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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

11.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música bem-humorada e de índole cómica teve no Portugal das décadas entre 80 e 2000 um mercado que, embora talvez não particularmente significativo em termos numéricos, se apresentava ainda assim receptivo, sobretudo no que toca ao produto local. O caminho desbravado pelos pioneiros Ena Pá 2000 e Mata-Ratos, ainda nos 80s, viria a ser repetidamente trilhado ao longo das duas décadas seguintes, por nomes como Mercurioucromos, Fúria do Açúcar, Irmãos Catita (do mesmo mentor dos Ena Pá 2000) ou Adiafa, entre outros.

Em meio a toda esta produção ‘Made in Portugal’, cinco jovens brasileiros tentaram – e conseguiram – ter uma palavra a dizer, procurando replicar em Portugal o sucesso astronómico e meteórico que haviam conseguido entre o público jovem do seu país natal. E a verdade é que, não fora a intervenção completamente inesperada do destino, Dinho, Júlio Rasec, Bento Hiroshi e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli teriam muito provavelmente conseguido mesmo cumprir esse objectivo.

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Colectivamente conhecidos como Mamonas Assassinas, os cinco músicos conseguiram, entre o Verão de 1995 e o abrupto desfecho da sua história, pouco mais de um ano depois, pôr a juventude portuguesa a cantar com deleite e a plenos pulmões letras que mal compreendiam, com temas tão edificantes como as orgias sexuais frustradas (no ‘single’ e sucesso máximo ‘Vira-Vira’, uma sátira à música ‘pimba’ e de baile apreciada pelos emigrantes portugueses no Brasil) e o bom tratamento dos pelos genitais (na genial ‘Sabão Crá-Crá’, trinta segundos de canto ‘a capella’ com esquema rimático infantil, que talvez tivesse mesmo como intuito cativar e confundir, em partes iguais, a criançada.) Pelo meio, o quinteto ainda arranjava tempo para roubar instrumentais inteiros aos Clash (‘Chópis Centis’ mais não é do que o hino ‘Should I Stay Or Should I Go’, do grupo britânico, com letra diferente) e mostrar o seu lado mais sentimental, na balada ‘Pelados em Santos’. Em suma, um conjunto de músicas que mais se assemelhava a uma lista de sucessos, e que – para desprazer da maioria dos pais - não deixou de cativar o público infanto-juvenil português, como aliás já acontecera com o brasileiro.

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Uma das capas de álbum mais famosas e icónicas da década de 90 em Portugal

As razões para este sucesso são evidentes: do visual multi-colorido e extravagante à voz anasalada e caricatural de Dinho, passando pelas letras que vagamente se compreendiam ser ‘marotas’, os Mamonas pareciam feitos à medida para agradar a uma certa demografia. Não é, pois, de surpreender que tenha sido precisamente esse o caso, com o disco homónimo de estreia a ‘explodir’ no nosso país como já acontecera no Brasil, e os vários ‘singles’ do quinteto a dominarem as ondas de rádio durante todo um Verão. E, dado todo este sucesso, também não foi nenhum choque – antes pelo contrário – ver o grupo anunciar que a sua próxima digressão de promoção ao álbum os traria ao nosso país, em Março de 1996. O destino, no entanto, tinha outros planos…

A história é, já, por demais conhecida – os Mamonas viajavam para Portugal, a 2 de Março (precisamente para cumprir as datas acima mencionadas) quando problemas com o avião em que se encontravam o fizeram despenhar-se contra uma cordilheira de montanhas, matando instantaneamente todos quantos se encontravam a bordo da aeronave. Uma tragédia que abalou os dois países em que o grupo se havia estabelecido, resultando na perda de vidas jovens, talentosas, e ainda com muito para dar ao mundo da música, por muito (intencionalmente) parvas que essas contribuições pudessem ser…

A realidade dos factos, no entanto, faz com que o legado dos Mamonas (tanto em Portugal como no Brasil) se traduza tão-sómente num punhado de canções ainda hoje lembradas com carinho por quem as ouviu na idade certa, e na lembrança viva de um pico de sucesso tão intenso como curto. Mais uma prova (como se ainda fossem precisas mais) de que muitas vezes, o estilo de vida ‘rock’n’roll’ pode ser muito, mas mesmo muito ingrato…

 

27.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E se na última edição desta rubrica falámos de um ‘one-hit wonder’ português de meados dos anos 90, com músicas voltadas ao humor e cantadas na nossa própria língua, hoje, falaremos de outro, substancialmente mais conhecido e menos ‘esquecido’, e cujo único sucesso continua, ainda hoje, a marcar presença em certos contextos, seja dentro do espectro das artes criativas, seja como banda sonora de um qualquer evento de ar livre; e porque se vivem precisamente, neste altura, os últimos resquícios da maravilhosa estação estival portuguesa, nada melhor do que deixarmos que essa mesma banda nos recorde das muitas razões para apreciar essa época do ano.

Como já devem ter percebido, estamos a falar d’A Fúria do Açúcar, grupo musical e humorístico imortalizado na consciência colectiva portuguesa pelo hino estival ‘Eu Gosto É do Verão’, mas que pouco mais sucesso conseguiu atingir, apesar de celebrar este ano as suas três décadas (!) de carreira.

Formada em 1991 por três personalidades do circuito humorístico – entre elas o líder João Melo, mais tarde apresentador de um programa televisivo também voltado a este espectro – A Fúria do Açúcar começou por ser um projecto de estética café-concerto, intercalando números musicais com ‘sketches’ humorísticos. Não demorou muito, no entanto, para que este paradigma se alterasse, com o grupo a decidir enveredar por um caminho estritamente musical, cujo primeiro fruto foi o álbum homónimo de estreia, lançado em 1996.

No entanto, seria apenas com o seu segundo registo, ‘O Maravilhoso Mundo do Acrílico, lançado no ano seguinte, que o grupo de João Melo verdadeiramente penetraria na consciência popular – especificamente, através do segundo single retirado do álbum, uma faixa de índole sardónica cuja letra focava a comercialização em torno da época de Verão, e da idealização de que a mesma é alvo por parte da maioria dos seres humanos. No fundo, uma daquelas faixas que apenas aparenta ser ‘parva’, tendo na verdade um significado escondido, à espera de quem o queira encontrar; o problema foi que, em 1997, quase ninguém quis.

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A capa do álbum de consagração do grupo

De facto, a maioria daqueles que cantarolavam alegremente esta música no carro, na escola ou até em casa certamente não terá dedicado muito tempo a esmiuçar o significado da letra, prestando mais atenção à voz pateta-de-propósito de Melo ou à instrumentação bem ao estilo surf-rock, que tornava a música numa ‘malha’ bem pegajosa. O resultado inevitável desta tendência foi a percepção daquilo que se pretendia que fosse uma denúncia social como precisamente aquilo que aparentava (ou fingia) ser – uma música tola e descartável para consumo imediato. Pior, essa é ainda hoje a principal forma como a canção é abordada, tendo a vertente de crítica social vindo a ser cada vez mais ignorada – algo que, certamente, não deixará de frustrar os músicos da banda.

Também certamente frustrante será o facto de – apesar de, como resultado do seu sucesso. se ter tornado banda residente do programa apresentado pelo vocalista – o projecto Fúria do Açúcar nunca ter conseguido replicar o sucesso daquele ‘single’ de 1997. Apesar de contar já com seis discos (um dos quais lançado após um hiato de quase exactamente dez anos), a banda de João Melo continua a ser conhecida e recordada por uma, e apenas uma, música. Música essa que – diga-se em abono da verdade – continua a ser tocada nos mais diversos e variados contextos, o que não deixa de ser um feito para uma faixa cómica lançada há quase um quarto de século; ainda assim, não será descabido pensar que Melo e Cª teriam certamente preferido que essa mesma faixa tivesse feito menos sucesso, se tal significasse que o resto do seu repertório se tornaria mais conhecido…

Seja como for, a verdade é que o ‘one hit’ destes ‘one-hit wonders’ se tornou bem mais icónico e duradouro do que a maioria das músicas deste tipo, sendo ainda hoje um hino nostálgico para toda uma faixa demográfica que viveu os seus melhores anos nas décadas entre 1980 e 2000; candidato ideal, portanto, para inclusão nesta secção do nosso blog…

03.09.21

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 2 de Setembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Os anos 90 foram (em Portugal e não só) uma ‘época de ouro’ para o jornalismo especializado ou ‘de sector’. Fosse no campo dos jogos de computador e consola, desportivo ou (como veremos hoje) da música, poucos ‘hobbies’ e áreas de interesse havia que não tivessem pelo menos uma publicação a eles dedicada.

No caso da ‘cena’ musical, essa publicação era, sem qualquer margem para dúvidas, o jornal Blitz, uma espécie de ‘NME à portuguesa’ que – ali por meados da década que nos concerne – tinha popularidade suficiente para ditar opiniões no que tocava a novos lançamentos, tanto nacionais como internacionais.

