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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

26.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 25 de Abril de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A programação de teor ou conteúdo educativo tende, tradicionalmente, a ser rejeitada pela grande maioria das crianças, precisamente pela sua intenção declarada de não só entreter, mas também ensinar, algo a que esta demografia já é diariamente sujeita, contra vontade, no contexto da escola; por sua vez, este paradigma também não é minimamente beneficiado pelo facto de grande parte dos conteúdos desta índole adoptarem um tom excessivamente simplista ou condescendente, não dando ao seu público-alvo o devido crédito, e tratando-o como se fosse menos inteligente do que de facto é.

Talvez seja por isso que, quando surge um programa educativo verdadeiramente bem-feito e cuidado, o mesmo é capaz de atingir tanto sucesso junto da demografia-alvo como qualquer 'anime' ou série de acção. Foi assim com a excelente versão portuguesa da Rua Sésamo – ainda hoje recordada com afecto pela geração para quem foi auxiliar de estudo nos primeiros anos de aprendizagem – e é assim, também, com a série de que hoje falamos, para a qual este ano de 2022 marca, simultaneamente, a sua última temporada 'no ar' e um exacto quarto de século desde a sua estreia em Portugal.

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Criada pela PBS, a cadeia de televisão norte-americana especializada em conteúdos educativos também responsável pela criação da 'Sesame Street' original, e baseada na série de livros do mesmo nome, criada por Marc Brown, 'Artur' (ou 'Arthur') tornou-se conhecido, em Portugal, sobretudo pelo seu tema de abertura, um concentrado de alegria em ritmo 'reggae' que rivaliza com a lendária canção da Rua Sésamo pelo título de melhor música de abertura de uma série educativa, e tem também definitivamente lugar entre os melhores da década em geral.

Há outra abertura posterior, mas sejamos realistas - esta é a única que conta. POR ISSO; HEI!

Felizmente, os atractivos de 'Artur' não se ficam pelo tema de abertura; a própria série em si é extremamente bem pensada, com personagens e temas memoráveis, e sem medo de abordar assuntos controversos ou delicados (dos medos de infância e problemas cognitivos e educativos ao racismo, tolerância, trauma e até morte de alguém chegado ou querido) sempre de forma frontal, mas também com grande sensibilidade.

E o mínimo que se pode dizer é que este esforço em tratar as crianças como elas querem e merecem ser tratadas rendeu dividendos – nos seus EUA natais, 'Artur' foi transmitido durante mais de um quarto de século (e em Portugal, ficou próximo, tendo passado impressionantes dezoito anos na grelha de programação da RTP2), sempre com o mesmo grau de sucesso entre as diversas gerações de crianças. E a verdade é que não é preciso ver mais do que um ou dois episódios da série para perceber porquê; esta é daquelas séries que não só conseguem ser intemporais, como também conciliam de forma perfeita objectivos aparentemente díspares, como são a educação e o entretenimento, e o mundo da programação infantil ficará mais pobre sem ela. 'Por isso, HEI!'

28.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A adaptação de bandas desenhadas para um formato animado não é, de todo, um conceito novo, ou até moderno; pelo contrário, desde há várias décadas que companhias como a Hanna-Barbera e a Warner Bros. vêm tirando dividendos da adaptação de BD's, nomeadamente de super-heróis, a um formato igualmente serializado, mas em meios audio-visuais.

A 'nossa' década não é excepção - de Batman a Charlie Brown, são vários os exemplos desta tendência que deram azo a séries animadas de grande qualidade, e extremamente bem-sucedidas. E à cabeça desta ilustre lista de nomes encontra-se um dos poucos casos em que a série animada é melhor e mais conhecida e respeitada do que o próprio material original: a fabulosa adaptação animada das tiras de Garfield, de Jim Davis.

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Com um conceito, ao mesmo tempo, demasiado simples para sustentar episódios de vários minutos de duração e demasiado sofisticado para o público consumidor de animação televisiva, 'Garfield' não parecia, à partida, ser um candidato natural a este tipo de tratamento; o feito de Mark Evanier e Sharman DiVorno não pode, portanto, ser considerado menos do que portentoso, já que os dois guionistas responsáveis pela adaptação conseguiram criar, a partir do material de Davis, uma das melhores séries animadas de finais dos anos 80 e princípios de 90.

De facto, as aventuras de Garfield, do seu dono, o neurótico solteirão Jon Arbuckle, do 'melhor inimigo' Odie (o cão de Jon) e do irritante Nermal, o autoproclamado 'gatinho mais querido do Mundo', provaram ser capazes não só de realizar a transição da página para o ecrã, mas de melhorarem como resultado da mesma; com uma tela mais vasta sobre a qual criar novas situações, e o contexto animado a permitir explorar os limites do realismo, os dois argumentistas deram asas à imaginação, criando situações progressivamente mais mirabolantes nas quais colocar o gato laranja e a sua sofredora família adoptiva. De tramas de mistério a situações de meta-humor – alguns dos episódios mais memoráveis incluem disputas com membros da equipa de guionistas e artistas da série – sem esquecer alguns episódios mais tradicionais e de estilo 'slice of life', Evanier e DiVorno não só conseguiram transformar Garfield numa série animada acima da média, como demonstraram criatividade suficiente para a manter no ar durante SETE TEMPORADAS (de 1988 a 1994), sempre com material original, e na sua maioria perfeitamente hilariante.

A verdade, no entanto, é que mesmo que as tirinhas de Garfield não tivessem rendido como fonte de inspiração, os criadores de 'Garfield e Amigos' – pois assim se chamava a versão animada – tinham um 'plano B' na manga, assente precisamente nos 'Amigos' do título. Isto porque, à semelhança de outro gato alaranjado, gordo e preguiçoso de quem aqui recentemente falámos, Garfield não era estrela única do programa com o seu nome; mas enquanto Heathcliff partilhava o seu titulo com personagens criados pela equipa de animadores, os criadores de Garfield tinham a sorte de poder contar, como protagonistas secundários, com o outro grupo de personagens criados por Jim Davis – os animais da Quinta do Orson, cenário das menos conhecidas séries de tiras U. S. Acres.

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Os habitantes de U. S. Acres - a 'Quinta do Orson' - dividiam o protagonismo com o próprio Garfield

E embora estes segmentos do programa não fossem tão unânimes entre o público-alvo como os protagonizados por Garfield, o certo é que havia também muito do que gostar nos episódios de Orson e companhia – dos medos muitas vezes infundados do paranóico Pato Wade à 'esperteza saloia' do Galo Roy, ou à comédia física e silenciosa de Sheldon, um pintainho ainda na casca, e apenas com as pernas de fora. No cômputo geral, a Quinta do Orson servia honradamente a sua função de adicionar diversidade ao programa, sem com isso retirar protagonismo ao seu personagem principal, e constituía mais um dos trunfos da série.

E já que falamos em trunfos, nenhuma análise de 'Garfield e Amigos' fica completa sem que se faça referência à sonoplastia. Simplesmente falando, quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da decisão da RTP de, em 1991, 'importar' Garfield em versão original, a mesma foi, sem dúvida, acertada – teria sido um crime dobrar a série em português, perdendo assim o excelente trabalho vocal de Lorenzo Music (A voz de Garfield por excelência), Frank Welker, e restantes artistas de voz. Isto sem falar dos pequenos toques de génio na banda sonora (como o icónico tema de Odie, que toca sempre que o mesmo surge em cena) ou do magnífico genérico inicial, um dos melhores e mais contagiantes de toda a década, e que fãs da série certamente ainda saberão 'de cor e salteado' três décadas depois. E não, não estamo a falar do tema 'assim-assim' que muita gente ainda hoje crê ser o genérico de 'Garfield', mas que na verdade apenas foi usado nas últimas séries:

Ponto a favor: este vídeo inclui um episódio da genial série de 'gags' 'Gritando com o Binky'

Falamos DESTA obra de arte, que introduziu os episódios das duas primeiras temporadas do programa:

Mesmo sem os diálogos do início e fim, continua a ser uma 'bomba'

Em suma, com argumentos inteligentes, excelentes desempenhos e uma banda-sonora acima da média, não é de admirar que 'Garfield e Amigos' tenha sido do melhorzinho que se produziu a nível da televisão infanto-juvenil, não só da sua época, como das últimas décadas em geral; efectivamente, como Tom e Jerry e outros clássicos, esta é daquelas séries das quais não só não é preciso ter vergonha de ter gostado (ou ainda gostar, mesmo em adulto) como também se tem pena de as novas gerações não poderem conhecer em primeira mão, pois decerto lhes agradaria mais do que as fraquinhas séries actuais de Garfield (em CGI, como não podia deixar de ser) e os divertiria tanto como aos seus pais, na mesma idade...

21.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando amanheces

Logo no aaaaarrr

Se agita a luz, sem querer

E MESMO O DIA!

VEM DE-VA-GAR!

PA-RA-TE-VE-EEEERRR...

Quem, nos anos de 1992 ou 1997, não cantou estas mesmas palavras (ou outras aproximadas), com estes mesmos arroubos e ênfases, e numa voz pseudo-rouca a tentar imitar – e, ao mesmo tempo, gozar com - a do cantor original, está neste momento no blog errado, pois será quase de certeza demasiado velho ou demasiado novo para ter vivido o momento específico a que o mesmo se refere.

Os outros, aqueles que se lembram do quão enorme foi a música a que esta letra se refere, certamente já pararam de ler durante uns momentos para completar a sua rendição da mesma, com o 'exagerómetro' ainda mais declaradamente no máximo – a única maneira aceitável de se cantar esse clássico da radiofonia 'brega' noventista chamado 'Jardins Proibidos'.

Sim, esses mesmos – os que deram título a uma das primeiras grandes telenovelas 'made in Portugal', e que mesmo antes disso já haviam ganho um segundo fôlego derivado de uma re-gravação em formato de dueto, com o cantor original Paulo Gonzo a fazer parelha com Olavo Bilac, dos na altura não menos enormes Santos & Pecadores. É essa, aliás, a versão que a maioria das crianças em idade escolar na metade final dos 90's recordará, e terá parodiado vezes sem conta no pátio da escola – até por a mesma ter sido um dos temas mais tocados nas rádios portuguesas durante esse ano, tendo como único rival 'Dei-te Quase Tudo', tema interpretado por....Paulo Gonzo!

