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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

14.11.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E porque um dos discos mais importantes da maior e mais duradoura instituição do pop-rock português completou há duas semanas exactos trinta anos (e por, nessa Segunda, termos estado ocupados a celebrar o Halloween falando dos 'bruxos' Moonspell), nada mais justo do que lhe dedicarmos algumas linhas deste nosso espaço sobre música marcante da nossa época.

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Falamos de 'Dizer Não de Vez', o primeiro de quatro discos lançados durante a última década do século XX pelos lendários Xutos & Pontapés, à época já nome maior do rock português (com orçamento e liberdade criativa a condizer) mas ainda com as ganas e a 'pica' que viriam, drástica e dramaticamente, a perder na época seguinte. E é precisamente essa conjugação de experiência e genica que faz do disco de 1992 (bem como do seu sucessor, lançado no ano seguinte) uma das melhores obras na vasta discografia do conjunto lisboeta, reconhecida como tal mesmo entre os fãs da época, que levaram o single 'Chuva Dissolvente' ao primeiro lugar do 'top' nacional de singles. E com razão - inicialmente concebido para ser um álbum duplo (mais tarde dividido em dois por imposição da Polygram, numa obrigação contratual pouco apreciada pelo quinteto mas que acabou por lhe render dois sucessos de vendas, em vez de apenas um em formato duplo) 'Dizer Não de Vezº é um álbum absurdamente homogéneo, repleto de uma ponta à outra com o estilo de 'malhas' a que os Xutos já vinham habituando os ouvintes de 'rock' comercial 'made in Portugal'. Temas como o supracitado 'Chuva Dissolvente', 'Hás-de Ver', o psicadélico 'Lugar Nenhum', os resquícios da fase 'punk' 'Dia de S. Receber' (a melhor do disco) e 'Lei Animal', ou o encerramento com o bem típico 'O Que Foi Não Volta a Ser' tornam este álbum de aquisição obrigatória, não só para admiradores do grupo, mas também por quem queira saber a que soa o bom 'pop-rock' português de cunho clássico.

Assim, e apesar de o grupo considerar que a divisão de temas com 'Direito ao Deserto' influenciou negativamente o produto final em termos de alinhamento e conceito, 'Dizer Não de Vez' afirma-se como obra absolutamente essencial, não só no cômputo da discografia dos Xutos, como do pop-rock noventista português (nem mesmo o próprio grupo a conseguiu jamais suplantar em qualquer momento posterior) e merecendo bem esta homenagem (ainda que atrasada) no mês do seu trigésimo aniversário.

 

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

17.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A 'explosão' dos movimentos alternativo e pop-rock nacionais durante a década de 90 contribuiu para o aparecimento e desenvolvimento de um sem-número de novas bandas, a maioria das quais pouco ou nada ficava a dever às suas congéneres estrangeiras, conseguindo, com a sua qualidade, contornar as limitações técnicas e de recursos inerentes a gravar um disco em Portugal. Tal como acontece em qualquer movimento, no entanto, nem todos estes nomes chegaram a experienciar as 'luzes da ribalta', tendo alguns, inevitavelmente, ficado 'pelo caminho' na corrida à fama e aos contratos discográficos.

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Uma destas bandas foram os SG's, quarteto cascalense que, durante um breve período em meados dos anos 90, chegou a ser o mais próximo que Portugal tinha a uns Nirvana, compondo, ao lado dos 'Pearl Jam' Blind Zero e dos 'Alice in Chains' Lulu Blind, o grande triumvirato do 'grunge' nacional na altura em que o referido estilo atravessava a sua fase de maior popularidade. No entanto, dos três nomes, o colectivo liderado por Hugo Van Zeller seria o que maior dificuldade teria em encontrar sucesso radiofónico, acabando a sua contribuição para o panorama do rock pesado nacional por se saldar em um par de aparições na icónica colecção de CD's single da revista Super Jovem (ambos, curiosamente, partilhados com os 'death metallers' Disaffected, os únicos outros 'repetentes' da colecção), um single, e um único álbum, 'Psycho Holidays', lançado pouco mais de um ano após a formação do grupo, em 1995.

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A totalidade da discografia do quarteto 

A verdade, no entanto, é que é difícil de perceber exactamente porque é que a carreira de Van Zeller, Rodas, Johnny Barros e Gonzo ficou tão aquém das expectativas. Isto porque, sem ser uma obra-prima da música moderna, 'Psycho Holidays' não deixa, ainda assim, de ser um excelente álbum de rock 'barulhento' moderno, talvez com umas quantas músicas a mais (dezasseis temas de estúdio mais um ao vivo, espalhados ao longo de quase uma hora de música, é, manifestamente, muito para um álbum deste tipo) mas repleto de 'malhas' inegáveis como a inaugural 'Save Me' ou os temas com que o quarteto se deu a conhecer na Super Jovem, 'I Am' e 'Misunderstanding', esta última mas compassada, melódica, e com forte 'travo' a Pearl Jam. De facto, exceptuando-se o inglês algo 'macarrónico' de algumas das letras e a produção expectavelmente limitada, este é daqueles discos que poderia perfeitamente ter sido comercializado a nível internacional, e encontrado o seu lugar no 'pelotão' de bandas de 'grunge' secundárias que perseguiam, de longe, os 'quatro grandes' do estilo.

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O vocalista e líder da banda, Hugo Van Zeller, é hoje consultor de desenvolvimento pessoal

Não seria, no entanto, isso que se viria a passar, e o destino fadaria os SG's a uma carreira curta, que teria fim (pelo menos em termos de registos discográficos) pouco depois do lançamento do álbum, constituindo apenas mais uma daquelas sempre deprimentes) histórias sobre 'o que podia ter sido', tão comuns no mundo da música. Ainda assim, e a julgar pela sua actual presença como consultor e 'coach' de desenvolvimento pessoal, Hugo Van Zeller foi capaz de 'dar a volta por cima' deste desapontamento e atingir sucesso noutra área; e mesmo que o disco que lançou com os amigos no tempo da juventude seja, para ele, apenas um artefacto levemente embaraçoso de um tempo passado, para muitos fãs de música alternativa lusitanos (tanto da época como dos dias que correm), o mesmo continua, certamente, a constituir um dos melhores exemplos de rock 'barulhento' 'made in Portugal'....

03.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em edições anteriores desta mesma rubrica, temos vindo a falar de alguns dos nomes mais incontornáveis da explosão pop-rock portuguesa dos anos 90; esta semana, chega a vez de juntar mais um nome a essa lista, nomeadamente um que pecava por omissão nas páginas deste blog, pela influência que teve sobre as ondas de rádio de finais do século XX e inícios do XXI.

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Falamos dos conimbricenses Clã, o seminal conjunto fusionista que tem na voz de Manuela Azevedo o seu principal factor distintivo, e na experimentação inter-estilística o seu principal trunfo. Formados em 1992 (quando Manuela Azevedo ainda sonhava trabalhar em Direito, área em que estudava), a banda viria a alcançar o estatuto de que ainda hoje gozam cerca de meia década depois, através dos seus três primeiros álbuns, 'LusoQUALQUERcoisa' (estilizado assim mesmo, e lançado em 1996), 'Kazoo' (do ano seguinte) e 'Lustro' (de 2000); e se seria de 'Kazoo' que sairia aquela que se tornaria a música-estandarte do grupo, e um dos maiores sucessos portugueses de finais da década de 90 - 'Problema de Expressão' – seria com 'Lustro' que os Clã cimentariam o seu lugar no topo da hierarquia do pop/rock de fusão português, saindo vencedores em três das categorias dos Prémios Blitz desse ano, incluindo as de Melhor Banda Nacional e Melhor Álbum Nacional – um feito que, à época, era suficiente para lhes conferir o estatuto de 'semi-deuses' da música portuguesa.

