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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.06.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O conceito de que as crianças não gostam de aprender, e são especialmente aversas a conteúdos televisivos didácticos, é tão falacioso como comum; de facto, programas como 'Rua Sésamo' ou 'Artur' provam precisamente o contrário – que o truque está em saber COMO fazer chegar a informação às crianças, de uma forma que as mesmas considerem interessante e cativante.

Outro exemplo deste mesmo axioma, e que chegou mesmo a partilhar tempo de antena com a 'Rua Sésamo', foi a trilogia Era Uma Vez... . Criado pelo francês Albert Barillé em finais dos anos 70 e início de 80, e tendo como ponto comum a família de personagens central, este conjunto de três séries co-produzidas por companhias francesas e japonesas ('Era Uma Vez...O Espaço', a segunda peça da trilogia, chegou mesmo a ser considerada uma série de 'anime'!) foi tão bem-sucedida na sua missão de veicular conteúdos educativos que continua, ainda hoje, a ser 'repescada' a espaços, na tentativa de educar toda uma nova geração de crianças e jovens sobre os temas da evolução humana, do corpo humano, e ainda do espaço sideral.

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O grupo central de personagens comum às três séries, aqui em 'Era Uma Vez...O Homem'

A primeiríssima destas transmissões deu-se, no entanto, cerca de uma década após a criação da trilogia, em inícios dos anos 90, quando a RTP2 apresentou as aventuras de Pedrinho, Psi (ou Pierrette) e Mestre, o carismático personagem barbudo que se viria a tornar o elemento mais identificável da série, e uma espécie de 'mascote' da mesma.

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O carismático Mestre, figura central da trilogia

Foi este o grupo de personagens que os jovens espectadores acompanharam através da evolução humana em 'Era Uma Vez...O Homem', do espaço exterior em 'Era Uma Vez...O Espaço' - esta com um maior balanço entre elementos dramáticos e didácticos, por oposição às restantes duas, que eram declaradamente educativas - e, finalmente, do corpo humano em 'Era Uma Vez...A Vida' (que viria mais tarde, aquando da dobragem para português, a ser conhecida, também, como 'Era Uma Vez..O Corpo Humano').

Em comum, além do núcleo central de personagens, as três séries tinham a animação – primitiva, mas bem conseguida – e a escrita de qualidade, capaz de transmitir informações ao público-alvo sem que com isso os conteúdos se tornassem maçudos ou aborrecidos; pelo contrário, grande parte dos membros da geração que cresceu entre finais dos anos 80 e inícios do novo milénio recorda com carinho esta trilogia de programas, que sem nunca se afirmarem como favoritos de ninguém, conseguiam ainda assim encontrar o seu espaço junto das crianças e jovens da época.

O sucesso desta trilogia não viria, aliás, a ficar-se pelas sucessivas transmissões televisivas, sendo que duas das três séries que a compunham (ficaria apenas a faltar 'Era Uma Vez...O Espaço') viriam a ser lançadas pela Planeta deAgostini em formato VHS, com nova dobragem, e acompanhados de livros complementares, naquela que foi uma das raras incursões da editora por formatos diferentes dos habituais fascículos. Do sucesso desta iniciativa, no entanto, falaremos na próxima Quinta-feira, quando formos ao Quiosque completar esta retrospectiva sobre as séries de Claude Barillé; entretanto, aqui ficam os genéricos das três séries, para ajudar a matar saudades...

09.05.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A par de Super Mario, Sonic, o porco-espinho azul da Sega, foi sem dúvida a mascote mais popular dos anos 90 (o terceiro lugar é dividido entre Crash Bandicoot, o marsupial da Sony, e o dragão Spyro); até mesmo depois de ter decrescido de popularidade (e os seus jogos, de qualidade, o supersónico bicharoco continuou a ser um chamariz para a maioria dos 'gamers' um pouco por todo o Mundo, como bem o comprova o sucesso que o seu segundo filme vai actualmente fazendo entre essa mesma demografia.

Dada esta popularidade entre o público-alvo, não é de estranhar que Sonic tenha tido direito a várias adaptações em desenho animado, fenómeno comum a tudo o que fazia sucesso durante as últimas duas décadas do século XX; estranho é, apenas, que só uma dessas séries tenha chegado a Portugal, e que tenha precisamente sido a menos popular e bem conseguida.

Sim, apesar do porco-espinho da Sega ter, no auge da sua popularidade, não uma mas duas séries animadas em seu nome, nenhuma delas chegou alguma vez a ser importada para terras lusas; a primeira (e única) aventura de Sonic nos ecrãs portugueses dar-se-ia numa das suas fases de menor popularidade – imediatamente antes do renascer em 3D com o excelente 'Sonic Adventure' – e através da série que, das três produzidas, menos tem em comum com o universo dos jogos do personagem: 'Sonic Underground', a co-produção franco-americana baseada no personagem produzida em 1999.

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Como dizem os velhos ditados, no entanto, 'a cavalo dado, não se olha o dente', e 'quem não tem cão, caça com gato'; e assim foi – à falta de melhor, as crianças portuguesas abraçaram a série de Sonic que tinham, tendo a mesma conseguido significativa popularidade à época da sua primeira transmissão, a dois meses do final da década, século e milénio, e inserida na grelha de programação de um Batatoon em estado de graça entre o seu público-alvo por conta da 'galinha dos ovos de ouro' chamada 'Samurai X'.

Precedido de uma campanha de 'hype' nunca antes vista no programa (e que apenas se viria a repetir, já no novo milénio, por ocasião da estreia de Digmon), Sonic estreou-se na televisão portuguesa com já significativo interesse gerado em torno das suas aventuras, mesmo para quem nunca havia jogado os títulos de PC e consola, e apenas conhecia o personagem de passagem; esta onda de entusiasmo (resultado da oportuna manobra de marketing da TVI e dos produtores do Batatoon) ajudou a fazer esquecer o facto de que 'Sonic Underground' pouco tinha a ver com os referidos jogos, trocando o melhor amigo Tails e a floresta do planeta Mobius por um futuro pós-apocalíptico, em que o personagem faz parte da realeza destronada (!?) e procura a mãe, a rainha daquele universo, em conjunto com os dois irmãos (Sonia e Manic, ou antes, 'Mánique'), com quem também forma uma banda de rock (!?!?!) Uma premissa, portanto, que podia ter sido executada com qualquer conjunto de personagens - a produtora DIC jogou, claramente, no reconhecimento do nome Sonic, e a aposta resultou, já que sem essa associação, o interesse em 'Underground' seria significativamente reduzido.

De facto, do ponto de vista técnico e de escrita, 'Sonic Underground' não é mais do que tipicamente mediano para a época, exibindo a mesma animação algo presa de movimentos e atitude 'ultra-radical-buéda-fixe' herdadas de séries como 'Tartarugas Ninja' e 'Moto-Ratos de Marte' e copiada por tantas outras produções durante aqueles anos; a verdade, no entanto, é que essa mesma atitude, aliada a um genérico que é a parte mais memorável da série, foi suficiente para cttivar o público jovem da época, e tornar 'Underground' suficientemente lembrado para justificar repetições em anos posteriores.

Tentem não ficar com isto na cabeça - vá, tentem.

De facto, a série faz parte daquele grupo de produções – onde também entra Dragon Ball Z, entre outros – que, de tempos a tempos, são 'retirados da gaveta' e postos novamente no ar, para serem apreciados por uma nova geração. No caso de 'Underground', a série passou tanto no Canal Panda (em 2008, e em versão original, como foi em tempos apanágio daquele canal) como no KidsCo (em 2011, com novas dobragens em português) e ainda na Netflix, onde 'residiu' entre 2015 e 2018, tanto em versão legendada como com a dobragem de 2011. Um percurso impressionante para uma série vista, hoje em dia, como medíocre, mas que conseguiu, ainda assim, cativar a imaginação de uma geração para quem Sonic era um dos heróis favoritos – apenas mais uma prova do poder de uma boa 'licença', e ainda melhor campanha de marketing...

26.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 25 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A programação de teor ou conteúdo educativo tende, tradicionalmente, a ser rejeitada pela grande maioria das crianças, precisamente pela sua intenção declarada de não só entreter, mas também ensinar, algo a que esta demografia já é diariamente sujeita, contra vontade, no contexto da escola; por sua vez, este paradigma também não é minimamente beneficiado pelo facto de grande parte dos conteúdos desta índole adoptarem um tom excessivamente simplista ou condescendente, não dando ao seu público-alvo o devido crédito, e tratando-o como se fosse menos inteligente do que de facto é.

Talvez seja por isso que, quando surge um programa educativo verdadeiramente bem-feito e cuidado, o mesmo é capaz de atingir tanto sucesso junto da demografia-alvo como qualquer 'anime' ou série de acção. Foi assim com a excelente versão portuguesa da Rua Sésamo – ainda hoje recordada com afecto pela geração para quem foi auxiliar de estudo nos primeiros anos de aprendizagem – e é assim, também, com a série de que hoje falamos, para a qual este ano de 2022 marca, simultaneamente, a sua última temporada 'no ar' e um exacto quarto de século desde a sua estreia em Portugal.

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Criada pela PBS, a cadeia de televisão norte-americana especializada em conteúdos educativos também responsável pela criação da 'Sesame Street' original, e baseada na série de livros do mesmo nome, criada por Marc Brown, 'Artur' (ou 'Arthur') tornou-se conhecido, em Portugal, sobretudo pelo seu tema de abertura, um concentrado de alegria em ritmo 'reggae' que rivaliza com a lendária canção da Rua Sésamo pelo título de melhor música de abertura de uma série educativa, e tem também definitivamente lugar entre os melhores da década em geral.

Há outra abertura posterior, mas sejamos realistas - esta é a única que conta. POR ISSO; HEI!

Felizmente, os atractivos de 'Artur' não se ficam pelo tema de abertura; a própria série em si é extremamente bem pensada, com personagens e temas memoráveis, e sem medo de abordar assuntos controversos ou delicados (dos medos de infância e problemas cognitivos e educativos ao racismo, tolerância, trauma e até morte de alguém chegado ou querido) sempre de forma frontal, mas também com grande sensibilidade.

E o mínimo que se pode dizer é que este esforço em tratar as crianças como elas querem e merecem ser tratadas rendeu dividendos – nos seus EUA natais, 'Artur' foi transmitido durante mais de um quarto de século (e em Portugal, ficou próximo, tendo passado impressionantes dezoito anos na grelha de programação da RTP2), sempre com o mesmo grau de sucesso entre as diversas gerações de crianças. E a verdade é que não é preciso ver mais do que um ou dois episódios da série para perceber porquê; esta é daquelas séries que não só conseguem ser intemporais, como também conciliam de forma perfeita objectivos aparentemente díspares, como são a educação e o entretenimento, e o mundo da programação infantil ficará mais pobre sem ela. 'Por isso, HEI!'

