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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.06.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

A adaptação de clássicos da literatura para banda desenhada não é, de todo, um fenómeno novo ou inédito, tendo mesmo sido o mote para pelo menos uma colecção de livros editada em Portugal (da qual, paulatinamente, aqui falaremos); de igual modo, não é exactamente incomum ver essas mesmas adaptações emergirem do sempre produtivo mercado franco-belga, o qual gosta, pontualmente, de colmatar os seus Astérix e Spirous com algo mais sério. Também a banda desenhada lançada por, ou em parceria com, empresas de outros sectores tem precedentes, bastando lembrarmo-nos do álbum de BD editado pela EDP ou da promoção em que a Nestlé oferecia dois álbuns inéditos e de capa dura com histórias da Walt Disney. O que é, sim, inédito e insólito é ver obras com estas características chegar a Portugal pela mão de uma editora conhecida, sobretudo, pelas suas obras educativas em fascículos, e ser lançada em parceria com uma gasolineira (!!)

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E, no entanto, foi precisamente este o caso quando, em 1997, a Planeta DeAgostini se juntou à Repsol para editar uma colecção de seis adaptações dos romances policiais de Agatha Christie, da autoria dos criadores belgas François Riviére (também argumentista de séries como 'Victor Sackville' ou 'Alix') e J. P. Muniac. Uma escolha insólita para uma promoção de uma companhia de distribuição de gasolina, já que nenhum dos romances está sequer tangencialmente relacionado a esse campo, mas que terá certamente constituído uma agradável surpresa para quem os adquiriu, já que se tratam de adaptações de qualidade, com argumento e arte cuidados e que fazem jus ao material original.

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Página final de um dos álbuns

Os detalhes da promoção em si – apelidada Repsol Move – perdem-se nas areias do tempo, e a informação disponível sobre os próprios álbuns não vai além dos dados básicos e uma ou outra imagem no OLX (como as que ilustram este post), pelo que se pode considerar que a colecção Agatha Christie em BD foi Esquecida Pela Net; afigura-se, pois, mais relevante que nunca adicionar mais algumas linhas sobre estas insólitas publicações, cuja conjunção de factores é, ainda, difícil de acreditar ser real, e cuja conjuntura dificilmente se tornará a repetir, tornando-as caso único no panorama 'bedéfilo' nacional, quer dos anos 90, quer como um todo.

08.06.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Conforme já mencionámos em edições anteriores desta rubrica, não era, de todo, prática incomum entre os jornais e até revistas nacionais dos anos 90 editarem um suplemento de banda desenhada. Foi assim com publicações tão díspares quanto o Expresso e a TV Guia, e foi também assim com aquele que continua a ser um dos maiores periódicos do nosso País, o Diário de Notícias.

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Capa do número 1 do suplemento, editado em Fevereiro de 1990

O suplemento em causa, editado em inícios da década (a primeira edição data logo de 11 de Fevereiro de 1990) e patrocinado pelo então super-popular sumo Um Bongo, tinha a singela mas descritiva designação de 'BDN' (um jogo de palavras bem conseguido entre a abreviatura da expressão 'banda desenhada' e a do próprio jornal) e adoptava o mesmo formato de publicações como 'Tintin' ou a revista 'Selecções BD', da Meribérica-Liber, apresentando semanalmente tranches de histórias de heróis, sobretudo, franco-belgas, dos bem conhecidos Astérix, Spirou ou Michel Vaillant à adaptação em banda desenhada das aventuras de 'Os Cinco' (de Enid Blyton); pelo meio, havia ainda espaço para divulgar alguns autores e 'cartoonistas' nacionais, como Ruy, responsável pelas duas edições especiais publicadas pelo suplemento, a primeira sobre a vida de Charlie Chaplin, e a segunda uma adaptação de 'Como Apareceu O Medo', um dos contos incluídos n''O Livro da Selva', de Rudyard Kipling - este último mais tarde editado em álbum pela própria Editorial Notícias.

No fundo, sem diferir muito de outros suplementos do mesmo tipo – a única particularidade eram mesmo os títulos licenciados – o 'BDN' não só não deixava de proporcionar aos jovens daquele tempo algo com que se entreter enquanto os 'mais crescidos' liam o resto do jornal, como lhes proporcionava material de qualidade e de verdadeiro interesse para a demografia em questão, algo que nem sempre ocorria com este tipo de suplementos; assim, e apesar de hoje em dia se encontrar algo 'Esquecido Pela Net' (o único registo existente é no 'site' da Bedeteca, de onde foi retirada a ilustração deste post) este suplemento acaba por justificar estas breves linhas memoriais, que – espera-se – ajudarão a avivar muitas memórias relativamente ao mesmo.

26.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Quarta-feira, 25 de Maio de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas-compilação, que reuniam, em cada número, trechos de diversas obras distintas, foram, até há relativamente pouco tempo, presença comum no mercado tipográfico português, sendo o seu expoente máximo as Selecções do Reader's Digest, que além de trechos de obras publicavam também artigos sobre temas de interesse, bem como textos originais mais curtos.

Curiosamente, no mercado da banda desenhada, este tipo de revista viu-se representada, não por uma, mas por duas publicações distintas: primeiro, nos anos 60 e 70, a excelente revista 'Tintim', que conseguiu fazer vingar o formato por impressionantes quinze anos, e mais tarde, já nos anos 90, a revista 'Selecções BD', de expressão bem menor, mas que conseguiu, ainda assim, almejar duas séries.

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Capa do número 1 da primeira série da revista

Com periodicidade mensal, e da responsabilidade da editora Meribérica-Liber, o conceito da 'Selecções BD' estava descrito no próprio título, e era em tudo semelhante ao da sua antecessora; tal como 'Tintim', também a nova revista se propunha reunir em cada número trechos de obras de vários autores, publicados em ordem cronológica de modo a formar, a médio prazo, uma história completa. Também à semelhança da revista dos anos 60, cada número incluía autores tanto nacionais como internacionais, com particular ênfase no excelente e sempre prolífero mercado franco-belga, em que a editora tradicionalmente se especializou, ede onde eram provenientes nomes como Blake & Mortimer, Blueberry e Michel Vaillant, que 'ancoravam' a revista e lhe davam apelo extra entre os 'bedéfilos'.

Com esta fórmula, chegaram às bancas 36 números, entre 1988 e 1991, custando cada um uns exorbitantes 550$00, cerca de cinco vezes mais do que um adepto de BD poderia esperar pagar, à época por uma revista Disney ou de super-heróis; será caso para dizer que a qualidade se paga, já que tanto o conteúdo como o grafismo destas revistas eram de alta qualidade.

Apesar do preço proibitivo, essa primeira série das Selecções terá feito sucesso suficiente para justificar um regresso às bancas, sete anos depois da extinção da revista original, agora com um grafismo bem mais tradicional para uma publicação deste tipo, em linha com o que a Abril-Controljornal vinha fazendo com títulos como 'Heróis'.

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Capa do número 1 da segunda série da revista

O conceito e o material, esses, não se haviam alterado, embora o acervo de autores se apresentasse significativamente mais reduzido, tornando os astronómicos 900$00 pedidos pela Meribérica bem mais questionáveis do que os equivalentes 550$00 do início da década. Ainda assim, a segunda série conseguiu ser quase tão longeva quanto a original, vendo 31 números publicados entre 1998 e 2001.

Hoje em dia, a possibilidade de uma publicação deste tipo granjear sucesso é quase tão reduzida quanto a sua própria validade e viabilidade: num mundo em que tudo está ao alcance dos dedos, em formato digital, não faz qualquer sentido estar um mês à espera de mais uma tranche de uma história, pela qual se tem depois de pagar um preço exorbitante. Como tal, é provável que o mercado português – bem como o internacional – jamais tornem a ver outra publicação como esta 'Selecções BD', que constitui hoje, ainda assim, um excelente documento do que foi o 'boom' da banda desenhada franco-belga em Portugal durante os anos 80 e 90.