Longe de descansar à sombra desses louros, no entanto, a banda continuou a desbravar caminho nos primeiros anos do novo milénio, colaborando com Sérgio Godinho num álbum ao vivo, 'Afinidades', e aceitando mesmo compôr uma banda sonora para um filme mudo – no caso o seminal 'Nosferatu', de F. W. Murnau, pioneiro dos 'filmes de vampiros' lançado em 1922 – como parte da iniciativa 'Porto 2001 – Capital Portuguesa da Cultura'. Três anos depois, saía 'Rosa Carne', quarto álbum do grupo, cuja recepção foi tão entusiástica quanto a dos três anteriores, sendo mesmo considerado um dos discos mais importantes da 'cena' portuguesa de 2004. No ano seguinte, saía o primeiro vídeo do grupo, 'Gordo Segredo', e um segundo disco ao vivo, desta feita uma edição dupla.

Daí em diante, os lançamentos continuaram a surgir a bom ritmo, tendo o grupo lançado mais seis álbuns de originais nos últimos quinzo anos, e conseguido manter a sua posição de destaque no panorama pop português, agora alicerçado na experiência e veterania de que o colectivo já goza. Para ouvintes mais 'casuais', no entanto, os Clã continuam, essencialmente, a ser 'aquela' banda que tocava 'Pois É!' e 'Problema de Expressão' na rádio, há vinte e muitos anos – o que, mesmo assim, é um legado mais honroso do que o de muitas bandas tão ou mais duradouras do que os conimbricenses...

19.09.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Qualquer melómano que tente fazer uma lista dos melhores e mais importantes álbuns de música portuguesa dos anos 90 certamente se deparará com alguns nomes incontornáveis. De provas de vida por parte de artistas veteranos ('Rock In Rio Douro', dos GNR, ou 'Pedras da Calçada', de Paulo Gonzo) ou supergrupos (o álbum homónimo dos Rio Grande) até declarações de intenções por 'novatos' decorrentes do 'boom' do pop-rock nacional daquela década (os primeiros discos de Da Weasel ou Santos e Pecadores, 'LusoQUALQUERcoisa' dos Clã, 'Vinyl' de The Gift, ou 'Silence Becomes It', do fenómeno Silence 4), é longa a lista de clássicos produzidos por artistas e grupos portugueses durante a referida década, e que continuam a reter a sua influência e relevância três décadas depois.

Da referida lista, especificamente do lado do 'sangue novo', faz ainda parte um álbum que celebrou há poucos dias (a 15 de Setembro de 2022) o vigésimo-quinto aniversário do seu lançamento, e que ajudou a apresentar ao mundo fonográfico português um novo nome, pronto a conquistar as ondas de rádio mais 'alternativas': 'Cão!', dos Ornatos Violeta.

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Capa do álbum de estreia do quarteto portuense.

O primeiro de apenas dois álbuns de originais lançados pela banda portuense (o terceiro é uma colectânea de inéditos e raridades), o disco foi, ainda assim, suficiente para fazer da banda portuense uma referência da música portuguesa até aos dias de hoje, o que atesta bem quanto à sua qualidade.

Formados no Porto nos primeiros anos da década, os Ornatos Violeta (ou simplesmente Ornatos) fariam jus à máxima de que 'se tem a vida toda para criar o trabalho de estreia', optando por lançar o trabalho de estreia apenas após ter a certeza de que a 'máquina' se encontrava bem 'oleada' no circuito de concertos e 'demos'; e o mínimo que se pode dizer é que esse esforço foi mais do que recompensado, com 'Cão!' a cair, quase de imediato, no 'gosto' da crítica especializada, que lhe teceu rasgados elogios não só à época, mas ao longo das décadas seguintes (ainda em 2009, a referência especializada Blitz o colocava no Top 5 de álbuns alguma vez criados por artistas portugueses, bem como na lista de melhores trabalhos oriundos da zona do Porto). Apresentando uma mistura de funk, jazz e ska, o álbum rendeu singles tão conhecidos e bem-sucedidos como 'Punk Moda Funk' (talvez o mais emblemático título dos portuenses, e música de abertura do álbum), 'A Dama do Sinal' e 'Mata-me Outra Vez', todos os quais tiveram considerável 'rodagem' nas rádios nacionais da altura.