05.04.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há alguns meses atrás, falámos aqui do Lecas, o personagem 'criança grande' que, em finais da década de 80 e inícios de 90, apresentava a sua Hora homónima, e que se tornou tão popular que chegou a gravar e editar um disco de músicas originais; hoje, vamos falar do próximo projecto abraçado pelo homem que o criara e lhe vestira a pele durante vários anos – o apresentador José Jorge Duarte.

Em estado de graça entre o público infantil, como resultado do seu estilo hiperactivo e energético de actuar enquanto Lecas, Duarte decidiu, em 1991, despir o 'fato' de personagem, e tentar a sua sorte em nome próprio, e num formato diferente: enquanto que a 'Hora do Lecas' era um programa de variedades com foco na apresentação de desenhos animados, o novo projecto seria um concurso de moldes clássicos. Em comum, os dois programas tinham, apenas, o facto de serem gravados em auditório, e dirigidos a um público infanto-juvenil, aquele que mais facilmente reconheceria o nome do apresentador, e teria interesse numa emissão por ele apresentada.

O resultado final deste desiderato foi 'Tal Pai, Tal Filho', concurso produzido pela Duvídeo, de Teresa Guilherme, e estreado na mesma RTP d''A Hora', menos de um ano depois de a mesma ter saído do ar - um 'timing' presumivelmente destinado a evitar que o nome de Duarte se esvaísse da sempre efémera memória das crianças.

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Com muitas semelhanças com outros concursos da época, como a mítica 'Arca de Noé' – então no pico da popularidade, e que adoptaria um formato semelhante para as suas últimas temporadas, apresentadas por outro ícone da televisão infantil da época – 'Tal Pai, Tal Filho' via equipas de um adulto e uma criança (normalmente familiar ou amiga) competir entre si em provas de cariz criativo e cultural, que iam desde criar um conto a cantar uma música ou representar uma peça de teatro.

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O apresentador, junto ao quadro com as diferentes categorias de provas disponíveis

A julgar cada 'performance' estava um júri de celebridades e respectivos mini-companheiros (também eles familiares ou amigos próximos dos jurados), cujas classificações numéricas de 0 a 10 perfaziam o total de pontos de cada equipa. No final, a equipa vencedora tinha direito a escolher entre uma série de prémios bastante típicos dos concursos da época e, na altura, incrivelmente aliciantes, desde viagens a computadores e outros produtos electrónicos. Pelo meio, havia ainda lugar aos interlúdios musicais típicos deste tipo de programa à época.

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Um típico painel de jurados do programa

Nada de incrivelmente inovador, portanto, mas suficiente para satisfazer o público-alvo, para quem o conceito interessante e um Duarte tão energético como sempre (já para não falar do tema inicial, daqueles tão 'peganhentos' que por aqui, ainda é parcialmente recordado três décadas depois) eram suficientes para justificar a hora passada à frente da televisão – embora não chegassem para manter o concurso no ar mais do que um ano.

Sim, 'Tal Pai, Tal Filho' foi mais um de entre vários concursos noventistas a desaparecer das televisões portuguesas tão rapidamente quanto tinha surgido; no caso, foram 41 emissões semanais, entre Outubro de 1991 e Agosto do ano seguinte, uma marca bem aquém da referida Arca de Noé (que se manteria no ar mais três anos, estabelecendo-se como o programa de concursos infantil mais duradouro da época) e mais condicente com emissões tão Esquecidas Pela Net como o Trocado em Miúdos (do qual, em tempo, também aqui falaremos.)

Ainda assim, para quem viu e fazia parte da demografia-alvo, tratou-se de um programa bem conseguido, que tentou afirmar-se por mais do que apenas o nome do apresentador, missão que, de um certo prisma, se pode dizer ter sido cumprida – ainda que não de forma tão longeva quanto, presume-se, teria sido desejável para a direcção da RTP. O referido apresentador, esse, transitaria para novos e mais altos vôos, nem todos direccionados ao sector infanto-juvenil (embora os mais famosos definitivamente o sejam). Desses, talvez um dia falemos; para já, e para quem não viu ou quiser matar saudades, partilhamos abaixo o único episódio de 'Tal Pai, Tal Filho' disponível online, para que os nossos leitores tirem as suas próprias conclusões sobre se o mesmo merecia ou não ter permanecido mais tempo no ar...

28.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A adaptação de bandas desenhadas para um formato animado não é, de todo, um conceito novo, ou até moderno; pelo contrário, desde há várias décadas que companhias como a Hanna-Barbera e a Warner Bros. vêm tirando dividendos da adaptação de BD's, nomeadamente de super-heróis, a um formato igualmente serializado, mas em meios audio-visuais.

A 'nossa' década não é excepção - de Batman a Charlie Brown, são vários os exemplos desta tendência que deram azo a séries animadas de grande qualidade, e extremamente bem-sucedidas. E à cabeça desta ilustre lista de nomes encontra-se um dos poucos casos em que a série animada é melhor e mais conhecida e respeitada do que o próprio material original: a fabulosa adaptação animada das tiras de Garfield, de Jim Davis.

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Com um conceito, ao mesmo tempo, demasiado simples para sustentar episódios de vários minutos de duração e demasiado sofisticado para o público consumidor de animação televisiva, 'Garfield' não parecia, à partida, ser um candidato natural a este tipo de tratamento; o feito de Mark Evanier e Sharman DiVorno não pode, portanto, ser considerado menos do que portentoso, já que os dois guionistas responsáveis pela adaptação conseguiram criar, a partir do material de Davis, uma das melhores séries animadas de finais dos anos 80 e princípios de 90.

De facto, as aventuras de Garfield, do seu dono, o neurótico solteirão Jon Arbuckle, do 'melhor inimigo' Odie (o cão de Jon) e do irritante Nermal, o autoproclamado 'gatinho mais querido do Mundo', provaram ser capazes não só de realizar a transição da página para o ecrã, mas de melhorarem como resultado da mesma; com uma tela mais vasta sobre a qual criar novas situações, e o contexto animado a permitir explorar os limites do realismo, os dois argumentistas deram asas à imaginação, criando situações progressivamente mais mirabolantes nas quais colocar o gato laranja e a sua sofredora família adoptiva. De tramas de mistério a situações de meta-humor – alguns dos episódios mais memoráveis incluem disputas com membros da equipa de guionistas e artistas da série – sem esquecer alguns episódios mais tradicionais e de estilo 'slice of life', Evanier e DiVorno não só conseguiram transformar Garfield numa série animada acima da média, como demonstraram criatividade suficiente para a manter no ar durante SETE TEMPORADAS (de 1988 a 1994), sempre com material original, e na sua maioria perfeitamente hilariante.

A verdade, no entanto, é que mesmo que as tirinhas de Garfield não tivessem rendido como fonte de inspiração, os criadores de 'Garfield e Amigos' – pois assim se chamava a versão animada – tinham um 'plano B' na manga, assente precisamente nos 'Amigos' do título. Isto porque, à semelhança de outro gato alaranjado, gordo e preguiçoso de quem aqui recentemente falámos, Garfield não era estrela única do programa com o seu nome; mas enquanto Heathcliff partilhava o seu titulo com personagens criados pela equipa de animadores, os criadores de Garfield tinham a sorte de poder contar, como protagonistas secundários, com o outro grupo de personagens criados por Jim Davis – os animais da Quinta do Orson, cenário das menos conhecidas séries de tiras U. S. Acres.

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Os habitantes de U. S. Acres - a 'Quinta do Orson' - dividiam o protagonismo com o próprio Garfield

E embora estes segmentos do programa não fossem tão unânimes entre o público-alvo como os protagonizados por Garfield, o certo é que havia também muito do que gostar nos episódios de Orson e companhia – dos medos muitas vezes infundados do paranóico Pato Wade à 'esperteza saloia' do Galo Roy, ou à comédia física e silenciosa de Sheldon, um pintainho ainda na casca, e apenas com as pernas de fora. No cômputo geral, a Quinta do Orson servia honradamente a sua função de adicionar diversidade ao programa, sem com isso retirar protagonismo ao seu personagem principal, e constituía mais um dos trunfos da série.

E já que falamos em trunfos, nenhuma análise de 'Garfield e Amigos' fica completa sem que se faça referência à sonoplastia. Simplesmente falando, quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da decisão da RTP de, em 1991, 'importar' Garfield em versão original, a mesma foi, sem dúvida, acertada – teria sido um crime dobrar a série em português, perdendo assim o excelente trabalho vocal de Lorenzo Music (A voz de Garfield por excelência), Frank Welker, e restantes artistas de voz. Isto sem falar dos pequenos toques de génio na banda sonora (como o icónico tema de Odie, que toca sempre que o mesmo surge em cena) ou do magnífico genérico inicial, um dos melhores e mais contagiantes de toda a década, e que fãs da série certamente ainda saberão 'de cor e salteado' três décadas depois. E não, não estamo a falar do tema 'assim-assim' que muita gente ainda hoje crê ser o genérico de 'Garfield', mas que na verdade apenas foi usado nas últimas séries:

Ponto a favor: este vídeo inclui um episódio da genial série de 'gags' 'Gritando com o Binky'

Falamos DESTA obra de arte, que introduziu os episódios das duas primeiras temporadas do programa:

Mesmo sem os diálogos do início e fim, continua a ser uma 'bomba'

Em suma, com argumentos inteligentes, excelentes desempenhos e uma banda-sonora acima da média, não é de admirar que 'Garfield e Amigos' tenha sido do melhorzinho que se produziu a nível da televisão infanto-juvenil, não só da sua época, como das últimas décadas em geral; efectivamente, como Tom e Jerry e outros clássicos, esta é daquelas séries das quais não só não é preciso ter vergonha de ter gostado (ou ainda gostar, mesmo em adulto) como também se tem pena de as novas gerações não poderem conhecer em primeira mão, pois decerto lhes agradaria mais do que as fraquinhas séries actuais de Garfield (em CGI, como não podia deixar de ser) e os divertiria tanto como aos seus pais, na mesma idade...

22.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Depois de há duas semanas termos falado dos dois LP's de músicas alusivas ao programa Arca de Noé (e, devido a uma mudança de planos de última hora, termos tido de adiar o presente post outro tanto) chega finalmente a altura de falarmos de um dos mais populares concursos, e programas infantis em geral, da primeira metade dos anos 90. E porque só há uma maneira de introduzir um artigo sobre este programa, comecemos, desde já, da maneira correcta – com o absolutamente lendário tema de abertura, um dos melhores de sempre da televisão portuguesa, e que qualquer criança ou jovem da época ainda será capaz de cantar quase de cor (e cuja letra, saliente-se, também servia na perfeição como insulto de recreio...)

Quem resistir a cantar isto, é mais forte do que nós...

Ultrapassada esta inevitável formalidade, falemos agora do concurso propriamente dito. Estreado logo no dealbar da década, e transmitido primeiro na RTP2 e, mais tarde, no então Canal 1, 'Arca de Noé´ adaptava um formato japonês, criado duas décadas antes, e que rapidamente atingiu sucesso mundial. Gravado no antigo Cinema Europa, em Lisboa, o programa tinha por base um formato muito simples e com uma estrutura clássica: quatro concorrentes – dos quais um era sempre uma figura pública - eram sujeitos a várias rondas de perguntas sobre animais, a maioria das quais baseadas num apoio visual, normalmente um vídeo pausado na altura certa, tendo os concorrentes que adivinhar qual o comportamento que o animal em causa adoptaria a seguir. O concorrente que mais perguntas acertasse ganharia o grande prémio de 250.000 escudos (cerca de 1250 euros), sendo que se o vencedor fosse a figura pública convidada, este valor reverteria na totalidade para uma instituição de apoio aos animais ou à vida selvagem (na verdade, a maioria dos participantes doava parte da sua bolsa a uma entidade deste âmbito, quase sempre o Jardim Zoológico de Lisboa.) Para além do conflito central, o programa ficava também marcado por segmentos de entrevista a tratadores e especialistas em animais (normalmente acompanhados dos mesmos, para gáudio das crianças em estúdio e a assistir em casa) e números musicais, interpretados ao vivo pelo responsável pela música do programa (e também favorito das crianças), Carlos Alberto Moniz, ou por um convidado especial.

Deste formato, adoptado durante as primeiras três temporadas do programa, é quase sinónima a carismática apresentação de Fialho Gouveia, um daqueles anfitriões da velha escola que sabia falar a um público jovem sem nunca ser condescendente – uma qualidade que partilhava com outras 'lendas' infanto-juvenis da época, como Júlio Isidro, ou o próprio Moniz, o qual viria, mais tarde, a tomar o seu lugar para a última temporada do programa. A seu lado, a também icónica e carismática Maria Arlene, a tradicional assistente comum a tantos concursos da mesma época, e que neste caso era responsável por marcar a pontuação dos concorrentes com bonecos das mascotes do programa – primeiro o Vitinho, da Milupa, e mais tarde os Orelhudos, então 'caras' dos iogurtes Mimosa.

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Os carismáticos anfitriões (e mascote) do programa

Foi assim até 1994, ano em que teria lugar uma mudança de formato, assinalada também por uma mudança na apresentação, que passava a caber a uma mulher, Ana do Carmo; nesta nova fase, os concorrentes eram três pares de um adulto e uma criança, já sem a presença de quaisquer figuras públicas, mantendo-se as regras e o restante ambiente basicamente inalterados. Já a quinta e última temporada era palco de nova mudança, com o programa a render-se finalmente e totalmente ao seu público-alvo: o cenário 'infantilizava-se', com cores mais vibrantes e adereços a imitar um barco (ou Arca), as equipas passavam a ser constituídas exclusivamente por crianças entre os 8 e os 12 anos, e a apresentação ficava a cargo de Carlos Alberto Moniz, que acumulava assim funções e se tornava a figura central do programa, apenas alguns meses antes de 'emigrar' para uma 'Casa' nos arredores de Lisboa, onde continuaria a conquistar o coração das crianças durante mais alguns anos.

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Uma emissão com Ana do Carmo como apresentadora

Quando saiu finalmente do ar, em Setembro de 1995, a 'Arca de Noé' havia marcado toda uma geração de crianças portuguesas, sendo parcial ou totalmente responsável pelo interesse generalizado que a miudagem da época desenvolveu por animais. E com bom motivo – o programa soube pegar num tema que, já de si, interessava ao seu público-alvo, e introduzi-lo num contexto igualmente apelativo para essa demografia (o da competição televisiva) criando uma receita praticamente perfeita para um programa de televisão infanto-juvenil, que, até hoje (mais de trinta anos após a estreia do concurso) poucas outras propostas souberam igualar, e ainda menos superar. E, convenhamos, AQUELE tema de abertura também ajudava.... 'VAMOS FAZER AMIIIIGOS, ENTRE OS A-NI-MAAAIS...!'

07.02.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos anos 90, como em décadas anteriores, ver ser lançado um disco relativo a um qualquer programa de grande popularidade entre os jovens não era nada de novo. Tal como acontecia com o cinema, e as respectivas bandas sonoras com músicas 'constantes ou inspiradas' no filme em causa, a produção musical era vista como apenas mais um de muitos meios possíveis para facturar com um determinado produto mediático, comparável a aspectos como o vestuário (oficial ou pirata), os brinquedos ou os jogos de computador; e a verdade é que - de programas 'de auditório' com apresentadores carismáticos, como o Buereré, o Batatoon, a Hora do Lecas ou o Muita Lôco, até programas educativos como a Rua Sésamo, ou mesmo alternativas menos óbvias, como as animações d'Os Patinhos ou (reza a lenda) o Dragon Ball Z - foram muitos e bem variados os programas que beneficiaram desta estratégia em Portugal durante aquela época.

Menos comum, no entanto, era ver lançamentos discográficos associados a concursos televisivos, o que não deixa, bem vistas as coisas, de fazer sentido; afinal, é difícil imaginar um álbum de canções baseado na Amiga Olga ou na Roda da Sorte, por exemplo. No entanto, na década a que este blog diz respeito, houve pelo menos um exemplo dessa estratégia a ser aplicada a um programa deste tipo, nomeadamente, os dois LP's com músicas retiradas do programa 'Arca de Noé'.

Verdade seja dita, a 'Arca de Noé', da qual aqui falaremos muito em breve, prestava-se melhor a este tipo de empreitada do que a maioria dos outros concursos, não só por ser declaradamente dirigida ao público infanto-juvenil, como por ser apresentado por Carlos Alberto Moniz, mais tarde também conhecido como Tio Carlos, dono de uma Casa num canal rival, e já na altura um conceituado compositor de músicas para crianças. A junção destes factores – a demografia-alvo do programa e o talento do apresentador – resultou, naturalmente, na produção de vários temas musicais centrados em torno do tema do programa, a saber, os animais e a vida selvagem.

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Foram estes temas, num total de catorze – já contando com duas repeitições do memorável e contagiante genérico do programa, a abrir e a fechar, tal como na televisão – que perfizeram o alinhamento do primeiro LP da 'Arca de Noé', lançado mesmo no dealbar da nova década pela editora Ariola, e que contava com a presença, na capa, do Vitinho, mascote da Milupa, marca associada ao programa na qualidade de patrocinador. Não que o disco precisasse desta 'recomendação' extra para ser, previsivelmente, um sucesso de vendas entre a criançada, vinculado como estava a um dos mais populares programas infantis portugueses da altura.

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Como também seria de esperar, a boa prestação deste primeiro álbum no mercado levou à produção de uma mais que natural sequela. Lançado dois anos depois do original – e com o sucesso do programa-pai ainda no auge, o que diz muito sobre a aceitação do mesmo entre o público-alvo – 'Arca de Noé 2' seguia exactamente os princípios de uma boa sequela, do título óbvio e pouco original à filosofia 'mais e maior', que via duplicar o número de discos deste segundo capítulo, e expandir-se o número de músicas de catorze para vinte e quatro (seis por lado de cada um dos LP's), mais uma vez precedidas e antecedidas por duas repetições do tema-genérico do programa. Ao contrário da maioria das sequelas, no entanto, neste caso o segundo capítulo tinha tanta qualidade como o primeiro, e os volumes de vendas voltaram a reflecti-lo, com o público-alvo novamente a aderir à proposta de Moniz e companhia.

Como disse em tempos George Harrison, no entanto, 'tudo deve passar', e o ciclo da 'Arca de Noé' como ponto alto das tardes de semana das crianças dos anos 90 acabou mesmo por chegar ao fim, antes que o apresentador e respectiva equipa de produção pudessem conceber um terceiro volume de músicas alusivas ao programa. Ainda assim, os dois LP's lançados constituem um excelente exemplo de música infantil de qualidade produzida em Portugal durante aqueles anos, exibindo uma vertente menos simplista e comercial que um título como 'As Canções do Lecas', sem por isso serem menos memoráveis ou atractivas para o seu público-alvo; no fundo, os mesmos princípios que haviam tornado o programa-pai num dos maiores êxitos da televisão infantil de inícios daquela década, ainda hoje lembrado com carinho por quem a ele assistiu. Desse aspecto, no entanto, falaremos num próximo post; até lá, aqui fica um dos melhores temas de qualquer dos álbuns, para vos animar a noite...

31.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quando aqui falámos do primeiro programa infantil de sempre da TVI, 'A Casa do Tio Carlos', referimos que o mesmo tinha, inicialmente, tido dificuldade em se estabelecer como alternativa aos super-populares Brinca Brincando (da RTP) e Buereré (da SIC), e que tal desiderato só havia sido atingido depois de o bloco ter adquirido aquela que viria a ser a sua série-estandarte.

Essa série era 'Heathcliff', um 'cartoon' de inspiração declarada no então super-popular 'Garfield', mas que demonstrava originalidade e competência de execução suficientes para levar o seu público-alvo a sintonizar a TVI às tardes de semana, e para assegurar três anos de transmissão contínua no canal de Queluz - um ciclo de vida quase exactamente coincidente com o do programa de que fazia parte - bem como um regresso, já no novo milénio e em versão dobrada em Espanhol (!) nos canais infantis da TV por cabo (a razão pela qual não voltou simplesmente a ser exibida a mesma dobragem já existente não é, infelizmente, clara.)

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Heathcliff, o personagem que dava nome à série, tinha iniciado a vida como protagonista de uma série de tirinhas de banda desenhada destinadas à inclusão nos suplementos de banda desenhada dos jornais de fim-de-semana norte-americanos (os chamados 'Sunday funnies') onde, ironicamente, partilhava do mesmo espaço com a sua principal inspiração, Garfield. Ao contrário daquele gato cor-de-laranja, listrado e gordo, no entanto, ESTE gato cor-de-laranja, listrado e gordo estava mais interessado em pregar partidas ao leiteiro, ao peixeiro e ao inevitável cão da vizinhança, ou em namoriscar a não menos inevitável gatinha bonita da casa ao lado, do que necessariamente em comer e dormir – embora também fossem numerosas as piadas em torno da sua preguiça – evitando assim o rótulo de plágio total e completo, e justificando a continuidade da sua publicação, que se estendeu por várias décadas, e ainda a proposta de adaptação para desenho animado, já na década de 80.

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Uma tirinha de Heathcliff

Esta última não vinha, no entanto, sem algumas complicações; especificamente, os responsáveis por avalizar e aprovar o projecto achavam que a base das aventuras de Heathcliff era algo redutora para uma série completa de episódios animados (um meio substancialmente diferente do das 'comic strips') e que não iria captar e cativar a atenção do público-alvo. Foi, pois, considerado necessário 'incrementar' a nova série com novos elementos – uma decisão que viria a alterar completamente o espectro, recepção e percepção da mesma.

Isto porque a solução encontrada passou pela criação de um grupo de personagens totalmente inédito - um bando de gatos de rua (que incluía uma fêmea de anatomia marcadamente humana, que terá decerto inspirado muitas fantasias 'furry'), residentes num velho carro Cadillac abandonado junto a um ferro velho, e liderados por Riff-Raff, um gato atarracado, de enorme boina de ardina e lenço ao pescoço, numa espécie de cruzamento entre Scrappy-Doo (o sobrinho de Scooby) e Manda-Chuva. Este novo grupo (conhecido, na versão original, como Catillac Cats) não tardaria a roubar protagonismo ao personagem que dava nome ao programa, tornando-se, para muitos dos pequenos espectadores, o principal motivo de interesse do mesmo.

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Os novos personagens criados em exclusivo para a série

Isto porque, enquanto os episódios centrados em Heathcliff seguiam uma vertente mais próxima dos 'comics' originais, baseada em humor pastelão e frenético de moldes clássicos, Riff-Raff e o seu bando tendiam a protagonizar histórias de cariz mais voltado à aventura, e com maior ênfase na história, num estilo mais próximos dos programas que faziam sucesso à época. No entanto, tal como havia fãs de Riff-Raff e do seu bando, também havia quem apenas quisesse acompanhar as aventuras cómicas do 'gato bem disposto e educado', considerando as segundas partes de cada episódio da série apenas como um 'mal necessário'.

No cômputo geral, no entanto – e apesar das histórias algo simplistas e da animação notoriamente barata e pouco cuidada – 'Heathcliff' conseguia oferecer um pouco de tudo, aliando (ainda que nem sempre com grande fluidez) a vertente de animação mais clássica com as características necessárias a uma série dos anos 80 e 90. Sem ser um programa histórico ou até digno de especial relevo (o seu aspecto mais memorável será mesmo o irresistível genérico, interpretado por Paulo Brissos), a série representava uma forma perfeitamente válida (e não-violenta) de passar meia-hora depois da escola, e certamente despertará memórias nostálgicas, ainda que vagas, em alguns dos leitores deste blog. E para quem não se lembra, deixamos abaixo um pequeno 'activador' de memória...

25.01.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Desde o início deste blog, já várias vezes aqui falámos da importância dos apresentadores no sucesso (ou falta dele) de um programa dirigido ao público infantil ou jovem. Sem ter sido, de todo, exclusivo desta era da cultura ocidental moderna, este fenómeno teve, no entanto, no final do século XX a sua época áurea, deixando para a posteridade um rol de nomes ainda hoje reconhecíveis, quer no estrangeiro (em que a brasileira Xuxa ou o americano Mr. Rogers vêm imediatamente à memória) quer em Portugal, onde as crianças e jovens das décadas de 80 e 90 tiveram o prazer de conhecer e conviver com personalidades tão carismáticas como Júlio Isidro, José Figueiras, Ana Malhoa, Rita Mendes, Batatinha, ou o nome a que dedicamos o 'post' de hoje, José Jorge Duarte.

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O actor e apresentador, na pele do personagem que o popularizou

'Nascido' para a televisão aos 16 anos, quando foi finalista do concurso Écran Mágico, promovido pela RTP 2, José Jorge Marques Duarte de Jesus viria, nas décadas seguintes, a cimentar a sua posição como uma das personalidades mais populares entre o público mais jovem, primeiro pela sua presença 'em carne e osso' em vários concursos e séries populares e, mais tarde, através da sua voz, que fez parte do elenco de dobragens tão icónicas como a da Rua Sésamo original (onde foi responsável pela icónica e inesquecível voz do permanentemente nervoso Gualter) ou a do filme 'Shrek', de 2001, em que teve a árdua tarefa de replicar a memorável prestação de Mike Myers no papel principal. Para uma certa e determinada fatia da população, no entanto – a mesma que, à época, terá rido com o Gualter, sem saber nem se importar com quem o dobrava – o actor, apresentador e humorista ficará, para sempre, associado com uma só personagem: o Lecas, apresentador da 'Hora' com o mesmo nome.

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Estreada em 1989, 'A Hora do Lecas' - programa substituto do anterior bloco de programação infanto-juvenil da RTP, 'Juventude e Família', mas agora às tardes de semana, por oposição às manhãs de Sábado e Domingo - gozou de popularidade imediata entre o público alvo, não só pela excelente selecção de desenhos animados que o programa propunha, como também pela personalidade castiça, desbocada e algo hiperactiva do apresentador, que recuperava para esse efeito um personagem criado ainda no âmbito do bloco familiar anterior. A típica 'criança grande' em corpo de homem crescido, o Lecas era um daqueles apresentadores que nunca 'parava quieto', não se limitando a servir de mero interstício entre duas séries animadas, mas antes dinamizando (por vezes até demais...) os segmentos que permeavam essas mesmas séries, e que incluíam os habituais jogos, momentos didácticos, interacções com o público e prestações de artistas musicais convidados – alguns, como também era apanágio da época, bem inesperados, como foi o caso dos Censurados, que promoveram no programa o seu álbum homónimo, de 1990.

Um formato, portanto, quase idêntico ao de outros espaços infantis do mesmo período, como o 'Clube Disney', e que, como tal, não podia deixar de agradar aos mais novos. De facto, foi tal a popularidade do Lecas – em grande medida auxiliada pelo horário de transmissão do programa, que punha o apresentador nas televisões infantis quatro dias por semana, mesmo à hora de chegada do público-alvo da escola – que o mesmo foi, em Outubro de 1990, 'promovido' a uma nova posição. 'Lecas, Mais Certo Que Sem Dúvida' (nome algo infeliz no que toca à memorização futura) via o personagem regressar ao espaço que o vira, literalmente, nascer – as manhãs de fim-de-semana – embora agora com um contexto bem mais sóbrio, em que Lecas se limitava a apresentar cada nova série, ao mesmo tempo que mostrava desenhos enviados pelas crianças.

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Um formato completamente errado, tanto para a personalidade que Duarte desenvolvera para o personagem como para o público-alvo, que não queria uma imitação infanto-juvenil do Agora Escolha (nem precisava, já que o original primava pela popularidade entre o mesmo segmento.) Saldou-se, assim, em pouco mais do que seis meses a duração da experiência – tempo, ainda assim, suficiente para Lecas conseguir um último êxito junto do 'seu' público, através do lançamento do disco 'As Canções do Lecas', composto por uma dúzia de temas de 'pop rock' infantil, interpretados 'in character', e do qual aqui falámos no nosso último post.

Poucos meses depois, o Lecas – tal como as crianças da 'viragem' da década de 80 para a de 90 o haviam conhecido – desaparecia para sempre das televisões portuguesas, ao mesmo tempo que o seu criador progredia para programas mais 'adultos', e explorava outras vertentes, como o teatro. E apesar de hoje pouco lembrado – mesmo no contexto da carreira de José Jorge Duarte - quem teve o privilégio de com ele conviver nas tardes depois da escola sabe que o divertido e carismático personagem nada deixava a desejar a qualquer dos seus contemporâneos, merecendo destino melhor do que cair no (quase) esquecimento no contexto da cultura popular portuguesa...

24.01.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na década de 90, ser apresentador de programas infantis equivalia, praticamente, a ter o estatuto de celebridade entre a faixa mais nova da população. Dos apresentadores do Clube Disney a nomes icónicos como Ana Malhoa ou Carlos Alberto Moniz, passando pelo elenco da Rua Sésamo ou (mais tarde) pelo palhaço Batatinha, os anfitriões das horas dedicadas à criançada atraíam, muitas vezes, audiências por si só, com o seu carisma e entusiasmo quanto à tarefa de apresentar desenhos animados ou convidados musicais, ou servir de árbitro a jogos.

Este estatuto fazia, naturalmente, com que o referido público se mostrasse, à partida, predisposto a adquirir todo e qualquer produto directamente relacionado com os referidos nomes – em particular, no tocante a registos fonográficos. Das 'Canções da Rua Sésamo' ao disco de Ana Malhoa e Hadrianno ou o primeiro CD de músicas do Batatoon, são inúmeros os exemplos de lançamentos que não deveriam ter resultado, mas que acabaram por se revelar sucessos de vendas.

A esta lista, há que adicionar uma obra menos 'mediática', mas não menos recordada por quem era da idade certa em inícios de 90: 'As Canções do Lecas', o primeiro e único registo discográfico do então mega-popular personagem infantil criado e interpretado por José Jorge Duarte.

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À semelhança dos registos anteriormente mencionados, 'As Canções do Lecas' consiste de doze canções (seis por lado do disco de vinil) de pop-rock dançável, típico da época, com temas relevantes para a faixa etária a que se destinava (como os factos sobre animais, a segurança rodoviária, ou simplesmente uma lista-rol de referências aos mais populares heróis de ficção e banda desenhada da época) e refrões orelhudos trauteados por Lecas na sua voz nasalada, com a ajuda de um coro infantil.

E aqui, há que ressalvar que – ao contrário da maioria dos registos contemporâneos do estilo – quem canta aqui é mesmo Lecas (o personagem de mentalidade infantil que apresentava a popular 'Hora do Lecas' na RTP) e não o seu criador; à semelhança da dupla Batatinha e Companhia alguns anos mais tarde, José Jorge Duarte veste o personagem durante toda a duração do álbum, tanto nas letras como na própria interpretação dos temas. A diferença é que, ao contrário do que acontecia com o CD do Batatoon, estes temas são todos originais, não havendo lugar a quaisquer adaptações de temas 'sacados' a programas infantis de outros países.

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O alinhamento de músicas do álbum

O resultado, diga-se de passagem, salda-se por extremamente positivo, mesmo de uma perspectiva adulta; este é daqueles discos que leva a sério e trata com respeito o seu público-alvo, e como tal, pode ser apreciado como obra musical por direito próprio, ao invés de mero artigo de 'marketing' ligado a uma propriedade intelectual popular.

Infelizmente, e apesar da sua qualidade, este registo não goza, hoje em dia, da popularidade ou volume nostálgico de qualquer dos discos citados acima, tendo um estatuto mais 'de culto' entre quem era fã do programa e da idade certa para o apreciar; uma pena, visto tratar-se de um registo que, como o grupo atrás mencionado certamente atestará, era merecedor de bem maia reconhecimento...

 

 

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