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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

10.03.24

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 9 de Março de 2023.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Em Portugal, como no resto do Mundo, a música 'pesada' continua a ocupar um lugar de nicho e de base maioritariamente independente e 'underground', tendo em megabandas como Metallica, Iron Maiden, AC/DC ou – em Portugal – Moonspell a sua única expressão junto do chamado 'mainstream'. No entanto, o referido movimento 'underground' tem, desde o seu aparecimento há já cinco décadas, historicamente sido vibrante, com inúmeras bandas a surgirem diariamente, e diversos promotores a organizarem, de forma totalmente independente e sem recurso a grandes verbas, concertos de alguns dos mais conceituados nomes dos diferentes estilos, normalmente centrados em torno de 'meia dúzia' de salas e espaços conotados com o movimento. Um desses espaços, talvez entre os três mais famosos do País, conseguiu, no seu curto tempo de vida, deixar uma marca indelével no movimento 'metaleiro' nacional, o qual contribuiu, em grande medida, para dinamizar.

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Falamos do Hard Club, sala inaugurada em Gaia, na zona do Grande Porto, nos últimos dias do ano de 1997 e encerrado nos primeiros do ano de 2007, quando se trasladou para um novo espaço mais abrangente tanto em termos físicos como de programação – um espaço temporal de quase exactos dez anos, mas que parece ter o dobro, tal era a ubiquidade desta sala na cena metálica lusitana do período em causa. De facto, durante o seu tempo em actividade, o Hard Club afirmou-se como a alternativa nortenha ao lisboeta Paradise Garage, acolhendo muitas das mesmas bandas daquele – a grande maioria artistas de hard rock, 'hardcore', metal ou punk de média dimensão, capazes de encher uma sala para alguns milhares de pessoas, mas longe do nível de fama e apelo massificado exigido para tocar no então Pavilhão Atlântico (principal sala de concertos nacional à época) num estádio, ou mesmo num dos Coliseus.

Deste ponto de vista, o Hard Club teve um contributo indelével e praticamente inigualado no contexto da música pesada em Portugal, permitindo aos fãs de artistas dentro deste espectro presenciar concertos que, de outro modo, talvez tivessem implicado uma ida ao estrangeiro – não sendo, pois, de estranhar que o espaço se tenha tornado ponto de 'romaria' para grande parte dos 'metaleiros' do Norte de Portugal, como o eram, mais a Sul, o Paradise Garage, o Revolver Bar ou o Side-B.

Infelizmente, a mudança de espaço (para o Mercado Ferreira Borges, que agora explora na totalidade) ditou, também, um afastamento das raízes 'roqueiras' do espaço, em nome da diversificação para uma proposta cultural mais 'generalista' – um objectivo louvável, mas que privou os 'headbangers' portugueses de uma das suas salas de referência, numa altura em que o número e volume das mesmas se encontra em rápido declínio. Ainda assim, nos pouco mais de dez anos em que existiu na sua forma 'original', a sala portuense conseguiu deixar marcas suficientes nos jovens fãs de música pesada para merecer ser recordada, a par de salas como as lisboetas Rock Rendez-Vous e Johnny Guitar, como uma das melhores Saídas de Sábado de índole musical de finais do século XX e inícios do seguinte.

16.02.24

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Ao longo do tempo de vida deste 'blog', e desta rubrica em particular, temos vindo a recordar os mais diversos estilos de calçado, não sendo as botas excepção a esta regra – até por, no Portugal dos anos 90, este ter estado entre os tipo de calçado que mais frequentemente 'entrou' e 'saiu' de moda. Das Panama Jack às botas texanas, passando pelas 'famosas' Timberland ou Doc Martens, foram muitos (e muito saudosos) os tipos e modelos de bota a adornar os pés das crianças e adolescentes (bem como de muitos adultos) durante a última década do século XX. E enquanto que alguns destes formatos estavam associados aos chamados 'betinhos', e outros a estilos mais 'alternativos', apenas um conseguia conferir, quase imediatamente, ao seu dono o estatuto de 'mauzão': as botas de biqueira de aço.

