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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.10.21

NOTA: Este post corresponde a Terça-feira, 12 de Outubro de 2021.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

O aparecimento da SIC, em 1992, representava uma revolução no mercado televisivo português. Enquanto primeira estação privada do país, a emissora de Carnaxide quis, desde logo, deixar evidentes as vantagens de não se encontrar limitada aos ‘guidelines’ e registos a que os canais nacionais se encontravam restritos, apresentando uma grelha programática mais vasta, abrangente e virada ao entretenimento do que aquela por que as RTPs se pautavam.

Um dos esteios iniciais deste manifesto foi, também ele, um programa pioneiro em Portugal, e cuja fórmula não mais viria a ser repetida nos vinte anos após a sua última emissão. Quer tal se devesse a uma mudança nos interesses dos jovens, à cada vez maior expressão da nova ferramenta chamada Internet, ou simplesmente ao facto de qualquer repetição do formato correr o risco de ser inferior, a verdade é que este programa continua – à semelhança de outros, como o Top +, por exemplo – a ser caso único na História da televisão portuguesa, e ainda hoje recordado com carinho por aqueles que o acompanharam.

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Falamos do Portugal Radical, programa que estreou ao mesmo tempo que a emissora onde era transmitido, e que se afirmou como pioneiro na divulgação dos chamados ‘desportos radicais’ junto da população jovem portuguesa. E a verdade é que o ‘timing’ de tal empreitada não podia ter sido melhor, já que o início dos anos 90 marca, precisamente, o primeiro grande ‘boom’ de interesse em modalidades como o skate, os patins em linha, o surf ou a BMX, que viriam a dominar o resto da época. Transmitido entre 1992 e 2002, o ‘Portugal Radical’ conseguiu acompanhar toda a evolução das ditas modalidades, desde os seus primeiros passos como fenómeno ‘mainstream’ até ao momento em que o fascínio com as mesmas começava a arrefecer um pouco, garantindo assim uma audiência constante durante a sua década de existência.

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A apresentadora Raquel Prates

Apresentado, durante a esmagadora maioria desse período, por Raquel Prates, com trabalho jornalístico de Rita Seguro, também do já referido ‘Top +’ (Rita Mendes, do ‘Templo dos Jogos’, tomaria as rédeas da apresentação já no último ano de vida do programa) o ‘PR’, como também era muitas vezes conhecido, era um conceito criado por Henrique Balsemão, a partir da rubrica com o mesmo nome na revista ‘Surf Portugal’, tendo sido exibido pela primeira vez no ‘Caderno Diário’ da RTP, ainda antes do nascimento da SIC. Foi, no entanto, a passagem para o canal de Carnaxide que ajudou a transformar um modesto conceito baseado numa coluna jornalística num verdadeiro fenómeno, com direito a ‘merchandising’ próprio, incluindo a inevitável caderneta de cromos, e ainda um CD com ‘malhas’ de grupos bem ‘anos 90’, como Oasis, Radiohead, The Cult, Smashing Pumpkins, Spin Doctors ou Manic Street Preachers.

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Capa do CD de 'banda sonora' do programa

Mais significativamente, no entanto, o programa terá tido uma influência mais ou menos directa no interesse que a maioria dos jovens portugueses desenvolveu por desportos radicais ao longo da década seguinte, o que, só por si, já lhe justifica um lugar no panteão de programas memoráveis da televisão portuguesa – bem como nesta nossa rubrica dedicada a recordar os mesmos. Uma aposta arrojada por parte da SIC, talvez, mas mais um dos muitos casos em que a atitude ‘nada a perder’ da estação de Francisco Pinto Balsemão viria, inequivocamente, a render dividendos...

 

27.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E se na última edição desta rubrica falámos de um ‘one-hit wonder’ português de meados dos anos 90, com músicas voltadas ao humor e cantadas na nossa própria língua, hoje, falaremos de outro, substancialmente mais conhecido e menos ‘esquecido’, e cujo único sucesso continua, ainda hoje, a marcar presença em certos contextos, seja dentro do espectro das artes criativas, seja como banda sonora de um qualquer evento de ar livre; e porque se vivem precisamente, neste altura, os últimos resquícios da maravilhosa estação estival portuguesa, nada melhor do que deixarmos que essa mesma banda nos recorde das muitas razões para apreciar essa época do ano.

