Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

12.01.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

A veia competitiva é uma das características integrantes de qualquer ser vivo. Todos queremos sair vencedores de alguma coisa, nem que seja uma vez; e enquanto a maioria das outras espécies lida com este ímpeto de forma primitiva (através de lutas ou brincadeiras simples), o Homem encontrou as mais diversas formas de lhe dar vazão, dos diferentes tipos de jogos e desportos ao debate intelectual, passando pela que inspira o tema de hoje, e que certamente trará memórias agridoces à maioria das crianças dos anos 90: os concursos e promoções que davam prémios.

Pato Donald - PT0246 - 1990 013NesquikGrandeConcur

(Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Todos nos lembramos deles – ou antes, das suas publicidades, que prometiam mil e um prémios mirabolantes simplesmente por responder a uma questão, ou inventar uma frase. Demasiado bom para ser verdade? Talvez, a menos que se fosse o 'sortudo' que ganhava a bicicleta, a prancha de 'surf', o computador ou a consola - os equivalentes infanto-juvenis ao carro, apartamento, férias exóticas e electrodomésticos dos concursos para adultos.

Claro que, para sequer almejar a entrar na 'corrida' por qualquer destes prémios, era normalmente necessário gastar muito, muito dinheiro – embora nem sempre de forma semelhante. Nos concursos mais 'simpáticos' e legítimos (normalmente patrocinados por uma qualquer marca ou produto) o investimento surgia da necessidade de juntar pontos, ou as famosas 'provas de compra', as quais só podiam ser obtidas comprando os produtos da marca em causa (e normalmente, o número de pontos ou provas de compra necessário obrigava a consumos repetidos).

Já as companhias mais falhas de escrúpulos associavam os seus concursos a números de valor acrescentado, os quais, nove vezes em cada dez, se encontravam impedidos – e se, por algum milagre, se conseguisse conexão, ainda era preciso ouvir uma explicação das regras e condições lida M U I T O L E N T A M E N T E, por forma a 'chupar' o máximo de dinheiro possível da conta telefónica de quem participava... Escusado será dizer que, em ambos os casos, as hipóteses de ganhar eram extremamente remotas – o que,no entanto, não impedia as crianças da época de tentar a sua sorte...porque era mesmo disso que dependia, da sorte.

hqdefault.jpg

Exemplo de uma das famosas linhas de valor acrescentado (Crédito da imagem: Nostalgia Lusa)

Quem quisesse hipóteses melhor delineadas e uma deliberação mais legítima podia sempre recorrer àquele tipo de concursos – normalmente veiculados por uma publicação ou programa de televisão – que envolviam, não apenas sorte, mas também engenho, nomeadamente para a produção de um desenho ou texto, que era depois avaliado por comparação com os seus pares para decidir o vencedor; aqui, pelo menos, eram os melhores que ganhavam (ou aqueles que o júri julgava serem os melhores, o que, claro dava sempre margem para discordar) e não apenas os mais sortudos ou com mais dinheiro para gastar.

Pato Donald - PT0263 - 1991 52CobiDanoneJogosOlimp

Exemplo de um concurso baseado no talento, veiculado pela Danone durante as Olimpíadas de 1992 (Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Fossem quais fossem os moldes, no entanto, os concursos e promoções que envolviam prémios são parte integrante da vivência da geração que nasceu e cresceu entre os anos 70 e 2000. E embora hoje em dia este tipo de iniciativa continue a ter lugar, a mesma tende a desenrolar-se, invariavelmente, nas redes sociais, mediante um clique num ícone num ecrã, ou o preenchimento de um formulário 'online', o que lhe retira um pouco daquela mística inerente ao envio de uma carta para a Panrico ou Longa Vida, ou de pegar no velho telefone fixo, marcar um daqueles números começados por 506 ou 0670 para tentar ganhar uma Mega Drive, e esperar que os pais não se importassem...

15.07.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E porque em edições passadas desta rubrica já recordamos colecções de cromos promocionais associadas a produtos alimentares (como a das Tartarugas Ninja, veiculada pela Panrico) chegou hoje a vez de falar da série ‘Viaja Com os Looney Tunes’, oferecida em 1992 pela Longa Vida, em conjunção com os seus produtos lácteos, nomeadamente os seus iogurtes de aromas.

download.jpg

Os 25 cromos que constituíam a colecção

Uma das mais perenes propriedades intelectuais da História (como fica bem provado pela estreia, esta semana, da segunda parte de Space Jam, exactos vinte e cinco anos após o primeiro filme e quase cinquenta (!) após a produção do último ‘cartoon’ da era clássica de Bugs Bunny e companhia) os Looney Tunes são daqueles produtos com os quais nunca se pode errar muito – qualquer que seja a época da História em que estejamos, produtos baseados em torno dos mais famosos personagens da Warner Bros irão, inevitavelmente, encontrar o seu público. Assim, uma colecção de cromos protagonizada pelos mesmos – numa década em que o coleccionismo, e os cromos em particular, estavam em alta – era uma proposta mais que segura por parte da Longa Vida, o que torna algo surpreendente que esta série de autocolantes não seja, hoje em dia, tão lembrada quanto os ‘Tous’ do Bollycao, por exemplo.

A situação torna-se tanto mais surpreendente quando verificamos que a produtora de lacticínios teve, inclusivamente, a inteligência de associar esta colecção a uma promoção, a qual habilitava os participantes a uma viagem para três pessoas aos estúdios da Warner Bros nos Estados Unidos, em troca de cinco ‘costas’ de cromos da colecção e, claro, dos dados pessoais da criança (quem hoje se preocupa tanto com dar os seus dados pessoais à Amazon ou ao Facebook, certamente não se recorda das regras dos concursos do ‘nosso’ tempo…)

81703675_1490727608_53352047.jpg

As regras do concurso eram reproduzidas nos versos dos cromos da colecção

Mesmo sem este atrativo extra, no entanto, esta série de cromos fazia o suficiente para justificar a tentativa de coleccionar todos os 25 autocolantes que a compunham; os desenhos, que retratavam os personagens em diversas partes do Mundo e eras da História, eram previsivelmente cuidados, e os produtos a que estavam associados, bastante acima da média do seu campo em termos de qualidade. Assim, não deixa de ser surpreendente que o único vestígio desta colecção, hoje em dia, venha de uma página de leilões espanhola (!), da qual, aliás, foram tiradas as imagens que ilustram este post - daí o estado ‘menos que perfeito’ dos itens representados, que parecem ter passado as duas décadas desde a promoção ao sol.

81703675_1490867726_53487583.jpg

Exemplo de embalagem promocional alusiva a esta colecção, representativa do melhor sabor de iogurte de aromas

Mesmo com estas limitações, no entanto, é bem evidente que, no seu tempo (e em bom estado), estes terão sido cromos bastante apetecíveis para o seu público-alvo – o que torna a suscitar a pergunta: porque terão sido tão ‘esquecidos pela Internet’ (e pelas ex-crianças dessa época)? A resposta continuará, por agora, a ser uma incógnita – mas entretanto, e graças aos Anos 90, estes cromos já têm pelo menos uma página de tributo na Internet...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub