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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.06.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E depois de na última edição desta rubrica termos falado de Laura Pausini, chega hoje a vez de abordarmos aquele que foi o outro grande nome da 'mini-invasão italiana' dos tops musicais portugueses em inícios de 90, um seu contemporâneo com quem Laura chegou a gravar um dueto: Eros Ramazzotti.

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Nascido na capital italiana a 28 de Outubro de 1963, Eros Walter Luciano Ramazzotti viria a ter o seu primeiro encontro com o sucesso ainda adolescente, já depois de ter sido rejeitado pelo Conservatório de Roma e de ter composto várias canções em parceria com o seu pai; no caso, a grande oportunidade do jovem chegaria através de um concurso musical, 'Vuoci Novi di Castrocaro', vencido por Zucchero (outro nome que chegaria a ter algum impacto em Portugal) mas no qual Eros deixaria uma impressão suficientemente positiva para que um dos juízes lhe oferecesse o primeiro contrato discográfico. Corria o ano de 1981, e Eros mudava-se para Milão com o irmão e a mãe, para viver no próprio prédio da editora que o assinara.

O sucesso, no entanto, tardou a chegar, tendo o primeiro single, de 1982, sido virtualmente ignorado pelo meio discográfico italiano; só depois de um encontro com o seu futuro mentor, Renato Briochi, é que a carreira do jovem principiaria a descolar, com duas participações consecutivas no Festival de San Remo, em 1983 e 1984, a suscitarem algum interesse no seu álbum de estreia, que conheceu sucesso não só em Itália, mas também em França, onde chegou a vender um milhão de cópias. Os dois álbuns seguintes, de 1986 e 87, seguiriam a mesma tónica, atingindo vendas de Platina na Suíça (parte da qual, recorde-se, tem como idioma o italiano) e de Ouro na Alemanha. Os anos 80 concluem-se com um dueto com Patsy Kensit e um mini-EP, lançado em 1988.

A década seguinte prossegue na mesma toada, com mais um CD de enorme sucesso internacional, em 1990, que vale a Eros um concerto no Radio City Music Hall nova-iorquino, e participações no programa de Jay Leno e em 'Good Morning America'. Era o início do sucesso internacional, que se viria a consumar dois anos depois, com o lançamento de 'Tutti Stori' (cujo grafismo de capa recorda aliás, e muito, o álbum de estreia de Laura Pausini); de súbito, Eros Ramazzotti, um veterano com doze anos de experiência na indústria musical e prestes a completar trinta anos de idade, atingia vendas de Platina pela Europa fora, fazia a capa de revistas como a portuguesa Super Jovem, e encontrava espaço nas paredes de 'posters' das mesmas jovens que, na altura, cantarolavam a 'Solitudine' da compatriota Laura,

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'Tutti Storie', de 1993, foi o álbum de consagração internacional de Ramazzotti

Tal sucesso despertou a atenção da multinacional BMG, que, no ano seguinte, oferecia um contrato ao italiano, o qual lhe abria a porta para uma turnê com Elton John, Rod Stewart e Joe Cocker, no Verão de 1995. Os álbuns, esses, continuavam a surgir a bom ritmo, agora com a participação de ilustres do calibre de Andrea Bocelli e Tina Turner, ambos os quais surgem em versões regravadas de músicas do cantor, incluídas na sua primeira colectânea de êxitos, lançada em 1997 e que atingiria vendas de quíntupla platina; Turner viria também, aliás, a participar do álbum ao vivo lançado no ano seguinte, e que também trazia o contributo de Joe Cocker. No mesmo ano, Ramazzotti grava novo dueto com Andrea Boccelli, desta vez para inclusão no disco deste último, e ganha pela segunda vez consecutiva o prémio Echo - um importante galardão da indústria fonográfica alemã – na categoria de 'Melhor Artista Masculino Internacional'; uma prova cabal de que o italiano era mais do que apenas outra 'cara bonita' a cantar baladas românticas.

Essa impressão ficou, aliás, cimentada no novo milénio, que viu a carreira de Ramazzotti como compositor, intérprete e produtor seguir de vento em popa, com mais sete álbuns de originais, uma colectânea dupla, e colaborações com artistas de todos os quadrantes musicais, de Joe Satriani a Nicole Scherzinger, passando pelo compatriota Jovanotti e pela inevitável Laura Pausini; as vendas, essas, contabilizam-se em mais de 55 milhões, numa carreira que ultrapassa já as três décadas e meia – uma marca nada menos que impressionante.

