03.03.26
A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.
No tocante a títulos icónicos para a PlayStation original, 'Final Fantasy VII' surge nos lugares cimeiros da lista de muitos 'gamers' de finais dos anos 90 e inícios do seguinte, ao lado de jogos como 'Metal Gear Solid' ou 'Gran Turismo'. E esse estatuto é justificado, já que o jogo em causa se afirmou revolucionário para a época em que saiu, tanto a nível gráfico como de história e até jogabilidade, tendo sido um dos grandes responsáveis por introduzir toda uma geração ao género conhecido como 'JRPG', ou 'Japanese role-playing game'. Não é, pois, de surpreender que, face ao estrondoso sucesso conseguido por esse título, a Sony e a Square Enix rapidamente iniciassem o processo de desenvolvimento de uma sequela; o que seria talvez menos de esperar era que o referido jogo fizesse um esforço declarado para se demarcar do seu antecessor, e acabasse a disputar com este o título de melhor episódio de 'Final Fantasy' até então.


Falamos, claro, de 'Final Fantasy VIII', sobre cujo lançamento europeu para a consola da Sony acabaram de se celebrar há cerca de duas semanas os exactos vinte e seis anos, e que, numa decisão surpreendente e corajosa, abandonava o estilo tipicamente 'anime' do seu antecessor em favor de gráficos foto-realistas, mais próximos de 'Shenmue' do que dos olhos grandes e penteados 'em bico' do sétimo episódio. Também curiosamente, essa demarcação acabava por ser, sobretudo, cosmética, já que a história de 'VIII' tem bastas semelhanças com a de 'VII', apresentando mais um personagem principal integrante de um grupo de mercenários e que acaba por se envolver num romance com um membro da sua equipa; a diferença estava, sobretudo, no tom da trama, bem mais adulto e sombrio do que no jogo de Cloud e Tifa, e que motivou, à época, muitas 'piadolas' sobre o protagonista, Squall, ser gótico (ou, como se viria anos mais tarde a chamar, 'emo' ), uma impressão que o trabalho de dobragem não ajudava, de todo, a dissipar, antes pelo contrário.
Detalhes à parte, no entanto, é inegável que 'Final Fantasy VIII' foi um 'tremor de terra' de apenas ligeiramente menor impacto que o seu antecessor no tocante à indústria interactiva da altura, agregando, como aquele, o consenso de crítica e público, e tornando-se um sucesso quase instantâneo de vendas; e se, a longo prazo, Cloud e companhia acabariam por reter maior expressividade no seio da cultura popular, Squall e Rinoa mantêm ainda assim um lugar no 'pódio' de personagens, que partilham ainda com o elenco de 'Final Fantasy X', primeiro capítulo lançado directamente para PlayStation 2 e talvez o único outro título da série a gozar do estatuto de culto dos dois primeiros jogos para 32-bits.


Tal situação acaba, aliás, por prejudicar o capítulo 'entalado' entre estes três 'colossos', o qual, apesar de também bastante considerado entre os fãs de 'JRPG', esteve longe de almejar o estatuto disruptor dos seus dois congéneres. Também acabado de celebrar um quarto de século no mercado europeu (a versão para PSX sairia quase exactamente um ano após o lançamento de 'VIII', em Fevereiro de 2001), 'Final Fantasy IX' regressa ao estilo mais 'animado' de 'VII', e destaca-se por apresentar um protagonista de moral mais dúbia que os seus antecessores – um soldado mercenário que, nos primeiros momentos do jogo, acaba de raptar a princesa do reino vizinho, com o qual a sua nação se encontra em guerra. Em conjunto com o mundo mais medieval, este detalhe ajudava o novo título a demarcar-se dos antecessores, que se passavam em ambientes mais futuristas, e a estabelecer ligação com os primeiros títulos da franquia, lançados ainda na era dos '8-bit'.
Infelizmente, e como já referimos, o nono capítulo da saga ficaria longe do estatuto icónico tanto dos dois antecessores quanto do título seguinte – o que, claro, não invalida que tenha sido um sucesso, e alvo de 'remasterização' para as consolas de nova geração, em conjunto com os outros títulos mencionados. Quanto à saga 'Final Fantasy' em si, a mesma seguiria 'de vento em popa', continuando até aos dias de hoje; no entanto, poucos dos subsequentes jogos da série lograriam o mesmo sucesso dos lançados na 'viragem de Milénio', os quais continuam, ainda hoje, a ser vistos como alguns dos melhores RPG (senão mesmo alguns dos melhores jogos) de sempre, merecendo plenamente esta homenagem (ainda que um pouco atrasada) no final do mês em que se assinalou o lançamento de ambos no mercado europeu.

