Como já devem ter percebido, estamos a falar d’A Fúria do Açúcar, grupo musical e humorístico imortalizado na consciência colectiva portuguesa pelo hino estival ‘Eu Gosto É do Verão’, mas que pouco mais sucesso conseguiu atingir, apesar de celebrar este ano as suas três décadas (!) de carreira.

Formada em 1991 por três personalidades do circuito humorístico – entre elas o líder João Melo, mais tarde apresentador de um programa televisivo também voltado a este espectro – A Fúria do Açúcar começou por ser um projecto de estética café-concerto, intercalando números musicais com ‘sketches’ humorísticos. Não demorou muito, no entanto, para que este paradigma se alterasse, com o grupo a decidir enveredar por um caminho estritamente musical, cujo primeiro fruto foi o álbum homónimo de estreia, lançado em 1996.

No entanto, seria apenas com o seu segundo registo, ‘O Maravilhoso Mundo do Acrílico, lançado no ano seguinte, que o grupo de João Melo verdadeiramente penetraria na consciência popular – especificamente, através do segundo single retirado do álbum, uma faixa de índole sardónica cuja letra focava a comercialização em torno da época de Verão, e da idealização de que a mesma é alvo por parte da maioria dos seres humanos. No fundo, uma daquelas faixas que apenas aparenta ser ‘parva’, tendo na verdade um significado escondido, à espera de quem o queira encontrar; o problema foi que, em 1997, quase ninguém quis.

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A capa do álbum de consagração do grupo

De facto, a maioria daqueles que cantarolavam alegremente esta música no carro, na escola ou até em casa certamente não terá dedicado muito tempo a esmiuçar o significado da letra, prestando mais atenção à voz pateta-de-propósito de Melo ou à instrumentação bem ao estilo surf-rock, que tornava a música numa ‘malha’ bem pegajosa. O resultado inevitável desta tendência foi a percepção daquilo que se pretendia que fosse uma denúncia social como precisamente aquilo que aparentava (ou fingia) ser – uma música tola e descartável para consumo imediato. Pior, essa é ainda hoje a principal forma como a canção é abordada, tendo a vertente de crítica social vindo a ser cada vez mais ignorada – algo que, certamente, não deixará de frustrar os músicos da banda.

Também certamente frustrante será o facto de – apesar de, como resultado do seu sucesso. se ter tornado banda residente do programa apresentado pelo vocalista – o projecto Fúria do Açúcar nunca ter conseguido replicar o sucesso daquele ‘single’ de 1997. Apesar de contar já com seis discos (um dos quais lançado após um hiato de quase exactamente dez anos), a banda de João Melo continua a ser conhecida e recordada por uma, e apenas uma, música. Música essa que – diga-se em abono da verdade – continua a ser tocada nos mais diversos e variados contextos, o que não deixa de ser um feito para uma faixa cómica lançada há quase um quarto de século; ainda assim, não será descabido pensar que Melo e Cª teriam certamente preferido que essa mesma faixa tivesse feito menos sucesso, se tal significasse que o resto do seu repertório se tornaria mais conhecido…

Seja como for, a verdade é que o ‘one hit’ destes ‘one-hit wonders’ se tornou bem mais icónico e duradouro do que a maioria das músicas deste tipo, sendo ainda hoje um hino nostálgico para toda uma faixa demográfica que viveu os seus melhores anos nas décadas entre 1980 e 2000; candidato ideal, portanto, para inclusão nesta secção do nosso blog…

13.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

‘Sou camionista, sou o maioooor…’ Se esta linha, retirada de uma das músicas mais populares de 1996, vos fez avivar a memória, vão com certeza gostar do post de hoje, em que abordamos a banda responsável pela sua criação e gravação – os Mercurioucromos.

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Formados em 1995 a partir da junção de duas outras bandas, o quinteto assumiu, desde logo, a sua vontade de fazer pop-rock com fortes laivos de comédia – não terá, decerto, sido à toa que o líder desta ‘pandilha’ musical, Carlos Carneiro, se viria mais tarde a afirmar como actor; os seus maneirismos, tanto vocais como de palco, faziam, aliás, lembrar um outro nome de referência do rock-comédia em Portugal: Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000.

