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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

03.01.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.
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As adaptações de filmes e séries populares em banda desenhada foi um dos principais filões da banda desenhada de finais do século XX, com muitas criações audio-visuais da época a terem direito ao seu próprio álbum oficial em 'quadradinhos' - ou até mesmo a uma série completa, como no caso da colecção que abordamos nesta primeira Quarta aos Quadradinhos de 2024.

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Os primeiros dois números da série (crédito da foto: CustoJusto.pt)

Lançada em Portugal há pouco mais de trinta anos (em 1993, menos de um ano após a edição original norte-americana) pela TeleBD - 'braço' da TV Guia dedicado aos quadradinhos que também lançaria adaptações em BD das 'Tartarugas Ninja' e do 'Capitão Planeta', no mesmo período - 'Indiana Jones - Crónicas da Juventude' propunha-se servir de complemento ao programa televisivo do mesmo nome, à época em exibição no nosso país, e que viria também a justificar o lançamento de uma série de livros, por parte da Europa-América. Nos três casos, a premissa era a mesma: relatar algumas das aventuras e peripécias do arqueólogo aventureiro Henry Jones Jr. durante os seus anos de infância e adolescência, ao lado do pai, Henry Sr. (famosamente interpretado por Sean Connery em 'Indiana Jones e a Última Cruzada', segundo capítulo da trilogia cinematográfica original, também ele adaptado em BD, lançada em Portugal pela Meribérica) e de alguns outros personagens criados especificamente para a série.
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A banda desenhada não foge a este padrão, sendo que os sete volumes lançados em Portugal pela Tele BD (doze no original americano) incluem várias novas-velhas aventuras protagonizadas pelo jovem Henry e pelos seus amigos na década de 1910, nas mais diversas partes do Mundo, do Egipto ao México, África ou aos campos de batalha da I Guerra Mundial. Em todas estas localidades, 'Indy' e os seus companheiros terão de se haver com malfeitores e resolver mistérios arqueológicos antigos, bem ao estilo do que o arqueólogo de chicote e chapéu viria a fazer nos seus anos de 'crescido'. Apesar de díspares, no entanto, estas aventuras possuíam, ainda assim, um elo de ligação: o argumentista Dan Barry, que trabalharia com uma série de diferentes equipas artísticas ao longo da curta duração do título (precisamente um ano na edição original norte-americana, e apenas sete meses no caso da portuguesa). A permanência do argumentista ao longo de toda a série ajudaria a manter uma certa coesão entre os diferentes números, que compensava os estilos de desenho e arte-final algo díspares, e dava à série uma atmosfera muito própria.

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Exemplo da arte e argumento da série (crédito da imagem: CustoJusto.pt)

Ao contrário de muitos outros títulos que aqui abordamos, a razão para o fim de 'Indiana Jones - Crónicas da Juventude' (tanto em Portugal como nos EUA) é bastante óbvia, tendo o fim da série televisiva - e, subsequentemente, do interesse na mesma - assinado a 'sentença de morte' para produtos periféricos e derivados, como o é esta colecção da Dark Horse. Ainda assim, para um produto puramente motivado pelo lucro, a série em causa até consegue manter um padrão de qualidade elevado, ao nível das restantes obras da editora original, que faz com que valha bem a pena uma 'revisita' por parte dos fãs do arqueólogo e aventureiro criado por Steven Spielberg - isto, claro está, se conseguirem encontrar as edições em causa...

