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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

18.12.21

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021.

NOTA: Os posts desta Sexta e da próxima Segunda-feira foram intencionalmente trocados, por razões que esclareceremos dia 20. Assim, neste post falaremos de música, ficando os filmes para o post de segunda.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas (e ocasionalmente às sextas), exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos países anglófonos, a música de Natal é uma verdadeira indústria, que subsiste há décadas às costas dos mesmos dez ou quinze 'clássicos' (Mariah Carey, Live Aid, Slade, Elton John, Wham!, Kylie Minogue e quejandos) que revende, ano após ano, a um público que nunca parece cansar-se deles. E embora sejam muito poucos os países que sequer tentam emular esta fórmula, a maioria tem as suas próprias 'concorrentes' neste campo, ainda que não na quantidade produzida pelos EUA ou o Reino Unido.

Portugal não é excepção neste campo, sendo que a principal música que quase define esta época no nosso país é a já mitica 'A Todos Um Bom Natal', na interpretação do Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras, música tão omnipresente que a epoca natalícia nacional não parece começar verdadeiramente até a ouvirmos como música de fundo de um qualquer anúncio, ou da ida semanal ao supermercado; no entanto, nos anos 90, foi feita uma tentativa declarada de desafiar a hegemonia desta faixa, por parte de um grupo de artistas do mundo da pop - no fundo, uma espécie de 'Christmas Tree Farm' à portuguesa, alguns anos antes de sequer se ter ouvido falar de Taylor Swift.

O grupo em causa eram os Anjos, o duo de irmãos que, a par dos Milénio, se afirmou como digno sucessor dos pioneiros Excesso e D'Arrasar no trono das 'boy bands' à portuguesa (e no coração das adolescentes nacionais); a música, gravada em 1999, no auge do sucesso do grupo, chamou-se 'Nesta Noite Branca', e juntou os irmãos Nélson e Sérgio Rosado à cantora Susana, num tema que reveste a típica sonoridade 'boyband-pop-pimba' do duo de alguns motivos mais natalícios - uma escolha estilística bastante comum neste tipo de composição, e que serve como identificador para o facto de que se trata de uma música de Natal.

O resultado final soa como uma espécie de mistura entre o 'Last Christmas' dos Wham! (muito por conta da melodia vocal em tom delico-doce dos dois irmãos, bastante próxima da que George Michael e Andrew Ridgeley usaram para esse tema) e uma qualquer faixa instrumental de acompanhamento dos Backstreet Boys, com os exercicios vocais de Susana a darem aquele 'toque Mariah Carey' que nunca pode faltar em músicas de Natal. Ou seja, a faixa reúnia todos os argumentos para se tornar num clássico dos Natais portugueses das décadas subsequentes - algo que, como sabemos hoje em dia, acabou por nunca acontecer.

A razão para 'Nesta Noite Branca' não ter vingado enquanto clássico de Natal 'cheesy' nunca ficou cem por cento clara - talvez a composição simplesmente não fosse forte o suficiente (que não é), ou talvez o facto de ter sido gravada por um grupo com 'prazo de validade' limitado tenha acabado por a condenar ao esquecimento. Seja qual for o motivo para o falhanço comercial e cultural da música, no entanto, o mesmo não pode ser negado - tanto assim que, para sequer saber da existência desta música uns meros 22 anos depois de a mesma ter sido gravada, é preciso recorrer a um post único num blog nostálgico que gosta de 'desenterrar' perolazinhas 'de época' destas (à laia de comparação, 'Last Christmas' completa este Natal 37 anos, 'Merry Xmas Everyone' tem mais quatro, 'All I Want For Christmas Is You' menos dez, e a maioria das outras faixas 'perenes' da época natalícia leva já quase sete décadas de rotação constante nesta época do ano!)

Ainda assim, se a música dos Anjos teve algo de positivo, foi o facto de provar que, sim, em Portugal também se sabem escrever canções de Natal que não apenas 'A Todos...'; pena, pois, que a única composição 'pop' a ousar aventurar-se nesse mercado durante várias décadas tenha sido um tema bubblegum-pop fraquinho, gravado por um grupo descartável e sem refrão que se (ou)visse...

