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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

29.05.22

NOTA: Este post é respeitante a Sábado, 28 de Maio de 2022.

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

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Poucos eram tão valentes quanto o Cebolinha está a ser neste desenho...

Os anos da pré-adolescência marcam o período em que a maioria das crianças tem, pela primeira vez, consciência da existência de sentimentos especiais e particulares em relação a outros indivíduos, na grande maioria das vezes do sexo oposto – os quais, uma vez apercebidos, são imediatamente processados e exteriorizados de uma variedade de maneiras.

Nos anos 90, uma das formas mais populares de lidar com estes novos e desconhecidos sentimentos – pelo menos dentro de certos grupos ou instituições de ensino – era o jogo conhecido como 'Bate-Pé' (ou 'Bate-O-Pé'), uma actividade que parecia propositalmente desenhada para testar não só as afinidades românticas, como também os limites da bravura e da vergonha dos jogadores. Senão veja-se; o conceito do jogo consistia na divisão dos jogadores conforme o sexo, cabendo à parcela masculina escolher de entre uma série de números de um a seis, cada um associado a uma determinada acção, estando as mesmas agrupadas em ordem crescente, do casto aperto de mão representado pelo 'um', até aos números que apenas os mais valentes escolhiam – 'cinco' para um beijo na boca, e o quase impensável 'seis', correspondente a um beijo com língua. Cada uma destas acções era, então, proposta à rapariga da escolha do jogador ('cinco à Marta', 'três à Inês', etc.) podendo a mesma aceitar a proposta, ou recusá-la, mediante o gesto que dava nome ao jogo.

Escusado será dizer que esta premissa resultava, inevitavelmente, numa panóplia de momentos e situações, de actos de inesperada bravura (por aqui, tentou-se uma vez pedir um 'cinco') a momentos de embaraço e humilhação quando a proposta era recusada pela rapariga escolhida; nada, no entanto, que desencorajasse as crianças daquele tempo – bem mais desprendidas em questões desse tipo do que as actuais – de levarem a cabo nova sessão do jogo no intervalo ou dia seguintes; afinal, quem sabe, talvez dessa vez a pessoa por quem se nutriam sentimentos se sentisse benevolente, e resolvesse aceitar a proposta que lhe era feita...

14.05.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Como já ficou demonstrado em edições anteriores desta rubrica, os jogos de rua e de recreio constituíam uma das mais populares distracções para as crianças de uma certa idade durante os últimos anos do século XX e primeiros do seguinte, rivalizando com a bicicleta, o skate ou os patins em linha, e tendo sobre estes a vantagem de não requererem a compra de equipamentos caros para serem desfrutados; pelo contrário, a maioria era perfeitamente executável sem recurso a qualquer apetrecho, e mesmo os restantes não requeriam mais do que uma bola ou um pedaço de corda ou elástico.

Não eram, no entanto, apenas os equipamentos necessários que eram simples; a maioria destes jogos partia de uma premissa básica, e adicionava-lhe apenas o número suficiente de regras para que se tornasse divertido e funcional. Um dos melhores exemplos disto mesmo é um dos jogos mais populares entre os rapazes da época, que misturava a habitual demonstração de habilidade a um enorme potencial para a 'violência regrada' que tanto agrada a essa demografia.

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Falamos do vulgarmente chamado 'jogo da parede', uma competição com que qualquer grupo de jovens com uma bola podia ocupar um intervalo, ou até parte de uma tarde. As regras, conforme referido acima, eram da mais pura simplicidade: na referida parede, demarcavam-se linhas imaginárias, que constituíam uma espécie de baliza, tendo os jogadores de, à vez, pontapear a bola contra a parede de modo a que a mesma acerte dentro das linhas estabelecidas. Um jogador cujo 'tiro' saisse ao lado, ou por cima, da zona demarcada era obrigado a ir para a parede, passando ele próprio a ser o alvo dos 'chutos' dos colegas. Este processo era, naturalmente, repetido até restar apenas um jogador do lado 'de cá' da parede, o qual era declarado vencedor.

Um jogo com tudo para agradar à demografia masculina, portanto, visto apresentar uma mistura entre futebol e tiro ao alvo (ou o também muito popular 'jogo do mata') que apelava tanto à veia competitiva como à mais sádica, até porque a bola não precisava necessariamente de ser de futebol (quem não participou num jogo da parede em que era usada uma bola de basquetebol ou voleibol não sabe a sorte que teve); menos previsível era o facto de este jogo agradar também, muitas vezes, a raparigas, que se mostravam jogadoras tão ou mais letais do que os seus pares do sexo oposto!

Ao contrário de muitos dos jogos aqui abordados, é pouco provável que o jogo da parede tenha passado de moda; embora não possamos confirmar a cem por cento, é de crer que esta simples mas eficaz diversão continue a ter lugar nos recreios portugueses da década de 2020, e que ainda hoje haja que se reveja na experiência de ser enviado para a parede, e se depara com os colegas, com um brilhozinho maldoso nos olhos, a tirarem-lhe as medidas no momento de chutar...

05.02.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Como o nosso post sobre os jogos tradicionais cabalmente demonstrou, nem sempre são necessários acessórios sofisticados para uma criança se conseguir divertir com os amigos numa tarde de sol; de facto, do futebol de rua ao salto à corda, passando pelo elástico que inspira o jogo do mesmo nome, são muitas vezes os brinquedos e brincadeiras mais simples que mais minutos de diversão proporcionam neste tipo de situação, explicando a sua popularidade continuada e universal entre as demografias mais jovens. O conjunto de jogos de que falamos hoje dá ainda mais validade a esta linha argumentativa; porque a verdade é que, independentemente da idade, sexo ou nacionalidade, difícil será encontrar um cidadão ocidental que não os tenha jogado pelo menos uma vez, num recreio de escola, parque ou jardim solarengo.

