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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

18.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa no estereótipo de uma estrela 'pop' ou de rádio, especialmente de sucesso entre o público jovem, tem-se sempre, quer se queira quer não, uma certa imagem em mente; e o mais provável é que a mesma não seja a de um trintão, com sentido de estllo duvidoso e visual algures entre Joe Satriani e Rob Halford, de voz rouca, e cuja música se enquadraria melhor no átrio de um clube de 'jazz' do que na aparelhagem ou 'walkman' de um adolescente.

E, no entanto, foi um músico com precisamente essas características o responsável por um dos maiores 'hits' radiofónicos em Portugal no início dos anos 90, tanto entre o público mais maduro como - mais significativamente - entre os jovens. Tratava-se de Pedro Machado Abrunhosa, um cantor e compositor portuense que - em conjunto com a sua banda de apoio, apelidada Bandemónio - conheceria inusitado sucesso durante um par de anos da referida década.

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Este homem parece-vos uma 'superstar' do pop-rock radiofónico? Pois...

Fruto da cena 'académica' da música portuguesa, com estudos e posterior leccionamento em vários institutos especializados da sua área de residência, Pedro Abrunhosa era já 'entradote' (na escala dos artistas 'pop', muito semelhante à dos jogadores de futebol) quando vê ser editado o disco de estreia dos Bandemónio, em 1994. No entanto, nem a idade avançada e aspecto de 'gajo normal' do vocalista, nem o estilo 'jazz' em modelo Tom Waits das composições da banda (elementos que, em condições normais, os remeteriam para uma categoria de nicho dentro do Mundo da música) foram impedimento ao sucesso imediato do grupo portuense, que viu não uma, não duas, não três, mas CINCO das músicas do disco ganharem tracção quase imediata nas rádios nacionais - ao tema de abertura, 'Não Posso Mais', seguiram-se a faixa diametralmente oposta no alinhamento, 'Tudo O Que Eu Te Dou', 'Socorro', 'Lua', e ainda 'É Preciso Ter Calma', sendo que esta última nem sequer havia sido lançada como 'single'! Nenhum destes temas soava remotamente como mais nada que tocasse nas rádios na altura, mas a verdade é que o seu sucesso catapultou o álbum para vendas de tripla platina e transformou, da noite para o dia, Pedro Abrunhosa de anónimo professor de música do Porto em nova sensação do pop-rock nacional.

É claro que, com um álbum de estreia de tamanho sucesso, seria fácil imaginar que Pedro Abrunhosa e os Bandemónio se ficariam pelo estatuto de 'one-hit wonder'; nada mais longe da verdade, no entanto. Pelo contrário, a lista de sucessos de Abrunhosa e companhia viu-se acrescida primeiro de um livro (!) e depois de 'Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar', tema do filme 'Adão e Eva' (também ele um sucesso) que soava exactamente como todos os outros 'singles' lançados pelo músico até então, e que talvez por isso tenha sido bem acolhido por quem já adorara 'Viagens'.

O sucesso desta música permitiu manter o perfil do artista elevado o suficiente para granjear a 'Tempo', o segundo álbum do músico, um sucesso ainda maior que o de 'Viagens' - mais de quatro anos após o seu período de relevância (e sem nada que sequer se aproximasse do sucesso dos 'singles' do primeiro disco) Abrunhosa e os renovados Bandemónio conseguiam ainda vendas de quádrupla platina, um verdadeiro testamento ao poder que o nome de um artista pode ter sobre os volumes de vendas de uma obra. Participações de Rui Veloso, Carlos do Carmo e da banda de Prince, a New Power Generation, garantem ao álbum aquela aura de 'obra séria', fazendo de 'Tempo' um digno sucessor da estrondosa estreia.

Como dizia George Harrison, no entanto, 'tudo o que é bom deve findar', e o virar do milénio representou o fim do 'lugar ao sol' de Abrunhosa em meio ao pop-rock radiofónico português; os trabalhos seguintes do músico já não granjearam a mesma atenção dos dois primeiros discos dos Bandemónio, relegando o 'jazzman' portuense não só para a categoria 'de nicho' a que normalmente teria sempre pertencido, mas também para a vasta lista de artistas (na qual se incluem também uns Silence 4 ou Santos e Pecadores) que, apesar de terem continuado a gravar regularmente novos materiais, desapareceram totalmente da consciência colectiva nacional. Ou antes - totalmente, não; existe, ainda, uma geração para quem uma simples 'mirada' ao título de um dos seus grandes êxitos evoca imediatamente uma memória, com mais de um quarto de século, de um refrão, cantado naquela voz roufenha e com o característico sotaque portuense. Apenas mais uma prova de que a influência de certos artistas na respectiva cena vai muito além da visibilidade e sucesso de vendas...

04.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última edição desta rubrica, falámos de 'Jardins Proibidos', a omnipresente balada que catapultou Paulo Gonzo para o sucesso estratosférico não uma, mas duas vezes durante os anos 90; ora, a segunda versão dessa balada – aquela que muitas crianças e jovens da época terão passado mais de um ano a cantar a qualquer oportunidade – trazia o intérprete original em dueto com outra então mega-estrela do pop-rock 'meloso' nacional. É dele, e da respectiva banda, que falaremos esta semana.

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Formados numa garagem em Talaíde, concelho de Cascais, Lisboa, ainda na década de 80, os Santos & Pecadores – Olavo Bilac (voz), Artur Santos (baixo), Pascoal Simões (teclas), Pedro Cunha (bateria) e Rui Martins (metais) - tinham, inicialmente, uma proposta algo mais voltada para o rock de tendências 'funky'; no entanto, aquando da 'explosão' na década seguinte - após a participação do seu vocalista no projecto Resistência, um supergrupo português do qual um dia aqui falaremos - a banda (já reforçada pelo guitarrista Pedro Almeida) apresentava um som significativamente mais leve e ligeiro, assente numa base pop-rock bem típica do período, à qual se juntavam toques 'soul', sobretudo oriundos das emotivas interpretações vocais de Olavo Bilac, o tal comparsa de Paulo Gonzo na versão de 1998 do mega-hit deste último.

E o mínimo que se pode dizer é que esta abordagem rendeu dividendos – 'Onde Estás?', o álbum de estreia do grupo lançado em 1995, foi um sucesso de vendas, muito por conta do 'single' 'Não Voltarei a Ser Fiel' - ainda hoje a música mais conhecida do grupo, a par da mais tardia 'Fala-me de Amor' - e da participação (por alguma razão desconhecida) da apresentadora televisiva Catarina Furtado. Nascia mais uma estrela em ascensão no então incandescente universo pop-rock português.

A música que ajudou a popularizar o grupo

Com tal sucesso logo à partida, podia-se esperar que os Santos & Pecadores fossem 'sol de pouca dura'; o grupo conseguiu, no entanto, contrariar essas previsões, lançando um segundo álbum três anos depois ('Love', de 1998) e, daí, partindo para uma carreira que duraria até 2014 e renderia mais cinco álbuns de estúdio, dois ao vivo, e duas colectâneas – nada mau, para quem dava todo o ar de vir a ser apenas mais um nome a juntar à longa lista de  'one-hit wonders' noventista...!

Infelizmente, a história dos Santos não tem um final feliz; em 2020, a banda demarca-se do vocalista Bilac após este ter aceite o convite para actuar num comício do controverso partido português Chega!, e no ano seguinte, em Maio, o membro fundador Rui Martins, responsável pelos metais, morre vítima de acidente de trabalho, após cair de um telhado em Santarém. Juntos, estes dois factores terão ditado o fim definitivo dos Santos & Pecadores, um daqueles grupos icónicos e inescapáveis da música radiofónica portuguesa dos anos 90 que se verifica, com alguma surpresa, terem durado bem mais do que apenas aquele momento inicial...

21.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando amanheces

Logo no aaaaarrr

Se agita a luz, sem querer

E MESMO O DIA!

VEM DE-VA-GAR!

PA-RA-TE-VE-EEEERRR...

Quem, nos anos de 1992 ou 1997, não cantou estas mesmas palavras (ou outras aproximadas), com estes mesmos arroubos e ênfases, e numa voz pseudo-rouca a tentar imitar – e, ao mesmo tempo, gozar com - a do cantor original, está neste momento no blog errado, pois será quase de certeza demasiado velho ou demasiado novo para ter vivido o momento específico a que o mesmo se refere.

Os outros, aqueles que se lembram do quão enorme foi a música a que esta letra se refere, certamente já pararam de ler durante uns momentos para completar a sua rendição da mesma, com o 'exagerómetro' ainda mais declaradamente no máximo – a única maneira aceitável de se cantar esse clássico da radiofonia 'brega' noventista chamado 'Jardins Proibidos'.