Para os ex-jovens portugueses de finais do século XX, no entanto, Eros Ramazzotti continuará, provavelmente, a ser aquele 'menino bonito' de olhos azuis que cantava músicas românticas e fazia capa nas revistas 'da moda' – apesar de ser bem possível que, pelo menos para uma parcela dos mesmos, a música do italiano os tenha acompanhado até à idade adulta; de facto, a julgar pelos volumes de vendas que Ramazzotti continua, em plena era digital, a conseguir, essa hipótese não é, de todo, descabida...

04.06.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Após vários anos de obsolescência lenta, mas ainda assim óbvia para quem estivesse atento, o inevitável acabou mesmo, nestes últimos anos, por acontecer: o formato CD tornou-se obsoleto. O inovador e aparentemente perene substituto do disco de vinil, símbolo máximo do amor de toda uma geração pela música (tal como o vinil o havia sido para a geração anterior) vê-se, hoje em dia, substituído a larga escala pelo ubíquo formato 'streaming', sendo já poucos os artistas que se preocupam em lançar os seus novos trabalhos em CD, optando a maioria por pô-los directamente no YouTube, iTunes e Spotify, e deixar que sejam as tournées a render os esperados dividendos.

Por muito sentido que faça nos tempos que correm, no entanto (e faz) este método continua a 'ficar atravessado na garganta' à geração que cresceu rodeada de dezenas de CDs, e para quem um sítio era, acima de todos os outros, local de romaria (no mínimo) semanal: as lojas de discos.

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Para um melómano, esta era uma visão do paraíso - ou, pelo menos, uma garantia de uma tarde bem passada

No mínimo tão emblemáticas das décadas de 80 e 90 como os videoclubes ou os salões de jogos, as discotecas - não as da noite, de que eventualmente aqui falaremos, mas as de vendas de CDs – surgiam, em Portugal, em dois grandes tipos: por um lado, os 'franchises' - de que eram exemplo máximo a Valentim de Carvalho e a 'resistente' Fnac, e que incluíam ainda a saudosa Bimotor (ainda em actividade, acredite-se ou não!) e a Virgin Megastore, em Lisboa - e por outro as discotecas 'independentes', aqueles espaços escuros, esconsos e vagamente duvidosos encontrados quase exclusivamente em caves de centros comerciais 'manhosos'.

E enquanto as primeiras eram o local de compra de discos (e não só) por excelência para o comum cidadão português daquela era, era nas segundas que se encontrava aquele tipo muito especial de amante de música, cuja paixão se traduzia na disposição para passar várias horas a 'remexer' em literais caixotes de CDs dos mais obscuros artistas imagináveis, à procura daqueles 'tesouros' a preço reduzido, injustamente ignorados pelos restantes visitantes – e só quem passou por essa experiência sabe descrever a sensação de sair de uma qualquer discoteca 'de vão de escada' com uma pilha de discos prontos a levar para casa e descobrir, em volume máximo ou com auscultadores, na aparelhagem, 'tijolo' ou Discman.

De facto, ambos os tipos de loja eram tão populares que constituíam locais perfeitamente válidos para uma Saída de Sábado com os amigos – parte da diversão da qual consistia em tecer comentários sobre alguns dos items mais 'bizarros' encontrados nos escaparates, bem como em tirar partido das habituais 'estações de escuta' para ouvir aqueles 'hits' mostrados no Top + ou ficar a conhecer as mais recentes novidades dentro do seu estilo musical de eleição; mesmo que não se comprasse nada, era garantia de uma tarde bem passada, e sem grandes 'asneiras'.

Infelizmente, e conforme referimos no início deste texto, o actual panorama musical impossibilita completamente o ressurgimento deste tipo de lojas; as poucas que restam apoiam-se numa vertente nostálgica, e quanto ao futuro, no máximo, poderá vir a haver 'estações' centralizadas de 'download' de música, as quais serão sempre, por definição, muito mais impessoais que as antigas discotecas, sobretudo as independentes; resta, pois, à geração que cresceu a 'vasculhar' nestes estabelecimentos à procura da próxima adição à colecção musical recordar esses tempos que já não voltam, e tentar transmitir às novas gerações 'digitalizadas' o quão marcante acabava por ser cada visita e um desses espaços...

03.06.22

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 2 de Junho de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A par de países como o Brasil, a Alemanha ou a Finlândia, Portugal é um dos países onde o movimento 'hard rock' e 'heavy metal' continua a ser mais popular. Apesar da pouca quantidade de bandas de expressão verdadeiramente internacional saídas das suas fronteiras (a lista resume-se a Moonspell, e pouco mais) e da falta de infra-estruturas para concertos e gravações (problema recorrente há mais de quatro décadas) o nosso País continua a apresentar uma considerável densidade populacional de 'metaleiros', 'rockers' e 'punks', prontos a consumir todas as novidades do estilo.

