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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

28.11.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de a música ter, pelo menos nas últimas décadas, uma relação simbiótica com certos aspectos do desporto, e do futebol em particular (basta lembrar os eternos 'cânticos' entoados a plenos pulmões por qualquer grupo semi-organizado de adeptos, e muitas vezes baseados em verdadeiros êxitos radiofónicos) foi apenas na ponta final do século XX que esse mesmo laço começou a ser explorado, primeiro através de singles entoados pelos próprios artistas (e, invariavelmente, algo embaraçosos), depois de álbuns de temas alusivos ao desporto-rei e, finalmente, através da incorporação de temas especialmente compostos para competições específicas. E a verdade é que o primeiro exemplo desta última categoria provou, desde logo, a validade desta última experiência, afirmando-se como um sucesso transversal tanto ao reduto desportivo como ao mercado 'pop' mais alargado.

Falamos de 'La Copa de La Vida' (também muitas vezes conhecida como 'The Cup of Life' ou simplesmente 'Allez, Allez, Allez') canção 'feita por encomenda' para o Mundial de França '98, e que ajudou a cimentar o seu intérprete, Ricky Martin, enquanto 'pop star' de apelo internacional, depois de a anterior 'Maria' o ter dado a conhecer ao Mundo. E a verdade é que esse êxito e fama foram bem merecidos, já que 'The Cup of Life' é uma daquelas 'malhas' irresistíveis e intemporais, que mesmo quem não a ouve há anos consegue trautear (não haverá, certamente, quem tenha ouvido esta faixa e não se lembre, pelo menos, do refrão 'Go, go, go, allez, allez, allez!'). Grande parte desse apelo deriva, precisamente, da intepretação entusiástica de Martin, um porto-riquenho sem qualquer razão de interesse no campeonato em causa (onde nem a sua selecção nem a dos EUA competiam) mas que não deixa por isso de 'dar o litro', aliando-se à 'gingada' e contagiante batida latina (que remete ao desporto-rei através do uso de apitos na faixa instrumental) para transmitir a emoção e paixão inerentes a qualquer competição desportiva, e ainda mais à maior prova futebolística a nível internacional.

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A capa do single da música.

Não é, pois, de estranhar que a referida música tenha tido 'vida' muito para lá do final do campeonato para a qual foi concebida, não só gozando de uma saudável presença nos 'tops' musicais da época como continuando a ser apreciada e até descoberta até aos dias que correm, afirmando-se como um dos melhores exemplos do poder de que um produto 'sinergístico' e 'trans-média' pode gozar, quando o seu processo de criação envolve mais coração do que calculismo – um pouco como acontece, aliás, com o próprio desporto a que alude...

 

14.11.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

E porque um dos discos mais importantes da maior e mais duradoura instituição do pop-rock português completou há duas semanas exactos trinta anos (e por, nessa Segunda, termos estado ocupados a celebrar o Halloween falando dos 'bruxos' Moonspell), nada mais justo do que lhe dedicarmos algumas linhas deste nosso espaço sobre música marcante da nossa época.

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Falamos de 'Dizer Não de Vez', o primeiro de quatro discos lançados durante a última década do século XX pelos lendários Xutos & Pontapés, à época já nome maior do rock português (com orçamento e liberdade criativa a condizer) mas ainda com as ganas e a 'pica' que viriam, drástica e dramaticamente, a perder na época seguinte. E é precisamente essa conjugação de experiência e genica que faz do disco de 1992 (bem como do seu sucessor, lançado no ano seguinte) uma das melhores obras na vasta discografia do conjunto lisboeta, reconhecida como tal mesmo entre os fãs da época, que levaram o single 'Chuva Dissolvente' ao primeiro lugar do 'top' nacional de singles. E com razão - inicialmente concebido para ser um álbum duplo (mais tarde dividido em dois por imposição da Polygram, numa obrigação contratual pouco apreciada pelo quinteto mas que acabou por lhe render dois sucessos de vendas, em vez de apenas um em formato duplo) 'Dizer Não de Vezº é um álbum absurdamente homogéneo, repleto de uma ponta à outra com o estilo de 'malhas' a que os Xutos já vinham habituando os ouvintes de 'rock' comercial 'made in Portugal'. Temas como o supracitado 'Chuva Dissolvente', 'Hás-de Ver', o psicadélico 'Lugar Nenhum', os resquícios da fase 'punk' 'Dia de S. Receber' (a melhor do disco) e 'Lei Animal', ou o encerramento com o bem típico 'O Que Foi Não Volta a Ser' tornam este álbum de aquisição obrigatória, não só para admiradores do grupo, mas também por quem queira saber a que soa o bom 'pop-rock' português de cunho clássico.

Assim, e apesar de o grupo considerar que a divisão de temas com 'Direito ao Deserto' influenciou negativamente o produto final em termos de alinhamento e conceito, 'Dizer Não de Vez' afirma-se como obra absolutamente essencial, não só no cômputo da discografia dos Xutos, como do pop-rock noventista português (nem mesmo o próprio grupo a conseguiu jamais suplantar em qualquer momento posterior) e merecendo bem esta homenagem (ainda que atrasada) no mês do seu trigésimo aniversário.

 

01.11.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Das muitas figuras que fizeram, e continuam a fazer, parte integrante da História da televisão portuguesa, Herman José Krippahl é, sem dúvida, uma das mais emblemáticas e incontornáveis, não só pela enorme variedade de programas de grande sucesso pelos quais deu a cara, mas também por ter conseguido a façanha de se afirmar como nome maior de duas áreas distintas do entretenimento – o humor e a apresentação. De facto, enquanto as primeiras décadas da carreira do luso-alemão o viram movimentar-se, sobretudo, na área do humor (à qual nunca se deixou verdadeiramente de dedicar) a passagem para os anos 90 revelou-o, também, como prodigioso anfitrião de concursos e outros programas semelhantes, campo com o qual viria, subsequentemente, a ser conotado durante as duas décadas seguintes. E se 'A Roda da Sorte' é, quiçá, a mais memorável dessas incursões pelo formato, o seu sucessor imediato também não lhe fica muito atrás em termos de memorabilidade e nostalgia.

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Falamos de 'Parabéns', formato que comemorou há poucas semanas os trinta anos sobre a sua emissão de estreia na RTP1, a 19 de Setembro de 1992 (quase exactamente dois anos depois de outro bastião da programação da emissora, 'O Preço Certo'), e que se viria a manter no ar por uns respeitáveis quatro anos, até 3 de Agosto de 1996. Apostando num formato mais de entretenimento geral do que de concurso puro e duro, o programa tinha como objectivo declarado celebrar os aniversariantes de cada semana (daí o título) mas acabava por se afirmar como uma mistura entre entrevistas a personalidades de vulto da época, tanto nacionais como internacionais (passaram pelo programa nomes como Amália, Artur Albarran, José Cid, Carlos Lopes, Rui Reininho, Cher, Kylie Minogue ou Roxette), segmentos de interesse humano, passatempos, números musicais e, claro, inevitáveis rábulas humorísticas protagonizadas pela habitual 'troupe' de amigos de Herman.

Cher foi uma das muitas personalidades internacionais a passar pelo programa.

Uma proposta que se adequava perfeitamente ao estilo convivial e carismático de Herman e que, apesar de mais variada do que era habitual na televisão da época (ou talvez, precisamente, por causa disso) 'caiu no gosto' dos portugueses de todas as idades, que o tornaram líder de audiências durante todo o período em que foi exibido – um feito para um programa que, em 'tempo televisivo', durou uma verdadeira eternidade. E apesar de, hoje em dia, ser principalmente recordado pelo seu icónico genérico, a verdade é que esta segunda incursão de Herman pelo ramo dos programas de entretenimento o ajudou, à época, a consolidar como valor emergente nesse campo, merecendo, por isso, os nossos 'Parabéns', mesmo que já muito atrasados...

O genérico do programa era icónico.

 

 

 

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

17.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A 'explosão' dos movimentos alternativo e pop-rock nacionais durante a década de 90 contribuiu para o aparecimento e desenvolvimento de um sem-número de novas bandas, a maioria das quais pouco ou nada ficava a dever às suas congéneres estrangeiras, conseguindo, com a sua qualidade, contornar as limitações técnicas e de recursos inerentes a gravar um disco em Portugal. Tal como acontece em qualquer movimento, no entanto, nem todos estes nomes chegaram a experienciar as 'luzes da ribalta', tendo alguns, inevitavelmente, ficado 'pelo caminho' na corrida à fama e aos contratos discográficos.

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Uma destas bandas foram os SG's, quarteto cascalense que, durante um breve período em meados dos anos 90, chegou a ser o mais próximo que Portugal tinha a uns Nirvana, compondo, ao lado dos 'Pearl Jam' Blind Zero e dos 'Alice in Chains' Lulu Blind, o grande triumvirato do 'grunge' nacional na altura em que o referido estilo atravessava a sua fase de maior popularidade. No entanto, dos três nomes, o colectivo liderado por Hugo Van Zeller seria o que maior dificuldade teria em encontrar sucesso radiofónico, acabando a sua contribuição para o panorama do rock pesado nacional por se saldar em um par de aparições na icónica colecção de CD's single da revista Super Jovem (ambos, curiosamente, partilhados com os 'death metallers' Disaffected, os únicos outros 'repetentes' da colecção), um single, e um único álbum, 'Psycho Holidays', lançado pouco mais de um ano após a formação do grupo, em 1995.