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Uma visão universal e intemporal

De facto, os jogos de 'palminhas' – aqueles jogados com um parceiro, e que envolvem a coordenação entre as duas partes a fim de completar uma espécie de 'coreografia' manual que acompanha uma cantilena – estão entre os poucos assuntos abordados neste blog que podem ser considerados, verdadeiramente, intemporais; enquanto que a maioria das modas acaba por rapidamente passar, e a maioria dos brinquedos por cair, eventualmente, na obsolescência, é perfeitamente possível passar por qualquer escola do país (e não só) nos dias que correm, e ver duas ou mais crianças sentadas ou ajoelhadas uma em frente à outra, com as mãos ao nível do peito e as palmas viradas para fora, prontas a iniciar a complexa série de movimentos respeitante a seja qual for a récita por que optaram – precisamente como o haviam feito os seus pais, avós e até bisavós ao longo do anos.

As próprias cantilenas que acompanham os jogos são, elas mesmas, escolhida de entre uma série praticamente imutável de opções, que qualquer ex-criança será, com certeza, capaz de enumerar; do 'Popeye' ao 'Toyota' ou 'Dominó', estas pequenas composições quase 'nonsense' acompanham os respectivos jogos de uma geração para a seguinte, num daqueles processos de transmissão oral quase por osmose de que os jogos tradicionais de recreio são, regra geral, exemplo. Ninguém precisa que lhe seja formalmente explicado como jogar ao 'Popeye' – mesmo para a mais leiga das crianças, basta uma rápida explicação da parte de quem já tenha jogado, sendo que o resto vem com a prática.

Uma característica curiosa da maioria destes jogos é o seu carácter cooperativo; ao contrário da maioria dos restantes jogos de recreio – e com excepção do também clássico jogo da 'sardinha', uma espécie de versão competitiva dos jogos de que aqui se fala – estas brincadeiras envolvem um esforço conjunto por parte de ambos os jogadores, a fim de atingirem um objectivo comum – no caso, o fim da cantilena. Só isto já os torna distintos entre o leque de diversões de exterior disponíveis para a maioria das crianças, posicionando-os ainda como uma excelente alternativa para quem não gosta de competir (ou perder...) e prefere, tão-sómente, testar as suas habilidades, e ajudando a explicar a sua intemporalidade. E apesar de poder ser considerado 'batota' falar neste blog de um jogo cujo contexto não é específico ou restrito aos anos 80, 90 ou inícios de 2000 (nem, tão-pouco, a Portugal em particular) que atire a primeira pedra quem, em pequeno, nunca jogou estes jogos e, já adulto, tentou ensiná-los aos seus filhos...

24.10.21

NOTA: Este post corresponde a Sábado, 23 de Outubro de 2021.

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

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Qualquer criança que interaja pelo menos uma vez com um grupo da sua faixa etária adquire conhecimentos e herda tradições que ninguém sabe muito bem de onde vieram, nem como foram perpetuados, mas que toda a gente sabe como funcionam; e nenhum exemplo ilustra melhor este fenómeno do que os jogos infantis, nomeadamente os disputados na rua, que se afirmam como verdadeiros estudos de caso no que toca à transmissão de conhecimentos adquiridos entre as crianças.

Quer o futebol de rua, nas suas diferentes permutações – 'baliza a baliza', 'toques'. 'todos contra todos', fintas, penalties – quer os jogos mais convencionais, como a 'Macaca', 'Mamã Dá Licença', 'Barra do Lenço', 'Estátuas', 'Macaquinho do Chinês', elástico, corda, futebol humano, apanhada ou escondidas, são brincadeiras que qualquer criança, de qualquer época, soube e sabe jogar, sem precisar de ser ensinada. Sim, as regras podem por vezes variar – levando a situações de algum desconforto quando se joga com um grupo diferente do habitual e as regras a que estamos habituados passam a ser consideradas 'batota' – mas a essência da brincadeira permanece a mesma, e é conhecida e compreendida sem ser necessária qualquer explicação.

No futebol, por exemplo, podem ou não valer 'bujas', mas o jogador mais fraco continua a ir à defesa, e o mais gordo à baliza; na apanhada ou escondidas, a récita a declamar à chegada ao 'coito' pode variar, mas a acção de bater com a mão no local designado antes de quem está a apanhar continua a dar ao jogador o direito de 'salvar todos', e iniciar uma nova ronda de jogo. Estas são convenções ancestrais, já observadas pelos nossos pais ou avós, e que continuarão certamente a ser observadas pelas gerações vindouras – isto, claro, se todas estas brincadeiras não se tornarem, entretanto, estritamente virtuais...

Seja qual for o futuro destes jogos, no entanto, restam algumas certezas; por um lado, que os mesmos se continuarão a afirmar como estudos de caso para a transmissão inata e oral de tradições e conhecimentos inatos, e por outro, que nada conseguirá apagar a memória de muitos bons momentos vividos em disputas renhidas de um ou vários dos mesmos, fosse durante o recreio, no bairro após a escola ou, sim, durante um Sábado aos Saltos...

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