Assim, não é de estranhar que, na era pré-Internet 2.0, tenham surgido em território nacional não uma, mas duas revistas especificamente dedicadas a divulgar essas mesmas novidades, fossem elas novos lançamentos, concertos, notícias sobre os mais populares artistas do estilo, entrevistas, ou até classificados para procura de músicos ou anúncios de lançamento de maquetes. Das duas, foi a mítica revista Loud! que acabou por singrar, tornando-se A referência do género em Portugal (referência essa, aliás, ainda hoje existente, embora apenas em formato online) e acumulando bem mais de uma centena de números, sempre num padrão de qualidade elevadíssimo; no entanto, é a sua antecessora que adquire maior importância histórica, por ter sido pioneira no que toca a publicações sobre o tema, acabando por desbravar caminho para o sucesso da revista lançada nos primeiros meses do novo milénio.

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Capa e grafismo do primeiro número da revista (crédito das imagens: blog Rock no Sótão)

Falamos da revista Riff, surgida nas bancas sensivelmente um ano antes da Loud! (em Janeiro de 2000) e que tinha como principal impulsionador António Freitas, nome maior do jornalismo 'metálico' nacional, tendo sido, entre outros, colaborador de música do programa Curto Circuito, apresentador de programas de rock pesado na Antena 3 e Rádio Comercial, e membro da redacção da referência Blitz, bem como da referida Loud!. A Riff representava uma tentativa de colocar o seu estilo de eleição também nas bancas portuguesas, desiderato esse que, no entanto, apenas seria aperfeiçoado com a sucessora desta publicação, deixando este primeiro esforço algo a desejar; entre 'gralhas', gramática duvidosa e um grafismo mais a dar para 'fanzine' do que publicação oficial, a Riff só se destacava mesmo pelo CD que oferecia com cada edição, no qual se incluíam temas dos mais recentes trabalhos de muitos dos artistas mencionados ou abordados em cada edição.

Ainda assim, num panorama isento de quaisquer outras opções, a Riff representava uma forma – ainda que algo amadora - de os 'metaleiros' de Norte a Sul do País poderem ir sabendo o que se passava dentro do seu género de eleição; no entanto, o surgimento da Loud!, apenas um ano depois, veio tornar mesmo esse objectivo obsoleto, visto oferecer uma alternativa de muito melhor qualidade, que não deixava qualquer motivo para continuar a apoiar a revista mais 'fraquinha'.

Assim, não foi minimamente de estranhar que a longevidade da Riff nas bancas após o aparecimento da sucessora tenha sido extremamente reduzido, e que, nos dias que correm (e ao contrário da referida sucessora) a mesma esteja praticamente Esquecida Pela Net, e seja descrita pelo próprio Freitas como 'não tendo corrido muito bem'; há, no entanto, que atribuir crédito à publicação pelo trabalho 'de sapa' e de desbravamento de caminho que realizou em prol do jornalismo musical 'pesado' em Portugal, dando aos milhares de 'metaleiros' do País uma primeira representação dentro da imprensa escrita portuguesa, e ajudando-os, assim, a sentirem-se menos ostracizados dentro da cena musical nacional como um todo.

02.06.22

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 1 de Junho de 2022.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Eram caixinhas de surpresas. Folhas em branco, à espera de serem povoadas com o que mais aprouvesse a quem as adquiria. Portas para um mundo mágico, repleto de possibilidades ao alcance dos dedos (e da carteira). Instrumentos de sedução. Provas de amizade. Métodos de documentação. Tudo isto, e muito mais, pelo preço de duas semanas da mesada de um jovem dos anos 90.

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Falamos das cassettes ditas 'virgens' (tanto de áudio, como de vídeo), que estiveram entre as invenções mais populares das décadas de 80 e 90. Numa altura em que a aquisição dos formatos 'oficiais' – vinil, cassettes musicais pré-gravadas, CD, Betamax ou VHS – requeriam algum investimento, esta inovação veio permitir a muitos jovens gravar os seus filmes, músicas e programas de televisão ou rádio favoritos, em blocos de várias horas, dependendo da duração e qualidade da cassette; escusado será dizer que poucos foram os jovens que não tiraram partido dessa apelativa possibilidade.