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A totalidade da discografia do quarteto 

A verdade, no entanto, é que é difícil de perceber exactamente porque é que a carreira de Van Zeller, Rodas, Johnny Barros e Gonzo ficou tão aquém das expectativas. Isto porque, sem ser uma obra-prima da música moderna, 'Psycho Holidays' não deixa, ainda assim, de ser um excelente álbum de rock 'barulhento' moderno, talvez com umas quantas músicas a mais (dezasseis temas de estúdio mais um ao vivo, espalhados ao longo de quase uma hora de música, é, manifestamente, muito para um álbum deste tipo) mas repleto de 'malhas' inegáveis como a inaugural 'Save Me' ou os temas com que o quarteto se deu a conhecer na Super Jovem, 'I Am' e 'Misunderstanding', esta última mas compassada, melódica, e com forte 'travo' a Pearl Jam. De facto, exceptuando-se o inglês algo 'macarrónico' de algumas das letras e a produção expectavelmente limitada, este é daqueles discos que poderia perfeitamente ter sido comercializado a nível internacional, e encontrado o seu lugar no 'pelotão' de bandas de 'grunge' secundárias que perseguiam, de longe, os 'quatro grandes' do estilo.

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O vocalista e líder da banda, Hugo Van Zeller, é hoje consultor de desenvolvimento pessoal

Não seria, no entanto, isso que se viria a passar, e o destino fadaria os SG's a uma carreira curta, que teria fim (pelo menos em termos de registos discográficos) pouco depois do lançamento do álbum, constituindo apenas mais uma daquelas sempre deprimentes) histórias sobre 'o que podia ter sido', tão comuns no mundo da música. Ainda assim, e a julgar pela sua actual presença como consultor e 'coach' de desenvolvimento pessoal, Hugo Van Zeller foi capaz de 'dar a volta por cima' deste desapontamento e atingir sucesso noutra área; e mesmo que o disco que lançou com os amigos no tempo da juventude seja, para ele, apenas um artefacto levemente embaraçoso de um tempo passado, para muitos fãs de música alternativa lusitanos (tanto da época como dos dias que correm), o mesmo continua, certamente, a constituir um dos melhores exemplos de rock 'barulhento' 'made in Portugal'....

03.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em edições anteriores desta mesma rubrica, temos vindo a falar de alguns dos nomes mais incontornáveis da explosão pop-rock portuguesa dos anos 90; esta semana, chega a vez de juntar mais um nome a essa lista, nomeadamente um que pecava por omissão nas páginas deste blog, pela influência que teve sobre as ondas de rádio de finais do século XX e inícios do XXI.

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Falamos dos conimbricenses Clã, o seminal conjunto fusionista que tem na voz de Manuela Azevedo o seu principal factor distintivo, e na experimentação inter-estilística o seu principal trunfo. Formados em 1992 (quando Manuela Azevedo ainda sonhava trabalhar em Direito, área em que estudava), a banda viria a alcançar o estatuto de que ainda hoje gozam cerca de meia década depois, através dos seus três primeiros álbuns, 'LusoQUALQUERcoisa' (estilizado assim mesmo, e lançado em 1996), 'Kazoo' (do ano seguinte) e 'Lustro' (de 2000); e se seria de 'Kazoo' que sairia aquela que se tornaria a música-estandarte do grupo, e um dos maiores sucessos portugueses de finais da década de 90 - 'Problema de Expressão' – seria com 'Lustro' que os Clã cimentariam o seu lugar no topo da hierarquia do pop/rock de fusão português, saindo vencedores em três das categorias dos Prémios Blitz desse ano, incluindo as de Melhor Banda Nacional e Melhor Álbum Nacional – um feito que, à época, era suficiente para lhes conferir o estatuto de 'semi-deuses' da música portuguesa.

Longe de descansar à sombra desses louros, no entanto, a banda continuou a desbravar caminho nos primeiros anos do novo milénio, colaborando com Sérgio Godinho num álbum ao vivo, 'Afinidades', e aceitando mesmo compôr uma banda sonora para um filme mudo – no caso o seminal 'Nosferatu', de F. W. Murnau, pioneiro dos 'filmes de vampiros' lançado em 1922 – como parte da iniciativa 'Porto 2001 – Capital Portuguesa da Cultura'. Três anos depois, saía 'Rosa Carne', quarto álbum do grupo, cuja recepção foi tão entusiástica quanto a dos três anteriores, sendo mesmo considerado um dos discos mais importantes da 'cena' portuguesa de 2004. No ano seguinte, saía o primeiro vídeo do grupo, 'Gordo Segredo', e um segundo disco ao vivo, desta feita uma edição dupla.