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De facto, para muitos 'millennials' nacionais, a mera menção deste termo conjurará imagens do 'metaleiro' lá da escola, ou daquele indivíduo que todos receavam, pela sua propensão para brigas e outras actividades menos do que desejáveis. Isto porque, durante o breve período em que deixaram de ser instrumentos de trabalho para passarem a moda adolescente, as botas de biqueira de aço tendiam a ser compradas e utilizadas pelo sector da 'sociedade' escolar que procurava projectar uma imagem vagamente 'perigosa', fosse a mesma puramente estética ou baseada em aspectos da sua personalidade. Talvez por isso este modelo de calçado fosse tão cobiçado por aqueles que, por uma razão ou outra, eram incapazes de se 'impôr' – talvez na esperança que, como os sapatinhos vermelhos de Dorothy ou os ténis de 'Like Mike', as mesmas lhes conferissem 'poderes' especiais de auto-confiança uma vez envergadas. O preço proibitivo das mesmas – bem como o aspecto algo austero e pouco condicente com indumentárias 'normais' – mantinha, no entanto, essa ambição no plano do simples desejo, restringindo o uso destas botas ao tal sector mais 'feio, porco e mau' da população escolar.

Mais de vinte anos depois, as botas de biqueira de aço parecem ter regressado ao nicho do calçado de trabalho, sendo raros os modelos puramente estético deste tipo de sapato, pelo menos para quem não se insere nos meandros do movimento 'metaleiro'; para qualquer 'millennial' que tenha andado no ensino secundário em finais dos anos 90 e inícios do Novo Milénio, no entanto, as mesmas continuarão, sem dúvida, a simbolizar uma certa estética e forma de estar tão invejada quanto temida nos pátios de recreio do País de então...

 

16.10.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Todas as cenas musicais as têm: aquelas bandas que ficam juntas durante pouco tempo, lançam talvez um ou dois álbuns, sem nunca almejar grande sucesso, mas adquirem um estatuto de culto que as faz permanecer relevantes entre os círculos de melómanos mais 'curiosos' durante várias décadas. O movimento pop-rock português não é excepção nesse aspecto, como bem demonstra o grupo que abordamos nesta Segunda de Sucessos, cujo único álbum continua a ser uma das grandes 'curiosidades' do estilo, tal como era praticado em Portugal na primeira metade dos anos 90.

Formados em Chaves no final da década anterior, o projecto conhecido como Adamastor começou por apostar numa sonoridade mais pesada, com letras em Inglês, que chegou a render uma 'demo' com dois originais e uma versão de Thin Lizzy; no entanto, a entrada do vocalista e compositor Artur Órfão mudou o idioma para Português e o som para um registo mais voltado para o pop-rock radiofónico, já com muito pouco a ver com o hard rock tradicional e conservador da maqueta.

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Capa e contracapa do único álbum da banda.

De facto, o que se ouve no primeiro e único longa-duração da banda, editado em 1992 pela incongruente Espacial, rainha dos discos de 'pimba' de tabacaria ou estação de serviço (ao lado dos quais este disco muita vezes figura) está mais próximo de uns GNR do que das referências 'metálicas' nortenhas da época, como Xeque-Mate ou Tarantula, com músicas conduzidas, sobretudo, pela guitarra semi-acústica dedilhada - raramente se ouve um 'riff' electrificado na dúzia de temas que compõem o disco - pela percussão simples e compassada, tipicamente pop-rock, e pela voz dramática e meio declamada de Órfão, que traz muitos ecos de Rui Reininho, bem como uma pitada de Xico Soares (dos referidos Xeque-Mate), ainda que com mais talento e técnica do que este último. Uma fórmula que até poderia resultar, não fora a péssima produção (praticamente só se ouvem os três instrumentos atrás citados) e a desinspiração das composições de Órfão, que parece só saber escrever um único tipo de música, mudando apenas a letra e os arranjos. Aliado à dificuldade em ouvir as 'nuances' de cada tema, derivada da pobre produção, este factor faz com que o disco soe como um 'bolo' uniforme de música, sem que haja um único refrão memorável ou arranjo diferenciado que ajude qualquer das composições a destacar-se, o que torna a audição do disco algo penosa e retira a apetência para dar a habitual segunda ou terceira oportunidade a estes doze temas.