07.12.21

NOTA: Este post diz respeito a Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2021.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O Natal não é, exactamente, um tema comum no que toca a colectâneas de música alternativa; normalmente, as compilações deste tipo centram-se sobretudo nos clássicos intemporais (e de domínio público) que a maioria dos comuns mortais transforma em banda-sonora para esta época do ano,

Em 1995, no entanto, a editora independente portuguesa Dínamo Discos resolveu explorar precisamente esse conceito, juntando num mesmo disco alguns dos maiores e mais conhecidos artistas da música portuguesa e fomentando uma série de colaborações, as quais viriam mais tarde a fazer parte do disco. E o mínimo que se pode dizer é que, apesar do sucesso comercial não ter sido por aí além significativo, em termos qualitativos, a empreitada valeu bem a pena.

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Intitulado 'Espanta-Espìritos' e lançado em Novembro (com uma capa que remete mais ao Halloween do que propriamente ao Natal), o disco apresenta doze músicas bem eclécticas e diversificadas, com as sonoridades alternativas e a temática natalícia como únicos denominadores comuns – uma característica proposital, e que assegura que a colectânea oferece algo para os fãs de todos os géneros da música alternativa, com a notória excepção do hard rock e metal, talvez por serem géneros demasiado 'de nicho' ou pouco agradáveis ao ouvido do melómano médio português.

De resto, há para todos os gostos, do pop-rock de 'Final do Ano (Zero a Zero)' (interpretado por Xana dos Rádio Macau ao lado de Jorge Palma) ao fado de 'Minha Alma de Amor Sedenta', de Alcindo Carvalho, passando pelo funk Jamiroquai-esco de '+ 1 Comboio' (novamente com Jorge Palma em dueto com um elemento dos Rádio Macau, no caso o guitarrista Flak), o rock sarcástico-cómico de 'Família Virtual' (uma inesperada colaboração entre o fadista Carvalho e os anarco-ska-punks Despe & Siga) e 'Natal dos Pequeninos' - dueto de João Aguardela, dos Sitiados, com duas crianças - ou mesmo o hip-hop de 'Apenas Um Irmão', faixa que consegue a proeza dupla de inserir, à sorrelfa, uma palavra menos própria na letra (por sinal, bem rebelde e contestatária, como era apanágio do hip-hop português da época) e de pôr Sérgio Godinho a fazer rap ao lado dos mestres Pacman (hoje Carlão) e Boss AC – e quem nunca ouviu Sérgio Godinho numa música de rap, não sabe o que anda a perder...

Ouçam por vocês mesmos...

As restantes músicas são mais tradicionais deste tipo de empreitada, e desenvolvem-se num ritmo mais calmo e baladesco – o que não significa que tenham menos qualidade. 'A Rocha Negra', em particular, é um tema assombroso, em todos os sentidos, alicerçado numa grande prestação vocal, quase 'a capella' de Tim (ainda em fase de estado de graça com os seus Xutos) e Andreia (dos desconhecidos Valium Electric), enquanto 'São Nicolau' é um bonito tema em toada pop-rock, cantado por Viviane, dos Entre Aspas. Em suma, são poucos os temas mais fracos deste registo, e mesmo esses nunca passam o limiar do aceitável-para-bom.

Não deixa, pois, de ser surpreendente que o principal contributo de 'Espanta Espíritos' para a mùsica portuguesa tenha sido a inclusão de alguns dos seus temas em álbuns 'verdadeiros' de alguns dos participantes; como colectânea, e apesar de ter sido considerado um dos vinte melhores discos de Natal lançados em Portugal pela Time Out (uma daquelas distinções tão de nicho, que acaba por fazer pouco ou nenhum sentido) o álbum esteve longe de ser um sucesso, e encontra-se largamente esquecido nos dias que correm. Uma pena, visto que – como qualquer pessoa que tenha o álbum certamente afirmará – este se trata de um projecto que merecia bastante melhor do que apenas um estatuto de culto...

08.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Um dos fenómenos mais commumente associados ao panorama musical dos anos 90, e que melhor o definem, foi o apogeu e declínio das 'boy-bands'. De New Kids on the Block, ainda nos anos 80, a Take That nos primeiros anos da nova década, e mais tarde Backstreet Boys, N'Sync, Boyzone, Westlife, 5ive e muitas outras bem menos conhecidas ou relevantes, houve um dado ponto dos anos 90 em que este tipo de grupos manufacturados de rapazitos imberbes e bem-parecidos a cantar canções de amor com batida electro-pop era inescapável. Mais – tudo o que se relacionasse, ainda que indirectamente, com este tipo de grupo tinha vendas quase garantidas (a parte do 'quase' diz respeito aos álbuns a solo de membros destas bandas, os quais, com duas notáveis excepções, nunca conseguiam qualquer tipo de sucesso fora do contexto da banda a que pertenciam.)

Como é evidente, um filão com este tipo de potencial não podia deixar de ser explorado em locais que não apenas o seu epicentro; na América Latina, por exemplo, estes grupos existiam já desde os anos 80, sendo os Menudo de Ricky Martin um bom exemplo. E embora no resto do Mundo esta evolução tenha sido algo mais tardia, a verdade é que, paulatinamente, começaram mesmo a aparecer grupos deste tipo oriundos dos países mais inesperados e insólitos – entre eles Portugal. E, tendo em conta a apetência e aptidão do nosso país para a música popular e de 'mínimo denominador comum', não é de todo de estranhar que, quando surgiram, as nossas 'boy bands' se tenham inserido no campo da música pimba.

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Backstreet Boys 'à portuguesa' - os D'Arrasar

Sim, 'boy bandS' – mais do que uma. Não querendo ficar atrás de qualquer outro país por esse Mundo fora, Portugal apresentou à cena musical não um, mas DOIS grupos deste estilo, ambos com trajectórias suficientemente paralelas para quase poderem ser consideradas gémeas; e o facto de os nomes Excesso e D'Arrasar continuarem a suscitar, na melhor das hipóteses, nostalgia, e na pior, bom humor, não deixa de ser um atestado ao impacto que ambas as bandas conseguiram ter entre a juventude do seu tempo.

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Os pioneiros Excesso

Separadas apenas por um ano nas suas respectivas fundações – os Excesso surgiram primeiro, em 1997, os D'Arrasar no ano seguinte – ambos os grupos apostavam numa sonoridade muito semelhante, alicerçada nos principais elementos da música pop portuguesa (vulgo 'pimba') mas que os revestia de uma imagem bem mais sofisticada, moderna e internacionalizada do que a da maioria dos artistas do referido estilo. Tanto o grande hit dos Excesso, 'Eu Sou Aquele', como o tema-estandarte dos D'Arrasar, 'Rainha da Noite', tinham por base batidas algures entre o 'pimba' e o Eurodance, letras que versavam sobre o desejo romântico, e refrões tão 'pegajosos' e memoráveis que apostamos que alguém já os está a cantarolar para dentro; na prática, para os mais desatentos, o som dos dois grupos era virtualmente indistinguivel se não se soubesse quem se estava a ouvir.

Os grandes sucessos de cada um dos grupos tinham sonoridades muito semelhantes

Tão-pouco se ficavam por aí as semelhanças, sendo que ambos os grupos contavam com cinco elementos, a maioria deles conhecidos por alcunhas ao invés do nome próprio – os Excesso eram compostos por Gonzo, Carlos, Duck, Portugal e pelo lendariamente memético Melão (hoje em dia conhecido sobretudo pela sua música homónima e por ter sido o 'amigo especial' do jogador Calado, do Benfica), enquanto os D'Arrasar se compunham de Joca, Kapinha, Jimmy, Ricardo e CC (ou Carlos Coincas, finalista do mítico 'Chuva de Estrelas' no auge da popularidade do mesmo.)

Escusado será dizer que, de entre estes dez rapazes, não havia um que fosse menos do que bem apessoado, pelo menos dentro do estilo 'pop-brega' que o seu público tanto apreciava. Assim, não foi de estranhar que, pouco depois do aparecimento de cada um dos grupos, as paredes dos quartos de raparigas adolescentes por esse país fora se enchessem de 'posters' dos mesmos, convenientemente oferecidos por publicações como a 'Super Pop'.