06.12.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Qualquer período hegemónico que se estenda por vários anos, ou até décadas, é praticamente impossível de manter inalterado; por muito poucas mudanças que se procurem fazer num contexto deste tipo, algo acabará, inevitavelmente, por se alterar ou evoluir. É, pois, importante estabelecer, em situações deste tipo, elos de ligação que permitam manter o produto ou criador em causa reconhecível para lá de quaisquer diferenças superfíciais no conteúdo; e uma boa maneira de conseguir este objectivo é estabelecer uma ou mais 'tradições', levadas a cabo em intervalos periódicos ou na época do ano apropriada. Para a Abril-Controljornal, praticamente monopolista do mercado nacional de 'livros aos quadradinhos' de finais do século XX e inícios do XXI – uma dessas tradições prendia-se com o lançamento, todos os meses de Dezembro, de um ou mais títulos de BD Disney dedicados ao Natal. E apesar de ter tido particular expressão até inícios da década de 90, a verdade é que esta tradição se mantinha ainda vigente nos últimos anos do Segundo Milénio, como o prova o título que abordamos nesta primeira de duas Quartas aos Quadradinhos de Natal.

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Lançado há exactos vinte e seis anos, em Dezembro de 1997, 'Disney Natal Especial' insere-se na vasta categoria de títulos de 'número único' lançados pela Abril durante esse período da sua existência, juntando-se a revistas como 'Os Meus Heróis Favoritos', 'Arquivos Secretos do Detective Mickey' ou a edição tematizada em torno do filme 'Titanic', todas lançadas num espaço de dois anos entre 1996 e 1998. Ao contrário destas, no entanto, o propósito desta edição é bem claro, pretendendo a mesma preencher a 'vaga' de 'revista Disney de Natal' daquele ano. Para esse efeito, 'Disney Natal Especial' apresenta onze histórias (mais uma tirinha de página única) espalhadas ao longo das suas cem páginas, fazendo por justificar o preço de 310$00, à época alinhado com o de outras edições 'grossas', como o 'Disney Especial'.

Previsivelmente, todas e cada uma das BD's incluídas no volume tem um tema em comum – no caso, a quadra natalícia, e todas as celebrações em torno da mesma. Esta é, no entanto, mesmo a única linha condutora entre as histórias da revista, já que, apesar de a maioria das mesmas ter sido produzida poucos anos antes do lançamento do título, chega a haver em 'Disney Natal Especial' histórias de finais dos anos 70 e inícios da década seguinte, cujo estilo e atmosfera são marcadamente diferentes dos das mais 'actuais' produções italianas. De igual modo, outro aspecto que poderia ter ajudado a unificar a selecção, mas que acaba por não ser 'levado a termo' é o foco no núcleo dos patos, que monopoliza oito das doze histórias incluídas, sendo as restantes três protagonizadas por Mickey e Pateta (em dois casos) e pelo elenco da série animada 'TaleSpin' (ou 'Aventuras do Balu'), que tinha, à época, título próprio, mas que não viria a passar em Portugal ainda durante alguns anos, sendo os seus personagens conhecidos das crianças portuguesas apenas através da inclusão de algumas das suas aventuras em títulos deste tipo.

Ainda assim, e apesar destas idiossincrasias, 'Disney Natal Especial' terá acabado por cumprir a sua função de 'dar que ler' aos fãs de quadradinhos Disney na quadra natalícia de 1997. E por não termos tido conhecimento da sua existência aquando do seu vigésimo-quinto aniversário – altura em que lhe teríamos dedicado um 'post' celebratório dessa efeméride – procuramos agora, um ano depois, corrigir esse deslize, e falar daquela que viria a dar o mote para muitas mais edições 'isoladas' de Natal no século e Milénio seguintes, mas que à época de publicação se afirmava, passe a expressão, como artigo único no panorama da BD Disney em Portugal.

22.11.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das primeiras Sessões de Sexta do nosso blog teve como tema 'Parque Jurássico', a mega-produção de Steven Spielberg que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos, icónicos e memoráveis filmes dos anos 90, e a gerar um sem-número de items de 'merchandising' com o seu logotipo, dos habituais videojogos, peças de roupa e réplicas em borracha dos dinossauros do filme a porta-chaves, bolsinhas para documentos, e até uma adaptação oficial em banda desenhada. Logicamente, é sobre esta última, editada em Portugal no mesmo ano em que o filme chegava aos cinemas - 1993 - que nos debruçaremos neste post.

