Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

12.03.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Comprar ou receber brinquedos é um dos pontos altos da vida quotidiana de qualquer criança, independentemente da época em que viva. Seja algo mais pequeno e simbólico, como uma boneca ou uma figura de acção, ou um presente 'grande' – normalmente de anos ou Natal – este é daqueles momentos que, por muito que a sociedade mude, nunca deixa de perder o impacto para as gerações mais novas.

O que muitos destes actualmente jovens nunca saberão, no entanto – ou saberão apenas em 'segunda mão', através dos relatos dos pais – é que, nas últimas décadas do século XX, o acto de adquirir um brinquedo tinha, ainda, mais UM aspecto memorável e que adicionava (e muito) à experiência – nomeadamente, o próprio acto de ir à loja escolher o que se queria comprar.

Cristina-Síopa.jpg

Sim, a Saída de hoje tem como destino um bastião da cultura e vida quotidiana infanto-juvenil do século XX, que não sobreviveu à 'viragem' digital do novo milénio: as lojas de brinquedos, na sua concepção tradicional. E por mais difícil que seja às crianças de hoje em dia conceber a existência de um ou mais destes estabelecimentos na maioria dos pequenos centros comerciais situados em bairros urbanos – ou mesmo a existência de brinquedos fora das prateleiras dos supermercados e hipermercados – a verdade é que a geração que tem hoje idade para ser progenitor dessas mesmas crianças passou muito tempo em lojas deste tipo, de boca aberta e olhos a brilhar, a tentar assimilar as possibilidades contidas naquilo que os rodeava.

De facto, as lojas de brinquedos, tal como eram entendidas à época, eram verdadeiros 'baús do tesouro', repletos de sonhos e potenciais brincadeiras, e cujas prateleiras – normalmente apenas meia dúzia, em duas ou três secções – pareciam não ter fim. Nas mais pequenas, este efeito era ainda exacerbado pela disposição anárquica do inventário, normalmente exposto onde havia espaço, independentemente de qualquer lógica – o que resultava, inevitavelmente, em 'pilhas' de brinquedos apenas vagamente relacionados uns com os outros, exactamente como se de um tesouro se tratasse; já as lojas maiores colmatavam a disposição mais organizada dos seus produtos com a presença de consolas, muitas vezes disponíveis para jogos de teste, embora a presença de comandos desligados ou escondidos atrás de um vidro protector fosse também frequente.

Fosse qual fosse a configuração, no entanto, o efeito no público-alvo era o mesmo – algo equivalente ao consumo de açúcar em excesso, que fazia a criança querer comprar tudo o que via, independentemente do preço. E apesar de o produto adquirido ser, na maioria das vezes, de índole menos extravagante (por aqui, por exemplo, era normalmente um conjunto de veículo e mini-figura da LEGO, embora, numa ocasião memorável, se tenha regressado de uma das lojas do nosso bairro com um Game Boy edição especial, verde, e o então novíssimo jogo 'Pokémon Blue') a verdade é que, ao sair de uma loja de brinquedos, a criança deixava intactas todas as possibilidades da mesma, com a promessa mental de voltar muito em breve - e quiçá com mais disponibilidade monetária - para novamente as explorar...

Este efeito foi, aliás, exacerbado a partir de 1993, quando os jovens portugueses ficaram a conhecer esse verdadeiro 'hipermercado dos brinquedos' que os seus congéneres americanos conheciam há já várias décadas: o Toys'R'Us. As primeiras lojas da multi-nacional especializada norte-americana a abrir em Portugal, situadas em Lisboa, e em Vila Nova de Gaia, tiveram sobre o seu público-alvo o previsível impacto, tornando uma 'romaria' periódica a esse mesmo espaço algo obrigatório para quem morava na área - o autor deste blog, por exemplo, visitou várias vezes a loja de Lisboa, situada no espaço do supermercado Carrefour (hoje Continente) na zona de Telheiras.

Isto porque, embora o Toys'R'Us não tivesse o charme e ambiente de 'caixinha de surpresas' das lojas a que a juventude daquele tempo estava habituada, este factor era mais do que compensado por uma loja do tamanho de um hipermercado, mas em que os brinquedos e outros produtos de interesse directo para as crianças, como as bicicletas, não ficavam confinados a apenas uma secção, dominando antes, pelo contrário, todo o espaço; onde o Carrefour, mesmo ali ao lado, tinha roupa, electrodomésticos ou produtos alimentares, o Toys'R'Us tinha brinquedos, bicicletas, jogos de tabuleiro, consolas e respectivos jogos, e muitos outros produtos altamente desejáveis para a demografia que procurava aliciar; e quem visitou este espaço na idade certa, certamente se lembrará da sensação que tal visita provocava, tornando ainda mais deprimente a realidade do desaparecimento da companhia, por motivos de insolvência, em 2019.