Escusado será, também, dizer que o grupo não hesitou em aproveitar o 'embalo' dado por tão auspiciosa estreia, tendo o sucessor de 'Cão!' surgido pouco mais de dois anos após o lançamento deste, em Novembro de 1999; e a verdade é que, embora menos emblemático que o trabalho de estreia 'O Monstro Precisa de Amigos' é, também ele, um trabalho muito bem cotado tanto entre fãs da cena alternativa portuguesa como junto da imprensa especializada.

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Capa do segundo (e último) álbum do grupo, lançado em 1999

Apesar do processo de criação atribulado, o álbum representa uma bem-sucedida evolução do som estabelecido no trabalho de estreia, o qual se apresenta agora mais ponderado e sofisticado, que voltou a valer aos Ornatos reconhecimento generalizado, com a banda a conquistar diversas categorias na última edição do milénio dos prémios Blitz (incluindo a de Álbum do Ano) e o disco em si a ser considerado, ainda hoje, como um dos mais importantes álbuns portugueses dos últimos trinta anos.

Em meio a tal sucesso e adulação, seria normal que a carreira dos Ornatos seguisse de vento em popa; foi, no entanto, precisamente o contrário que se verificou, com a banda a anunciar abruptamente a sua separação quando ainda se encontrava no auge da carreira, em 2002; e a verdade é que, à parte o referido álbum póstumo de 'lados B' de raridades e algumas reuniões esporádicas na última década, esse foi mesmo o 'Fim da Canção' para Manel Cruz, Elísio Donas, Nuno Prata, Peixe e Kinorm, cujo legado acabou, assim, por se ficar apenas por aqueles dois álbuns revolucionários que 'abanaram' a cena portuguesa de finais de milénio. Um típico caso, portanto, de banda que se extingue após ter dado ao Mundo apenas um 'cheirinho' da sua arte, estatuto que o colectivo portuense partilha, na mesma década, com os supramencionados Silence 4; ainda assim, a obra dos Ornatos afirmou-se como (ainda) mais duradoura e influente que a de David Fonseca e seus capangas, fazendo com que, um quarto de século volvido, os dois álbuns do quinteto se afirmem ainda como de audição obrigatória para qualquer fã de música alternativa contemporânea 'made in Portugal'.

 

08.08.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quem foi jovem durante os primeiros anos do novo século e milénio certamente terá uma relação muito especial com os festivais de Verão, verdadeiros locais de 'romaria' para fãs de música autêntica e de qualidade, independentemente do género. Só os nomes já são suficientes para causar nostalgia em qualquer ex-'puto' que tenha ido, ou querido ir, a um destes certames: Super Bock Super Rock, Ilha do Ermal, Vilar de Mouros, Paredes de Coura, e aquele sobre o qual nos debruçamos na Segunda de Sucessos de hoje, e cuja edição transacta, realizada este fim-de-semana, marcou os seus vinte e cinco anos de existência – o Festival do Sudoeste.

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A primeira edição do Festival, realizada em 1997

Realizado anualmente na localidade de Zambujeira do Mar, na região de Odemira, no Alentejo, o agora intitulado MEO Sudoeste (o quarto patrocínio do certame em vinte e cinco anos, após TMN, Optimus e a Sagres dos primórdios) inseria-se, inicialmente, na franja mais 'roqueira' do espectro dos festivais de Verão portugueses - sem nunca ser tão declaradamente pesado ou 'metaleiro' como o seu extinto congénere da Ilha do Ermal, o certame reservava, no entanto, a grande maioria do seu cartaz para artistas do espectro do 'rock', tanto comercial como alternativo; e embora, na última década, o foco se tenha gradualmente voltado para a 'pop', para o 'hip-hop' e para a música de dança, é provável que quem visitou o festival nos seus tempos áureos o recorde mesmo como um evento centrado no 'rock', com cabeças de cartaz do calibre de Marilyn Manson, Faith No More, Oasis, The Cure, Sonic Youth ou até Sepultura.

Foi, aliás, precisamente a Brian Hugh Warner (vulgo Marilyn Manson) e à sua banda homónima que couberam as honras de encabeçar o segundo dia da primeiríssima edição do festival, que contou ainda com a participação dos inevitáveis Xutos & Pontapés (que, à época como hoje em dia, dificilmente deixam de estar presentes algures no cartaz de qualquer evento sequer remotamente ligado ao 'rock' realizado em Portugal) e dos então também 'em alta' Blasted Mechanism, entre outros; já os restantes dois dias do festival tinham como cabeças-de-cartaz, respectivamente, as então 'coqueluches' da cena Britpop, Blur (que abriam o festival juntamente com, entre outros, as 'riot grrrls' Veruca Salt, os metaleiros Anger, os indefiníveis Bizarra Locomotiva e a 'instituição' do pop-rock nacional, Entre Aspas) e aos Suede, que alinhavam ao lado de dEUS, Rio Grande, Cool Hipnoise ou Turbojunkie para proporcionar um dia de encerramento tão ecléctico como os dois anteriores, e com alinhamento não menos de luxo.

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O cartaz completo da edição inaugural do certame

De facto, essa primeira edição do Sudoeste estabeleceu, desde logo, uma característica que se estenderia à maioria, senão totalidade, dos festivais de Verão das décadas seguintes – nomeadamente, o facto de a organização ter assegurado que os pagantes tiravam o devido proveito do preço do bilhete, quer o mesmo fosse válido apenas para um dia, quer para dois ou até todos; quem esteve no Sudoeste '97 teve direito a três grandes cartazes - uma tendência que se manteria mesmo depois de o festival ser alargado para quatro dias, já no novo milénio, e que ajudaria a que o festival, e a localidade de São Teotónio, se tornassem num dos pontos de referência dos melómanos portugueses durante os meses de Verão durante o quarto de século seguinte, com que nem a pandemia de COVID-19 conseguiu acabar. Parabéns, Sudoeste – e que ainda contes muitos!

 

11.07.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Face ao sucesso que faziam, em finais dos anos 90, os grupos vocais e de dança constituídos por jovens bem-parecidos de ambos os sexos, não foi de admirar que Portugal quisesse 'entrar na onda' e produzir as suas próprias versões deste fenómeno para 'consumo interno'. Já aqui recordámos, numa edição anterior desta rubrica, as tentativas de fabricar uma 'boy-band' 'made in Portugal'; agora, chega a altura de lembrar aqueles que foram os principais representantes lusitanos do também mega-popular movimento Europop, os Santamaria.

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Oriundos de Santa Maria de Lamas (de onde, presume-se, terá vindo a inspiração para o nome) os integrantes do grupo juntaram-se pela primeira vez em 1997, quando os irmãos Marlene e António (Tony) Lemos se juntaram a Américo Marante e a duas bailarinas para formar um grupo cuja sonoridade ficava a meio caminho entre o referido som 'Europop'/'Eurodance', muito em voga na altura, e o não menos popular 'pimba' (ou não se tratasse de um grupo português) com o qual partilhavam espaço naqueles eternos escaparates de 'cassettes' e CD's omnipresentes em todas as tabacarias e bombas de gasolina do País à época.

O primeiro fruto desta união sai menos de um ano depois, em Março de 1998, e consegue desde logo vendas impressionantes, atingindo a marca de tripla platina, sobretudo à conta do single e tema-título 'Eu Sei, Tu És...', uma daquelas músicas que se infiltra na mente pelo mero acto de ler o título, e que continua a ser, ainda hoje, o principal 'cartão de visita' do grupo junto dos ouvintes mais 'casuais' e desatentos.

