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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.05.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Como já por várias vezes referimos nestas mesmas páginas, os anos 90 foram uma das décadas por excelência para modas estranhas e algo incompreensíveis. Por muito que sejam os anos 80 quem detém essa fama no imaginário popular (e com alguma razão, diga-se de passagem), as modas mais extravagantes dessa década eram, sobretudo, as dos jovens adultos; já nos anos 90, eram as crianças e adolescentes quem incorria num 'crime de moda' atrás de outro, dos famosos fatos-de-treino estilo colete de visibilidade às não menos inexplicáveis meias de raquetes, chinelos de piscina de sola preta ou bolsinhas de trocos – isto sem sequer falar nos penteados. E, apesar de a maioria destas modas mais questionáveis se centrarem nos primeiros anos da década, o final dos 'noventas' também não ficaram imunes a tendências bizarras, das calças largas (com t-shirts a condizer) aos artigos de que falamos hoje, as camisolas com mangas falsas, ou duplas.

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Os penteados são tão anos 90 como as próprias camisolas...

Populares nos últimos anos da década, e inícios da seguinte, estas camisolas não têm, ao contrário de muitas das roupas de que aqui falamos, uma origem identificada, sendo daqueles fenómenos surgidos de um dia para o outro, e rapidamente adoptada por toda uma demografia. O objectivo era, claro, fazer parecer que se tinha uma t-shirt por cima de uma camisola fina de mangas compridas – um efeito que era, inclusivamente, reproduzido de forma literal por quem não tinha no armário uma destas peças: e ainda que o efeito visual não fosse tão espalhafatoso como o da maioria das outras tendências atrás referidas, ficava (e fica) ainda assim a pergunta: porquê?

De facto, ao contrário do que acontece com a maioria das outras modas juvenis, tornava-se difícil discernir o objectivo por detrás desta tendência em particular, o que pode explicar a longevidade relativamente curta da mesma, por oposição às suas contemporâneas; sem grande razão de ser, e sem celebridades mediáticas a servirem de porta-voz do estilo, as camisolas de dupla manga não tardaram a dar lugar a outros tipos de artigo, alguns tão ou mais peculiares do que elas. Talvez por isso, hoje em dia, estas camisolas mais não sejam do que uma vaga recordação para a maioria dos ex-jovens dos anos 90 – muitos deles os mesmos que, na altura, desejavam ardentemente ter um artigo deste tipo...

06.05.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Há coisas que não se explicam – e nos anos 90, houve MUITAS coisas que não se explicavam, a maioria delas no mundo da moda. Senão vejamos: foi esta a década dos fatos de treino de cores garridas, das meias de raquetes, das bolsinhas de trocos, e das peças de vestuário de que hoje falamos, os chinelos de praia com sola grossa e bonecos 'anime' na tira.

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Essencialmente isto, mas mais mal feito

Sim, antes de os chinelos deste tipo se tornarem, quase exclusivamente, em imitações mais ou menos bem feitas de modelos da Nike ou Adidas – incluindo-se nessa lista, também, os modelos infantis - os fabricantes de calçado tinham 'rédea solta' para dar largas à imaginação e criar sapatos um pouco mais imaginativos, sobretudo quando direccionados à população mais jovem; e, para muitos desses mesmos produtores, o conceito de 'dar largas à imaginação' passou por criar um 'template' de chinelo, o qual sofria, posteriormente, alterações apenas ligeiras, sobretudo ligadas ao padrão.

Quem foi de uma certa idade na viragem da década de 80 para a seguinte, e frequentou lojas de artigos de praia, certamente tem uma imagem mental bastante clara deste tipo de chinelo: base grossa, em borracha, de cor uniforme (normalmente preto ou azul-escuro) e tira branca decorada com personagens de 'anime', fossem licenciados (por aqui, recorda-se vagamente um modelo com desenhos do Capitão Falcão) ou retirados da imaginação de um qualquer ilustrador. Um sapato declaradamente e desavergonhadamente feio (para além de não ser especialmente barato) mas que explorava, e bem, o fascínio das crianças da época por tudo o que tivesse padrões inspirados em desenhos animados – e que, apesar de não se poder considerar ter sido uma 'febre', ainda era visto com alguma regularidade nos pés de uma determinada demografia da juventude portuguesa.

Felizmente, tal como os outros 'atentados à moda' descritos no início deste post, também estes chinelos acabaram por cair em desuso, ou pelo menos desaparecer das prateleiras das lojas de praia; enquanto existiram na consciência popular, no entanto, não deixaram de se afirmar como mais uma prova cabal de que 'gostos não se discutem', sobretudo os da juventude...

22.04.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

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Alguns exemplos de penteados bem 'noventistas'.

De entre os muitos identificadores sócio-culturais ligados à aparência utilizados pelas demografias mais jovens, uma das principais é o cabelo. Dos cabelos 'indecentemente' compridos dos primeiros artistas de rock'n'roll (o facto de usarem fatinho de pouco interessava) até às declaradamente contestatárias 'cristas' dos 'punks', passando pelos cabelos longos que são quase imagem de marca de qualquer 'metaleiro', foram (são) muitas as instâncias em que um penteado foi sinónimo de inserção ou pertença a uma 'tribo' social.

Em outros casos, no entanto, os penteados surgem e espalham-se apenas como inexplicável opção estética, quer derivada da 'cópia' de uma celebridade (o famoso 'mohawk' com 'cabelo esparguete' do Cristiano Ronaldo adolescente, por exemplo) quer, apenas, porque 'toda a gente' também tem; e, nesse aspecto, os anos 90 foram pródigos em apresentar ao Mundo estilos 'só porque sim' que percorriam toda a gama entre o ridículo e o sublime.

Os penteados masculinos destacavam-se particularmente neste aspecto, indo desde o cabelo 'à tigela' que 90% dos rapazes da instrução primária tinham (dada a facilidade de executar o referido corte na própria casa de banho lá de casa) às 'farripas' estilo 'boy-band', passando pelo penteado espetado com gel (e potencialmente pintado de louro) característico do movimento alternativo.

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O inconfundível 'cabelo à tigela', talvez o mais popular corte dos anos 90.

Por comparação, as raparigas ficavam-se pelos mais convencionais 'rabos de cavalo' ou pelo cabelo solto, muito em voga na altura, fazendo-se a diferenciação, neste caso, sobretudo pela côr do cabelo, sendo que muitas das jovens mais 'alternativas', uma vez chegadas a adolescentes, punham 'tererés' ou pintavam o cabelo, normalmente de laranja ou vermelho; já as 'betinhas' privilegiavam o corte por baixo das orelhas, ou usavam o cabelo declaradamente comprido, e por vezes com madeixas de outro tom.

Em suma, apesar de não ter contido quaisquer 'horrores' equiparáveis ao 'mullet' ou ao actual 'man-bun' (o 'rabichinho' talvez tenha sido o equivalente mais próximo) a década de 90 foi, ainda assim, berço de muitas opções estético-capilares mais ou menos duvidosas, e variavelmente passíveis de causar embaraço aos seus (agora adultos) ostentadores, sempre que olhem para uma fotografia daqueles tempos...

 

20.04.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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Quem foi jovem na viragem dos anos 90 para o século e milénio seguinte, certamente terá ainda programada, algures no seu ser, uma resposta inata, quase 'pavloviana', a uma determinada maneira de pronunciar as palavras 'Oh, Elsa' - nomeadamente, responder na mesma moeda, com precisamente a mesma entoação ao estilo cântico de futebol ('Oh Ellll-saaaaa!') e no máximo de volume que conseguir.

Isto porque, durante um determinado espaço de tempo entre o Verão de 1998 e finais da década, esse cântico foi omnipresente entre uma determinada camada da população portuguesa, afirmando-se como um daqueles 'memes' que antecedem a criação do próprio termo, e até da Internet 2.0. Durante aqueles 12 ou 18 meses, o grito foi entoado em pátios de escola, em transmissões em directo de jogos de futebol, em estádios, nos festivais de música de Verão onde tivera origem, por participantes em colónias de férias...enfim, onde houvesse 'malta jovem', aí se ouviria esse cântico, independentemente do contexto ou até sentido do mesmo naquela situação.

Mais curioso era que muitos dos que berravam a plenos pulmões pela Elsa nunca chegaram a saber de quem a mesma se tratava, ou de onde o grito surgira; muitos julgavam ter tido o mesmo origem num anúncio que passava na época (embora também esse simplesmente aproveitasse a febre) e para os restantes, era simplesmente uma coisa que se passara a fazer, que surgira de parte incerta e estava agora na moda. E a verdade é que mesmo a suposta origem do grito (alegadamente ideado como forma de um grupo de participantes no Festival do Sudoeste '98 localizarem uma amiga, chamada precisamente Elsa, e rapidamente tornado 'viral' entre os restantes campistas e, daí, para o resto do Mundo) pode não passar de uma 'lenda urbana'; na verdade, ninguém sabe ao certo a verdadeira origem do 'Oh Elsa' - com a possível excepção, claro, de quem o tenha criado.

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O Festival do Sudoeste, suposto local de origem do grito

Fosse qual fosse a sua origem, no entanto, uma coisa é certa - o cântico pegou, e durante mais tempo do que costuma ser regra para este tipo de coisa. Com o seu balanço ideal de potencial 'memético-viral', valor alto no 'irritómetro' e factor 'malta fixe', o grito passou, durante um breve mas marcante período, a constituir mais um elemento aglutinador e identificador da demografia jovem, que - ao contrário de outros - ultrapassava demarcações de 'tribos' ou níveis de popularidade, unindo toda a população nacional abaixo de uma certa idade num único e ensurdecedor clamor pela quase mítica Elsa, então (presume-se) já de há muito encontrada pelos seus colegas de festival, e para quem deverá ter sido no mínimo estranho ouvir, durante mais de um ano, metade do País utilizar o menor pretexto para berrar a plenos pulmões por ela...

22.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Na era pré-telemóveis, a única maneira de recordar e guardar datas e contactos importantes era registá-los nuns livrinhos especialmente criados para o assunto, em que cada página correspondia a um dia, e continha linhas especiais para anotar todas estas informações.

Isso mesmo - as agendas, um daqueles produtos que, a certo ponto durante os anos 80 e 90, representava um dos marcos da passagem à vida adulta, em que havia a necessidade de manter registos sobre coisas sérias. Talvez por isso tantas crianças quisessem ter o seu próprio exemplar, e talvez por isso a alternativa especificamente dirigida a esta demografia - lançada anualmente pela editorial O Livro, em parceria com a RTP, de meados da década de 80 até aos primeiros anos do novo milénio, e novamente em 2010, numa edição especial alusiva ao programa 'Caderneta de Cromos', apresentado por Nuno Markl - tenha feito tanto sucesso à época do lançamento.

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Capas das edições relativas aos anos de 1994 e 96

De facto, no período a que este blog diz respeito, 'A Minha Agenda', a agenda infantil da RTP - que além dos espaços para registo de informação, continha curiosidades, jogos, receitas e outros artigos de interesse para o público-alvo - tornou-se um verdadeiro marco da época natalícia portuguesa, sobretudo graças ao seu anúncio televisivo, cujo 'jingle' era tão ou mais 'pegajoso' que o actual do Pingo Doce, e terá decerto vindo à cabeça de pelo menos alguns dos nossos leitores assim que foi mencionado.

Por aqui, anda-se há dias a cantarolar isto...

Esse anúncio era, aliás, responsável pela criação de grande parte do desejo pel''A Minha Agenda', que no restante, não passava precisamente disso - de uma agenda, ainda que 'apimentada' pelos referidos conteúdos extra. Aliás, na mesma época, existia pelo menos uma opção tão boa ou melhor do que a publicação da RTP, no caso a Agenda Disney, que aliava um conceito semelhante ao d''A Minha Agenda' ao atractivo extra da licença oficial para uso das personagens Disney (lá por casa, era esta que se tinha, e nunca houve qualquer desejo pela troca).

No entanto, tal como no caso do 'Um Bongo', aqui explorado há algumas semanas, 'A Minha Agenda' era (foi, é) um produto cuja estratégia de vendas assentava, sobretudo, na força do seu 'jingle', que lhe dava uma vantagem em relação à concorrência, por muito forte que ela fosse; que o diga quem ficou quase imediatamente a desejar receber um destes volumes no sapatinho após ter sido sujeito ao anúncio num qualquer intervalo dos desenhos animados...

28.11.21

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Numa altura da História em que as gerações mais novas já nasceram rodeadas de todas as inovações que os seus pais viram surgir quando eram da mesma idade, as empresas vêem-se obrigadas a empregar esforços mais árduos do que nunca para impressionar o seu público-alvo. Hoje em dia, tudo é mais colorido, mais rápido, mais barulhento e com mais 'truques na manga' do que tudo o resto, na esperança de conseguir capturar a imaginação da hiper-tecnológica e hiperactiva 'Geração Alfa'.

Antes do 'boom' tecnológico de inícios do século XXI ter para sempre mudado o paradigma da publicidade e 'marketing', no entanto, era bem mais fácil a uma companhia tornar o seu produto num sucesso entre o público mais jovem; bastava, para tal, ter uma ideia verdadeiramente inovadora ou apelativa para a referida demografia – por mais simples que a mesma fosse – e desenhar em torno dela uma campanha de 'marketing' que a tornasse irresistível. Esta estratégia, liberalmente empregue ao longo de toda a segunda metade do século XX, tornou um sem-número de conceitos relativamente simples e modestos em mega-sucessos de vendas, e os anos 90 assistiram a um exemplo perfeito desse mesmo fenómeno, sob a forma da chamada Ondamania.

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Já conhecida no estrangeiro desde os anos 40 – com destaque para os Estados Unidos, onde foi criada e onde era conhecida como 'Slinky' – mas chegada a Portugal em meados da década em causa, a Ondamania mais não era do que uma mola em formato de concertina, em plástico de cores berrantes, e que tinha na sua resistência e maleabilidade o seu principal argumento. As Ondamanias podiam ser esticadas, dobradas, atiradas, usadas como iô-iô improvisado (ou não fossem molas) ou à laia de pulseira, sem que com isso se danificassem grandemente (os 'dentes' da mola abriam um pouco, mas a funcionalidade essencial não se alterava.) Só isto já seria suficiente para tornar o brinquedo num favorito entre a criançada, mas a Ondamania escondia ainda mais um truque na manga - ou antes, O truque: a Ondamania sabia descer escadas.

Sim, por muitos usos que a Mola Maluca (como também era conhecida) tivesse, a mesma não teria tido o sucesso que teve não fosse a habilidade que lhe havia sido atribuída de descer um lanço de escadas completo sem se desfazer ou enrodilhar; e a verdade é que ver aquele brinquedo de plástico inanimado menear-se pelos degraus abaixo, qual lagarta (a de cá de casa era verde, o que ainda acentuava mais a semelhança) era algo de estranhamente fascinante para a criança média da era pré-Internet.

O resultado foi o inevitável: aquele brinquedo criado por um engenheiro americano nos anos 40, para divertir crianças pobres, celebrava o seu 50º aniversário tornando-se 'febre' absoluta entre as crianças de classe média de um país a dois oceanos de distância. E 'febre' é mesmo a palavra para descrever o impacto da Ondamania – talvez não ao nível de uns Tazos (mas convenhamos, poucos fenómenos atingem esse nível), mas certamente mais popular do que um brinquedo do seu grau de simplicidade poderia alguma vez almejar a ser.

Como todas as febres, no entanto, também esta chegou ao fim; de um momento para o outro, as Ondamanias deixaram de ser presença constante nos quartos de cama infantis e pátios de recreio por esse Portugal fora, tornando-se apenas mais um brinquedo obsoleto, esquecido em favor da 'moda' que se seguia (que, no caso, viriam a ser os Diabolos.) E como seria de prever, um brinquedo de tal modo simples não teve grandes hipóteses de recuperar a sua popularidade, acabando (pelo menos em Portugal) por cair no esquecimento – pelo menos até, quase trinta anos depois do seu auge, um blog nostálgico resolver dedicar um artigo inteiro a recordá-lo...

27.11.21

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Uma das mais perenes e transversais características das sociedades ocidentais modernas é a tendência para ridicularizar as tendências mais populares de décadas anteriores. A atitude 'qual era a deles?' abrange desde comportamentos a termos de linguagem (o chamado 'calão'), iniciativas culturais (como filmes, séries ou arte) e, claro, roupas e adereços visuais, talvez o alvo mais fácil de entre os citados.

E ainda que não seja de todo descabido dizer que muitos destes aspectos não merecem o desdém que lhes é reservado (sendo, pura e simplesmente, produtos de um tempo muito diferente) outros há que verdadeiramente suscitam a pergunta 'como é que isto era permitido?' - como é o caso do 'item' que hoje abordamos.

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Uma imagem que deverá evocar muitas memórias

As bolsinhas para trocos de pôr à cintura (as famosas 'fanny packs' dos norte-americanos) nunca foram um paradigma de estilo; aliás, nem sequer foram alguma vez desenhados para o ser. Embora existissem bolsas deste tipo fabricadas pelas grandes marcas da altura, nem mesmo estas tinham a audácia de tentar vender o referido adereço como algo mais do que um produto puramente prático – um sítio para quem não tinha carteira de alças pôr as moedas, notas e cartões, quer à solta, quer no respectivo porta-moedas ou carteira (no sentido de receptáculo de dinheiro e cartões.) As mesmas não eram, de todo, comercializadas como um indicador de moda, ou mesmo algo desejável – e, no entanto, foi exactamente nisso que se tornaram, um pouco por todo o Mundo durante os anos 90.

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Estes acessórios eram tão populares que até celebridades como The Rock se deixavam fotografar com elas

Portugal não foi excepção a esta regra, sendo que nos primeiros anos da década, em particular, não havia membro de uma determinada faixa etária que não exibisse orgulhosamente a sua bolsinha de trocos a tiracolo (algumas de padrão bem 'anos 90'), sem que a mesma o tornasse objecto de ridículo – antes pelo contrário. E enquanto os membros mais velhos dessa mesma demografia utilizavam este acessório da maneira correcta, para os mais novos (com menor acesso a dinheiro e ainda muito jovens para usar carteira) o mesmo transformava-se, muitas vezes, num repositório do tipo de quinquilharias de que aqui falamos por vezes às quintas feiras – coisas como berlindes, bolinhas saltitonas, bolas de sabão, Tazos, Matutolas, Pega-Monstros, cartas, cromos, pastilhas, chupa-chupas, bolachas, chocolates ou até figuras de acção, se a bolsa fosse grande o suficiente.

De facto, apesar de do ponto de vista da moda serem mais do que questionáveis, estes acessórios afiguravam-se como uma excelente maneira de transportar este tipo de pequeno objecto que era (e é) parte tão integrante da vida das crianças em idade pré-adolescente; e o mínimo que se pode dizer é que quem foi desta idade nos anos 90 tirou o máximo partido da sua 'bolsinha'...

Claro que uma moda tão 'parola' como esta não podia ter grande longevidade, e menos de uma década depois de terem sido consideradas o supra-sumos da moda, as bolsinhas para trocos tinham sido relegadas a motivo de chacota, e substituídas, no caso do sexo masculino, por um 'item' algo mais aceitável, embora hoje também alvo de ridículo – as bolsas a tiracolo, vulgo 'pochettes'. No entanto, aqueles anos loucos em que as 'fanny packs' foram universalmente aceites como acessórios desejáveis ainda hoje fazem parte da consciência colectiva – e com bom motivo. Afinal de contas, 'qual era a nossa' em usar aquelas coisas?!

11.06.21

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

E chegou, hoje, finalmente a hora de falar de uma ‘moda’ que ninguém em Portugal – excepto, aparentemente, o Google – parece ter esquecido.

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Sim, hoje vamos falar de um artigo que, sem nunca ter tido nenhuma daquelas denominações sonantes dadas por equipas de marketing, tem no entanto um nome coloquial globalmente aceite entre quem o usou: os ténis ‘pisa-e-brilha’.

O próprio nome já revela o principal ponto de interesse deste tipo de calçado: sempre que se dava um passo acima de determinado nível de força, o ténis emitia um efeito LED, a partir de uma peça de plástico colocadas perto do calcanhar. Um ‘truque’ simples, talvez, mas que, à época, nunca perdia o ‘cool effect’, não importa quantas vezes se visse ou activasse.

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A mecânica em acção

Como costuma acontecer com produtos ‘com truque’, os ténis ‘pisa-e-brilha’ não eram de nenhuma qualidade por aí além, nem particularmente bem acabados; até mesmo esteticamente, não passavam de ténis perfeitamente vulgares, normalmente brancos, e sem nada que os distinguisse de milhares de outros modelos ‘sem marca’ – a não ser, claro está, aquela luzinha mágica na zona dos calcanhares, que faziam toda a diferença, para além de subirem o preço de cada par…

Enfim, valessem ou não a pena do ponto de vista qualitativo-económico, a verdade é que não havia criança ali por meados dos anos 90 que não tivesse ou quisesse uns ténis ‘pisa-e-brilha’. Ainda mais do que os ténis com bonecos licenciados, este tipo de calçado era uma espécie de Santo Graal para quem não o tinha, e motivo de orgulho e gabarolice para quem tinha. E tudo isto, recorde-se, por causa de uma luzinha LED, daquelas que se encontram em qualquer boneco barato da ‘loja dos 300’, mas que fora do seu context normal e expectável, se tornavam instantaneamente mais ‘fixes’.

Tal como todas as restantes ‘modas’, no entanto, os ténis ‘pisa-e-brilha’ foram-se tornando progressivamente menos comuns à medida que a geração de 80 e inícios de 90 crescia, tendo mesmo acabado por ser substituídos pela nova ‘febre’ - os ténis com rodas, coqueluche das crianças do novo milénio. Recentemente, no entanto, este tipo de sapatos parece estar a viver uma espécie de renascer – só que, como é costume nos dias de hoje, de uma forma muito mais espalhafatosa e exagerada. Onde antes havia duas luzinhas na parte de trás da lateral do sapato, há hoje verdadeiros jogos de luzes, dignos de um carro ‘tunado’, e que fazem quem os veste parecer que vai participar de um vídeo de TikTok sobre Dance Dance Revolution – o que, aliás, talvez seja mesmo o objectivo.

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O 'pisa-e-brilha' adaptado à geração 'millennial'

(Note-se, ainda, que quando dizemos ‘parece’, estamos, como é óbvio, a falar das imagens disponíveis no Google – o mais provável é que, com os ténis na mão, o efeito continue pouco mais ou menos igual ao que era há um quarto de século atrás. No entanto, se as crianças de hoje em dia forem como as daquele tempo, isso não será certamente obstáculo a que a ‘febre’ dos ‘pisa-e-brilha’ se torne a instalar em Portugal…)

14.05.21

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

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Quem se lembra delas? Sim, as lendárias meias brancas com raquetes, peça indispensável da gaveta e guarda-roupa diário de qualquer criança dos anos 90. Esta era daquelas modas que transcendia sexos, épocas e níveis de popularidade social – TODA a gente de uma certa idade as vestiu, durante TODA a década (e parte da anterior, também!), e sem as habituações preocupações sobre o aspecto com que ia ficar, ou o que os colegas iam dizer na escola. As meias de raquetes eram indiscutíveis, universalmente aceites, e o que dava verdadeiramente azo a comentários era NÃO as usar – porque essa ideia simplesmente não cabia na cabeça de ninguém.

E no entanto…esta é das modas mais inexplicáveis não só dos anos 90, mas da história do vestuário recente. Pensem bem. São meias brancas (também havia de outras cores, mas sejamos sinceros, as verdadeiras meias de raquetes eram BRANCAS), de ténis, com umas raquetes mais ou menos mal amanhadas desenhadas. São uma daquelas poucas coisas ‘retro’ que MERECEM ser gozadas, que justificam o tratamento ‘o-que-é-que-nos-deu-na-cabeça’ que a Internet reserve a quase tudo aquilo de que gostou na infância. Porque, a sério – O QUE É QUE NOS DEU NA CABEÇA para fazer disto não só um item bem aceite socialmente, mas uma moda? Quem foi a primeira pessoa que olhou para AQUELAS meias e disse ‘yep, vou vestir isto para a escola, não tem como dar errado’?

E já que falamos nisso, de onde é que estas meias vieram? Como é que surgiram? Normalmente, é relativamente fácil traçar o percurso de uma peça de roupa ou outro acessório, mas no caso das meias de raquetes, as suas origens perdem-se numa nuvem de mistério. São daqueles itens que parecem ter surgido no mercado português de um dia para o outro, e desaparecido da mesma maneira, sem deixar rasto, a não ser na mente de uma geração de miúdos, entretanto ‘crescidos’ e levemente envergonhados daquelas meias ‘fatelas’ que usavam aos dez anos. Presumivelmente, seriam uma tentativa ‘anónima’ de imitar o que marcas como a Adidas e a Umbro faziam na altura, sem cair na armadilha da imitação barata, e que acabou por resultar quase por acaso – ou não. Ou, se calhar, até foi outra coisa qualquer – quem sabe…

Enfim, qualquer que tenha sido a sua origem, o facto é que estas meias foram uma autêntica ‘febre’ por quase uma década e meia -  apesar de não terem absolutamente nada de especial. A qualidade era média, nada de extraordinário, apenas o normal para meias de ténis em algodão. A estética…enfim. Eram daquelas coisas que uma mãe ou avó compraria para uma criança, mas nunca o tipo de artigo que um miúdo activamente pediria aos pais para comprar. E, no entanto, foi exactamente isso que se passou: estas meias contrariaram as expectativas, e tornaram-se daqueles itens desejados - e orgulhosamente usados - por qualquer criança daquela geração. Aqui no blog, por exemplo, tínhamos vários pares, quase todos iguais – e mais pares tivéssemos tido, mais teríamos orgulhosamente usado para a escola todos os dias. Enfim, inexplicável.

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As nossas eram muito parecidas com estas.

E desse lado? Quantas tinham? (Não vamos perguntar SE tinham, porque CLARO que tinham.) Quando é que se aperceberam que o vosso item de roupa favorito eram umas meias brancas manhosas? Partilhem as vossas memórias nos comentários!

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