Qualquer que fosse o tipo de loja de brinquedos visitado, no entanto, a experiência saldava-se, invariavelmente, como extremamente positiva, e até memorável – afinal, qual a criança que não gosta de ter brinquedos novos, especialmente por si escolhidos? Infelizmente, e como já referimos no início deste texto, esta é, à semelhança de outras Saídas de que aqui falamos, uma visita irrepetível; a loja de brinquedos 'de bairro', como conceito, desapareceu, 'esmagada' pelos hipermercados e pelo vertiginoso crescimento dos retalhistas 'online', como a Amazon. Os poucos estabelecimentos deste tipo que ainda restam têm a tradicionalidade como parte do seu conceito distintivo, ou seja, são especificamente concebidos para evocarem uma loja de brinquedos tradicional, por oposição a serem apenas um negócio de venda de brinquedos, igual a tantos outros, que alguém montou numa loja de segunda-cave de um centro comercial 'à moda antiga'; essas, onde tantos jovens de fins do século XX passaram tantos bons momentos na infância e adolescência, são hoje do domínio exclusivo do 'álbum de retratos' mental que a maioria de nós ainda retém daquele tempo...

30.10.21

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Nas primeiras edições desta rubrica, abordámos o fenómeno dos hipermercados e dos shoppings, e o fascínio que – por factores como a dimensão e a novidade – os mesmos exerciam nos jovens portugueses dos anos 90; hoje, damos conscientemente um passo atrás, a fim de demonstrar como uma ida ao bom e honesto supermercado do bairro podia, também, ser uma experiência divertida e fascinante, ainda que não tão memorável quanto as atrás descritas - até porque bastante mais corriqueira.

451327296_770x433_acf_cropped.jpg

De facto, ao passo que uma ida ao hipermercado implicava, muitas vezes, um planeamento cuidado de todo ou quase todo o dia, a visita ao supermercado fazia-se de forma bem mais espontânea, estando o único planeamento relacionado com a execução de uma lista de compras e uma vista de olhos ao folheto, para perceber onde cada produto se poderia encontrar mais barato. A partir daí, bastava pôr pés a caminho até à sucursal local do supermercado pretendido e adquirir os produtos necessários.

A simplicidade e mundaneidade deste processo escondiam, no entanto, um atractivo adicional para as crianças e jovens mais curiosos. Isto porque os supermercados dos anos 90, muito menos padronizados e mais individuais que os de hoje em dia, escondiam mil e uma surpresas, fossem os carrinhos que apenas se soltavam após a inserção de uma moeda, os expositores de nozes a granel (das quais se conseguiam sempre 'roubar' algumas para a boca) as secções de brinquedos (bem mais pequenas que as dos hipermercados, mas ainda assim de algum interesse) ou até simplesmente produtos bem do agrado das crianças, como bolachas, sobremesas, bolos, iogurtes ou cereais - já para não falar da oportunidade de ajudar os pais ou familiares a procurar cada produto, tirá-lo do expositor e colocá-lo no carrinho, um acto simples, mas que deixava muitos de nós pouco menos que ufanos da nossa utilidade.

Para as crianças mais pequenas, havia ainda o divertimento de se sentar dentro do próprio carrinho e ser 'conduzido' numa visita guiada às prateleiras, sendo que alguns supermercados incorporavam mesmo uma área para este fim nos seus carrinhos, talvez a fim de evitar que as crianças tivessem de se sentar na área destinada às compras. No fim da visita, para os mais bem comportados, havia ainda a (forte) possibilidade de ser presenteado com um doce – como um chupa-chupa, um chocolate, um pacote de Sugus ou uma simples pastilha – ou uma banda desenhada, como recompensa pela maturidade demonstrada. Razões mais do que suficientes para considerar a simples e singela visita ao supermercado da esquina, na companhia dos pais ou avós, como parte integrante da experiência da infância, quer nos anos 90, quer hoje em dia.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub