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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

03.08.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de a banda desenhada de maior popularidade em Portugal durante o período a que este blog diz respeito ser, maioritariamente, estrangeira – oriunda do Brasil, Estados Unidos ou do eixo França-Bélgica – existiram ainda assim, nessa época, alguns autores nacionais que se destacaram, ou que já possuíam uma bem merecida fama. Nesta mesma rubrica, já falámos, aliás, de alguns deles, como Carlos Roque, António Jorge Gonçalves e Fernando Relvas, chegando agora a altura de juntar mais um nome a essa lista – o de Luís Louro.

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Apesar de as suas bandas desenhadas serem dirigidas, sobretudo, a um público mais adulto, que talvez já não faça parte da demografia que habitualmente lê este blog, a carreira de Louro foi notável o suficiente para lhe granjear a presença nestas páginas – quanto mais não seja por o desenhista ter sido o co-criador de uma das mais emblemáticas séries de BD portuguesas de sempre, 'Jim del Mónaco' (paródia do herói franco-belga 'Jim das Selvas', de Alex Raymond, desenhado no mesmo estilo), que assinou em parceria com o argumentista Tozé Simões durante a segunda metade dos anos 80, e cujos quatro álbuns viriam a ser relançados pelas Edições Asa no inicio da década seguinte; o sucesso desta série levaria, aliás, a novas parcerias entre Louro e Simões, que criariam em conjunto a dupla de personagens Roque & Folque, para os quais elaborariam três aventuras no início dos anos 90, e ainda 'O Janeirinho', publicado no defunto jornal 'Primeiro de Janeiro' em 1990.

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Um dos álbuns de 'Jim del Mónaco'

É, também, no início da referida década que Louro se decide lançar como artista a solo – e, desde logo, com um dos álbuns mais emblemáticos da BD nacional, 'O Corvo', de 1993, sobre um homem que se transforma na ave homónima; segue-se, dois anos depois, 'Alice na Cidade das Maravilhas' – uma reinvenção muito pouco politicamente correcta da obra de Lewis Carroll, com uma Lisboa fantasiosa como cenário de fundo – e, em 1997, 'Coração de Papel', obra que se destaca pela sua palete de cores outonais. Pelo meio, o desenhista colaborou, ainda, no álbum colectivo 'Síndroma de Babel', uma iniciativa da Câmara Municipal da Amadora lançada em 1996, e colabora com ilustrações para meios tão variados como os jornais 'Primeiro de Janeiro' e 'O Académico', as revistas Visão e Valor, os Festivais de BD de Lisboa e da Amadora, e até um disco dos heróis do 'power/thrash metal' português, Ramp!

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Capas do primeiro volume de 'O Corvo', álbum emblemático da BD portuguesa, e do álbum 'Insurrection', dos Ramp, onde a imagem do protagonista é reutilizada

Após 'Coração de Papel', Louro decide virar-se para as histórias curtas, de aproximadamente três páginas, as quais almeja publicar na primeira série da pouco duradoura revista 'Ego' e, mais tarde, na significativamente mais popular 'Selecções BD', da responsabilidade da Meribérica-Liber, editora que viria, já em 2000, a reunir todas essas histórias em álbum, sob o título 'Cogito Ergo Sum'. Também em 2000, mas pelas Edições ASA, é lançado 'O Halo Casto', uma parceria entre Louro e o também histórico argumentista Rui Zink.

A viragem para o novo milénio em nada afecta a produção ou popularidade de Louro, que encontra nova casa na emergente editora Booktree e lança dois álbuns em dois anos – o segundo volume de 'Cogito Ergo Sum', em 2001, e 'Eden 2.0', no ano seguinte, aqui em parceria com dois argumentistas, João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos. Ainda em 2002, participa numa colecção de postais de Natal ilustrados por desenhistas de BD, e em 2004, ilustra o 'ABC das Coisas Mágicas em Rima Infantil', de Rosa Lobato de Faria; entretanto, em 2003, é lançado o segundo volume de 'O Corvo', novamente pelas Edições Asa, seguindo-se um terceiro, em 2007, este com argumento de um Nuno Markl em estado de graça.

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Capa de 'Laços de Família', terceiro álbum d''O Corvo', com argumento de Nuno Markl

Após 'Laços de Família', o terceiro 'Corvo', a carreira de Luís Louro entra, no entanto, num aparente hiato, sendo preciso esperar onze anos para ver ser lançada nova obra do desenhista, 'Watchers' novamente pelas Edições Asa. Segue-se, no ano seguinte, 'Sentinel', pela mesma editora, antes de Louro iniciar uma fase prolífica, como que para recuperar o tempo perdido: nos três anos seguintes, são publicadas nada menos do que OITO obras do autor, incluindo dois novos tomos de 'O Corvo', duas reedições de 'Alice', e nova parceria com o velho aliado Tozé Simões, em 'Universo Negro', um lançamento de 2020 da Escorpião Azul. Toda esta actividade parece indicar um segundo fôlego na carreira daquele que é um dos nomes maiores dos 'quadradinhos' portugueses, restando aos seus muitos fãs aguardar para ver o que a mente do desenhista lhes reserva em anos vindouros – podendo, entretanto, deliciar-se com 'Dante' e os dois volumes d''Os Covidiotas', as duas últimas mostras de que a inspiração voltou mesmo a bafejar este histórico da BD nacional...

