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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

03.02.24

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Já aqui anteriormente falámos dos jogos tradicionais de rua, cujas regras e rituais são passados de uma geração para a seguinte quase que como por osmose, não havendo, até hoje, nenhuma 'leva' de crianças que não os saiba, instintivamente, jogar; chega, agora, a hora de falar de uma outra actividade, adjacente embora não pertencente a esse grupo, mas que partilha muitas das características do mesmo – as brincadeiras de roda.

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Embora menos populares do que jogos como as escondidas, apanhada, 'Macaquinho do Chinês' ou 'Mamã Dá Licença' – e embora se encontrassem já em declínio em finais do século XX – os jogos de roda foram, ainda, a tempo de divertir a maioria das crianças da geração 'millennial', que terão tido contacto com uma actividade deste tipo pelo menos uma vez na vida, quer organicamente, quer através de actividades de grupo (era surpreendentemente popular como exercício de aquecimento em grupo em aulas de artes marciais para crianças, por exemplo) ou aulas de Educação Física. E se estas últimas insistiam, muitas vezes, no formato tradicional (excluindo, apenas, as características músicas que se cantariam se a roda fosse feita no recreio), as brincadeiras mais espontâneas tinham, na maioria das vezes, alguns desvios, como a adição de jogos de palminhas em permeio à roda em si, transformando o jogo numa espécie de 'dois-em-um' de brincadeiras de recreio, e tornando-o, assim, automaticamente mais interessante do que as rodas 'à moda antiga' que divertiam os pais e avós das crianças dos 'noventas'.

Escusado será dizer que, ao contrário do que aconteceu com alguns dos outros jogos seus contemporâneos, as rodas nunca chegaram a desfrutar de um regresso à popularidade, havendo hoje em dia muito poucas crianças que sequer saibam do que se trata tal conceito; cabe, pois, aos ex-jovens daquela época não deixar cair no esquecimento esta brincadeira nostálgica que, sem nunca ser 'primeira escolha', era ainda assim capaz de proporcionar bons momentos durante um Sábado aos Saltos.

16.09.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui, recentemente, abordámos os métodos de escolha utilizados pelas crianças de finais do século XX (e não só) para escolherem quem começava um dos muitos jogos de exterior ainda sobejamente praticados naquela época; no entanto, havia, na mesma altura, uma outra prática enraizada entre o mesmo sector demográfico, e aplicada de forma tão ou mais inata, embora num contexto ligeiramente diferente – o método conhecido como 'roda-bota-fora'.

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O futebol de rua é um dos jogos onde o método é mais frequentemente utilizado.

Utilizado, sobretudo, no contexto de jogos de índole desportiva, como o pingue-pongue, o futebol ou o basquetebol, este método tão simples como eficaz era posto em prática sempre que se verificasse haver um número excessivo de praticantes ou equipas para a actividade em causa – três equipas para um jogo 'com bola', ou três jogadores para um jogo de pingue-pongue um-contra-um, por exemplo. O método em si consistia, simplesmente, em 'eliminar' a equipa ou jogador que perdesse a primeira partida, e substituí-los pelo elemento que se encontrava de fora, passando os perdedores a ficar 'de lado', à espera, enquanto se desenrolava novo jogo entre os restantes participantes; este ciclo podia, depois, continuar infinitamente até terminarem os jogos, ou até existir um número par de participantes, caso em que se passariam, potencialmente, a desenolar múltiplas partidas de uma só vez, tendendo a brincadeira a assumir, nesta altura, contornos de 'mini-torneio'.

De referir que, enquanto que algumas actividades previam o ponto de término de um jogo nas próprias regras (caso do pingue-pongue, que terminava normalmente aos dez, quinze ou vinte e um pontos, ou sempre que se verificasse um 'capote') outros obrigavam a determinar um objectivo específico para a vitória, normalmente ligado a um determinado número de golos ou pontos, ou atingido mediante o clássico 'o próximo a marcar ganha'. Tal como tantas outras 'regras' do recreio, estes parâmetros raramente eram contestados, excepto por motivos de falta de tempo (por exemplo, no contexto de um intervalo de dez ou quinze minutos), devendo qualquer participante que pretendesse jogar obedecer às regras já muitas vezes pré-estabelecidas.

