Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.04.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos dias que correm, expressões como 'ícone' e 'icónico' são utilizadas de forma algo gratuita, levando a que o seu significado original se dilua, tornando-se assim necessário fazer uso do pensamento crítico para discernir quem, de facto, merece esse epíteto, por oposição às inúmeras 'sensações da semana' a quem o mesmo é recorrentemente atribuído. No entanto, mesmo nesta época de uso excessivo de tais termos, continuam a existir figuras incontornáveis, que reúnem o consenso de várias gerações quanto ao seu estatuto como verdadeiras 'lendas' da cultura popular ocidental – e, destas, uma das maiores continua a ser um eterno jovem de cabelo loiro, comprido e desgrenhado, barbicha, roupas coçadas, voz rouca e olhos claros e penetrantes, cuja aparência quase fazia lembrar uma versão moderna da tradicional representação de Jesus Cristo, e que, apesar de nunca ter querido ser profeta, conheceu, á semelhança deste, um fim trágico e tragicamente prematuro, embora, ao contrário do filho de Deus, pela sua própria mão. Falamos, claro, de Kurt Donald Cobain, o ícone da cena grunge e membro do infame 'clube dos vinte e sete', sobre cuja morte auto-inflingida se contaram, na passada Sexta-feira, exactos trinta anos.

KC.webp

A história de vida de Cobain é bem conhecida: oriundo de uma família modesta dos subúrbios de Washington, nos EUA, o futuro músico viveu, na infãncia e adolescência, uma série de problemas familiares, escolares e sociais, que transformaram a criança tímida e introvertida num jovem rebelde, que encontrava na música agressiva, confrontatória e 'barulhenta' o seu escape dos problemas do dia-a-dia. Da paixão partilhada com outro 'desajustado' da sua escola – um adolescente alto, magro e sorumbático, de ascendência balcânica, que dava os primeiros passos no baixo – surge a ideia de formar uma banda, que viria a adoptar vários nomes para os primeiros concertos, até se fixar naquele que lhe outorgaria, em apenas alguns anos, um lugar indelével na cultura pop contemporânea: Nirvana.

GP30327360.webp

A formação clássica dos Nirvana: Krist Novoselic, Kurt Cobain e o baterista Dave Grohl, hoje líder dos Foo Fighters.

Daí em diante, o percurso da banda dispensa apresentações: em menos de meia década, Cobain e o eterno parceiro Krist Novoselic conseguiriam levar o seu grupo das garagens de Seattle ao estrelato mundial, criando um dos maiores clássicos da história da música rock, o sublime 'Nevermind', de 1991, e inspirando milhões de jovens inadaptados um pouco por todo o Mundo a pegarem em instrumentos e fazerem, eles próprios, barulho na sua garagem, num efeito semelhante ao gerado pelo movimento 'punk' britânico, cerca de década e meia antes.

images.jpg

O segundo disco do grupo, 'Nevermind', é ainda hoje um álbum obrigatório para qualquer fã de rock.

Curiosamente, no entanto, o sucesso da banda não caía bem ao seu líder, que nunca procurara a ribalta, e que se via, de um momento para o outro, apelidado de 'voz de uma geração', entre outros epítetos que nunca esperara ou quisera. Tal como sucedia (e continua, infelizmente, a suceder) com tantos outros artistas da sua índole, a solução encontrada por Cobain para lidar com esta pressão foi refugiar-se nas drogas, hábito que não foi, de todo, desencorajado pela namorada e futura esposa do músico, Courtney Love – um nome que rivaliza apenas com Yoko Ono no panteão de influências tóxicas em músicos geniais. Nem o nascimento da filha Frances Bean – baptizada em homenagem a uma heroína local, passe o trocadilho involuntário – ajudava a animar Cobain, que sofria de depressão e se degladiara toda a vida com problemas de saúde.

