone, uma espécie de 'cartão de crédito' para chamadas telefònicas públicas, cujo modo de funcionamento antecipava já aquilo que viriam a ser os cartões pré-pagos das redes móveis, cerca de uma década depois.

5e3a58c7769cb49fce978244a6ad2773.jpg

O modelo inicial de Credifone

O modo de utilização dos Credifones era, por demais, simples; tratavam-se de cartões pré-carregados com um determinado número de impulsos, adquiríveis em qualquer tabacaria ou estabelecimento semelhante, e que podiam ser utilizados em qualquer cabine compatível, isto é, equipada com a ranhura para inserção do referido cartão, de aspecto muito semelhante à de uma caixa Multibanco. Uma vez inserido, cada cartão permitia utilizar livremente o número correspondente de impulsos, findos os quais a chamada era desconectada. Um método bem mais simples do que a anterior busca frenética por 'trocos' para continuar a chamada e que, como tal, rapidamente contou com considerável adesão por parte da população portuguesa.

No entanto, uma das mais interessantes particularidades do Credifone prende-se com o facto de, para um determinado sector da referida população, o seu interesse ir muito além da conveniência no momento de efectuar chamadas em cabines públicas; de facto, para muitas crianças e jovens daqueles anos 90, os cartões telefónicos da PT tornaram-se, antes, objectos de coleccionismo, religiosamente reunidos (depois de vazios, claro) e guardados nas proverbiais caixas ou capinhas, com o intuito de serem, mais tarde, revisitados ou mostrados aos amigos; cada nova edição especial deste tipo de cartões – ou cada espécime diferenciado encontrado numa qualquer cabine por esse país fora – se tornava, portanto, motivo de regozijo para estes mini-coleccionadores, pela oportunidade que apresentava de aumentar, expandir e embelezar as suas colecções. Não é, pois, de estranhar que a maioria das memórias da 'nossa' geração relativamente a estes cartões tenha mais a ver com o coleccionismo do que propriamente com o uso...

images.jpg

Uma das muito cobiçadas edições especiais, que faziam as delícias dos coleccionadores quando encontradas abandonadas numa qualquer cabine...

Qualquer que tenha sido o seu impacto na vida de cada um, no entanto, é inegável que os Credifones marcaram época, afirmando-se como uma solução inovadora para um problema existente – e que, por isso mesmo, encontrou facilmente o seu nicho de mercado – e, ao mesmo tempo, uma pioneira daquilo que viriam a ser as tecnologias da comunicação nos dez a quinze anos seguintes. E embora, hoje em dia, as cabines telefónicas já sejam quase unicamente uma relíquia do passado (pelo menos em Portugal) continua, ainda, a haver no nosso país uma enorme simpatia por aquele cartãozinho que, em inícios da década de 90, veio revolucionar a forma de comunicar em espaços públicos na era pré-telemóveis...

14.10.21

NOTA: Este post corresponde a Quarta-Feira, 14 de Outubro de 2021.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

Numa altura em que o novo ano lectivo começa verdadeiramente a ‘engrenar’, muitas ex-crianças dos anos 90 – às compras com os filhos nos hipermercados e grandes superfícies por esse Portugal fora – certamente recordarão o tempo em que eles próprios precisavam de se ‘abastecer’ de todo o material necessário à aprendizagem; e certamente algumas das mais vivas memórias de todo esse processo terão a ver com a compra de materiais como cadernos e dossiers.

1a00f05e089f0853d0736b02dfe2a7c8.jpg

Quem se lembra...?

Isto porque a década a que este blog diz respeito foi pródiga em ‘engendrar’ material escolar que quase fazia o fim das férias valer a pena, só pelo ‘gozo’ de poder mostrar aos colegas os novos cadernos. De linhas ligadas a licenças oficiais até ‘designs’ mais genéricos, mas não menos apelativos (quem não se lembra dos cadernos de espiral com motas, carros de corrida ou desenhos de flores?) a escolha era variada, existindo invariavelmente algo para todos os gostos.

e4dd3f29b2472771c99f30552c3b3209.jpg

Lá por casa houve a dado ponto um destes...

O facto de a maioria destes materiais se encontrarem nos referidos hipermercados e 'shoppings' – implicando, portanto, a necessária viagem para serem adquiridos – apenas adicionava ao seu encanto, apesar de ter também o efeito colateral de fazer com que muitas crianças da mesma área ou escola tivessem os mesmos cadernos, o que os tornava um pouco menos únicos. Ainda assim, o sentimento de ‘pertença’ que essa situação acarretava acabava por compensar a perda de identidade única no que tocava a material escolar, levando a que muitos alunos não vissem na mesma qualquer problema. Lesados, mesmo, só acabavam por ficar os ‘coitados’ que haviam adquirido os materiais na sempre conveniente papelaria da esquina (ou da própria escola), e que acabavam invariavelmente com um caderno de capa lisa (normalmente azul, vermelha ou preta) e sem o mínimo interesse do ponto de vista estético.

Os cadernos não eram, no entanto, a única oportunidade de utilizar o material escolar para estabelecer uma identidade – havia outra forma, bastante mais vistosa, e como tal, consideravelmente mais importante para a maioria dos alunos portugueses dos anos 90; essa, no entanto, está mais ligada ao Style, pelo que dela falaremos na próxima Sexta…

30.09.21

NOTA: Este post corresponde a Quarta-Feira, 29 de Setembro de 2021.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso das notinhas passadas na sala de aula.

istockphoto-175197685-612x612.jpg

Quem nunca...?!

Hoje em dia caídos em desuso – ao ponto de haver quem pergunte se ainda se passam notas nas aulas – estes pedacinhos de papel dobrados e passados de mão em mão esperando que a professora não reparasse eram, na época pré-telemóveis, o meio de comunicação por excelência na sala de aula, sendo ao mesmo tempo menos óbvio e mais abrangente do que as também clássicas conversas em surdina; afinal, uma nota em papel podia ser enviada a alguém que se sentasse do outro lado da sala, enquanto que os ditos sussurros ficavam, normalmente, limitados aos colegas do lado, de trás e da frente, sem que houvesse possibilidade de expandir o raio de acção sem levantar a voz e ser ‘apanhado’.

Mais – estes papelinhos eram bastante mais versáteis que as conversas aos cochichos, podendo ser usadas para fins tão distintos como a maledicência (quer de colegas, quer de professores), a passagem de ‘cábulas’, a simples troca de ideias ou a sua utilização mais clássica, descobrir se a pessoa de quem gostávamos também gostava de nós – aqui com a vantagem de, para o adolescente médio de qualquer época da História, ser bastante mais fácil fazer essa pergunta por escrito, por meio de um papel, do que cara-a-cara com a pessoa.

Apesar da confiabilidade e versatilidade, no entanto, as notas também tinham os seus riscos, acima de todos, o de o papel ser interceptado pelo professor ou professora e (horror máximo!) lido em voz alta em frente de toda a gente – situação que se agravava ainda consideravelmente se a nota dissesse respeito a alguém presente na mesma sala, e fosse de teor romântico ou sexual…

Ainda assim, e apesar do risco de ocorrerem situações deste tipo, a passagem de papéis na aula (juntamente com alternativas como comunicar com a turma da tarde através de saudações e mensagens escritas na própria carteira, como se fazia por estes lados) era um dos rituais mais infalíveis e imorredouros da experiência de andar na escola nos finais do século XX e inícios do novo milénio, o que faz com que seja ainda mais triste perceber que, como muitas outras, esta foi uma tradição que se perdeu com o advento da comunicação digital. Nada melhor, portanto, do que utilizar precisamente um meio digital para recordar esse que era (foi) um dos meios de comunicação analógica por excelência…

01.09.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos sais de banho para crianças.

Sim, temos plena consciência de que a popularidade deste produto específico não se resume aos anos 90; no entanto, a ‘nossa’ época teve tantos e tão bons exemplos do mesmo que a homenagem acaba por se tornar bem merecida.

Na verdade, ainda que hoje ainda seja possível encontrar embalagens de sais e espuma de banho que fazem, simultaneamente, as vezes de ‘estátuas’ do personagem em causa, a verdade é que, no cômputo geral, o esforço das companhias neste sentido é significativamente menor; a maioria dos produtos de banho licenciados limitam-se a colar uma imagem dos personagens numa garrafa de champô ou gel de banho normal, sabendo que isso chega para vender. Já nos ‘90s’, a coisa era um pouco diferente, sendo que até as garrafas de tipo tradicional se tornavam, de alguma forma, colecionáveis – normalmente por usarem, à laia de tampa, uma mini-figura ou até busto do personagem ao qual aludiam.

2BLB2Hd.jpg

A icónica linha de géis de banho dos Simpsons, bem exemplificativa do atractivo deste tipo de produto

Já as acima mencionadas embalagens-figura levavam a coisa ainda mais longe, oferecendo, essencialmente, um produto dois-em-um, que servia, ao mesmo tempo, de dispensador de produtos de higiene e de brinquedo ou enfeite de prateleira, garantindo que mais nenhum banho voltasse a ser aborrecido.