É de crer que, à semelhança dos outros métodos de selecção que abordámos, a 'roda-bota-fora' continue a ser utilizado em recreios de Norte a Sul do País; afinal, trata-se de um método simples, prático e justo de envolver o máximo de participantes possível numa actividade desportiva, já testado por múltiplas gerações de jovens, e com resultados comprovados. Caso não seja esse o caso, no entanto (e mesmo que ainda o seja) nunca é demais recordar mais um dos 'conhecimentos inatos' de que as gerações de crianças de finais do século XX fizeram uso durate os seus Sábados aos Saltos.

02.09.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Apesar das rápidas mudanças sociais, culturais e tecnológicas verificadas em finais do século XX, o Portugal dos anos 80 e 90 continuava, particularmente nas zonas rurais, a contar com uma série de ligações às décadas transactas, quer a nível de festividades e tradições, quer mesmo de brincadeiras. E se os baloiços de pneu, os jogos tradicionais ou brincadeiras como os berlindes ou o pião ainda contavam com alguma tracção mesmo em ambientes mais urbanos, outros elementos havia que já se cingiam, quase exclusivamente, ao Portugal rural; e, destes, um dos mais conhecidos era o jogo da 'malha', ou do chinquilho.

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Sem qualquer expressão nas escolas, clubes ou comunidades das chamadas 'grandes cidades' portuguesas, esta brincadeira continuava, no entanto, a animar os Sábados aos Saltos de muitos 'putos' noventistas residentes em localidades mais pequenas e, na altura, ainda mais remotas ou menos desenvolvidas. Essa menor presença de tecnologias como os computadores ou as consolas, bem como de outros brinquedos da moda - e, por vezes, até de estruturas como um parque infantil, como nos recordava um lendário anúncio da época -  era, aliás, um dos principais factores responsáveis pela persistência deste tipo de jogo e brincadeira nestes ambientes, por oposição aos das cidades, onde tudo se movia mais depressa e os produtos chegavam mais cedo.

Assim, eram ainda muitos os jovens que, nos anos 80 e 90, passavam a tarde de fim-de-semana acocorados no chão, a tentar derrubar, com pedras (ou 'malhas'), um pino ou prego colocado a alguma distância e semi-enterrado no chão – sendo o vencedor, obviamente, aquele que primeiro conseguisse cumprir este objectivo, ou que, pelo menos, conseguisse fazer chegar a sua 'malha' o mais próximo possível do alvo. Uma fórmula simples, tão simples quanto a de qualquer outro jogo tradicional de exterior, mas igualmente capaz de proporcionar momentos de diversão às crianças daquele tempo mais simples, em que os jogos de computador e de vídeo eram caros, e os 'smartphones' pouco mais do que um 'sonho molhado' de personagens como Steve Jobs.

Ainda assim, não é difícil constatar o porquê de o jogo da malha ter perdido a popularidade de que então gozava; com as suas conotações populares (vem dele o verbo 'achincalhar') e associações a um tempo em que a sociedade portuguesa sofria uma intensa divisão de classes, esta era uma actividade que se prestava, naturalmente, ao repúdio das gerações mais novas – o que, aliado à globalização da tecnologia, contribuiu para tornar o chinquilho um jogo quase exclusivamente desfrutado pelas gerações mais velhas.

A herança e tradição deste jogo não se encontram, no entanto, totalmente perdidas – em Bragança, por exemplo, ainda se joga assiduamente ao 'fito', variante nortenha deste mesmo jogo. O rápido envelhecimento das gerações que conheceram este jogo poderá, todavia, resultar numa extinção a médio prazo desta tradição portuguesa em tempos tão popular; resta esperar que tal previsão não se torne realidade, para que este jogo tradicional com origens no tempo das ocupações romanas não veja terminada de forma tão abrupta a sua História milenar, e para que não se perca ainda mais uma das já poucas ligações ao passado remoto do nosso País.

10.06.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui falámos, em edições passadas, dos jogos de rua, tão populares entre as crianças do século XX, e que se vêm progressivamente perdendo na era dos telemóveis e redes sociais; e, no Portugal dos anos 90, um dos muitos por que qualquer grupo de 'putos' reunido na rua ou num jardim poderia optar era o chamado 'futebol humano'.

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O jogo no programa 'Love on Top', da TVI.

Sem ter absolutamente nada a ver com qualquer tipo de futebol – seja de rua ou de campo – à excepção do objectivo final de marcar 'golo', chegando ao fim do 'meio-campo' adversário, este jogo é uma adaptação do americano 'freeze tag', e tem a particularidade de extravasar o mundo dos Sábados aos Saltos, sendo também um recurso extremamente popular e frequentemente utilizado pelos professores de Educação Física da época, a par dos jogos do 'Mata' e da 'Corrente', talvez as únicas outras actividades a marcar presença nos dois contextos. Ainda assim, e ao contrário do que normalmente sucede, o facto de ser utilizado como parte de uma disciplina da escola em nada diminuía o atractivo ou o 'factor diversão' deste jogo, que se manteve popular até os dispositivos digitais tomarem o lugar das brincadeiras nos recreios e tempos mortos portugueses.

As regras eram simples, e – como costuma suceder neste tipo de jogos – transmitidas quase 'por osmose' entre diferentes gerações de crianças; o objectivo, conforme mencionado no parágrafo anterior, passava por marcar 'golo', e para tal, era necessário passar por todos os jogadores da equipa adversária, cuja missão era tentar travar essas investidas, tocando no oponente. Caso esse desiderato fosse bem sucedido, o jogador que procurava o 'golo' tinha de ficar 'congelado' no sítio exacto onde houvera contacto, de braços abertos, e esperar que alguém da sua equipa o viesse 'libertar' ou 'salvar'; caso contrário, o 'golo' era válido, e o jogo recomeçava 'a meio campo', com as duas equipas alinhadas cada uma do seu lado.

Como não podia deixar de ser, este modelo de jogo dava azo a estratégias ao mesmo tempo inteligentes e anárquicas, em que alguns dos participantes de cada equipa se 'sacrificavam' para distrair a atenção dos adversários, permitindo aos colegas correr por fora e 'marcar um golo' limpo e relativamente fácil, ou em que todos os jogadores investiam simultaneamente, deixando o resultado nas mãos da sorte; longe de serem vistos como 'batota' ou criticados, estes estratagemas faziam parte do jogo, eram esperados, e apenas adicionavam à diversão, obrigando cada uma das equipas a tentar contrariá-los, num jogo que também se poderia facilmente ter chamado 'xadrez humano'.

Conforme referimos no início deste texto, jogos como o futebol humano vêm, progressivamente, perdendo preponderância nos recreios e Sábados aos Saltos das crianças e jovens portugueses, substituídos pelos vídeos de YouTube, Instagram e TikTok. Há, no entanto, que esperar que esta brincadeira não desapareça totalmente da 'consciência partilhada' infanto-juvenil, já que se trata(va) de um dos jogos de rua (ou de ginásio) mais divertidos de uma época repleta deles.

03.06.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui anteriormente falámos de como os jogos de 'palminhas' estiveram, e até certo ponto continuam a estar, entre as diversões mais simples e, ao mesmo tempo, mais tradicionais e perenes para a demografia infanto-juvenil portuguesa. A total ausência de quaisquer recursos necessários – só é mesmo preciso saber as letras das lenga-lengas, e ter parceiros dispostos a alinhar na brincadeira – faz com que este tipo de jogo seja ideal para preencher um intervalo mais aborrecido ou desinspirado, tornando-o em mais um momento divertido de um recreio de escola ou Sábado aos Saltos. 

