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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

23.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No dealbar do ano de 1998, um álbum dominava os tops nacionais de música – um álbum que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos de sempre, atingindo uma impressionante quádrupla platina. Tratava-se de 'Saber A Mar', sexto trabalho de originais de um dos grupos favoritos dos adolescentes portugueses das décadas de 80 e 90: os icónicos Delfins.

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De facto, apesar de o referido trabalho os ter catapultado para todo um novo nível de sucesso, os Delfins contavam já com mais de uma década 'na ribalta' aquando do seu lançamento em 1996, sendo um dos nomes mais sonantes da vaga de 'pop-rock' surgida no nosso País durante essas duas décadas ao lado de nomes como Xutos & Pontapés, GNR e Rádio Macau, com os quais partilhavam características como as letras em português e o registo distinto do seu vocalista, o 'bonitão' Miguel Ângelo, também integrante do projecto Resistência. 'Hits' como 'Nasce Selvagem' e 'Um Lugar ao Sol' garantiam ao grupo presença assídua nas principais estações de rádio da época, e ajudavam a manter o colectivo no 'radar' cultural nacional.

O sucesso da banda não se cingia, aliás, aos territórios nacionais, sendo que, por alturas do lançamento do trabalho em causa, o grupo português havia já realizado espectáculos na Expo '92, em Espanha, na sala Zénith, em Paris, e na prestigiada Brixton Academy, de Londres; já dentro de portas, o grupo esgotava concertos por onde passava, fosse a abrir para Tina Turner em Alvalade,, a inaugurar 'de surpresa' o icónico Johnny Guitar ou a 'aquecer' literalmente a plateia no tradicional espectáculo de Ano Novo no Terreiro do Paço, todos em 1990. O Pavilhão Carlos Lopes, a Festa do Avante e o Coliseu dos Recreios de Lisboa foram alguns dos outros icónicos certames a presenciar a ascensão do grupo ao panteão do 'pop-rock' nacional durante aquela que foi a sua época de afirmação definitiva – e que, como já foi referido, acabaria em apoteose, com Miguel Ângelo e companhia a bater recordes de vendas com o seu sexto álbum, a tocarem na Expo '98 e a consumarem a tentativa de internacionalização com um álbum de temas adaptados para o Espanhol ('Azul', de 1998), já depois de o seu líder ter participado, como juiz, no mega-sucesso da SIC, 'Chuva de Estrelas', e dado a voz ao cowboy Woody na excelente dobragem nacional de 'Toy Story - Os Rivais', em 1995.

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Capa do grande êxito do grupo.

Infelizmente, esta tendência não se manteria no Novo Milénjo – apesar dos lançamentos regulares e consistentes (entre álbuns de originais, ao vivo, colectâneas e DVDs, foram onze registos) e da manutenção de um público fiel que 'crescera' com eles, a banda não mais veria os níveis de sucesso atingidos por volta de 1997, inserindo-se antes na categoria de 'instituição nacional', ao lado da maioria dos grupos da mesma vaga. Ainda assim, o estatuto do grupo ainda lhes permite viajar até ao Canadá e a Macau, tocar num cruzeiro em Marrocos, participar na segunda edição do concurso 'Operação Triunfo', e actuar em locais tão icónicos da Grande Lisboa como o Casino Estoril e o Centro Cultural de Belém, bem como no Rivoli do Porto.

Mesmo com toda esta projecção – ou talvez por causa dela – o grupo surpreendia a cena musical portuguesa ao anunciar um hiato, em 2009 – o qual acabaria por durar uma década, tendo a banda cascalense voltado a reunir-se em 2019 para um concerto nas Festas do Mar de Cascais, e celebrado no ano seguinte os quarenta anos de carreira; e embora, a este ponto, o futuro dos Delfins permaneça incerto, a sua trajectória já mais que justificou o seu estatuto de 'lendas' da música portuguesa – para o qual o álbum mais vendido em Portugal no ano de 1997 contribuiu de forma definitiva...

09.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Depois de na passada edição desta rubrica termos verificado a prevalência de um disco sobre todos os outros no que toca a volumes de vendas durante o ano de 1992, nada melhor do que dedicarmos algumas linhas ao grupo que os lançou, e que constituiu talvez o primeiro 'supergrupo' cem por cento português, anos antes dos Rio Grande: o projecto Resistência.

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Centrado em torno de Pedro Ayres de Magalhães, guitarrista dos Madredeus, este projecto reuniu músicos de várias das maiores bandas do cenário musical português, com ênfase no pop-rock, mas aberto também a outros estilos. A formação inicial, por exemplo – a que participou numa sessão experimental durante a Feira do Livro de Lisboa de 1989 – contava com a colega do fundador nos Madredeus, Teresa Salgueiro, ao lado de Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, e Filipa Pais, então dos Lua Extravagante.