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Capas de três dos quatro volumes da mini-série. (Crédito da foto: Trade Stories)

Tendo em conta o considerável sucesso e legado do filme em que se baseia, é nada menos do que surpreendente constatar que a BD de 'Parque Jurássico' está praticamente Esquecido Pela Net. De facto, àparte a listagem oficial no site Bazar0 e um único anúncio de edições para venda (de onde retirámos as imagens para este post) é praticamente nula a informação relativa à edição portuguesa desta mini-série, lançada no nosso País em quatro volumes pela inexpressiva Alfama Editores.

Talvez resida, precisamente, aí a razão do 'falhanço' desta BD – a falta de uma infra-estrutura ao nível de uma Abril/Controljornal (já para não falar nas editoras de BD franco-belga ou álbuns de tirinhas norte-americanas) terá impedido a referida publicação de ser 'escarrapachada debaixo do nariz' do público-alvo, que – ao contrário do que acontecia com as revistas da Disney, Marvel, DC ou mesmo da Turma da Mônica – dificilmente terá sabido da sua existência. O autor deste blog, por exemplo, enquanto fã do filme, não teria decerto perdido a oportunidade de adquirir os quatro volumes, caso tivesse tido sequer ideia da existência dos mesmos, o que nunca chegou a acontecer.

Assim, trinta anos após a sua edição original, tudo o que resta da edição portuguesa de 'Parque Jurássico' em BD são as quatro capas, uma única página, e a contracapa, que anunciava o jogo do filme para SEGA Mega Drive (e se 'esquecia' de retirar do mesmo a pontuação espanhola). É, pois, necessária uma pesquisa pela edição original norte-americana, lançada pela Topps, para ter ideia de quem escreveu e desenhou os volumes, que contaram com a participação de nomes sonantes da BD norte-americana da época, como os desenhistas Gil Kane, George Perez e Art Adams ou os argumentistas Walter Simonson (marido de Louise, que escrevia, na mesma época, para o 'Super-Homem') ou David Koepp.

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Exemplos da arte dos volumes e do anúncio da contracapa, alusivo ao jogo para Mega Drive. (Crédito das fotos: Trade Stories)

Em suma, um lançamento, à época, extremamente relevante, 'fadado' ao sucesso e que teria, sem dúvida, agradado à 'legião' de fãs do filme, não fossem os problemas de divulgação e distribuição que, presumivelmente, o terão mantido restrita a um número muito reduzido de quiosques, tabacarias e papelarias, e impedido que se tornasse o 'marco' da BD portuguesa noventista que poderia ter sido, dado o sucesso do material de base. Em vez disso, a adaptação 'aos quadradinhos' de 'Parque Jurássico' perfila-se, hoje, sobretudo como prova cabal da importância e influência qde boa infra-estrutura editorial no 'destino' de qualquer publicação, sobretudo naqueles anos pré-Internet, em que a tiragem era 'rainha', e em que uma oportunidade aparentemente imperdível podia claudicar apenas e só por falta de divulgação, como parece ter sido o caso com esta mini-série.

08.11.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em 'posts' passados deste nosso blog, falámos já de adaptações em BD de filmes ou séries animadas, da revista TV Guia, e da colecção Tele BD, que se dedicava às primeiras e era editada pela segunda; ainda mais recentemente, falámos da série 'Capitão Planeta', parte indelével da cultura popular da geração 'millennial', em Portugal e não só. Agora, chega a hora de corrigir uma desatenção de há duas semanas, e dedicar algumas linhas a uma publicação que consegue a 'proeza' de reunir os três elementos supramencionados num só álbum de seis histórias. Falamos da adaptação em BD das aventuras do super-herói ecologista, editada algures há trinta anos pela TV Guia Editora como parte da série Tele BD, até então mais conhecida por publicar as BDs das Tartarugas Ninja, e que, ao contrário das mesmas, se encontra hoje algo Esquecida Pela Net.

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De facto, este é daqueles álbuns sobre os quais se encontra pouquíssima informação, e muita dela contraditória ou incompleta; a própria data de edição é incerta, e os artistas responsáveis pelas histórias contidas no volume são completamente diferentes segundo a fonte que se consulte – presume-se que por cada uma das seis ter equipas criativas diferentes. Os nomes que se conhecem, graças a listagens diversas do volume através da Web, são perfeitamente desconhecidos: uma fonte fala nuns tais de Barry Dutter e Jim Salicrup, enquanto outra menciona Pat Broderick e José Delbo, todos (presumivelmente) artistas 'a soldo' cuja ética e orgulho não estavam, ainda, acima da criação deste tipo de material puramente comercial e sem grande margem criativa.

Isto porque, previsivelmente, as histórias deste volume pouco diferem das aventuras televisivas do Capitão e da sua equipa de ajudantes adolescentes, os Planetários, destinando-se o mesmo, puramente, a servir como complemento ao produto principal, e a tentar extrair mais uns 'cobres' de uma franquia que os próprios criadores sabiam ter um tempo de vida limitado; nesse aspecto, 'Capitão Planeta e os Planetários' (o livro) cumpre bem a sua missão, mostrando, inclusivamente, algum cuidado nos traços, que fazem lembrar as produções da DC Comics da altura.

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Exemplo da arte do volume (Fonte: Tradestories.pt)

No seu âmago, no entanto, este é um livro sem qualquer hipótese (ou intenção) de perdurar no famosamente curto espectro de atenção do seu público-alvo, o que pode explicar a razão pela qual se encontra, hoje, maioritariamente reduzido a uma capa em bases de dados de BD, ao invés de ser lembrado como outras grandes produções da época; quando até mesmo um fanático de 'quadradinhos' (e, enquanto espectador do programa, parte da demografia-alvo) como o autor deste blog nunca ouviu falar do livro em causa, está tudo dito sobre o seu impacto cultural na juventude portuguesa da época... Ainda assim, vale recordar mais esta 'pérola' da BD comercial, que só poderia mesmo ter saído durante a década de 90, no auge da era de ouro dos desenhos animados e da sensibilização para a ecologia, e antes de a Devir ter 'habituado mal' os jovens portugueses no tocante a banda desenhada de qualidade...

25.10.23

NOTA: Este post foi sugerido pelo leitor Pedro Serra, a quem também devemos as fotos que acompanham o texto. Obrigado, Pedro!

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já é situação recorrente nesta rubrica falar da hegemonia que a Abril Jovem (mais tarde Abril/Controljornal) detinha sobre o mercado de 'livros aos quadradinhos' nacional, e a oportunidade que essa posição lhe oferecia para levar a cabo 'experiências' sem grandes consequências em caso de 'falhanço', já que até as piores de entre as suas revistas da Disney, DC e Marvel tinham volume de vendas garantido. Ainda assim, e apesar dessa total falta de necessidade de apostar em estratégias de 'marketing' e publicidade, a editora não se mostrava, de todo, aversa a esse tipo de medida, como bem o comprova a série de livros que examinamos nesta Quarta aos Quadradinhos.

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Três dos quatro livros da colecção, parte do acervo pessoal do Pedro Serra.

Lançada algures durante o ano de 1992, esta série de quatro edições especiais da colecção 'As Melhores Histórias Disney' trazia como principal diferencial o facto de as referidas melhores histórias serem (alegadamente) escolhidas a dedo por celebridades de 'primeira linha' na vivência infanto-juvenil da altura, com José Jorge Duarte (por essa altura já no auge da sua fase como apresentador de concursos infantis, mas ainda apresentado sob o nome da personagem com a qual se celebrizara, 'Lecas') à cabeça. Além do 'ídolo' infantil, marcavam presença nas capas destes livros Herman José e Maria Vieira (também em alta após o sucesso de 'Hermanias', no fim-de-ano anterior, além da sempre popular 'Roda da Sorte') e ainda Marco Paulo, que muitas crianças conheciam (e ouviam) por intermédio dos pais. Cada livro vinha, mesmo, acompanhado de um frontispício supostamente escrito (e definitivamente assinado) pela própria personalidade, e que exaltava o contributo da mesma para o seu conteúdo – o qual, de outra forma, pouco se distinguia de um número perfeitamente 'normal' da colecção.

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O frontispício de uma das edições.

E a verdade é que, apesar de, aos olhos dos adultos que entretanto nos tornámos, esta jogada de 'marketing' ser transparente ao ponto de parecer um pouco desesperada, a mesma resultou em cheio junto das crianças que então éramos – lá por casa, por exemplo, existia com cem por cento de certeza o número do 'Lecas' – rendendo à Abril ainda mais um triunfo a juntar à sua já invejável lista naqueles inícios da década de 90. Prova de que, mesmo não sendo necessária, uma boa estratégia de 'marketing' e publicidade nunca cai mal, e rende sempre pelo menos alguns dividendos; aliás, se a mesma estratégia fosse repetida, hoje em dia, com Cristiano Ronaldo ou algum influenciador do Instagram no lugar das celebridades noventistas, talvez se verificasse um renascer (ainda que temporário) do interesse dos jovens por este tipo de banda desenhada...

17.08.23

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 16 de Agosto de 2023.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os meses de Julho e Agosto continuam, ainda hoje, a marcar o período em que muitas crianças e jovens portugueses vão de férias, e em que outros tantos voltam das mesmas - processo esse que envolve, invariavelmente, longas e aborrecidas viagens de carro ou de transportes públicos até ao destino escolhido. E se, hoje em dia, é relativamente simples mitigar o aborrecimento dos mais novos durante essas deslocações, por intermédio de iPads ou consolas portáteis, nos anos 90, a história era algo diferente - e, apesar da existência dos Game Boy, Game Gear e jogos LCD, os livros e revistas de banda desenhada continuavam a ter um papel preponderante no entretenimento da demografia em causa, nomeadamente através de publicações como o Disney Gigante e o Almanacão de Férias da Turma da Mônica, dois óptimos 'companheiros' para as crianças lusas que partiam em viagem no Verão de 1991.

Quem tinha a sorte de se deslocar ao estrangeiro (ou, pelo menos, de andar de avião) nesse mesmo período, no entanto, dispunha ainda de um terceiro companheiro de viagem, disponibilizado pela companhia aérea nacional TAP. Tratava-se da chamada 'Tap Júnior', uma revista de bordo especificamente dirigida aos mais novos e que contava, entre outros atractivos, com a sempre popular banda desenhada da Disney, então força dominadora nos quiosques de Norte a Sul do País.

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Capa do número 2, única disponível na Web.

Foram pelo menos quatro os números desta revista (ou suplemento) publicados a partir de Julho de 1991, todos com trinta e seis páginas, e cada um com um sortido de histórias (curtas ou mais compridas) do extenso acervo da Abril, algumas das quais chegariam mesmo a sair em outras publicações 'oficiais' da editora. Infelizmente, mais informações são impossíveis de conseguir, já que a revista foi totalmente Esquecida Pela Net, sendo o único registo a sua entrada na 'Bíblia' da Disney, o site I.N.D.U.C.K.S - de onde foi tirada a capa que ilustra esta publicação, único registo desta publicação de que poucos se lembrarão, mas que constituiu uma iniciativa louvável por parte da TAP para distrair os seus passageiros mais novos naquele início dos anos 90.

12.07.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Uma das muitas tradições, entretanto perdidas, dos tempos áureos dos 'livros aos quadradinhos' eram os super-almanaques de Verão – edições especiais, normalmente em formato A4, com mais páginas do que as vulgares revistas quinzenais ou mensais (e mais conteúdo que os almanaques e edições 'grossas' normais, visto o formato ser maior) e, muitas vezes, complementados com várias páginas de passatempos, sendo a ideia permitir aos jovens leitores terem não só o que ler, mas também com que entreter o cérebro durante as férias na praia ou no estrangeiro. E se o mais famoso exemplo deste tipo de formato foi o 'Almanacão de Férias' da Turma da Mônica de Mauricio de Sousa, não deixaram de haver, ao longo dos anos, outras tentativas, nomeadamente por parte da Editora Abril, embora nunca com o mesmo sucesso.

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Uma dessas tentativas, lançada há exactos trinta e dois anos (em Julho de 1991) foi o 'Disney Gigante', uma publicação que – à excepção da ausência de passatempos – segue à risca a fórmula para um almanaque deste tipo, apresentando onze histórias e cerca de cento e trinta páginas em formato A4, como forma de justificar o ainda hoje exorbitante preço de 600 escudos (mais tarde 750-800). E a verdade é que, ao contrário de algumas das outras edições da Abril do mesmo período, estes títulos esforçam-se por apresentar aventuras transversais a todo o elenco de personagens habituais nos 'quadradinhos' Disney da altura, extravasando os habituais e inevitáveis núcleos de Mickey e Pato Donald; na primeira edição, por exemplo, couberam histórias de Tico e Teco, Havita, Quincas, Banzé, a dupla de bruxas Maga Patalójika e Madame Min (coadjuvantes frequentes na banda desenhada, embora nem tanto no cânone cinematográfico ou televisivo), e até dos Três Porquinhos e de Dumbo, que contracena com os sobrinhos de Donald (!) em 'Viagem ao Espaço', um daqueles 'crossovers' aleatório e sem grandes alardes frequentes nas revistas Disney da época. Só faltaram mesmo Urtigão e Zé Carioca, o que até acaba por ser positivo, dado poupar os jovens leitores às horríveis versões 'saloia' e 'brazuquesa' dos personagens.

Reside, aliás, precisamente na selecção de histórias o principal ponto de interesse de 'Disney Gigante'; isto porque, além das habituais produções nórdicas, holandesas ou latinas, estes livros incluem, também, pelo menos uma produção do período clássico dos Estúdios Disney, originalmente publicada em 1936 (!!) e criada por dois nomes sonantes da BD Disney da época, o argumentista Ted Osborne e o desenhista Al Taliaferro. No caso, trata-se de uma história com Lobão e os Três Porquinhos que, apesar de destoar notoriamente do estilo gráfico das restantes, acaba por valer o investimento para quem tenha curiosidade em ler produções daquele período (a esses, recomenda-se também a compra do 'Álbum Disney' de Mickey, editado pela Verbo no ano anterior a este 'Disney Gigante', em que todas as histórias incluídas são do período clássico.)

Apesar dos pontos de interesse acima salientados, no entanto, foi curto o tempo de vida de 'Disney Gigante' - o que não deixa de ser surpreendente, dada a margem de manobra da hegemónica Abril à época, que lhe permitia fazer todo o tipo de experiências, muitas delas bem menos válidas do que este almanaque. Ainda assim, para aquilo que foi, 'Disney Gigante' teve o mérito de, pelo menos, se colocar no percentil mais alto da escala de qualidade da Abril, fazendo com que ainda valha a pena adicionar estes volumes à colecção, mesmo três décadas após o seu lançamento – algo de que muito poucos 'livros aos quadradinhos' publicados pela Abril à época (sejam da Disney ou da Marvel e DC) se podem hoje gabar.

17.05.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Em edições anteriores desta rubrica, falámos tanto da colecção 'Álbuns Disney', que publicava histórias originais protagonizadas por heróis menos óbvios ou conhecidos do elenco Disney, como dos álbuns bilingues que ofereciam versões em banda desenhada dos principais filmes da companhia, em Português e Inglês. A colecção de que falamos esta semana, editada em 1996 e que contou com apenas quatro números, representa um ponto intermédio entre as duas, ainda que seja bastante menos lembrada (e tenha bastante menos presença digital) do que qualquer uma delas.

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Exemplar da série brasileira, que inspirou a portuguesa.

Trata-se de 'Novos Clássicos Disney', a versão portuguesa de um formato originalmente idealizado e publicado no Brasil (onde mais?) mas que usava como fonte a revista 'Disney Adventures', icónica publicação norte-americana que marcou a infância e juventude da geração noventista do outro lado do Atlântico. Foi, efectivamente, das selecções de banda desenhada inseridas nas páginas do referido periódico que foram retiradas as histórias que perfazem os quatro números da série; e, tendo em conta que a maior parte do referido material dizia respeito aos heróis das séries animadas então exibidas no Disney Channel – e que, na sua esmagadora maioria, eram baseadas nos filmes da companhia – não é de estranhar que os volumes desta série tenham como foco os núcleos de personagens de Aladino (que protagoniza metade dos números da série), A Bela e o Monstro e A Pequena Sereia.

Está aí, aliás, o principal e único atractivo da série – oferecer aos leitores assíduos das revistas Disney histórias com clima e temáticas diferentes das habituais aventuras de Mickey e Pateta ou Donald e Patinhas, ou das histórias curtas e algo básicas protagonizadas por Quincas, Tico e Teco ou Havita. De resto, estes quatro volumes não passam de revistas Disney como qualquer outras (embora editadas no formato maior, típico das BD's norte-americanas), ficando a dúvida quanto ao facto de não terem sido incorporados a qualquer das duas séries de 'Álbuns Disney´, onde nada destoariam ao lado de heróis como Mulan, Puff ou Pato da Capa Preta, e onde talvez pudessem ter gozado de maior visibilidade. Tal e como existiu, no entanto, esta mini-série é (foi) mais uma que, apesar de ter presumivelmente deleitado os leitores da época, estava fadada a perder-se no oceano de publicações da Abril/Controljornal de finais do século XX, muitas das quais bem mais nostálgicas do que ela...

03.05.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O ensino das línguas era, nos anos 90, um dos grandes objectivos não só dos pedagogos e educadores como também, aparentemente, de alguns sectores ligados à imprensa e edição de periódicos. Senão, veja-se: não só foi esta a motivação por detrás de pelo menos duas séries em fascículos durante este período, como também do lançamento de nada menos do que três revistas Disney, todas publicadas nos primeiros anos da nova década.

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Os três volumes da série, lançados entre 1990 e 1992.

Sem qualquer relação entre si além do conceito e do foco no núcleo do Pato Donald e Tio Patinhas (único a marcar presença em qualquer dos livros em causa), estes três volumes de capa dura e apresentação luxuosa - publicados entre 1990 e 1992 e genericamente agrupados sob a designação 'Disney em Inglês' – tinham como proposta, precisamente, o que o título informal da colecção dava a entender, isto é, a reprodução de histórias dos principais estúdios Disney na sua versão original para o mercado internacional, sem a habitual tradução e localização para Português; no caso do terceiro e último volume, 'Walt Disney's Comics and Games', o conceito era, ainda, alargado a alguns passatempos, que proporcionavam ao leitor uma oportunidade ainda mais prática de treinar o seu Inglês.

De realçar que, apesar de a própria Walt Disney ser originária dos Estados Unidos da América, e de haver toda uma panóplia de histórias originalmente concebidas nesse idioma, nem todas as BD's contidas nestes três volumes foram criadas na América do Norte; existem, sim, histórias de Carl Barks e outros lendários criadores dos estúdios originais espalhadas ao longo dos três livros, mas as mesmas coabitam pacificamente com enredos criados nas filiais holandesa e dinamarquesa da companhia (embora, felizmente, o horrendo material italiano fique, desta feita, de fora). Nada que prejudique ou desvirtue o fito da colecção, já que mesmo essas histórias são lançadas internacionalmente em Inglês, mas ainda assim um pormenor curioso e digno de destaque.