Adjacente a estes jogos, mas numa categoria algo 'à parte' e relativamente única, encontra-se um outro, de carácter menos cooperativo e mais competitivo, e cuja intenção pode, em parte, ser considerada malévola, já que passa por magoar activamente (ainda que ao de leve) o parceiro, ou antes, adversário.

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Falamos, é claro, do tradicional jogo da 'sardinha', aquela brincadeira em que dois jogadores unem as palmas das mãos, e o participante que se encontra por baixo (com as palmas viradas para cima) tenta apanhar despercebido o seu parceiro com uma palmada nas costas da mão, que assinala a sua vitória naquela ronda.

Agregando alguns dos principais atractivos para a juventude, não só portuguesa como de todo o Mundo, numa só actividade, por sinal bem simples, não é de estranhar que o jogo da 'sardinha' tenha sobrevivido não só ao passar das décadas, como também à mudança de mentalidades – embora possa não estar longe o dia em que o jogo é banido dos recreios nacionais por ser considerado incitador à violência e ao 'bullying'... Até lá, milhares de crianças portuguesas da Geração Z continuarão, decerto, a desfrutar do mesmo jogo simples mas 'enervante' e competitivo que fez as delícias dos seus pais, avós e por aí adiante através dos tempos...

29.04.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui anteriormente abordámos a enorme panóplia de jogos de rua com que as crianças portuguesas de finais do século XX se entretinham. Numa era em que brincar fora de portas era não só aceite como encorajado, havia tempo para 'inventar' mil e uma brincadeiras, dos tradicionais jogos de rua – como a apanhada, escondidas, eixo ou cabra-cega, entre outros – aos jogos de palminhas, passando pelo elástico, salto com corda, guerras de balões ou pistolas de água e, claro, toda uma gama de jogos com bola.

À margem, e ao mesmo tempo adjacente, a todas estas brincadeiras, havia uma outra, que conseguia inclusivamente 'extrapolar' o ambiente da rua para se tornar um 'clássico', também, das aulas de Educação Física na escola; um jogo que reunía tudo aquilo que a criança média da época procurava numa brincadeira, da enorme competitividade à vertente de jogo em equipa, passando pela possibilidade de humilhar e até magoar os adversários, sem que com isso se extravasassem as regras do jogo.

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Falamos do jogo do 'mata', aquela clássica competição em que duas equipas de jovens procuram ganhar a posse de uma bola de borracha e, uma vez conseguido esse objectivo, eliminar os jogadores da facção adversária mediante contacto directo – ou seja, procurando que a referida bola os atinja, sendo cada jogador atingido prontamente eliminado do jogo. Ganha, obviamente, a equipa que conseguir 'matar' primeiro todos os adversários. Uma premissa simples, mas nada inofensiva, e que dava azo a verdadeiras 'batalhas campais' no recreio, na rua, ou mesmo no ginásio da escola, sob a sanção de um professor – embora sempre de uma perspectiva de sã competição, e de alívio de tensões, objectivo no qual o 'mata' era nada menos que exímio (pelo menos para os jogadores da equipa que tinha a bola, porque para os outros, a situação apenas causava ainda mais nervosismo...)

Infelizmente, numa era em que qualquer tipo de violência é altamente desencorajado, e as crianças e jovens mais protegidos do que nunca, é de duvidar que o 'mata' volte, alguma vez, a gozar da mesma popularidade que teve durante aqueles anos; ainda assim, também não seria de todo descabido ver voltar aos recreios do País este jogo, como alternativa física e presencial às eternas e incessantes 'guerras' de comentários no YouTube ou TikTok. Têm a palavra as novas gerações...

18.03.23

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

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A 'fava' saiu, claramente, ao miúdo de t-shirt laranja...

Já aqui por várias vezes mencionámos que, muitas vezes, as experiências e conceitos mais simples são, também, os mais marcantes, especialmente para a mente algo linear de uma criança; e, para quem nasceu ou cresceu nas últimas duas décadas do século XX e nos primeiros anos do seguinte, um dos melhores exemplos disto mesmo são os jogos tradicionais de rua. Com premissas e objectivos invariavelmente simples, e regras esparsas o suficiente para serem memorizadas e transmitidas oralmente entre grupos de crianças, e até entre gerações, estas brincadeiras não deixam, ainda assim, de ser das mais lembradas ao recordar os tempos de infância – e nenhuma recordação desse tipo fica completa sem lembrar os não menos simples e não menos divertidos métodos de selecção ligados a esses jogos.

Enquanto que o futebol de rua adoptava uma estratégia simples, linear e 'cientificamente' testada por incontáveis gerações de 'putos' (dois capitães auto-seleccionados que escolhiam jogadores à vez até os mesmos acabarem) as brincadeiras que ditavam que apenas uma criança fosse a 'escolhida' (normalmente para o 'coito') faziam uso de métodos bem mais criativos e divertidos, normalmente baseados numa qualquer 'cantilena', semelhante às que inspiravam os jogos de 'palminhas'. E se, em gerações passadas, essa récita foi, invariavelmente, o tradicional 'Um-dó-li-tá', as crianças dos anos 90 e 2000 tinham ao seu dispôr uma outra 'lenga-lenga', não menos memorável e tão ou mais utilizada – o icónico 'aviãozinho militar', que provavelmente seria hoje em dia 'cancelado' por incitar ao bombardeamento de nações ao redor do Mundo, mas que à época era, apenas, um dos sistemas por excelência para escolher quem 'ficava' antes de um jogo de escondidas ou apanhada.

Melhor: este sistema permitia, ainda mais que o 'Um-Dó-Li-Tá', envolver os restantes jogadores, já que a primeira selecção era destinada, não a escolher o jogador que iria 'ficar', mas apenas a apontar uma pessoa para nomear o país em que a bomba do aviãozinho havia caído, e que iria servir de base à segunda parte da escolha, em que as suas sílabas eram separadas, sendo escolhido o jogador para quem o 'seleccionador' apontasse aquando da última sílaba – um sistema que parece complexo ao ser explicado assim, mas que era perfeitamente intuitivo para qualquer criança em situação de pré-jogo.

Existiam, é claro, outras formas de seleccionar um 'contador' para ir para a parede, como o 'par ou ímpar' ou 'pedra, papel, tesoura', ou até o 'cara ou coroa'; no entanto, nenhum destes (com a possível excepção do 'pedra, papel, tesoura', que revisitaremos em tempo) era tão memorável ou nostálgico como os métodos de que falámos atrás, pelo que serão estes os que, inevitavelmente, surgirão na mente de qualquer ex-'puto' daquele tempo que tente recordar os jogos que fazia na rua com os amigos.

 

22.10.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui por diversas vezes aludimos ao 'atraso cultural' que Portugal vivia nas décadas de 80 e 90, e que fazia com que a maioria dos produtos mediáticos e sócio-culturais só 'aterrassem' nas nossas costas vários anos, ou até décadas, após terem feito sucesso no resto do Mundo. Quando a isto se juntava a característica cíclica da maioria das modas – que tende a regressar, ou pelo menos a ser lembrada, algumas décadas após a sua popularidade inicial – o resultado inevitável era a permanência de muitas das referidas tendências no nosso país, anos depois de terem sido consideradas obsoletas no restante Mundo ocidental.

Um exemplo dessa mesma tendência foram os aros ou arcos destinados a serem balançados na cintura - os chamados ´hula hoops', dado o movimento necessário para os equilibrar lembrar a dança havaiana do mesmo nome. Tão conhecidos quanto populares em países como os Estados Unidos desde as décadas de 50 ou 60, este tipo de brinquedo estava já na sua fase de 'regresso' quando, em finais dos anos 80 e inícios de 90, chegou a Portugal, ainda a tempo de cativar algum público (sobretudo feminino) e o levar a, literalmente, testar o seu 'jogo de cintura'.