Sim, esses mesmos – os que deram título a uma das primeiras grandes telenovelas 'made in Portugal', e que mesmo antes disso já haviam ganho um segundo fôlego derivado de uma re-gravação em formato de dueto, com o cantor original Paulo Gonzo a fazer parelha com Olavo Bilac, dos na altura não menos enormes Santos & Pecadores. É essa, aliás, a versão que a maioria das crianças em idade escolar na metade final dos 90's recordará, e terá parodiado vezes sem conta no pátio da escola – até por a mesma ter sido um dos temas mais tocados nas rádios portuguesas durante esse ano, tendo como único rival 'Dei-te Quase Tudo', tema interpretado por....Paulo Gonzo!

E já ren-di-do

Vê-te-che-gaaaaar

Nesse ou-tro mun-do

Só teu

Onde-eu-que-RIA!

En-trar-um-DIA!

P'RA ME PER-DE-EEEERRRRR...!

Sim, é justo dizer que, três anos antes do fim do Segundo Milénio, Alberto Ferreira Paulo (mais vulgarmente conhecido por uma alcunha inspirada nos Marretas, que acabou por virar nome artístico) era o nome maior da música popular portuguesa, pelo menos na vertente não-pimba - embora, em abono da verdade, o seu som fosse adjacente à vertente mais romântica desse género. Embora a sua carreira fosse já longa, e extremamente bem sucedida – o seu primeiro disco em português, onde se incluía a versão original de 'Jardins', havia já apresentado volumes de vendas impressionantes – foi com a segunda versão do seu grande 'hit', e o álbum a que servia de avanço, o quintuplatinado (!) 'Quase Tudo', que Paulo Gonzo adquiriu, verdadeiramente, o estatuto de celebridade da música portuguesa, atingindo aquele grau de popularidade que quase torna um artista num 'meme' de carne e osso. De facto, em 1997, ainda a mais de uma década da invenção do termo ou mesmo do advento da Internet 2.0, já Paulo Gonzo era um 'meme' – conhecido por todos, gozado por muitos, e icónico em diversos sectores da sociedade, embora por motivos distintos.

Mais surpreendente é perceber que a carreira do homem que muitos consideram uma das principais figuras da música romântica portuguesa de finais dos anos 90 já conhecera um primeiro pico de sucesso, ainda na década de 70, como integrante da Go Graal Blues Band, um seminal colectivo de...blues -rock!

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A Go Graal Blues Band. Paulo Gonzo é o primeiro à esquerda.

No total, foram quatro discos com a banda, antes de uma audição lhe render uma nova alcunha, e um novo rumo para a carreira – primeiro com letras em inglês e algumas re-interpretações de clássicos do 'soul' e R'n'B, e mais tarde com declarada propensão romântica e letras em português. Seria esta última fase que o posicionaria como figura de proa de um certo movimento musical português, granjeando-lhe desde prémios na cerimónia anual do conceituado jornal 'Blitz' até colaborações com Pedro Abrunhosa (outro 'gigante' de vendas da época) e, já no novo milénio, a honra de compôr o tema oficial de apoio à Selecção Portuguesa de futebol, em pleno pico do período hegemónico da Geração de Ouro. E embora muitos destes feitos tenham sido conseguidos antes, e independentemente, do sucesso de 'Jardins Proibidos', não há dúvida de que o referido tema ajudou a catapultar uma já honrosa carreira para um patamar totalmente diferente.

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Paulo Gonzo, na época do auge do sucesso

No novo milénio, e apesar de se manter tão activo como sempre, Paulo Gonzo perdeu muita da relevância que havia tido nos anos finais do século XX. À medida que 'Jardins Proibidos' se desvanecia da consciência popular, com o fim da novela, o artista lisboeta passou a ser apenas 'mais uma' das 'caras conhecidas' da música portuguesa, sem jamais ter recuperado o estatuto de verdadeira super-estrela de que gozou naquele período de alguns anos em que a sua música-estandarte era o tema mais ouvido nos lares médios portugueses. Para a geração que presenciou esse momento cultural, no entanto, haverá sempre uma determinada melodia e conjunto de palavras que desencadearão, infalivelmente, uma torrente de memórias, e um reflexo condicionado – o de entoar a plenos pulmões, com voz rouca e pseudo-torturada e muitos esgares faciais, o resto da malfadada letra.

P'RA ME PER-DERRRR

NE-SSES RE-CAN-TOOOOS

ON-DE TU AN-DAS, SO-ZI-NHA. SEM MIM!

ARDO EM CIÚ-ME

NESSE JARDIIIIIIM...

07.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A ideia de apropriar uma obra musical a uma determinada demografia não é, de todo, nova, sendo incontáveis os 'hits' pop que, através dos tempos, foram alvo de versões em outros estilos ou até outras línguas, de forma a penetrarem num mercado até então inacessível.

No Portugal dos anos 90, esta tendência adquiriu, ainda, outra variante, nomeadamente, a adaptação desses mesmos 'hits' pop a um contexto infanto-juvenil, transmitido por artistas pertencentes à mesma faixa etária e demográfica do seu público-alvo. Sim, uma década antes de os americanos terem a ideia para a série 'Kidz Bop', já o nosso cantinho à beira-mar plantado via surgirem e entrarem em competição directa nos escaparates infanto-juvenis, não um, mas DOIS conjuntos de cantores em idade escolar, ambos com o mesmo conceito-base de adaptar músicas populares entre os adultos para permitir às crianças perceber e identificarem-se com o que estavam a ouvir (caso ainda não se tenham apercebido, os anos 90 foram uma MUITO boa época para se ser criança.)

Escusado será dizer que, mal conseguiram estabelecer-se no mercado fonográfico português (o que não deixa, só por si, de ser uma façanha) estes dois grupos iniciaram, de imediato, carreiras em tudo paralelas, estabelecendo uma rivalidade que, durante um período de cerca de dez anos, os veria avançar sempre 'taco-a-taco', tanto em termos de produção como de popularidade. O resultado, quase inevitável, saldou-se numa tal proximidade entre estes dois grupos na mente do seu público-alvo que, quando hoje se recorda o movimento de infantilização de 'hits' pop dos anos 90, é impossível mencionar o nome de um destes dois grupos sem, imediatamente a seguir, nomear o segundo - quem se lembra dos Onda Choc também se lembra dos Ministars, e vice-versa (já dos Starkids, Arte 9, Babyrock, Popeline ou Ultimatum, já não se pode dizer o mesmo...)

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Destes dois grupos, o primeiro a ser concebido foram mesmo os Onda Choc, uma criação de Ana Faria e Heduíno Gomes, um casal de produtores e compositores que já haviam conseguido um sucesso considerável ao gravar músicas na companhia dos seus filhos, sob a denominação Queijinhos Frescos. Nestes, Ana Faria ainda tomava conta das vozes: já nos Onda Choc, essa tarefa era deixada totalmente à responsabilidade dos jovens vocalistas, entre os quais se contavam os três ex-Queijinhos Frescos, filhos do casal. A experiência durou mesmo quase até ao final do milénio, e rendeu vários discos de enorme sucesso, e ainda hoje saudosamente recordados por toda uma geração.

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Já os rivais Ministars nasciam no seio do Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras (conhecidos por 'A Todos Um Bom Natal', A canção de Natal portuguesa por excelência) pela mão do maestro César Batalha, autor de outra música inescapável no contexto infantil da época, o 'Eu Vi Um Sapo' de Maria Armanda. Formados em 1986, o grupo passaria, tal como os rivais, por diversas permutações de alinhamento à medida que diferentes membros iam envelhecendo. Em 1994, após terem visto vários dos seus discos ser sucessos de vendas - tendo o de estreia atingido a marca da platina – mudaram de nome para Starkids e, sem as facilidades de divulgação existentes na sociedade actual, os jovens fãs perderam-lhes rapidamente o rasto, tendo o grupo desaparecido de cena pouco depois.

Os 'hits', esses, foram mais que muitos para ambos os grupos, alguns ainda hoje recordados por quem os ouviu à época – caso de 'Ele É O Rei', (versão da então mega-popular 'What's Up?', das 4 Non Blondes, outro grupo que paulatinamente surgirá nestas páginas) 'Ela Só Quer, Só Pensa em Namorar' ou o mítico 'Biquini Pequenino às Bolinhas Amarelas', que muitos dos que cresceram naquela geração potencialmente não saberão tratar-se de uma música real, lançada nos anos 60! O conceito dos dois grupos provou ser extremamente apelativo entre o público mais jovem, e o sucesso de que ambos gozaram permitiu a alguns dos seus mais talentosos elementos evoluir para carreiras na música 'adulta', em estilos tão díspares quanto o pop-rock (uma das integrantes dos Onda Choc liderou mais tarde os Amor Electro, enquanto que outra, Suzy, representou Portugal no Festival Eurovisão de 2014) ou a música 'pimba' (outra das meninas vocalistas do grupo de Faria e Gomes era uma tal de Micaela...)

Tal foi o sucesso destes grupos que, inevitavelmente, vários outros tentaram surgir na sua senda, por vezes provenientes, precisamente, dos mesmos criadores, como os Popeline - uma espécie de 'equipa de reservas' dos Onda Choc - ou os Ultimatum, que adaptavam músicas mais 'roqueiras' e com instrumentos reais. Algumas destas bandas propunham uma variação sobre o conceito-base de adaptação de músicas (os Arte 9, por exemplo, faziam 'covers' directas, sem quaisquer alterações, apenas cantadas por crianças) e houve mesmo quem chegasse a ver o seu disco produzido por um nome sonante da música popular portuguesa, como foi o caso dos Babyrock com Emanuel; no entanto, apesar do potencial que exibiam, todas estas ideias acabaram por 'cair em saco roto', parecendo o público infantil contentar-se com apenas dois grupos dedicados a este conceito.

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Os Starkids, uma continuação falhada dos Ministars

O próximo caso de sucesso para um grupo composto exclusivamente por jovens em idade escolar pertenceria, portanto, aos Milénio, já no fim do dito-cujo, e numa vertente e cena musical significativamente diferentes; quanto aos Onda Choc e Ministars, o seu legado viveria para sempre nas memórias de toda uma geração, para quem as capas dos discos dos dois grupos são indissociáveis de uma certa janela temporal na sua infância, em que a vida em geral parecia muito mais feliz e fácil, e em que muitas vezes apetecia cantar versões em português, e com letras adaptadas, das músicas famosas que passavam na rádio...

 

24.01.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na década de 90, ser apresentador de programas infantis equivalia, praticamente, a ter o estatuto de celebridade entre a faixa mais nova da população. Dos apresentadores do Clube Disney a nomes icónicos como Ana Malhoa ou Carlos Alberto Moniz, passando pelo elenco da Rua Sésamo ou (mais tarde) pelo palhaço Batatinha, os anfitriões das horas dedicadas à criançada atraíam, muitas vezes, audiências por si só, com o seu carisma e entusiasmo quanto à tarefa de apresentar desenhos animados ou convidados musicais, ou servir de árbitro a jogos.

Este estatuto fazia, naturalmente, com que o referido público se mostrasse, à partida, predisposto a adquirir todo e qualquer produto directamente relacionado com os referidos nomes – em particular, no tocante a registos fonográficos. Das 'Canções da Rua Sésamo' ao disco de Ana Malhoa e Hadrianno ou o primeiro CD de músicas do Batatoon, são inúmeros os exemplos de lançamentos que não deveriam ter resultado, mas que acabaram por se revelar sucessos de vendas.

A esta lista, há que adicionar uma obra menos 'mediática', mas não menos recordada por quem era da idade certa em inícios de 90: 'As Canções do Lecas', o primeiro e único registo discográfico do então mega-popular personagem infantil criado e interpretado por José Jorge Duarte.

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À semelhança dos registos anteriormente mencionados, 'As Canções do Lecas' consiste de doze canções (seis por lado do disco de vinil) de pop-rock dançável, típico da época, com temas relevantes para a faixa etária a que se destinava (como os factos sobre animais, a segurança rodoviária, ou simplesmente uma lista-rol de referências aos mais populares heróis de ficção e banda desenhada da época) e refrões orelhudos trauteados por Lecas na sua voz nasalada, com a ajuda de um coro infantil.

E aqui, há que ressalvar que – ao contrário da maioria dos registos contemporâneos do estilo – quem canta aqui é mesmo Lecas (o personagem de mentalidade infantil que apresentava a popular 'Hora do Lecas' na RTP) e não o seu criador; à semelhança da dupla Batatinha e Companhia alguns anos mais tarde, José Jorge Duarte veste o personagem durante toda a duração do álbum, tanto nas letras como na própria interpretação dos temas. A diferença é que, ao contrário do que acontecia com o CD do Batatoon, estes temas são todos originais, não havendo lugar a quaisquer adaptações de temas 'sacados' a programas infantis de outros países.

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O alinhamento de músicas do álbum

O resultado, diga-se de passagem, salda-se por extremamente positivo, mesmo de uma perspectiva adulta; este é daqueles discos que leva a sério e trata com respeito o seu público-alvo, e como tal, pode ser apreciado como obra musical por direito próprio, ao invés de mero artigo de 'marketing' ligado a uma propriedade intelectual popular.

Infelizmente, e apesar da sua qualidade, este registo não goza, hoje em dia, da popularidade ou volume nostálgico de qualquer dos discos citados acima, tendo um estatuto mais 'de culto' entre quem era fã do programa e da idade certa para o apreciar; uma pena, visto tratar-se de um registo que, como o grupo atrás mencionado certamente atestará, era merecedor de bem maia reconhecimento...

 

 

11.01.22

NOTA: Este post diz respeito a Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música popular ou de baile portuguesa - vulgo 'música pimba' - teve nos anos 90 um dos seus períodos mais áureos. Isto porque, embora este tipo de música nunca perca verdadeiramente popularidade, foi nos anos 90 que se verificou a maior infiltração dos artistas e 'malhas' 'pimba' na consciência popular como um todo. Da música que deu nome ao género, da autoria de Emanuel, aos 'hinos' de Quim Barreiros e aos desafinanços de Zé Cabra, passando por 'hits' recuperados de artistas como Marco Paulo, Ágata ou José Malhoa, e até contribuições da nova geração do estilo, como o Bacalhau de Saul Ricardo ou o abecedário de Ana Malhoa, eram tantos e tão variados os exemplos de músicas do estilo no seio da cultura popular portuguesa que até o mais distraído desconhecedor de música contemporânea saberia, decerto, cantarolar pelo menos um par de temas do género.

Toda esta popularidade levou, como não podia deixar de ser, a que surgisse toda uma nova vaga de artistas populares com material prontinho a gravar e adicionar ao filão, antes que este secasse; e escusado será dizer que muitos deles tiveram, precisamente, o grau de sucesso por que esperavam, deixando também eles a sua marca na cultura popular da época - basta lembrarmo-nos dos Excesso, por exemplo.

Um destes nomes, e talvez o maior responsável por ter apresentado a música 'pimba' a milhares de crianças e jovens, em meados dos anos 90, foi um DJ e radialista brasileiro radicado em Portugal, o qual, no Verão de 1995, conseguiu 'explodir' na cena musical popular portuguesa com uma versão de um tema que já havia sido um sucesso no Brasil, embora então na voz de outro artista.

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O seu nome? Iran Costa, o 'cabeludo' brasileiro imortalizado como uma figura com dez metros de altura, debruçando-se qual Godzilla em 'greenscreen' sobre a cidade de Lisboa e alguns dos seus monumentos e locais mais marcantes, não para os destruir à patada, mas para realizar uma dança vagamente ridícula enquanto cantava um refrão daqueles tão 'pegajosos' que quem o ouviu na altura certamente ainda o sabe de cor até hoje.

Acima: o videoclip mais 90s de todos os tempos. Digno de um projecto de TIC do 10º ano...

Sim, falamos de 'O Bicho', o primeiro (e maior) de três mega-sucessos que o cantor conseguiria em terras lusitanas até ao final da década, e responsável máximo por cimentar o seu nome entre a criançada portuguesa. Quem tinha idade suficiente no Verão de 1995 para participar de 'febres' infanto-juvenis concerteza se lembrará de que não havia pátio de escola ou actividade extra-curricular em que alguém não ensaiasse algumas estrofes do refrão desta música, invariavelmente acompanhadas do seu melhor esforço em replicar os 'espasmos' de Iran no lendário vídeo partilhado acima. 'O Bicho' foi uma daquelas músicas que transcendeu o seu estatuto como obra musical e se tornou num fenómeno cultural, um daqueles 'memes' anteriores ao próprio conceito de 'memes' - e, como tal, alvo inevitável das atenções de uma geração sempre à procura de algo 'peganhento', cativante e passível de ser explorado, referenciado e repetido até ao limiar da irritação alheia.

Longe de adquirir o estatuto de 'one-hit wonder' comum à maioria dos criadores deste tipo de tema semi-cómico e parodiável, no entanto, Iran soube explorar a fama obtida por 'O Bicho', tendo utilizado a sua notoriedade no mundo musical português de finais de 90 para trazer para Portugal novas versões de uma série de sucessos 'made in Brasil', entre os quais se contava o seu segundo 'hit' em território nacional, 'É O Tchan' - uma música originalmente composta e gravada pelo grupo do mesmo nome, mas que, em Portugal, é quase sinónima com o cantor brasileiro.

