03.01.26
As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.
Quem 'frequentou' a 'primeira versão' da Internet - aquela inocente, de finais dos anos 90, plena de motores de pesquisa rudimentares e 'sites' de interesse pessoal ou listagens de emuladores e ROMS, com GIFs e fundos em cores de 'néon' que demoravam largos minutos a serem plenamente visíveis - terá memórias de passar grande parte da segunda metade dos anos 90 e inícios da década seguinte a frequentar 'cibercafés', espaços onde, gratuitamente ou mediante o pagamento de um valor nominal, era possível passar alguns minutos a 'navegar', falar em salas de chat ou no saudoso Messenger, ou até jogar jogos em Flash ou 'sacar' ficheiros de plataformas P2P. O que poucos membros dessa demografia saberão, no entanto - talvez à excepção dos mais velhos - é que este tipo de instalação existia já em Portugal desde meados da década de 90, tendo a pioneira aberto portas (com direito a furor mediático em directo) há pouco mais de trinta anos, a 07 de Novembro de 1995.

Tratava-se do Cyber.bica, situado no Chiado, em Lisboa, e que contava, no seu arranque, com patrocínios de peso, como era o caso da Telepac e da Fernandes Técnica, os ramos tecnológicos da Portugal Telecom e da Papelaria Fernandes, respectivamente. Fruto do empreendedorismo e ambição de três amigos - um deles ex-aluno do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, também na capital - o espaço teve início com apenas cinco computadores, e com uma vertente mais didáctica, estando os fundadores disponíveis para ensinar aos clientes/utentes os 'segredos' daquelas novas tecnologias - algo que, poucos anos depois, já só seria estritamente necessário para as camadas mais idosas da população.
No entanto, era mesmo na vertente lúdica que as instalações da Rua dos Condes de Bragança ia 'cimentando' o seu nome, com os campeonatos de jogos em rede (um deles patrocinado pela Shell), os eventos pioneiros na tecnologia 'streaming' em Portugal e possibilidade de utilização de programas como o mIRC a serem os principais 'chamarizes' para aquela que se viria a tornar a grande demografia 'internauta' do século XXI. No total, por alturas do sexto aniversário (em 2001) os proprietários estimavam terem servido um quarto de milhão de utilizadores, e o sucesso do Cyber.bica havia dado azo ao aparecimento de vários estabelecimentos desta índole, muitos deles da responsabilidade da própria Portugal Telecom, de empresas de comunicações privadas ou mesmo de entidades como a Caixa Geral de Depósitos.
Quem viveu a época em 'primeira mão', no entanto, saberá também que a 'era de ouro' dos 'cibercafés' foi tão icónica quanto efémera; de facto, o próprio Cyber.bica se encontrava, ao completar uma década de vida, reduzido a mero recurso para turistas de passagem pela zona histórica de Lisboa, tendo fechado portas pouco tempo depois, incapaz de sobreviver à massificação dos computadores pessoais nos lares portugueses. Ainda assim, e apesar de defunta, a instalação do Chiado perdura na memória colectiva da primeira geração de 'internautas' portugueses, não só pelo seu cariz pioneiro como pela popularidade de que gozava no seu auge, sendo, por isso, mais do que merecedor de homenagem (ainda que atrasada) um par de meses depois de se terem celebrado os trinta anos sobre a sua mediática abertura.