Daí em diante, os lançamentos continuaram a surgir a bom ritmo, tendo o grupo lançado mais seis álbuns de originais nos últimos quinzo anos, e conseguido manter a sua posição de destaque no panorama pop português, agora alicerçado na experiência e veterania de que o colectivo já goza. Para ouvintes mais 'casuais', no entanto, os Clã continuam, essencialmente, a ser 'aquela' banda que tocava 'Pois É!' e 'Problema de Expressão' na rádio, há vinte e muitos anos – o que, mesmo assim, é um legado mais honroso do que o de muitas bandas tão ou mais duradouras do que os conimbricenses...

22.09.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Há algumas edições atrás, falámos nesta rubrica da revista Riff, tendo à data erroneamente insinuado tratar-se da primeira revista nacional dedicada ao som de peso, vulgo metal; nas próximas linhas, iremos desfazer esse equívoco, e falar da revista que merece, verdadeiramente, essa distinção, e que foi a verdadeira pioneira das publicações especializadas sobre rock pesado em solo nacional – a Rock Power.

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Capa do número 1 da revista. (Crédito da foto: Rock no Sótão)

'Braço' nacional de uma publicação de âmbito internacional, publicada em oito países (a edição lusa mantinha, aliás, o 'slogan' em inglês), a Rock Power portuguesa 'rebentava' nas bancas em Junho de 1991, tendo como editor o antigo colaborador inglês da Música e Som, Ray Bonici, e como redactores a equipa por detrás do também imensamente popular programa 'Lança-Chamas', liderada pelo inevitável António Freitas - talvez o principal dinamizador do 'som de peso' na imprensa portuguesa, e que viria também a colaborar nas duas outras revistas nacionais sobre este tópico, a Riff e a ainda mais famosa e bem-sucedida Loud! Quanto à Rock Power, a sua função e dos seus colaboradores passava, primeiramente, apenas por traduzir e adaptar os textos da edição inglesa (a qual, aliás, servia também de base à edição espanhola, em tudo idêntica à portuguesa), num molde semelhante aos de revistas 'multinacionais' como a Mega Force, Super Power ou Revista Oficial Playstation; com o passar dos números, no entanto – e à medida que a revista se estabelecia – os mesmos principiaram também a criar, de raiz, tópicos especificamente ligados à cena rock e 'heavy metal' lusa, dando à publicação uma personalidade mais vincadamente portuguesa, à semelhança do que, lá por fora, iam fazendo congéneres como a Kerrang! e Metal Hammer espanholas.

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Outro número da revista, no caso, o Nº8 (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Além das habituais notícias, entrevistas, biografias e críticas aos mais recentes lançamentos, a revista destacava-se, ainda, por incluir banda desenhada, nomeadamente a famosa série 'Judge Dredd', originalmente publicada na compilação de culto inglesa '2000 AD'; apenas mais uma razão para os 'metaleiros' nacionais, até então totalmente privados de conteúdos editoriais oficiais relativos à sua 'cena', desembolsarem mensalmente os 350 escudos que a revista custava - muita 'massa' em dinheiro de 1991, talvez, mas – como as linhas anteriores terão, espera-se, demonstrado – um 'sacrifício' mais do que justificado para quem, até então, tivera de recorrer a 'fanzines' amadoras para se manter a par do que se ia passando no seu panorama musical de eleição.

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Uma página de Judge Dredd, tal como apareceu no número 8 da revista. (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Quanto à revista em si, e apesar de não ter tido um ciclo de vida particularmente longo, nada lhe tira a distinção de ter desbravado um caminho sem o qual as posteriores 'versões melhoradas' da fórmula não poderiam ter existido – facto que, só por si, já torna merecido que se levantem um par de 'chifres' e uma imperial bem geladinha em sua homenagem.

19.09.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Qualquer melómano que tente fazer uma lista dos melhores e mais importantes álbuns de música portuguesa dos anos 90 certamente se deparará com alguns nomes incontornáveis. De provas de vida por parte de artistas veteranos ('Rock In Rio Douro', dos GNR, ou 'Pedras da Calçada', de Paulo Gonzo) ou supergrupos (o álbum homónimo dos Rio Grande) até declarações de intenções por 'novatos' decorrentes do 'boom' do pop-rock nacional daquela década (os primeiros discos de Da Weasel ou Santos e Pecadores, 'LusoQUALQUERcoisa' dos Clã, 'Vinyl' de The Gift, ou 'Silence Becomes It', do fenómeno Silence 4), é longa a lista de clássicos produzidos por artistas e grupos portugueses durante a referida década, e que continuam a reter a sua influência e relevância três décadas depois.