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Comercializadas, em Portugal, sobretudo pela Sony, TDK, Fuji, Mitsubishi e BASF (embora não fosse, de todo, difícil encontrar 'marcas' muito menos conhecidas, algo mais baratas, mas de qualidade significativamente menos comprovada) este tipo de cassette era relativamente fácil de encontrar, podendo normalmente ser adquirida na secção audio-visual de estabelecimentos dos mais variados tamanhos, desde lojas de bairro a supermercados e hipermercados – o 'truque' estava, apenas, em descobrir onde eram praticados os preços mais apelativos. Depois – uma vez adquirido o número desejado de cassettes em branco – restava gravar a nosso bel-prazer, tanto quanto as horas das referidas cassettes permitissem, e, no fim, identificá-las através de um dos característicos rótulos que qualquer ex-jovem da época terá repetidamente criado para saber o que continha cada 'volume' (ou, caso a família fosse leitora da TV Guia, através de uma das não menos icónicas 'capas' oferecidas semanalmente pela revista, e alusivas aos grandes filmes a passar na televisão nessa semana.)

Em suma, um verdadeiro ritual de passagem de qualquer adolescente da época, que perdurou durante toda a década seguinte (apenas substituindo as cassettes por CDs ou DVDs) mas que, como tantos outros de que falamos nestas páginas, inexoravelmente se perdeu na era do 'streaming'. Hoje em dia, as 'mixtapes' são 'playlists', e os filmes que não estão na Netflix acabam, mais tarde ou mais cedo, por entrar em rotação constante num qualquer canal da TV Cabo. Restam, pois, as memórias de toda uma geração para preservar a experiência que era pôr uma cassette em branco no vídeo, aparelhagem ou 'tijolo', e nela documentar os gostos pessoais naquele ponto das nossas vidas...

 

31.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última edição desta rubrica, abordámos o Festival da Eurovisão, no qual Portugal teve diversas e honrosas participações; ora, neste ano de 2022, esse Festival tinha como país anfitrião a Itália, e como apresentadora uma cara que muitos ex-jovens portugueses dos anos 90 certamente terão, de imediato, reconhecido: Laura Pausini.

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A cantora, como muitos se recordam dela

De facto, no nosso país, a cantora e (hoje) apresentadora foi uma das duas 'caras' de uma mini-invasão italiana às nossas ondas radiofónicas no início da referida década, tendo como 'cúmplice' nessa 'missão' outro nome instantaneamente reconhecível, Eros Ramazotti (de quem chegou, aliás, a fazer versões em início de carreira). Juntos, os dois cantores – que quase poderiam passar por versões um do outro no sexo oposto, dadas as semelhanças estilísticas na música que praticavam – conseguiram, pelo menos durante um par de anos, interessar a juventude portuguesa na 'pop' romântica oriunda do país da 'bota'.

No caso de Pausini, o grande 'hit' que 'pegou' nas rádios portuguesas foi 'La Solitudine', música com a qual conquistou, ainda adolescente, a vitória na edição de 1993 do prestigiado Festival de San Remo. Daí ao primeiro lançamento profissional (nada mais nada menos do que pela multi-nacional Warner Music) foi questão de poucos meses, tendo o álbum homónimo da cantora – o seu segundo, após um primeiro lançamento informal com apenas treze anos – saído ainda nesse mesmo ano.

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Capa do primeiro álbum da cantora

O sucesso foi imediato, com três milhões de cópias do disco a circularem entre Itália e França, e a sequela, 'Laura', a surgir menos de um ano depois, em Fevereiro de 1994 – agora também com músicas em castelhano, para agradar ao respectivo mercado, onde a cantora fazia sucesso. Nesse mesmo ano, Laura perderia a nomeação de Revelação do Ano da prestigiada revista Bilboard para Mariah Carey, conquistando um ainda assim impressionante segundo lugar.

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O segundo álbum, 'Laura', saído em 1994

Por estranho que possa parecer, no entanto, todo este sucesso representava apenas o início para Laura Pausini, que passaria o resto da década a compôr, pela primeira vez, as suas próprias músicas (a maioria adaptada tanto para italiano como para castelhano), a traduzir para inglês o 'hit' 'La Solitudine', com a ajuda de Tim Rice, e a cantar em palco com Pavarotti, no espectáculo organizado pelo tenor em 1999. Em 2001, surge a primeira colectânea e, no ano seguinte, o primeiro álbum totalmente em inglês, produzido exclusivamente para os mercados anglófonos.

