Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

01.09.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos sais de banho para crianças.

Sim, temos plena consciência de que a popularidade deste produto específico não se resume aos anos 90; no entanto, a ‘nossa’ época teve tantos e tão bons exemplos do mesmo que a homenagem acaba por se tornar bem merecida.

Na verdade, ainda que hoje ainda seja possível encontrar embalagens de sais e espuma de banho que fazem, simultaneamente, as vezes de ‘estátuas’ do personagem em causa, a verdade é que, no cômputo geral, o esforço das companhias neste sentido é significativamente menor; a maioria dos produtos de banho licenciados limitam-se a colar uma imagem dos personagens numa garrafa de champô ou gel de banho normal, sabendo que isso chega para vender. Já nos ‘90s’, a coisa era um pouco diferente, sendo que até as garrafas de tipo tradicional se tornavam, de alguma forma, colecionáveis – normalmente por usarem, à laia de tampa, uma mini-figura ou até busto do personagem ao qual aludiam.

2BLB2Hd.jpg

A icónica linha de géis de banho dos Simpsons, bem exemplificativa do atractivo deste tipo de produto

Já as acima mencionadas embalagens-figura levavam a coisa ainda mais longe, oferecendo, essencialmente, um produto dois-em-um, que servia, ao mesmo tempo, de dispensador de produtos de higiene e de brinquedo ou enfeite de prateleira, garantindo que mais nenhum banho voltasse a ser aborrecido.

E se hoje este tipo de produto se cinge às propriedades mais famosas e populares entre os mais novos – como os Vingadores, Homem-Aranha, Bob Esponja ou Princesas Disney – nos anos que nos concernem, o céu era o limite, havendo espumas de toda e qualquer propriedade que apelasse às crianças, desde os diferentes filmes da Disney até à Barbie, Action Man, ou até propriedades menos explicitamente infantis, como Os Simpsons.

1100294496_PREVIEW.JPG

Lá por casa havia um muito parecido com este.

Em suma, havia algo para todos os gostos, pelo que não era de surpreender que a maioria das crianças da época – em Portugal e não só – tivesse, ou já tivesse tido, pelo menos um destes produtos. Um produto bem merecedor, portanto, de algumas linhas nesta nossa rubrica dedicada àquilo que não ‘cabe’ em nenhuma outra secção deste blog…

 

18.08.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos clubes de jovens.

Os anos 80 e 90 foram palco de um estranho fenómeno, criado por certas entidades comerciais e culturais como forma de aliciar o público infanto-juvenil: os chamados ‘Clubes de Jovens’.E se em décadas anteriores, esta denominação tinha já sido usada para designar literais espaços onde os jovens se podiam reunir e passar os tempos livres, nestas duas décadas, a expressão passou a ser usada para designar um conceito mais abstracto, mas não menos bem-sucedido junto do público-alvo.

clube amigos disney pub.jpg

Quem nunca viu esta publicidade na sua revista favorita?

Existentes para entidades tão diversas quanto editoras e supermercados, estes Clubes tendiam, ‘grosso modo’, a ter o mesmo modelo: as crianças inscreviam-se, mandavam certos dados pessoais, e passavam a fazer parte de uma lista que recebia em casa, em exclusivo e de forma periódica, brindes e outras ofertas alusivas à temática do Clube. Estes brindes consistiam, normalmente, de uma revista (de conteúdo mais ou menos interessante, mas normalmente mais cuidada do que a natureza promocional poderia fazer adivinhar) e pequenas ‘quinquilharias’ que pouco custavam a produzir e que, simultaneamente, faziam a alegria das crianças médias da época, como autocolantes.

Exemplos destes clubes eram inúmeros, começando logo nos anos 80 com o Clube Amigos Disney (este de molde um pouco diferente, suportado por um programa de televisão e mais focado em ajudar as crianças a completar as suas colecções de revistas aos quadradinhos) e expandindo-se, na década seguinte, para entidades como o Clube Rik e Rok (associado à cadeia de hipermercados Jumbo, hoje Auchan) e o Clube Caminho Fantástico, que fazia verdadeiramente jus ao seu nome, e que adquiriu estatuto de inesquecível junto de  uma ‘fatia’ específica da população jovem, muito graças aos seus fabulosos Almanaques anuais, recheados de jogos, passatempos, receitas e curiosidades, a maioria submetida pelos próprios leitores. E como estes três – os exemplos mais imediatos, sobretudo por os dois últimos serem usufruídos lá por casa – haveria muitos mais, todos sensivelmente com o mesmo ‘modus operandi’, e todos com o seu público cativo – afinal, qual é a criança que não gosta de receber coisas pelo correio, sobretudo quando lhe são relevantes e totalmente gratuitas?

500x.jpg

Um dos fantásticos almanaques anuais do clube da Caminho

Infelizmente, este foi mais um daqueles conceitos que a era da Internet veio tornar obsoletos – hoje em dia, os passatempos, promoções e até artigos que anteriormente sairiam na simbólica revista tendem a estar disponíveis online, tornando redundante todo o processo de inscrição e espera pelo próximo envelope recheado de coisas interessantes. Uma pena, pois – como os leitores deste blog certamente concordarão – tratava-se de um conceito apelativo, e que seria hoje visto como uma excelente manobra de ‘marketing’, por permitir a fidelização de uma demografia de grande interesse para a maioria das marcas, a um custo muitas vezes negligenciável. Mas quem sabe? Talvez nesta era das redes sociais, alguém resolva reviver o conceito, adaptando-o ao século XXI e às novas tecnologias digitais; afinal, nem seriam precisas assim tantas mudanças, e o custo seria ainda mais baixo, dado já não ser necessário produzir conteúdos físicos para justificar a inscrição. Empresários – fica a dica…

04.08.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso da literature infantil.

Sim, hoje voltamos a abordar aquele que tem sido o principal tema destas Quartas de Quase Tudo, desta vez, para recordar uma colecção de cariz mais didático do que de entretenimento, mas que mesmo assim, conseguia acertar na ‘fórmula’ certa para cativar o seu público-alvo.

5173312085-historia-junior-edicoes-asa-13-volumes.

Falamos da colecção História Júnior, das Edições Asa, uma série de volumes de capa dura alusivos aos principais acontecimentos da História de Portugal e do Mundo, que muitos certamente recordarão pelas suas características e memoráveis capas cor-de-laranja vivo, que tornavam impossível NÃO ver um dos volumes da colecção na prateleira da livraria ou biblioteca. Quando combinada com os desenhos também bastante apelativos – pelo menos para quem gostava de cenas de acção ou batalhas – esta colorização da capa constituía o primeiro ‘chamariz’ para a demografia a quem a série se destinava.

No entanto, nem só de capas vive uma colecção de sucesso, e as Edições Asa sabiam-no; felizmente, a colecção História Júnior não deixava nada a desejar em termos de conteúdo, sendo exímia a transmitir factos e informações de cariz educacional sem, por isso, deixar de apelar aos gostos dos jovens. Teria sido muito fácil para a Asa replicar a abordagem dos livros de História que esses mesmos jovens estudavam na escola, mas tal não teria, decerto, rendido à colecção em causa o sucesso (ainda que relativo) de que conseguiu gozar. A estratégia da Asa – assente em mapas de página inteira, ilustrações, actividades e outros complementos ‘divertidos’ à informação veiculada – rendeu bem mais dividendos, e terá certamente havido quem usasse estes livros como auxiliares de estudo por altura dos testes de História – e com bons resultados!

9704397897-marco-polo-historia-junior-edicoes-asa.

Exemplo do conteúdo típico de um livro da colecção

Hoje em dia, com (literalmente) toda a informação do Mundo à distância de uns cliques e uma pesquisa, deixou de haver lugar na sociedade ocidental para este tipo de livros - quem quer estudar História, fá-lo com recurso às fontes quase ilimitadas do Google. Ainda assim, vale a pena recordar esta instância em que uma editora portuguesa conseguiu ensinar ‘a brincar’, ganhando assim o seu lugar no coração nostálgico dos ex-jovens portugueses apaixonados pela História.

21.07.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso da literature infantil.

Quando, há tempos, aqui falámos de séries de livros clássicas da nossa juventude, deixámos criminalmente de fora uma, que divertiu e entreteve tantas crianças como qualquer uma das então faladas, com o atrativo extra de também ter servido de companheira de estudos, devido às secções educativas, recheadas de factos e notas, que cada livro trazia como apêndice, depois do fim da aventura ficcionada. Hoje, procuraremos rectificar esse erro, dedicando algumas linhas àquela que começou por ser a ‘segunda série’ das autoras da famosíssima colecção ‘Uma Aventura’, e acabou por se tornar ela própria um marco da literatura infanto-juvenil, por direito próprio.

download.jpg

Alguns dos títulos da colecção

Falamos de ‘Viagens no Tempo’, a série que ajudou muitos jovens dos anos 90 a ter boa nota na disciplina de História, ao mesmo tempo que constituía também uma excelente opção para fãs de histórias de mistério e aventura.

Tal como a sua congénere ‘aventureira’, esta colecção ainda hoje figura nos escaparates das melhores livrarias; no entanto, tal como a outra série das mesmas autoras, é inegável que a época áurea desta série se deu no início dos anos 90. Foi neste período que foram editados volumes tão icónicos como ‘Mistérios na Flandres’, ‘O Sabor da Liberdade’, e talvez o título mais famoso de toda a série – e o que mais crianças ajudou na escola – ‘Brasil! Brasil!’. Antes, nos anos 80, já tinha havido ‘O Ano da Peste Negra’ e ‘O Dia do Terramoto’, dois outros titulos memoráveis da colecção.

500_9789722107402_brasil_brasil.jpg

Talvez o volume mais famoso de toda a série, e auxiliar precioso para as aulas de História do 8º ano

Depois, ainda viriam a sair volumes como ‘Um Trono Para Dois Irmãos’ e ‘No Coração da África Misteriosa’, este último o derradeiro da ‘série clássica’, ou seja, antes do hiato em que a série entrou em 1998, e do qual só viria a sair por duas vezes desde então - primeiro em 2003, e mais tarde em 2012, para aquele que é, até agora, o verdadeiro último volume da colecção. Sinal dos tempos, talvez....mas quase apostamos que se alguém transformasse esta história de dois jovens ‘aos saltos’ pelo tempo na companhia de um cientista ermitão numa série televisiva, a mesma encontraria o seu público – afinal, uma outra série com um conceito extremamente semelhante (só que com um extraterrestre numa cabine telefónica azul da Polícia britânica) conseguiu manter-se no ar desde os anos 60…

Enfim, oportunidades perdidas à parte, o certo é que – mesmo com alguns aspectos, hoje em dia, questionáveis, como a relação inicial de Orlando com os dois protagonistas – esta colecção é bem merecedora de uma nota aqui no blog, e devia mesmo ter sido incluída na compilação original de séries literárias marcantes daquela época. Falha nossa – mas, pelo menos, conseguimos corrigi-la a tempo, e fazer justiça a mais uma colecção de livros memorável, de uma época que teve muitas…

07.07.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso das máquinas de ‘garra.’

225.jpg

Tal como o tema do post anterior, os matraquilhos, as máquinas de ‘garra’ são, ainda, uma visão relativamente frequente, sobretudo no contexto de salões de jogos; no entanto, tal como os seus congéneres abordados na última Quarta de Quase Tudo, estas máquinas têm, gradualmente, vindo a perder a identidade que em tempos tiveram, tornando-se cada vez mais anódinas e anónimas e, como tal, cada vez menos interessantes.

Nos anos 90, no entanto, este tipo de jogo – acessório quase obrigatório em cafés, ‘tascas’ e bares por esse Portugal fora, especialmente na primeira metade da década - era um verdadeiro deleite para quem gostasse de brindes em molde ‘tão mau que é bom’, em particular peluches ‘quase’ oficiais, dos quais a mesma máquina dificilmente teria dois iguais. Qualquer criança dos anos 90 recordará com afeição aqueles ursinhos de cores ‘estrambólicas’, ou os Silvestres, Patos Donald e Super Mários de feições meio ‘tortas’ e tufos de ‘pêlo’ onde os mesmos nunca haviam existido, que, não fazendo esquecer os originais e oficiais, tinham ainda assim aquele charme único dos produtos de cntrafacção. Hoje em dia, este tipo de boneco intemporal foi substituído por réplicas, todas iguais e provavelmente licenciadas, de qualquer que seja a propriedade intelectual ‘da moda’ – o que, apesar de mais honesto e legítimo, não tem o mesmo factor de imprevisibilidade das máquinas dos anos 90.

hong-kong-november-2019-soft-toys-animals-in-claw-

Exemplos de máquinas de 'garra' modernas, com peluches oficialmente autorizados

O mesmo, aliás, se passa com os outros brindes encontrados nas versões modernas destes jogos. Embora os produtos electrónicos ‘rafeiros’ ainda abundem entre os prémios possíveis de certas máquinas, conseguir um leitor de mp3 de há 20 anos continua a perder pontos relativamente a ‘sacar’ um relógio de pulso a imitar bom, e uma PSP falsa com um emulador de NES não chega nem aos calcanhares de um Brick Game (que, para ser sincero, era um prémio genuinamente bom, dos melhores que se podiam conseguir neste tipo de máquina).

Enfim, embora o princípio seja o mesmo (e mesmo assim, nem sempre) a verdade é que as versões modernas das máquinas de ‘garra’ ficam a perder, e muito, para as suas congéneres dos anos 90; se não acreditam, basta perguntar a quem já jogou nas duas, e ver as respostas…

24.06.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 23 de Junho de 2021.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos matraquilhos.

download.jpg

Complemento perene de cafés, pastelarias e ‘tascas’ por esse Portugal afora, os matraquilhos não são um passatempo exclusivamente nacional (foram, aliás, inventados em Espanha, mais concretamente na Galiza) mas para quem seja mais desapercebido, quase pode parecer ser esse o caso. Afinal, ainda hoje, mais de três quartos de século após terem sido patenteados, os matraquilhos ou ‘matrecos’ marcam presença em estabelecimentos de refeições leves, acampamentos, colónias de férias, salões de jogos, e onde mais couber uma mesa.

E se muitos países estrangeiros se contentam com ter aquelas mesas básicas, com bonecos azuis sem feições a defrontar bonecos laranjas sem feições, nós portugueses não fazemos por menos – os nossos jogadores de mesa de ‘matrecos’ surgem, inevitavelmente, vestidos a rigor com os equipamentos do Sporting, Benfica ou Porto.

noticia_0000018061-711x400.jpg

Podia-se fazer uma 'jogatana' numa mesa destas? Podia, mas não era a mesma coisa...

De igual modo, enquanto no estrangeiro se vão popularizando as horríveis mesas modernas de plástico, em Portugal continuamos apegados às nossas históricas e maravilhosas criações em madeira, tão sólidas e resistentes como intemporais, sempre com aquele ar de quem já foi usado por gerações de jogadores, e estará lá para ser utilizada por várias gerações mais…

Matraquilhos_Benfica-Porto.jpg

Mesa de 'matrecos' que se preze simula um 'derby'. E quanto mais gastos os jogadores, melhor...

Enfim, apesar de serem de origem galega, os ‘matrecos’ foram-se, ao longo das suas décadas de existência no nosso país, transformando numa experiência bem ‘portuguesa’ – não só no aspecto e envolvência, como na própria forma de jogar (certos países, por exemplo, não respeitam a Regra Sagrada; no Reino Unido, as roletas não só valem, como são mais abusadas do que um Hadouken num jogo de Street Fighter.)

No entanto, a verdade é que este jogo tão simples quanto viciante – seja a dois ou, preferencialmente, a quatro jogadores – é popular o suficiente a nível internacional para justificar a existência, por exemplo, de (múltiplos!) videojogos de ‘simulação’; isto já sem contar, é claro, com as mesas em formato miniatura que todos nós queríamos ter no quarto nos idos de 90 (por aqui, havia uma, muito apreciada.) Enfim, um jogo intemporal, que atravessa gerações, e que, em tempos de euforia futebolística como os que se vivem nestas duas ou três semanas do Verão de 2021, merece bem a homenagem retrospectiva!

10.06.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 9 de Junho de 2021.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos animais de estimação exóticos.

apreensao_aves_arara-1.jpg

Vocês também fariam esta cara, se só tivessem este espaço para viver...

Pois é, neste post abordamos um tópico um pouco mais sério, e que, felizmente, viu grandes avanços serem feitos desde a ‘nossa’ época – o dos espécimes exóticos vendidos como animais de companhia. E não, não estamos apenas a falar dos peixinhos de água quente tropicais, ou dos cães de raças estranhas; falamos, antes, daquele tipo de animais que nunca deveria ter sido comercializado para este fim, seja por requerer um tipo de tratamento muito específico, seja por não ser, de todo, adequado à vida num quarto de criança.

E se é verdade que em Portugal esta ‘moda’ não chegou a ser tão nociva quanto em outros países – nunca ninguém em Portugal tentou criar tigres ou chimpanzés como animais de casa, como ainda ocorre nos Estados Unidos – também não deixa de ser necessário lembrar o breve período em meados dos anos 90 em que muitas crianças recebiam animais como iguanas, araras ou esquilos (do tipo Tico e Teco, mas ainda assim um animal pouco recomendado a iniciantes) dos quais, na maioria das vezes, não sabiam nem estavam habilitados a cuidar. As iguanas eram particularmente populares, e juntamente com as araras e papagaios, eram presença regular em lojas de animais que vendessem animais vivos por esse país fora; escusado será dizer que muitas delas acabavam, rapidamente, nas mãos de quem as soubesse verdadeiramente cuidar…

8818f6513cf0b550a9681ef2f8f16ab7.jpg

Não parece de todo o animal de companhia ideal, mas nós achávamos que era...

De facto, não só com as iguanas como com outras espécies, os resultados inevitáveis desta ‘moda’ infeliz eram a morte prematura do animal, o abandono ou cedência do mesmo, ou – na melhor das hipóteses – apenas a multiplicação daquilo que deveriam ser um ou dois animais em largas dezenas (por aqui, evitou-se por pouco uma situação assim, com esquilos que, supostamente, seriam ambos fêmeas…)

Capa-Post.jpg

Outro erro muito comum era ter Inseparáveis-de-Fischer sozinhos numa gaiola quando, como o nome indica, estes pássaros definham se não tiverem um par

Felizmente, esta foi uma tendência que, em Portugal, pouco durou; após alguns (poucos) anos, a criança portuguesa média voltou a cingir-se aos tradicionais cães, gatos, pássaros, peixes e ‘hamsters’ ou porquinhos-da-Índia, deixando os animais mais incomuns para os ‘especialistas’ no assunto (e há que ressalvar que mesmo estes animais menos controversos exigem, muitas vezes, que se saiba o que se está a fazer!) Ao contrário de outros países, onde a tendência ainda perdura (como os EUA ou o Reino Unido, onde as lojas de animais chegam a vender pequenos macacos, por exemplo), a ‘febre’ dos animais exóticos passou rápido a Portugal – e ainda bem!

Mesmo assim, nunca é demais relembrar esse curto período de tempo em que muitos de nós tiveram, ou quiseram ter, animais que não fazíamos ideia sobre como tratar – quanto mais não seja, para aprendermos com os nossos erros, e evitarmos que os nossos filhos venham, no futuro, a cometê-los novamente…

 

26.05.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso da literatura juvenil.

Sim, hoje chegamos, já com (muito) atraso, à parte final da nossa retrospectiva sobre colecções de livros infanto-juvenis dos anos 90. E se nas duas partes anteriores recordámos alguns dos mais populares títulos totalmente concebidos em Portugal, desta feita, a vez cabe àquelas colecções que, apesar de criadas por autores estrangeiros, estiveram tão indelevelmente ligadas à maioria das infâncias portuguesas da época, que quase poderiam ser produto nacional.

Colecções como, por exemplo, a da Anita, que constituiu uma das primeiras experiências de leitura para grande parte dos ‘80s and 90s kids’, em especial para as raparigas (apesar de o melhor amigo de Anita ser um rapaz, a maioria dos leitores do sexo masculino pouco ou nada queriam ter a ver com uma série cheia de bochechas rosadas e desenhos em tons pastel.)

3418298388-8-livros-da-anita-em-otimo-estado-capa-

Alguns dos muitos títulos da série 'Anita'

Com os seus desenhos e capas ‘fofinhos’, letras gordas e histórias inócuas de todos os dias (o primeiro e mais famoso volume da série chama-se ‘Anita Vai À Escola’, e trata precisamente disso) as aventuras da personagem originalmente criada em França como ‘Martine’ ainda hoje continuam a fazer sucesso entre a faixa etária em idade primária e pré-primária, e a constituir um ponto de partida perfeito para leituras mais a sério.

E para as crianças da (segunda metade da) década de 90, o mais natural era que essa evolução tivesse como próximo passo a colecção Arrepios. Lendária nos Estados Unidos, onde apresentou milhares de crianças à literatura de terror, a série da autoria de R. L. Stine chegou ao mercado português em 1997, num formato de revenda invulgar (os livros eram vendidos exclusivamente nas papelarias e bancas de jornais, não estando disponíveis em livrarias convencionais) e a preço muito convidativo para as escassas economias juvenis – cada volume custava apenas 250$00, aproximadamente o mesmo preço de uma revista de super-heróis ou um exemplar da Bravo ou Super Pop.

image (2).jpg

Os dois livros do pack promocional original, de 1997

Assim, não é de estranhar que os primeiros volumes da colecção tenham sido sérios sucessos de vendas entre o público-alvo, com particular ênfase nos dois primeiros, ‘Bem-Vindos À Casa da Morte’ e ‘A Cave do Terror’, que eram vendidos ‘costas-com-costas’ num ‘pack’ promocional, em regime ‘leve 2, pague 1’. As traduções algo ‘manhosas’ – tratavam-se, afinal de contas, de edições da Abril-Controljornal – pouca importância tinham para os jovens leitores, que ‘devoraram’ estas histórias de (muito pouco) terror durante uns largos meses, tempo suficiente para a colecção chegar ao número 20. A partir desse mesmo número (uma imitação infantilizada de ‘Tubarão’, de Spielberg) deu-se uma perda de interesse tão súbita quanto inexplicável, e a colecção Arrepios passou de ser a publicação mais lida do recreio ao quase esquecimento, uma tendência que nem mesmo uma linha de livros ao estilo ‘Escolhe a Tua Aventura’ conseguiu inverter.

E já que falamos em ‘Escolhe a Tua Aventura’, esta é a altura perfeita para falar da colecção Aventuras Fantásticas, mais uma ‘febre’ de recreio que durou vários anos. Estes inesquecíveis livros, a maioria da autoria de Ian Livingstone, tinham como principal atractivo consistirem de uma espécie de jogo RPG de tabuleiro, mas em formato escrito. O jogador utilizava dados para determinar factores como a força, esperteza e capacidade mágica, e era também através de dados que se decidiam as lutas e eventos decisivos da trama – sendo que uma rodada mais desafortunada podia fazer derrocar todo o esforço anterior, e conduzir o jogador a um final infeliz.

image.jpg

Algumas das muitas 'Aventuras Fantásticas' disponíveis

É claro que nem todas as crianças tinham paciência para jogar com os dados - muitas faziam ‘batota’, atribuindo os pontos aleatoriamente e voltando atrás quando as coisas não corriam bem. Ainda assim, a premissa atraente do conceito, aliada a capas igualmente bem concebidas e chamativas para o público-alvo, fez desta colecção um sucesso durante grande parte da década de 90, e uma das mais duradouras ‘febres’ de recreio da época.

E por falar em ‘febres’ duradouras, o final dos anos 90 viu aparecer uma série que, apesar de o seu maior impacto se vir a verificar na década seguinte, ainda foi a tempo de influenciar muitas crianças daquele tempo. Falamos, é claro, das aventuras de um jovem mago e seus amigos, numa escola de magia na Escócia. Sim, a saga de Harry Potter chegou a Portugal ainda nos 90s, e caivou ‘putos’ e adultos de uma forma que poucos outros livros conseguiram repetir desde então. Na altura, eram apenas três os livros disponíveis (quer em Portugal, quer no estrangeiro), e apesar de muitos dos melhores momentos da saga ainda estarem apenas na mente da autora J. K. Rowling, vale a pena destacar a influência que a série já vinha tendo sobre a juventude da época.

images (1).jpg

Capa da primeira edição de sempre de 'Harry Potter e a Pedra Filosofal' em Portugal

E terminamos esta retrospectiva de literatura infanto-juvenil de qualidade com uma série que, apesar de menos massificada do que as outras neste post, tinha ainda assim a sua legião de fãs: os Diários Secretos do neurótico adolescente por excelência, Adrian Mole. À época, eram apenas quatro os livros que narravam as desventuras do jovem intelectual de Leicester, na sua cruzada por ver o seu génio reconhecido e conquistar a rapariga dos seus sonhos; e embora nominalmente dirigidos a um público juvenil, todos os quatro continham momentos de humor multifacetado, em que as crianças se podiam rir das piadas mais directas enquanto os adultos se divertiam com o substrato sarcástico e mordaz que os mais novos não compreendiam.

image (1).jpg

As primeiras edições dos livros de Adrian Mole em Portugal

Esta polivalência fez com que Adrian Mole fosse relativamente bem-sucedido em Portugal - apesar de, ao contrário de outra saga de que aqui falámos, não ter sido de todo localizado, e manter muita da sua ‘britanicidade’. Ainda assim, uma série de relativo sucesso, que vale a pena incluir nesta retrospectiva.

E é precisamente com o jovem inglês que fechamos esta viagem pelas séries de livros mais marcantes dos anos 90. Havia outras, é claro, algumas já lidas por jovens de outras décadas (como as diversas séries de aventura de Enid Blyton) mas estas foram as que considerámos terem sido especificamente ‘nossas’, isto é, das crianças daquela época. Concordam? Discordam? Faltou alguma? A mesa é vossa! Entretanto, ‘keep reading’!

07.04.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso da literatura juvenil.

Não, não estamos a falar de banda desenhada; neste post, falamos de livros ‘à séria’, daqueles com capítulos e enredos, só que especificamente criados para agradar a um público infanto-juvenil - aquilo a que nos EUA se chama ‘middle-grade literature’. E os anos 90 foram, sem dúvida, pródigos em exemplos deste tipo de livro, muitos deles orgulhosamente ‘made in Portugal’, e cuja leitura nenhuma criança com alguma propensão para a palavra escrita dispensava.  É precisamente dessas séries de produção inteiramente nacional que este post vai tratar, ficando a próxima Quarta de Quase Tudo reservada para os representantes estrangeiros e traduzidos do género.

No que toca a séries infanto-juvenis concebidas e escritas por autores portugueses, destacam-se de imediato duas, ambas dirigidas ao tal público ‘middle-grade’ (compreendido, sensivelmente, entre o final da escolaridade primária e o final do 3º ciclo do ensino básico) e que fizeram, em maior ou menor grau, parte da infância de qualquer ‘puto’ com queda para a leitura.

eba326ded25e2ba3080aac4181a4a3eb-754x394.jpg

Alguns dos títulos da colecção Uma Aventura

Começando pelos produtos nacionais, não poderíamos escrever um post sobre literatura infanto-juvenil em Portugal e deixar de fora o seu expoente máximo. Concebida e iniciada ainda em inícios dos anos 80, a colecção Uma Aventura continua a ser publicada até aos dias de hoje, contando já com 62 volumes (estando o 63º previsto para sair neste ano de 2021) e prestes a completar quarenta anos de presença constante nos escaparates – e nas estantes das crianças portuguesas. E isto sem nunca ter sido redesenhada a nível do grafismo, ou cedido a quaisquer modismos desse género!

A razão do sucesso de Uma Aventura – que já foi adaptada para televisão e cinema, sempre com boa recepção – não é difícil de perceber. Tal como todas as melhores obras infanto-juvenis, a prosa trata os leitores como seres inteligentes, e perfeitamente capazes de perceber e apreciar livros escritos em linguagem simples, mas não simplista, e com enredos bem pensados e adaptados à sua realidade. Junte-se a isso um ‘cast’ de personagens memorável (incluindo os dois cães) e ilustrações cuidadas e com um estilo distinto e imediatamente reconhecível (da autoria de Arlindo Fagundes, colaborador das autoras desde o primeiro volume da colecção), e está concebida uma série intemporal, e pronta a agradar a gerações de crianças – como, aliás, vem sendo o caso.

download.jfif

O elenco de uma das adaptações televisivas da série

A receita aparentemente simples desta colecção – basicamente ‘Os Cinco’ adaptados à realidade portuguesa de finais do século XX – continua a revelar-se surpreendentemente versátil e ‘elástica’, e é de imaginar que enquanto a dupla de autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada tiver inspiração e público-alvo, a colecção não deixe de somar números. Qualquer que seja o seu futuro, no entanto, a verdade é que Uma Aventura já faz parte da malha cultural portuguesa, e que os anos 90 foram responsáveis por uma boa parcela do seu sucesso.

Ao mesmo tempo que Pedro, Chico, João e as Gémeas defrontavam malfeitores nos mais diversos lugares, um outro grupo de personagens disputava com eles o coração dos leitores entre os 7 e os 14 anos. Tratava-se do Clube das Chaves, uma série mais voltada para o mistério em detrimento da aventura, mas que partilhava com a sua principal ‘concorrente’ a escrita sofisticada, os enredos inteligentes e envolventes, e as ilustrações apelativas.

clube-das-chaves.jpg

As capas originais d''O Clube das Chaves', com as excelentes ilustrações de Luís Anglin

De facto, as ilustrações de Luís Anglin eram tão sinónimas com a série como as de Arlindo Fagundes com Uma Aventura, e se possível, ainda melhores que as da série da Caminho, com um estilo arredondado e ‘cartoony’ que traduziria muito bem para um formato de BD ou animado. Infelizmente, a série nunca fez sucesso que justificasse qualquer destes veículos, embora, como Uma Aventura, tivesse sido adaptada para TV, cinco anos após a publicação do último livro da série.

ac61506687531b671b836964f1259dae.jpg

O elenco da adaptação televisiva d''O Clube das Chaves', de 2005

A principal diferença da série de Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira em relação a Uma Aventura, além do tom menos aventuroso e mais detectivesco, foi o facto de a mesma ter tido uma conclusão definida e, tudo indica, planeada. No total, a colecção teve 21 volumes, espalhados ao longo de exatos dez anos, o último dos quais fechou com ‘chave de ouro’ – passe o trocadilho – a epopeia dos irmãos Pedro e Anica, dos seus primos Guida, André e Vasco e do amigo Frederico para decifrar os mistérios das chaves do avô Cosme. No final da série - e um pouco ao contrário dos personagens algo ‘parados no tempo’ da série rival - todos os jovens eram fisicamente mais velhos, e por consequência mais maduros e com personalidades mais moldadas, oferecendo assim uma perspetiva muito realista do processo de crescimento e da adolescência.

Além destas duas séries, que constituíam leituras ‘por prazer’ para muitos jovens portugueses dos anos 90, destaque ainda para uma autora algo mais ‘mal-amada’ por aquele setor, sobretudo pelo facto de lhes ser ‘impingida’ na escola. Falamos, é claro, de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujas obras ‘A Menina do Mar’ e ‘O Cavaleiro da Dinamarca’ foram parte inescapável da disciplina de Língua Portuguesa para muitas crianças do 3º ciclo durante aqueles anos (e, muito provavelmente, ainda hoje.)

abc7cd7daaae5cfa6201daa185a12699.jpg

Uma capa memorável para a maioria das crianças portuguesas dos anos 90 - pelas melhores ou piores razões...

Embora seja inegavelmente uma das grandes escritoras portuguesas contemporâneas, e a sua morte tenha significado uma perda considerável para a literatura nacional, Sophia é (ou era) bem menos consensual entre as crianças do 7º, 8º e 9º anos naquela década de 90. Apesar de praticar um estilo simples, as suas histórias apresentavam-se algo ‘pesadas’, não captando o interesse da maioria dos alunos forçados a passar um par de horas com elas, duas a três vezes por semana. Ainda assim, seria uma omissão de monta falar em literatura infantil nacional nos anos 90 sem mencionar estas obras, que – uns anos depois, e em retrospectiva – se afiguravam bem escritas e até algo envolventes.

Antes de darmos este post como concluído, espaço, ainda, para recordar outras séries de algum sucesso entre o público infanto-juvenil da época, como o Detective Maravilhas (de Maria do Rosário Pedreira, co-autora do Clube das Chaves, e com ilustrações novamente a cargo de Luís Anglin) ou O Bando dos Quatro, de João Aguiar, e baseada numa série televisiva. Embora nenhuma destas colecções tenha tido o sucesso de Uma Aventura ou O Clube das Chaves, ambas forneceram às crianças portuguesas de finais da década de 90 bom material de leitura, justificando a sua inclusão neste artigo.

15780746._SX120_.jpg500x.jfif

As séries 'Detective Maravilhas' e 'O Clube dos Quatro'

Como mencionado no início do post, em termos de Parte I, ficamos por aqui; a segunda parte deste tema será publicada daqui a 15 dias. Até lá, a sala é vossa – liam estas séries, ou outras? Qual a vossa favorita? Faltou-nos falar de alguma? Deixem as vossas opiniões nos comentários!

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub