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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

30.12.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E porque na última Quinta-feira falámos aqui da importância dos brindes no contexto do bolo-rei, porque não dedicar o post de hoje a debruçarmo-nos um pouco mais a fundo sobre os mesmos?

Como quem comeu um bolo-rei na era pré-legislação europeia certamente saberá, os referidos brindes consistiam, única e invariavelmente, de um pequeno objecto em metal (sendo esta um dos principais pontos contenciosos da inclusão dos mesmos num produto alimentar, visto que os metais podem criar diversas substâncias nocivas, as quais poderiam depois ser transmitidas para o próprio bolo) com a forma de um qualquer elemento tradicional, quer da gastronomia ou cultura portuguesa (por aqui, reside bem viva a memória de uma posta de bacalhau em miniatura, obtida num qualquer bolo-rei em meados dos anos 90) quer apenas da vida quotidiana. Por vezes (embora nem sempre) o brinde incluía uma pequena argola, que permitia a sua acoplagem a um porta-chaves ou ao fecho de uma típica mochila escolar, acentuando o potencial destes objectos como 'quinquilharias' infantis.

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Exemplos de brindes do bolo-rei

E a verdade é que, embora não fossem residentes permanentes de bolsos, estojos e bolsas de mochila, estes objectos tinham o seu pequeno lugar ao sol, logo a seguir ao Ano Novo, quando o seu interesse ainda não se havia esmorecido ao ponto de os relegar para o fundo de uma qualquer gaveta de casa; e embora esse período não se prolongasse, normalmente, além da primeira semana de aulas, não deixava de ser com um sorriso que, meses mais tarde e com a época das Festas já muito distante, se tornava a encontrar o brinde do ano anterior no fundo da referida gaveta, voltando o mesmo a ser motivo de interesse, ainda que por poucos minutos. Razão mais que suficiente para que, nesta quadra que caminha a passos largos para o fim, dediquemos estas poucas linhas a este elemento clássico e tradicional das Festas portuguesas dos anos 90, entretanto extinto para sempre, mas que perdura nas nossas memórias daquele tempo.

23.12.21

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

A doçaria regional portuguesa é conhecida pela sua grande variedade de opções para todas as ocasiões, e o Natal não é excepção; mas entre as azevias, os coscorões e as lampreias de ovos, há um doce que se destaca acima de todos, e que simboliza, para muitos portugueses, a culinária da quadra.

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Falamos, claro, do bolo-rei, aquela deliciosa confecção encimada com frutos secos e frutas cristalizadas (ou, no caso da variante 'rainha', apenas com os primeiros) e que rivaliza favoravelmente com as especialidades natalícias de qualquer outro país do Mundo - incluindo congéneres como o 'stollen' alemão ou o 'fruitcake' norte-americano. Melhor - tirando a maior industrialização (antigamente, dificilmente se encontrava este bolo em supermercados) o bolo-rei sofreu muito poucas alterações na sua essência, continuando a ser (quase) exactamente aquilo que sempre foi, desde a sua introdução e popularização em Portugal, em inícios do século XIX.

É no 'quase', no entanto, que reside o cerne deste post; isto porque quem tem idade para se recordar dos assuntos falados neste blog certamente sentirá, ano após ano, falta de dois elementos já de há muito retirados do bolo-rei, mas que ainda marcaram muitos Natais e dias de Ano Novo da nossa infância: o brinde e a fava.

Tradicional brindes oferecidos nos Bolo Rei portug

 

Ambas intimamente ligadas à tradição do bolo-rei (quem encontrasse o brinde podia considerar-se sortudo, enquanto que quem tivesse na sua fatia a fava tinha de pagar o bolo seguinte - daí a expressão 'sair a fava' como sinónimo de 'ter azar') as duas 'surpresas' anteriormente contidas neste bolo foram retiradas, precisamente em 1999, após a aprovação de uma lei europeia que proibia a comercialização de géneros alimentícios com brindes misturados; apesar de o bolo-rei ter inicialmente sido considerado excepção, pelo significado cultural do seu brinde e da fava, o mesmo acabou mesmo por se ver despojado dos seus elementos tradicionais quando a referida lei foi revista, dois anos mais tarde.

Até hoje, apesar de não ser exactamente proibido vender o bolo com brinde e fava, é essa a percepção geral, sendo o mesmo comercializado sem qualquer dos dois elementos já desde o inicio do século. Uma pena, visto que eram precisamente estas duas 'surpresas' que davam o carácter ao bolo-rei, e tornavam a experiência de o comer ainda mais memorável; sem eles, resta um bolo ainda (e sempre) delicioso, mas já sem aquele pequeno 'extra' que tanto nos deliciava nas nossas infâncias. Ainda assim, a compra (e posterior partilha) de um bolo-rei é uma daquelas experiências sem as quais nenhum Natal luso podia passar - fosse nos anos 90, ou nos dias de hoje. Com ou sem 'surpresas' adicionais...

22.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Na era pré-telemóveis, a única maneira de recordar e guardar datas e contactos importantes era registá-los nuns livrinhos especialmente criados para o assunto, em que cada página correspondia a um dia, e continha linhas especiais para anotar todas estas informações.

Isso mesmo - as agendas, um daqueles produtos que, a certo ponto durante os anos 80 e 90, representava um dos marcos da passagem à vida adulta, em que havia a necessidade de manter registos sobre coisas sérias. Talvez por isso tantas crianças quisessem ter o seu próprio exemplar, e talvez por isso a alternativa especificamente dirigida a esta demografia - lançada anualmente pela editorial O Livro, em parceria com a RTP, de meados da década de 80 até aos primeiros anos do novo milénio, e novamente em 2010, numa edição especial alusiva ao programa 'Caderneta de Cromos', apresentado por Nuno Markl - tenha feito tanto sucesso à época do lançamento.

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Capas das edições relativas aos anos de 1994 e 96

De facto, no período a que este blog diz respeito, 'A Minha Agenda', a agenda infantil da RTP - que além dos espaços para registo de informação, continha curiosidades, jogos, receitas e outros artigos de interesse para o público-alvo - tornou-se um verdadeiro marco da época natalícia portuguesa, sobretudo graças ao seu anúncio televisivo, cujo 'jingle' era tão ou mais 'pegajoso' que o actual do Pingo Doce, e terá decerto vindo à cabeça de pelo menos alguns dos nossos leitores assim que foi mencionado.

Por aqui, anda-se há dias a cantarolar isto...

Esse anúncio era, aliás, responsável pela criação de grande parte do desejo pel''A Minha Agenda', que no restante, não passava precisamente disso - de uma agenda, ainda que 'apimentada' pelos referidos conteúdos extra. Aliás, na mesma época, existia pelo menos uma opção tão boa ou melhor do que a publicação da RTP, no caso a Agenda Disney, que aliava um conceito semelhante ao d''A Minha Agenda' ao atractivo extra da licença oficial para uso das personagens Disney (lá por casa, era esta que se tinha, e nunca houve qualquer desejo pela troca).

No entanto, tal como no caso do 'Um Bongo', aqui explorado há algumas semanas, 'A Minha Agenda' era (foi, é) um produto cuja estratégia de vendas assentava, sobretudo, na força do seu 'jingle', que lhe dava uma vantagem em relação à concorrência, por muito forte que ela fosse; que o diga quem ficou quase imediatamente a desejar receber um destes volumes no sapatinho após ter sido sujeito ao anúncio num qualquer intervalo dos desenhos animados...

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

18.12.21

NOTA: Normalmente, hoje seria Sábado de Saltos: no entanto, dada a relevância temporal deste post, iremos excepcionalmente ter duas Saídas seguidas. Desfrutem!

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

A época natalícia mudou substancialmente desde os anos 90, com medidas como a redução dos anúncios dirigidos a crianças e o quase desaparecimento dos tradicionais catálogos de brinquedos dos supermercados; no entanto, uma coisa com que qualquer criança ou jovem ainda pode contar por volta desta época do ano é com a chegada de um ou mais circos aos arredores de qualquer cidade ou povoação de suficiente relevância. Para a maioria dos artistas circenses, o Natal continua a ser a principal 'galinha dos ovos de ouro', pelo que não é de admirar que os espectáculos apresentados nesta época sejam ainda mais 'de gala' do que é habitual.

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Nos anos 90, esta tendência era ainda mais exacerbada do que o é hoje em dia, com certos circos a terem honras de transmissão televisiva, e muitos a constituirem o destino de uma das últimas visitas de estudo das escolas primárias antes do fim do primeiro período - isto já sem falar das também frequentes distribuições de bilhetes por parte das grandes empresas, algumas das quais chegavam mesmo a organizar sessões especiais apenas para as famílias dos seus empregados. Em suma, os circos eram 'coisa séria', tão simbólicos do Natal infanto-juvenil nacional como o bolo-rei, a saída para ver as luzes ou a peregrinação à secção de brinquedos do hipermercado, para efeitos de prospecção.

É claro que, tal como acontece com outras experiências, como as idas à feira ou a própria saída para ver as iluminações, a ida ao circo assumia caracteristicas diferentes em ambiente citadino ou mais rural. Enquanto que as crianças da cidade podiam normalmente escolher entre os circos Vítor Hugo Cardinali e Chen - bem como as suas diversas 'sucursais' e circos associados - os habitantes de localidades mais pequenas acabavam forçosamente (e naturalmente) por ir ao que 'assentava arraiais' mais perto de sua casa. No demais, no entanto, a experiência não diferia por aí além, começando normalmente já na parte de fora do circo - onde, com sorte, se podiam admirar animais exóticos, numa altura em que os mesmos ainda não haviam sido banidos dos especáculos circenses - e continuava no interior da tenda, onde, além dos referidos animais, se podiam admirar os feitos dos mais diversos tipos de acrobatas, trapezistas, contorcionistas e, claro, os icónicos palhaços, a quem ninguém ficava indiferente - ou se adorava, ou se odiava, pelas mais diversas razões.

Juntamente com as tradicionais (e pouco saudáveis) comidas - como o algodão-doce ou as pipocas - estes elementos ajudavam a criar uma Saída de Sábado de Natal que muitos ex-jovens dos anos 90 ainda hoje relembram com saudade, e procuram na medida do possível transmitir aos seus filhos, para que a magia do circo de Natal possa perdurar para as novas gerações...

11.12.21

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

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A época natalícia não se resumia, para um jovem dos anos 90, apenas ao dia e às festividades que o rodeavam; para as crianças daquele tempo, o Natal começava bem mais cedo – com a recepção do primeiro catálogo de brinquedos na caixa do correio – e englobava uma série de momentos absolutamente mágicos, dos quais temos vindo a falar ao longo deste mês: a última semana de aulas antes das férias de Natal, a saída para ver as iluminações e, claro, a ida ao hipermercado ou 'shopping' para ver, ao vivo e a cores, os brinquedos cobiçados e avidamente assinalados no referido catálogo.

Já aqui falámos, numa ocasião anterior, do 'frisson' que era ir ao hipermercado, numa altura em que os mesmos estavam, ainda, nas primeiras etapas da sua penetração em Portugal, e confinados sobretudo às duas maiores cidades; no entanto, qualquer ex-criança que tenha visitado um destes espaços na altura do Natal certamente se recordará da dimensão extra que tal visita acarretava, e concordará que a mesma merece o seu próprio post separado.

O elemento que tornava esta experiência ainda mais mágica no mês de Dezembro é fácil de identificar, e ainda mais fácil de explicar – a visão daqueles múltiplos corredores repletos apenas e só de brinquedos era suficiente para fazer subir os níveis de adrenalina de qualquer criança, e dar asas a sonhos de ter todos e cada um daqueles produtos debaixo da árvore no dia 25. Para alguém cuja visão do Mundo era ainda 'à escala', as prateleiras de bonecas, figuras de acção, carros telecomandados, peluches, jogos, consolas ou artigos electrónicos – as quais ocupavam, cada uma, todo um corredor da loja – pareciam esticar-se até ao tecto, oferecendo uma variedade assoberbadora de escolhas que tornava ainda mais difícil escolher apenas um ou dois presentes para receber do Pai Natal; e para além dos brinquedos propriamente ditos, havia ainda as bicicletas, os skates, os patins, as motas e carros eléctricos, as bolas, os vídeos de desenhos animados, e toda uma imensidão de outros artigos de particular interesse para a demografia infanto-juvenil, que dificultavam ainda mais a tarefa, e faziam com que esta fosse uma visita que se queria o mais prolongada possível, para ter tempo de ver e vivenciar tudo o que o espaço tinha para oferecer – incluindo, com sorte, uma visita à 'Gruta do Pai Natal', para falar com o velhote em pessoa (ou com um dos seus assistentes, dependendo do que os pais nos diziam.)

Hoje em dia, a experiência de ir ao hipermercado tornou-se algo mais corriqueira, o que, aliado ao facto de os brinquedos serem cada vez mais electrónicos, e de coisas como os jogos de tabuleiro terem caído em desuso, torna a visita por altura do Natal algo menos mágica do que o era nos 'nossos' anos 90; que o diga quem lá esteve, e se imaginou perdido entre aquelas prateleiras infinitas de brinquedos, e com acesso ilimitado a todos eles...

08.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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Para mutas crianças – de qualquer idade, nacionalidade ou era – a escola primária é a única que chega a ser divertida, em grande parte graças aos esforços dos professores deste sector em tornar a aprendizagem intuitiva, variada e até algo relaxada, o que deixa quase totalmente de acontecer do quinto ano em diante. Nos anos 90, em Portugal, a situação não era diferente, e havia certas alturas do ano – sobretudo na aproximação aos diferentes períodos de férias – em que os professores ajuizavam (acertadamente) que qualquer tentativa de aprendizagem sairia frustrada, e as aulas eram passadas a pintar desenhos alusivos à estação ou período festivo em curso.

O Natal não era, claro, diferente – afinal de contas, das diversas festas que povoam o calendário português, essa é, talvez, a que maior significado tem para as crianças e jovens. E se na Páscoa havia ovos e desenhos de coelhinhos, e no S. Martinho se comiam castanhas no pátio, era certo e sabido que, no Natal, a sala de aula se iria decorar com motivos alusivos a esta festa (e, com sorte, uma árvore com luzinhas, junto à qual se tiravam fotos), e que se iriam pintar desenhos de Pais Natais, árvores, anjos e estrelinhas para pendurar à entrada da sala (alguns, inevitavelmente, com a cara verde, roxa ou amarela e a roupa da cor errada), fazer presentes artesanais para os pais, e que (com sorte) iria ter lugar uma festa de Natal ou troca de prendas – ou, melhor ainda, se iria tão simplesmente RECEBER uma prenda, entregue por um dos ajudantes do velhote de barbas brancas (a quem, a propósito, já se escrevera uma carta, em papel especial fornecido pelos CTT, que os pais ou a própria professora haviam ajudado a depositar no marco do correio, em envelope também expressamente fornecido para o efeito.) Eram dias mágicos em que a sensação de férias se combinava com o típico ambiente natalício para criar memórias que, à distância de duas ou três décadas, parecem ainda mais idílicas.

Infelizmente, este tipo de experiência não perdurava para lá do quinto ano, altura em que o sistema de ensino principia o seu processo de formatação dos futuros adultos que acolhe; ainda assim, qualquer pessoa que tenha vivenciado aquelas semanas antes do Natal numa sala de aula primária ainda hoje, certamente, os recorda, e espera sinceramente que os filhos, sobrinhos e outras crianças na sua vida possam, a seu tempo, vivenciar algo semelhante...

07.12.21

NOTA: Este post diz respeito a Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2021.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O Natal não é, exactamente, um tema comum no que toca a colectâneas de música alternativa; normalmente, as compilações deste tipo centram-se sobretudo nos clássicos intemporais (e de domínio público) que a maioria dos comuns mortais transforma em banda-sonora para esta época do ano,

Em 1995, no entanto, a editora independente portuguesa Dínamo Discos resolveu explorar precisamente esse conceito, juntando num mesmo disco alguns dos maiores e mais conhecidos artistas da música portuguesa e fomentando uma série de colaborações, as quais viriam mais tarde a fazer parte do disco. E o mínimo que se pode dizer é que, apesar do sucesso comercial não ter sido por aí além significativo, em termos qualitativos, a empreitada valeu bem a pena.

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Intitulado 'Espanta-Espìritos' e lançado em Novembro (com uma capa que remete mais ao Halloween do que propriamente ao Natal), o disco apresenta doze músicas bem eclécticas e diversificadas, com as sonoridades alternativas e a temática natalícia como únicos denominadores comuns – uma característica proposital, e que assegura que a colectânea oferece algo para os fãs de todos os géneros da música alternativa, com a notória excepção do hard rock e metal, talvez por serem géneros demasiado 'de nicho' ou pouco agradáveis ao ouvido do melómano médio português.

De resto, há para todos os gostos, do pop-rock de 'Final do Ano (Zero a Zero)' (interpretado por Xana dos Rádio Macau ao lado de Jorge Palma) ao fado de 'Minha Alma de Amor Sedenta', de Alcindo Carvalho, passando pelo funk Jamiroquai-esco de '+ 1 Comboio' (novamente com Jorge Palma em dueto com um elemento dos Rádio Macau, no caso o guitarrista Flak), o rock sarcástico-cómico de 'Família Virtual' (uma inesperada colaboração entre o fadista Carvalho e os anarco-ska-punks Despe & Siga) e 'Natal dos Pequeninos' - dueto de João Aguardela, dos Sitiados, com duas crianças - ou mesmo o hip-hop de 'Apenas Um Irmão', faixa que consegue a proeza dupla de inserir, à sorrelfa, uma palavra menos própria na letra (por sinal, bem rebelde e contestatária, como era apanágio do hip-hop português da época) e de pôr Sérgio Godinho a fazer rap ao lado dos mestres Pacman (hoje Carlão) e Boss AC – e quem nunca ouviu Sérgio Godinho numa música de rap, não sabe o que anda a perder...

Ouçam por vocês mesmos...

As restantes músicas são mais tradicionais deste tipo de empreitada, e desenvolvem-se num ritmo mais calmo e baladesco – o que não significa que tenham menos qualidade. 'A Rocha Negra', em particular, é um tema assombroso, em todos os sentidos, alicerçado numa grande prestação vocal, quase 'a capella' de Tim (ainda em fase de estado de graça com os seus Xutos) e Andreia (dos desconhecidos Valium Electric), enquanto 'São Nicolau' é um bonito tema em toada pop-rock, cantado por Viviane, dos Entre Aspas. Em suma, são poucos os temas mais fracos deste registo, e mesmo esses nunca passam o limiar do aceitável-para-bom.

Não deixa, pois, de ser surpreendente que o principal contributo de 'Espanta Espíritos' para a mùsica portuguesa tenha sido a inclusão de alguns dos seus temas em álbuns 'verdadeiros' de alguns dos participantes; como colectânea, e apesar de ter sido considerado um dos vinte melhores discos de Natal lançados em Portugal pela Time Out (uma daquelas distinções tão de nicho, que acaba por fazer pouco ou nenhum sentido) o álbum esteve longe de ser um sucesso, e encontra-se largamente esquecido nos dias que correm. Uma pena, visto que – como qualquer pessoa que tenha o álbum certamente afirmará – este se trata de um projecto que merecia bastante melhor do que apenas um estatuto de culto...

28.11.21

NOTA: Este post corresponde a Sábado, 28 de Novembro de 2021.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

A época natalícia é uma altura do ano que tende a evocar uma série de memórias e sensações tanto em quem é criança, como em quem já o foi. Das viagens de 'reconhecimento e prospecção' ao hipermercado ou 'shopping' mais próximo até ao jantar de Natal, tempo passado com familiares por vezes distantes, filmes de família na televisão e, claro, os presentes, são apenas alguns dos momentos ligados a esta época do ano que tendem a ficar gravados na memória de quem é ou já foi jovem.

A estes factores há ainda que juntar mais um, pelo menos para quem reside em áreas mais urbanizadas; a tradicional saída nocturna, em passeio, com o intuito de admirar as iluminações de Natal estrategicamente colocadas em pontos-chave da cidade ou povoação algures em fins de Setembro, e acesas pela primeira vez cerca de um mês depois. Apesar de não ser uma experiência tão universal como a maioria das outras de que falamos aqui no blog, para muitas crianças, esta saída assinalava o verdadeiro início da época festiva, tanto ou mais do que a recepção do primeiro catálogo de brinquedos na caixa do correio.

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E a verdade é que, nos anos 90, muitas autarquias se esmeravam para que as suas iluminações de Natal fossem verdadeiramente espectaculares, fazendo com que a deslocação – fosse de carro, a pé ou de transportes - valesse bem a pena. A emoção de descobrir uma rua onde as habituais iluminações estáticas tivessem sido substituídas por enfeites com efeito de movimento é difícil de descrever a quem não a tenha experienciado na idade e contexto certos...mas acreditem que o 'hype' era definitivamente real. E mesmo quando não havia nada de assim tão entusiasmante, era sempre divertido ver as diferentes filas de luzes nas diferentes ruas, bem como – com alguma sorte – algum tipo de instalação especial numa praça ou largo, mesmo a pedir uma fotografia ao seu lado...

Enfim, embora possa ser potencialmente considerada uma experiência sobretudo relevante para crianças e jovens residentes nas cidades – as aldeias e vilas mais pequenas tinham formas e esquemas de iluminação diferentes – a verdade é que o passeio para ver as iluminações terá decerto marcado muito boa gente naqueles já longínquos anos 90; tanto assim que, embora as iluminações de hoje em dia fiquem muito a dever às daquele tempo, decerto ainda haverá quem leve os filhos, sobrinhos e outras crianças que lhe sejam próximas a vê-las ano após ano, para que também eles possam desfrutar da experiência que tanto prazer deu à geração anterior, quando era da sua idade...

 

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