E já ren-di-do

Vê-te-che-gaaaaar

Nesse ou-tro mun-do

Só teu

Onde-eu-que-RIA!

En-trar-um-DIA!

P'RA ME PER-DE-EEEERRRRR...!

Sim, é justo dizer que, três anos antes do fim do Segundo Milénio, Alberto Ferreira Paulo (mais vulgarmente conhecido por uma alcunha inspirada nos Marretas, que acabou por virar nome artístico) era o nome maior da música popular portuguesa, pelo menos na vertente não-pimba - embora, em abono da verdade, o seu som fosse adjacente à vertente mais romântica desse género. Embora a sua carreira fosse já longa, e extremamente bem sucedida – o seu primeiro disco em português, onde se incluía a versão original de 'Jardins', havia já apresentado volumes de vendas impressionantes – foi com a segunda versão do seu grande 'hit', e o álbum a que servia de avanço, o quintuplatinado (!) 'Quase Tudo', que Paulo Gonzo adquiriu, verdadeiramente, o estatuto de celebridade da música portuguesa, atingindo aquele grau de popularidade que quase torna um artista num 'meme' de carne e osso. De facto, em 1997, ainda a mais de uma década da invenção do termo ou mesmo do advento da Internet 2.0, já Paulo Gonzo era um 'meme' – conhecido por todos, gozado por muitos, e icónico em diversos sectores da sociedade, embora por motivos distintos.

Mais surpreendente é perceber que a carreira do homem que muitos consideram uma das principais figuras da música romântica portuguesa de finais dos anos 90 já conhecera um primeiro pico de sucesso, ainda na década de 70, como integrante da Go Graal Blues Band, um seminal colectivo de...blues -rock!

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A Go Graal Blues Band. Paulo Gonzo é o primeiro à esquerda.

No total, foram quatro discos com a banda, antes de uma audição lhe render uma nova alcunha, e um novo rumo para a carreira – primeiro com letras em inglês e algumas re-interpretações de clássicos do 'soul' e R'n'B, e mais tarde com declarada propensão romântica e letras em português. Seria esta última fase que o posicionaria como figura de proa de um certo movimento musical português, granjeando-lhe desde prémios na cerimónia anual do conceituado jornal 'Blitz' até colaborações com Pedro Abrunhosa (outro 'gigante' de vendas da época) e, já no novo milénio, a honra de compôr o tema oficial de apoio à Selecção Portuguesa de futebol, em pleno pico do período hegemónico da Geração de Ouro. E embora muitos destes feitos tenham sido conseguidos antes, e independentemente, do sucesso de 'Jardins Proibidos', não há dúvida de que o referido tema ajudou a catapultar uma já honrosa carreira para um patamar totalmente diferente.

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Paulo Gonzo, na época do auge do sucesso

No novo milénio, e apesar de se manter tão activo como sempre, Paulo Gonzo perdeu muita da relevância que havia tido nos anos finais do século XX. À medida que 'Jardins Proibidos' se desvanecia da consciência popular, com o fim da novela, o artista lisboeta passou a ser apenas 'mais uma' das 'caras conhecidas' da música portuguesa, sem jamais ter recuperado o estatuto de verdadeira super-estrela de que gozou naquele período de alguns anos em que a sua música-estandarte era o tema mais ouvido nos lares médios portugueses. Para a geração que presenciou esse momento cultural, no entanto, haverá sempre uma determinada melodia e conjunto de palavras que desencadearão, infalivelmente, uma torrente de memórias, e um reflexo condicionado – o de entoar a plenos pulmões, com voz rouca e pseudo-torturada e muitos esgares faciais, o resto da malfadada letra.

P'RA ME PER-DERRRR

NE-SSES RE-CAN-TOOOOS

ON-DE TU AN-DAS, SO-ZI-NHA. SEM MIM!

ARDO EM CIÚ-ME

NESSE JARDIIIIIIM...

21.02.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música cómica ou humorística constituía, nos anos 90, um dos principais géneros na cena 'mainstream' portuguesa. Normalmente considerada mais 'de nicho', esta categoria de produção musical viveu, durante a referida década, um crescimento quase tão rápido como o 'pimba' ou o pop-rock, os dois principais géneros em que se tendia a inserir. Dos veteranos e pioneiros Ena Pá 2000 a artistas como os Mercurioucromos, José Figueiras e Fúria do Açúcar, passando por 'humoristas acidentais' como Zé Cabra, e mesmo algumas importações lusófonas, como Salsicha e Mário Jorge ou os Mamonas Assassinas, eram muitos os artistas que procuravam, de alguma forma, atingir o sucesso através da paródia mais ou menos explícita, parecendo, a dada altura, que não passava um Verão sem que mais uma destas músicas invadisse os 'tops' nacionais.

Nesse aspecto, o Verão de 1995 não foi excepção, tendo o inevitável 'hit' cómico desse ano pertencido a uns tais de Lunáticos, hoje um dos mais esquecidos (e, simultaneamente, puros e duros) 'one-hit wonders' do pop noventista português.

