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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

02.02.24

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Os anos 80 e 90 do século passado assistiram àquele que talvez tenha sido o primeiro grande influxo de marcas estrangeiras para o nosso País. Embora os produtos importados, entre eles peças de vestuário, sempre tenham chegado a Portugal, a abertura do mercado nacional ao exterior, como consequência do fim da ditadura e posterior adesão à CEE, fez com que as importações aumentassem substancialmente de volume, e apresentou os jovens portugueses a uma série de marcas e modelos de roupa anteriormente apenas vistos em filmes ou séries de origem estrangeira, e que rapidamente se tornaram favoritos entre a demografia em causa.

Não quis isto dizer, no entanto, que as 'alternativas' nacionais ou ibéricas já existentes no mercado tenham perdido o seu espaço, pelo menos não no imediato; pelo contrário, os primeiros anos da década de 90 viam, ainda, marcas portuguesas ou espanholas conviver harmoniosamente com as suas recém-chegadas congéneres estrangeiras no guarda-fatos dos jovens portugueses. Uma dessas marcas – talvez a mais famosa e conhecida – era oriunda da zona de São João da Madeira, no Norte de Portugal (a mesma de onde saíriam, mais tarde, as não menos icónicas mochilas Monte Campo) e havia sido responsável por calçar a juventude nacional em épocas transactas, com aquilo que era, para todos os efeitos, uma versão portuguesa dos popularíssimos ténis Converse All-Star; falamos, é claro, da Sanjo, que, apesar da perda de preponderância durante o período em causa, não deixa de ser nostálgica para os membros da geração 'X' e para os 'millennials' mais velhos.

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O icónico modelo K100 da marca.

Fundada em 1933, a Sanjo rapidamente se havia estabelecido no mercado nacional como fabricante de calçado com uma relação qualidade-preço acima da média; as famosas sapatilhas de sola de borracha, em particular (material que, à época, constituía ainda uma inovação no ramo em causa), vir-se-iam a tornar sinónimas com a marca em décadas subsequentes, sendo já o calçado por excelência de grande parte da população jovem em finais dos anos 40. Pouco antes, em 1944, a Sanjo abandonara já a sua sede inicial na Companhia Nacional de Chapelaria em favor de uma fábrica própria, de onde ainda saíam as sapatilhas que os jovens das décadas de 80 e 90 envergavam no seu dia-a-dia.

Conforme referido mais acima, no entanto, a Sanjo teria dificuldade em competir com as marcas internacionais que principiavam a entrar no País após a abolição da ditadura, um paradigma que nem mesmo a sua associação a agremiações desportivas históricas, como a local Associação Desportiva Sanjoanense, viria a conseguir inverter. Assim, e apesar de muitos jovens de finais do Segundo Milénio ainda terem vestido as icónicas e inconfundíveis sapatilhas da marca, as vendas da Sanjo entrariam, durante esse período, num declínio do qual não mais recuperariam, e que culminaria na extinção da empresa, em simultâneo com a sua chapelaria irmã, em 1996.

Não terminaria aqui, no entanto, a História da Sanjo, que dedicaria a década e meia seguintes a estudos de mercado, a fim de perceber o que a juventude 'millennial' e da chamada geração 'Z' pretendia de um sapato de ténis; os conhecimentos assim adquiridos informariam, posteriormente, o regresso da marca ao mercado, no ano de 2010, com os seus familiares modelos K100 e K200. Pelo caminho, no entanto, havia ficado a produção cem por cento nacional, vendo-se a marca obrigada a exportar a produção das icónicas solas vulcanizadas para a China; este problema seria, posteriormente, ratificado com uma ligeira alteração na confecção das mesmas, que permitiu trazer o processo de manufactura de volta para solo nacional, paradigma que se mantém até aos dias de hoje.

Apesar deste ressurgimento, no entanto, seria desonesto afirmar que a Sanjo continua a ser uma referência no mercado do calçado nacional; hoje em dia, a marca vive, sobretudo, da reputação adquirida no Portugal de meados do século XX, e do reconhecimento que lhe está associado. Ainda assim, quem fez parte da última geração a usar recorrentemente as tradicionais sapatilhas da marca pode, actualmente, 'recuperar' essa parte da sua juventude numa qualquer loja de desporto ou centro comercial – o que coloca, instantaneamente, a Sanjo num patamar superior ao de tantas outras marcas da época, hoje em dia totalmente desaparecidas; e apesar de ser pouco provável que a companhia alguma vez volte a gozar dos níveis de sucesso que viveu na sua época áurea, não deixa de ser possível que essa vertente nostálgica ajude a 'alavancar' as vendas dos seus icónicos sapatos, e lhe permita manter-se em actividade durante mais alguns anos...

07.07.23

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Apesar de, regra geral, uma década tender a ser referenciada como um todo (veja-se o título deste blog, por exemplo) a verdade é que um período de dez anos é mais do que suficiente para tornar o modo de vida quotidiano de uma sociedade praticamente irreconhecível. E se, em décadas transactas, essas mudanças foram mais graduais e, talvez, menos perceptíveis, os anos 90 foram, talvez, o período em que mais se verificou o oposto, ao ponto de um jovem adolescente de 1991 pouco ter a ver com um seu congénere de 1999, quer em termos de gostos mediáticos, quer de estilo de vida ou até no aspecto estético.

Um bom exemplo disto mesmo foi o calçado jovem dos anos 90. Se houve peças que atravessaram toda a década, nomeadamente os ténis 'pisa-e-brilha' ou os Converse e respectivos sucedâneos, o restante mercado sofreu profundas alterações, com constante renovação em termos de marcas, modelos e até cores populares; no espaço de apenas dez anos, os pés dos jovens portugueses passaram de envergar sapatilhas Sanjo às Redley, Skechers e Airwalk, de sandálias de plástico e chinelos 'dos trezentos' a Havaianas e das botas Doc Martens (hoje de novo em voga e que aqui terão o seu espaço) às Texanas 'em bico', Panama Jack e, acima de tudo, Timberland.

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Uma imagem que ainda faz 'babar' toda uma geração...

De facto, a recta final dos anos 90 e início da década seguinte marca a explosão em popularidade da marca americana, e sobretudo do modelo cor de crème, que – quase de um dia para o outro – passou a surgir nos pés de uma enorme parcela da juventude portuguesa, e a ser objecto de cobiça e símbolo de 'status' para a restante percentagem. Caracterizadas por terem constituído uma moda transversal a ambos os sexos – embora, entre o sexo feminino, tendessem a ser adoptada sobretudo por raparigas com um estilo mais práctico, as chamadas 'maria-rapaz' – estas botas tinham, para muitos 'putos' e adolescentes da época, o mesmo entrave de sempre: o preço proibitivo, que fazia delas item de luxo e suscitava o aparecimento no mercado 'alternativo' de um sem número de imitações e contrafacções mais ou menos convincentes, que ajudavam a 'safar' quem não tinha fundos para comprar o artigo genuíno.

O mais curioso é que, à altura da sua popularização em Portugal, esta bota já existia há várias décadas (como era, aliás, o caso também com as Doc Martens) tendo a sua demografia original sido a mesma das Martens e das não menos famosas 'biqueiras de aço': trabalhadores em profissões de índole física ou adeptos da caminhada, que precisavam de botas resistentes e duradouras. Ambas as marcas não tardaram, no entanto, a 'cair no gosto' da juventude, e por alturas da viragem do Milénio, ambas as marcas se encontravam já muito distantes do seu objectivo e público iniciais, tendo-se transformado em artigos puramente estéticos e 'da moda' – posição que, aliás, ocupam até hoje.

Mas se as Doc Martens vivem, actualmente, uma segunda vaga de popularidade, o mesmo não se pode dizer das botas 'amarelas' da Timberland, que sofreram o destino tipico de peças que se tornam demasiado populares e sofrem de sobre-exposição – ou seja, o regresso à semi-obscuridade social. Quem foi de uma certa idade entre finais dos anos 90 e meados da década seguinte, no entanto, certamente recordará a cobiça desmedida que esse artigo de calçado provocava, e a decepção ao deparar-se com o seu preço, mesmo em promoção – que, por sua vez, motivava uma visita à feira mais próxima em busca de algo que pudesse 'fazer as vezes' por um décimo do preço. Outros tempos...