A música dos ‘Cromos era, no entanto, algo mais voltada ao pop do que o rock ‘apunkalhado’ dos EP2000, como bem demonstra o seu grande hit, acima citado. No entanto, faixas como ‘Lobo Mau’ mostram que a banda também sabe ser mais agressiva e atmosférica quando necessário, demonstrando que os Mercurioucromos talvez fossem mais do que aparentavam. Fosse ou não esse o caso, a verdade é que a banda conseguiu mesmo ‘explodir’ logo com o primeiro álbum e respectivo ‘single’, que o ajudou a catapultar para vendas de 60 mil unidades, muito graças à rotação constante de que gozava nas rádios nacionais.

Infelizmente, tal como acontece com tantas outras bandas, tanto em Portugal como no estrangeiro, também o quinteto saído de ‘uma garagem lá para os lados de Benfica’ nunca conseguiu replicar o sucesso meteórico dessa estreia, figurando hoje como um dos grandes ‘one hit wonders’ da história da música moderna portuguesa. Chegaria ainda a haver um segundo álbum, lançado apenas um ano depois do ‘pico’ do sucesso, mas já demasiado tarde para evitar cair em ‘orelhas moucas’; sem nada tão forte como ‘Camionista Cantor’ para manter os ‘Cromos relevantes entre o seu público-alvo, o álbum teve vendas modestas, deixando para o CD-single exclusivo produzido para a revista Super Jovem a honra de ser o segundo lançamento mais conhecido da banda.

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A segunda coisa mais famosa que os Mercurioucromos lançaram...

Ainda assim, os Mercurioucromos tiveram o seu momento na História do pop-rock português, por muito fugaz que o mesmo tenha sido, e conquistaram o seu lugar na lista de bandas nostálgicas para uma determinada geração, que acompanhou e viveu o mesmo. Por isso, e por terem tido uma música que qualquer jovem em idade escolar sabia cantarolar naquele ano de 1996, o quinteto de Lisboa merece bem esta referência aqui nas páginas do Anos 90…

30.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos últimos posts desta mesma rubrica, temos vindo a falar de bandas que partem da tradição musical tanto portuguesa como internacional e a misturam com sons mais contemporâneos, como o rock. Hoje, damos uma espécie de ‘passo atrás’ nessa temática para falar de um grupo – ou melhor, um colectivo – de música popular portuguesa, no sentido mais estrito da palavra. Um grupo que, apesar de contar com nomes sonantes da área do pop rock feito em português, escolheu enveredar por um tipo de som bem mais tradicional, e conseguiu, ainda assim, obter considerável sucesso ‘mainstream’.

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Tratava-se do colectivo Rio Grande, um super-grupo ‘à portuguesa’ que juntava num mesmo espaço músicos do calibre de Jorge Palma, Vitorino, João Gil, Rui Veloso e Tim, este último o elo de ligação ao mundo do rock, e que decerto terá servido como ‘chamariz’ para muitos jovens em relação ao projecto.

O resto ficava por conta do grande ‘single’ de avanço ao único álbum do colectivo, e uma das músicas mais ‘cantaroladas’ nos pátios de recreio em 1996 – a mítica ‘Postal dos Correios’. (Se não estão a situar o título, é aquela que começa com ‘Querida Mãe, querido Pai, então que tal…’ )

...esta.

E o mínimo que se pode dizer é que os Rio Grande merecem todo o crédito por porem uma geração inteira a ouvir e cantar uma música que aborda temas com os quais eles próprios nunca tiveram contacto, pelo menos directo (no caso, a emigração, sobretudo dos meios rurais.)

Mas apesar de ter sido o grande sucesso do álbum – e, sejamos sinceros, também do colectivo – ‘Postal dos Correios’ não era a única música boa que os Rio Grande tinham para oferecer; pelo contrário, era mesmo das mais ‘fraquinhas’ de um disco que merece bem a escuta atenta a todos os seus temas, a começar por ‘A Fisga’ e ‘O Caçador da Adiça’ (o duo de abertura), e continuando com ‘Fui Às Sortes e Safei-Me’, ‘O Dia do Nó’, ‘O Sobescrito’, ‘Dia de Passeio’, entre outras, sempre com o elo em comum da temática popular e rural e do som baseado em guitarras acústicas, instrumentos tradicionais e harmonias vocais. Com uma personalidade bem vincada e temas, como já se referiu, de enorme qualidade e apuro musical e poético, não é, pois, de admirar que o disco tenha atingido quádrupla platina no seu ano de lançamento – uma marca invulgar a nível global, quanto mais em Portugal!

Infelizmente, o único outro sinal de vida dos Rio Grande viria na forma de um disco ao vivo, explicitamente intitulado ‘Dia de Concerto’ e lançado dois anos depois da estreia, e sem chegar sequer perto do mesmo nível de sucesso. Alguns anos depois, já no novo milénio, o grupo deixaria de contar com os préstimos de Vitorino, mudaria de nome para Cabeças no Ar, e lançaria outro excelente CD, repleto de ‘malhas’ algures entre o folclore dos Rio Grande e uma maior costela pop-rock.

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A capa do único CD dos Cabeças no Ar, grupo sucessor dos Rio Grande

Do grupo original, no entanto, restaria na memória colectiva da época (e das décadas seguintes) a imagem de Tim e companhia a tocar guitarra num autocarro em movimento, enquanto perguntavam pela saúde de diversos membros da família – o que, convenhamos, não é nem de longe a pior ‘herança’ deixada por um grupo musical português, especialmente durante os anos 90…

02.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

NOTA: Este post é dedicado à Maria Ana, de quem esta é uma das bandas favoritas.

Num país de enorme tradição folclórica, como é Portugal, só seria surpreendente se NÃO surgissem bandas e artistas apostados em explorar as sonoridades mais tradicionais, e em misturá-las com géneros de música mais internacionais e contemporâneos. Nos anos 90, esta vontade era expressa não por uma, mas por duas bandas, quase exactamente contemporâneas, e com trajectórias muito parecidas. De uma delas, falaremos na próxima Segunda de Sucessos, ficando a de hoje reservada a um breve resumo da carreira da outra.

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Surgidos em 1987 pela mão de três ex-elementos dos Meteoros, os Sitiados teriam, no entanto, de esperar até à década seguinte para disfrutar dos seus quinze minutos de fama; seria apenas em 1992, já depois de várias mudanças de formação e com uma atraente loira no lugar do acordeonista original, que o grupo da Linha de Cascais conseguiria deixar a sua marca no universo pop-rock português. No entanto, quem conhece o grupo, e o seu legado, certamente concordará que a espera valeu a pena; porque a verdade é que, quando os Sitiados ‘explodiram’, o país inteiro abanou com o impacto.

O veículo desse impacto, e talvez a maior canção do Verão de 1992, chamava-se ‘Vida de Marinheiro’, e quem lá esteve em ‘tempo real’ certamente já estará a cantarolar o seu marcante refrão composto por vocalizações ‘nonsense’; mas que ao mesmo tempo fazem todo o sentido. Uma ‘malha’ de folk rock guiada pelo acordeão de Sandra Baptista e, sobretudo, pela inconfundível voz do líder João Aguardela,, que não ficaria mal na discografia de uns Pogues (inspiração declarada do grupo da Grande Lisboa), Dropkick Murphys ou Flogging Molly, e cujo estrondoso sucesso convenceu de uma vez por todas o grupo de que sim, valia a pena investir ‘naquilo’.

Assim, não demorou muito até o grupo entrar novamente em estúdio, com vista a compor o seu segundo registo. Saído pouco mais de um ano após o seu antecessor, ‘E Agora…?!’ cumpriu com louvor a sua missão de manter os Sitiados na ribalta da música popular portuguesa, muito graças a mais um ‘single’ bem ‘catchy’ e de grande exposição nas rádios nacionais, no caso ‘O Circo’ (ou, como é muitas vezes erroneamente chamada, ‘Vamos ao Circo’).