Ainda outra semelhança em carreiras recheadas delas foi a própria duração das mesmas – apenas cerca de cinco anos para cada grupo, tendo ambos lançado, nesse período, exactamente dois registos de originais (todos, aliás, presença assídua naqueles escaparates de Cds e cassettes existentes em estações de serviço e tabacarias de bairro) antes de se lhes perder o rasto (a Wikipedia dos Excesso abrange, ainda assim, toda a carreira do grupo; a dos D'Arrasar fala em 2003 no tempo presente, o que leva a crer que não terá sido actualizada desde essa altura.)

Enfim, dois grupos tão semelhantes que, como se disse no início deste texto, quase podiam ser gémeos – sendo que, curiosamente, nem todas as semelhanças entre as carreiras dos dois foram propositadas. Quem quer que se tivesse preferido à época, no entanto, uma coisa é certa – tanto um como o outro (bem como os seus sucessores de 'segunda geração', como Milénio, D'Zrt ou Anjos) são muito, muito típicos de uma era e contexto muito específicos, em que bastava a uma banda 'pimba' 'disfarçar-se' de algo mais sofisticado e 'na moda' para ser um sucesso de vendas a nível 'mainstream'...

25.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nasúltimas semanas, temos falado nesta rubrica de bandas com atitudes e posturas intencionalmente cómicas ou humorísticas, seja nas letras, seja na parte musical, presença em palco, ou até simplesmente no grafismo do disco. Para estes grupos, a música e a comédia são formas de arte complementares, e usadas em conjunto, de forma consciente, para criar uma amálgama bem balanceada de ambas as vertentes.

O que aconteceria, no entanto, se um artista criasse algo que se pudesse classificar como comédia, mas o fizesse de forma involuntária? Se, durante todo o processo de criação, o mesmo estivesse seguro de estar a criar uma obra capaz de ser levada a sério, mas que de facto apenas viria a despertar a chacota tanto dos seus pares, como do público em geral?

Quem se interessa por cinema de culto já sabe a resposta a esta pergunta, bastando para tal olhar para as obras de cineastas como Tommy Wiseau e Neil Breen; no entanto, quem cresceu em Portugal durante os anos 90 já conhecia o conceito de 'so bad it's good' muito antes de 'The Room' ser sequer um projecto na mente do seu criador.

Isto porque, em finais da década a que este blog diz respeito, surgiu na cena musical popular portuguesa (a chamada música 'pimba') um sujeito de risco ao lado com brilhantina e 'ondinha' à Super-Homem, casaco 'blazer' de lantejoulas, lacinho a preceito, e falha nos dentes da frente; um sujeito cuja habilidade vocal rivalizava com a de um qualquer universitário bêbedo num karaoke do Bairro Alto às três da manhã, com a diferença de que o referido universitário não chegará, com sorte, a ver a sua 'performance' gravada e lançada em disco para o grande público.

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Falamos, claro, de Zé Cabra, o lendário intérprete de hinos como 'Deixei Tudo Por Ela' e 'São Lágrimas', cujo conceito de afinação e tom tinha mais em comum com os de Natália Andrade do que de qualquer dos artistas até excessivamente artificiais da cena em que se inseria. Só quem lá esteve poderá descrever o que era ouvir Zé Cabra cantar, mas se imaginarem um cruzamento entre a referida Natália Andrade e Florence Foster Jenkins, mas no masculino e com composições ao estilo 'festa da aldeia', estarão muito próximos de perceber tal experiência (e se for esse o caso, as nossas condolências.)

Cliquem por vossa conta e risco; ficam avisados...

O desastre era tal que havia quem postulasse que Zé Cabra fazia de propósito, utilizando uma espécie de manobra 'troll' – muito antes desse conceito ter sido popularizado – para ganhar notoriedade e fama, e se destacar dos artistas em molde 'linha de montagem' que compunham a cena 'pimba' portuguesa da altura; no fundo, uma manobra semelhante à que, anos antes, tornara Saul Ricardo parte da consciência popular do país. Se esta teoria for verdade, então, tiramos-lhe o chapéu, Sr. Casimiro António Serra Afonso; o mais provável, no entanto, é que o referido senhor tenha sido explorado pela indústria, sem nunca lhe ter sido revelado o grande segredo da sua carreira – nomeadamente, o facto de que o seu público não se estava a rir COM ele, mas sim DELE. No entanto, se tiver verdadeiramente sido este o caso, parece que o próprio acabou mesmo por perceber o que se passava, dado ter admitido abertamente, em entrevista, que não sabia cantar...

