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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

11.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música bem-humorada e de índole cómica teve no Portugal das décadas entre 80 e 2000 um mercado que, embora talvez não particularmente significativo em termos numéricos, se apresentava ainda assim receptivo, sobretudo no que toca ao produto local. O caminho desbravado pelos pioneiros Ena Pá 2000 e Mata-Ratos, ainda nos 80s, viria a ser repetidamente trilhado ao longo das duas décadas seguintes, por nomes como Mercurioucromos, Fúria do Açúcar, Irmãos Catita (do mesmo mentor dos Ena Pá 2000) ou Adiafa, entre outros.

Em meio a toda esta produção ‘Made in Portugal’, cinco jovens brasileiros tentaram – e conseguiram – ter uma palavra a dizer, procurando replicar em Portugal o sucesso astronómico e meteórico que haviam conseguido entre o público jovem do seu país natal. E a verdade é que, não fora a intervenção completamente inesperada do destino, Dinho, Júlio Rasec, Bento Hiroshi e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli teriam muito provavelmente conseguido mesmo cumprir esse objectivo.

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Colectivamente conhecidos como Mamonas Assassinas, os cinco músicos conseguiram, entre o Verão de 1995 e o abrupto desfecho da sua história, pouco mais de um ano depois, pôr a juventude portuguesa a cantar com deleite e a plenos pulmões letras que mal compreendiam, com temas tão edificantes como as orgias sexuais frustradas (no ‘single’ e sucesso máximo ‘Vira-Vira’, uma sátira à música ‘pimba’ e de baile apreciada pelos emigrantes portugueses no Brasil) e o bom tratamento dos pelos genitais (na genial ‘Sabão Crá-Crá’, trinta segundos de canto ‘a capella’ com esquema rimático infantil, que talvez tivesse mesmo como intuito cativar e confundir, em partes iguais, a criançada.) Pelo meio, o quinteto ainda arranjava tempo para roubar instrumentais inteiros aos Clash (‘Chópis Centis’ mais não é do que o hino ‘Should I Stay Or Should I Go’, do grupo britânico, com letra diferente) e mostrar o seu lado mais sentimental, na balada ‘Pelados em Santos’. Em suma, um conjunto de músicas que mais se assemelhava a uma lista de sucessos, e que – para desprazer da maioria dos pais - não deixou de cativar o público infanto-juvenil português, como aliás já acontecera com o brasileiro.

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Uma das capas de álbum mais famosas e icónicas da década de 90 em Portugal

As razões para este sucesso são evidentes: do visual multi-colorido e extravagante à voz anasalada e caricatural de Dinho, passando pelas letras que vagamente se compreendiam ser ‘marotas’, os Mamonas pareciam feitos à medida para agradar a uma certa demografia. Não é, pois, de surpreender que tenha sido precisamente esse o caso, com o disco homónimo de estreia a ‘explodir’ no nosso país como já acontecera no Brasil, e os vários ‘singles’ do quinteto a dominarem as ondas de rádio durante todo um Verão. E, dado todo este sucesso, também não foi nenhum choque – antes pelo contrário – ver o grupo anunciar que a sua próxima digressão de promoção ao álbum os traria ao nosso país, em Março de 1996. O destino, no entanto, tinha outros planos…

A história é, já, por demais conhecida – os Mamonas viajavam para Portugal, a 2 de Março (precisamente para cumprir as datas acima mencionadas) quando problemas com o avião em que se encontravam o fizeram despenhar-se contra uma cordilheira de montanhas, matando instantaneamente todos quantos se encontravam a bordo da aeronave. Uma tragédia que abalou os dois países em que o grupo se havia estabelecido, resultando na perda de vidas jovens, talentosas, e ainda com muito para dar ao mundo da música, por muito (intencionalmente) parvas que essas contribuições pudessem ser…

A realidade dos factos, no entanto, faz com que o legado dos Mamonas (tanto em Portugal como no Brasil) se traduza tão-sómente num punhado de canções ainda hoje lembradas com carinho por quem as ouviu na idade certa, e na lembrança viva de um pico de sucesso tão intenso como curto. Mais uma prova (como se ainda fossem precisas mais) de que muitas vezes, o estilo de vida ‘rock’n’roll’ pode ser muito, mas mesmo muito ingrato…