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O disco de estreia do grupo foi desde logo um sucesso de vendas

Por muito sucesso que a estreia tenha feito, no entanto, o segundo disco, 'Sem Limite' - lançado logo no ano seguinte - supera-a largamente em volume de vendas, logrando atingir a quádrupla platina, e estabelecendo os Santamaria como nome de respeito dentro do movimento 'Europop', conforme comprova o dueto com a dinamarquesa Whigfield (de 'Saturday Night') no tema 'Happy Maravilha'. O quinteto nortenho terminava, assim, em alta a década, século e milénio, dando o mote para o que se verificaria nos vintes anos seguintes.

E o que se verificou foi um sucesso continuado e extraordinário, com todos os discos do grupo na primeira década do novo milénio a atingirem, pelo menos, vendas de platina, com a maioria a dividir-se entre a dupla e tripla platina (o disco menos bem sucedido deste período foi '4 Dance', de 2002, que conseguiu ainda assim mover 40.000 unidades) e a banda a ver ser-lhe atribuído um Globo de Ouro (!) para 'Melhor Grupo', em 2001, bem como um prémio relativo à mesma distinção, atribuído pela Romântica FM, em 2009

E embora os anos 2010 não tenham sido tão favoráveis ao grupo como os dez anteriores, a carreira dos lamenses segue de vento em popa, mesmo após a morte do fundador Tony Lemos, em 2020. Logo a abrir a década, o grupo foi galardoado por vendas médias superiores a 50.000 unidades para cada um dos seus discos, e desde então, foram quatro os discos de originais lançados, datando o mais recente, 'Eterno', do ano transacto. Junte-se a este número uma mão-cheia de colectâneas e um conjunto de CD e DVD ao vivo comemorativo dos quinze anos da banda, e a única conclusão a que se pode chegar é que os Santamaria ainda estão para ficar na cena musical popular portuguesa; para muito boa gente, no entanto, o grupo será sempre, apenas, aquela banda que perpetuou um dos muitos hinos 'foleiros' das 'playlists' de rádio portuguesas de final dos anos 90...

 

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

02.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Como já aqui referimos numa edição passada desta rubrica, os anos 90 viram nascer e florescer o movimento rap e hip-hop português, que viria verdadeiramente a atingir o auge na década seguinte. Nessa segunda fase, os principais desenvolvimentos dar-se-iam a Norte do País, sobretudo no eixo Porto-Braga; no entanto, a primeira leva de artistas do estilo a verdadeiramente atingir fama nacional era oriunda,quase exclusivamente, da zona de Lisboa, de cujos subúrbios emergiam, à época, artistas como Boss AC, os pioneiros Black Company, e o nome de maior sucesso no género em Portugal, os incontornáveis Da Weasel.

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A formação clássica da banda

Formados na zona de Almada em 1993, e centrados em torno do MCs Pacman (hoje conhecido como Carlão), as 'doninhas' rapidamente se notabilizaram e destacaram dentro do movimento hip-hop nacional por, ao contrário da maioria dos seus pares, recorrerem a instrumentos reais, ao invés das habituais batidas programadas e 'samples'; de facto, apesar de contarem no seu alinhamento com um DJ de serviço, o grupo almadense incluía também um guitarrista, baixista e baterista, que ajudavam a criar um som bem distinto, mais próximo de bandas híbridas de rap e rock, como Cypress Hill, Public Enemy ou Body Count, do que do hip-hop tradicional. Aliado às letras realistas e socialmente engajadas de Pacman, este estilo único e diferenciado permitiu ao colectivo atingir um sucesso comercial quase imediato, com o primeiro álbum, 'Dou-lhe Com a Alma', de 1995, a conseguir uma boa recepção junto de um público particularmente receptivo ao rap e hip-hop, na sequência do êxito da pioneira compilação 'Rapública'. E não era caso para menos, visto tratar-se de um excelente registo, apoiado em temas tão fortes como a faixa-título ou a muito 'Public Enemy à portuguesa' 'Adivinha Quem Voltou'.

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O bem-sucedido álbum de estreia do grupo

Por muito auspiciosa que essa estreia tenha sido, no entanto, nada fazia prever o volume de vendas atingido pelo seu sucessor, '3º Capítulo', lançado dois anos depois (tendo o 'primeiro capítulo', nesta instância, sido o EP 'More Than 30 Motherf***ers', primeiro registo do grupo, lançado em 1994, e o único a contar com letras em inglês.)