Assim, e dado o relativo insucesso do álbum, não é de surpreender que os Adamastor pouco mais tenham durado após a gravação do mesmo; com material mal produzido, aborrecido e parcamente promovido por uma editora totalmente errada, a banda estava condenada ao falhanço, e o principal contributo da mesma para a cena musical nacional continua, até aos dias de hoje, a ser a revelação do baterista Rui Danin, que viria posteriormente a fundar os Web – estes sim, uma banda de metal – e a colaborar com grupos tanto estabelecidos como emergentes da cena, como os supramencionados Tarantula (ídolos do metal nortenho), os Pitch Black, os Hyubris ou os ThanatoSchizo. Quanto ao único registo da sua primeira banda, certamente será encarado, hoje em dia, como um 'desvario' de juventude, cujo estatuto de culto se deve apenas ao seu relativo desconhecimento e raridade, e à presença de Danin entre os músicos participantes – uma situação que, face ao material apresentado, acaba até por ser algo lisonjeira...

A banda chegou a reunir-se em 2018, para tocar num evento local.

02.10.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A grande maioria do movimento musical português continua, até hoje, a centrar-se em torno do pop-rock 'de guitarras' de pendor radiofónico, surgido nos anos 70 e consolidado como principal género lusitano nas duas décadas seguintes. Aqui e ali, surgem nomes proeminentes em outros estilos – nomeadamente o hip-hop, o metal e mesmo o tradicional fado – mas os mesmos continuam a ser uma minoria, e até mesmo esta breve 'janela' de oportunidade tende a não se estender a géneros mais periféricos do espectro musical. Serve esta introdução para clarificar que fundar um projecto de rock industrial em Portugal é nada menos do que um acto de coragem – e conseguir mantê-lo activo e relevante durante três décadas, uma façanha digna de ser louvada.

E, no entanto, é precisamente isso que Armando Teixeira e Rui Sidónio têm vindo a conseguir com o projecto Bizarra Locomotiva, cujo último álbum saiu há pouco mais de uma semana à data de publicação deste 'post', que teria sido escrito apenas dois dias após o seu lançamento, não fora o hiato forçado. Ainda assim, mesmo com este atraso, o lançamento de 'Volutabro' continua a ser relevante o suficiente para justificar uma retrospectiva dos seus autores, até por este ano assinalar o trigésimo aniversário do projecto.

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De facto, foi em 1993 que Teixeira e Sidónio procuraram reunir uma banda, com vista a participar no Concurso de Música Moderna de Lisboa. Desse primeiro passo à transição para banda 'a sério' mediariam apenas alguns meses, com o álbum de estreia auto-intitulado a sair logo no ano seguinte, pela independente Simbiose, uma das principais editoras de bandas 'underground' de rock pesado em Portugal.

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O álbum de estreia do grupo, lançado em 1994.

Esse mesmo selo viria, nos dois anos subsequentes, a editar mais dois registos de originais de um grupo que provava ter uma ética de trabalho 'à moda antiga', e que, no tempo que normalmente leva a uma banda a escrever um único álbum, lançava três registos, por entre uma agenda de concertos bastante preenchida – uma atitude que, aliada à qualidade do colectivo, não tardaria a torná-los conhecidos dentro dos círculos do rock, punk e metal portugueses, e que lhes valeria o respeito de nomes como Fernando Ribeiro, dos Moonspell (que viria a participar num dos discos do colectivo) e a participação na Bienal de Jovens Criadores da Europa Mediterrânica, em meados da década. Até final da mesma, tempo ainda para um quarto álbum ('Bestiário', de 1998, novamente pela Simbiose) e para a participação no lendário tributo aos Xutos e Pontapés, 'XX Anos, XX Bandas', com uma reinvenção industrializada do tema 'Se Me Amas' que não deixava de se destacar do som mais clássico e típico de outros colectivos presentes no disco, como os Entre Aspas.

O Novo Milénio via, finalmente, o ritmo de trabalho do grupo abrandar para um ritmo mais normal – nos primeiros dez anos do século XXI, saem três registos de originais, o último dos quais, 'Álbum Negro', de 2009, com intervalo de cinco anos em relação ao anterior 'Ódio' – mas sem beliscar minimamente a reputação do grupo, que perduraria até quando, na década de 2010, o grupo quase parou a produção criativa, soltando apenas um único álbum, o sétimo, intitulado 'Mortuário' e lançado por outra 'grande' independente portuguesa, a Rastilho, em 2015. Pelo meio, o afastamento do fundador e vocalista Armando Teixeira – um acontecimento que ditaria o fim de muitas bandas, mas não dos Bizarra, que, por entre compassos de espera tão forçados quanto necessários, chegariam, após tortuosos oito anos, ao disco correspondente (o oitavo) que prova que pouco ou nada mudou na sonoridade metálica industrial do grupo agora capitaneado por Rui Sidónio, um exemplo de perserverança numa cena que continua a ser ingrata para quem não aposte num estilo radiofónico e vendável. Que contem ainda muitos anos, porque o algo estagnado panorama musical português precisa de 'anomalias' como eles.

Primeiro avanço do novíssimo álbum do grupo, lançado no passado mês de Setembro

24.07.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Por vezes, no mundo da música, sucede um fenómeno curioso, mediante o qual um determinado país ou região cria laços afectivos com um artista ou grupo estrangeiro, a ponto de o mesmo ser acarinhado como se de um 'produto' nacional se tratasse. É, ainda hoje, o caso, por exemplo, com o Brasil e Argentina em relação aos Iron Maiden e KISS, do Japão em relação a Ozzy Osbourne, e – como veremos neste post – de Portugal com os alemães Guano Apes.

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De facto, durante o auge da sua popularidade, em finais dos anos 90, parecia não passar um ano sem que a banda de Sandra Nasic, Henning Rümenapp, Steffan Ude e Dennis Poschwatta fizesse mais uma paragem em algum palco português – normalmente num dos inúmeros festivais de Verão realizados à época, um pouco à semelhança do que se passaria também com os Metallica na década seguinte - ou até mesmo num programa de televisão, por mais incongruente que este fosse com o seu estilo musical. E, para ser sincero, o público lusitano também não parecia cansar-se de ouvir sucessos como 'Lords of the Boards', 'Rain', 'Open Your Eyes' ou a versão 'rockalhada' para 'Big In Japan', original dos Alphaville – tudo temas repetidos quase em 'loop' nas rádios 'alternativas' portuguesas, sobretudo na saudosa e influente Mega FM. E depois, de repente, tudo parou; o grupo deixou de gozar do sucesso que anteriormente conhecia, e o nome Guano Apes desapareceu do léxico musical dos jovens afeitos ao rock alternativo.

O concerto da banda na edição de 2000 do Festival do Sudoeste, e a inesperada aparição programa 'Herman 99', sucessor de 'Herman 98' na grelha da SIC são apenas duas das muitas presenças dos Apes no nosso País por alturas da viragem do Milénio.

As razões para tão abrupto 'esquecimento' são incertas, sendo que, mesmo tendo em conta o decréscimo de sucesso do primeiro para o segundo álbum, o grupo continuou a ser bastante popular tanto entre entusiastas do movimento 'nu-metal' (nas franjas do qual a banda vinha caminhando) como do rock alternativo mais melódico, mas ainda assim cheio de atitude, ao estilo de umas Hole ou Veruca Salt. Mas se 'Don't Give Me Names' (de 2000) ainda teve a 'cover' de Alphaville, 'Don't Give Me Names' (de 2003) não gozou da mesma sorte, apesar da presença de pelo menos um tema tão bom quanto os dos dois primeiros álbuns, o explosivo 'Dick'. A total indiferença a que o dito lançamento foi votado, aliado às habituais 'diferenças criativas', viria, aliás, a ditar o fim dos Guano Apes, que entravam em hiato em 2006 para prosseguir outros projectos, nenhum dos quais teve qualquer repercussão em Portugal.