As 'senhoras' acabariam, no entanto, por não colaborar com o músico além dessa sessão (se descontarmos, claro, a carreira dos próprios Madredeus), sendo substituídas por um elenco de luxo: Tim (dos eternos Xutos), Miguel Ângelo (dos então super-populares Delfins) e um ainda desconhecido Olavo Bilac, ainda a um par de anos de explodir com os Santos & Pecadores, bem apoiados por uma banda onde se destacavam Fernando Cunha (também dos Delfins) José Salgueiro (dos Trovante) e o veterano guitarrista-acompanhante Fernando Júdice (mais tarde também dos Madredeus).

Seria com este alinhamento que a banda viria a lançar o álbum que dominou as vendas fonográficas em Portugal em 1992, mas que na verdade foi composto e lançado no ano anterior – a estreia 'Palavras ao Vento', cujo alinhamento é um verdadeiro desfilar de êxitos dos músicos envolvidos, de 'Nasce Selvagem' e 'Não Sou o Único' (estrondosa duologia de abertura) ao final com 'Circo de Feras'. O denominador comum em todas estas regravações era uma maior ênfase na voz por oposição à tradicional estrutura pop-rock, uma proposta que acabava por diferenciar o grupo das bandas originais dos seus integrantes, e que contribuiu para o seu considerável, ainda que breve, sucesso.

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A estrondosamente bem-sucedida estreia do grupo.

O êxito de 'Palavras' motivou o grupo à gravação, ainda em 1992, de um segundo álbum, o também excelente 'Mano A Mano', que contava com novas versões de músicas como 'Um Lugar ao Sol', 'Amanhã É Sempre Longe Demais', 'Traz Outro Amigo Também' (de Zeca Afonso) e a pré-memética 'Timor', que qualquer 'puto' da época cantava no tom mais gozão possível para divertir os amigos no recreio.

600x600bf-60.jpgO segundo álbum do grupo.

Mais uma vez, o sucesso foi considerável, e no ano seguinte (há pouco menos de trinta anos) era lançado um disco ao vivo do grupo, 'Ao Vivo no Armazém 22', que incluía algum material original em meio às versões. Ainda em 1993, o grupo é convidado a participar no primeiro espectáculo 'Portugal Ao Vivo', com lugar no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

ed169702341bb7ca4b0e2bda4a863eed.1000x1000x1.jpgO registo ao vivo de 1993

Com tanto sucesso e procura, nada fazia prever o fim dos Resistência – e, no entanto, foi precisamente isso que sucedeu. O grupo ainda participaria em discos de tributo a Zeca Afonso e António Variações (ambos de 1994), mas o contratualizado quarto álbum para a BMG nunca se chegaria a materializar, sendo que o grupo se viria a dissolver em 1995, quando os músicos decidiram prioritizar os seus projectos de origem.

Mas como na música – tal como na banda desenhada – ninguém nunca 'desaparece' de vez, também os Resistência se viriam, eventualmente, a reunir, ainda que tal efeméride viesse a demorar nada menos do que dezassete anos. Foi em 2012 que o lançamento de uma colectânea e um par de concertos de celebração de vinte anos, em Lisboa e Guimarães, dariam azo a uma mini-turnê, com passagem por mais uma edição do Portugal ao Vivo, desta vez no Estádio do Restelo, também em Lisboa. Dois anos volvidos, aquilo por que já ninguém esperava viria mesmo a acontecer: saía o quarto álbum dos Resistência, intitulado 'Horizonte' e lançado na editora de sempre, a BMG. A premissa, essa, era exactamente a mesma que fizera o sucesso do grupo duas décadas antes: novas versões de músicas de grupos como Madredeus, Rádio Macau, Delfins e Xutos.

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O álbum de regresso do grupo.

Estava dado o mote para um ressurgimento de carreira que – até à data – inclui mais dois álbuns de estúdio (em 2018 e 2019) e dois ao vivo (em 2016 e 2020), provando que a 'primeira vaga' de pop-rock nacional, e respectivos intérpretes, continuam a ter um mercado bem definido, o qual, por comparação aos próprios músicos que compõem esse movimento, nada fica a dever em Resistência...

26.12.22

NOTA: As informações contidas neste 'post' têm por base dados recolhidos do 'blog' Topdisco.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

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Numa altura em que a época natalícia está oficialmente encerrada (ou quase) e em que se caminha a passos largos para o final de mais um ano, achámos por bem embarcar na habitual maré de estimativas, listas e somatórios totais de tudo e mais alguma coisa, ainda que, naturalmente, com o nosso próprio traço distintivo - no caso, o facto de estarmos a analisar os 'tops' musicais nacionais não do ano que ora finda, mas de há, respectivamente, três décadas e um quarto de século (1992 e 1997).