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Inaugurado ainda na década de 80 – mais concretamente em 1984 – foi, no entanto, no decénio seguinte que esta publicação atingiu o auge da sua fama e popularidade, transformando-se em compra semanal (ainda mais) obrigatória para entusiastas de música de todas as idades, e espalhados um pouco por todo o país. Isto porque, para além de ser único e pioneiro na sua época, o Blitz não discriminava em termos musicais, oferecendo literalmente um pouco de tudo, desde o pop-rock ‘indie’ que fazia furor no ‘mainstream’ da altura até géneros mais de nicho, como o alternativo, o heavy metal ou a música de dança; melhor, qualquer que fosse o estilo abordado, os jornalistas da publicação mantinham-se, invariavelmente, imparciais. Ou seja, se fosse para falar bem, falava-se bem; mas se fosse para ‘bater’, ‘batia-se’ – e bem. Era esta atitude declaradamente imparcial, aliada a uma enorme qualidade jornalística em todas as frentes, que tornava o Blitz na referência que era para a juventude melómana dos anos 90.

Mais, o ‘universo’ da revista não se cingia apenas à música, estendendo-se também a áreas periféricas de interesse dos jovens, como a moda e a arte; havia, até, uma secção onde os leitores podiam dizer o que lhes ia na alma, sob a forma de ‘Pregões e Declarações’, muitas vezes de carácter alternativo ou até subversivo. Ou seja, uma publicação feita à medida do seu público, e que gozou, sem surpresas, do sucesso correspondente.

Claro que, como tudo o que faz sucesso em qualquer era da História, também o Blitz teve, durante aquela época, os seus imitadores – em particular, havia um jornal que imitava em tudo a publicação, desde o logotipo ao grafismo, mas cujo conteúdo ficava muito aquém dos altos padrões exibidos pelo Blitz. Sem qualquer surpresa, nenhum destes ‘seguidores’ atingiu alguma vez o estatuto de culto do original, e – ao contrário deste - todos foram rapidamente esquecidos pela juventude nacional.

O próprio Blitz se veria, com o passar dos anos e o evoluir da indústria, obrigado a mudar a sua abordagem editorial, primeiro através de uma relativamente inocente ‘lavagem de cara’ a nível gráfico, e depois de forma mais drástica, abandonando o formato que adoptara durante quase vinte anos e sofrendo uma ‘mudança de pronomes’ – de O Blitz, jornal, passava a A Blitz, revista.

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Exemplo do formato revista que a publicação apresentou no novo milénio

É  esta publicação (infelizmente, de cariz muito mais corriqueiro do que o seu antecessor) que se vai ainda encontrando (com cada vez menos frequência) nas bancas portuguesas, embora muito do seu actual âmbito se situe no universo digital. Para a memória fica aquela publicação física que, durante pelo menos duas décadas, moldou as opiniões sobre música de toda uma geração de amantes de música em Portugal – incluindo, suspeitamos, muitos dos leitores deste blog…

31.08.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquêela década.

Os anos 90 serviram de berço a muita e boa música, tanto a nível internacional como especificamente em Portugal – bastando, aliás, passar os olhos pela nossa secção quinzenal dedicada aos artistas musicais mais influentes da década no nosso país para perceber isso mesmo. No entanto, numa era pré-Internet (e todas as facilidades a ela inerentes) nem sempre era fácil ao jovem português comum manter-se a par do que de novo se ia fazendo no espectro do seu estilo preferido, fosse ele o pop-rock, o hip-hop, a dance music, o alternativo, ou até a música pimba.

Felizmente para os aficionados musicais da época, a RTP tinha a resposta para este dilema, sob a forma de um programa exclusiva e especificamente dedicado a passar em revista os ‘tops’ de vendas musicais, segundo as tabelas da Associação Fonográfica Portuguesa.

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Tratava-se do mítico ‘Top +’, um programa tão marcante para a juventude portuguesa como o ‘Templo dos Jogos’ ou o ‘Domingo Desportivo’, e que se inseria no mesmo segmento de emissões especializadas numa determinada área sócio-cultural (neste caso, a música, nos outros, os videojogos ou o desporto), e dirigida a um público-alvo com interesse específico na mesma. E, tal como aconteceu com os outros dois programas mencionados, a fórmula rendeu frutos quase imediatos, sendo o ‘Top +’ tão saudosamente lembrado como qualquer dos seus congéneres.

Transmitido com periodicidade semanal (sempre aos Sábados à tarde, pelas 14h00), dirigido pelo então intocável Carlos Cruz, e apresentado por Francisco Mendes e uma Isabel Figueira ainda longe da fama e das revistas cor-de-rosa, o ‘Top +’ não derivava por aí além do que se vinha fazendo no mesmo campo a nível internacional – aliás, antes da chegada da TV Cabo ao nosso país, aquela hora a seguir ao ‘Jornal da Tarde’ era o que um jovem ‘tuga’ tinha de mais aproximado a uma emissão da mítica MTV. Tal como nos programas exibidos naquele canal, os apresentadores do ‘Top +’ serviam, sobretudo, como elo de ligação entre os diversos segmentos daquilo que verdadeiramente interessava – a música, aqui (como na MTV) traduzida na emissão de ‘videoclips’ dos principais ‘campeões’ de vendas em território nacional.

Um conceito simples, mas de sucesso quase garantido, não tendo o ‘Top +’ sido excepção - no total foram uns impressionantes VINTE E DOIS ANOS no ar, desde o período analógico até ao dealbar da era do 4G, vinte e um dos quais com o mesmo formato (a partir de 2011, passaram também a ser mencionadas no programa as tabelas de vendas digitais, à medida que esta forma de aquisição de música ia ganhando força e presença no mercado.) Quando o programa foi descontinuado, em 2012, tinha o mesmo formato, a mesma duração, os mesmos apresentadores e até o mesmo horário de quando havia começado, em 1990, um feito nada menos do que histórico para qualquer emissão num meio tão volátil como o televisivo (ainda mais em Portugal) e uma prova cabal da relutância dos fãs de música em abandonar um formato que funciona – mesmo quando, como neste exemplo, este já se encontra mais que obsoleto…

A última emissão do Top +, de 2012, em tudo semelhante à primeira, exibida VINTE E DOIS anos antes

 

30.08.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos últimos posts desta mesma rubrica, temos vindo a falar de bandas que partem da tradição musical tanto portuguesa como internacional e a misturam com sons mais contemporâneos, como o rock. Hoje, damos uma espécie de ‘passo atrás’ nessa temática para falar de um grupo – ou melhor, um colectivo – de música popular portuguesa, no sentido mais estrito da palavra. Um grupo que, apesar de contar com nomes sonantes da área do pop rock feito em português, escolheu enveredar por um tipo de som bem mais tradicional, e conseguiu, ainda assim, obter considerável sucesso ‘mainstream’.

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Tratava-se do colectivo Rio Grande, um super-grupo ‘à portuguesa’ que juntava num mesmo espaço músicos do calibre de Jorge Palma, Vitorino, João Gil, Rui Veloso e Tim, este último o elo de ligação ao mundo do rock, e que decerto terá servido como ‘chamariz’ para muitos jovens em relação ao projecto.

O resto ficava por conta do grande ‘single’ de avanço ao único álbum do colectivo, e uma das músicas mais ‘cantaroladas’ nos pátios de recreio em 1996 – a mítica ‘Postal dos Correios’. (Se não estão a situar o título, é aquela que começa com ‘Querida Mãe, querido Pai, então que tal…’ )

...esta.

E o mínimo que se pode dizer é que os Rio Grande merecem todo o crédito por porem uma geração inteira a ouvir e cantar uma música que aborda temas com os quais eles próprios nunca tiveram contacto, pelo menos directo (no caso, a emigração, sobretudo dos meios rurais.)

Mas apesar de ter sido o grande sucesso do álbum – e, sejamos sinceros, também do colectivo – ‘Postal dos Correios’ não era a única música boa que os Rio Grande tinham para oferecer; pelo contrário, era mesmo das mais ‘fraquinhas’ de um disco que merece bem a escuta atenta a todos os seus temas, a começar por ‘A Fisga’ e ‘O Caçador da Adiça’ (o duo de abertura), e continuando com ‘Fui Às Sortes e Safei-Me’, ‘O Dia do Nó’, ‘O Sobescrito’, ‘Dia de Passeio’, entre outras, sempre com o elo em comum da temática popular e rural e do som baseado em guitarras acústicas, instrumentos tradicionais e harmonias vocais. Com uma personalidade bem vincada e temas, como já se referiu, de enorme qualidade e apuro musical e poético, não é, pois, de admirar que o disco tenha atingido quádrupla platina no seu ano de lançamento – uma marca invulgar a nível global, quanto mais em Portugal!

Infelizmente, o único outro sinal de vida dos Rio Grande viria na forma de um disco ao vivo, explicitamente intitulado ‘Dia de Concerto’ e lançado dois anos depois da estreia, e sem chegar sequer perto do mesmo nível de sucesso. Alguns anos depois, já no novo milénio, o grupo deixaria de contar com os préstimos de Vitorino, mudaria de nome para Cabeças no Ar, e lançaria outro excelente CD, repleto de ‘malhas’ algures entre o folclore dos Rio Grande e uma maior costela pop-rock.

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A capa do único CD dos Cabeças no Ar, grupo sucessor dos Rio Grande

Do grupo original, no entanto, restaria na memória colectiva da época (e das décadas seguintes) a imagem de Tim e companhia a tocar guitarra num autocarro em movimento, enquanto perguntavam pela saúde de diversos membros da família – o que, convenhamos, não é nem de longe a pior ‘herança’ deixada por um grupo musical português, especialmente durante os anos 90…

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