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O segundo e mais conhecido álbum do grupo, lançado em 1997

O disco de 1997 via sair do grupo a vocalista de apoio Yen Sung, cujo lugar era preenchido por um segundo MC, Virgul – uma mudança que se viria a provar extremamente frutífera, vindo esse alinhamento a cimentar-se como a formação clássica da banda. O som, esse, aprimorava, refinava e aperfeiçoava a mistura entre as letras realistas e críticas de Pac e o som funk-jazz-rock criado pelos instrumentistas. Os singles 'Duia' – uma balada funk-jazz feita 'à medida' para a rádio – e 'Todagente' (uma faixa mais tipicamente Da Weasel) serviam de desculpa para a primeira digressão de sempre por parte do grupo, e ajudavam a impulsionar as vendas do álbum, que estabelecia definitivamente os Da Weasel como nome maior do hip-hop 'mainstream' português – estatuto, aliás, que o grupo manteria mesmo depois da chegada dos 'concorrentes' nortenhos, já em finais da década. Um álbum acústico gravado para a emissora Antena 3 e a participação de Pacman na compilação de Natal Espanta-Espíritos (cuja colaboração com Sérgio Godinho resultaria num dos temas mais 'fortes' do álbum, em todos os sentidos) apenas contribuiria para transformar as 'doninhas', ainda mais, na banda 'hip-hop' para as 'massas', num processo que alguns poderiam apelidar de 'sell-out'

Com o seu 'stock' ainda em alta tanto junto dos fãs de 'hip-hop' como do público 'radiofónico' (uma raridade em qualquer estilo musical) os Da Weasel lançavam, ainda antes do fim do milénio, o seu terceiro longa-duração, 'Iniciação a Uma Vida Banal – O Manual', um registo menos bem-sucedido comercialmente que o seu antecessor, mas ainda assim constituído por uma forte colecção de 'malhas', no estilo típico do grupo.

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O último álbum da fase 'imperial' do grupo saiu em 1999

A década seguinte trouxe ainda mais sucesso, mesmo depois da saída do membro-chave Armando Teixeira, em 2001; de facto, o álbum 'Re-Definições', de 2004 (primeiro sem o instrumentista e produtor) via a Doninha atingir o seu maior grau de sucesso e reconhecimento desde os tempos áureos de '3º Capítulo'. O anúncio de um hiato (em 2010, já depois do lançamento de um último álbum, em 2007) foi, por isso, surpreendente, podendo ter por base os conhecidos problemas de Pacman/Carlão com o abuso de substâncias.

Apesar de findo, no entanto, o grupo não foi, de todo, esquecido, como o comprovou a entusiástica reacção causada pelo anúncio de um concerto de reunião exclusivo, para o festival NOS Alive de 2020. O concerto, planeado para 11 de Julho daquele ano, acabou por ter que ser adiado devido à pandemia de COVID, mas a forte adesão ao mesmo por parte do público luso ajudou, pelo menos, a provar uma coisa – que quando, mais uma vez, a doninha decidir arrancar, pronta a estourar em 2025, com muita pinta e muito afinco, os seus velhos fãs de há duas décadas atrás lá estarão para os acolher de volta...

18.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa no estereótipo de uma estrela 'pop' ou de rádio, especialmente de sucesso entre o público jovem, tem-se sempre, quer se queira quer não, uma certa imagem em mente; e o mais provável é que a mesma não seja a de um trintão, com sentido de estllo duvidoso e visual algures entre Joe Satriani e Rob Halford, de voz rouca, e cuja música se enquadraria melhor no átrio de um clube de 'jazz' do que na aparelhagem ou 'walkman' de um adolescente.

E, no entanto, foi um músico com precisamente essas características o responsável por um dos maiores 'hits' radiofónicos em Portugal no início dos anos 90, tanto entre o público mais maduro como - mais significativamente - entre os jovens. Tratava-se de Pedro Machado Abrunhosa, um cantor e compositor portuense que - em conjunto com a sua banda de apoio, apelidada Bandemónio - conheceria inusitado sucesso durante um par de anos da referida década.