Com ou sem talento, no entanto, a verdade é que Zé Cabra fez o suficiente para ganhar os seus cinco minutos na ribalta – e parece não ter querido mais do que isso. Prova desse mesmo facto é que, enquanto muitos dos seus pares continuam a percorrer activamente o circuito das feiras e romarias, Zé Cabra mudou-se, sem grande alarde, para França, onde se dedica ao seu outro 'hobby', a pintura (!) Como seu legado na consciência popular, o artista deixa dois 'singles' inenarravelmente maus, mas que fizeram dessa falta de qualidade o principal argumento para – à sua maneira – se tornarem parte da História da música popular portuguesa...

27.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E se na última edição desta rubrica falámos de um ‘one-hit wonder’ português de meados dos anos 90, com músicas voltadas ao humor e cantadas na nossa própria língua, hoje, falaremos de outro, substancialmente mais conhecido e menos ‘esquecido’, e cujo único sucesso continua, ainda hoje, a marcar presença em certos contextos, seja dentro do espectro das artes criativas, seja como banda sonora de um qualquer evento de ar livre; e porque se vivem precisamente, neste altura, os últimos resquícios da maravilhosa estação estival portuguesa, nada melhor do que deixarmos que essa mesma banda nos recorde das muitas razões para apreciar essa época do ano.

Como já devem ter percebido, estamos a falar d’A Fúria do Açúcar, grupo musical e humorístico imortalizado na consciência colectiva portuguesa pelo hino estival ‘Eu Gosto É do Verão’, mas que pouco mais sucesso conseguiu atingir, apesar de celebrar este ano as suas três décadas (!) de carreira.

Formada em 1991 por três personalidades do circuito humorístico – entre elas o líder João Melo, mais tarde apresentador de um programa televisivo também voltado a este espectro – A Fúria do Açúcar começou por ser um projecto de estética café-concerto, intercalando números musicais com ‘sketches’ humorísticos. Não demorou muito, no entanto, para que este paradigma se alterasse, com o grupo a decidir enveredar por um caminho estritamente musical, cujo primeiro fruto foi o álbum homónimo de estreia, lançado em 1996.

No entanto, seria apenas com o seu segundo registo, ‘O Maravilhoso Mundo do Acrílico, lançado no ano seguinte, que o grupo de João Melo verdadeiramente penetraria na consciência popular – especificamente, através do segundo single retirado do álbum, uma faixa de índole sardónica cuja letra focava a comercialização em torno da época de Verão, e da idealização de que a mesma é alvo por parte da maioria dos seres humanos. No fundo, uma daquelas faixas que apenas aparenta ser ‘parva’, tendo na verdade um significado escondido, à espera de quem o queira encontrar; o problema foi que, em 1997, quase ninguém quis.

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A capa do álbum de consagração do grupo

De facto, a maioria daqueles que cantarolavam alegremente esta música no carro, na escola ou até em casa certamente não terá dedicado muito tempo a esmiuçar o significado da letra, prestando mais atenção à voz pateta-de-propósito de Melo ou à instrumentação bem ao estilo surf-rock, que tornava a música numa ‘malha’ bem pegajosa. O resultado inevitável desta tendência foi a percepção daquilo que se pretendia que fosse uma denúncia social como precisamente aquilo que aparentava (ou fingia) ser – uma música tola e descartável para consumo imediato. Pior, essa é ainda hoje a principal forma como a canção é abordada, tendo a vertente de crítica social vindo a ser cada vez mais ignorada – algo que, certamente, não deixará de frustrar os músicos da banda.

