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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

11.01.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A cultura jovem viu, nos anos 80, 90 e 2000, exacerbar-se a atracção que os campos do marketing e do entretenimento já de há muito por ela vinham sentindo. Embora décadas anteriores tenham visto surgir produtos, campanhas e programas exclusivamente dedicados aos jovens, este fenómeno verificou-se, sobretudo, no estrangeiro; em Portugal, um país mais fechado e onde este tipo de fenómeno demorava, tradicionalmente, algum tempo a chegar, só nos anos 80 se começaram a ver os primeiros fogachos de cultura jovem na televisão, revistas e prateleiras de supermercado, e só nos anos 90 esta tendência foi inequivocamente abraçada, com a gíria, estética e interesses dos jovens a informarem inúmeras campanhas publicitárias, novos produtos, e sobretudo programas de televisão.

De facto, os 90s foram - pelo menos em Portugal - a década da programação jovem: só num espaço de dois ou três anos, no início da década, estreavam nos quatro canais portugueses um programa de música, um focado nos videojogos, um sobre desportos radicais, e até um híbrido de série e telenovela centrada em temáticas do interesse desta demografia (a mítica 'Riscos', da qual em breve aqui falaremos). Em meio a toda esta oferta, só faltava mesmo um programa que abordasse os tais temas de interesse de uma perspectiva real, ao invés da ficção proposta pela supracitada série; e, em 1994, foi precisamente isso que a SIC tentou oferecer, sob a forma do 'Muita Lôco' - um programa que se posicionava como 'baril e bué de fixe' logo a partir do título e respectivos gráficos.

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Mais lembrado, hoje em dia, como o programa que celebrizou José Figueiras, a verdade é que o Muita Lôco foi um bastião inescapável dos primeiros anos da SIC, tendo os telespectadores mais novos do canal de Carnaxide aprendido a viver com a presença daquele 'bonequinho' tipicamente 'baril' - de cabelo espetado e óculos escuros transparentes, como era moda na época - nos intervalos do Buereré e, aos Sábados, imediatamente a seguir a este.

O formato do programa não andava longe do de outras produções contemporâneas do terceiro canal, apresentando um misto de entrevistas, debate sobre temas do interesse do público-alvo, e o característico humor de José Figueiras, que se revelou um apresentador nato, uma espécie de João Baião mais inteligente e menos irritante que exibia grande química e ligação com os jovens presentes em estúdio.

A acompanhar o apresentador nestes momentos menos sérios estava sempre uma moça rechonchuda e divertida, conhecida apenas como Paulina, bem como a Banda Muita Lôco, um grupo residente, bem ao estilo 'talk show' americano, cujo líder era Rodrigo Leal, filho do ícone do 'pimba' para donas de casa, Roberto Leal. Os intervalos musicais protagonizados por esta banda serviam, também, como desculpa para José Figueiras soltar o seu mítico canto tirolês, que chegou a virar um daqueles 'pré-memes' dos inícios de 90, e que foi mesmo o foco do CD lançado pelo apresentador e banda residente do programa, e que também incluía uma versão 'rockalhada' do hino 'pimba' 'Mestre da Culinária', original de Quim Barreiros, e uma inacreditável faixa 'rap', que tem de ser ouvida para ser devidamente compreendida.

...malta, os anos 90 foram estranhos, OK?!

Todos estes elementos - incluindo as entrevistas e debates sérios, com a participação de personalidades relevantes e importantes no contexto do assunto em causa - eram filmados no estilo hiperactivo característico de outras produções de Ediberto Lima, como o 'Big Show SIC' ou o referido 'Buereré' , com a agravante de, por o programa ser dirigido ao público adolescente, a filmagem ser tornada AINDA MAIS energética - de relembrar que os anos 90 e 2000 foram a época em que 'para jovens' era frequentemente sinónimo de 'sem tempos mortos', dado o medo que as produtoras tinham de perder o seu público-alvo se abrandassem o ritmo sequer um segundo. No entanto, também este elemento acabava por integrar a personalidade bem vincada do programa - um dos principais factores por detrás do seu sucesso junto do público mais jovem.

Numa era em que a informação e debate sobre temas importantes está à distância de alguns cliques, já não haveria lugar para um programa como o Muita Lôco, o que pode ajudar a explicar o seu fim, logo no início da era digital; no entanto, numa época em que pouco se falava com, aos ou para os jovens, este foi um programa revolucionário, que - não obstante os pruridos em se assumir como programa sério, e a 'patine' de entretenimento 'fatela' típica do canal em que ia ao ar - terá sem dúvida constituído uma lufada de ar fresco para toda uma demografia que só na altura começava verdadeiramente a 'entrar para as contas' das grelhas de programação. E a verdade é que, nos quase vinte anos subsequentes, não tornou a haver um programa semelhante na televisão portuguesa; o Muita Lôco original (o que esteve no ar entre 1994 e 1995, tendo o regresso em 2000 sido um bem mais típico programa de música ao vivo) foi, e continua a ser, único - o que, numa época em que já tudo foi feito e a repetição é a chave do sucesso, constitui um atributo raro e indubitavelmente invejável.

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

15.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca à animação, Portugal é um país com pouca tradição; como acontece em quase todos os outros sectores do meio audio-visual, os lusitanos são, sobretudo, consumidores de animação importada do estrangeiro, com particular ênfase nos Estados Unidos (claro), Inglaterra e Canadá.

No entanto, de tempos a tempos, um animador ou empresa de animação nacional consegue não só levar o seu produto adiante como expô-lo a um público mais alargado – e, nos anos 90, foi exactamente isso que aconteceu com a lisboeta Animanostra, responsável por não uma, mas duas das principais produções animadas nacionais durante aquela década e a seguinte. Do momento de maior fama da companhia, falaremos noutra ocasião – hoje, cabe recordar a série que lançou a Animanostra enquanto grande nome do meio dentro de portas, e se tornou uma das mais memoráveis produções animadas nacionais de sempre.

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'A Maravilhosa Expedição Às Ilhas Encantadas' pode não ter tido um título por aí além de apelativo, mas a sua combinação do ambiente directamente ligado à História e tradições portuguesas com um cuidado trabalho técnico (dentro das limitações vigentes) permitiram-lhe ultrapassar essa pecha, e conseguir sucesso suficiente entre o público-alvo para justificar a criação e exibição de uma segunda temporada, mesmo que desfasada no tempo em relação à primeira. Até porque desfasamentos temporais não eram, de todo, um conceito estranho para a equipa da Animanostra, que havia criado a série em 1992, mas só a veria ir ao ar quatro longos anos depois, no Natal de 1996.

Uma vez chegada à RTP, no entanto, 'A Maravilhosa Expedição...' conseguiria 'segurar' o seu lugar na grelha de programação da mesma durante praticamente um ano, tempo que a emissora estatal demorou a transmitir os oitenta episódios (cada um com cerca de cinco minutos) da série original. Findo esse período, a série facilmente encontraria outra casa, desta vez num canal privado, tendo a SIC sido a responsável tanto pela repetição da primeira temporada como pela exibição de vinte episódios inéditos, relativos à segunda - e tudo isto num ano (1998) em que a realização da Expo '98 havia colocado novamente em voga o tema dos Descobrimentos, sohre o qual o desenho animado versa. As aventuras de Simão, Oliveirinha, Libório, Dom Fuas e os restantes tripulantes do 'Destemido' chegavam assim, através do popular Buereré, a todo um novo contigente de crianças – além daquelas que já haviam acompanhado a primeira temporada, dois anos antes, e que teriam assim a oportunidade de acompanhar a continuação das referidas aventuras.

E a verdade é que valia mesmo a pena assistir às viagens da fictícia caravela portuguesa e dos seus carismáticos tripulantes; além da curta duração dos episódios, que fazia com que nunca chegasse a cansar, 'A Maravilhosa Expedição...' era uma série bem escrita, bem animada e bem sonorizada (o genérico era do melhor que por cá se fez durante aquela época), com um estilo muito próprio, e que pouco ficava a dever a muitas das séries produzidas no resto da Europa durante a mesma época - só faltava, mesmo, o orçamento e a publicidade de que dispunham as criações inglesas e norte-americanas. Esta afirma-se, pois, como uma série bem merecedora de ser revisitada ou descoberta, por quem não conhece e nunca viu – especialmente por ser um produto nacional num país onde estes não primavam (nem primam) pela abundância...

 

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