Parecia ser o fim do 'caso' amoroso entre os 'roqueiros' alternativos alemães e o público lusitano; no entanto, como sucede em tantos outros casos, a história dos Guano Apes viria mesmo a ter, mais do que um epílogo, uma sequela, já que o grupo se voltaria a reunir apenas três anos depois, e lançaria ainda mais dois discos de estúdio, 'Bel-Air' (de 2001) e o derradeiro 'Offline' (de 2013), além de uma edição especial comemorativa dos vinte anos de 'Proud Like a God'. As visitas a Portugal, essas, mantêm-se até aos dias de hoje, tendo o grupo actuado no nosso País há apenas dois dias, aquando da escrita deste post, no caso na concentração 'motard' de Faro. E embora o seu público esteja – como os próprios músicos – mais envelhecido e enrugado do que há um quarto de século, é de crer que as gargantas continuem afinadas para 'berrar' em uníssono os grandes sucessos de antanho; afinal, uma verdadeira paixão nunca morre completamente, apenas esmorece...

19.11.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

A explosão dos movimentos pop-rock e alternativo nas décadas de 80 e 90 (já aqui documentada em vários dos nossos posts anteriores) levou, lógica e previsivelmente, ao aparecimento de inúmeros espaços (a maioria, também naturalmente, nas áreas urbanas de Lisboa e Porto) onde os fãs destes estilos se podiam juntar para ouvirem o tipo de som da sua preferência, sempre devidamente acompanhado de alguns comes e muitos bebes, ou não se estivesse em Portugal. E se, na década seguinte, ganhariam proeminência e relevância salas como o Paradise Garage, em Lisboa, ou o seu congénere portuense, o Hard Club, nos anos 90 o destaque nesse campo pertencia a espaços como o Dramático de Cascais, ou o estabelecimento de que hoje falamos, o Johnny Guitar.

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Sala mítica da Lisboa dos noventas, sobretudo para quem gostava de um som mais voltado ao 'punk', rock alternativo e até heavy metal, o espaço inaugurado há quase exactos trinta e dois anos (a 7 de Novembro de 1990) por Zé Pedro (dos Xutos & Pontapés), Alex e Kalú (dos Rádio Macau) como 'substituto' para o lendário e malogrado Rock Rendez-Vous conseguiu, nos seus poucos anos de existência, deixar o mesmo tipo de marca na sociedade lisboeta, e sobretudo na sua juventude, que o seu antecessor, tornando-se A sala de referência, por excelência, para concertos de bandas dos estilos supramencionados. Pelo palco do pequeno mas carismático espaço da Calçada Marquês de Abrantes passaram nomes tão díspares como Peste & Sida, Ramp, Pop Dell'Arte, e até Jorge Palma (na sua encarnação mais 'alternativa' como Palma's Gang) ou uns Da Weasel ainda com um som mais puramente hip-hop e letras em inglês; no total, em escassos quatro anos de existência, o mítico espaço albergou mais de quinhentos espectáculos, tendo alguns dos artistas que ali tocaram, inclusivamente, ficado imortalizados no CD 'Johnny Guitar Ao Vivo em 1994, Vol. I', bem como no álbum ali gravado pelo Palma's Gang.

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Os dois álbuns alusivos ao espaço.

Infelizmente, antes que pudesse ser compilado um segundo volume desta colectânea, o bar e sala de espectáculos de Zé Pedro, Alex e Kalú viu-se obrigado a encerrar portas, como consequência de repetidas queixas relativas ao ruído e volume da música que ali se ouvia: uma perda de vulto para a juventude 'roqueira' nacional, que se via assim privada de uma das muito poucas salas declaradamente dedicadas a um som mais barulhento e menos comercial. Fica, pois, a homenagem possível a uma sala que, imagina-se, terá sido marcante na juventude de alguns dos leitores mais velhos deste blog, a quem convidamos a deixarem quaisquer testemunhos sobre o espaço na nossa caixa de comentários.

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

08.08.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quem foi jovem durante os primeiros anos do novo século e milénio certamente terá uma relação muito especial com os festivais de Verão, verdadeiros locais de 'romaria' para fãs de música autêntica e de qualidade, independentemente do género. Só os nomes já são suficientes para causar nostalgia em qualquer ex-'puto' que tenha ido, ou querido ir, a um destes certames: Super Bock Super Rock, Ilha do Ermal, Vilar de Mouros, Paredes de Coura, e aquele sobre o qual nos debruçamos na Segunda de Sucessos de hoje, e cuja edição transacta, realizada este fim-de-semana, marcou os seus vinte e cinco anos de existência – o Festival do Sudoeste.

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A primeira edição do Festival, realizada em 1997

Realizado anualmente na localidade de Zambujeira do Mar, na região de Odemira, no Alentejo, o agora intitulado MEO Sudoeste (o quarto patrocínio do certame em vinte e cinco anos, após TMN, Optimus e a Sagres dos primórdios) inseria-se, inicialmente, na franja mais 'roqueira' do espectro dos festivais de Verão portugueses - sem nunca ser tão declaradamente pesado ou 'metaleiro' como o seu extinto congénere da Ilha do Ermal, o certame reservava, no entanto, a grande maioria do seu cartaz para artistas do espectro do 'rock', tanto comercial como alternativo; e embora, na última década, o foco se tenha gradualmente voltado para a 'pop', para o 'hip-hop' e para a música de dança, é provável que quem visitou o festival nos seus tempos áureos o recorde mesmo como um evento centrado no 'rock', com cabeças de cartaz do calibre de Marilyn Manson, Faith No More, Oasis, The Cure, Sonic Youth ou até Sepultura.

Foi, aliás, precisamente a Brian Hugh Warner (vulgo Marilyn Manson) e à sua banda homónima que couberam as honras de encabeçar o segundo dia da primeiríssima edição do festival, que contou ainda com a participação dos inevitáveis Xutos & Pontapés (que, à época como hoje em dia, dificilmente deixam de estar presentes algures no cartaz de qualquer evento sequer remotamente ligado ao 'rock' realizado em Portugal) e dos então também 'em alta' Blasted Mechanism, entre outros; já os restantes dois dias do festival tinham como cabeças-de-cartaz, respectivamente, as então 'coqueluches' da cena Britpop, Blur (que abriam o festival juntamente com, entre outros, as 'riot grrrls' Veruca Salt, os metaleiros Anger, os indefiníveis Bizarra Locomotiva e a 'instituição' do pop-rock nacional, Entre Aspas) e aos Suede, que alinhavam ao lado de dEUS, Rio Grande, Cool Hipnoise ou Turbojunkie para proporcionar um dia de encerramento tão ecléctico como os dois anteriores, e com alinhamento não menos de luxo.

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O cartaz completo da edição inaugural do certame

De facto, essa primeira edição do Sudoeste estabeleceu, desde logo, uma característica que se estenderia à maioria, senão totalidade, dos festivais de Verão das décadas seguintes – nomeadamente, o facto de a organização ter assegurado que os pagantes tiravam o devido proveito do preço do bilhete, quer o mesmo fosse válido apenas para um dia, quer para dois ou até todos; quem esteve no Sudoeste '97 teve direito a três grandes cartazes - uma tendência que se manteria mesmo depois de o festival ser alargado para quatro dias, já no novo milénio, e que ajudaria a que o festival, e a localidade de São Teotónio, se tornassem num dos pontos de referência dos melómanos portugueses durante os meses de Verão durante o quarto de século seguinte, com que nem a pandemia de COVID-19 conseguiu acabar. Parabéns, Sudoeste – e que ainda contes muitos!

 

03.06.22

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 2 de Junho de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A par de países como o Brasil, a Alemanha ou a Finlândia, Portugal é um dos países onde o movimento 'hard rock' e 'heavy metal' continua a ser mais popular. Apesar da pouca quantidade de bandas de expressão verdadeiramente internacional saídas das suas fronteiras (a lista resume-se a Moonspell, e pouco mais) e da falta de infra-estruturas para concertos e gravações (problema recorrente há mais de quatro décadas) o nosso País continua a apresentar uma considerável densidade populacional de 'metaleiros', 'rockers' e 'punks', prontos a consumir todas as novidades do estilo.

Assim, não é de estranhar que, na era pré-Internet 2.0, tenham surgido em território nacional não uma, mas duas revistas especificamente dedicadas a divulgar essas mesmas novidades, fossem elas novos lançamentos, concertos, notícias sobre os mais populares artistas do estilo, entrevistas, ou até classificados para procura de músicos ou anúncios de lançamento de maquetes. Das duas, foi a mítica revista Loud! que acabou por singrar, tornando-se A referência do género em Portugal (referência essa, aliás, ainda hoje existente, embora apenas em formato online) e acumulando bem mais de uma centena de números, sempre num padrão de qualidade elevadíssimo; no entanto, é a sua antecessora que adquire maior importância histórica, por ter sido pioneira no que toca a publicações sobre o tema, acabando por desbravar caminho para o sucesso da revista lançada nos primeiros meses do novo milénio.

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Capa e grafismo do primeiro número da revista (crédito das imagens: blog Rock no Sótão)

Falamos da revista Riff, surgida nas bancas sensivelmente um ano antes da Loud! (em Janeiro de 2000) e que tinha como principal impulsionador António Freitas, nome maior do jornalismo 'metálico' nacional, tendo sido, entre outros, colaborador de música do programa Curto Circuito, apresentador de programas de rock pesado na Antena 3 e Rádio Comercial, e membro da redacção da referência Blitz, bem como da referida Loud!. A Riff representava uma tentativa de colocar o seu estilo de eleição também nas bancas portuguesas, desiderato esse que, no entanto, apenas seria aperfeiçoado com a sucessora desta publicação, deixando este primeiro esforço algo a desejar; entre 'gralhas', gramática duvidosa e um grafismo mais a dar para 'fanzine' do que publicação oficial, a Riff só se destacava mesmo pelo CD que oferecia com cada edição, no qual se incluíam temas dos mais recentes trabalhos de muitos dos artistas mencionados ou abordados em cada edição.

Ainda assim, num panorama isento de quaisquer outras opções, a Riff representava uma forma – ainda que algo amadora - de os 'metaleiros' de Norte a Sul do País poderem ir sabendo o que se passava dentro do seu género de eleição; no entanto, o surgimento da Loud!, apenas um ano depois, veio tornar mesmo esse objectivo obsoleto, visto oferecer uma alternativa de muito melhor qualidade, que não deixava qualquer motivo para continuar a apoiar a revista mais 'fraquinha'.

Assim, não foi minimamente de estranhar que a longevidade da Riff nas bancas após o aparecimento da sucessora tenha sido extremamente reduzido, e que, nos dias que correm (e ao contrário da referida sucessora) a mesma esteja praticamente Esquecida Pela Net, e seja descrita pelo próprio Freitas como 'não tendo corrido muito bem'; há, no entanto, que atribuir crédito à publicação pelo trabalho 'de sapa' e de desbravamento de caminho que realizou em prol do jornalismo musical 'pesado' em Portugal, dando aos milhares de 'metaleiros' do País uma primeira representação dentro da imprensa escrita portuguesa, e ajudando-os, assim, a sentirem-se menos ostracizados dentro da cena musical nacional como um todo.

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