Já em 1998, uns impressionantes três anos após os seu auge memético, o ex-radialista adicionaria ainda um terceiro sucesso à sua lista, na forma da irresistível 'Pimpolho', uma espécie de versão luso-brasileira dos temas com que, à época, faziam sucesso bandas como Vengaboys e Aqua (as quais, aliás, paulatinamente aqui revisitaremos em mais detalhe).

Hoje em dia, Iran Costa continua por aí, na activa - embora já, claro, sem a exposição e notoriedade de que gozava naqueles anos 90. Ainda assim, apesar de a sua presença mediática se ter consideravelmente dissipado desde os seus tempos áureos, a influência que o DJ, radialista e cantor brasileiro teve em toda uma geração de crianças e jovens foi inegável, como prova o facto de que dificilmente terá havido quem, ao ler este post e clicar nos vídeos que nele fomos partilhando, não tenha dado por si a cantarolar pelo menos um dos refrões - e quem sabe, desenterrado uns quantos passos de dança 'malaicos' da sua infância para acompanhar a 'performance'...

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

18.12.21

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021.

NOTA: Os posts desta Sexta e da próxima Segunda-feira foram intencionalmente trocados, por razões que esclareceremos dia 20. Assim, neste post falaremos de música, ficando os filmes para o post de segunda.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas (e ocasionalmente às sextas), exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos países anglófonos, a música de Natal é uma verdadeira indústria, que subsiste há décadas às costas dos mesmos dez ou quinze 'clássicos' (Mariah Carey, Live Aid, Slade, Elton John, Wham!, Kylie Minogue e quejandos) que revende, ano após ano, a um público que nunca parece cansar-se deles. E embora sejam muito poucos os países que sequer tentam emular esta fórmula, a maioria tem as suas próprias 'concorrentes' neste campo, ainda que não na quantidade produzida pelos EUA ou o Reino Unido.

Portugal não é excepção neste campo, sendo que a principal música que quase define esta época no nosso país é a já mitica 'A Todos Um Bom Natal', na interpretação do Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras, música tão omnipresente que a epoca natalícia nacional não parece começar verdadeiramente até a ouvirmos como música de fundo de um qualquer anúncio, ou da ida semanal ao supermercado; no entanto, nos anos 90, foi feita uma tentativa declarada de desafiar a hegemonia desta faixa, por parte de um grupo de artistas do mundo da pop - no fundo, uma espécie de 'Christmas Tree Farm' à portuguesa, alguns anos antes de sequer se ter ouvido falar de Taylor Swift.

O grupo em causa eram os Anjos, o duo de irmãos que, a par dos Milénio, se afirmou como digno sucessor dos pioneiros Excesso e D'Arrasar no trono das 'boy bands' à portuguesa (e no coração das adolescentes nacionais); a música, gravada em 1999, no auge do sucesso do grupo, chamou-se 'Nesta Noite Branca', e juntou os irmãos Nélson e Sérgio Rosado à cantora Susana, num tema que reveste a típica sonoridade 'boyband-pop-pimba' do duo de alguns motivos mais natalícios - uma escolha estilística bastante comum neste tipo de composição, e que serve como identificador para o facto de que se trata de uma música de Natal.

O resultado final soa como uma espécie de mistura entre o 'Last Christmas' dos Wham! (muito por conta da melodia vocal em tom delico-doce dos dois irmãos, bastante próxima da que George Michael e Andrew Ridgeley usaram para esse tema) e uma qualquer faixa instrumental de acompanhamento dos Backstreet Boys, com os exercicios vocais de Susana a darem aquele 'toque Mariah Carey' que nunca pode faltar em músicas de Natal. Ou seja, a faixa reúnia todos os argumentos para se tornar num clássico dos Natais portugueses das décadas subsequentes - algo que, como sabemos hoje em dia, acabou por nunca acontecer.

A razão para 'Nesta Noite Branca' não ter vingado enquanto clássico de Natal 'cheesy' nunca ficou cem por cento clara - talvez a composição simplesmente não fosse forte o suficiente (que não é), ou talvez o facto de ter sido gravada por um grupo com 'prazo de validade' limitado tenha acabado por a condenar ao esquecimento. Seja qual for o motivo para o falhanço comercial e cultural da música, no entanto, o mesmo não pode ser negado - tanto assim que, para sequer saber da existência desta música uns meros 22 anos depois de a mesma ter sido gravada, é preciso recorrer a um post único num blog nostálgico que gosta de 'desenterrar' perolazinhas 'de época' destas (à laia de comparação, 'Last Christmas' completa este Natal 37 anos, 'Merry Xmas Everyone' tem mais quatro, 'All I Want For Christmas Is You' menos dez, e a maioria das outras faixas 'perenes' da época natalícia leva já quase sete décadas de rotação constante nesta época do ano!)