A receita era exactamente a mesma de ‘Vida de Marinheiro’ – folk-rock com mais do primeiro do que do segundo, com atmosfera de festa, e letra baseada no humor acérbico típico de Aguardela – e o furor ficou apenas ligeiramente atrás do causado pelo primeiro ‘single’ do grupo, sendo este tema presença tão constante nos recreios portugueses como havia sido o seu antecessor, embora desta vez não houvesse qualquer cantilena marcante para cantarolar.

Infelizmente, a partir desse momento, a trajectória dos Sitiados iniciaria uma pronunciada curva descendente, da qual não mais se recomporia. Apesar de participações honrosas em tributos a Zeca Afonso e António Variações, e de actuações que continuavam a cativar pela sua energia contagiante, ‘O Triunfo dos Electrodomèsticos’, lançado em 1995 (e segundo algumas opiniões cá de casa, o melhor disco da carreira do grupo) ficou aquém do sucesso estratosférico dos dois primeiros álbuns, e para os dois registos seguintes, a situação ainda se viria a agravar mais – ao ponto de duvidarmos bastante que alguém sequer soubesse que os Sitiados tinham lançado cinco álbuns, ou que tinham perdurado até ao virar do milénio! Nem mesmo a participação no disco de tributo aos Xutos & Pontapés, em 1999 (mesmo ano do último álbum, ‘Mata-me Depois’) ajudou a restituir visibilidade ao grupo, que se retirou discretamente de cena apenas um ano depois, para não mais ressurgir.

Dos membros originais, só Aguardela permaneceria (mais ou menos) na consciência colectiva nacional, graças a projectos como A Naifa e Megafone, embora nenhum deles tenha atingido sequer uma fracção do sucesso vivido pelos Sitiados no seu auge; a morte do líder absoluto em 2009 – vítima de um cancro, e com apenas 39 anos – poria um ponto final no legado daquela que foi uma das bandas mais conhecidas do início dos anos 90, mas que sofreu com o gosto volátil e efémero do público consumidor de música popular. Em suma - a Vida de Marinheiro pode não ter dado cabo deles, mas as modas deram.

Ainda assim, o grupo conseguiu gozar uma fama breve, mas mais merecida que a de muitos, e será para sempre lembrado nos anais da música portuguesa por duas grandes canções de folk-rock, que puseram o país inteiro a cantar nos primeiros anos da década…

19.07.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O conceito de ‘one-hit wonder’ – artistas que conseguem enorme sucesso com um determinado tema, sem nunca o conseguirem replicar durante o resto da sua carreira – é bem conhecido de qualquer fã de música contemporânea, tendo inclusivamente alguns representantes na própria cena musical portuguesa. Menos comum é observar esse fenómeno aplicado a um álbum inteiro, em vez de apenas uma ou duas faixas – e, no entanto, foi precisamente isso que aconteceu com os Silence 4, um quarteto de Leiria que passou de ser a maior banda de pop-rock portuguesa em 1998 a ver o seu segundo álbum ser completamente ignorado apenas dois anos depois, sem que houvesse qualquer explicação para esse fenómeno.

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Esta evolução descendente acentuada da carreira da banda torna-se ainda mais surpreendente quando nos recordamos de quão grandes eram os Silence 4 aquando do lançamento de Silence Becomes It. O álbum de estreia dos leirienses foi um sucesso de vendas quase inaudito em Portugal, especialmente para uma banda nacional, com as ‘músicas conhecidas’ a irem muito além dos singles – fenómeno que também não é habitual fora do contexto dos maiores artistas da História. Sim, havia ‘Borrow’ e ‘My Friends’, mas havia também ‘Dying Young’, ‘Old Letters’ e a ‘cover’ de ‘A Little Respect’,  dos Erasure, entre muitas outras músicas que certamente os leitores deste blog já estarão a trautear só de as relembrarem. Naquele Verão, os Silence 4 foram gigantes, como poucas bandas portuguesas não chamadas GNR ou Xutos & Pontapés conseguiram chegar a ser. O Silêncio virou mesmo 'It' - a nova moda, o novo som 'in'.

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E depois…

…depois, houve o esquecimento. Gravado em Londres, em condições bem mais profissionais do que o seu antecessor, Only Pain is Real, lançado apenas dois anos depois da hiper-bem-sucedida estreia, caiu num retumbante vácuo de indiferença – se é que vendas de Platina podem ser consideradas indiferença... Face á falta de sequer um ‘single’ de impacto, no entanto, a impressão que ficava era mesmo a de que já ninguém queria saber dos Silence 4 - o que não deixa de ser estranho, visto a sonoridade do grupo não se ter alterado minimamente desde aquele Verão louco de 1998. Antes pelo contrário – David Fonseca e os seus comparsas continuavam a praticar aquele mesmo pop-rock (com mais da primeira do que do último) movido a dualidade vocal masculina-feminina de Fonseca e Sofia Lisboa, e de espírito melancólico, sorumbático e fatalista, que tanto sucesso havia feito à época do lançamento da estreia.

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O que talvez tivesse, sim, mudado era o cenário musical nacional, com novos artistas a captar o interesse do público, e a relegarem os antigos heróis para uma posição de ‘velhas glórias’, apesar dos seus apenas quatro anos de vida. Assim, não é de todo surpreendente que um grupo que parecia ter tudo para dar luta a uns The Gift acabasse por se render à evidência e entrar num hiato voluntário.

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Este não seria, no entanto, o fim dos Silence 4. Apesar de David Fonseca ter aproveitado a oportunidade para se lançar numa carreira a solo (aliás, mais bem sucedida que a do próprio grupo) haveria ainda ensejo para o lançamento de um disco ao vivo (em 2004, quando a indiferença ainda reinava) e, em 2013, para uma reunião, ainda que fugaz, do quarteto original, a qual rendeu um segundo disco ao vivo - até à data, o último sinal de vida de um grupo cuja trajectória não pode deixar de suscitar perplexidade em quem a acompanhou. Mas pelo menos, enquanto ‘fritamos a moleirinha’ a pensar, afinal, o que terá acontecido aos leirienses, podemos fazer-nos acompanhar de uma banda sonora de luxo, e de indiscutível apelo nostálgico; e se não conseguirmos descortinar a resposta hoje, podemos sempre dizer, como David Fonseca, ‘I guess I’ll try again tomorrow…’

05.07.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última Quinta no Quiosque, recordámos a revista Super Jovem, uma pioneira das publicações de variedades para jovens nos anos 90. Nesse post, entre outras lembranças, foi feita menção dos excelentes brindes por vezes incluídos com a revista, dos quais um se havia destacado como particularmente memorável.

É, precisamente, desse brinde – ou antes, desses brindes – que falaremos nesta Segunda de Sucessos; porque a verdade é que, como uma rápida visita ao Google comprovará, os mesmos marcaram mesmo época junto dos fãs de música da época.

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Isto porque a referida colecção consistia, nem mais nem menos, do que de CDs de música, com o patrocínio da Frisumo - que, como era habitual neste tipo de iniciativas, reservava uma faixa no final do disco para o seu 'jingle' - cada um com entre uma a quatro músicas da autoria de uma banda portuguesa considerada em ascensão. Descritos pela própria revista como CDs single, estes discos acabavam, muitas vezes, por ficar mais próximo dos formatos ‘split’ ou EP, especialmente aqueles que incluíam mais do que uma banda.

Na verdade, e mais concretamente, os primeiros seis discos seguiam, na verdade, o formato single, com apenas uma música; os três seguintes apresentavam o formato ‘split’, os dois primeiros com dois artistas – cada um com duas faixas - e o terceiro (o nono da série) com três, cada um com uma faixa; por fim, o décimo e último disco constituía, para todos os efeitos, um EP próprio da banda em destaque, os cómicos pop Mercurioucromos, que surgiam com quatro temas, incluindo o então muito badalado ‘O Camionista Cantor’. No fundo, e apesar das discrepâncias de formato a partir de meio da colecção, uma excelente ‘montra’ para bandas aspirantes do panorama musical português.

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Exemplos da divisão de faixas de dois dos CDs da segunda metade da colecção

Talvez a melhor característica desta colecção de CDs fosse o facto de a Super Jovem não se cingir àquilo que podiam ser entendidas como as preferências do seu público-alvo; antes pelo contrário, a revista tentava, com esta série, agradar a um leque de leitores o mais vasto possível, apresentando bandas de todos os géneros e para todos os gostos. Era esta abrangência estudada que permitia ter, lado a lado, bandas de pop-rock como HuaHine, Linda Love Lace ou os referidos Mercurioucromos, ‘hard rockers’ como Alcoolémia e os heróis do ‘grunge’ tuga SG’s, colectivos de New Wave como Ruído Sónico, artistas mais ‘dançáveis’ como Ithaka e DJ Don Juan, e grupos de heavy metal ou até death metal (!) como os também heróis de culto Disaffected. A Super Jovem não brincou em serviço no que tocou a agradar a todos os públicos, e o esforço resultante terá apresentado a muitas crianças de dez anos a oportunidade de ouvir pelo menos uma música de death metal na vida; se gostaram ou não, já são ‘outros quinhentos’, mas o esforço, pelo menos, é louvável.

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Os dois últimos sobreviventes da nossa colecção pessoal

Enfim, independentemente de preferências musicais, esta colecção de CD’s (que vinha agarrada às revistas com plástico) terá sem dúvida sido marcante para qualquer criança ou jovem que tenha tido contacto com ela. Se, como nós, se contam entre esse número, deixem as vossas recordações nos comentários!

21.06.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No início desta semana desportiva, quando falámos sobre o Euro ’96, aludimos ao facto de o mesmo não ser, exactamente, um Euro normal. A febre inglesa pelo ‘seu’ Campeonato Europeu transformou aquilo que era só mais uma competição desportiva internacional – emocionante, sim, mas igual a tantas outras – naquilo a que os próprios britânicos chamariam ‘a big deal’.

Isto foi particularmente not]orio no campo do merchandising’, sendo que a competição de 96 viu serem lançados alguns produtos comemorativos oficiais, no mínimo, invulgares. Para além dos habituais cromos, copos e outros brindes do género, o Euro inglês foi o primeiro a ter um videojogo oficial (hoje prática comum, mas à época, um acontecimento inaudito) e continua, até aos dias de hoje, a ser o único a ter um CD de banda sonora oficial! É precisamente deste último – denominado ‘The Beautiful Game: The Official Soundtrack of Euro ’96 - que falamos neste post.

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Vendo bem, a ideia de um CD de banda sonora de um Euro jogado em Inglaterra – especialmente durante os anos 90 – não é, de todo, descabida. Afinal de contas, as Ilhas Britânicas viram surgir, através dos tempos, alguns dos mais excitantes artistas e grupos musicais de sempre - basta lembrarmo-nos da British Invasion ou do movimento ‘punk’, entre tantos outros. Ora, este disco foi lançado precisamente no auge de um desses movimentos, no caso a ‘Britpop’, que começara a popularizar-se um par de anos antes; assim, não é de estranhar que grande parte das mais de duas dezenas de artistas aqui incluídos façam parte desse movimento, caso dos Blur (cuja ‘Parklife’, sátira à falta de aspirações do britânico médio que, num golpe de ironia, virou um hino dos mesmos ao seu estilo de vida, é talvez a mais conhecida de entre as músicas aqui incluídas), Pulp, Teenage Fanclub ou The Boo Radleys.

'AAAAAALLLL THE PEEEOOOPLEEEE...SOOO MAAANYYY PEEEOPLEEEE...'

Não, o que verdadeiramente surpreende na selecção de músicas de ‘The Beautiful Game’ é o seu ecletismo, e o facto de haver por aqui bandas de movimentos tão díspares quanto a ‘new wave’ (New Order) ou a electrónica (Stereo MCs, Jamiroquai), o rock electrónico (Primal Scream ou Black Grape, que aqui surgem com um convidado de luxo na pessoa de Joe Strummer, líder dos Clash) ou o ‘trip-hop’ (Massive Attack, Olive.) Em comum, estas bandas só tinham mesmo o facto de virem das Ilhas Britânicas – e, no caso dos suecos Wannadies, nem isso! (A propósito, a sua ‘Might Be Stars’ é das coisas mais divertidas deste disco.)