 

27.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E se na última edição desta rubrica falámos de um ‘one-hit wonder’ português de meados dos anos 90, com músicas voltadas ao humor e cantadas na nossa própria língua, hoje, falaremos de outro, substancialmente mais conhecido e menos ‘esquecido’, e cujo único sucesso continua, ainda hoje, a marcar presença em certos contextos, seja dentro do espectro das artes criativas, seja como banda sonora de um qualquer evento de ar livre; e porque se vivem precisamente, neste altura, os últimos resquícios da maravilhosa estação estival portuguesa, nada melhor do que deixarmos que essa mesma banda nos recorde das muitas razões para apreciar essa época do ano.

Como já devem ter percebido, estamos a falar d’A Fúria do Açúcar, grupo musical e humorístico imortalizado na consciência colectiva portuguesa pelo hino estival ‘Eu Gosto É do Verão’, mas que pouco mais sucesso conseguiu atingir, apesar de celebrar este ano as suas três décadas (!) de carreira.

Formada em 1991 por três personalidades do circuito humorístico – entre elas o líder João Melo, mais tarde apresentador de um programa televisivo também voltado a este espectro – A Fúria do Açúcar começou por ser um projecto de estética café-concerto, intercalando números musicais com ‘sketches’ humorísticos. Não demorou muito, no entanto, para que este paradigma se alterasse, com o grupo a decidir enveredar por um caminho estritamente musical, cujo primeiro fruto foi o álbum homónimo de estreia, lançado em 1996.

No entanto, seria apenas com o seu segundo registo, ‘O Maravilhoso Mundo do Acrílico, lançado no ano seguinte, que o grupo de João Melo verdadeiramente penetraria na consciência popular – especificamente, através do segundo single retirado do álbum, uma faixa de índole sardónica cuja letra focava a comercialização em torno da época de Verão, e da idealização de que a mesma é alvo por parte da maioria dos seres humanos. No fundo, uma daquelas faixas que apenas aparenta ser ‘parva’, tendo na verdade um significado escondido, à espera de quem o queira encontrar; o problema foi que, em 1997, quase ninguém quis.

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A capa do álbum de consagração do grupo

De facto, a maioria daqueles que cantarolavam alegremente esta música no carro, na escola ou até em casa certamente não terá dedicado muito tempo a esmiuçar o significado da letra, prestando mais atenção à voz pateta-de-propósito de Melo ou à instrumentação bem ao estilo surf-rock, que tornava a música numa ‘malha’ bem pegajosa. O resultado inevitável desta tendência foi a percepção daquilo que se pretendia que fosse uma denúncia social como precisamente aquilo que aparentava (ou fingia) ser – uma música tola e descartável para consumo imediato. Pior, essa é ainda hoje a principal forma como a canção é abordada, tendo a vertente de crítica social vindo a ser cada vez mais ignorada – algo que, certamente, não deixará de frustrar os músicos da banda.

Também certamente frustrante será o facto de – apesar de, como resultado do seu sucesso. se ter tornado banda residente do programa apresentado pelo vocalista – o projecto Fúria do Açúcar nunca ter conseguido replicar o sucesso daquele ‘single’ de 1997. Apesar de contar já com seis discos (um dos quais lançado após um hiato de quase exactamente dez anos), a banda de João Melo continua a ser conhecida e recordada por uma, e apenas uma, música. Música essa que – diga-se em abono da verdade – continua a ser tocada nos mais diversos e variados contextos, o que não deixa de ser um feito para uma faixa cómica lançada há quase um quarto de século; ainda assim, não será descabido pensar que Melo e Cª teriam certamente preferido que essa mesma faixa tivesse feito menos sucesso, se tal significasse que o resto do seu repertório se tornaria mais conhecido…

Seja como for, a verdade é que o ‘one hit’ destes ‘one-hit wonders’ se tornou bem mais icónico e duradouro do que a maioria das músicas deste tipo, sendo ainda hoje um hino nostálgico para toda uma faixa demográfica que viveu os seus melhores anos nas décadas entre 1980 e 2000; candidato ideal, portanto, para inclusão nesta secção do nosso blog…