Da referida lista, especificamente do lado do 'sangue novo', faz ainda parte um álbum que celebrou há poucos dias (a 15 de Setembro de 2022) o vigésimo-quinto aniversário do seu lançamento, e que ajudou a apresentar ao mundo fonográfico português um novo nome, pronto a conquistar as ondas de rádio mais 'alternativas': 'Cão!', dos Ornatos Violeta.

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Capa do álbum de estreia do quarteto portuense.

O primeiro de apenas dois álbuns de originais lançados pela banda portuense (o terceiro é uma colectânea de inéditos e raridades), o disco foi, ainda assim, suficiente para fazer da banda portuense uma referência da música portuguesa até aos dias de hoje, o que atesta bem quanto à sua qualidade.

Formados no Porto nos primeiros anos da década, os Ornatos Violeta (ou simplesmente Ornatos) fariam jus à máxima de que 'se tem a vida toda para criar o trabalho de estreia', optando por lançar o trabalho de estreia apenas após ter a certeza de que a 'máquina' se encontrava bem 'oleada' no circuito de concertos e 'demos'; e o mínimo que se pode dizer é que esse esforço foi mais do que recompensado, com 'Cão!' a cair, quase de imediato, no 'gosto' da crítica especializada, que lhe teceu rasgados elogios não só à época, mas ao longo das décadas seguintes (ainda em 2009, a referência especializada Blitz o colocava no Top 5 de álbuns alguma vez criados por artistas portugueses, bem como na lista de melhores trabalhos oriundos da zona do Porto). Apresentando uma mistura de funk, jazz e ska, o álbum rendeu singles tão conhecidos e bem-sucedidos como 'Punk Moda Funk' (talvez o mais emblemático título dos portuenses, e música de abertura do álbum), 'A Dama do Sinal' e 'Mata-me Outra Vez', todos os quais tiveram considerável 'rodagem' nas rádios nacionais da altura.

Escusado será, também, dizer que o grupo não hesitou em aproveitar o 'embalo' dado por tão auspiciosa estreia, tendo o sucessor de 'Cão!' surgido pouco mais de dois anos após o lançamento deste, em Novembro de 1999; e a verdade é que, embora menos emblemático que o trabalho de estreia 'O Monstro Precisa de Amigos' é, também ele, um trabalho muito bem cotado tanto entre fãs da cena alternativa portuguesa como junto da imprensa especializada.

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Capa do segundo (e último) álbum do grupo, lançado em 1999

Apesar do processo de criação atribulado, o álbum representa uma bem-sucedida evolução do som estabelecido no trabalho de estreia, o qual se apresenta agora mais ponderado e sofisticado, que voltou a valer aos Ornatos reconhecimento generalizado, com a banda a conquistar diversas categorias na última edição do milénio dos prémios Blitz (incluindo a de Álbum do Ano) e o disco em si a ser considerado, ainda hoje, como um dos mais importantes álbuns portugueses dos últimos trinta anos.

Em meio a tal sucesso e adulação, seria normal que a carreira dos Ornatos seguisse de vento em popa; foi, no entanto, precisamente o contrário que se verificou, com a banda a anunciar abruptamente a sua separação quando ainda se encontrava no auge da carreira, em 2002; e a verdade é que, à parte o referido álbum póstumo de 'lados B' de raridades e algumas reuniões esporádicas na última década, esse foi mesmo o 'Fim da Canção' para Manel Cruz, Elísio Donas, Nuno Prata, Peixe e Kinorm, cujo legado acabou, assim, por se ficar apenas por aqueles dois álbuns revolucionários que 'abanaram' a cena portuguesa de finais de milénio. Um típico caso, portanto, de banda que se extingue após ter dado ao Mundo apenas um 'cheirinho' da sua arte, estatuto que o colectivo portuense partilha, na mesma década, com os supramencionados Silence 4; ainda assim, a obra dos Ornatos afirmou-se como (ainda) mais duradoura e influente que a de David Fonseca e seus capangas, fazendo com que, um quarto de século volvido, os dois álbuns do quinteto se afirmem ainda como de audição obrigatória para qualquer fã de música alternativa contemporânea 'made in Portugal'.

 

06.09.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 05 de Setembro de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Para a juventude portuguesa de finais dos anos 90 (como, presumivelmente, para as de outras décadas) há músicas que ficam, indelevelmente, ligadas a certos anos, e sobretudo à época de Verão, em que a disponibilidade e oportunidades para ouvir e apreciar música aumentam; e se o Verão de 1997 foi, sem dúvida, dominado pelo êxito dos escandinavos Aqua, 'Barbie Girl', houve outra música que – sobretudo para fãs de videojogos ou de música mais alternativa – também não deixou de marcar a segunda metade daquele ano, e a primeira do seguinte.

Falamos de 'Firestarter', primeiro single retirado do terceiro álbum de um colectivo britânico que, apesar de vir já 'fazendo algumas ondas' no seu país natal, era ainda maioritariamente desconhecido por terras lusas, situação que se alterou quando o referido tema surgiu como parte da banda sonora de 'Wipeout 2097', o jogo de corridas futurista que constituiu um dos maiores sucessos do ano - e de toda a biblioteca das consolas em que foi lançado, a Playstation e a Sega Saturn – muito graças à sua banda sonora, que incluía nomes tão sonantes no meio da electrónica como Chemical Brothers, Underworld, e o colectivo em causa, The Prodigy.

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Formados no condado de Essex, a sul de Londres, logo no início da década, o projecto liderado por Liam Howlett e que tinha como 'cara' o dançarino e vocalista Keith Flint tinha, desde então, vindo a construir 'a pulso' a sua reputação entre os 'ravers' britânicos, tendo os seus dois primeiros álbuns – os excelentes 'The Prodigy Experience', de 1992, e 'Music For The Jilted Generation', de 1994 – granjeado desde logo considerável sucesso não só junto dessa mesma demografia, mas também de uma população generalista - os dois singles retirados de 'Experience', por exemplo, chegam ao Top 5 de música nas Ilhas Britãnicas, e 'Music...' ocupa o primeiro posto do 'top' de álbuns do país logo desde o seu lançamento.

No estrangeiro, no entanto, o nome 'The Prodigy' só se popularizaria mesmo após o lançamento de 'Firestarter', que – com a irreverente prestação vocal de Flint e os característicos coros de 'hey-hey-hey' – ajuda também a propulsionar as vendas do terceiro álbum do colectivo, 'The Fat of the Land'. Longe de se 'apoiar' no single e mega-sucesso, no entanto, o álbum com o icónico caranguejo na capa oferece a quem o adquire um punhado de músicas tão boas como 'Firestarter' (ou mesmo melhores, como o segundo single, 'Breathe', um dos clássicos do grupo) o que só ajuda a cimentar a reputação de Howlett, Flint e companhia junto da sua demografia-alvo – que, curiosamente, inclui uma parcela considerável de fãs de 'rock', um sector da população que, regra geral, não tende a gravitar para grupos de electrónica pura e dura como é o caso dos ingleses; o controverso tema de abertura do álbum, 'Smack My Bitch Up', era mesmo alvo de atenção por parte de rádios de pendor mais 'rock', o que talvez tenha contribuído para este sucesso inter-demográfico.

Escusado será dizer que, obtido o reconhecimento, o nome e a música dos Prodigy não tardou em começar a aparecer associado a outros meios, ficando particularmente na memória o assombroso 'trailer' da 'Manga Vídeo' editado ao som de 'Voodoo People', outro clássico do grupo, este retirado do seu segundo álbum. Naquele Verão de 1997 e inícios de 1998, o colectivo britânico parecia inescapável, tendo mesmo conseguido a 'proeza' de render a então todo-poderosa MTV aos seus encantos – 'Smack My Bitch Up' arrecadava não um, mas dois prémios na edição de 1998 dos igualmente influentes Video Music Awards realizados anualmente pelo canal.

Um dos melhores anúncios alguma vez exibidos em Portugal teve música do colectivo

O que ninguém podia prever, no entanto, era que os Prodigy entrassem em hiato menos de dois anos após o lançamento do seu maior êxito discográfico; foi, no entanto, precisamente isto que se passou, com a saída de Leeroy Thornhill, parceiro de Flint na 'linha da frente', a precipitar uma 'pausa' de três anos na carreira do colectivo. O regresso dava-se com 'Always Outnumbered, Never Outgunned', de 2001, álbum de sonoridade pouco característica e, como tal, considerado inferior e algo 'esquecido' na discografia do grupo; o verdadeiro 'som Prodigy' só retornaria, pois, em 'Invaders Must Die', de 2008, que se posiciona como o sucessor natural de 'Fat', não só pela sonoridade mas também por assinalar a reunião dos três membros originais do grupo, com Thornhill a regressar finalmente ao seio da banda. 'Omen' e a devastadora faixa-título são excelentes cartões de visita, mostrando o grupo no seu melhor e juntando-se merecidamente à lista de clássicos dos Prodigy,