Apesar de o referido único hit, 'Estou na Lua' (porque eles eram Os Lunáticos, percebem?) ter posto crianças e jovens de Norte a Sul do País a cantar letras muito pouco próprias para a sua idade – à semelhança do que, na mesma altura, fariam os brasileiros Mamonas Assassinas – hoje em dia, é praticamente impossível encontrar informações sobre o pseudo-grupo centrado em torno do teclista e DJ leiriense Alex Santos.

E dizemos 'pseudo' porque, além do referido fundador (também produtor do material gravado) os únicos outros integrantes do grupo eram dois vocalistas, Miguel Dionísio e Manuel Pereira; os restante sons e instrumentos que se ouviam eram puramente sintetizados, numa manobra bem típica de certo pop da altura (e, verdade seja dita, ainda de hoje em dia) no qual estes Lunáticos se inserem.

Efectivamente, o som do 'grupo', pelo menos na sua música mais conhecida, salda-se naquele 'popzinho' leve e sem grandes pretensões artísticas, fadado a passar cem vezes por dia na rádio, a ser cantado na TV por futuras estrelas do 'stand-up' português, à laia de 'inside joke' e a suscitar cantorias do banco traseiro sempre que toca no carro a caminho da escola; e, nesse contexto, 'Estou na Lua' resulta maravilhosamente, sendo que há, ainda hoje, toda uma geração de portugueses que consegue cantar 'de cor' o refrão do tema, sem maiores 'ajudas' do que uma menção do título. Se ouvido na idade certa, este era daqueles temas que se entranhava nas sinapses, e lá ficava, adormecido, à espera de ser recordado – e cantarolado – a propósito de nada, literalmente décadas depois.

Infelizmente, o restante material dos Lunáticos não surtiu o mesmo efeito; se a relação entre o nome da música e da banda não for indicação suficiente (parece uma daquelas situações em que um grupo consegue que uma música 'estoure' sem sequer ter ainda nome, e tem que arranjar à pressa um que os associe ao seu tema-estandarte) os Lunáticos não pareciam, propriamente, ser um projecto a longo prazo, ou sequer destinado a passar de um único 'single'. Ainda assim, a crer no Google, o colectivo conseguiu, ainda, lançar quatro discos, dos quais o óbvio destaque vai para 'Muito À Frente', de onde é retirado o tema que os tornou, no Verão de 1995, um dos maiores fenómenos da música feita em Portugal.

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Capa de 'Não É Fácil', o profeticamente intitulado segundo álbum do grupo

Curiosamente, numa altura em que as vendas de música se contabilizam por temas individuais mais do que por álbuns, é difícil não pensar em como os Os Lunáticos poderiam ter beneficiado deste sistema, que lhes permitia ser um 'one-hit wonder' declarado, e manteria a sua música na consciência popular por um período mais alargado; no entanto, o som datado e meio 'fatela' do grupo assegura que o mesmo fique confinado apenas aos anos 90 – pelo menos até algum revivalista da nossa geração se lembrar de tentar trazer a música 'de volta', talvez num qualquer vídeo de TikTok, e puser mais uma geração de pré-adolescentes a cantar sobre mulheres nuinhas só com véu...

08.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Nota: Este post estava originalmente planeado para ser sobre a Arca de Noé, programa do qual análisamos os LP's de banda sonora no nosso último post. No entanto, a Maria Ana fez-nos chegar a informação de que se celebrou, na semana transacta, um aniversário marcante, suscitando-se assim uma mudança de tema; a Arca de Noé fica a próxima, e hoje celebraremos os 36 anos da criação do Vitinho. Obrigado, Maria Ana, pela informação!

A presença de mascotes variadas para tentar vender um produto, serviço, ou até ideia ou conceito ao público mais jovem não é nada de novo – dos vários bicharocos das caixas de cereais a criações mais inusitadas como o Luzinha, mascote da EDP durante parte dos anos 90, esta prática tem um longo e ilustre historial, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Poucas são, no entanto, as mascotes que transcendem o produto a que são normalmente associadas e se tornam parte de uma vertente completamente diferente da cultura popular. O exemplo que vem imediatamente à memória será, talvez, o de Fido Dido, cuja popularidade eclipsou, nos anos 80 e 90, o seu estatuto de simples mascote da 7-Up; logo atrás do boneco monocromático, no entanto, virá concerteza (para quem foi criança naquela época, pelo menos) um outro, bastante mais jovem e de feições bem mais humanas, enfiado numas jardineiras três tamanhos acima,com chapéu de palha a condizer, e que foi presença constante não só nas caixas de papas para bebé que foi originalmente concebido para vender, mas também em fontes tão díspares quanto animações televisivas e sinais autocolantes de 'Bebé a Bordo' para colar nos retrovisor do carro.

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Falamos, é claro, do Vitinho, a carismática mascote infantil da Milupa que celebrou, no passado dia 2 de Fevereiro, os seus trinta e seis anos de criação – como se ainda fossem precisas mais provas de que estamos todos a ficar velhos...