Seguir-se-iam mais álbuns (tanto de originais como ao vivo e de versões), dois Grammys (um Latino e um internacional) convites pessoais de Madonna para regravar músicas suas, o primeiro concerto dado por uma mulher no Estádio de San Siro, perante 75.000 pessoas, temas para telenovelas e, finalmente, a extensão dos seus talentos também ao mundo da televisão. Hoje em dia, Laura Pausini é recordista de vendas em Itália, onde continua a ser uma das principais personalidades musicais, numa carreira profissional prestes a completar trinta anos; para quem foi jovem e se interessou por música na década de 90, no entanto, continuará para sempre a ser a miúda gira e de sorriso maroto cujo vídeo passava no Top + e que fazia a capa de revistas como a Super Jovem...

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

02.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Como já aqui referimos numa edição passada desta rubrica, os anos 90 viram nascer e florescer o movimento rap e hip-hop português, que viria verdadeiramente a atingir o auge na década seguinte. Nessa segunda fase, os principais desenvolvimentos dar-se-iam a Norte do País, sobretudo no eixo Porto-Braga; no entanto, a primeira leva de artistas do estilo a verdadeiramente atingir fama nacional era oriunda,quase exclusivamente, da zona de Lisboa, de cujos subúrbios emergiam, à época, artistas como Boss AC, os pioneiros Black Company, e o nome de maior sucesso no género em Portugal, os incontornáveis Da Weasel.

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A formação clássica da banda

Formados na zona de Almada em 1993, e centrados em torno do MCs Pacman (hoje conhecido como Carlão), as 'doninhas' rapidamente se notabilizaram e destacaram dentro do movimento hip-hop nacional por, ao contrário da maioria dos seus pares, recorrerem a instrumentos reais, ao invés das habituais batidas programadas e 'samples'; de facto, apesar de contarem no seu alinhamento com um DJ de serviço, o grupo almadense incluía também um guitarrista, baixista e baterista, que ajudavam a criar um som bem distinto, mais próximo de bandas híbridas de rap e rock, como Cypress Hill, Public Enemy ou Body Count, do que do hip-hop tradicional. Aliado às letras realistas e socialmente engajadas de Pacman, este estilo único e diferenciado permitiu ao colectivo atingir um sucesso comercial quase imediato, com o primeiro álbum, 'Dou-lhe Com a Alma', de 1995, a conseguir uma boa recepção junto de um público particularmente receptivo ao rap e hip-hop, na sequência do êxito da pioneira compilação 'Rapública'. E não era caso para menos, visto tratar-se de um excelente registo, apoiado em temas tão fortes como a faixa-título ou a muito 'Public Enemy à portuguesa' 'Adivinha Quem Voltou'.

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O bem-sucedido álbum de estreia do grupo

Por muito auspiciosa que essa estreia tenha sido, no entanto, nada fazia prever o volume de vendas atingido pelo seu sucessor, '3º Capítulo', lançado dois anos depois (tendo o 'primeiro capítulo', nesta instância, sido o EP 'More Than 30 Motherf***ers', primeiro registo do grupo, lançado em 1994, e o único a contar com letras em inglês.)

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O segundo e mais conhecido álbum do grupo, lançado em 1997

O disco de 1997 via sair do grupo a vocalista de apoio Yen Sung, cujo lugar era preenchido por um segundo MC, Virgul – uma mudança que se viria a provar extremamente frutífera, vindo esse alinhamento a cimentar-se como a formação clássica da banda. O som, esse, aprimorava, refinava e aperfeiçoava a mistura entre as letras realistas e críticas de Pac e o som funk-jazz-rock criado pelos instrumentistas. Os singles 'Duia' – uma balada funk-jazz feita 'à medida' para a rádio – e 'Todagente' (uma faixa mais tipicamente Da Weasel) serviam de desculpa para a primeira digressão de sempre por parte do grupo, e ajudavam a impulsionar as vendas do álbum, que estabelecia definitivamente os Da Weasel como nome maior do hip-hop 'mainstream' português – estatuto, aliás, que o grupo manteria mesmo depois da chegada dos 'concorrentes' nortenhos, já em finais da década. Um álbum acústico gravado para a emissora Antena 3 e a participação de Pacman na compilação de Natal Espanta-Espíritos (cuja colaboração com Sérgio Godinho resultaria num dos temas mais 'fortes' do álbum, em todos os sentidos) apenas contribuiria para transformar as 'doninhas', ainda mais, na banda 'hip-hop' para as 'massas', num processo que alguns poderiam apelidar de 'sell-out'

Com o seu 'stock' ainda em alta tanto junto dos fãs de 'hip-hop' como do público 'radiofónico' (uma raridade em qualquer estilo musical) os Da Weasel lançavam, ainda antes do fim do milénio, o seu terceiro longa-duração, 'Iniciação a Uma Vida Banal – O Manual', um registo menos bem-sucedido comercialmente que o seu antecessor, mas ainda assim constituído por uma forte colecção de 'malhas', no estilo típico do grupo.

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O último álbum da fase 'imperial' do grupo saiu em 1999

A década seguinte trouxe ainda mais sucesso, mesmo depois da saída do membro-chave Armando Teixeira, em 2001; de facto, o álbum 'Re-Definições', de 2004 (primeiro sem o instrumentista e produtor) via a Doninha atingir o seu maior grau de sucesso e reconhecimento desde os tempos áureos de '3º Capítulo'. O anúncio de um hiato (em 2010, já depois do lançamento de um último álbum, em 2007) foi, por isso, surpreendente, podendo ter por base os conhecidos problemas de Pacman/Carlão com o abuso de substâncias.

Apesar de findo, no entanto, o grupo não foi, de todo, esquecido, como o comprovou a entusiástica reacção causada pelo anúncio de um concerto de reunião exclusivo, para o festival NOS Alive de 2020. O concerto, planeado para 11 de Julho daquele ano, acabou por ter que ser adiado devido à pandemia de COVID, mas a forte adesão ao mesmo por parte do público luso ajudou, pelo menos, a provar uma coisa – que quando, mais uma vez, a doninha decidir arrancar, pronta a estourar em 2025, com muita pinta e muito afinco, os seus velhos fãs de há duas décadas atrás lá estarão para os acolher de volta...

18.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa no estereótipo de uma estrela 'pop' ou de rádio, especialmente de sucesso entre o público jovem, tem-se sempre, quer se queira quer não, uma certa imagem em mente; e o mais provável é que a mesma não seja a de um trintão, com sentido de estllo duvidoso e visual algures entre Joe Satriani e Rob Halford, de voz rouca, e cuja música se enquadraria melhor no átrio de um clube de 'jazz' do que na aparelhagem ou 'walkman' de um adolescente.

E, no entanto, foi um músico com precisamente essas características o responsável por um dos maiores 'hits' radiofónicos em Portugal no início dos anos 90, tanto entre o público mais maduro como - mais significativamente - entre os jovens. Tratava-se de Pedro Machado Abrunhosa, um cantor e compositor portuense que - em conjunto com a sua banda de apoio, apelidada Bandemónio - conheceria inusitado sucesso durante um par de anos da referida década.

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Este homem parece-vos uma 'superstar' do pop-rock radiofónico? Pois...

Fruto da cena 'académica' da música portuguesa, com estudos e posterior leccionamento em vários institutos especializados da sua área de residência, Pedro Abrunhosa era já 'entradote' (na escala dos artistas 'pop', muito semelhante à dos jogadores de futebol) quando vê ser editado o disco de estreia dos Bandemónio, em 1994. No entanto, nem a idade avançada e aspecto de 'gajo normal' do vocalista, nem o estilo 'jazz' em modelo Tom Waits das composições da banda (elementos que, em condições normais, os remeteriam para uma categoria de nicho dentro do Mundo da música) foram impedimento ao sucesso imediato do grupo portuense, que viu não uma, não duas, não três, mas CINCO das músicas do disco ganharem tracção quase imediata nas rádios nacionais - ao tema de abertura, 'Não Posso Mais', seguiram-se a faixa diametralmente oposta no alinhamento, 'Tudo O Que Eu Te Dou', 'Socorro', 'Lua', e ainda 'É Preciso Ter Calma', sendo que esta última nem sequer havia sido lançada como 'single'! Nenhum destes temas soava remotamente como mais nada que tocasse nas rádios na altura, mas a verdade é que o seu sucesso catapultou o álbum para vendas de tripla platina e transformou, da noite para o dia, Pedro Abrunhosa de anónimo professor de música do Porto em nova sensação do pop-rock nacional.

É claro que, com um álbum de estreia de tamanho sucesso, seria fácil imaginar que Pedro Abrunhosa e os Bandemónio se ficariam pelo estatuto de 'one-hit wonder'; nada mais longe da verdade, no entanto. Pelo contrário, a lista de sucessos de Abrunhosa e companhia viu-se acrescida primeiro de um livro (!) e depois de 'Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar', tema do filme 'Adão e Eva' (também ele um sucesso) que soava exactamente como todos os outros 'singles' lançados pelo músico até então, e que talvez por isso tenha sido bem acolhido por quem já adorara 'Viagens'.

O sucesso desta música permitiu manter o perfil do artista elevado o suficiente para granjear a 'Tempo', o segundo álbum do músico, um sucesso ainda maior que o de 'Viagens' - mais de quatro anos após o seu período de relevância (e sem nada que sequer se aproximasse do sucesso dos 'singles' do primeiro disco) Abrunhosa e os renovados Bandemónio conseguiam ainda vendas de quádrupla platina, um verdadeiro testamento ao poder que o nome de um artista pode ter sobre os volumes de vendas de uma obra. Participações de Rui Veloso, Carlos do Carmo e da banda de Prince, a New Power Generation, garantem ao álbum aquela aura de 'obra séria', fazendo de 'Tempo' um digno sucessor da estrondosa estreia.

Como dizia George Harrison, no entanto, 'tudo o que é bom deve findar', e o virar do milénio representou o fim do 'lugar ao sol' de Abrunhosa em meio ao pop-rock radiofónico português; os trabalhos seguintes do músico já não granjearam a mesma atenção dos dois primeiros discos dos Bandemónio, relegando o 'jazzman' portuense não só para a categoria 'de nicho' a que normalmente teria sempre pertencido, mas também para a vasta lista de artistas (na qual se incluem também uns Silence 4 ou Santos e Pecadores) que, apesar de terem continuado a gravar regularmente novos materiais, desapareceram totalmente da consciência colectiva nacional. Ou antes - totalmente, não; existe, ainda, uma geração para quem uma simples 'mirada' ao título de um dos seus grandes êxitos evoca imediatamente uma memória, com mais de um quarto de século, de um refrão, cantado naquela voz roufenha e com o característico sotaque portuense. Apenas mais uma prova de que a influência de certos artistas na respectiva cena vai muito além da visibilidade e sucesso de vendas...

04.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última edição desta rubrica, falámos de 'Jardins Proibidos', a omnipresente balada que catapultou Paulo Gonzo para o sucesso estratosférico não uma, mas duas vezes durante os anos 90; ora, a segunda versão dessa balada – aquela que muitas crianças e jovens da época terão passado mais de um ano a cantar a qualquer oportunidade – trazia o intérprete original em dueto com outra então mega-estrela do pop-rock 'meloso' nacional. É dele, e da respectiva banda, que falaremos esta semana.

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Formados numa garagem em Talaíde, concelho de Cascais, Lisboa, ainda na década de 80, os Santos & Pecadores – Olavo Bilac (voz), Artur Santos (baixo), Pascoal Simões (teclas), Pedro Cunha (bateria) e Rui Martins (metais) - tinham, inicialmente, uma proposta algo mais voltada para o rock de tendências 'funky'; no entanto, aquando da 'explosão' na década seguinte - após a participação do seu vocalista no projecto Resistência, um supergrupo português do qual um dia aqui falaremos - a banda (já reforçada pelo guitarrista Pedro Almeida) apresentava um som significativamente mais leve e ligeiro, assente numa base pop-rock bem típica do período, à qual se juntavam toques 'soul', sobretudo oriundos das emotivas interpretações vocais de Olavo Bilac, o tal comparsa de Paulo Gonzo na versão de 1998 do mega-hit deste último.

E o mínimo que se pode dizer é que esta abordagem rendeu dividendos – 'Onde Estás?', o álbum de estreia do grupo lançado em 1995, foi um sucesso de vendas, muito por conta do 'single' 'Não Voltarei a Ser Fiel' - ainda hoje a música mais conhecida do grupo, a par da mais tardia 'Fala-me de Amor' - e da participação (por alguma razão desconhecida) da apresentadora televisiva Catarina Furtado. Nascia mais uma estrela em ascensão no então incandescente universo pop-rock português.

A música que ajudou a popularizar o grupo

Com tal sucesso logo à partida, podia-se esperar que os Santos & Pecadores fossem 'sol de pouca dura'; o grupo conseguiu, no entanto, contrariar essas previsões, lançando um segundo álbum três anos depois ('Love', de 1998) e, daí, partindo para uma carreira que duraria até 2014 e renderia mais cinco álbuns de estúdio, dois ao vivo, e duas colectâneas – nada mau, para quem dava todo o ar de vir a ser apenas mais um nome a juntar à longa lista de  'one-hit wonders' noventista...!