Também certamente frustrante será o facto de – apesar de, como resultado do seu sucesso. se ter tornado banda residente do programa apresentado pelo vocalista – o projecto Fúria do Açúcar nunca ter conseguido replicar o sucesso daquele ‘single’ de 1997. Apesar de contar já com seis discos (um dos quais lançado após um hiato de quase exactamente dez anos), a banda de João Melo continua a ser conhecida e recordada por uma, e apenas uma, música. Música essa que – diga-se em abono da verdade – continua a ser tocada nos mais diversos e variados contextos, o que não deixa de ser um feito para uma faixa cómica lançada há quase um quarto de século; ainda assim, não será descabido pensar que Melo e Cª teriam certamente preferido que essa mesma faixa tivesse feito menos sucesso, se tal significasse que o resto do seu repertório se tornaria mais conhecido…

Seja como for, a verdade é que o ‘one hit’ destes ‘one-hit wonders’ se tornou bem mais icónico e duradouro do que a maioria das músicas deste tipo, sendo ainda hoje um hino nostálgico para toda uma faixa demográfica que viveu os seus melhores anos nas décadas entre 1980 e 2000; candidato ideal, portanto, para inclusão nesta secção do nosso blog…

03.09.21

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 2 de Setembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Os anos 90 foram (em Portugal e não só) uma ‘época de ouro’ para o jornalismo especializado ou ‘de sector’. Fosse no campo dos jogos de computador e consola, desportivo ou (como veremos hoje) da música, poucos ‘hobbies’ e áreas de interesse havia que não tivessem pelo menos uma publicação a eles dedicada.

No caso da ‘cena’ musical, essa publicação era, sem qualquer margem para dúvidas, o jornal Blitz, uma espécie de ‘NME à portuguesa’ que – ali por meados da década que nos concerne – tinha popularidade suficiente para ditar opiniões no que tocava a novos lançamentos, tanto nacionais como internacionais.

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Inaugurado ainda na década de 80 – mais concretamente em 1984 – foi, no entanto, no decénio seguinte que esta publicação atingiu o auge da sua fama e popularidade, transformando-se em compra semanal (ainda mais) obrigatória para entusiastas de música de todas as idades, e espalhados um pouco por todo o país. Isto porque, para além de ser único e pioneiro na sua época, o Blitz não discriminava em termos musicais, oferecendo literalmente um pouco de tudo, desde o pop-rock ‘indie’ que fazia furor no ‘mainstream’ da altura até géneros mais de nicho, como o alternativo, o heavy metal ou a música de dança; melhor, qualquer que fosse o estilo abordado, os jornalistas da publicação mantinham-se, invariavelmente, imparciais. Ou seja, se fosse para falar bem, falava-se bem; mas se fosse para ‘bater’, ‘batia-se’ – e bem. Era esta atitude declaradamente imparcial, aliada a uma enorme qualidade jornalística em todas as frentes, que tornava o Blitz na referência que era para a juventude melómana dos anos 90.

Mais, o ‘universo’ da revista não se cingia apenas à música, estendendo-se também a áreas periféricas de interesse dos jovens, como a moda e a arte; havia, até, uma secção onde os leitores podiam dizer o que lhes ia na alma, sob a forma de ‘Pregões e Declarações’, muitas vezes de carácter alternativo ou até subversivo. Ou seja, uma publicação feita à medida do seu público, e que gozou, sem surpresas, do sucesso correspondente.

Claro que, como tudo o que faz sucesso em qualquer era da História, também o Blitz teve, durante aquela época, os seus imitadores – em particular, havia um jornal que imitava em tudo a publicação, desde o logotipo ao grafismo, mas cujo conteúdo ficava muito aquém dos altos padrões exibidos pelo Blitz. Sem qualquer surpresa, nenhum destes ‘seguidores’ atingiu alguma vez o estatuto de culto do original, e – ao contrário deste - todos foram rapidamente esquecidos pela juventude nacional.

O próprio Blitz se veria, com o passar dos anos e o evoluir da indústria, obrigado a mudar a sua abordagem editorial, primeiro através de uma relativamente inocente ‘lavagem de cara’ a nível gráfico, e depois de forma mais drástica, abandonando o formato que adoptara durante quase vinte anos e sofrendo uma ‘mudança de pronomes’ – de O Blitz, jornal, passava a A Blitz, revista.

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Exemplo do formato revista que a publicação apresentou no novo milénio

É  esta publicação (infelizmente, de cariz muito mais corriqueiro do que o seu antecessor) que se vai ainda encontrando (com cada vez menos frequência) nas bancas portuguesas, embora muito do seu actual âmbito se situe no universo digital. Para a memória fica aquela publicação física que, durante pelo menos duas décadas, moldou as opiniões sobre música de toda uma geração de amantes de música em Portugal – incluindo, suspeitamos, muitos dos leitores deste blog…

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