A divertida 'Might Be Stars', dos Wannadies, únicos representantes estrangeiros neste disco

Em suma, uma selecção bem variada, com algo para todos os gostos (excepto, talvez, para os fãs de metal) e bem mais cuidada e curada do que se poderia esperar de um álbum deste tipo, com patronício de marca de bebidas e tudo.

Visto de 25 anos no futuro, ‘The Beautiful Game’ é uma verdadeira ‘cápsula do tempo’ que nos transporta até à Grã-Bretanha de meados dos anos 90, ao som de algumas das bandas mais populares da altura, e sem sequer precisar do contexto específico do campeonato – ainda que algumas músicas mencionem o futebol (em particular ‘Parklife’ e a final ‘Three Lions’, adoptada como cântico oficial pelos fãs ingleses devido ao seu refrão de ‘football’s coming home, it’s coming home, it’s coming!’) a maioria pode ser ouvida e apreciada por si só.

Agora já sabem de onde vem o cântico...

Por isso, se gostam de Britpop, rock alternativo ou electrónica, fica a dica – há coisas bem piores do que este peculiar produto de ‘merchandising’ futebolístico...

24.05.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E dado que desde o início desta rubrica temos vindo a falar sobretudo de movimentos e estilos musicais – quer nacionais, como o ‘pimba’, quer importados, no caso do europop ou do rock alternativo – nada mais justo do que abordarmos, esta semana, um movimento que teve um enorme ‘boom’ em território nacional precisamente nos anos 90.

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Falamos, é claro, do pop-rock, estilo que viu alguns dos seus principais representantes nacionais de décadas anteriores entrar em fases de declínio de carreira durante a última década do século XX (casos dos Xutos & Pontapés, GNR, Rui Veloso ou UHF, entre outros) mas assistiu ao nascimento e consolidação de popularidade de outros tantos artistas e colectivos, alguns dos quais relevantes ainda hoje, quase trinta anos após o seu aparecimento. Os anos 90 foram, por exemplo, a década dos Sitiados, Silence 4, Mão Morta, Ornatos Violeta, Pólo Norte, Rádio Macau, Três Tristes Tigres, Quinta do Bill, Pedro Abrunhosa, Clã ou The Gift, entre muitos outros - isto, claro, sem esquecer bandas que transitavam da década anterior ainda no auge da sua forma, como era o caso dos Delfins ou Madredeus. Um verdadeiro panteão de nomes sonantes da música portuguesa, que fazia as delícias de qualquer melómano adepto das vertentes mais melódicas da música ‘de guitarras’.

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Alguns dos muitos artistas pop-rock portugueses de finais do século XX

Um dado curioso é que muitos destes grupos contavam com vocalizações femininas, fossem principais ou secundárias. Clã, Três Tristes Tigres, Rádio Macau, Entre Aspas, The Gift e Madredeus contavam todos com vocalistas femininas, algumas delas figuras bem populares e influentes da cena musical da época, como Xana e Viviane; dos restantes, os Silence 4 também contavam com vozes de apoio femininas (numa dinâmica muito semelhante à dos Pixies, com as devidas distâncias) e os Sitiados tinham em Sandra Baptista a sua segunda figura central, embora esta última não cantasse. Isto sem esquecer, é claro, as duas finalistas do Festival da Canção mais famosas da era pré-Salvador Sobral: Sara Tavares e Anabela (a sério, conseguem nomear o finalista de algum ano sem ser 1993 e 1994?) Enfim, uma excelente representatividade para o sexo feminino, que conseguia tão ou mais sucesso que os grupos e artistas masculinos.

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Quem se lembra?

No cômputo geral, pois, os anos 90 não podem saldar-se como nada menos do que uma década fantástica para a música pop e rock portuguesa – quer em termos comerciais, quer criativos. Bebendo das bases cimentadas na década anterior, os artistas que entraram em voga durante os 90s viriam, eles próprios, a erigir muitas das fundações que informariam a música portuguesa na década seguinte, e um pouco até aos dias de hoje, tornando a última década do século XX uma das melhores de sempre para se ser fã de música em Portugal.

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