TELEMMGLPICT000367226279_17110234601210_trans_NvBQ

Com a mulher, Courtney Love, e a filha, Frances Bean Cobain, pouco depois do nascimento desta última.

Não foi, no entanto, a bronquite crónica, nem mesmo o vício em heroína, que acabou com a vida de Cobain, mas sim o próprio músico, que, nos primeiros dias de Abril de 1994, se terá alvejado a si próprio com uma caçadeira, deixando junto a si aquela que talvez seja o mais famoso e icónico 'adeus' de sempre: 'it's better to burn out than to fade away', algo como 'é melhor arder do que desaparecer aos poucos', uma frase que reflectia na perfeição a filosofia e modo de vida de Kurt.

Apesar de aparentemente claro, o suicídio do músico foi, ao longo das três décadas subsequentes, tema de inúmeros documentários (bem como de uma dramatização, 'Last Days - Últimos Dias', realizada por Gus Van Sant em 2005) e suscitou debates e teorias da conspiração que, trinta anos volvidos, não dão sinais de abrandar. Destas, a mais famosa é a que propões que terá sido a mulher, Courtney Love, a realizar o infame acto – à qual não ajuda a espinhosa relação de Love com os colegas de banda de Kurt, nem a sua recusa em deixar que seja publicado material inédito e de arquivo do grupo.

images (2).jpg

'Last Days - Últimos Dias', talvez a mais conhecida obra cinematográfica sobre Kurt, apesar de não utilizar o nome do mesmo.

Seja qual fôr a verdade sobre a sua morte, no entanto, o facto inegável é que o falecimento de Cobain privou o Mundo de uma das mais interessantes bandas de rock 'mainstream' da sua época, e de várias décadas de novas e inspiradas canções por parte daquele que foi um dos mais geniais compositores da música popular de finais do século XX (e não só). Talvez ainda mais significativo seja o facto de que, trinta anos volvidos, a saudade daquele 'Jesus moderno' que nunca quis ser profeta continua a ser fortemente sentida pelos seus milhões de fãs, tendo-se as suas atraentes feições tornado tão omnipresentes e imediatamente identificáveis na cultura popular moderna como as dos também prematuramente malogrados Che Guevara e Bob Marley, com os quais partilha o estatuto de personalidade verdadeiramente icónica da História contemporânea. Que continue a descansar em paz.

07.11.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Para qualquer povo – mas ainda mais no caso de povos pequenos e de menor expressão – qualquer indivíduo que se destaque adquire automaticamente estatuto de herói nacional, com direito a cobertura mediática extensiva e elevação de qualquer pequeno feito atingido. Portugal não é, claro, excepção neste campo, tendo os principais nomes 'exportados' do nosso país conseguido, ao longo das décadas, reter o estatuto de culto pelo qual lutaram. Hoje em dia, a imagem de Portugal no estrangeiro já não se resume apenas aos tradicionais Eusébio e Amália; há também Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Salvador Sobral, Moonspell e José Saramago, para citar apenas alguns dos nomes mais conhecidos.

No entanto, como sempre acontece neste tipo de casos, para cada nome bem conhecido que consegue almejar os seus objectivos, existem vários outros que, não obstante os seus melhores esforços, se vêm obrigados a ficar pelo caminho, e a contentar-se com a fama dentro de portas; mais uma vez, Portugal não difere de qualquer outro país neste campo, tendo precisamente nos anos 90 um exemplo perfeito deste mesmo fenómeno.

Corria o ano de 1993, e Figo e a restante Geração de Ouro despontavam para o futebol, quando um praticante de outro desporto, menos físico mas não menos entusiasmante, irrompeu na cena desportiva portuguesa, determinado a deixar a sua marca a nível internacional. O desporto em causa era a Fórmula 1, e o nome do jovem aspirante a herói português era Pedro Lamy.

images.jpg

Nascido na zona de Alenquer a 20 de Março de 1972, José Pedro Mourão Lamy Viçoso começou por destacar-se nas divisões menores do desporto automóvel, tendo conhecido considerável sucesso primeiro nos karts, depois na Fórmula Ford – onde se sagrou campeão por duas vezes, a primeira das quais na sua temporada de estreia, com apenas 17 anos – e finalmente na Fórmula 3, onde continuou a demonstrar argumentos que lhe faziam prever um futuro muito, muito risonho.

Foi, pois, com naturalidade que os aficionados das corridas portugueses – muitos deles próximos da idade do próprio Lamy à época, ou até mais novos – viram o jovem ribatejano dar o 'salto' natural para a 'Primeira Divisão' do desporto, chegando ainda a tempo de disputar, pela Lotus, as últimas quatro corridas da temporada de 1993, no lugar do lesionado Alessandro Zanardi. Apesar dos resultados muito pouco encorajadores – zero pontos no total das quatro corridas – fazerem já prever a toada futura da carreira do único representante português no mundo do desporto automóvel, Lamy terá ainda assim demonstrado o suficiente para ser convidado pela construtora a disputar a época seguinte com as suas cores.

1994 marcava, assim, a primeira temporada completa de Lamy como piloto de Fórmula 1, lançando-o para a ribalta desportiva e sujeitando-o ao habitual fenómeno 'tuga entre estrangeiros', que resultou, como é costume neste tipo de casos, num avolumar do interesse do público nos seus feitos. Infelizmente, o azar não tardou em bater à porta, e à entrada para a quinta corrida da época, Lamy vê-se envolvido num aparatoso acidente, que resulta em duas pernas e pulsos partidos - um acidente que seria suficiente para terminar a carreira de muitos, mas não do determinado português, que embarcou numa odisseia de fisioterapia que lhe permitiu, um ano depois, ressurgir nas grelhas dos Grandes Prémios mundiais, desta vez com as cores da Minardi.

download.jpg

Lamy com a restante equipa da Minardi

Pela construtora italiana, Lamy continuou a exibir os mesmos argumentos que já mostrara na Lotus, terminando a época com um histórico e marcante total de UM ponto, e ajudando assim a demonstrar que não é só na Eurovisão que Portugal não pontua. Mais – esse ponto conseguido pelo ribatejano foi o ÚNICO feito pela Minardi em toda a temporada, fazendo deste um daqueles casos em que as duas partes parecem 'feitas uma para a outra'.

Este novo e rotundo falhanço foi a machadada final nas aspirações de Lamy, que fez a escolha acertada, retirando-se do mundo da Fórmula 1 no final da temporada, sem nunca ter conseguido concretizar o seu potencial, ou ser levado minimamente a sério no seio do seu desporto de eleição, apesar das 'figas' feitas pelos aficionados portugueses de F1 para que tivesse sorte.

No entanto, e ao contrário do que pudesse ter parecido à época, a trajectória internacional de Lamy ainda não estava terminada, vindo apenas a sofrer um desvio – no caso, para o mundo dos carros GT, onde o condutor português encontrou, finalmente, o mesmo grau de sucesso de que gozara nos seus tempos de juventude, no circuito Fórmula 3. À data, Lamy é co-detentor do maior número de vitórias na corrida das 24 Horas de Nürbungring, e condutor oficial da Peugeot nas históricas 24 Horas de Le Mans, além de participar no campeonato mundial de 'endurance' da FIA. Um final feliz bem merecido para aquele que podia ter sido o 'Ayrton Senna português', a quem faltou um pouco de sorte e talento ao mesmo nível da sua determinação e vontade para poder almejar a esse titulo, mas que conseguiu ainda assim ter sucesso, ainda que fora das luzes da ribalta...

Imagens da pouco conhecida participação de Lamy no Grande Prémio Virtual de 1995, ao comando de um carro da SEGA. Pelo menos na Mega Drive, o candidato a Senna português conseguia ser ás ...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub