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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.06.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Conforme já mencionámos em edições anteriores desta rubrica, não era, de todo, prática incomum entre os jornais e até revistas nacionais dos anos 90 editarem um suplemento de banda desenhada. Foi assim com publicações tão díspares quanto o Expresso e a TV Guia, e foi também assim com aquele que continua a ser um dos maiores periódicos do nosso País, o Diário de Notícias.

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Capa do número 1 do suplemento, editado em Fevereiro de 1990

O suplemento em causa, editado em inícios da década (a primeira edição data logo de 11 de Fevereiro de 1990) e patrocinado pelo então super-popular sumo Um Bongo, tinha a singela mas descritiva designação de 'BDN' (um jogo de palavras bem conseguido entre a abreviatura da expressão 'banda desenhada' e a do próprio jornal) e adoptava o mesmo formato de publicações como 'Tintin' ou a revista 'Selecções BD', da Meribérica-Liber, apresentando semanalmente tranches de histórias de heróis, sobretudo, franco-belgas, dos bem conhecidos Astérix, Spirou ou Michel Vaillant à adaptação em banda desenhada das aventuras de 'Os Cinco' (de Enid Blyton); pelo meio, havia ainda espaço para divulgar alguns autores e 'cartoonistas' nacionais, como Ruy, responsável pelas duas edições especiais publicadas pelo suplemento, a primeira sobre a vida de Charlie Chaplin, e a segunda uma adaptação de 'Como Apareceu O Medo', um dos contos incluídos n''O Livro da Selva', de Rudyard Kipling - este último mais tarde editado em álbum pela própria Editorial Notícias.

No fundo, sem diferir muito de outros suplementos do mesmo tipo – a única particularidade eram mesmo os títulos licenciados – o 'BDN' não só não deixava de proporcionar aos jovens daquele tempo algo com que se entreter enquanto os 'mais crescidos' liam o resto do jornal, como lhes proporcionava material de qualidade e de verdadeiro interesse para a demografia em questão, algo que nem sempre ocorria com este tipo de suplementos; assim, e apesar de hoje em dia se encontrar algo 'Esquecido Pela Net' (o único registo existente é no 'site' da Bedeteca, de onde foi retirada a ilustração deste post) este suplemento acaba por justificar estas breves linhas memoriais, que – espera-se – ajudarão a avivar muitas memórias relativamente ao mesmo.

26.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Quarta-feira, 25 de Maio de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas-compilação, que reuniam, em cada número, trechos de diversas obras distintas, foram, até há relativamente pouco tempo, presença comum no mercado tipográfico português, sendo o seu expoente máximo as Selecções do Reader's Digest, que além de trechos de obras publicavam também artigos sobre temas de interesse, bem como textos originais mais curtos.

Curiosamente, no mercado da banda desenhada, este tipo de revista viu-se representada, não por uma, mas por duas publicações distintas: primeiro, nos anos 60 e 70, a excelente revista 'Tintim', que conseguiu fazer vingar o formato por impressionantes quinze anos, e mais tarde, já nos anos 90, a revista 'Selecções BD', de expressão bem menor, mas que conseguiu, ainda assim, almejar duas séries.

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Capa do número 1 da primeira série da revista

Com periodicidade mensal, e da responsabilidade da editora Meribérica-Liber, o conceito da 'Selecções BD' estava descrito no próprio título, e era em tudo semelhante ao da sua antecessora; tal como 'Tintim', também a nova revista se propunha reunir em cada número trechos de obras de vários autores, publicados em ordem cronológica de modo a formar, a médio prazo, uma história completa. Também à semelhança da revista dos anos 60, cada número incluía autores tanto nacionais como internacionais, com particular ênfase no excelente e sempre prolífero mercado franco-belga, em que a editora tradicionalmente se especializou, ede onde eram provenientes nomes como Blake & Mortimer, Blueberry e Michel Vaillant, que 'ancoravam' a revista e lhe davam apelo extra entre os 'bedéfilos'.

Com esta fórmula, chegaram às bancas 36 números, entre 1988 e 1991, custando cada um uns exorbitantes 550$00, cerca de cinco vezes mais do que um adepto de BD poderia esperar pagar, à época por uma revista Disney ou de super-heróis; será caso para dizer que a qualidade se paga, já que tanto o conteúdo como o grafismo destas revistas eram de alta qualidade.

Apesar do preço proibitivo, essa primeira série das Selecções terá feito sucesso suficiente para justificar um regresso às bancas, sete anos depois da extinção da revista original, agora com um grafismo bem mais tradicional para uma publicação deste tipo, em linha com o que a Abril-Controljornal vinha fazendo com títulos como 'Heróis'.

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Capa do número 1 da segunda série da revista

O conceito e o material, esses, não se haviam alterado, embora o acervo de autores se apresentasse significativamente mais reduzido, tornando os astronómicos 900$00 pedidos pela Meribérica bem mais questionáveis do que os equivalentes 550$00 do início da década. Ainda assim, a segunda série conseguiu ser quase tão longeva quanto a original, vendo 31 números publicados entre 1998 e 2001.

Hoje em dia, a possibilidade de uma publicação deste tipo granjear sucesso é quase tão reduzida quanto a sua própria validade e viabilidade: num mundo em que tudo está ao alcance dos dedos, em formato digital, não faz qualquer sentido estar um mês à espera de mais uma tranche de uma história, pela qual se tem depois de pagar um preço exorbitante. Como tal, é provável que o mercado português – bem como o internacional – jamais tornem a ver outra publicação como esta 'Selecções BD', que constitui hoje, ainda assim, um excelente documento do que foi o 'boom' da banda desenhada franco-belga em Portugal durante os anos 80 e 90.

 

03.11.21

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

A História da banda desenhada importada em Portugal está, grosso modo, dividida em dois grupos; por um lado, as bandas desenhadas 'de quiosque', normalmente produzidas no prolífico sistema norte-americano e importadas para a Lusitânia via Brasil ou Itália, e por outro, as BD's em álbum, geralmente algo mais 'intelectuais' e provenientes dos países da Europa francófona (embora pelo menos uma série, de considerável sucesso no nosso País, fosse oriunda de Espanha.)

Desde as décadas de 1960 e 70, estas duas vertentes têm convivido lado a lado na vida das crianças e jovens portugueses, sem que nenhuma consiga a preferência definitiva dos mesmos – e os anos 90 não foram excepção nesse campo. Se é verdade que as revistas da Disney, Marvel ou Turma da Mônica eram mais conhecidas e populares, até por serem de mais fácil acesso e terem preços mais acessíveis, também é facto que não era preciso procurar muito para encontrar uma criança que tivesse, pelo menos, um ou dois álbuns de Astérix, Lucky Luke ou Tintim em casa.

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Capa da edição original e reedição do primeiro álbum de Astérix

Grande parte da responsabilidade por esta situação, pelo menos no que às BD franco-belgas diz respeito, é da editora Meribérica-Liber, principal porta-estandarte deste tipo de obra literária, tanto no Portugal dos anos 90 como no de hoje em dia. Foi (e é) por mérito desta editora, e dos seus esforços por adquirir as licenças das mais populares séries criadas nos países francófonos, que a maioria das crianças daquela década (e das seguintes) tiveram o primeiro contacto com os heróis acima citados, bem como com outros como Spirou (o eterno 'quarto grande'), Corto Maltese, Michel Vaillant, Spaghetti, Gaston, Cubitus ou Achille Talon. Embora a maioria destes heróis já tivesse aparecido na revista 'Tintim' (publicação histórica da imprensa portuguesa, publicada durante nada menos de 15 anos, entre os finais da década de 60 e inícios da de 80 e que serviu de porta de entrada para a maioria destes personagens no nosso país) os álbuns da Meribérica serviram para os apresentar a toda uma nova geração – táctica que, aliás, resultou em pleno, dando azo a três décadas de publicação ininterrupta das suas aventuras em Portugal, além de vários álbuns periféricos, como o álbum de texto corrido de Astérix sobre como Obélix caiu no caldeirão de poção mágica em pequeno, ou o recente 'remake' de Lucky Luke que toma a dúbia opção de o montar numa bicicleta, em pleno Velho Oeste americano do século XIX (!)

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A duvidosa reimaginação recente de Lucky Luke

Re-imaginações duvidosas à parte, o que é certo é que estes álbuns cativaram mesmo o seu público-alvo, com a sua mistura bem característica de diálogos humorísticos, aventura, personagens memoráveis, e um toquezinho de 'pastelão', embora este fosse sempre usado como acessório, e nunca como centro do humor dos livros. Quando combinadas com o controlo de qualidade e atenção ao detalhe da maioria dos criadores franco-belgas de primeira e segunda linha (ou seja, aqueles que eram bons o suficiente para serem exportados) estas características faziam (e fazem) das principais séries da Meribérica apostas seguras para quem procurava bandas desenhadas infantis mais 'inteligentes' do que a média. Alguns destes personagens chegaram, inclusivamente, a originar 'merchandising' do mais insólito, como foi o caso do sumo de frutas Astérix, lançado em final dos anos 90, mas do qual, infelizmente, não restam quaisquer provas na Internet – sobre este assunto, têm de acreditar em chegou a beber o referido sumo numa ou outra festa de anos...

Numa altura em que a BD se volta a popularizar em Portugal, e em que cada vez mais lojas da especialidade surgem por esse Portugal afora, é de prever que as BD da Meribérica, e de outras editoras entretanto formadas, continuem com tendência ascendente – mesmo sabendo que não haverá, por exemplo, novos álbuns de Astérix, o grande filão da editora. Isto porque mesmo os livros mais antigos das principais séries da editora têm um certo carácter intemporal, que faz com que possam ser tão bem aceites e populares entre as crianças da década de 2020 quanto o foram junto dos seus pais, os 'putos' dos 90. ou até dos pais destes, aquando da publicação original das séries no nosso país; resta, pois, esperar para ver se, nesta era cada vez mais digital e imediatista, estes heróis clássicos conseguem continuar a prender o interesse do seu público-alvo.

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