Como se poderá decerto imaginar (sobretudo se se viveu a respectiva era temporal) ambas estas listas são significativamente diferentes, não só das actuais, mas até mesmo entre si; numa época em que a passagem de meia dúzia de anos implicava tendências por vezes diametralmente opostas, não é, de todo, de admirar que as mesmas se reflictam no tipo e volume de discos vendidos nos dois anos em análise. O que, sim, surpreende, são certas outras 'nuances' que se percebem ao analisar os 'tops' lusos de finais do século XX, e que talvez se afirmem como inesperados para os membros mais novos ou distraídos da geração daquele tempo.

O top de 1992, por exemplo, revela a força e influência que a música portuguesa tinha naquela que era uma das suas épocas áureas - suficientes, neste caso, para fazer com que o colosso 'Nevermind', dos Nirvana, fosse destronado não por um, mas por DOIS lançamentos nacionais, que tomavam para si os dois primeiros lugares da parada daquele ano: por um lado, 'Palavras ao Vento', do supergrupo Resistência, e por outro, o histórico 'Rock In Rio Douro', dos GNR cuja popularidade fora cimentada pelo bombástico e memorável concerto dado pelo grupo no antigo Estádio de Alvalade, em Abril daquele ano (ambos, aliás, lançamentos a que, paulatinamente, daremos atenção neste mesmo espaço.)

Atrás destes dois marcos do pop-rock nacional (e do ainda mais marcante documento histórico de Cobain e companhia) perfilavam-se discos de alguns dos 'suspeitos do costume' da época, dos Scorpions, Simply Red e Guns'n'Roses (todos então ainda em alta) aos 'recuperados' ABBA e Queen (que surgiam em dose dupla, com o excelente 'Greatest Hits II', uma das melhores colectâneas de rock de sempre, e o não menos clássico 'Live at Wembley '86'); e apesar de nenhum dos outros oito representantes da lista ser oriundo de Portugal, nada pode retirar aos dois grupos do topo a sensação de triunfo e 'conquista' do seu próprio país, bem como de 'dever cumprido' na prossecução de um marco histórico para a música portuguesa.

O triunfo da língua portuguesa sobre propostas internacionais cantadas em inglês é, aliás, uma característica em comum entre as duas tabelas em análise, já que também o 'top' de 1997 apresenta o padrão de dois discos lusos situados acima de um 'colosso' de vendas oriundo do estrangeiro. Neste caso, os dois 'conquistadores' são 'Quase Tudo' de Paulo Gonzo - cujo sucesso foi, em grande parte, movido pelo sucesso retumbante da regravação do mega-êxito 'Jardins Proibidos', ao lado de Olavo Bilac, dos também mega-populares Santos e Pecadores - e 'Saber A Mar', dos perenes Delfins, ambos os quais se superiorizaram, em território luso, ao fenómeno Spice Girls, cujo histórico álbum de estreia não logrou ir além do terceiro lugar.

Já as restantes posições reflectiam um domínio ainda maior da música portuguesa em relação a cinco anos antes, já que - além dos dois artistas de topo - também o super-projecto Rio Grande e o malogrado António Variações se lograram 'imiscuir' no top, onde a língua portuguesa era, ainda, representada pela brasileira Daniela Mercury, cujo clássico 'Feijão com Arroz' continuava, um ano depois, a mover unidades no mercado nacional. Do contingente internacional, além do 'girl group' britânico, marcavam presença na tabela Andrea Bocelli (uma daquelas 'anomalias' que por vezes acontecem no mercado 'pop'), os rapidamente esquecidos Kelly Family, e a 'resposta' masculina às Spice Girls, os Backstreets Boys, que davam então os primeiros passos daquilo que seria uma célere e bem-sucedida caminhada rumo ao mega-sucesso internacional.

Duas listas muito diferentes, portanto, mas que continham, ainda assim, um ponto em comum - a presença de (boa) música portuguesa entre os maiores sucessos de vendas, uma tendência que se viria a verificar progressivamente menos com o passar dos anos e das décadas. Também por isso, os dois tops servem como uma interessante 'cápsula temporal' das sociedades portuguesas de inícios e finais dos anos 90, tão diferentes entre si como o são da actual - e não apenas no mundo da música...

19.11.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

A explosão dos movimentos pop-rock e alternativo nas décadas de 80 e 90 (já aqui documentada em vários dos nossos posts anteriores) levou, lógica e previsivelmente, ao aparecimento de inúmeros espaços (a maioria, também naturalmente, nas áreas urbanas de Lisboa e Porto) onde os fãs destes estilos se podiam juntar para ouvirem o tipo de som da sua preferência, sempre devidamente acompanhado de alguns comes e muitos bebes, ou não se estivesse em Portugal. E se, na década seguinte, ganhariam proeminência e relevância salas como o Paradise Garage, em Lisboa, ou o seu congénere portuense, o Hard Club, nos anos 90 o destaque nesse campo pertencia a espaços como o Dramático de Cascais, ou o estabelecimento de que hoje falamos, o Johnny Guitar.