Ainda assim, se a música dos Anjos teve algo de positivo, foi o facto de provar que, sim, em Portugal também se sabem escrever canções de Natal que não apenas 'A Todos...'; pena, pois, que a única composição 'pop' a ousar aventurar-se nesse mercado durante várias décadas tenha sido um tema bubblegum-pop fraquinho, gravado por um grupo descartável e sem refrão que se (ou)visse...

22.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O povo português vem tendo, ao longo dos tempos, uma relação estreita com a música brasileira, talvez pelo idioma partilhado entre os dois países, e que transforma Portugal num dos principais mercados para os diversos géneros e estilos saídos do país-irmão. Não só os discos e músicas de artistas brasileiros vendem bem no nosso país, como a própria música popular portuguesa (vulgo 'música pimba') se apropria livremente de estruturas, letras e até melodias de estilos como o forró e o sertanejo, demonstrando assim cabalmente a influência que o produto musical de terras de Vera Cruz tem no lusitano.

Nos anos 90 e 2000 não era, no entanto, preciso ir tão longe para demonstrar este argumento – bastava olhar para as tabelas de vendas e 'playlists' radiofónicas para perceber o impacto que os artistas populares brasileiros tinham entre o público consumidor português. De Roberto Leal aos Mamonas Assassinas, e de Iran Costa a (mais tarde) Ivete Sangalo, passando por Salsicha e Mário Jorge, eram inúmeros os nomes que conseguiam atravessar o oceano e fazer tanto (ou mais!) sucesso do lado 'de cá' do que no seu próprio país de origem. 

A esta lista há que acrescentar, ainda, um cantor que tomou de assalto as tabelas de 'hits' nacionais nos anos finais da década, com uma música gravada ao vivo, e pôs toda a gente – e particularmente as crianças e jovens – a exortar os amigos para 'tirar o pé do chão'.

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O cantor, já numa fase posterior da carreira

Falamos de Ernesto de Souza Andrade Júnior, habitualmente conhecido como Netinho, cantor popular de longa e respeitada carreira no seu país-natal – as suas músicas são presença habitual em bandas-sonoras de novelas, e chegou a participar num tributo a Caetano Veloso – mas que em Portugal é conhecido, sobretudo por duas coisas: ser o autor de 'Milla', um dos maiores 'hits' pop-brega dos anos 90, e ter posto oitenta mil pessoas (!) a saltar em pleno Parque das Nações, aquando do seu concerto durante as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, já após o virar do milénio, vários anos depois de o momento de 'Milla' ter passado. Prova cabal de que o seu maior sucesso tinha 'pernas', embora também indicativa de que, pelo menos em Portugal, essa obra de Netinho ofusca totalmente o próprio autor.

As razões para o estrondoso sucesso de 'Milla' não são difíceis de explicar. Não só Netinho era presença assídua nos famosos expositores de CD's e cassettes tipicamente encontrados em tabacarias e estações de serviço, como a própria música em si é irresistivelmente viciante, com um daqueles refrões (aliás, uma daquelas LETRAS) que se alojam na memória para toda a eternidade, e tornada ainda mais eficaz pela energia electrizante da 'performance' e do público, que extravasa as colunas e convida, inapelavelmente, a dar um 'passinho de dança', onde quer que se esteja. É 'foleira'? Claro que sim. Mas é também divertida, enérgica, e de uma sinceridade desarmante, que impede a existência de má-vontade e a ajudour a tornar um dos principais hinos 'pop-pimba' da década de 90.

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O CD de onde a música é tirada marcava presença assidua nos expositores de 'cassettes' e CD's daquele tempo

Quanto ao seu autor, merecia mais? Claro. Ao contrário de muitos dos seus colegas de movimento, Netinho era um músico 'à séria', com raízes na MPB e bossa nova; e a verdade é que, no seu país natal, o cantor conseguiu fazer valer essas credenciais. Em Portugal, no entanto. Ernesto de Souza Andrade Júnior terá, para sempre, de se contentar com o estatuto de 'one-hit wonder' – que, convenhamos, também não é a pior coisa do Mundo para se ser, especialmente se o nosso 'one hit' for uma 'malha' tão enérgica e irresistível como 'Milla'.

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