Iniciava-se, efectivamente, o ano de 1986 quando o ilustrador José Maria Pimentel cria o menino agricultor de cabelo castanho, bochechas rosadas e roupa da cor daquilo que, presumivelmente, semeava – nomeadamente, o trigo de que eram feitas as papas infantis Miluvit, a que o boneco dava a cara. No entanto, e pese embora o sucesso de vendas do referido produto ao longo dos dez anos seguintes, não seria na qualidade de embaixador de papas de trigo que Vitinho ficaria imortalizado entre a juventude portuguesa das décadas de 80 e 90; pelo contrário, a verdadeira fama da criação de Pimentel seria adquirida no desempenho das suas outras funções – as de personagem principal de uma série de animações musicais transmitidas diariamente pela RTP como forma de marcar o início do seu horário nobre, e que foram, em parte, responsáveis por mandar toda uma geração de crianças para a cama.

A primeira, e mais famosa, animação do Vitinho, exibida ainda nos anos 80

No total, foram quatro as animações exibidas pela emissora estatal entre 1986 e 1997 – tempo suficiente para o personagem, e as respectivas cantigas, conquistarem um lugar no coração não só de quem nasceu nos anos 80, mas também dos seus irmãos e irmãs mais novos, já da década de 90. Para ambas estas sub-gerações, o Vitinho foi presença constante e infalível, noite após noite, servindo como uma espécie de 'sinal de alarme' para o facto de que o dia havia acabado, e era hora de iniciair os preparativos para a cama – para que, no dia seguinte, pudessem acordar frescos e bem-dispostos, prontos a comer um prato de Miluvit...

O personagem no seu 'ambiente natural' - um anúncio às papas Miluvit - em que também é revelado o seu 'sotaque' saloio

Sim, as animações genericamente conhecidas como 'Boa Noite, Vitinho' foram um dos primeiros – e melhores – exemplos de 'marketing sinergístico' em território nacional, sendo que o Miluvit não era mencionado uma única vez em nenhum dos quatro clips; a estratégia de marketing da Milupa consistia, pura e simplesmente, em tornar o seu personagem conhecido do público-alvo do seu produto.

E, nesse aspecto, a campanha foi estrondosamente bem-sucedida, tendo-se o Vitinho tornado a cara não só da banda sonora dos seus próprios anúncios (tanto á época como por ocasião do 30º aniversário dos mesmos), como de outras (de que é exemplo o primeiro LP da Arca de Noé), e ainda dos referidos autocolantes para o retrovisor e de um livro sobre os cereais, com textos de Maria Alberta Menéres, na altura uma das mais conceituadas autoras de literatura infanto-juvenil em Portugal. Claro que as vendas do Miluvit acabaram por também beneficiar de toda esta popularidade, embora, paradoxalmente, a maioria das crianças talvez pensasse que era a marca que tinha posto o boneco da televisão na sua caixa, e não o contrário.

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Capa do primeiro LP com músicas do Vitinho, lançado em 1988

Quando, ao fim de onze anos, o percurso do mini-agricultor na consciência popular chegou finalmente ao fim (sensivelmente em simultâneo com a produção das papas que promovia), a presença de Vitinho na cultura portuguesa era tão enraizada que o mesmo deixou um 'buraco' que demorou mais de um ano a preencher – e, quando tal aconteceu, o produto proposto pela RTP foi substancialmente diferente.

A verdade é que, nos vinte anos subsequentes, não voltou a haver outra mascote nacional tão carismática como o Vitinho, nem tão-pouco outro produto mediático como as suas canções de 'embalar' animadas. Por esses motivos, e pela marca que deixou nas infâncias de todos nós, a mascote da Milupa merece bem os votos de parabéns que aqui lhe deixamos, por intermédio deste 'post'. Que contes muitos, Vitinho – e, como não podia deixar de ser, boa noite...

 

11.01.22

NOTA: Este post diz respeito a Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música popular ou de baile portuguesa - vulgo 'música pimba' - teve nos anos 90 um dos seus períodos mais áureos. Isto porque, embora este tipo de música nunca perca verdadeiramente popularidade, foi nos anos 90 que se verificou a maior infiltração dos artistas e 'malhas' 'pimba' na consciência popular como um todo. Da música que deu nome ao género, da autoria de Emanuel, aos 'hinos' de Quim Barreiros e aos desafinanços de Zé Cabra, passando por 'hits' recuperados de artistas como Marco Paulo, Ágata ou José Malhoa, e até contribuições da nova geração do estilo, como o Bacalhau de Saul Ricardo ou o abecedário de Ana Malhoa, eram tantos e tão variados os exemplos de músicas do estilo no seio da cultura popular portuguesa que até o mais distraído desconhecedor de música contemporânea saberia, decerto, cantarolar pelo menos um par de temas do género.

Toda esta popularidade levou, como não podia deixar de ser, a que surgisse toda uma nova vaga de artistas populares com material prontinho a gravar e adicionar ao filão, antes que este secasse; e escusado será dizer que muitos deles tiveram, precisamente, o grau de sucesso por que esperavam, deixando também eles a sua marca na cultura popular da época - basta lembrarmo-nos dos Excesso, por exemplo.

Um destes nomes, e talvez o maior responsável por ter apresentado a música 'pimba' a milhares de crianças e jovens, em meados dos anos 90, foi um DJ e radialista brasileiro radicado em Portugal, o qual, no Verão de 1995, conseguiu 'explodir' na cena musical popular portuguesa com uma versão de um tema que já havia sido um sucesso no Brasil, embora então na voz de outro artista.

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O seu nome? Iran Costa, o 'cabeludo' brasileiro imortalizado como uma figura com dez metros de altura, debruçando-se qual Godzilla em 'greenscreen' sobre a cidade de Lisboa e alguns dos seus monumentos e locais mais marcantes, não para os destruir à patada, mas para realizar uma dança vagamente ridícula enquanto cantava um refrão daqueles tão 'pegajosos' que quem o ouviu na altura certamente ainda o sabe de cor até hoje.

Acima: o videoclip mais 90s de todos os tempos. Digno de um projecto de TIC do 10º ano...

Sim, falamos de 'O Bicho', o primeiro (e maior) de três mega-sucessos que o cantor conseguiria em terras lusitanas até ao final da década, e responsável máximo por cimentar o seu nome entre a criançada portuguesa. Quem tinha idade suficiente no Verão de 1995 para participar de 'febres' infanto-juvenis concerteza se lembrará de que não havia pátio de escola ou actividade extra-curricular em que alguém não ensaiasse algumas estrofes do refrão desta música, invariavelmente acompanhadas do seu melhor esforço em replicar os 'espasmos' de Iran no lendário vídeo partilhado acima. 'O Bicho' foi uma daquelas músicas que transcendeu o seu estatuto como obra musical e se tornou num fenómeno cultural, um daqueles 'memes' anteriores ao próprio conceito de 'memes' - e, como tal, alvo inevitável das atenções de uma geração sempre à procura de algo 'peganhento', cativante e passível de ser explorado, referenciado e repetido até ao limiar da irritação alheia.

Longe de adquirir o estatuto de 'one-hit wonder' comum à maioria dos criadores deste tipo de tema semi-cómico e parodiável, no entanto, Iran soube explorar a fama obtida por 'O Bicho', tendo utilizado a sua notoriedade no mundo musical português de finais de 90 para trazer para Portugal novas versões de uma série de sucessos 'made in Brasil', entre os quais se contava o seu segundo 'hit' em território nacional, 'É O Tchan' - uma música originalmente composta e gravada pelo grupo do mesmo nome, mas que, em Portugal, é quase sinónima com o cantor brasileiro.

Já em 1998, uns impressionantes três anos após os seu auge memético, o ex-radialista adicionaria ainda um terceiro sucesso à sua lista, na forma da irresistível 'Pimpolho', uma espécie de versão luso-brasileira dos temas com que, à época, faziam sucesso bandas como Vengaboys e Aqua (as quais, aliás, paulatinamente aqui revisitaremos em mais detalhe).

Hoje em dia, Iran Costa continua por aí, na activa - embora já, claro, sem a exposição e notoriedade de que gozava naqueles anos 90. Ainda assim, apesar de a sua presença mediática se ter consideravelmente dissipado desde os seus tempos áureos, a influência que o DJ, radialista e cantor brasileiro teve em toda uma geração de crianças e jovens foi inegável, como prova o facto de que dificilmente terá havido quem, ao ler este post e clicar nos vídeos que nele fomos partilhando, não tenha dado por si a cantarolar pelo menos um dos refrões - e quem sabe, desenterrado uns quantos passos de dança 'malaicos' da sua infância para acompanhar a 'performance'...

23.11.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A tradição oral é, normalmente, imortal e praticamente imutável. Gerações de crianças conhecem as mesmas histórias, canções, tradições e até jogos do que os seus pais e avós, aprendendo-as muitas vezes destes, e mais tarde passando-as aos seus filhos, sensivelmente na mesma forma em que lhes foram passadas.

Por vezes, no entanto, a 'máquina' criativo-mediática revela-se tão influente que é mesmo capaz de se intrometer e moldar uma tradição; os filmes da Disney são disto perfeito exemplo, sendo as suas interpretações das histórias e fábulas tradicionais consideradas, hoje em dia, quase como que as versões 'oficiais' desses mesmos contos.

O Portugal dos anos 90 viu ocorrer, já no final da década, um fenómeno muito semelhante - ainda que a uma escala bastante mais reduzida – quando o segundo grande trabalho da companhia de animação lisboeta Animanostra (do primeiro, já aqui falámos recentemente) conseguiu a proeza de fazer com que a sua versão de uma canção tradicional se tornasse a versão definitiva da mesma para toda uma geração de crianças.

Qualquer desafio de 'tentar não cantar' com esta música estaria condenado ao fiasco...

Falamos, é claro, d''Os Patinhos'; a lendária animação que veio, em 1999, substituir o ainda mais lendário Vitinho, a quem os pais haviam desejado boa noite em formato musical durante quase vinte anos ininterruptos. Para seu máximo crédito, no entanto, a animação da Animanostra não só conseguiu ser uma digna sucessora da mítica série de vídeos musicais patrocinados pela Milupa, como acabou por se tornar tão icónica quanto estes.

As razões para este triunfo são variadas, e diferem consoante a idade da pessoa a quem se pergunte. Alguns dirão que a música, e respectivo 'videoclip' animado, estavam simplesmente muito bem feitos, transmitindo a sua mensagem com um bem-vindo toque de humor e sem condescender para com o público alvo, o que não deixa de ser verdade; outros, mais velhos, vociferarão contra a interpretação irritantemente memorável do tradicional tema infantil pelo patinho de roupa de marinheiro e voz esganiçada, o que também é um argumento perfeitamente válido; outros ainda indicarão a omnipresença de 'merchandising' (oficial e pirata) com a figura do Patinho nos anos que se seguiram à introdução do 'clip' na grelha de programação da RTP, causando uma rápida saturação.

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Exemplo de 'merchandising' oficial da animação

Seja qual for a razão, no entanto, a conclusão é a mesma: muito pouca gente que tenha estado exposta à música de abertura do horário nobre da RTP no final dos anos 90 se consegue esquecer da mesma, o que apenas valida a eficácia da campanha desenvolvida pela emissora. Mais – existe toda uma faixa etária que ainda hoje, mais de duas décadas após a estreia da animação, decerto defenderá veementemente que a música SEMPRE FOI sobre os rituais pré-sono das crias de aves aquáticas, ignorando por completo o anterior foco da música na eficácia das lições de natação das mesmas.

De facto, o sucesso do Patinho aquando do seu aparecimento foi tal que suscitou o lançamento de toda uma série de versões de outras músicas infantis, cada qual acompanhada de um videoclip animado, e que mais tarde foram reunidas num CD oficial alusivo à animação (e que trazia como bónus o vídeo da mesma, em formato CD-ROM) também ele um sucesso de vendas.

A série completa de animações protagonizadas pelo Patinho e seus amigos

E apesar de todas estas animações terem, entretanto, caído no esquecimento, a primeira – a original – continua, e provavelmente sempre continuará, a afirmar-se como um dos momentos-chave da programação televisiva infantil da segunda metade da década de 90, a par de um Samurai X ou Dragon Ball Z (embora numa perspectiva diferente de ambos). E se pensam que estamos a exagerar, considerem o seguinte: o Patinho precisou de apenas um minuto e meio para fazer aquilo que levou a Son Goku e Kenshin dezenas de episódios a conseguir: conseguir um lugar, para si e para a sua canção, na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas. Só esse facto já torna criação de Rui Cardoso e Teresa Sobral merecedora de respeito, bem como de um destaque aqui no anos 90...

22.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O povo português vem tendo, ao longo dos tempos, uma relação estreita com a música brasileira, talvez pelo idioma partilhado entre os dois países, e que transforma Portugal num dos principais mercados para os diversos géneros e estilos saídos do país-irmão. Não só os discos e músicas de artistas brasileiros vendem bem no nosso país, como a própria música popular portuguesa (vulgo 'música pimba') se apropria livremente de estruturas, letras e até melodias de estilos como o forró e o sertanejo, demonstrando assim cabalmente a influência que o produto musical de terras de Vera Cruz tem no lusitano.

Nos anos 90 e 2000 não era, no entanto, preciso ir tão longe para demonstrar este argumento – bastava olhar para as tabelas de vendas e 'playlists' radiofónicas para perceber o impacto que os artistas populares brasileiros tinham entre o público consumidor português. De Roberto Leal aos Mamonas Assassinas, e de Iran Costa a (mais tarde) Ivete Sangalo, passando por Salsicha e Mário Jorge, eram inúmeros os nomes que conseguiam atravessar o oceano e fazer tanto (ou mais!) sucesso do lado 'de cá' do que no seu próprio país de origem. 

A esta lista há que acrescentar, ainda, um cantor que tomou de assalto as tabelas de 'hits' nacionais nos anos finais da década, com uma música gravada ao vivo, e pôs toda a gente – e particularmente as crianças e jovens – a exortar os amigos para 'tirar o pé do chão'.

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O cantor, já numa fase posterior da carreira

Falamos de Ernesto de Souza Andrade Júnior, habitualmente conhecido como Netinho, cantor popular de longa e respeitada carreira no seu país-natal – as suas músicas são presença habitual em bandas-sonoras de novelas, e chegou a participar num tributo a Caetano Veloso – mas que em Portugal é conhecido, sobretudo por duas coisas: ser o autor de 'Milla', um dos maiores 'hits' pop-brega dos anos 90, e ter posto oitenta mil pessoas (!) a saltar em pleno Parque das Nações, aquando do seu concerto durante as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, já após o virar do milénio, vários anos depois de o momento de 'Milla' ter passado. Prova cabal de que o seu maior sucesso tinha 'pernas', embora também indicativa de que, pelo menos em Portugal, essa obra de Netinho ofusca totalmente o próprio autor.

