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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

18.01.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

No início da década de 90, o termo 'televisão' em Portugal designava, quase exclusivamente, os dois canais estatais, as RTP 1 e 2, que se veriam acrescidos, alguns anos mais tarde, dos dois canais privados, a SIC (surgida em 1992) e a TVI (que aparecia no ano seguinte); quem quisesse ter mais canais, poderia recorrer à futurística tecnologia da TV por satélite, que permitia captar emissões tão excitantes como as da RTP Madeira, TVE, e – com sorte – um Eurosport desta vida, provavelmente com imagem tremida (ou com a famosa 'areia') e som a condizer. Pouca gente imaginava que o conceito de 'TV por cabo' pudesse, no contexto português, alguma vez vir a ser mais do que uma daquelas coisas que aparecem nos filmes e séries norte-americanos, e que estão tão longe da realidade lusitana que se tornam de difícil compreensão.

A verdade, no entanto, é que esta tecnologia estava mais próxima do que se pensava – no cômputo geral, não se passaria mais do que meia década até a TV Cabo se encontrar implementada em Portugal, com várias operadoras a oferecer serviços de fibra óptica de Norte a Sul do País. Corria ainda o ano de 1994 quando a Portugal Telecom, através da subdivisão PT Multimédia, introduzia o serviço em Portugal Continental, mudando para sempre as vidas de milhões de cidadãos, entre eles muitas crianças e jovens.

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Logotipo original do serviço

Curiosamente, no entanto, a TV Cabo perfila-se como um exemplo de uma tecnologia que não entrou em Portugal por via da capital, ou mesmo da outra grande cidade, o Porto; numa inversão do habitual fluxo dos acontecimentos, o primeiro território a adoptar os novos cabos de fibra óptica seria a Região Autónoma da Madeira, que iniciaria a transmissão de programas por cabo ainda em 1993, largos meses antes de esta inovação chegar ao espaço continental, em Maio de 1994, já acompanhada de uma mascote, a toupeira Fibras.

Uma vez apresentado ao grande público, no entanto, este serviço gozou de uma adesão sempre crescente, muito graças ao número perfeitamente alucinante de canais que oferecia. Espectadores habituados a quatro canais, com – quanto muito – mais um punhado obtido via satélite, tinham agora a oportunidade de escolher de entre uma variedade de canais generalistas e especializados, tanto nacionais como estrangeiros – ainda que, no caso da maioria destes últimos, sem recurso a legendas. Para as crianças e jovens, em particular – habituados a que a proposta para a sua faixa etária se resumisse a blocos específicos – a ideia de ter não um, mas DOIS canais totalmente dedicados à programação infantil (um dos quais, o Canal Panda, com conteúdos dobrados e legendados em português) era nada menos do que entusiasmante, sendo que o acesso a esses canais viria a moldar as memórias televisivas de infância de toda uma geração – basta referir que, sem a existência do Canal Panda e do Cartoon Network, nunca teríamos podido ver as icónicas dobragens espanholas de Doraemon e Captain Tsubasa, nem tão-pouco criações originais do canal norte-americano, como Johnny Bravo, Dexter's Laboratory, Cow and Chicken ou as Powerpuff Girls.

Mais – desses inícios já de si auspiciosos, a TV Cabo apenas viria a consolidar o seu crescimento, aumentando e ampliando cada vez mais a sua oferta, e adicionando canais 'premium' apenas acessíveis mediante subscrição, como era o caso da Sport TV ou dos famosos 'Telecines', que ofereciam ainda mais opções e escolha a quem estivesse disposto a pagar por eles; e mesmo quem não queria incorrer em custos extra continuava a ter muito que ver, sendo que o serviço oferecido pela TV Cabo nesses primeiros anos não só justificava o preço mensal de adesão ao serviço como contribuía para o volume crescente fidelização entre os clientes, que, ao longo dos anos, foram abandonando progressivamente a TV por satélite para se mudarem de 'armas e bagagens' para o novo serviço.

O resto da história é por demais conhecido: a longo prazo, a TV por cabo tornar-se-ia o 'standard' dos lares portugueses, sendo cada vez mais raros aqueles que continuavam apenas com os 'velhos' quatro canais – uma situação que se exacerbou já no final da década, quando os pacotes de Cabo passaram, também, a incluir Internet sem fios. Estava eliminada a última desculpa para não ter o serviço, e quebrada a resistência da maioria dos portugueses, permitindo à PT (hoje NOS) assumir a hegemonia de mercado e implementar nos lares portugueses aquilo com que, menos de dez anos antes, a maioria deles apenas sonhava: a televisão por cabo, tal como esta era entendida em países como os Estados Unidos. Lá diz o velho ditado, 'mais vale tarde do que nunca'.