08.06.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Conforme já mencionámos em edições anteriores desta rubrica, não era, de todo, prática incomum entre os jornais e até revistas nacionais dos anos 90 editarem um suplemento de banda desenhada. Foi assim com publicações tão díspares quanto o Expresso e a TV Guia, e foi também assim com aquele que continua a ser um dos maiores periódicos do nosso País, o Diário de Notícias.

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Capa do número 1 do suplemento, editado em Fevereiro de 1990

O suplemento em causa, editado em inícios da década (a primeira edição data logo de 11 de Fevereiro de 1990) e patrocinado pelo então super-popular sumo Um Bongo, tinha a singela mas descritiva designação de 'BDN' (um jogo de palavras bem conseguido entre a abreviatura da expressão 'banda desenhada' e a do próprio jornal) e adoptava o mesmo formato de publicações como 'Tintin' ou a revista 'Selecções BD', da Meribérica-Liber, apresentando semanalmente tranches de histórias de heróis, sobretudo, franco-belgas, dos bem conhecidos Astérix, Spirou ou Michel Vaillant à adaptação em banda desenhada das aventuras de 'Os Cinco' (de Enid Blyton); pelo meio, havia ainda espaço para divulgar alguns autores e 'cartoonistas' nacionais, como Ruy, responsável pelas duas edições especiais publicadas pelo suplemento, a primeira sobre a vida de Charlie Chaplin, e a segunda uma adaptação de 'Como Apareceu O Medo', um dos contos incluídos n''O Livro da Selva', de Rudyard Kipling - este último mais tarde editado em álbum pela própria Editorial Notícias.

No fundo, sem diferir muito de outros suplementos do mesmo tipo – a única particularidade eram mesmo os títulos licenciados – o 'BDN' não só não deixava de proporcionar aos jovens daquele tempo algo com que se entreter enquanto os 'mais crescidos' liam o resto do jornal, como lhes proporcionava material de qualidade e de verdadeiro interesse para a demografia em questão, algo que nem sempre ocorria com este tipo de suplementos; assim, e apesar de hoje em dia se encontrar algo 'Esquecido Pela Net' (o único registo existente é no 'site' da Bedeteca, de onde foi retirada a ilustração deste post) este suplemento acaba por justificar estas breves linhas memoriais, que – espera-se – ajudarão a avivar muitas memórias relativamente ao mesmo.

29.12.21

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os filmes da Disney têm sido, quase desde a sua popularização, sucessos absolutos entre a população infanto-juvenil, seja nas salas de cinema ou no circuito 'home video'; assim, não é de surpreender que rapidamente tenham surgido variações e alternativas a estes mesmos filmes, a maioria das quais oriunda do seio da própria Walt Disney. De adaptações áudio (das quais paulatinamente falaremos) a jogos e programas de computador alusivos aos diferentes filmes, foram muitos os produtos adjacentes lançados pela companhia entre o final da década de 80 e o início do novo milénio - e, de entre estes, um dos filões mais explorados foi precisamente a adaptação em banda desenhada dos filmes e séries animados lançados pela companhia.

A esse propósito, já aqui falámos da colecção ´Álbuns Disney´, que reunia histórias paralelas protagonizadas por alguns dos mais populares personagens áudio-visuais da companhia, publicadas na americana 'Disney Adventures' e subsequentemente traduzidas para português; no entanto, em finais da década a que este blog diz respeito, um dos principais diários portugueses expandiu ainda mais este conceito, apresentando uma colecção de adaptações directas e integrais de cada um dos filmes até então lançados pela Walt Disney Company, que tinham como principal particularidade o facto de serem bilingues, com cada conjunto de duas páginas a conter exactamente as mesmas ilustrações, diferindo apenas o idioma em que o texto estava redigido - de um lado em Português, do outro, em Inglês.

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A colecção integral

Veiculada em conjunto com o Diário ou Jornal de Notícias (embora, conforme era hábito com as colecções e suplementos dos jornais da época, também pudesse ser adquirido separadamente, mediante pagamento de uma quantia fixa) a série de clássicos Disney em banda desenhada bilingue teve ao todo treze volumes, os quais englobavam uma selecção algo anárquica de filmes entre os que haviam sido lançados pela companhia à época, sem lugar a quaisquer considerações cronológicas ou de completismo; para se ter uma ideia, a colecção começava com 'Toy Story - Os Rivais' (o filme mais recente dos incluídos na série), aparecendo 'Branca de Neve e os Sete Anões' (o primeiro filme Disney de sempre) e 'Pinóquio' (o segundo) apenas no terceiro e quarto números, já depois de '101 Dálmatas'. Os restantes volumes seguiam a mesma toada, com 'Aladino' entre 'Peter Pan' e 'Bambi' e 'Pocahontas' antes de 'O Rei Leão', que encerrava a série.

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A lista incluída no verso de cada volume ilustrava bem a ordenação anárquica da colecção

Nada, no entanto, que beliscasse a qualidade da série, que apresentava desenhos ao estilo 'Disney Adventures' e textos que adaptavam fielmente (ainda que por vezes com menos diálogos) os guiões dos filmes em causa. Quando combinados com um grafismo cuidado e encadernação mais próxima dos álbuns franco-belgas do que do habitual formato 'gibi' favorecido pela Editora Abril, estes elementos faziam com que valesse bem a pena investir nesta colecção, especialmente para quem quisesse aprender ou ensinar inglês a um público infanto-juvenil de forma divertida e interessante. De facto, o sucesso desta série poderá ter estado na génese de uma outra empreitada pelo ensino de línguas com chancela Disney, da qual falaremos aqui muito em breve; para já, aqui fica a merecida homenagem a uma excelente colecção de livros infantis, de uma altura em que as colecções oferecidas como brinde pelos jornais eram, por vezes, quase mais interessantes do que os próprios conteúdos dos mesmos...

03.09.21

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 2 de Setembro de 2021.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Os anos 90 foram (em Portugal e não só) uma ‘época de ouro’ para o jornalismo especializado ou ‘de sector’. Fosse no campo dos jogos de computador e consola, desportivo ou (como veremos hoje) da música, poucos ‘hobbies’ e áreas de interesse havia que não tivessem pelo menos uma publicação a eles dedicada.

No caso da ‘cena’ musical, essa publicação era, sem qualquer margem para dúvidas, o jornal Blitz, uma espécie de ‘NME à portuguesa’ que – ali por meados da década que nos concerne – tinha popularidade suficiente para ditar opiniões no que tocava a novos lançamentos, tanto nacionais como internacionais.

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Inaugurado ainda na década de 80 – mais concretamente em 1984 – foi, no entanto, no decénio seguinte que esta publicação atingiu o auge da sua fama e popularidade, transformando-se em compra semanal (ainda mais) obrigatória para entusiastas de música de todas as idades, e espalhados um pouco por todo o país. Isto porque, para além de ser único e pioneiro na sua época, o Blitz não discriminava em termos musicais, oferecendo literalmente um pouco de tudo, desde o pop-rock ‘indie’ que fazia furor no ‘mainstream’ da altura até géneros mais de nicho, como o alternativo, o heavy metal ou a música de dança; melhor, qualquer que fosse o estilo abordado, os jornalistas da publicação mantinham-se, invariavelmente, imparciais. Ou seja, se fosse para falar bem, falava-se bem; mas se fosse para ‘bater’, ‘batia-se’ – e bem. Era esta atitude declaradamente imparcial, aliada a uma enorme qualidade jornalística em todas as frentes, que tornava o Blitz na referência que era para a juventude melómana dos anos 90.

Mais, o ‘universo’ da revista não se cingia apenas à música, estendendo-se também a áreas periféricas de interesse dos jovens, como a moda e a arte; havia, até, uma secção onde os leitores podiam dizer o que lhes ia na alma, sob a forma de ‘Pregões e Declarações’, muitas vezes de carácter alternativo ou até subversivo. Ou seja, uma publicação feita à medida do seu público, e que gozou, sem surpresas, do sucesso correspondente.

Claro que, como tudo o que faz sucesso em qualquer era da História, também o Blitz teve, durante aquela época, os seus imitadores – em particular, havia um jornal que imitava em tudo a publicação, desde o logotipo ao grafismo, mas cujo conteúdo ficava muito aquém dos altos padrões exibidos pelo Blitz. Sem qualquer surpresa, nenhum destes ‘seguidores’ atingiu alguma vez o estatuto de culto do original, e – ao contrário deste - todos foram rapidamente esquecidos pela juventude nacional.

O próprio Blitz se veria, com o passar dos anos e o evoluir da indústria, obrigado a mudar a sua abordagem editorial, primeiro através de uma relativamente inocente ‘lavagem de cara’ a nível gráfico, e depois de forma mais drástica, abandonando o formato que adoptara durante quase vinte anos e sofrendo uma ‘mudança de pronomes’ – de O Blitz, jornal, passava a A Blitz, revista.

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Exemplo do formato revista que a publicação apresentou no novo milénio

É  esta publicação (infelizmente, de cariz muito mais corriqueiro do que o seu antecessor) que se vai ainda encontrando (com cada vez menos frequência) nas bancas portuguesas, embora muito do seu actual âmbito se situe no universo digital. Para a memória fica aquela publicação física que, durante pelo menos duas décadas, moldou as opiniões sobre música de toda uma geração de amantes de música em Portugal – incluindo, suspeitamos, muitos dos leitores deste blog…

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