 

11.05.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Como já aqui mencionámos aquando dos nossos posts sobre os álbuns de tirinhas de banda desenhada dos anos 90 e sobre a sua série animada, o gato Garfield era e continua a ser um dos mais populares personagens de banda desenhada de sempre, e um dos únicos capaz de atravessar e unir gerações, estando as crianças de hoje em dia tão familiarizadas com o personagem como a geração dos seus pais. Mesmo em plena era digital, o gato listrado cor de laranja continua a motivar a criação e edição de desenhos animados, filmes, jogos de computador, e outros items de merchandising das mais variadas índoles; curiosamente, a única coisa que Garfield não tem visto ser lançado no mercado nacional com a sua cara são, curiosamente, álbuns de banda desenhada.

Nos anos 90, no entanto, passava-se precisamente o oposto – o produto alusivo a Garfield que mais facilmente se encontraria numa loja portuguesa era, precisamente, um dos muitos volumes de BD publicados ao longo da década por nada menos do que três editoras diferentes.

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Um dos muitos volumes em formato comprido editados pela Meribérica-Liber

A primeira a adentrar-se pelo mundo do gato de Jon Arbuckle foi a Meribérica-Liber, ainda nos anos 80, com uma série de volumes em formato 'comprido' que reuniam algumas das primeiras tiras do personagem, quando os seus traços eram, ainda, significativamente diferentes. Esta série seria, a breve trecho, interrompida, mas (curiosamente) retornaria às livrarias portuguesas quase uma década depois de ter sido descontinuada, resumindo-se, até ao dealbar do novo milénio, a publicação de novos álbuns, como se nada tivesse, entretanto, acontecido.

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'O Álbum do Garfield', o único volume do personagem editado pela Bertrand (1990)

A verdade, no entanto, passa precisamente pelo oposto, sendo que, durante o interregno em causa, a edição das tirinhas de Garfield foi assumida por duas outras lendárias casas literária portuguesas, a Bertrand e a Dom Quixote. A participação da primeira resumiu-se a um livro, 'O Álbum do Garfield', que reunia tiras clássicas em formato A4 de capa mole; a segunda, no entanto, lançaria seis álbuns alusivos ao personagem no início dos anos 90, que ainda hoje permanecem os melhores volumes de tirinhas de Garfield alguma vez editados em Portugal. Num mais tradicional formato A4 de capa dura, estes seis volumes conseguiam a proeza de incluir tiras mais ou menos contemporâneas com o que vinha sendo publicado nos EUA na mesma altura, o que, à época, era nada menos do que um feito. Infelizmente, a participação da Dom Quixote na 'saga' do gato mais preguiçoso do Mundo ficou-se por aí, sendo que a qualidade destes álbuns merecia definitivamente edição continuada.

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O primeiro álbum da excelente série de seis publicada pela Dom Quixote a partir de 1992

O novo milénio não veio esmorecer o entusiasmo pelo material alusivo ao gato alaranjado; antes pelo contrário, já no novo milénio, o mesmo regressaria ainda mais uma vez às bancas e livrarias portuguesas, desta vez por mão da Book Tree e em álbuns cujo formato ficava a 'meio caminho' entre as duas tentativas anteriores, com capa mole e uma configuração 'quadrada', algures nas proximidades do A5, mas sem o ser.

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Exemplo da série de livros de Garfield lançada pela Book Tree, já nos anos 2000

Desde então, a publicação de álbuns de Garfield não dá sinais de abrandar, apesar de, hoje em dia, o gato ser, sobretudo, estrela da televisão e Netflix (pelo menos em Portugal; no Brasil, contracena actualmente, numa aventura multi-volumes, com a Turma da Mônica, um estatuto reservado, naquele país, apenas a mega-estrelas da BD, como os principais personagens da Disney.) Quem chegou a ler estes álbuns publicados naqueles finais do século XX, no entanto, certamente terá boas memórias de muitas gargalhadas dadas à custa daquelas inspiradas tirinhas, das quais deixamos abaixo uma das nossas favoritas.

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27.04.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O dia 25 de Abril de 1974 foi um dos mais importantes da História de Portugal, e certamente o mais importante da era moderna no nosso país. As repercussões da revolução pacífica que pôs fim a mais de quatro década de ditadura e restabeleceu a democracia em Portugal continuam a fazer-se sentir quase cinquenta anos depois do icónico dia, e a data permanece tão vigente na cultura popular como nunca, existindo diversos produtos mediáticos a ela dedicados, do qual o mais conhecido será, porventura, o filme 'Capitães de Abril', com Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida, lançado nos primeiros meses do século XXI; e ainda que a banda desenhada não pareça, à primeira vista, um veículo propício à abordagem séria e factual que o tema continua a merecer, a verdade é que houve, nos anos 90, pelo menos uma tentativa de transpôr a narrativa da Revolução dos Cravos para um formato gráfico.

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(Crédito da imagem: blog Divulgando Banda Desenhada)

Tratou-se de 'Salgueiro Maia – A Voz da Liberdade', um obscuríssimo tomo editado em 1999 pela Câmara Municipal de Santarém, por forma a comemorar os 25 anos do Dia da Liberdade, disponível apenas como suplemento de um semanário regional da zona, e 'desenterrado' do esquecimento cibernético, dezasseis anos depois, pelo blog Divulgando Banda Desenhada; foi, aliás, esse 'post' que inspirou e serviu de base a este texto, e são dele as imagens que o ilustram.

Da autoria exclusiva de António Martins, a BD procura retratar o papel do Capitão Salgueiro Maia na 'Operação Fim-Regime', com base em testemunhos, entrevistas e documentos do próprio, bem como no livro sobre a Revolução dos Cravos, da autoria de Otelo Saraiva de Carvalho. O resultado é uma obra que, surpreendentemente, consegue mesmo transpôr esse momento da História para um formato visual, sem que com isso a seriedade e importância do momento saiam beliscados, e que merecia melhor sorte do que ser 'apenas' um suplemento de um jornal regional, com uma base de leitores obviamente limitada e finita; como as imagens incluídas neste 'post' atestam, tanto o argumento como a arte, que mistura desenhos num estilo realista clássico com imagens fotográficas, estão ao (alto) nível de outras bandas desenhadas educativas e históricas, tanto dos anos 90 como de outras décadas, e muito acima da típica BD institucional ou 'de jornal' da mesma época.

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Exemplo do estilo gráfico da obra (Crédito da imagem: blog Divulgando Banda Desenhada)

Seja como fôr - e enquanto se espera por uma eventual reedição de distribuição mais alargada - o serviço público prestado pelo blog Divulgando Banda Desenhada permitiu fazer isso mesmo – divulgar esta pérola perdida da BD dos anos 90 (e da criatividade inspirada pela Revolução dos Cravos), um objectivo a que, esperamos, este 'post' tenha também ajudado. Viva o 25 de Abril!

13.04.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

De inícios da década de 80 ao dealbar do novo milénio, a editora Abril Morumbi (mais tarde apenas Abril) foi sinónima com a publicação de banda desenhada Disney nas bancas portuguesas, sendo praticamente impossível encontrar um produto literário da companhia americana que não tivesse a chancela da casa luso-brasileira; mas enquanto que a maioria dos títulos lançados pela editora eram e continuam a ser fáceis de encontrar, um ou outro conseguiu, ainda assim, reter um estatuto obscuro o suficiente para, à entrada para a terceira década do século XX, poder ser considerado Esquecido Pela Net.

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Frente e verso da capa do álbum

É o caso do volume que hoje apresentamos, uma publicação de 1990 que leva o tão descritivo quanto anónimo título de 'Álbum Disney - Mickey' - uma designação genérica o suficiente para dificultar (e muito!) a procura de informação sobre ele na Internet, especialmente dada a quantidade de colecções diferentes lançadas ao longo dos anos, precisamente com o mesmo título, algumas das quais já aqui abordadas. Este 'Álbum Disney´ nada tem a ver com qualquer delas, sendo (tanto quanto podemos aferir) uma entidade única, e uma experiência nunca repetida pela Abril - o que talvez ajude a explicar o seu estatuto obscuro no panorama da banda desenhada nacional.

Seja qual for o motivo para a sua situação actual, o certo é que este álbum não merecia tal fado, dado tratar-se não só de uma experiência válida, mas também de uma aquisição indispensável para qualquer interessado na História da banda desenhada, tanto da Disney quanto em geral. Isto porque, ao contrário de outras edições especiais da Abril (como os álbuns criados em exclusivo para uma promoção da Nestlé) o livro não apresenta qualquer história (à época) contemporãnea do protagonista, assumindo, logo desde a capa, a sua intenção de servir como veiculo para a publicação em Portugal de histórias clássicas de Mickey e companhia - no verdadeiro sentido da palavra, já que a totalidade do material contido nas suas páginas foi publicado quase sessenta anos antes da edição do próprio álbum, na década de 1930!

De facto - de acordo com as curtas mas informativas notas presentes no início e a meio do livro - as quatro histórias (mais uma mão-cheia de 'tiras') que perfazem esta obscura publicação começaram por surgir, em formato serializado, nos jornais em que as histórias de Mickey eram publicadas, entre 1932 e 1938; e apesar de, aqui, surgirem em formato 'corrido', é ainda bastante evidente onde cada porção originalmente acabava.

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Uma página de 'O Covil de Wolf Barker', demonstrativa do estilo de Floyd Gottfredson (esquerda) e o frontispício e página de notas de 'Hoppy, o Canguru' (centro e direita).

Nada, no entanto, que diminua a experiência de ler estas 'pérolas', a maioria da autoria de Floyd Gottfredson, um dos mais lendários artistas dos primeiros tempos do estúdio, Da pura aventura de 'O Covil de Wolf Barker' (cujo enredo caberia perfeitamente numa revista Mickey dos anos 80 ou 90) à comédia de 'Os Sobrinhos do Mickey' e 'Hoppy, o Canguru' (ambos também adaptados para desenho animado) há neste livro material para satisfazer todos os gostos, sempre com o atractivo extra do contexto histórico, que torna a leitura ainda mais prazerosa para qualquer conhecedor de BD.

Fica, pois, claro, que este 'Álbum Disney' não merece, de todo, o esquecimento a que foi (seja pela sua raridade, pelo título excessivamente genérico, ou por qualquer outro motivo) vetado; e embora se afigure praticamente impossível encontrá-lo à venda hoje em dia, vale bem a pena a qualquer apreciador da era de ouro da banda desenhada Disney o esforço extra para tentar adquiri-lo - quanto mais não seja, pelo valor histórico que apresenta...

30.03.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Depois de, em edições passadas desta rubrica, termos falado das revistas de banda desenhada da série 'Os Dinossauros' e da Hanna-Barbera, chega agora, mais uma vez, a altura de nos debruçarmos sobre uma publicação tão esquecida que a maior dificuldade foi mesmo arranjar imagens para ilustrar este post (como sempre, obrigado, OLX!)

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Uma das únicas duas imagens disponíveis que permitem verificar a existência efectiva desta revista

E a verdade é que, tal como nos outros dois casos acima mencionados, esta não deixa de ser uma situação caricata, dado que a referida revista foi editada pela editora de BD em Portugal por excelência - a Abril Controljornal - e era baseada numa propriedade intelectual tão ou mais popular (e certamente mais perene) entre o público-alvo – no caso, os ainda hoje mega-populares Looney Tunes.

E no entanto, onde informações sobre as outras publicações de banda desenhada editadas na mesma altura pela Abril - sejam as revistas Disney ou as de super-heróis da Marvel e DC - são relativamente fáceis de encontrar, a existência da revista 'Bugs Bunny' (apenas uma de várias tentativas feitas através das décadas de trazer os personagens da Warner Brothers para o mundo dos quadradinhos, desta feita, presume-se, para aproveitar a popularidade renovada de que gozavam por ocasião do lançamento do filme 'Space Jam') apenas é corroborada, no omnisciente Google, pela sua aparição num ou outro leilão de BD's no referido OLX; de resto, a referida publicação bem podia não ser mais do que uma memória fabricada por este que vos escreve...

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A segunda e última imagem destas revistas existente na Internet, retirada do mesmo leilão que providenciou a anterior. Uma ressalva para a piada infame da capa da esquerda...

Não sendo esse o caso, no entanto, falemos um pouco da revista que levava o nome do eterno líder dos Looney Tunes (isto apesar de o foco ser irmamente distribuído entre todos os personagens). Tal como as referidas 'Dinossauros' e 'Hanna-Barbera' (ou ainda certas revistas e álbuns Disney) as mesmas mais não eram do que agregados de histórias publicadas na sua congénere norte-americana, devidamente traduzidas para português europeu contemporâneo, mas sem quaisquer outras alterações ao material original – o que não era, necessariamente, um defeito, já que as referidas histórias apresentavam arte bastante cuidada, digna do estatuto dos personagens, mesmo se os enredos (como, aliás, era costume nestas BD's 'menores') deixavam um pouco a desejar.

Sem ser tão memorável quanto as referidas revistas Disney, ou as de Mauricio de Sousa – estavam bastante mais próximas, em conceito como em temática e até execução, de 'Oh! Hanna-Barbera' e 'Flintstones' – a revista 'Bugs Bunny' afirmava-se, ainda assim, como uma fonte razoável de entretenimento para o seu público-alvo, o que torna ainda mais intrigante o completo esquecimento a que a mesma foi votada nas décadas subsequentes. Seja qual for o motivo, no entanto, não restam dúvidas – a edição portuguesa de 'Bugs Bunny' (pelo menos a da década de 90) entra direitinha na galeria das publicações 'Esquecidas Pela Net' que este blog tem feito questão de recuperar...

02.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As adaptações em texto de propriedades audio-visuais de sucesso – as chamadas novelizações ou serializações – não são, de todo, um fenómeno recente; pelo contrário, pode dizer-se que o verdadeiro auge deste tipo de obra ocorreu nos anos 80 e 90, altura em que praticamente todos os 'franchises' cinematográficos ou televisivos minimamente bem sucedidos eram alvo de adaptações literárias. De Indiana Jones a Street Fighter e até E.T – O Extraterrestre, eram inúmeros os exemplos de conversões de filme ou série televisiva para livro, normalmente com uma qualidade de escrita não mais do que aceitável, e sem grandes pretensões a serem mais do que uma fonte adicional de receitas para a propriedade que representavam.

Menos comuns, embora longe de inexistentes, eram as adaptações em banda desenhada. De facto, tirando as 'quadrinizações' dos filmes da Disney feitas pela americana 'Disney Adventures' e publicadas em Portugal pela revista Super Jovem, e mais tarde numa colecção de álbuns bilingues que já aqui abordámos, eram poucos ou quase nenhuns os filmes ou séries que tinham direito a adaptações em BD, e ainda menos as obras desse tipo que atravessavam o oceano até à Península Ibérica.

Talvez tenha sido precisamente por isso que a adaptação oficial em banda desenhada do terceiro longa-metragem de Batman, 'Batman Para Sempre' (a única das quatro realizadas para cada um dos filmes do herói a chegar às bancas portuguesas) se destacou de tal forma nas bancas de jornais à altura do seu lançamento; apesar de Portugal ser, tradicionalmente, um país com tradição de venda e compra de revistas aos quadradinhos (entre as quais várias do próprio Batman, bem como de outros super-heróis) este tipo de publicação era tudo menos familiar para o público-alvo das BD's da Marvel e DC em meados da década de 90 – um facto a que também ajudava a própria aparência e apresentação da revista, diametralmente oposta às publicações de super-heróis 'vulgares' que a Abril enviava para as bancas a cada quinze ou trinta dias.

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De facto, com o seu formato A4 – tipico dos 'comics' norte-americanos, mas reservado, na Europa, a publicações do tipo almanaque ou álbum – e papel brilhante e oleoso, a adaptação em BD de 'Batman Para Sempre' posicionava-se, desde logo, como uma edição 'de luxo', em contraste directo com os 'livros aos quadradinhos' de formato A5 e papel rugoso a que as crianças e jovens da época estavam habituados; os traços distintivos não se ficavam, no entanto, por aí, sendo que os próprios conteúdos da revista tinham uma toada algo mais adulta do que o habitual para os 'comics' da época, com um estilo gráfico sombrio e razoavelmente realista, fiel à atmosfera do filme de Schumacher (da responsabilidade dos experientes Michael Dutkiewicz e Scott Hanna, na altura dois dos principais artistas na folha salarial da DC), e que a posicionava mais perto das chamadas 'graphic novels' do que das revistas quinzenais ou mensais, justificando assim o preço ligeiramente mais 'puxado' de 380$00, o equivalente a EUR 1.90 actuais.

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Exemplo da arte gráfica do livro

A história, essa, era exactamente a mesma do próprio 'Batman Para Sempre', ou não se tratasse de uma adaptação oficial em BD. Apesar de algumas liberdades criativas – como mostrar um excerto do próprio guião na primeira página – o argumento de Dennis O'Neil segue fielmente o roteiro da obra de Schumacher, sem nunca tentar expandir sobre aquilo que o realizador mostrara, o que, dependendo da interpretação, tanto pode ser louvável como uma oportunidade falhada de mostrar os personagens e história de 'Para Sempre' de outros ângulos, enriquecendo assim a história do filme – uma táctica sobejamente utilizada pelas novelizações em prosa, mas de que a equipa responsável por esta transcrição para BD optou por não fazer uso.

Qualquer que seja a perspectiva sobre esta abordagem, no entanto, a verdade é que a adaptação em BD de 'Batman Para Sempre' justificava bem a compra – embora sobretudo como artigo de colecção, já que era extremamente improvável que alguém que não tivesse visto o filme se interessasse por algo deste tipo, e quem já conhecesse a história dificilmente estaria interessado em a reviver num formato gráfico. Ainda assim, foi louvável o esforço da DC em assegurar que esta adaptação correspondia aos padrões de qualidade das suas antecessoras, e que o seu público-alvo não dava o seu dinheiro por mal gasto; e nesse aspecto, pelo menos, pode considerar-se que a editora (e, por associação, a Abril-Controljornal) foi bastante bem sucedida, já que a adaptação em banda desenhada de 'Batman Para Sempre' é uma adição mais do que válida à colecção de qualquer entusiasta de Batman, ou de BD de super-heróis dos anos 90 em geral.

16.02.22

NOTA: Esta é a versão expandida deste post, que foi inicialmente publicado com bastante menos dados, e um texto mais vago. 

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Às vezes, há coisas assim. Uma editora quase monopolista de um determinado sector decide editar algo um pouco mais elaborado e sofisticado, de modo a assinalar um marco, e essa obra, em vez de se tornar um estandarte do seu catálogo, cai quase totalmente no esquecimento, largamente ofuscada na memória colectiva por edições bem mais corriqueiras e banais.

É, precisamente, essa a situação em que se encontram dois livros de capa dura lançados pela Editora Abril em 1992, em exclusivo para a Nestlé, presume-se como parte de uma qualquer promoção.

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E dizemos 'presume-se' porque, à parte UMA ÚNICA fotografia oriunda de um leilão actualmente activo no OLX, não existem quaisquer informações sobre estes dois livros na Net. Rigorosamente NADA. Se o volume centrado no Rato Mickey não sobrevivesse, ainda hoje, na estante lá de casa, não teríamos ficado a saber da sua existência, nem do contexto em que foi publicado. Assim sendo, podemos, pelo menos, falar – ainda que MUITO brevemente – sobre esse volume e o seu congénere, respeitante ao outro personagem principal das BD's Disney da época, o Pato Donald.

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As únicas informações sobre os volumes encontram-se na secção de detalhes técnicos no interior da primeira página

Tendo como título, tão-somente, o nome do personagem que focam (o que, convenhamos, também não ajuda à pesquisa) os mesmos apresentam capas que sugerem um clima de festa, com Donald e Mickey vestidos com roupas 'radicais', bem na moda para o período em causa, sobre um fundo de serpentinas. A apresentação é, aliás, toda ela luxuosa: tratam-se de álbuns de capa dura e lombada grossa, que, caso tivessem estado disponíveis nas bancas, teriam sem dúvida tido um preço de revenda elevado.

Os conteúdos, esses – pelo menos no respeitante ao volume constante da nossa colecção –pouco têm, infelizmente, de especial. Àparte a apresentação cuidada e o formato cartonado, de livro 'a sério', estas duas obras em nada diferem da comum revista de BD Disney comercializada pela própria Abril à época, podendo perfeitamente ter sido comercializados como um dos volumes do Hiper Disney ou Show Disney sem que se tivesse notado grande diferença. Isto porque nem as habituais secções inerentes a livros deste tipo – como resumos da história dos personagens, cronologias, etc. - se encontram presentes em qualquer dos dois tomos, que apresentam a primeira história logo a seguir à folha de capa, e a última logo antes da habitual folha em branco das costas – exactamente como se de uma publicação semanal normal se tratasse. O aspecto exterior tem, pois, uma função puramente estética, fazendo com que estes livros pareçam algo especial e exclusivo, e que valha a pena porfiar para conseguir no contexto desta promoção; e, nesse aspecto, há que admitir que os mesmos são bem sucedidos.

Quanto à raridade (ou não) das histórias incluídas em cada volume, não nos podemos, infelizmente, pronunciar – para nós, em criança, tratavam-se de escolhas perfeitamente vulgares, mas é bem possível que tal não seja, necessariamente, o caso, ganhando assim estes livos um atractivo adicional à aquisição. Sem esse chamariz, no entanto, a mesma apenas é justificada pelas capas muito bem conseguidas, e que sem dúvida se integram muito bem na colecção de qualquer aficionado de banda desenhada; de resto, não é difícil perceber porque, num Portugal que ainda compra, vende e troca em larga escala as revistas Disney publicadas pela Abril - especialmente as mais raras, como é o caso - estes dois volumes constituam, até agora, o melhor exemplo de um produto verdadeiramente Esquecido pela Net...

 

02.02.22

NOTA: As imagens deste post foram retiradas do 'site' pessoal de António Jorge Gonçalves, em http://www.antoniojorgegoncalves.com/livros-books.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última edição desta rubrica, falámos de 'Lisboa Às Cores', um esforço conjunto entre o ilustrador António Jorge Gonçalves, o escritor Nuno Júdice e o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa distribuído pelas escolas primárias da região metropolitana de Lisboa em 1993 e destinado a sensibilizar as crianças da capital, não só para a arte, como para a beleza da sua cidade.

Mas se para os mais novos este foi o primeiro contacto com os desenhos de Gonçalves, para o público um pouco mais velho, o ilustrador já era bem conhecido, nomeadamente por ter ganho, nesse mesmo ano de 1993, o prémio de Melhor Álbum Português no maior festival de banda desenhada em Portugal (o da Amadora) com o seu volume de estreia, 'Ana' - a primeira de três obras criadas em parceira com Nuno Artur Silva (já presente nestas páginas através do seu trabalho com Hemran José, e mais tarde fundador das Produções Fictícias, responsáveis por alguns dos melhores programas de humor da História da televisão e rádio portuguesas) e que tinham como protagonista o detective privado Filipe Seems.

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'Ana', o álbum de estreia do ilustrador, premiado na esição de 1993 do Festival de BD da Amadora 

Naturalmente, este prémio acabou mesmo por impulsionar uma carreira que, durante a restante década, viu serem produzidos, além do referido livro institucional para a CML, um segundo volume das aventuras de Filipe Seems, logo no ano seguinte, e dois livros mais experimentais: 'A Arte Suprema' (1997) considerado o primeiro romance gráfico português e criado em parceria com Rui Zink, e 'O Senhor Abílio' (1999) uma obra a solo, sem texto, e mais catártica, destinada como era a ajudar Gonçalves a processar as emoções inerentes a uma mudança para Londres, e que surgiu primeiramente sob a forma de tiras, num lugar algo inusitado para a criação artística – a revista 'Linhas Cruzadas', publicação interna da companhia telefónica portuguesa Portugal Telecom.

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Capa da colectânea de tiras 'O Senhor Abílio', de 1999

O novo milénio veria a carreira de Gonçalves continuar de vento em popa, com a publicação do terceiro e último volume das aventuras do detective Seems, em 2003, a abrir caminho para mais uma série de obras (a última das quais em 2018) que ajudaram a cimentar ainda mais o nome do autor entre os fãs de banda desenhada nacional. Foram, no entanto, aqueles primeiros trabalhos lançados na 'nossa' década que verdadeiramente revelaram António Jorge Gonçalves ao Mundo, pelo que se afigura mais do que justa a singela homenagem prestada nesta página àquele que é, ainda hoje, um dos maiores nomes da banda desenhada independente e contemporânea em Portugal...

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