07.06.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Apesar de normalmente associada apenas a propriedades intelectuais, mediáticas ou comerciais (filmes, programas de televisão, artistas musicais, brinquedos, mascotes de produtos, etc.) a nostalgia, enquanto conceito, engloba um rol muito mais vasto de áreas. De facto, tudo o que possa causar saudad ou boas memórias, ou induzir a vontade de que volte a existir, pode ser considerado nostálgico. Serve este preâmbulo para explicar o porquê de, esta Quarta de Quase Tudo, irmos falar de produtos de higiene.

Não que seja a primeira vez que tal acontece; numa edição passada desta mesma rubrica, lembrámos o champô para piolhos, e em outro as tradicionais garrafas de espuma de banho em forma de bonecas ou figuras de acção, ou ligadas a uma qualquer propriedade popular entre a juventude. No entanto, esses produtos tinham, conforme mencionado, o atractivo extra da necessidade (no caso do Quitoso) ou da ligação a personagens populares, enquanto que aqueles de que falamos hoje em dia apenas beneficiavam mesmo do facto de existirem em quase todas os lares portugueses durante o período em causa.

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Alguns dos produtos de ambas as gamas.

Falamos dos champôs da marca Foz, e dos respectivos produtos-irmãos, os desodorizantes Lander. Agrupados, neste post, por pertencerem ao mesmo grupo comercial, ambos estes nomes serão por demais familiares a qualquer cidadão português nascido ou crescido ainda no Segundo Milénio, sendo provável que apenas a faixa mais jovem de leitores deste blog não se recorde dos mesmos.

Isto porque, na época a que os nossos textos dizem respeito, ambas as marcas detinham parcelas consideráveis do mercado nos seus respectivos sectores, sendo presença instantaneamente reconhecível nas prateleiras de supermercados e drogarias (ambos precedem ainda a era dos hipermercados) graças às suas características distintivas: no caso do Lander, os frascos em vidro (cada um com um esquema de cores indicativo do respectivo aroma) e no do Foz, as cores vivas e atraentes do próprio líquido - com destaque para o verde da variante de maçã e para o rosa da de alperce – bem como a presença de uma variante de ovo, alimento tradicionalmente associado à saúde e tratamento do cabelo. Quando associados ao nome reconhecível e à verdadeira qualidade apresentada pelos produtos – todos produzidos no nosso País - estes factores eram garantia de vendas, numa época em que a gama de produtos de higiene e cosmética era significativamente mais reduzida do que hoje em dia.

Como consequência, serão poucos os 'putos' de finais do século XX que não se lembrem, pelo menos, de ver estes produtos nas prateleiras dos supermercados, senão mesmo na da casa de banho lá de casa. E apesar de ambos os produtos ainda existirem hoje em dia – presumivelmente, para benefício do público que os usava nos seus tempos áureos – é difícil argumentar contra o facto de ambas as gamas serem, sobretudo, produtos do seu tempo, que marcaram uma época muito específica da sociedade portuguesa e que são, hoje em dia, sobretudo associados com a mesma – o que faz deles tão merecedores de nostalgia como qualquer outro dos já muitos tópicos abordados neste blog...

28.04.23

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

O calçado é, regra geral, uma das melhores formas de 'datar' uma determinada moda ou estilo, sendo ainda hoje um dos principais factores a ter em contar ao tentar emular um 'look' nostálgico; a simples visão de umas socas com sola de plataforma num 'look' feminino, por exemplo, já coloca o 'outfit' algures entre finais dos anos 90 e inícios do Novo Milénio, enquanto que uns Vans aos quadrados já remetem aos últimos anos da década de 2000. Portugal não foi excepção a esta regra, tendo a moda juvenil dos últimos anos do século XX e primeiros do seguinte ficado marcados por toda uma panóplia de artigos de calçado, dos mais visualmente distintos (como os ténis All-Star com a bandeira americana ou inglesa) aos mais discretos, mas nem por isso menos cobiçados, como era o caso dos ténis da Redley.

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Oriunda do Brasil, a marca surgia em Portugal ligada ao sempre popular movimento 'surf' e 'bodyboard', associação essa que ajudava a elevar consideravelmente a reputação daquilo que eram, de outro modo, umas 'sapatilhas' de lona rasas, com sola branca e normalmente de cor única, e sem nada que as distinguisse de outros sapatos semelhantes; um daqueles casos, portanto, em que a marca, e respectivo posicionamento de mercado, 'falavam mais alto' do que a estética ou os factores distintivos do artigo em si – uma situação que continua, até hoje, a ser quase paradigmática entre as demografias mais jovens.

Fosse qual fosse o seu atractivo, a verdade é que os ténis e sapatilhas da Redley, fossem com os tradicionais atacadores ou simplesmente de enfiar no pé, rapidamente se tornaram quase 'obrigatórios' entre certos sectores da juventude portuguesa de fim de século, que as ostentava orgulhosamente para inveja dos familiares, colegas e amigos. Escusado será, também, dizer que este era um daqueles casos em que sapatos em tudo semelhantes, mas de marca genérica, e ainda imitações da marca, proliferavam no mercado, sem no entanto suscitarem grande interesse – já que, neste particular, a etiqueta era mesmo o único ponto de 'interesse',

Tal como tantas outras peças e marcas de que aqui falamos, também a Redley pareceu, de um dia para o outro, desaparecer do 'radar' dos jovens portugueses, levada na constante enxurrada das tendências de moda. Para quem, um dia, cobiçou um simples sapato de pano só porque o mesmo tinha a característica etiqueta vermelha, no entanto, este post terá decerto reavivado memórias nostálgicas de tempos que já lá vão – e, como tal, cumprido a sua missão de não deixar cair no esquecimento alguns dos mais marcantes factores da vida infanto-juvenil de finais do século XX.

19.01.23

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Regra geral, os produtos que abordamos nesta secção inserem-se em uma de duas grandes categorias: os nascidos nos anos 90, e aqueles que apenas duraram até, ou durante, essa época. Tal deve-se, logicamente, à proposta deste blog, que procura centrar-se sobre memórias e nostalgia específica da chamada 'geração Millennial'. Por vezes, no entanto, não é possível manter – pelo menos inteiramente – essa premissa; por vezes, há que falar de produtos que foram tão lendários para a 'nossa' geração como para a anterior, e mesmo a seguinte. O produto desta semana é – a par do Um Bongo e do Bollycao, as outras grandes excepções que abrimos a este respeito – um dos principais representantes dessa categoria de produtos transversais a portugueses de várias idades.

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Embalagem moderna do produto em causa.

Trata-se do Tulicreme, o ultra-popular creme de barrar no pão cuja não menos popular mascote, o Urso Tuli, sofria precisamente nesta época da História não uma, mas duas mudanças de 'visual', cada uma das quais o afastava mais das suas raízes como representante minimamente realista (e algo andrógino) da espécie 'ursus arctos', e o aproximava das restantes mascotes (e outros personagens animados em geral) que faziam furor na época.

No entanto, ao contrário do que acontecia com outras marcas, o apelo do Tulicreme não se cingia apenas à mascote, sendo de crer que o produto tivesse sucesso mesmo sem a presença de Tuli como 'embaixador'. Isto porque o creme de barrar era, desde a sua introdução no mercado português em 1964, um daqueles 'prazeres gulosos' a quem havia pouco quem resistisse. Além disso, o teor relativamente económico do produto tornava-o uma opção popular para os lanches das crianças das gerações que com ele conviveram, fazendo o produto, a dado ponto, inclusivamente parte dos lanches oferecidos pelas escolas portuguesas.

Naturalmente, como costuma ocorrer neste tipo de situações, o sucesso do Tulicreme junto do seu público-alvo rapidamente motivou a criação de novos sabores, primeiro de avelã e, mais tarde, de caramelo (cuja recepção ficou bem aquém das expectativas, levando à sua rápida retirada do mercado, e ao regresso da sua bem mais consensual congénere à base de frutos secos). Como também era hábito, o creme rapidamente se viu associado a patronícios de entidades como o Jardim Zoológico de Lisboa (onde apadrinhava, naturalmente, os ursos) e o programa Arca de Noé, que chegou a promover um concurso em conjunto com a marca, em que os prémios de consolação consistiam de peluches alusivos ao 'novo visual' da mascote Tuli.

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Um dos peluches recebidos como prémio de consolação do concurso promovido pela 'Arca de Noé' (crédito da foto: OLX)

Ao longo dos anos, no entanto, o 'estado de graça' do Tulicreme foi-se, progressivamente, deteriorando, à medida que cada vez mais nutricionistas alertavam para os malefícios do produto; ainda assim, à semelhança do Bollycao (outra 'vítima' da consciencialização alimentar do novo Milénio) o creme em causa ainda vai tendo lugar no mercado alimentício infanto-juvenil actual, levando a crer que o seu tempo de vida nas prateleiras nacionais se prolongue por, pelo menos, ainda mais uns anos, e que o mesmo continue a fazer parte da categoria de produtos 'lendários' do comércio português.

21.10.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

De entre os muitos acessórios considerados 'indispensáveis' pela juventude portuguesa da viragem de milénio e entretanto caídos em desuso, as carteiras com velcro podem ser consideradas um dos principais; e, de entre os muitos tipos de carteira deste tipo disponíveis no mercado de então – cujos motivos iam desde as Tartarugas Ninja até marcas como a Street Boy – havia um que se destacava acima de todos os outros, sendo activamente cobiçado por qualquer jovem que pretendesse assinalar, sem margem para quaisquer dúvidas, a passagem à idade adulta.

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O design inovador  e a tradicional localização da marca no interior eram duas das principais características destes acessórios

Falamos, claro, das míticas carteiras da Dunas, uma marca que, aparentemente, se especializava neste tipo de acessório, dado o seu logotipo nunca ter sido visto nas habituais t-shirts ou sweatshirts, mas apenas e exclusivamente no interior dos seus porta-moedas e carteiras, nos quais representava um símbolo não só de qualidade, mas também de estatuto – tanto assim que a maioria dos jovens lusos da época nem sequer se importava com o facto de a presença do referido logotipo retirar 'área útil' à carteira, já que a contrapartida valia bem esse pequeno sacrifício.

O 'factor popularidade' não era, no entanto, a única motivação para todo e qualquer adolescente da ponta final da década de 90 e inícios da seguinte querer uma destas carteiras; as próprias características que lhes conferiam essa popularidade tinham, também, uma palavra a dizer, nomeadamente os padrões 'radicais' inspirados na cultura do 'surf' e 'bodyboard', que as tornavam escolha frequente entre os jovens com preferência por este tipo de vestuário, e artigo 'aspiracional' para os restantes. A qualidade das próprias carteiras, que eram feitas de material grosso e tinham algum 'peso', mesmo vazias, era também incentivo à compra, até por parte dos pais, embora não justificasse totalmente o preço algo elevado a que as mesmas eram comercializadas.

No entanto, tal como tantos artigos que abordamos, nesta rubrica e não só, também as carteiras Dunas foram vítimas daquele estranho fenómeno que fazia com que produtos mega-populares entre os jovens 'desaparecessem de cena' quase de um dia para o outro, sem se dar por ela; foi, precisamente, o que se passou com estes acessórios, os quais passaram de omnipresentes a raramente vistos nos pátios das escolas portuguesas, e acabaram mesmo por ser esquecidos por grande parte da população que, durante o seu 'reino', as cobiçou ou orgulhosamente ostentou. Assim, a comunidade nostálgica 'online' afirma-se, mais uma vez, como principal 'guardiã da memória' deste produto que marcou a infância e adolescência de tantos portugueses crescidos durante os anos 90...

29.09.22

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Em Portugal, à semelhança do que acontece um pouco por todo o Mundo, certos tipos de produtos são associados a determinadas marcas a ponto de se confundirem com as mesmas, mesmo quando existem no mercado alternativas concorrentes; o sector alimentício não é, de forma alguma, excepção a esta regra, sendo qualquer pão com chocolate (por exemplo) um 'Bollycao', qualquer fermento químico 'pó Royal', qualquer sobremesa à base de iogurte e fruta um 'Suissinho' ou 'Danoninho', e qualquer achocolatado para beber 'Nesquik' ou 'Cola Cao', entre outros exemplos. Nos anos 90, esta tendência estendia-se, no nosso País, também ao domínio dos bolos e artigos de pastelaria industrializados, a esmagadora maioria dos quais surgia nas prateleiras nacionais com a chancela de uma marca nacional e – à época – em rápido crescimento rumo à monopolização do mercado; a Dan Cake.

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Fundada nos anos 80 (e, aparentemente, extinta, ou pelo menos trespassada, há menos de dois anos à data de publicação deste post) a Dan Cake oferecia produtos ao longo de todo o espectro das bolachas e bolos, sendo também suas, por exemplo, as primeiras 'Madalenas' de pacote, bem como as bolachas 'Danish', comercializadas nas icónicas latas azuis que muita gente usava para guardar os artigos de costura; no entanto, por muito sucesso que esses artigos fizessem (até pela practicidade da embalagem das bolachas...) não era com elas que a marca era sinónima na mente das crianças e jovens noventistas – esse privilégio pertencia às 'tortas', das quais a marca disponibilizava, à época, uma enorme variedade, desde as mais pequenas, em tamanho 'snack' (as famosas Cake Bar), até formatos mais substanciais, aproximadamente do tamanho de um bolo de pastelaria.

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Dois dos mais famosos e icónicos produtos da marca nos anos 90

Invariavelmente à base de chocolate, estas tortas podiam, no entanto, vir recheadas dos mais diversos sabores, dos quais se destacavam os clássicos cacau e morango, os mais populares entre a 'meninência' daquela época; populares eram, também, os brindes oferecidos com as 'Cake Bar', que nos anos 90 se resumiam já a cromos – à semelhança do que famosamente fazia o 'Bollycao', e esporadicamente também outras marcas – mas que na década anterior haviam incluído bonecos em plástico monocromático, ao estilo 'Monsters in My Pocket', ligados às principais propriedades intelectuais juvenis da época. O problema? Estes bonecos eram, literalmente, enfiados DENTRO do bolo (sem qualquer invólucro protector, como acontecia nos pacotes de cerais de pequeno almoço ou batatas fritas), criando o mesmo tipo de situação que, anos mais tarde, viria a descaracterizar para sempre o bolo-rei. À época, no entanto, ninguém parece ter visto problema, e a troca para os mais inócuos autocolantes parece ter sido apenas uma questão de mudança dos interesses do público-alvo.

Com ou sem brindes, no entanto, os bolos e tortas Dan Cake faziam, mesmo, furor entre o público-alvo, pelo simples facto de serem deliciosos (embora estivessem também entre as opções MENOS saudáveis, mesmo da prateleira de doces e guloseimas!) E apesar de hoje em dia continuar a ser possível adquirir produtos deste tipo das mais diversas marcas (os chamados, no Brasil, 'alfajores') nenhuma delas vai, para quem cresceu nos anos 80, 90 ou até mesmo 2000, alguma vez substituir os 'Dan Cake'; afinal, como muito bem declaram os Corn Flakes da Kellogg's, 'o original é sempre o melhor...'

23.09.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

A sociedade adolescente da segunda metade dos anos 90 encontrava-se (mais ou menos) rigidamente dividida em 'tribos', identificadas e identificáveis, entre outros factores, pelas marcas de vestuário que favoreciam, entre as quais havia muito poucos 'cruzamentos'; existiam, sim, marcas universalmente populares, mas eram em número relativamente reduzido, dividindo-se o mercado nacional da época, em grande medida, entre marcas de 'betinhos', marcas de surf, marcas radicais, marcas alternativas, marcas 'dreads', muitas das quais ligadas ao movimento hip-hop, e, claro, as mais populares e omnipresentes de todas: as 'marcas' de contrafacção.

No entanto, e apesar de a maioria destas facções se manterem estritamente segmentadas, não deixava de haver uma pequena 'área cinzenta', povoada por marcas vestidas por quem não era um 'dread' legítimo, mas se queria ainda assim demarcar do epíteto de 'beto'. Com os seus 'designs' largueirões (como era apanágio da época) mas ainda assim lineares o suficiente para não 'assustar' os pais menos tolerantes, marcas como a Fubu, Counter Culture ou Fishbone tinham logrado expandir-se para lá do seu nicho inicial de fãs de 'hip-hop' e 'rap', e penetrar o mercado generalista, onde um público adolescente em processo de descoberta da identidade lhes dedicou uma calorosa recepção, não tardando a integrá-las no seu vestuário quotidiano, à laia de 'fashion statement'.

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Quem foi adolescente nos anos 90, teve, ou conheceu quem tivesse, uma sweatshirt praticamente igual a esta.

Claro que, como a maioria das outras peças de que aqui falamos, também este estilo de roupa acabou, inevitavelmente, por cair em desuso, após alguns anos de domínio de mercado; quem, no entanto, cresceu e foi adolescente nos anos da viragem do milénio certamente lembrará, com mais ou menos afecto, todas ou algumas destas marcas, quer por as mesmas terem adornado o seu corpo, quer o de colegas. E numa altura em que a tendência cíclica da moda começa a trazer as peças extra-largas de volta ao imaginário de estilo dos jovens (bem como muitas das marcas daquela época), não deixa de ser bem possível que se veja, em breve, um ressurgir destas marcas, que vão, ainda, sobrevivendo no seu nicho, à espera de outra 'hipótese' de penetrarem o mercado 'mainstream'...

18.02.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

As décadas de 90 e 2000 são bem conhecidas como a era em que os desportos radicais, e a respectiva estética, transpuseram o seu estatuto de 'nicho' e encontraram o seu lugar na cultura popular. Do skate ao surf, passando pela BMX – termo que deixou de ser sinónimo com 'bicicletas para miúdos' para passar a designar algo bem mais desejável – foram várias as modalidades pelas quais uma geração inteira de jovens se interessou a ponto de justificar programas de televisão sobre os mesmos.

E porque um movimento nada é sem a respectiva 'farda' oficial, estas duas décadas representaram, também, o auge das vendas 'mainstream' para as marcas associadas aos diferentes desportos, da Dickies, Vans e Airwalk típicas dos 'skaters' ao tema do post de hoje – as várias grifes de 'surfwear' que fizeram furor no mercado português durante esse período.

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Algumas das mais populares marcas de surf dos anos 90 e 2000

Quem cresceu, e especialmente quem foi adolescente, naquele tempo decerto que se lembra deles, e provavelmente vestiu um ou outro artigo de uma ou até de várias; Quiksilver, Rip Curl, O'Neill, Ocean Pacific, Scorpion Bay, Lightning Bolt, Body Glove ou Hang Loose (embora estas últimas em menor escala) eram nomes que qualquer jovem conhecia, sobretudo por as ver na montra de inúmeras lojas de desporto – quer as pequenas de bairro, quer as maiores situadas em 'shoppings' – e lojas especializadas em surf, como as que existiam (e ainda existem) em muitas localidades costeiras portuguesas. Esta omnipresença (que levava a que os artigos das referidas marcas se tornassem visão comum no dia-a-dia) aliada à mística e apelo do surf para a referida geração, tornava estes artigos desejáveis, e uma sweatshirt da Quiksilver ou O'Neill passou a ter praticamente o mesmo valor de uma da Gap ou No Fear na 'bolsa de valores social' existente em qualquer escola do país.

Mais – apesar de terem, entretanto, sido substituídas por outros e novos nomes do mundo da moda jovem, as marcas de surf continuam a ter uma presença (mais ou menos) considerável entre os jovens. Hoje em dia, é a Billabong quem, de todas, leva vantagem, mas uma pesquisa mais apurada não deixará, certamente, de revelar vários produtos de alguns dos outros nomes elencados acima ainda em circulação entre as crianças e jovens. Ainda assim, é inegável que as marcas de surf já não têm, hoje em dia, a expressividade que tiveram junto da geração anterior de jovens, para quem representaram, mais do que simples roupas, símbolos de um modo de vida a que muitos aspiravam, mas poucos conseguiam, verdadeiramente, ter...

 

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