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Sala mítica da Lisboa dos noventas, sobretudo para quem gostava de um som mais voltado ao 'punk', rock alternativo e até heavy metal, o espaço inaugurado há quase exactos trinta e dois anos (a 7 de Novembro de 1990) por Zé Pedro (dos Xutos & Pontapés), Alex e Kalú (dos Rádio Macau) como 'substituto' para o lendário e malogrado Rock Rendez-Vous conseguiu, nos seus poucos anos de existência, deixar o mesmo tipo de marca na sociedade lisboeta, e sobretudo na sua juventude, que o seu antecessor, tornando-se A sala de referência, por excelência, para concertos de bandas dos estilos supramencionados. Pelo palco do pequeno mas carismático espaço da Calçada Marquês de Abrantes passaram nomes tão díspares como Peste & Sida, Ramp, Pop Dell'Arte, e até Jorge Palma (na sua encarnação mais 'alternativa' como Palma's Gang) ou uns Da Weasel ainda com um som mais puramente hip-hop e letras em inglês; no total, em escassos quatro anos de existência, o mítico espaço albergou mais de quinhentos espectáculos, tendo alguns dos artistas que ali tocaram, inclusivamente, ficado imortalizados no CD 'Johnny Guitar Ao Vivo em 1994, Vol. I', bem como no álbum ali gravado pelo Palma's Gang.

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Os dois álbuns alusivos ao espaço.

Infelizmente, antes que pudesse ser compilado um segundo volume desta colectânea, o bar e sala de espectáculos de Zé Pedro, Alex e Kalú viu-se obrigado a encerrar portas, como consequência de repetidas queixas relativas ao ruído e volume da música que ali se ouvia: uma perda de vulto para a juventude 'roqueira' nacional, que se via assim privada de uma das muito poucas salas declaradamente dedicadas a um som mais barulhento e menos comercial. Fica, pois, a homenagem possível a uma sala que, imagina-se, terá sido marcante na juventude de alguns dos leitores mais velhos deste blog, a quem convidamos a deixarem quaisquer testemunhos sobre o espaço na nossa caixa de comentários.

14.11.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E porque um dos discos mais importantes da maior e mais duradoura instituição do pop-rock português completou há duas semanas exactos trinta anos (e por, nessa Segunda, termos estado ocupados a celebrar o Halloween falando dos 'bruxos' Moonspell), nada mais justo do que lhe dedicarmos algumas linhas deste nosso espaço sobre música marcante da nossa época.

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Falamos de 'Dizer Não de Vez', o primeiro de quatro discos lançados durante a última década do século XX pelos lendários Xutos & Pontapés, à época já nome maior do rock português (com orçamento e liberdade criativa a condizer) mas ainda com as ganas e a 'pica' que viriam, drástica e dramaticamente, a perder na época seguinte. E é precisamente essa conjugação de experiência e genica que faz do disco de 1992 (bem como do seu sucessor, lançado no ano seguinte) uma das melhores obras na vasta discografia do conjunto lisboeta, reconhecida como tal mesmo entre os fãs da época, que levaram o single 'Chuva Dissolvente' ao primeiro lugar do 'top' nacional de singles. E com razão - inicialmente concebido para ser um álbum duplo (mais tarde dividido em dois por imposição da Polygram, numa obrigação contratual pouco apreciada pelo quinteto mas que acabou por lhe render dois sucessos de vendas, em vez de apenas um em formato duplo) 'Dizer Não de Vezº é um álbum absurdamente homogéneo, repleto de uma ponta à outra com o estilo de 'malhas' a que os Xutos já vinham habituando os ouvintes de 'rock' comercial 'made in Portugal'. Temas como o supracitado 'Chuva Dissolvente', 'Hás-de Ver', o psicadélico 'Lugar Nenhum', os resquícios da fase 'punk' 'Dia de S. Receber' (a melhor do disco) e 'Lei Animal', ou o encerramento com o bem típico 'O Que Foi Não Volta a Ser' tornam este álbum de aquisição obrigatória, não só para admiradores do grupo, mas também por quem queira saber a que soa o bom 'pop-rock' português de cunho clássico.

Assim, e apesar de o grupo considerar que a divisão de temas com 'Direito ao Deserto' influenciou negativamente o produto final em termos de alinhamento e conceito, 'Dizer Não de Vez' afirma-se como obra absolutamente essencial, não só no cômputo da discografia dos Xutos, como do pop-rock noventista português (nem mesmo o próprio grupo a conseguiu jamais suplantar em qualquer momento posterior) e merecendo bem esta homenagem (ainda que atrasada) no mês do seu trigésimo aniversário.

 

03.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em edições anteriores desta mesma rubrica, temos vindo a falar de alguns dos nomes mais incontornáveis da explosão pop-rock portuguesa dos anos 90; esta semana, chega a vez de juntar mais um nome a essa lista, nomeadamente um que pecava por omissão nas páginas deste blog, pela influência que teve sobre as ondas de rádio de finais do século XX e inícios do XXI.

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Falamos dos conimbricenses Clã, o seminal conjunto fusionista que tem na voz de Manuela Azevedo o seu principal factor distintivo, e na experimentação inter-estilística o seu principal trunfo. Formados em 1992 (quando Manuela Azevedo ainda sonhava trabalhar em Direito, área em que estudava), a banda viria a alcançar o estatuto de que ainda hoje gozam cerca de meia década depois, através dos seus três primeiros álbuns, 'LusoQUALQUERcoisa' (estilizado assim mesmo, e lançado em 1996), 'Kazoo' (do ano seguinte) e 'Lustro' (de 2000); e se seria de 'Kazoo' que sairia aquela que se tornaria a música-estandarte do grupo, e um dos maiores sucessos portugueses de finais da década de 90 - 'Problema de Expressão' – seria com 'Lustro' que os Clã cimentariam o seu lugar no topo da hierarquia do pop/rock de fusão português, saindo vencedores em três das categorias dos Prémios Blitz desse ano, incluindo as de Melhor Banda Nacional e Melhor Álbum Nacional – um feito que, à época, era suficiente para lhes conferir o estatuto de 'semi-deuses' da música portuguesa.

Longe de descansar à sombra desses louros, no entanto, a banda continuou a desbravar caminho nos primeiros anos do novo milénio, colaborando com Sérgio Godinho num álbum ao vivo, 'Afinidades', e aceitando mesmo compôr uma banda sonora para um filme mudo – no caso o seminal 'Nosferatu', de F. W. Murnau, pioneiro dos 'filmes de vampiros' lançado em 1922 – como parte da iniciativa 'Porto 2001 – Capital Portuguesa da Cultura'. Três anos depois, saía 'Rosa Carne', quarto álbum do grupo, cuja recepção foi tão entusiástica quanto a dos três anteriores, sendo mesmo considerado um dos discos mais importantes da 'cena' portuguesa de 2004. No ano seguinte, saía o primeiro vídeo do grupo, 'Gordo Segredo', e um segundo disco ao vivo, desta feita uma edição dupla.

Daí em diante, os lançamentos continuaram a surgir a bom ritmo, tendo o grupo lançado mais seis álbuns de originais nos últimos quinzo anos, e conseguido manter a sua posição de destaque no panorama pop português, agora alicerçado na experiência e veterania de que o colectivo já goza. Para ouvintes mais 'casuais', no entanto, os Clã continuam, essencialmente, a ser 'aquela' banda que tocava 'Pois É!' e 'Problema de Expressão' na rádio, há vinte e muitos anos – o que, mesmo assim, é um legado mais honroso do que o de muitas bandas tão ou mais duradouras do que os conimbricenses...

08.08.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quem foi jovem durante os primeiros anos do novo século e milénio certamente terá uma relação muito especial com os festivais de Verão, verdadeiros locais de 'romaria' para fãs de música autêntica e de qualidade, independentemente do género. Só os nomes já são suficientes para causar nostalgia em qualquer ex-'puto' que tenha ido, ou querido ir, a um destes certames: Super Bock Super Rock, Ilha do Ermal, Vilar de Mouros, Paredes de Coura, e aquele sobre o qual nos debruçamos na Segunda de Sucessos de hoje, e cuja edição transacta, realizada este fim-de-semana, marcou os seus vinte e cinco anos de existência – o Festival do Sudoeste.

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A primeira edição do Festival, realizada em 1997

Realizado anualmente na localidade de Zambujeira do Mar, na região de Odemira, no Alentejo, o agora intitulado MEO Sudoeste (o quarto patrocínio do certame em vinte e cinco anos, após TMN, Optimus e a Sagres dos primórdios) inseria-se, inicialmente, na franja mais 'roqueira' do espectro dos festivais de Verão portugueses - sem nunca ser tão declaradamente pesado ou 'metaleiro' como o seu extinto congénere da Ilha do Ermal, o certame reservava, no entanto, a grande maioria do seu cartaz para artistas do espectro do 'rock', tanto comercial como alternativo; e embora, na última década, o foco se tenha gradualmente voltado para a 'pop', para o 'hip-hop' e para a música de dança, é provável que quem visitou o festival nos seus tempos áureos o recorde mesmo como um evento centrado no 'rock', com cabeças de cartaz do calibre de Marilyn Manson, Faith No More, Oasis, The Cure, Sonic Youth ou até Sepultura.

Foi, aliás, precisamente a Brian Hugh Warner (vulgo Marilyn Manson) e à sua banda homónima que couberam as honras de encabeçar o segundo dia da primeiríssima edição do festival, que contou ainda com a participação dos inevitáveis Xutos & Pontapés (que, à época como hoje em dia, dificilmente deixam de estar presentes algures no cartaz de qualquer evento sequer remotamente ligado ao 'rock' realizado em Portugal) e dos então também 'em alta' Blasted Mechanism, entre outros; já os restantes dois dias do festival tinham como cabeças-de-cartaz, respectivamente, as então 'coqueluches' da cena Britpop, Blur (que abriam o festival juntamente com, entre outros, as 'riot grrrls' Veruca Salt, os metaleiros Anger, os indefiníveis Bizarra Locomotiva e a 'instituição' do pop-rock nacional, Entre Aspas) e aos Suede, que alinhavam ao lado de dEUS, Rio Grande, Cool Hipnoise ou Turbojunkie para proporcionar um dia de encerramento tão ecléctico como os dois anteriores, e com alinhamento não menos de luxo.

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O cartaz completo da edição inaugural do certame

De facto, essa primeira edição do Sudoeste estabeleceu, desde logo, uma característica que se estenderia à maioria, senão totalidade, dos festivais de Verão das décadas seguintes – nomeadamente, o facto de a organização ter assegurado que os pagantes tiravam o devido proveito do preço do bilhete, quer o mesmo fosse válido apenas para um dia, quer para dois ou até todos; quem esteve no Sudoeste '97 teve direito a três grandes cartazes - uma tendência que se manteria mesmo depois de o festival ser alargado para quatro dias, já no novo milénio, e que ajudaria a que o festival, e a localidade de São Teotónio, se tornassem num dos pontos de referência dos melómanos portugueses durante os meses de Verão durante o quarto de século seguinte, com que nem a pandemia de COVID-19 conseguiu acabar. Parabéns, Sudoeste – e que ainda contes muitos!

 

25.07.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa em colectâneas disponíveis em Portugal na década de 90, os títulos que tendem, imediatamente, a vir à memória são, sobretudo, os das lendárias séries Electricidade (da Rádio Cidade) e Now! That's What I Call Music, que – entre elas – ajudaram a moldar o gosto musical de muitos jovens da época. No entanto, estas estavam longe de ser as únicas representantes desse tipo de lançamento; pelo contrário, o mercado fonográfico português viu vários outros títulos deste tipo surgir nos escaparates ao longo dos últimos dez anos do século XX, contando-se entre as mais memoráveis 'The Beautiful Game' (a colectânea do Euro '96, de que já aqui falámos) 'Fido Apresenta Número 1' (da qual, paulatinamente, aqui falaremos) e a dupla de que falamos hoje, intitulada 'Street Sounds From Sony'.

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Compostos por uma ecléctica mistura de europop, pop rock, hip-hop e electrónica, os dois volumes da série foram lançados em anos consecutivos de meados da década pela fabricante japonesa - quando a mesma ainda era associada, sobretudo, a produtos áudio, e não tanto a consolas -  e incluídos, a título de oferta, na compra de um dos sistemas de som portáteis da marca, os carinhosamente apelidados 'tijolos', presumivelmente como método para comprovar as capacidades reprodutivas dos mesmos - por aqui, por exemplo, recebeu-se o segundo volume, de 1995, ano em que surgiu lá por casa o primeiro destes aparelhos. Assim, quem adquirisse uma 'boombox' da marca não só passava a ser dono de uma excelente 'fábrica de produção de mixtapes' como de uma espécie de 'mixtape oficial', seleccionada e curada pela própria Sony Europa (a compilação é de origem holandesa), o que não deixava de ser um atractivo de peso no momento da decisão sobre que fabricante escolher, independentemente de se ser ou não fã dos artistas incluídos.

E por falar nestes, os mesmos serviam de exemplo quanto à diversidade do catálogo do braço editorial da companhia à época, incluindo nomes tão díspares como Cypress Hill, Alice in Chains, Meatloaf ou uma Celine Dion pré-fama interplanetária (no primeiro volume) e Bad English, The Jacksons, Toto, Cyndi Lauper ou Apollo 440 (no segundo); curiosamente, ambos os discos incluíam ainda músicas de Culture Club e Gloria Estefan, os únicos dois 'repetentes' entre volumes. No total, eram vinte e nove faixas (catorze no primeiro volume e quinze no segundo) que só deixavam mesmo de fora os estilos mais pesados, sendo que até mesmo as lendas do 'grunge', Alice in Chains, surgiam com um dos seus temas em registo mais acústico e acessível, no caso 'No Excuses'; de resto, havia mesmo algo para todos os gostos, sendo provável que a maioria dos jovens que adquirisse um destes CD's encontrasse, pelo menos, um par de faixas que fosse do seu agrado.

Em suma, apesar de algo limitados pelo conceito e editora, estas duas colectâneas não deixavam de cumprir com louvor a sua função de apresentar a uma nova audiência alguns dos principais artistas dos respectivos anos, bem como de anos transactos – o que, associado ao seu cariz promocional e de oferta, os terá certamente tornado parte muito apreciada das colecções de CD de muitos jovens lusitanos da época. Por aqui, pelo menos numa primeira fase, era certamente esse o caso...

04.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última edição desta rubrica, falámos de 'Jardins Proibidos', a omnipresente balada que catapultou Paulo Gonzo para o sucesso estratosférico não uma, mas duas vezes durante os anos 90; ora, a segunda versão dessa balada – aquela que muitas crianças e jovens da época terão passado mais de um ano a cantar a qualquer oportunidade – trazia o intérprete original em dueto com outra então mega-estrela do pop-rock 'meloso' nacional. É dele, e da respectiva banda, que falaremos esta semana.

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Formados numa garagem em Talaíde, concelho de Cascais, Lisboa, ainda na década de 80, os Santos & Pecadores – Olavo Bilac (voz), Artur Santos (baixo), Pascoal Simões (teclas), Pedro Cunha (bateria) e Rui Martins (metais) - tinham, inicialmente, uma proposta algo mais voltada para o rock de tendências 'funky'; no entanto, aquando da 'explosão' na década seguinte - após a participação do seu vocalista no projecto Resistência, um supergrupo português do qual um dia aqui falaremos - a banda (já reforçada pelo guitarrista Pedro Almeida) apresentava um som significativamente mais leve e ligeiro, assente numa base pop-rock bem típica do período, à qual se juntavam toques 'soul', sobretudo oriundos das emotivas interpretações vocais de Olavo Bilac, o tal comparsa de Paulo Gonzo na versão de 1998 do mega-hit deste último.

E o mínimo que se pode dizer é que esta abordagem rendeu dividendos – 'Onde Estás?', o álbum de estreia do grupo lançado em 1995, foi um sucesso de vendas, muito por conta do 'single' 'Não Voltarei a Ser Fiel' - ainda hoje a música mais conhecida do grupo, a par da mais tardia 'Fala-me de Amor' - e da participação (por alguma razão desconhecida) da apresentadora televisiva Catarina Furtado. Nascia mais uma estrela em ascensão no então incandescente universo pop-rock português.

A música que ajudou a popularizar o grupo

Com tal sucesso logo à partida, podia-se esperar que os Santos & Pecadores fossem 'sol de pouca dura'; o grupo conseguiu, no entanto, contrariar essas previsões, lançando um segundo álbum três anos depois ('Love', de 1998) e, daí, partindo para uma carreira que duraria até 2014 e renderia mais cinco álbuns de estúdio, dois ao vivo, e duas colectâneas – nada mau, para quem dava todo o ar de vir a ser apenas mais um nome a juntar à longa lista de  'one-hit wonders' noventista...!

Infelizmente, a história dos Santos não tem um final feliz; em 2020, a banda demarca-se do vocalista Bilac após este ter aceite o convite para actuar num comício do controverso partido português Chega!, e no ano seguinte, em Maio, o membro fundador Rui Martins, responsável pelos metais, morre vítima de acidente de trabalho, após cair de um telhado em Santarém. Juntos, estes dois factores terão ditado o fim definitivo dos Santos & Pecadores, um daqueles grupos icónicos e inescapáveis da música radiofónica portuguesa dos anos 90 que se verifica, com alguma surpresa, terem durado bem mais do que apenas aquele momento inicial...

21.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando amanheces

Logo no aaaaarrr

Se agita a luz, sem querer

E MESMO O DIA!

VEM DE-VA-GAR!

PA-RA-TE-VE-EEEERRR...

Quem, nos anos de 1992 ou 1997, não cantou estas mesmas palavras (ou outras aproximadas), com estes mesmos arroubos e ênfases, e numa voz pseudo-rouca a tentar imitar – e, ao mesmo tempo, gozar com - a do cantor original, está neste momento no blog errado, pois será quase de certeza demasiado velho ou demasiado novo para ter vivido o momento específico a que o mesmo se refere.

Os outros, aqueles que se lembram do quão enorme foi a música a que esta letra se refere, certamente já pararam de ler durante uns momentos para completar a sua rendição da mesma, com o 'exagerómetro' ainda mais declaradamente no máximo – a única maneira aceitável de se cantar esse clássico da radiofonia 'brega' noventista chamado 'Jardins Proibidos'.