As razões para o estrondoso sucesso de 'Milla' não são difíceis de explicar. Não só Netinho era presença assídua nos famosos expositores de CD's e cassettes tipicamente encontrados em tabacarias e estações de serviço, como a própria música em si é irresistivelmente viciante, com um daqueles refrões (aliás, uma daquelas LETRAS) que se alojam na memória para toda a eternidade, e tornada ainda mais eficaz pela energia electrizante da 'performance' e do público, que extravasa as colunas e convida, inapelavelmente, a dar um 'passinho de dança', onde quer que se esteja. É 'foleira'? Claro que sim. Mas é também divertida, enérgica, e de uma sinceridade desarmante, que impede a existência de má-vontade e a ajudour a tornar um dos principais hinos 'pop-pimba' da década de 90.

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O CD de onde a música é tirada marcava presença assidua nos expositores de 'cassettes' e CD's daquele tempo

Quanto ao seu autor, merecia mais? Claro. Ao contrário de muitos dos seus colegas de movimento, Netinho era um músico 'à séria', com raízes na MPB e bossa nova; e a verdade é que, no seu país natal, o cantor conseguiu fazer valer essas credenciais. Em Portugal, no entanto. Ernesto de Souza Andrade Júnior terá, para sempre, de se contentar com o estatuto de 'one-hit wonder' – que, convenhamos, também não é a pior coisa do Mundo para se ser, especialmente se o nosso 'one hit' for uma 'malha' tão enérgica e irresistível como 'Milla'.

25.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nasúltimas semanas, temos falado nesta rubrica de bandas com atitudes e posturas intencionalmente cómicas ou humorísticas, seja nas letras, seja na parte musical, presença em palco, ou até simplesmente no grafismo do disco. Para estes grupos, a música e a comédia são formas de arte complementares, e usadas em conjunto, de forma consciente, para criar uma amálgama bem balanceada de ambas as vertentes.

O que aconteceria, no entanto, se um artista criasse algo que se pudesse classificar como comédia, mas o fizesse de forma involuntária? Se, durante todo o processo de criação, o mesmo estivesse seguro de estar a criar uma obra capaz de ser levada a sério, mas que de facto apenas viria a despertar a chacota tanto dos seus pares, como do público em geral?

Quem se interessa por cinema de culto já sabe a resposta a esta pergunta, bastando para tal olhar para as obras de cineastas como Tommy Wiseau e Neil Breen; no entanto, quem cresceu em Portugal durante os anos 90 já conhecia o conceito de 'so bad it's good' muito antes de 'The Room' ser sequer um projecto na mente do seu criador.

Isto porque, em finais da década a que este blog diz respeito, surgiu na cena musical popular portuguesa (a chamada música 'pimba') um sujeito de risco ao lado com brilhantina e 'ondinha' à Super-Homem, casaco 'blazer' de lantejoulas, lacinho a preceito, e falha nos dentes da frente; um sujeito cuja habilidade vocal rivalizava com a de um qualquer universitário bêbedo num karaoke do Bairro Alto às três da manhã, com a diferença de que o referido universitário não chegará, com sorte, a ver a sua 'performance' gravada e lançada em disco para o grande público.

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Falamos, claro, de Zé Cabra, o lendário intérprete de hinos como 'Deixei Tudo Por Ela' e 'São Lágrimas', cujo conceito de afinação e tom tinha mais em comum com os de Natália Andrade do que de qualquer dos artistas até excessivamente artificiais da cena em que se inseria. Só quem lá esteve poderá descrever o que era ouvir Zé Cabra cantar, mas se imaginarem um cruzamento entre a referida Natália Andrade e Florence Foster Jenkins, mas no masculino e com composições ao estilo 'festa da aldeia', estarão muito próximos de perceber tal experiência (e se for esse o caso, as nossas condolências.)

Cliquem por vossa conta e risco; ficam avisados...

O desastre era tal que havia quem postulasse que Zé Cabra fazia de propósito, utilizando uma espécie de manobra 'troll' – muito antes desse conceito ter sido popularizado – para ganhar notoriedade e fama, e se destacar dos artistas em molde 'linha de montagem' que compunham a cena 'pimba' portuguesa da altura; no fundo, uma manobra semelhante à que, anos antes, tornara Saul Ricardo parte da consciência popular do país. Se esta teoria for verdade, então, tiramos-lhe o chapéu, Sr. Casimiro António Serra Afonso; o mais provável, no entanto, é que o referido senhor tenha sido explorado pela indústria, sem nunca lhe ter sido revelado o grande segredo da sua carreira – nomeadamente, o facto de que o seu público não se estava a rir COM ele, mas sim DELE. No entanto, se tiver verdadeiramente sido este o caso, parece que o próprio acabou mesmo por perceber o que se passava, dado ter admitido abertamente, em entrevista, que não sabia cantar...

Com ou sem talento, no entanto, a verdade é que Zé Cabra fez o suficiente para ganhar os seus cinco minutos na ribalta – e parece não ter querido mais do que isso. Prova desse mesmo facto é que, enquanto muitos dos seus pares continuam a percorrer activamente o circuito das feiras e romarias, Zé Cabra mudou-se, sem grande alarde, para França, onde se dedica ao seu outro 'hobby', a pintura (!) Como seu legado na consciência popular, o artista deixa dois 'singles' inenarravelmente maus, mas que fizeram dessa falta de qualidade o principal argumento para – à sua maneira – se tornarem parte da História da música popular portuguesa...

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