Após este lançamento, no entanto, o grupo volta a não conseguir atrair atenções com os próximos dois álbuns, ficando tanto 'The Day Is My Enemy', de 2015, como 'No Tourists', de 2018, restritos apenas a uma audiência de 'fiéis convertidos' – fiéis esses que recebem com choque e horror a notícia da morte de Keith Flint, encontrado sem vida na sua casa em Essex a 4 de Março de 2019. Longe de acabar com a carreira do projecto, no entanto, a morte do vocalista, dançarino e fundador apenas inspira os dois membros restantes do projecto a lançar nova música e a partir em digressão – um objectivo que realizam em 2022, com uma série de dez datas no seu país natal a assinalar um quarto de século sobre o lançamento de 'The Fat of The Land'. E a verdade é que, ainda que esse álbum tenha, sem dúvida, apresentado o grupo a muitos futuros fãs, para outros tantos jovens portugueses, o mesmo continua a ser sinónimo com a música do grupo, e o único elemento da mesma que alguma vez conheceram. Mesmo esses, no entanto, não hesitarão em reconhecer o 'poder de fogo' de 'Firestarter', um dos maiores sucessos musicais entre a 'malta jovem' não só do seu ano, mas de toda a ponta final do século XX.

23.08.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 23 de Agosto de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quase todos os Verões têm uma música - um tema que, de tão omnipresente nas ondas de rádio e na cultura popular, acaba por servir de banda sonora a quase tudo o que se passa durante aqueles quatro meses. As épocas estivais de meados dos anos 90 não foram excepção neste particular, tendo as crianças e jovens da altura tido como 'pano de fundo' sonoro para as suas férias grandes uma sucessão de clássicos 'azeiteiros' ainda hoje apreciados, quase todos inseridos no movimento conhecido como 'europop' ou 'eurodance', de 'Saturday Night' de Whigfield a 'Boom Boom Boom Boom' dos Vengaboys, passando pelo a dada altura inescapável 'Freestyler', dos Bomfunk MCs e, claro, por 'Barbie Girl', o sucesso que apresentou ao Mundo uma banda de estética 'neon' e com uma vocalista de timbre estilo 'balão de hélio', chamada Aqua.

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O que poucos dos jovens que saltaram e deliraram ao som desta música durante aquele Verão sabiam era que essa mesma banda já contava, à época do seu aparecimento na consciência popular, com nada menos do que oito anos de carreira, tendo-se formado em 1989, sob o nome de Joyspeed, então ainda sem a vocalista Lene Nystrom; foi só depois do seu primeiro projecto enquanto grupo - a criação da banda sonora para um filme produzido na sua Dinamarca natal - que o vocalista René Dif (o icónico 'careca' com a ainda mais icónica voz quase caricaturalmente profunda) reparou na sua futura coadjuvante, quando a mesma actuava no 'ferry' de ligação entre a Noruega e a Dinamarca. A vocalista foi, então, prontamente convidada a integrar o projecto, que estabeleceria assim a sua formação definitiva.

Estabelecidos os elementos básicos, o grupo não perdeu tempo a entrar em estúdio para a gravação do seu primeiro 'single'; 'The Itsy Bitzy Spider' seria lançado em exclusivo para o mercado sueco em 1994, mas não conseguiria atingir qualquer tipo de sucesso, perdendo-se na ponta final dos 'tops' locais, e desanimando de tal forma o grupo que o mesmo prontamente cancelaria o contrato vigente que tinham com uma pequena independente daquele país. Felizmente, este primeiro revés não foi, ainda assim, significativo o suficiente para fazer os quatro músicos desistir totalmente do 'sonho' - apenas repensá-lo. Assim, o nome do grupo foi mudado para Aqua, a estética passou a girar em torno das cores vivas e tons 'neon', e a sonoridade tornou-se mais declaradamente 'pop', em vertente puramente 'bubblegum', com músicas assentes em batidas dançáveis e na propositalmente exagerada dicotomia vocal entre o ultra-roufenho Dif (que quase poderia ser o vocalista de uma das muitas bandas de thrash metal da sua região de origem) e o timbre hiper-agudo e infantilizado, ao estilo 'Betty Boop', de Nystrom.

Everdade é que o primeiro fruto comercial desta nova abordagem, a contagiante 'Roses Are Red', granjeou ao grupo o sucesso que lhes escapara sob o seu anterior nome, atingindo vendas de platina na Dinamarca natal do grupo, e permanecendo nos tops locais durante mais de dois meses - registo que o segundo 'single', a quase idêntica (mas ainda melhor) 'My Oh My', viria a eclipsar, atingindo a marca de ouro em apenas seis dias e levando o grupo ao primeiro lugar dos tops dinamarqueses.

Por muito bem-sucedidos que ambos esses lançamentos tivessem sido, no entanto, as suas prestações comerciais viriam a ser largamente eclipsadas pelo êxito meteórico do terceiro 'single' do grupo, 'Barbie Girl'. Viabilizada já depois do lançamento do álbum de estreia do grupo, 'Aquarium', no seu país natal, e também do lançamento internacional de 'Roses Are Red', a faixa serviu de 'cartão de visita' dos Aqua no mercado fonográfico mundial, e a recepção não podia ter sido melhor, tendo a música chegado ao primeiro lugar dos tops musicais do Reino Unido e Austrália, e até conseguido a proeza de entrar no 'top 10' do famoso 'Billboard 100', um feito raro para bandas europeias. Estava dado o mote para um Verão em que não haveria jovem abaixo de uma certa idade que não soubesse acompanhar, de cor, a letra da música, do diálogo inicial do Ken de Dif com a Barbie de Nystrom até ao epílogo, também em registo falado, em que Ken atira um profético 'estamos só a começar'.

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O vídeo de 'Barbie Girl' é tão icónico quanto a própria música

E era, de facto, esse o caso - 'Barbie Girl' representava apenas o início do sucesso dos Aqua, tendo, naturalmente, ajudado a impulsionar as vendas mundiais de 'Aquarium', do qual viriam a ser extraídos nada menos do que mais quatro singles: 'Lollypop (Candyman)' e a fabulosa 'Dr. Jones' (ambas em registo semelhante ao das primeiras canções lançadas pelo grupo) e 'Turn Back Time' e 'Good Morning Sunshine', o tipo de baladas totalmente plásticas que ficavam a um registo vocal de distância de ser uma faixa de Britney Spears - isto além da recuperação de 'My Oh My' para o mercado internacional. O sucesso, esse, era continuado na Europa, e em particular no Reino Unido, onde o grupo igualava as marcas de Westlife e Spice Girls (de quem, paulatinamente, aqui falaremos, tal como de Spears) nas listas de êxitos locais; só os Estados Unidos se mostravam algo 'frios' aos novos esforços do grupo, que foi, naquele país, um verdadeiro 'one-hit wonder', tendo-se eclipsado após 'Barbie Girl'.

Apesar de o sucesso atingido pelo álbum de estreia e respectivos 'singles' indicarem uma carreira longeva e produtiva, no entanto, a mesma situação se viria a comprovar no resto do Mundo aquando do lançamento do segundo álbum do grupo, o confusamente intitulado 'Aquarius', de 2000, que provou o quanto podia mudar em três anos; apesar de ainda ter contribuido um êxito para a lista pessoal do grupo (a auto-consciente 'Cartoon Heroes', que teria cabido perfeitamente no registo anterior) o momento do grupo - e do movimento 'europop' como um todo - havia passado, e os restantes 'singles' retirados do álbum teriam um desempenho relativamente anónimo nos 'tops' mundiais, ditando o final definitivo da onda de sucesso gozada pelo grupo desde o seu 'aparecimento' na cena mundial, em finais de 1996; pouco depois, a braços com um processo judicial da Mattel por uso indevido da sua personagem, a banda viria a separar-se, mas não sem antes registarem uma exibição memorável no Festival Eurovisão 2001, marcado por uma interpretação algo controversa e, digamos, 'adulta', do mega-êxito 'Barbie Girl'.

Não terminaria aí, no entanto, a carreira do grupo, já que os Aqua viriam a reunir-se para uma digressão de Verão, em 2008, aproveitando ainda para disponibilizar a sua segunda compilação de êxitos; mais surpreendente seria o aparecimento, em Setembro de 2011, de um novo álbum, 'Megalomania' - mais de uma década depois do último sinal de vida do grupo!

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'Megalomania', o surpreendente álbum de regresso dos Aqua, lançado em 2011.

Desde então, a carreira do grupo tem-se pautado por uma série de digressões periódicas, que continuam até aos dias de hoje, mesmo depois da saída do guitarrista e membro fundador Claus Noreen. Fãs de 'Barbie Girl' que queiram reviver a nostalgia daqueles anos mais simples podem, pois, assistir a uma prestação do grupo ainda este ano, ou até no próximo, transformando as 'bonecas' do 'europop' num daqueles nomes que parecem perfeitamente satisfeitos em fazer parte do circuito nostálgico do mundo musical; um final honroso para uma banda que, por um ou dois Verões em finais dos anos 90, foi uma das maiores do Mundo para toda uma geração de crianças e jovens...

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