E se hoje este tipo de produto se cinge às propriedades mais famosas e populares entre os mais novos – como os Vingadores, Homem-Aranha, Bob Esponja ou Princesas Disney – nos anos que nos concernem, o céu era o limite, havendo espumas de toda e qualquer propriedade que apelasse às crianças, desde os diferentes filmes da Disney até à Barbie, Action Man, ou até propriedades menos explicitamente infantis, como Os Simpsons.

1100294496_PREVIEW.JPG

Lá por casa havia um muito parecido com este.

Em suma, havia algo para todos os gostos, pelo que não era de surpreender que a maioria das crianças da época – em Portugal e não só – tivesse, ou já tivesse tido, pelo menos um destes produtos. Um produto bem merecedor, portanto, de algumas linhas nesta nossa rubrica dedicada àquilo que não ‘cabe’ em nenhuma outra secção deste blog…

 

18.08.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos clubes de jovens.

Os anos 80 e 90 foram palco de um estranho fenómeno, criado por certas entidades comerciais e culturais como forma de aliciar o público infanto-juvenil: os chamados ‘Clubes de Jovens’.E se em décadas anteriores, esta denominação tinha já sido usada para designar literais espaços onde os jovens se podiam reunir e passar os tempos livres, nestas duas décadas, a expressão passou a ser usada para designar um conceito mais abstracto, mas não menos bem-sucedido junto do público-alvo.

clube amigos disney pub.jpg

Quem nunca viu esta publicidade na sua revista favorita?

Existentes para entidades tão diversas quanto editoras e supermercados, estes Clubes tendiam, ‘grosso modo’, a ter o mesmo modelo: as crianças inscreviam-se, mandavam certos dados pessoais, e passavam a fazer parte de uma lista que recebia em casa, em exclusivo e de forma periódica, brindes e outras ofertas alusivas à temática do Clube. Estes brindes consistiam, normalmente, de uma revista (de conteúdo mais ou menos interessante, mas normalmente mais cuidada do que a natureza promocional poderia fazer adivinhar) e pequenas ‘quinquilharias’ que pouco custavam a produzir e que, simultaneamente, faziam a alegria das crianças médias da época, como autocolantes.

Exemplos destes clubes eram inúmeros, começando logo nos anos 80 com o Clube Amigos Disney (este de molde um pouco diferente, suportado por um programa de televisão e mais focado em ajudar as crianças a completar as suas colecções de revistas aos quadradinhos) e expandindo-se, na década seguinte, para entidades como o Clube Rik e Rok (associado à cadeia de hipermercados Jumbo, hoje Auchan) e o Clube Caminho Fantástico, que fazia verdadeiramente jus ao seu nome, e que adquiriu estatuto de inesquecível junto de  uma ‘fatia’ específica da população jovem, muito graças aos seus fabulosos Almanaques anuais, recheados de jogos, passatempos, receitas e curiosidades, a maioria submetida pelos próprios leitores. E como estes três – os exemplos mais imediatos, sobretudo por os dois últimos serem usufruídos lá por casa – haveria muitos mais, todos sensivelmente com o mesmo ‘modus operandi’, e todos com o seu público cativo – afinal, qual é a criança que não gosta de receber coisas pelo correio, sobretudo quando lhe são relevantes e totalmente gratuitas?

500x.jpg

Um dos fantásticos almanaques anuais do clube da Caminho

Infelizmente, este foi mais um daqueles conceitos que a era da Internet veio tornar obsoletos – hoje em dia, os passatempos, promoções e até artigos que anteriormente sairiam na simbólica revista tendem a estar disponíveis online, tornando redundante todo o processo de inscrição e espera pelo próximo envelope recheado de coisas interessantes. Uma pena, pois – como os leitores deste blog certamente concordarão – tratava-se de um conceito apelativo, e que seria hoje visto como uma excelente manobra de ‘marketing’, por permitir a fidelização de uma demografia de grande interesse para a maioria das marcas, a um custo muitas vezes negligenciável. Mas quem sabe? Talvez nesta era das redes sociais, alguém resolva reviver o conceito, adaptando-o ao século XXI e às novas tecnologias digitais; afinal, nem seriam precisas assim tantas mudanças, e o custo seria ainda mais baixo, dado já não ser necessário produzir conteúdos físicos para justificar a inscrição. Empresários – fica a dica…

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub