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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

26.06.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

Hoje em dia, é raro encontrar um profissional de futebol que tenha feito toda a sua carreira no mesmo clube; a conjuntura actual, em que o futebol é tanto um negócio como um desporto e os clubes são tanto marcas como agremiações, é pouco propícia a este tipo de situação. Nos anos 90, no entanto, o desporto-rei era, ainda, um mundo algo mais 'puro' e inocente, e jogadores como Puyol e Paul Scholes preferiam tornar-se símbolos do clube onde militavam do que simplesmente ir atrás do próximo contrato milionário.

Não era, no entanto, apenas no escalão mais alto do futebol que tais situações ocorriam, muito pelo contrário; de facto, era longe das luzes da ribalta, num modesto clube de reputação local do campeonato português, que se podia encontrar um dos melhores exemplos de dedicação a um só clube da altura, verdadeiramente merecedor do epíteto de 'Grande dos Pequenos'.

Falamos do guineense Serifo Cassamá, vulgarmente conhecido apenas pelo seu primeiro nome, e que desenvolveu toda a sua carreira profissional numa única agremiação, onde passou umas impressionantes (por qualquer bitola!) DEZASSEIS temporadas, de finais dos anos 80 até meados da primeira década do século XXI, seguindo o clube das divisões distritais até à principal e, em seguida, também no sentido inverso.

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O emblema em causa era o histórico Leça FC, no qual Serifo ingressou no início da época 1987/88, com apenas vinte anos, após ter feito a formação no local Sport Bissau e Benfica. À época, o clube militava, ainda, na então denominada III Divisão (mais tarde II Divisão B), onde permaneceria durante mais cinco temporadas, até conseguir a promoção à então II Divisão de Honra no final da época 1992/93. Daí à promoção à I Divisão, passar-se-iam apenas duas épocas - coincidentemente as duas primeiras em que Serifo, verdadeiramente, se impôs na equipa, realizando 31 jogos e marcando 8 golos em 1993/94, e 15 jogos (um golo) na temporada seguinte.

A preponderância do médio no meio-campo dos leceiros permaneceria, aliás, intacta durante as três temporadas do clube no principal escalão nacional, tendo sempre realizado mais de vinte jogos por temporada (29 na última época do Leça na divisão de topo, 1997/98) e contribuído com três golos na temporada 96/97 e mais três na seguinte.

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Serifo, nos tempos de Primeira Divisão, em duelo com um jogador que conseguiria o triplo da sua fama, com um terço do seu brio profissional

Os esforços do médio não foram, no entanto, suficientes para evitar a descida de divisão, que apenas foi agravada, em épocas subsequentes, por problemas financeiros, que culminaram num escândalo de corrupção e desvio de fundos. Nada, no entanto, que afectasse a lealdade de Serifo ao clube, tendo o guineense permanecido no plantel da agremiação nortenha até à temporada 2003/04 (a sua última como profissional) e sido quase sempre parte importante do plantel da equipa – um verdadeiro exemplo de amor a um clube, que rende (merecidamente) ao ex-médio do Leça a presença nesta rubrica, e o epíteto que a mesma depreende; de facto, a carreira de Serifo ilustra o significado da expressão 'Grande dos Pequenos', devendo o guineense (que, recentemente, chegou a fazer parangonas por ter andado, literalmente, desaparecido!) servir de exemplo de brio profissional a qualquer jovem que dê os seus primeiros passos como profissional num clube pequeno, e pondere as suas opções de carreira.

05.06.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

No mercado futebolístico global de hoje, é prática corrente ver jogadores das mais diversas proveniências alinharem nos principais campeonatos europeus e mundiais; em finais do século XX, no entanto, a situação era um pouco diferente, sendo que cada liga profissional tendia a acolher, sobretudo, jogadores de certas e determinadas proveniências – em Portugal, por exemplo, prevaleciam os futebolistas sul-americanos (sobretudo brasileiros), africanos, e da Europa de Leste.

Ainda assim, aqui e ali, surgia em cena um jogador oriundo de um país menos comum para cada campeonato, não sendo o nosso País excepção nesse campo - de facto, na última edição desta rubrica, abordámos precisamente um desses nomes, o sul-africano Eric Tinkler; esta semana, 'repetimos a dose' para falar de um jogador incomum para a nossa liga, não só pela nacionalidade, mas pela marca que deixou em apenas duas épocas em Portugal, e sem nunca ter alinhado por um 'grande' da modalidade.

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Jimmy ao serviço do Boavista

Falamos de Jerrel Floyd Hasselbaink, mais conhecido nos meandros do futebol como Jimmy, um nativo do Suriname (também conhecido como Antilhas Holandesas) que 'aterrou' em Portugal no início da época 1995/96 para representar as cores do Campomaiorense, tendo-se antes destacado como jovem promessa do AZ Alkmaar, por quem realizara 46 jogos (marcando 5 golos) ao longo de quatro épocas. Por alturas da chegada a Portugal, a posição que então ocupava, extremo-direito, havia já sido moldada para o transformar num homem de área, função na qual se notabilizou não só em Portugal, mas durante todo o resto da sua carreira.

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O cromo do jogador na caderneta do Campeonato Nacional 95/96, o primeiro dos dois que passou em Portugal

A razão para tal fama e reputação começou, aliás, a ser delineada logo nessa época, em que marcaria doze golos em 31 jogos - uma marca invejável para um avançado de uma equipa da metade inferior da tabela, e que lhe valeu, logo na época seguinte, a transferência para o então 'quarto grande' Boavista, então viveiro de talentos e 'casa' de outro notável 'grande dos pequenos', o guardião William Andem. Ao serviço dos axadrezados, Jimmy continuaria a estabelecer credenciais de goleador, atingindo desta feita a marca dos vinte golos, conseguidos ao longo de apenas vinte e nove exibições – uma média de um golo a cada jogo e meio, ou um golo a cada 120-125 minutos! - e ajudando o emblema do Porto a conquistar a Taça de Portugal relativa à época de 1996-97.

Os golos de Jimmy ao serviço dos axadrezados, que lhe valeram interesse do estrangeiro

Com uma época a este nível – e, recorde-se, em outro clube que não um dos três principais do campeonato – foi com naturalidade que os adeptos do clube do Bessa viram Jimmy abandonar a agremiação portuense, a caminho de mais altos vôos: nada mais, nada menos do que o campeonato inglês (então ainda na sua fase pré-Premiership), para onde se transferiria a troco de dois milhões de libras – cerca de 465 mil escudos – para representar o Leeds United. E se, em Portugal, os números de Jimmy já haviam sido impressionantes, no Reino Unido, o avançado revelou-se um 'matador' ainda mais letal, conseguindo a Bota de Ouro na sua segunda época ao serviço do clube da zona de Yorkshire, quando competia com nomes como Teddy Sheringham e Alan Shearer!

Esse troféu permitiu, por sua vez, ao avançado dar o 'salto' para Espanha, para representar o então 'aflito' Atlético de Madrid, onde passaria apenas uma época, na qual deixou ainda assim a sua marca, com vinte e quatro golos em 34 jogos – uma marca impressionante para um avançado de um clube que acabaria despromovido, apesar do brilharete na Taça do Rei! Seguir-se-ia um regresso a Inglaterra, para ingressar no Chelsea pré-Mourinho e Scolari, pelo qual alinharia durante quatro épocas, fazendo jus à veia goleadora pela qual era conhecido com 69 golos em 136 jogos, atingindo aquele que terá provavelmente sido o auge da sua carreira como futebolista.

Mesmo em fase descendente, no entanto, Jimmy não perderia as suas faculdades, como demonstraria no seu último grande emblema, o Middlesbrough, ao serviço do qual marcaria vinte e dois golos em 58 jogos, ao longo de duas épocas. As passagens subsequentes pelo Charlton e Cardiff City seriam de menos nota, embora o já veterano avançado tenha, ainda assim, exercido papel preponderante nas épocas dos dois emblemas, realizando vinte e cinco jogos pelo primeiro e 36 pelo segundo; os golos, esses, é que já não surgiam como dantes, somando Jimmy apenas nove no cômputo das duas temporadas.

Um fim, ainda assim, honroso para uma carreira que começaria quase imediatamente de novo, desta vez do outro lado das quatro linhas, no papel de treinador – primeiro como assistente no Nottingham Forest, e mais tarde como 'timoneiro' dos destinos de emblemas mais ou menos modestos, como eram o Antuérpia, o Burton Albion (clube pelo qual acaba de iniciar a sua segunda passagem), o Queens Park Rangers e o Northampton Town; e ainda que esta fase da carreira do surinamenho se desenrole a um nível algo inferior ao dos seus tempos de futebolista, a verdade é que Jimmy não deixa ainda assim de demonstrar o seu polivalente talento nas diversas áreas do futebol.

Para muito boa gente, no entanto – sobretudo de nacionalidade portuguesa – Jimmy não será lembrado como treinador das divisões inferiores inglesas, nem como 'artilheiro' do Leeds, Atlético, ou mesmo do Chelsea; para esses adeptos, o 'homem dos três nomes' será, para sempre, o avançado matador que fazia 'mexer' o Campomaiorense e Boavista de meados da década de 90, e que foi 'recrutado' para mais altos vôos antes que qualquer dos três 'grandes' tivesse oportunidade de o contratar, tornando-se assim, por definição, um dos verdadeiros 'grandes dos pequenos' do futebol português daquela época.

 

08.08.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E porque acaba de se iniciar mais uma época do nosso ‘querido’ campeonato português (força Sporting! De três em três, sempre a somar!), nada melhor do que recordar as provas que completam, este ano, precisamente 30 e 25 anos de vida, respectivamente.

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Não que as épocas de 91/92 e 96/97 tenham tido, de todo, algo de especial; pelo contrário, qualquer das duas serviria como exemplo perfeito do paradigma do futebol português dos anos 90, o qual ficou, acima de tudo, marcado pela hegemonia do Futebol Clube do Porto, a qual se faz sentir em ambos estes campeonatos (o de 91/92 marca, inclusivamente, o início dessa hegemonia, sendo que na época imediatamente transacta – a primeira dos anos 90 – o campeão havia sido o Benfica).

A Oeste nada de novo, portanto – o que não significa que os dois campeonatos escolhidos não tenham, mesmo assim, tido os seus motivos de interesse; de facto, uma consulta rápida aos plantéis dos ‘três grandes’ em cada um dos anos revela um sem-fim de nomes bem conhecidos e memoráveis para qualquer jovem adepto. Na época de 91/92, por exemplo, militavam em Portugal nomes como Vítor Paneira, Paulo Madeira, Tahar El-Khalej, El Hadrioui, Figo, Balakov, Cadete, Iordanov, Vítor Baía, Aloísio, Fernando Couto, Timofte, Kostadinov ou Domingos, enquanto a época de 96/97 seria palco para o despontar de jovens promessas nacionais como Hugo Leal, Simão Sabrosa, ou um jovem ponta-de-lança brasileiro de 22 anos chegado a Portugal nesse mesmo ano para representar um Futebol Clube do Porto em transição da fase ‘trauliteira’ do início dos 90 para o futebol mais artístico que marcaria a década seguinte – um tal de Mário Jardel…

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O genial Balakov em acção contra o FC Porto

Mesmo fora dos ‘grandes’, havia nomes memoráveis a reter, como o de Jimmy Floyd Hasselbaink, que seguiria do Boavista onde ainda militava em 1996 para (muito) mais altos vôos em anos seguintes.

Em termos futebolísticos, no entanto, o cenário era o mesmo que se verificaria em quase todos os anos dessa década, e muitos dos da seguinte – o Porto a ganhar campeonatos de forma conclusiva, deixando Benfica, Sporting, e por vezes Boavista a digladiar-se pelo 2º e 3º lugares. Anos subsequentes revelariam a verdadeira razão dessa hegemonia, mas naqueles tempos mais inocentes, os adeptos pouco podiam fazer senão encolher os ombros e admitir que sim, CLARO que o Porto ganhava mais um…era apenas parte do ‘status quo’ futebolístico da altura, especialmente depois de os do Norte se tornarem ‘movidos’ a Jardel…

images.jpgAté ele parece confuso sobre como marcava tantos golos...

Vinte anos depois, muita coisa mudou - o futebol português assistiu, entre outras efemérides, a um Porto campeão europeu, a um novo período hegemónico mais a sul, no caso do Benfica, e até a um Sporting capaz de surpreender e deixar a sua posição de eterno derrotado na corrida aos títulos. Perante este paradigma, aqueles tempos mais inocentes, em que o campeonato se chamava Primeira Divisão, se disputava entre equipas de homens feios e brutos em lodaçais disfarçados de campos da bola, e onde se jogavam 90 minutos e no fim o Porto ganhava pode até parecer nunca ter existido, um pouco à semelhança do que acontece com o campeonato inglês pré-Premiership.

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Antes dos patrocínios e do futebol-espetáculo, era assim...fi

No entanto, quem esteve lá sabe que tal cenário não só foi absolutamente verdadeiro, como extremamente empolgante para quem a ele assistia, com as emoções à flor da pele próprias da infância; será, talvez, essa a razão para termos acabado de dedicar uma página inteira a duas épocas pouco ou nada marcantes daquele tempo – e para os nossos leitores terem dedicado algum do seu tempo a lê-la…

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