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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

07.02.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos anos 90, como em décadas anteriores, ver ser lançado um disco relativo a um qualquer programa de grande popularidade entre os jovens não era nada de novo. Tal como acontecia com o cinema, e as respectivas bandas sonoras com músicas 'constantes ou inspiradas' no filme em causa, a produção musical era vista como apenas mais um de muitos meios possíveis para facturar com um determinado produto mediático, comparável a aspectos como o vestuário (oficial ou pirata), os brinquedos ou os jogos de computador; e a verdade é que - de programas 'de auditório' com apresentadores carismáticos, como o Buereré, o Batatoon, a Hora do Lecas ou o Muita Lôco, até programas educativos como a Rua Sésamo, ou mesmo alternativas menos óbvias, como as animações d'Os Patinhos ou (reza a lenda) o Dragon Ball Z - foram muitos e bem variados os programas que beneficiaram desta estratégia em Portugal durante aquela época.

Menos comum, no entanto, era ver lançamentos discográficos associados a concursos televisivos, o que não deixa, bem vistas as coisas, de fazer sentido; afinal, é difícil imaginar um álbum de canções baseado na Amiga Olga ou na Roda da Sorte, por exemplo. No entanto, na década a que este blog diz respeito, houve pelo menos um exemplo dessa estratégia a ser aplicada a um programa deste tipo, nomeadamente, os dois LP's com músicas retiradas do programa 'Arca de Noé'.

Verdade seja dita, a 'Arca de Noé', da qual aqui falaremos muito em breve, prestava-se melhor a este tipo de empreitada do que a maioria dos outros concursos, não só por ser declaradamente dirigida ao público infanto-juvenil, como por ser apresentado por Carlos Alberto Moniz, mais tarde também conhecido como Tio Carlos, dono de uma Casa num canal rival, e já na altura um conceituado compositor de músicas para crianças. A junção destes factores – a demografia-alvo do programa e o talento do apresentador – resultou, naturalmente, na produção de vários temas musicais centrados em torno do tema do programa, a saber, os animais e a vida selvagem.

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Foram estes temas, num total de catorze – já contando com duas repeitições do memorável e contagiante genérico do programa, a abrir e a fechar, tal como na televisão – que perfizeram o alinhamento do primeiro LP da 'Arca de Noé', lançado mesmo no dealbar da nova década pela editora Ariola, e que contava com a presença, na capa, do Vitinho, mascote da Milupa, marca associada ao programa na qualidade de patrocinador. Não que o disco precisasse desta 'recomendação' extra para ser, previsivelmente, um sucesso de vendas entre a criançada, vinculado como estava a um dos mais populares programas infantis portugueses da altura.

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Como também seria de esperar, a boa prestação deste primeiro álbum no mercado levou à produção de uma mais que natural sequela. Lançado dois anos depois do original – e com o sucesso do programa-pai ainda no auge, o que diz muito sobre a aceitação do mesmo entre o público-alvo – 'Arca de Noé 2' seguia exactamente os princípios de uma boa sequela, do título óbvio e pouco original à filosofia 'mais e maior', que via duplicar o número de discos deste segundo capítulo, e expandir-se o número de músicas de catorze para vinte e quatro (seis por lado de cada um dos LP's), mais uma vez precedidas e antecedidas por duas repetições do tema-genérico do programa. Ao contrário da maioria das sequelas, no entanto, neste caso o segundo capítulo tinha tanta qualidade como o primeiro, e os volumes de vendas voltaram a reflecti-lo, com o público-alvo novamente a aderir à proposta de Moniz e companhia.

Como disse em tempos George Harrison, no entanto, 'tudo deve passar', e o ciclo da 'Arca de Noé' como ponto alto das tardes de semana das crianças dos anos 90 acabou mesmo por chegar ao fim, antes que o apresentador e respectiva equipa de produção pudessem conceber um terceiro volume de músicas alusivas ao programa. Ainda assim, os dois LP's lançados constituem um excelente exemplo de música infantil de qualidade produzida em Portugal durante aqueles anos, exibindo uma vertente menos simplista e comercial que um título como 'As Canções do Lecas', sem por isso serem menos memoráveis ou atractivas para o seu público-alvo; no fundo, os mesmos princípios que haviam tornado o programa-pai num dos maiores êxitos da televisão infantil de inícios daquela década, ainda hoje lembrado com carinho por quem a ele assistiu. Desse aspecto, no entanto, falaremos num próximo post; até lá, aqui fica um dos melhores temas de qualquer dos álbuns, para vos animar a noite...

24.01.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na década de 90, ser apresentador de programas infantis equivalia, praticamente, a ter o estatuto de celebridade entre a faixa mais nova da população. Dos apresentadores do Clube Disney a nomes icónicos como Ana Malhoa ou Carlos Alberto Moniz, passando pelo elenco da Rua Sésamo ou (mais tarde) pelo palhaço Batatinha, os anfitriões das horas dedicadas à criançada atraíam, muitas vezes, audiências por si só, com o seu carisma e entusiasmo quanto à tarefa de apresentar desenhos animados ou convidados musicais, ou servir de árbitro a jogos.

Este estatuto fazia, naturalmente, com que o referido público se mostrasse, à partida, predisposto a adquirir todo e qualquer produto directamente relacionado com os referidos nomes – em particular, no tocante a registos fonográficos. Das 'Canções da Rua Sésamo' ao disco de Ana Malhoa e Hadrianno ou o primeiro CD de músicas do Batatoon, são inúmeros os exemplos de lançamentos que não deveriam ter resultado, mas que acabaram por se revelar sucessos de vendas.

A esta lista, há que adicionar uma obra menos 'mediática', mas não menos recordada por quem era da idade certa em inícios de 90: 'As Canções do Lecas', o primeiro e único registo discográfico do então mega-popular personagem infantil criado e interpretado por José Jorge Duarte.

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À semelhança dos registos anteriormente mencionados, 'As Canções do Lecas' consiste de doze canções (seis por lado do disco de vinil) de pop-rock dançável, típico da época, com temas relevantes para a faixa etária a que se destinava (como os factos sobre animais, a segurança rodoviária, ou simplesmente uma lista-rol de referências aos mais populares heróis de ficção e banda desenhada da época) e refrões orelhudos trauteados por Lecas na sua voz nasalada, com a ajuda de um coro infantil.

E aqui, há que ressalvar que – ao contrário da maioria dos registos contemporâneos do estilo – quem canta aqui é mesmo Lecas (o personagem de mentalidade infantil que apresentava a popular 'Hora do Lecas' na RTP) e não o seu criador; à semelhança da dupla Batatinha e Companhia alguns anos mais tarde, José Jorge Duarte veste o personagem durante toda a duração do álbum, tanto nas letras como na própria interpretação dos temas. A diferença é que, ao contrário do que acontecia com o CD do Batatoon, estes temas são todos originais, não havendo lugar a quaisquer adaptações de temas 'sacados' a programas infantis de outros países.

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O alinhamento de músicas do álbum

O resultado, diga-se de passagem, salda-se por extremamente positivo, mesmo de uma perspectiva adulta; este é daqueles discos que leva a sério e trata com respeito o seu público-alvo, e como tal, pode ser apreciado como obra musical por direito próprio, ao invés de mero artigo de 'marketing' ligado a uma propriedade intelectual popular.

Infelizmente, e apesar da sua qualidade, este registo não goza, hoje em dia, da popularidade ou volume nostálgico de qualquer dos discos citados acima, tendo um estatuto mais 'de culto' entre quem era fã do programa e da idade certa para o apreciar; uma pena, visto tratar-se de um registo que, como o grupo atrás mencionado certamente atestará, era merecedor de bem maia reconhecimento...

 

 

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