Infelizmente, a história dos Santos não tem um final feliz; em 2020, a banda demarca-se do vocalista Bilac após este ter aceite o convite para actuar num comício do controverso partido português Chega!, e no ano seguinte, em Maio, o membro fundador Rui Martins, responsável pelos metais, morre vítima de acidente de trabalho, após cair de um telhado em Santarém. Juntos, estes dois factores terão ditado o fim definitivo dos Santos & Pecadores, um daqueles grupos icónicos e inescapáveis da música radiofónica portuguesa dos anos 90 que se verifica, com alguma surpresa, terem durado bem mais do que apenas aquele momento inicial...

29.03.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Numa era da História em que as nossas músicas favoritas vão connosco para todo o lado, em quantidade quase ilimitada, e acessíveis praticamente a qualquer momento com apenas um par de toques no teclado ou ecrã do telefone, parece quase inacreditável que, há apenas uma geração atrás, essa mesma experiência implicasse periféricos extra, de dimensões consideravelmente mais volumosas, e estivesse restrita àquilo que se conseguisse armazenar num dispositivo físico, entretanto tornado obsoleto.

E no entanto – como qualquer jovem de finais do século XX saberá – era precisamente isso que se passava há não muito tempo atrás: quem queria ouvir música na rua, ou fazia uso do auto-rádio do carro, ou se via obrigado a investir num desses Santos Graais da tecnologia oitentista e noventista: um Walkman.

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O Walkman original, lançado pela Sony em meados da década de 80

Sim, hoje vamos falar do inovador dispositivo introduzido no mercado pela Sony, e que acabou por se tornar parte indispensável do modo de vida ocidental, tendo mesmo dado azo a versões actualizadas e melhoradas à medida que a tecnologia de música portátil avançava.

Idealizado pela primeira vez nos anos 70, mas popularizado sobretudo nas duas décadas seguintes, o Walkman apresentava um conceito tão simples como inovador e atractivo: tratava-se de um leitor de cassettes portátil – algo já existente, sob a forma das chamadas 'caixas de som' ou 'tijolos' – mas em tamanho ultra-compacto e portátil, e com o bónus adicional de incluir um par de auscultadores, que permitiam ouvir música em qualquer local e a qualquer momento, sem com isso incomodar quem nos rodeava – precisamente o principal ponto fraco dos referidos 'tijolos'.

Com tais mais-valias, e a aura 'cool' típica dos produtos electrónicos daquela época, não é de admirar que o Walkman tenha sido um sucesso de vendas logo desde o lançamento – mesmo apresentando um preço proibitivo, como é costume com qualquer nova tecnologia, o aparelho da Sony tornou-se um dos produtos mais desejáveis, não só entre os jovens, mas um pouco por todo o espectro demográfico de finais do século. Quem não tinha, queria ter; quem tinha, fazia disso alarde, e era devidamente invejado.

Com o avançar dos anos (e das décadas), no entanto, o Walkman foi, aos poucos, perdendo a sua mística, à medida que era introduzido no mercado um número cada vez maior de 'clones' da máquina original da Sony, de 'entranhas' mais 'fraquinhas', mas perfeitamente funcionais e com preços bem mais convidativos. Assim, uns escassos dez anos após a sua introdução com pompa e circunstância no mercado, o Walkman tornara-se já, mais do que uma marca, um termo utilizado para designar todo e qualquer aparelho leitor de cassettes portátil, independentemente do fabricante; mais, a cobiça da juventude era, agora, a evolução natural do conceito para abranger o novo formato 'na berra' – o Discman, um leitor portátil de (isso mesmo!) CD's.

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Exemplo de um Discman, também da Sony

De dimensões necessariamente maiores que as de um Walkman (um CD tem, afinal de contas, mais área que uma cassette) mas ainda mais popular entre a demografia-alvo, que raramente era vista sem um, o Discman levou a tecnologia de reprodução de música portátil para o novo milénio, acompanhando a progressiva obsolescência do formato cassette e afirmando-se, paulatinamente, como o dispositivo por excelência para este efeito.

E embora o ciclo de vida do CD tenha sido bastante maior que o da cassette – tendo o formato apenas muito recentemente entrado na fase descendente, muito graças ao aparecimento dos serviços de 'streaming' – o Discman viria, também ele, a ser eventualmente destronado pela sua própria evolução natural – uma máquina que voltava a reduzir as dimensões, cabendo agora em qualquer bolso, e permitia armazenar música directamente em formato digital, sem que fosse primeiro necessário transferi-la para um dos já clássicos CD-R regraváveis. Essa, no entanto, é já uma história que fica fora do âmbito do nosso blogue, pelo que, por agora, se fica por aqui a retrospectiva sobre os aparelhos de música portáteis das décadas de 80 a 2000. companheiros quotidianos e inseparáveis de tantos jovens da época...

 

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