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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

30.12.25

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A programação dos canais portugueses na noite de 31 de Dezembro tende a centrar-se, normalmente, em torno das celebrações de Ano Novo, com os respectivos preparativos a ocuparem várias horas de emissão antes do evento em si ter início. O primeiro 'réveillon' do século XXI, no entanto, ficava marcado pela triunfal conclusão do maior fenómenos de audiências de sempre em Portugal, cujo episódio final retirava quase todo o protagonismo aos habituais foguetes e programas de variedades de Herman José, captando e retendo a atenção da grande maioria da população portuguesa durante, pelo menos, umas horas da noite de 31 de Dezembro de 2000.

Falamos, claro, da primeira edição do 'Big Brother', que dominara grande partes das conversas sobre televisão desde a sua estreia a 3 de Setembro, e de cujo grande vencedor se ficaria, nessa noite, finalmente a saber o nome. Os três 'candidatos' finalistas - já depois da eliminação de favoritos do grande público como o futuro deputado Telmo, o intempestivo Marco, a sua futura mulher Marta e a 'vítima' do mesmo, Sónia- eram a sensata Susana, a jovem Célia (à data com apenas dezoito anos de idade, a mais nova da casa) e o homem que se tornara uma espécie de 'mascote' ou 'bichinho de peluche' da maioria dos espectadores do programa, o pedreiro Zé Maria. Eram estes os três nomes que se perfilavam, nessa noite, diante de Teresa Guilherme, para saber em quem o público votara como grande vencedor da quantia de vinte mil 'contos' (equivalentes hoje a cem mil euros) e de um carro novo.

Do resultado, reza a História da televisão portuguesa: conforme se previa, o humilde e espontâneo 'trolha' de Barrancos sairia mesmo vencedor, numa efeméride que o marcaria para o resto da vida, e que levaria, eventualmente, a um final trágico para a mesma. A 31 de Dezembro, no entanto, tal desfecho ainda estava muito longe de poder ser previsto, e Zé Maria era todo sorrisos ao receber o prémio das mãos de Teresa Guilherme, 'derretendo' nesse momento os corações daqueles que o haviam apoiado, e mesmo de muitos outros que apoiavam os seus adversários, ou que nem ligavam muito ao 'Big Brother'. Na verdade, naquela noite, até mesmo esses acompanharam o que se passava no estúdio da TVI, numa emissão que aglutinou audiências como poucas outras conseguiram na História da televisão nacional, e que pôs cobro a um fenómeno que não mais se repetiria no contexto da mesma. Razão mais que suficiente, portanto, para revisitarmos aquele último episódio, em vésperas de se completar um exacto quarto de século sobre a sua transmissão em directo, naquela que foi uma das noites de Ano Novo mais atípicas da televisão em Portugal.

11.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 10 de Novembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca a realizadores de cinema e televisão, David Lynch é, sem dúvida, um dos mais polarizantes, a par de nomes como Quentin Tarantino, James Cameron ou, mais recentemente, Christopher Nolan: a tendência do cineasta para 'abusar' dos elementos surreais e do subtexto, muitas vezes em detrimento de uma história coerente, faz com que a sua obra não seja, decididamente, para todos os gostos. No entanto, um trabalho de Lynch em particular tende a reunir maior consenso do que a sua restante produção, talvez por ser mais linear, ou talvez pelas 'ondas' de espanto que causou aquando da sua estreia: 'Twin Peaks'.

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De facto, a história da investigação em torno do assassinato de Laura Palmer (cujo assassino suscitou tanta especulação e teorização quanto o famoso JR de 'Dallas') constitui um daqueles casos em que, apesar de estar muito 'à frente' do seu tempo, uma série consegue reunir o consenso da crítica e do público, cimentando o seu lugar na História da televisão moderna e sendo lembrada e discutida até aos dias de hoje. Em Portugal – onde a série estreou há precisamente trinta e cinco anos, em Novembro de 1990, às quintas-feiras à noite – o caso não terá sido diferente, embora (ao contrário do que acontece com séries posteriores, como 'Sopranos' ou 'Os Homens do Presidente') sobrevivam hoje muito poucos registos da recepção do público português à 'bizarrice' de Lynch e Mark Frost.

Ainda assim, o número de emissões celebratórias de que a série foi alvo por ocasião dos seus trinta anos dá a entender que 'Twin Peaks' terá tido os seus fãs à época – entre os quais, quiçá, se contem alguns dos leitores mais velhos deste 'blog', membros da chamada 'Geração X', e que teriam siido adolescentes à época da transmissão original. É a eles que dedicamos estas poucas linhas celebratórias de uma das mais intrigantes e originais séries televisivas dos últimos quarenta anos, por ocasião do aniversário da sua estreia em Portugal.

27.10.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na sua coluna no jornal Público, algures nos primeiros meses do Novo Milénio, Eduardo Cintra Torres – uma das mais proeminentes e preeminentes figuras no espectro da crítica e análise mediática em Portugal – acusava os telespectadores portugueses de não conseguirem 'acompanhar uma boa série, mesmo divertida e electrizante', 'preferindo ver as telenovelas e outros programas' como 'as Noites Marcianas e o Big Brother', rematando com um acintoso 'que façam bom proveito'. A série que tanta bílis desencadeava ao catedrático e colunista, acabada de estrear na RTP2 (há quase exactos vinte e cinco anos, a 16 de Outubro de 2000, dois dias após a estreia na SIC da primeia série d' 'Uma Aventura') e que vivenciava enormes dificuldades para encontrar o 'seu' público e replicar o sucesso obtido nos seus EUA natais, era tão-sómente uma série de culto, que alguns dos nossos leitores talvez conheçam, chamada 'Os Sopranos'.

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Sim, antes de ser unanimemente considerada uma das melhores produções televisivas de sempre, 'Os Sopranos' passava de forma discreta, quase desapercebida, pela televisão generalista e estatal portuguesa, no caso pela mão da inevitável RTP2, a televisão que já era 'culta e adulta' antes de o assumir no seu 'slogan', e que já começava a ser conhecida (como ainda o é) por 'importar' e exibir séries algo mais 'fora da caixa' que o habitual, e mais densas no tocante ao conteúdo. O êxito da HBO encaixava, pois, na perfeição na linha editorial do canal; o problema é que, como televisão mais intelectual e 'de culto', a RTP2 sofria, por definição, de um défice de audiências relativamente aos outros canais nacionais, ficando a visibilidade do novo programa assim automaticamente reduzida - um paradigma ainda mais agravado pela falta de promoção ao mesmo por parte do próprio canal. E embora seja discutível se 'Os Sopranos' teria singrado na grelha de uma SIC ou TVI (muiro superiores, no campo do 'marketing' e publicidade, à televisão estatal) é ainda assim impossível contornar o facto de que quase ninguém, à época, estava a ver a série, pura e simplesmente, porque quase ninguém, à época via a RTP2, por comparação com os canais concorrentes.

Curiosamente, um mesmo fenómeno viria a ocorrer, anos depois, com uma outra série hoje elevada a obra-prima – no caso, 'Breaking Bad', que passou totalmente despercebida na SIC Radical de inícios dos anos 2000 (algo que parecia impossível para aquele canal naquela época), perdendo assim os jovens portugueses uma oportunidade de dizer que haviam visto a nova 'coqueluche' mundial vários anos antes de a mesma 'estourar' – situação análoga à vivida em relação a 'Os Sopranos' aquando da sua transmissão na 'Dois'. E apesar de ambas as séries virem a ser 'vingadas' junto da opinião pública portuguesa, anos mais tarde, a verdade é que poucos serão os 'X' e 'millennials' nacionais que se lembrem de ter acompanhado os 'primórdios' de Tony Soprano e restante família em emissão 'aberta', no primeiro Inverno do século XXI, num dos mais flagrantes casos de um programa estar 'à frente do seu tempo' já vividos na televisão portuguesa.

15.09.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

'Um programa sobre nada'. É essa a premissa por trás daquela que é muitas vezes considerada uma das melhores séries televisivas de sempre, capaz de unir gerações na base da gargalhada, mesmo quando algumas das situações apresentadas são já algo ultrapassadas quer do ponto de vista social, quer mesmo de uma perspectiva funcional, sendo hoje improváveis ou muito fáceis quer de prevenir, quer de resolver. Ainda assim, o conceito-base – a dinâmica entre quatro melhores amigos solteirões, cada um com sua 'pancada', numa espécie de versão mais neurótica e sarcástica do contemporâneo 'Friends' – mantém-se universal, sendo presumivelmente, a par da genial escrita, o principal factor que continua a atrair espectadores de todas as idades, mesmo três décadas e meia depois da estreia original da série nos EUA.

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Falamos, claro, de 'Seinfeld', uma das mais famosas e populares 'sitcoms' de sempre, e que lançou as carreiras dos seus quatro protagonistas – não só do comediante e criador Jerry Seinfeld (que interpreta uma versão semi-ficcional de si mesmo) como dos coadjuvantes Julia Louis-Dreyfus (que interpreta Elaine, a representante do sexo feminino no grupo), Jason Alexander e Michael Richards, estes últimos as verdadeiras 'estrelas da companhia', nos papéis do ultra-neurótico e inseguro George Costanza e do declaradamente tresloucado Cosmo Kramer, respectivamente. Juntos (e bem apoiados por profissionais da comédia como Larry David ou Jerry Stiller) os quatro criaram, ao longo dos nove anos de existência da série, situações e dichotes que penetraram na cultura popular não só do seu país de origem, como também de nações como Portugal – afinal, quem nunca lançou um 'nosoupforyou!' ou 'get outta here!'?

Com esta combinação única de talentos cómicos, excelentes guiões, tiradas icónicas (sempre ancoradas pela não menos intemporal e reconhecível linha de baixo 'slap' ouvido no genérico e em todas as transições) não é de admirar que, aquando da sua chegada a Portugal (curiosamente, já depois de concluída a transmissão nos EUA) a série tenha imediatamente granjeado um enorme número de adeptos, que passaram a sintonizar fielmente a TVI todas as noites, para meia-hora de riso garantido. Apesar de concebida num país com uma cultura completamente diferente da lusitana, a série adaptava-se marcadamente bem ao ambiente vivido no nosso País durante aqueles últimos anos do século XX, e 'caiu no gosto' de toda uma geração sarcástica, irónica e que se revia parcialmente naqueles personagens tão 'complexados' e cheios de problemas mundanos quanto eles, mas que se recusavam a deixar-se 'afundar' nas suas depressões, ou a criar dramas a partir das mesmas – o que, já de si, demarcava 'Seinfeld' da maioria das séries suas contemporâneas, e lhe dava um apelo muito mais intemporal do que as mesmas, ao mesmo tempo que a falta de 'linha condutora' ou enredo entre episódios convidava à revisão isolada dos momentos favoritos.

Prova dessa intemporalidade é, aliás, o facto de 'Seinfeld' fazer regressos periódicos aos ecrãs nacionais até aos dias de hoje (a última das quais em inícios de 2024) e marcar presença perene em muitos serviços de 'streaming', pronta a ser encontrada e apreciada pelas novas gerações, da mesma forma que sucedeu com os seus pais e até avós. Nada mau, para um 'programa sobre nada...'

11.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 09 de Setembro de 2025.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

De entre as dezenas (senão mesmo centenas) de programas propostos pelos quatro canais nacionais ao longo de cada ano, existem aqueles que rapidamente caem no esquecimento, aqueles que 'pegam de estaca' e acabam por se eternizar na memória colectiva, tornando-se nostálgicos, e aqueles que transcendem o mero estatuto de entretenimento televisionado, extravasando as fronteiras do ecrã para se estabelecerem como parte integrante da cultura popular nacional. E embora estes casos sejam relativamente raros (ou talvez por causa disso), quando um deles surge na grelha televisiva da RTP, SIC ou TVI, a sua influência tende a manter-se muito para além do tempo de transmissão, sendo os mesmos ainda relembrados várias décadas após a sua conclusão. É, precisamente, esse o caso com o programa que abordamos neste 'post', sobre cuja estreia se celebraram há cerca de uma semana exactos vinte e cinco anos, e cujo legado continua bem vivo não só na mente dos portugueses, como nos próprios ecrãs das suas televisões, mesmo um quarto de século após a sua introdução na grelha da 'Quatro'.

O serão de dia 3 de Setembro de 2000 marca, pois, o ponto em que o panorama televisivo lusitano se alteraria irreversivelmente, e em que os espectadores nacionais tomariam pela primeira vez contacto com aquele que se viria a tornar um dos géneros mais populares do século XXI. Isto porque era nesta data que a TVI apresentava, pela primeira vez, o seu novo concurso, adaptado de um popular formato holandês, e que propunha seguir de perto, e em directo, a vida de catorze portugueses comuns, forçados a cohabitar numa casa especialmente construída para o efeito, e sujeitos a eliminações decididas pelo público, com base nos seus comportamentos e capacidade de engajar (ou não) quem via o programa. Era o início do 'Big Brother' em Portugal, e também de uma febre comparável à causada junto dos jovens por 'Dragon Ball Z', alguns anos antes, mas desta vez extensível a todas as faixas etárias e demográficas do País.

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De facto, o 'reality-show' da TVI (primeiro do seu género em Portugal) era de tal modo inescapável que até quem evitava declaradamente acompanhar o programa não conseguia deixar de estar a par do que nele se passava. Elementos como o confessionário, as provas (que garantiam ao vencedor imunidade contra a eliminação nessa semana) e as famosas 'câmaras nocturnas' instaladas nos quartos de cama rapidamente se tornaram tema recorrente de conversa, o mesmo sucedendo com grande parte dos concorrentes – ainda que alguns fornecessem mais 'tema de conversa' do que outros. Em particular, destacavam-se o afável pedreiro Zé Maria, o campeão de 'kickboxing' Marco (protagonista do mais controverso e polémico momento do programa), o recatado Telmo e, do contingente feminino, a carismática Susana e a 'desbocada' Sónia. Outros, por seu lado, mal deixariam marca na memória colectiva, havendo pouco quem se lembre de Riquita (a professora de Inglês eliminada em primeiro lugar) ou dos dois Ricardos, que rapidamente se lhe seguiram.

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A grelha de concorrentes do primeiro Big Brother.

Dos restantes, no entanto, parte significativa encontraria lugar cativo na cultura popular portuguesa, fosse por saberem como 'jogar o jogo', por terem simplesmente personalidades mais vincadas ou expansivas, ou por serem protagonistas de momentos controversos, como actos sexuais em directo (algo que chegou, previsivelmente, a gerar escândalos à época) ou momentos de descontrolo emocional, como aquele que viu Marco ser expulso da casa, apesar de não ter sido o escolhido do público, após agredir Sónia com o pontapé mais famoso da História da televisão portuguesa, senão de sempre, pelo menos desde os tempos áureos de Eusébio. O facto de tal acto (contra uma mulher, ainda para mais) não ter imediatamente excomungado o 'kickboxer' da memória popular nacional – tendo o mesmo, pelo contrário, adquirido estatuto de celebridade menor – diz muito do poder do 'Big Brother' sobre a psique colectiva portuguesa naquele período de pouco mais de três meses na segunda metade do ano 2000, cujo efeito sobre a sociedade fez com que parecesse muito mais longo.

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Marco, protagonista do mais polémico momento do programa, e único concorrente expulso da casa sem direito a votação.

De facto, era logo na véspera de Ano Novo que Zé Maria - o simples e espontâneo pedreiro que ajudara a colocar Barrancos no mapa por razões não ligadas à tauromaquia, e que conquistara o coração dos portugueses ao longo dos três meses anteriores - 'roubava' audiências aos habituais espectáculos da noite e recebia das mãos da anfitriã Teresa Guilherme o cheque que viria a mudar indelevelmente a sua vida, tomando o seu lugar como 'pedra basilar' de uma dinastia que, vinte e cinco anos depois, não mostra sinais de abrandar, com variações do 'Big Brother' a serem produzidas e transmitidas pela TVI até aos dias de hoje, quer no formato original, quer com a participação de celebridades. O sucesso do programa daria, também, o mote para o surgimento de uma série de outros 'reality shows' nas grelhas televisivas nacionais, o primeiro dos quais da responsabilidade da SIC, canal que rejeitara originalmente o Big Brother e procurava 'emendar' o seu erro. Nenhuma destas tentativas viria, no entanto, a ter sequer uma fracção do sucesso das duas primeiras séries do 'Big Brother', sendo apenas com 'Quinta das Celebridades' que o formato voltaria verdadeiramente a cativar audiências em massa.

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O momento da coroação de Zé Maria.

Mas se, para a TVI, o resultado foi positivo, já para o vencedor do concurso, a súbita riqueza e fama provariam ser demasiado 'pesadas', causando problemas do foro psíquico e levando a que Zé Maria se isolasse da sociedade, situação que ainda hoje se mantém, e que ninguém poderia ter previsto naquele momento em que, aos vinte e sete anos, o pedreiro recebia um cheque de vinte mil 'contos' e um carro, sob as luzes de um estúdio de televisão. Ainda assim, e apesar de tudo fazer para que o seu nome seja esquecido, Zé Maria estará, juntamente com os outros concorrentes, para sempre ligado ao início de uma nova etapa na programação portuguesa, e do 'reino' continuado de um novo formato que, um quarto de século depois e na sua 'enésima' edição, continua a gerar temas de conversa e a render lucro e audiências à estação que o transmite.

02.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 01 de Setembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O final dos anos 90 e inícios da década seguinte assistiram a uma mudança de paradigma no tocante à produção de séries televisivas, sobretudo (mas não só) nos Estados Unidos. Efectivamente, o básico formato de episódios de meia-hora com histórias diferentes e contidas em cada semana começou, progressivamente, a ter cada vez menor preponderância no mundo das emissões por cabo ou sindicadas, dando lugar a programas com histórias únicas e continuadas (num modelo semelhante ao das telenovelas), valores de produção mais altos e episódios mais longos, normalmente com cerca de uma hora – essencialmente, o formato hoje padronizado em plataformas como a Netflix e canais como aquele que é sinónimo com este tipo de séries, a HBO.

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Antes da 'era de ouro' de 'Sopranos', 'The Wire' e 'A Guerra dos Tronos', no entanto, a série mais conhecida e respeitada dentro deste formato específico – e também uma das suas pioneiras – era um drama político produzido pela NBC, com a Casa Branca norte-americana como pano de fundo, e que estreava nos ecrãs portugueses há exactos vinte e cinco anos, a 5 de Setembro de 2000. Tratava-se d''Os Homens do Presidente' ('The West Wing', no original), uma das mais aclamadas produções norte-americanas do género, e que viria, em décadas subsequentes, a ser inclusivamente alvo de artigos de análise política respeitantes aos seus episódios, tal era o cuidado e verosimilhança que os mesmos exibiam.

De facto, não descurando os necessários elementos dramáticos inerentes a qualquer trabalho de ficção, 'Os Homens do Presidente' punha ênfase declarada no realismo, tanto das suas personagens como das situações envolventes das mesmas, deixando que fossem as suas personalidades e os desafios que naturalmente enfrentavam a providenciar a tensão dramática de cada episódio ou temporada. Esta abordagem, mais tarde repetida em algumas das séries supracitadas, rapidamente ajudou a que a série se destacasse da maioria dos produtos televisivos da época, granjeando-lhe ao mesmo tempo uma audiência cativa, 'sedenta' de algo um pouco mais cerebral e absorvente em meio ao entretenimento descartável da maioria das grelhas televisivas. Tal sucesso levou, por sua vez, a que a série se mantivesse no ar durante sete temporadas, vindo a sair do ar apenas já na segunda metade da primeira década do século XXI.

E ainda que, em Portugal, o sucesso do programa não se comparasse ao dos seus EUA natais, a primeira transmissão da mesma (nas noites de Terça-feira da TVI) foi, ainda assim, suficiente para a colocar no 'radar' dos fãs de séries portugueses, onde permanece até aos dias de hoje, marcando ainda presença em várias plataformas de 'streaming' disponíveis no nosso País. E se a temática não era, necessariamente, apelativa à demografia então na infância e adolescência, também não terá faltado quem se deixasse fascinar pelos dramas vividos na Ala Oeste da residência oficial do Presidente dos EUA; para esses, aqui fica a recordação da estreia da série em Portugal, na semana em que se celebra um exacto quarto de século sobre essa efeméride.

02.06.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Na última Segunda de Séries, celebrámos uma das mais famosas telenovelas brasileiras de sempre, e sucesso de audiências nas suas várias repetições em Portugal, 'A Escrava Isaura', aquando dos exactos trinta anos da sua re-estreia; nada mais justo, portanto, do que fazer agora o mesmo com uma não menos famosa congénere, celebrando, simultaneamente, as três décadas da re-estreia e os (aproximados) trinta e cinco anos da sua primeira aparição na televisão portuguesa.

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Era, de facto, nas noites da RTP algures em 1990 – poucos meses após ter concluído no seu Brasil natal – que os telespectadores nacionais travavam, pela primeira vez, conhecimento com Tieta do Agreste, personagem principal e homónima da novela em causa, bem como do romance de Jorge Amado que lhe serve de base inspirativa. E a verdade é que a nordestina de espírito livre e 'pêlo na venta' interpretada por Betty Faria, juntamente com os restantes habitantes da fictícia vila de Santana do Agreste, rapidamente conquistou os portugueses da mesma forma que havia feito com os seus conterrâneos, 'prendendo' grande parte do País à televisão à medida que encetava a sua longa e atribulada viagem rumo ao inevitável final feliz, como 'Madame' rica em ambiente urbano.

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E se 'Isaura' trazia ainda valores de produção e estilos representativos de outra época, 'Tieta' era, em tudo excepto na ambientação e figurinos da própria trama, uma novela moderna e contemporânea, que contava no elenco com muitos dos nomes mais conhecidos do meio à época, os quais asseguravam uma qualidade de representação acima da média, ou não tivesse o projecto tido início como mini-série, antes de o realizador perceber o seu potencial como novela em horário nobre – uma 'fezada' que, evidentemente, rendeu os melhores dividendos possíveis.

Isto porque 'Tieta' é um clássico absoluto (e merecido) da telenovela brasileira, fazendo parte das produções mais bem-sucedidas e recordadas da História do meio, e tendo sido, no seu tempo, capaz de reunir toda a família em torno do televisor após a hora do jantar. Tanto assim que, cinco anos após o seu sucesso inicial (e há exactas três décadas em inícios de Junho de 1995) acabava mesmo por regressar aos ecrãs nacionais, agora na SIC, e ainda mais do que a tempo de cativar uma audiência talvez demasiado jovem aquando da transmissão original, tal como sucedera com a predecessora 'Isaura'. Razão mais que suficiente para celebrarmos, com estas breves linhas, os dois 'aniversários marcantes' simultâneos de uma produção que marcou época, e deixou boas memórias a inúmeros membros das gerações 'X' e 'Millennial' lusitanas.

09.01.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 09 de Janeiro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Apesar de, normalmente, as efemérides político-sociais não figurarem em grande escala na vida das crianças e jovens, existem momentos que, de tão importantes ou marcantes, não podem senão ficar indelevelmente gravados na mente até mesmo dos mais jovens – toda a gente se recorda, por exemplo, de onde estava no 11 de Setembro, ou de ver na televisão a Guerra do Golfo ou a do Iraque. A juntar a esta lista há, ainda, o momento vivido há pouco mais de vinte e cinco anos, mesmo ao cair do pano do século XX e do Segundo Milénio, e que via Portugal deixar, pela primeira vez em mais de cinco séculos, de ter definitivamente quaisquer territórios coloniais na região vulgarmente conhecida como Ultramar. E porque deixámos, acidentalmente, passar em branco esta efeméride na data do aniversário em si, nada melhor do que corrigir agora essa situação e, apesar de com um par de semanas de atraso, assinalar o quarto de século da 'cedência' de Macau à República Popular da China, e do encerramento da 'era colonial' em Portugal.

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Vista geral da cerimónia.

Batiam as doze badaladas do dia 19 de Dezembro de 1999 (no horário português) quando o então Presidente da República, Jorge Sampaio, se juntava ao seu congénere chinês no pódio para efectivar oficialmente a transferência de poderes relativos ao território de Macau, que punha termo a um período de quase quatro séculos e meio de domínio português no enclave asiático e deixava Portugal sem quaisquer colónias internacionais, poucos anos depois de findo o atribulado e polémico processo de independência de Timor-Leste, hoje Timor-Lorosae. O Governador macaense, General Rocha Vieira era, pois, forçado a cessar funções, o mesmo sucedendo com os restantes funcionários públicos nacionais no território, que davam assim lugar aos seus congéneres chineses, numa cerimónia que teve honras de transmissão na RTP, então o canal oficial dos assuntos de Estado.

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O General Rocha Vieira, governador português em Macau, entrega a bandeira de Portugal a um oficial chinês, num gesto simbólico de transferência de poderes.

Apesar de amigável, esta transferência de poderes não deixou, ainda assim, de ficar marcada pela controvérsia, nomeadamente em relação a algumas peças de arte presentes nos edifícios governamentais portugueses, que nunca foram devolvidos ao Estado. Ainda assim, no cômputo geral, tratou-se de um processo com fricção mínima – algo bastante necessário após a tensa situação timorense – e que marcou um momento histórico no Portugal contemporâneo, merecendo (e devendo) assim ser recordado numa altura em que se acaba de completar um quarto de século sobre a sua mediática conclusão.

31.12.24

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Ao longo da década de 90, Herman José logrou tornar-se quase sinónimo com a programação de 'revéillon' portuguesa, mediante dois dos mais icónicos especiais de Ano Novo da televisão nacional - 'Crime Na Pensão Estrelinha', transmitido na passagem do ano de 1990 para 1991 e que fez História na RTP, e 'Hermanias Especial de Fim de Ano', emitido exactamente um ano depois, e mais centrado no formato de 'sketch' que, mais tarde, viria a encontrar grande sucesso como base da 'Herman Enciclopédia'. Estes dois baluartes da programação de 31 de Dezembro, em conjunção com a forte e continuada presença de Herman nos ecrãs nacionais (em programas como 'Roda da Sorte', 'Com A Verdade M'Enganas', 'Parabéns' ou 'Herman 98', além da própria 'Enciclopédia') fizeram com que o hiato de quase uma década do apresentador da grelha televisiva da Passagem de Ano mal se fizesse notar, parecendo Herman nunca ter deixado de acompanhar os Portugueses nessa efeméride. E no entanto, como se diz, 'tudo o que é bom chega ao fim', e essa confortável e familiar relação viria mesmo a terminar, há exactos vinte e cinco anos, por ocasião da histórica viragem simultânea do ano, século e Milénio.

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Seria, de facto, a 31 de Dezembro de 1999 que, sem o saberem, os telespectadores da RTP se despediriam do seu anfitrião de Ano Novo 'de sempre', o qual transitaria semanas depois para a 'concorrência' privada, nomeadamente para a SIC, onde chegaria a continuar a tradição mais alguns anos. Esse facto ajudou a dar ainda mais uma camada de significado a um título já pleno delas, fazendo com que aquela fosse 'A Última Noite' tanto do ano de 1999, do século XX e do Segundo Milénio como de Herman José na RTP. E a verdade é que o humorista não fez por menos, reunindo a sua habitual 'troupe' de amigos e conhecidos (bem como de alguns dos seus mais famosos 'bonecos') para ajudar os Portugueses a entrar no ano 2000 com boa disposição. A contar a História do Milénio que ora findava estavam, pois, Diácono Remédios, o famoso provedor da 'Herman Enciclopédia', e a não menos icónica Super Tia, que recebiam a visita tanto de figuras históricas do Milénio como de artistas musicais, a saber o maestro Pedro Duarte, Quim Barreiros, Claudisabel, Micaela e os Anjos, então ainda no auge da sua fama. O fim de uma 'era' ficava, assim, marcado de forma bem popular e típica por uma série de caras bem conhecidas e apreciadas pelo público televisivo português, naquela que acabaria por ser uma despedida não apenas de um ano, mas de um dos principais 'rituais' portugueses de finais do século XX, cuja última instância não podíamos deixar de assinalar, por altura do seu vigésimo-quinto aniversário. Para recordar esse histórico momento, abaixo fica o especial na sua íntegra, cortesia do 'suspeito do costume', o YouTube. Divirtam-se, e Feliz Ano Novo 2025!

16.01.24

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Dos programas de que vimos falando desde o início desta rubrica, alguns tiveram ciclos de vida honrosos, outros mais breves; no entanto, à excepção dos espaços informativos e de alguns 'talk shows' e programas da manhã, é raro ver qualquer produto televisivo ultrapassar mais do que alguns anos de vida. Existe, contudo, mais uma excepção a esta regra, 'escondida' nas madrugadas de Domingo e conhecida apenas pelo sector populacional activamente interessado em emissões de cariz religioso, mas que consegue a façanha de se superiorizar, em tempo de vida, a praticamente qualquer outro programa, com excepção dos telejornais – e de o fazer em dois canais diferentes.

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Falamos da Eucaristia Dominical, nome dado, desde sempre, à transmissão ao vivo da missa de Domingo de manhã a partir de diferentes igrejas portuguesas, a qual celebra este ano exactas duas décadas desde o seu aparecimento na grelha televisiva portuguesa, afirmando-se assim como o programa mais antigo da actual grelha da TVI, e um dos mais antigos de toda a televisão portuguesa moderna.

De facto, apesar de não ser exactamente simultânea com o nascimento do quarto canal privado, a Eucaristia Dominical foi, praticamente, sinónima com as manhãs de fim-de-semana do mesmo para toda uma geração de crianças. Isto porque, para quem não tinha interesse no programa, o mesmo representava o último 'obstáculo' entre o jovem espectador e uma manhã inteira de desenhos animados, como era apanágio de qualquer dos quatro canais à época. Isto fazia com que muitos jovens de finais do século XX e inícios do seguinte (e, presume-se, ainda dos dias que correm) aguardassem com ansiedade mal disfarçada o fim da missa e do subsequente programa Oitavo Dia, para se poderem deliciar com os conteúdos especificamente a si dirigidos que se lhes seguiam.

Para quem tinha interesse efectivo no programa, havia ainda o 'bónus' acrescido de poder ouvir a missa de Domingo sem ter de se deslocar à igreja mais próxima, uma característica que a maioria dos portugueses tendia a ignorar, mas que terá, sem dúvida, feito as delícias dos mais idosos e dos cidadãos de mobilidade reduzida, para quem a deslocação devota semanal se afigurava inconveniente, desconfortável, ou mesmo impossível.

Fosse qual fosse o atractivo do programa, o certo é que haverá sempre, num País maioritariamente católico como Portugal, público para uma simples missa televisionada – como a TVI e também a estatal RTP rapidamente viriam a descobrir. Alie-se este facto aos reduzidos custos de produção e facilidade de realização de uma emissão deste tipo, e está explicado o porquê de, aos vinte anos, 'Eucaristia Dominical' estar ao mesmo nível de um Telejornal ou da 'Praça da Alegria' no panteão de programas perenes e imorredouros da televisão portuguesa.

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