30.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos últimos posts desta mesma rubrica, temos vindo a falar de bandas que partem da tradição musical tanto portuguesa como internacional e a misturam com sons mais contemporâneos, como o rock. Hoje, damos uma espécie de ‘passo atrás’ nessa temática para falar de um grupo – ou melhor, um colectivo – de música popular portuguesa, no sentido mais estrito da palavra. Um grupo que, apesar de contar com nomes sonantes da área do pop rock feito em português, escolheu enveredar por um tipo de som bem mais tradicional, e conseguiu, ainda assim, obter considerável sucesso ‘mainstream’.

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Tratava-se do colectivo Rio Grande, um super-grupo ‘à portuguesa’ que juntava num mesmo espaço músicos do calibre de Jorge Palma, Vitorino, João Gil, Rui Veloso e Tim, este último o elo de ligação ao mundo do rock, e que decerto terá servido como ‘chamariz’ para muitos jovens em relação ao projecto.

O resto ficava por conta do grande ‘single’ de avanço ao único álbum do colectivo, e uma das músicas mais ‘cantaroladas’ nos pátios de recreio em 1996 – a mítica ‘Postal dos Correios’. (Se não estão a situar o título, é aquela que começa com ‘Querida Mãe, querido Pai, então que tal…’ )

...esta.

E o mínimo que se pode dizer é que os Rio Grande merecem todo o crédito por porem uma geração inteira a ouvir e cantar uma música que aborda temas com os quais eles próprios nunca tiveram contacto, pelo menos directo (no caso, a emigração, sobretudo dos meios rurais.)

Mas apesar de ter sido o grande sucesso do álbum – e, sejamos sinceros, também do colectivo – ‘Postal dos Correios’ não era a única música boa que os Rio Grande tinham para oferecer; pelo contrário, era mesmo das mais ‘fraquinhas’ de um disco que merece bem a escuta atenta a todos os seus temas, a começar por ‘A Fisga’ e ‘O Caçador da Adiça’ (o duo de abertura), e continuando com ‘Fui Às Sortes e Safei-Me’, ‘O Dia do Nó’, ‘O Sobescrito’, ‘Dia de Passeio’, entre outras, sempre com o elo em comum da temática popular e rural e do som baseado em guitarras acústicas, instrumentos tradicionais e harmonias vocais. Com uma personalidade bem vincada e temas, como já se referiu, de enorme qualidade e apuro musical e poético, não é, pois, de admirar que o disco tenha atingido quádrupla platina no seu ano de lançamento – uma marca invulgar a nível global, quanto mais em Portugal!

Infelizmente, o único outro sinal de vida dos Rio Grande viria na forma de um disco ao vivo, explicitamente intitulado ‘Dia de Concerto’ e lançado dois anos depois da estreia, e sem chegar sequer perto do mesmo nível de sucesso. Alguns anos depois, já no novo milénio, o grupo deixaria de contar com os préstimos de Vitorino, mudaria de nome para Cabeças no Ar, e lançaria outro excelente CD, repleto de ‘malhas’ algures entre o folclore dos Rio Grande e uma maior costela pop-rock.

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A capa do único CD dos Cabeças no Ar, grupo sucessor dos Rio Grande

Do grupo original, no entanto, restaria na memória colectiva da época (e das décadas seguintes) a imagem de Tim e companhia a tocar guitarra num autocarro em movimento, enquanto perguntavam pela saúde de diversos membros da família – o que, convenhamos, não é nem de longe a pior ‘herança’ deixada por um grupo musical português, especialmente durante os anos 90…

17.08.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquêela década.

Numa era em que bastam alguns cliques para se reencontrarem amigos de há mais de três décadas (vocês sabem quem são – olá a ambos!) pode parecer incongruente, e até algo caricato, que há pouco mais de vinte anos atrás fosse possível pessoas chegadas não se verem durante quase toda uma vida. Sim, ainda hoje há quem passe ‘entre os pingos da chuva’ (bastando para isso desaparecer das redes sociais ou plataformas de ‘chat’) mas nos tempos modernos tal constitui uma excepção, e não a regra.

Nos anos 90, no entanto, passava-se precisamente o contrário, sendo esta uma situação a tal ponto corrente que justificava a existência de todo um programa de televisão centrado em torno desse conceito; um programa cuja própria música de abertura já começava por mandar ‘um abraço’, e cujo anfitrião tinha sempre a máxima compaixão para com quem a ele recorria. Um programa chamado…Ponto de Encontro.

Tentem não ficar com isto na cabeça...vá, tentem...

Sim, chegou hoje a vez de relembrarmos um dos mais memoravelmente ‘foleiros’ programas da televisão portuguesa, que apelava declaradamente e descaradamente à lágrima fácil como táctica para conquistar audiências; e a verdade é que resultava, tendo o programa sido um sucesso de audiências à época (a dado ponto em 1995, eram cerca de 10 mil as cartas ‘por despachar’ da produção) e ainda hoje lembrado como adoravelmente ‘fatela’.

Inspirado, como tantos outros programas da época, num formato estrangeiro (neste caso francês) e adaptado para a realidade portuguesa pelo ‘génio do popularucho’ Emídio Rangel, em 1994, o conceito do ‘Ponto de Encontro’ era, conforme se disse acima, extremamente simples; os participantes escreviam para o programa, dizendo quem queriam encontrar, porquê, há quanto tempo não os viam, e outras informações do género, e a equipa técnica tratava de tornar possível um reencontro ao vivo no ar, sob o olhar benevolente do simpático ‘avôzinho’ Henrique Mendes. As reuniões (a maioria delas de cariz familiar ou sentimental) resultavam, inevitavelmente, em cenas de lágrimas e comoção – sempre bem acompanhadas pela lendária música do programa, que era literalmente tocada em violinos, numa ‘overdose’ de ‘kitsch’ a que nem os mais empedernidos ficavam indiferentes.

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O carismático apresentador do programa

Foi assim durante oito anos, de 1994 a 2002 (em pleno dealbar da era da Internet!) sem qualquer mudança de formato, ou sequer de apresentador, e sem qualquer perda de preponderância na grelha de horário nobre da estação onde passava, a inevitável SIC; no dia em que deixou de ser transmitido, o ‘Ponto de Encontro’ era exactamente o mesmo programa que estreara oito anos antes, com  o mesmo apresentador, o mesmo formato, a mesma música, e os mesmos familiares chorosos nos braços uns dos outros após décadas sem se verem – um feito de que poucos outros programas, alguns dos quais tão ou mais ‘perenes’ do que ele, se podem gabar.

Em suma, visto da perspectiva de duas décadas no futuro, o ‘Ponto de Encontro’ constitui uma verdadeira ‘cápsula do tempo’ da televisão portuguesa dos anos 90 - talvez não tanto como um ‘Big Show SIC’, mas pelo menos tanto como um ‘Agora ou Nunca’ ou ‘Templo dos Jogos’ (curiosamente, todos transmitidos pela mesma estação). ‘Foleiro’ e ‘piroso’ como era, a verdade é que este programa foi presença assídua nas noites de muitos portugueses (incluindo jovens), e terá comovido muito boa gente – ou seja, fez exactamente aquilo a que se propunha, e fê-lo bem o suficiente para ficar quase uma década no ar, e merecer a presença nas páginas deste nosso recanto nostálgico…

 

16.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Sim, depois de um fim-de-semana de férias, estamos de volta – e logo para falar de um dos temas favoritos aqui no blog: música.

E se na última edição desta rubrica, dedicámos algumas linhas a falar dos Sitiados, um dos dois grandes responsáveis pela existência de um movimento folk-rock português nos anos 90, hoje, falaremos aqui do outro, nascido quase ao mesmo tempo que o grupo de Cascais, mas um pouco mais para o interior, nomeadamente no distrito de Tomar.

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Falamos dos Quinta do Bill, grupo que derivou o seu nome do espaço onde deu os primeiros passos, cujo proprietário se chamava, precisamente, Guilherme (que em inglês fica William, cujo diminutivo é Bill.) Foi aí que, em 1987, o líder incontestado Carlos Moisés se juntou pela primeira vez a Paulo Bizarro e Rui Dias para criar um som enraizado na tradição popular portuguesa, mas que, até então, quase não havia sido explorado na cena nacional. Misturando instrumentos como a flauta, o acordeão, a rabeca ou o banjo com as tradicionais guitarras e bateria e uma atitude ‘tudo a saltar’, o grupo perfilava-se como a resposta ‘tuga’ ao que grupos como Flogging Molly, Dropkick Murphys ou The Pogues vinham apresentando do outro lado do oceano.

A originalidade do som da banda (pelo menos por terras lusas) não tardou a granjear-lhes destaque, rendendo-lhes participações nos maiores concursos e ‘expositores musicais’ nacionais da época, como a edição de 1988 do histórico Rock Rendez-Vous, ou o Aqui D’El-Rock da RTP, já no virar da década – concurso este que o grupo viria, aliás, a vencer, obtendo assim a verba necessária para a gravação do álbum de estreia.

Editado em 1992, ‘Sem Rumo’ passou ainda, no entanto, relativamente despercebido na cena musical portuguesa, tendo o grupo de esperar ainda mais um ano (e um album) para viver na pele a sensação de ser uma estrela pop ‘mainstream’; quando tal ocorreu, no entanto, ocorreu em grande, tendo a música em causa sido um dos maiores ‘hits’ daquele ano de 1993, e conseguido manter a sua relevância cultural no nosso país até aos dias de hoje.

Falamos, claro, de ‘Os Filhos da Nação’, mais conhecida hoje em dia como ‘meme’ de claque futebolística (sob a forma de ‘Os Filhos do Dragão’, hino quase-oficial dos Super Dragões, grupo de apoio do FC Porto) mas que, na sua forma original, era uma ‘malha’ de puro folk-punk-rock, com direito a letra de intervenção – a qual era, no entanto, ofuscada por aquele monstruoso refrão, que decerto alguém desse lado estará já a cantarolar.

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Os atractivos de ‘Os Filhos da Nação’, o disco, não se ficavam, no entanto, por aí; pelo contrário, quase todos os seus doze temas eram ‘malhas’, com destaque para ‘Senhora Maria do Olival’ – o muito aguardado ‘crossover’ entre Sitiados e Quinta do Bill, cantado que é por João Aguardela – e para a versão de ‘Menino’, nos mesmos moldes do que os lendários Xutos & Pontapés haviam feito anos antes com ‘A Minha Casinha’. No cômputo geral, um grande álbum de folk-rock, apadrinhado por nomes tão ilustres como Jorge Palma, que participa com voz e piano em uma faixa.

Infelizmente, tal como aconteceria com os Sitiados, os Quinta do Bill não mais conseguiriam replicar o sucesso daquele segundo álbum, e do seu mega-sucesso radiofónico. O grupo de Carlos Moisés prosseguiria actividades – encontrando-se, inclusivamente, ainda no activo! – mas com muito menos exposição mediática e quase sem ‘airplay’ radiofónico, limitando a sua base de fãs à meia-dúzia de ‘convertidos’ do costume; haverá, decerto, por aí quem saiba os nomes de todas as músicas da banda, e advogue convictamente os méritos do seu quinto álbum, mas para o português comum, os Quinta do Bill são, apenas e só, aquela banda que escreveu a música da claque do FC Porto – o que, convenhamos, não deixa de ser algo triste para uma banda de inegável valor e apostada em criar um som verdadeiramente original no panorama português da época.

Ainda assim, para quem goste de folk-rock com muita energia e uma pitada de atitude ‘punk’, os Quinta do Bill constituem uma proposta tão válida como a sua ‘banda gémea’, os Sitiados, com a ressalva de serem uma proposta de toada muito mais séria do que a (literalmente) folclórica banda de João Aguardela. Para os restantes, sobra ‘aquela’ música, cujo refrão é daqueles que, quando gritado a plenos pulmões em conjunto com uns passinhos de dança, tem o condão de fazer o ouvinte regressar no tempo, aos anos dourados da sua juventude…

Tínhamos que acabar assim, não concordam...?

 

09.08.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

 

Sim, este é um daqueles posts – como o dos Ficheiros Secretos – que tem mesmo de começar com a música de abertura da série a que diz respeito. Isto porque, para uma determinada faixa da população nacional, a referida música é talvez o mais icónico tema de abertura da sua infância, encontrando pares apenas em Dragon Ball Z, Power Rangers e nos próprios Ficheiros Secretos em termos de longevidade nostálgica para as crianças da época.

E o melhor é que a série em si, embora não tão memorável ou ‘viciante’ como a música que a abria, também não deixava nada a desejar a muitas produções bem mais ‘caras’ da época; antes pelo contrário, tanto o programa original como a sua ainda mais famosa sequela ofereciam uma adaptação divertida de material literário clássico, com o qual muitas crianças provavelmente nunca teriam tido contacto, não fora o estatuto de fã incondicional de um director de animação espanhol.

O referido realizador, e criador da série, Claudio Biern Boyd, foi inspirado pela sua paixão pela obra de Alexandre Dumas, em particular ‘Os Três Mosqueteiros’, a desenvolver uma versão da história que agradasse a um público jovem mais contemporâneo – daí a opção por transformar os personagens em cães, um animal de que quase todas as crianças naturalmente gostam. Com a ajuda de uma companhia de animação japonesa, o conceito de Boyd viria a tornar-se realidade ainda em inícios dos anos 80, tendo ‘Dartacán y Los Tres Mosqueperros’ estreado na TVE espanhola em 1982; e o mínimo que se pode dizer é que a intuição inicial de Boyd estava absolutamente correcta – a série foi um sucesso imediato, tanto em Espanha como em Portugal, onde viria a estrear pouco depois, e em vários outros países pelo Mundo fora.

O sucesso tão-pouco se ficaria por aí; antes pelo contrário, o êxito estrondoso do seu conceito inicial inspiraria Boyd a conceber uma sequela, a qual viria a surgir já na década seguinte, a tempo de cativar tanto o público da série original como uma nova fornada de crianças, ainda pouco familiarizadas com o perdigueiro cinzento de roupa vermelha e os seus ‘bons companheiros’ - o bravo Dogos, o bonacheirão Mordos e o vaidoso Arãomis.

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O quarteto de heróis da série

É essa série, explicitamente intitulada ‘O Regresso de Dartacão’, que mora na imaginação da esmagadora maioria das crianças portuguesas da década de 90, não só pelo seu tema de abertura modelo ‘pastilha elástica’, como também pela animação dinâmica (agora a cargo de uma companhia da Formosa, a conhecida Wang Productions) e personagens memoráveis, com especial destaque para os ‘maus da fita’, o Cardeal Richelieu e a gata Milady. A sequela introduzia, ainda, os filhos de Dartacão e da ‘predilecta do seu coração, Julieta – os quais, à boa maneira dos desenhos animados da época, saíam cada um ao progenitor do respectivo sexo, com o rapaz a assemelhar-se a Dartacão e a menina a Julieta. (Também aqui, aliás, a série mostrava mestria, ao conseguir criar personagens infantis que não faziam o espectador querer estrangulá-los ao fim de dois segundos no ecrã.)

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Os filhos de Dartacão e Julieta

Em suma, uma série memorável por fazer tudo bem, que merece o seu lugar na curta mas interessante História da animação ibérica, e que viu recentemente o seu legado prolongado (ou antes, revivido) por um filme em animação CGI, estreado há poucas semanas nos cinemas lusitanos.

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O cartaz do novo filme, estreado em Julho de 2021

Não deixa, por isso, de ser atempada esta nossa homenagem a uma daquelas séries de que TODOS nos lembramos, e que rapidamente vem à conversa sempre que o tema se volta para a nostalgia sobre a ‘nossa’ época. ‘DARTACÃO, DARTACÃO, CORRENDO GRAN-DES PERI-GOOOOOS / DARTACÃO, DARTACÃO, PERSEGUEM OS BAN-DI-DOOOOOS…

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