Sim, esses mesmos – os que deram título a uma das primeiras grandes telenovelas 'made in Portugal', e que mesmo antes disso já haviam ganho um segundo fôlego derivado de uma re-gravação em formato de dueto, com o cantor original Paulo Gonzo a fazer parelha com Olavo Bilac, dos na altura não menos enormes Santos & Pecadores. É essa, aliás, a versão que a maioria das crianças em idade escolar na metade final dos 90's recordará, e terá parodiado vezes sem conta no pátio da escola – até por a mesma ter sido um dos temas mais tocados nas rádios portuguesas durante esse ano, tendo como único rival 'Dei-te Quase Tudo', tema interpretado por....Paulo Gonzo!

E já ren-di-do

Vê-te-che-gaaaaar

Nesse ou-tro mun-do

Só teu

Onde-eu-que-RIA!

En-trar-um-DIA!

P'RA ME PER-DE-EEEERRRRR...!

Sim, é justo dizer que, três anos antes do fim do Segundo Milénio, Alberto Ferreira Paulo (mais vulgarmente conhecido por uma alcunha inspirada nos Marretas, que acabou por virar nome artístico) era o nome maior da música popular portuguesa, pelo menos na vertente não-pimba - embora, em abono da verdade, o seu som fosse adjacente à vertente mais romântica desse género. Embora a sua carreira fosse já longa, e extremamente bem sucedida – o seu primeiro disco em português, onde se incluía a versão original de 'Jardins', havia já apresentado volumes de vendas impressionantes – foi com a segunda versão do seu grande 'hit', e o álbum a que servia de avanço, o quintuplatinado (!) 'Quase Tudo', que Paulo Gonzo adquiriu, verdadeiramente, o estatuto de celebridade da música portuguesa, atingindo aquele grau de popularidade que quase torna um artista num 'meme' de carne e osso. De facto, em 1997, ainda a mais de uma década da invenção do termo ou mesmo do advento da Internet 2.0, já Paulo Gonzo era um 'meme' – conhecido por todos, gozado por muitos, e icónico em diversos sectores da sociedade, embora por motivos distintos.

Mais surpreendente é perceber que a carreira do homem que muitos consideram uma das principais figuras da música romântica portuguesa de finais dos anos 90 já conhecera um primeiro pico de sucesso, ainda na década de 70, como integrante da Go Graal Blues Band, um seminal colectivo de...blues -rock!

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A Go Graal Blues Band. Paulo Gonzo é o primeiro à esquerda.

No total, foram quatro discos com a banda, antes de uma audição lhe render uma nova alcunha, e um novo rumo para a carreira – primeiro com letras em inglês e algumas re-interpretações de clássicos do 'soul' e R'n'B, e mais tarde com declarada propensão romântica e letras em português. Seria esta última fase que o posicionaria como figura de proa de um certo movimento musical português, granjeando-lhe desde prémios na cerimónia anual do conceituado jornal 'Blitz' até colaborações com Pedro Abrunhosa (outro 'gigante' de vendas da época) e, já no novo milénio, a honra de compôr o tema oficial de apoio à Selecção Portuguesa de futebol, em pleno pico do período hegemónico da Geração de Ouro. E embora muitos destes feitos tenham sido conseguidos antes, e independentemente, do sucesso de 'Jardins Proibidos', não há dúvida de que o referido tema ajudou a catapultar uma já honrosa carreira para um patamar totalmente diferente.

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Paulo Gonzo, na época do auge do sucesso

No novo milénio, e apesar de se manter tão activo como sempre, Paulo Gonzo perdeu muita da relevância que havia tido nos anos finais do século XX. À medida que 'Jardins Proibidos' se desvanecia da consciência popular, com o fim da novela, o artista lisboeta passou a ser apenas 'mais uma' das 'caras conhecidas' da música portuguesa, sem jamais ter recuperado o estatuto de verdadeira super-estrela de que gozou naquele período de alguns anos em que a sua música-estandarte era o tema mais ouvido nos lares médios portugueses. Para a geração que presenciou esse momento cultural, no entanto, haverá sempre uma determinada melodia e conjunto de palavras que desencadearão, infalivelmente, uma torrente de memórias, e um reflexo condicionado – o de entoar a plenos pulmões, com voz rouca e pseudo-torturada e muitos esgares faciais, o resto da malfadada letra.

P'RA ME PER-DERRRR

NE-SSES RE-CAN-TOOOOS

ON-DE TU AN-DAS, SO-ZI-NHA. SEM MIM!

ARDO EM CIÚ-ME

NESSE JARDIIIIIIM...

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