27.10.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Em plena segunda década do século XXI, numa altura em que é possível ver filmes, comunicar por vídeo, fazer compras, reservar viagens e até actualizar documentos a partir de uma só peça de equipamento, pode tornar-se difícil de acreditar que, há escassas duas décadas e meia, quem quisesse comunicar com família, amigos ou colegas de trabalho a partir de um espaço público tinha de apostar numa combinação de sorte e preparação; sorte, porque os únicos sítios que permitiam levar a cabo tal objectivo (as cabines telefónicas) apenas eram encontradas em localizações estratégicas, quase todas elas de cariz urbanizado, e preparação, porque mesmo que se conseguisse encontrar uma cabine, ou convencer o dono de um qualquer café a ceder temporariamente o seu telefone, era preciso ter no bolso dinheiro suficiente para assegurar que o referido telefone conseguia não só ser activado, mas conectar a chamada durante o tempo necessário.

E no entanto, era precisamente isto que se passava, ainda, em finais dos anos 90, um pouco por todo o país; mesmo depois de os telemóveis serem já um acessório conhecido e em fase de rápido crescimento e globalização, grande parte das chamadas feitas do exterior ainda eram efectuadas das velhinhas cabines, com recurso às boas e velhas moedas de 10, 20, 50 ou 100 escudos.

Terá, pois, sido para pôr cobro – ou, pelo menos, facilitar – a situação dos viajantes frequentes desta era das telecomunicações nacionais que a Portugal Telecom (então ainda conhecida como Telecom Portugal) terá introduzido, na década de 90, o conceito do Credifone, uma espécie de 'cartão de crédito' para chamadas telefònicas públicas, cujo modo de funcionamento antecipava já aquilo que viriam a ser os cartões pré-pagos das redes móveis, cerca de uma década depois.

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O modelo inicial de Credifone

O modo de utilização dos Credifones era, por demais, simples; tratavam-se de cartões pré-carregados com um determinado número de impulsos, adquiríveis em qualquer tabacaria ou estabelecimento semelhante, e que podiam ser utilizados em qualquer cabine compatível, isto é, equipada com a ranhura para inserção do referido cartão, de aspecto muito semelhante à de uma caixa Multibanco. Uma vez inserido, cada cartão permitia utilizar livremente o número correspondente de impulsos, findos os quais a chamada era desconectada. Um método bem mais simples do que a anterior busca frenética por 'trocos' para continuar a chamada e que, como tal, rapidamente contou com considerável adesão por parte da população portuguesa.

No entanto, uma das mais interessantes particularidades do Credifone prende-se com o facto de, para um determinado sector da referida população, o seu interesse ir muito além da conveniência no momento de efectuar chamadas em cabines públicas; de facto, para muitas crianças e jovens daqueles anos 90, os cartões telefónicos da PT tornaram-se, antes, objectos de coleccionismo, religiosamente reunidos (depois de vazios, claro) e guardados nas proverbiais caixas ou capinhas, com o intuito de serem, mais tarde, revisitados ou mostrados aos amigos; cada nova edição especial deste tipo de cartões – ou cada espécime diferenciado encontrado numa qualquer cabine por esse país fora – se tornava, portanto, motivo de regozijo para estes mini-coleccionadores, pela oportunidade que apresentava de aumentar, expandir e embelezar as suas colecções. Não é, pois, de estranhar que a maioria das memórias da 'nossa' geração relativamente a estes cartões tenha mais a ver com o coleccionismo do que propriamente com o uso...

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Uma das muito cobiçadas edições especiais, que faziam as delícias dos coleccionadores quando encontradas abandonadas numa qualquer cabine...

Qualquer que tenha sido o seu impacto na vida de cada um, no entanto, é inegável que os Credifones marcaram época, afirmando-se como uma solução inovadora para um problema existente – e que, por isso mesmo, encontrou facilmente o seu nicho de mercado – e, ao mesmo tempo, uma pioneira daquilo que viriam a ser as tecnologias da comunicação nos dez a quinze anos seguintes. E embora, hoje em dia, as cabines telefónicas já sejam quase unicamente uma relíquia do passado (pelo menos em Portugal) continua, ainda, a haver no nosso país uma enorme simpatia por aquele cartãozinho que, em inícios da década de 90, veio revolucionar a forma de comunicar em espaços públicos na era pré-telemóveis...

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