Infelizmente, e apesar da publicidade de que gozou nas contra-capas dos títulos da Abril da altura, a colecção 'Disney em Inglês' não teve continuidade para lá de 1992 – presumivelmente, por muitos dos leitores das habituais revistas quinzenais ou mensais não terem aderido ao conceito de ter de 'aprender' ou puxar pela cabeça enquanto tentavam descontrair com uma BD; mais curioso foi, talvez, o facto de os professores do Ensino Básico não terem visto nestes livros um auxiliar didáctico para as aulas de Inglês, contexto em que, certamente, os mesmos teriam sido bastante mais bem recebidos, ajudando a que, trinta anos depois, se afirmassem como mais do que meras curiosidades da fase hegemónica da Abril nas bancas portuguesas...

19.04.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Nas mais recentes edições desta rubrica, temos vindo a falar de como a hegemonia da Abril-Controlojornal sobre o mercado português de banda desenhada 'de quiosque' conferia à editora uma considerável margem de manobra no tocante a títulos e lançamentos mais 'experimentais', de que a mesma usufruía em pleno. De títulos temáticos a outros sem aparente razão de ser, foram muitas as revistas no chamado formato 'one-shot' lançadas pela Abril durante este período; e, de entre essas, existe uma que se destaca particularmente, não só pelo arrojo como pelo risco em que a editora incorreu ao publicá-la.

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Isto porque o único número de 'Hiper Disney Apresenta' alguma vez concebido, publicado no fim do primeiro ano da década de 90, contém, pasme-se, apenas UMA história, explanada ao longo de inacreditáveis trezentas e cinquenta (!) páginas, as mesmas da edição em si. Trata-se de 'A Pedra Zodiacal', um daqueles épicos que a Disney italiana tanto gostava de produzir durante este período, e que vê os inevitáveis Mickey e Pateta aliar-se ao núcleo dos Patos na busca pelo objecto homónimo, o qual. Naturalmente, é também cobiçado pelos principais antagonistas de ambos os núcleos – o que significa que, numa única banda desenhada, vemos os heróis antropomórficos degladiar-se com nada mais nada menos do que QUATRO vilões: João Bafo-de-Onça, Mancha Negra, Maga Patalójika e o menos conhecido Spectrus! Uma receita que assegurava diversão garantida aos fãs deste núcleo de personagens, e que ajudava a justificar minimamente o considerável investimento necessário à aquisição da revista, que era de formato 'grosso', semelhante ao do 'Hiper Disney'.

Talvez esse mesmo obstáculo se tenha mostrado insuperável, ou talvez o formato de história única (e MUITO longa) se tenha afigurado aborrecido para o público-alvo, habituado a uma maior selecção e variedade de histórias, formatos e personagens; seja qual for o motivo, a verdade é que 'Hiper Disney Apresenta: Em Busca da Pedra Zodiacal' entrou na História das publicações Disney portuguesas como mais uma anomalia, talvez não tão descabida como 'Os Meus Heróis Favoritos' (e certamente mais cuidada e ambiciosa) mas suficientemente 'estranha' para não agradar aos leitores habituais das revistas da Abril. Prova disso é que os restantes capítulos da série 'Máquina do Tempo', que viam Mickey e Pateta embrenhar-se em toda a espécie de aventuras através dos tempos, ainda hoje não tiveram edição em Portugal, embora uma delas ('O Mistério de Napoleão') tenha, aparentemente, sido editada no Brasil. Por terras lusas, no entanto, este volume continua a ser mais um dos muitos exemplos de revistas e histórias que viram a luz do dia pura e simplesmente por a Abril nada ter a perder com a sua edição, e que provam os riscos a que uma empresa se pode dar ao luxo de se sujeitar quando é monopolista do seu sector.

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