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Este homem parece-vos uma 'superstar' do pop-rock radiofónico? Pois...

Fruto da cena 'académica' da música portuguesa, com estudos e posterior leccionamento em vários institutos especializados da sua área de residência, Pedro Abrunhosa era já 'entradote' (na escala dos artistas 'pop', muito semelhante à dos jogadores de futebol) quando vê ser editado o disco de estreia dos Bandemónio, em 1994. No entanto, nem a idade avançada e aspecto de 'gajo normal' do vocalista, nem o estilo 'jazz' em modelo Tom Waits das composições da banda (elementos que, em condições normais, os remeteriam para uma categoria de nicho dentro do Mundo da música) foram impedimento ao sucesso imediato do grupo portuense, que viu não uma, não duas, não três, mas CINCO das músicas do disco ganharem tracção quase imediata nas rádios nacionais - ao tema de abertura, 'Não Posso Mais', seguiram-se a faixa diametralmente oposta no alinhamento, 'Tudo O Que Eu Te Dou', 'Socorro', 'Lua', e ainda 'É Preciso Ter Calma', sendo que esta última nem sequer havia sido lançada como 'single'! Nenhum destes temas soava remotamente como mais nada que tocasse nas rádios na altura, mas a verdade é que o seu sucesso catapultou o álbum para vendas de tripla platina e transformou, da noite para o dia, Pedro Abrunhosa de anónimo professor de música do Porto em nova sensação do pop-rock nacional.

É claro que, com um álbum de estreia de tamanho sucesso, seria fácil imaginar que Pedro Abrunhosa e os Bandemónio se ficariam pelo estatuto de 'one-hit wonder'; nada mais longe da verdade, no entanto. Pelo contrário, a lista de sucessos de Abrunhosa e companhia viu-se acrescida primeiro de um livro (!) e depois de 'Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar', tema do filme 'Adão e Eva' (também ele um sucesso) que soava exactamente como todos os outros 'singles' lançados pelo músico até então, e que talvez por isso tenha sido bem acolhido por quem já adorara 'Viagens'.

O sucesso desta música permitiu manter o perfil do artista elevado o suficiente para granjear a 'Tempo', o segundo álbum do músico, um sucesso ainda maior que o de 'Viagens' - mais de quatro anos após o seu período de relevância (e sem nada que sequer se aproximasse do sucesso dos 'singles' do primeiro disco) Abrunhosa e os renovados Bandemónio conseguiam ainda vendas de quádrupla platina, um verdadeiro testamento ao poder que o nome de um artista pode ter sobre os volumes de vendas de uma obra. Participações de Rui Veloso, Carlos do Carmo e da banda de Prince, a New Power Generation, garantem ao álbum aquela aura de 'obra séria', fazendo de 'Tempo' um digno sucessor da estrondosa estreia.

Como dizia George Harrison, no entanto, 'tudo o que é bom deve findar', e o virar do milénio representou o fim do 'lugar ao sol' de Abrunhosa em meio ao pop-rock radiofónico português; os trabalhos seguintes do músico já não granjearam a mesma atenção dos dois primeiros discos dos Bandemónio, relegando o 'jazzman' portuense não só para a categoria 'de nicho' a que normalmente teria sempre pertencido, mas também para a vasta lista de artistas (na qual se incluem também uns Silence 4 ou Santos e Pecadores) que, apesar de terem continuado a gravar regularmente novos materiais, desapareceram totalmente da consciência colectiva nacional. Ou antes - totalmente, não; existe, ainda, uma geração para quem uma simples 'mirada' ao título de um dos seus grandes êxitos evoca imediatamente uma memória, com mais de um quarto de século, de um refrão, cantado naquela voz roufenha e com o característico sotaque portuense. Apenas mais uma prova de que a influência de certos artistas na respectiva cena vai muito além da visibilidade e sucesso de vendas...

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