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De facto, apesar de não ser tão popular nos recreios de escolas portuguesas como outras brincadeiras de que aqui vimos falando, os arcos tiveram o seu espaço entre a juventude da geração 'millennial' – e a verdade é que a habilidade para este exercício dava, pelo menos, tanto direito a 'gabarolice' como o 'jeito' para saltar à corda ou ao elástico. Isto porque, ainda mais do que para qualquer desses, esta era daquelas actividades para as quais ou se tinha jeito, ou não se tinha; era, claro, possível treinar e melhorar a técnica, mas o ponto de partida depreendia, desde logo, mais habilidade e coordenação motora do que qualquer dos seus congéneres. Não é, pois, de admirar que os arcos tenham assumido, em Portugal, outra função, quiçá algo inesperada, e com a qual ainda hoje são conotados, como parte integrante do material de muitos professores de ginástica, que os usavam não só para a sua função designada, como também como obstáculo em exercícios de corrida, ou simples marcador de lugar ' funções alternativas a que, aliás, estes acessórios se prestavam lindamente.

Em suma, ainda que não tenham gozado em Portugal da popularidade que granjearam em outros países, os arcos 'hula hoop' foram, ainda assim, parte suficiente da infância e adolescência de muitos 'produtos' das décadas de 80 e 90 para merecerem este pequeno destaque nas nossas páginas – ainda que, por aqui, se tivesse pouco ou nenhum jeito para a 'coisa'...

10.09.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

por várias vezes aqui mencionámos que, por vezes, os conceitos mais simples são mais do que suficientes para entreter uma criança ou jovem – e o item de que falaremos neste 'post' é prova disso mesmo. Isto porque, apesar de não ser o brinquedo MAIS básico de sempre, o tema deste Sábado aos Saltos não deixa de ser pouco mais do que um pedaço de plástico ou borracha moldado numa forma arredondada – o que não o impede de ser um dos divertimentos mais populares um pouco por todo o Mundo desde, pelo menos, de finais do século XX.

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Dois 'primos' diferentes, mas de propósitos muito semelhantes.

Falamos, claro, dos clássicos 'discos voadores' (conhecidos internacionalmente como 'frisbees'), e dos seus 'irmãos mais novos', os ringues de borracha – dois tipos de produto que, em Portugal, constituíam mesmo a principal alternativa às raquetes e à tradicional bola (insuflável ou de futebol ou vólei) como o jogo de Verão por excelência. Embora tivessem, em relação aos mesmos, um 'handicap' considerável – nomeadamente, o facto de estarem sujeitos aos caprichos do vento, o que resultava em lançamentos muito pouco precisos que obrigavam, a maioria das vezes, a que um dos jogadores fosse buscar o brinquedo a uma distância considerável – estes dois 'primos direitos' colmatavam essa pecha com o facto de serem, como as raquetes, universalmente aceites por jovens e adultos de todas as idades, constituindo portanto um excelente divertimento familiar.

Também à semelhança das raquetes, os 'discos voadores' em plástico continuam a ser vendidos em larga escala hoje em dia, ainda que a sua presença nas praias e jardins portugueses seja, agora, muito menor, e o seu uso esteja maioritariamente confinado aos donos de cães de companhia – o que, aliás, acontece também com os ringues de borracha; quem cresceu em finais do século passado, no entanto, certamente terá memórias associadas a 'correrias' pela areia atrás de um disco que, de tão alta e rapidamente que voava, parecia em riscos de ir parar à praia seguinte...

06.08.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

O Verão é, em Portugal, praticamente sinónimo com as idas à praia ou para parques de campismo e caravanismo – duas situações que, por sua vez, são praticamente sinónimas com os jogos de raquetes. E se, de entre estes, o 'rei' era e continua a ser o Beach Ball – que já aqui abordámos – a verdade é que os anos 90 trouxeram, pelo menos, um competidor à altura para as famosas raquetes de madeira: as luvas com velcro e bola condicentemente 'pegajosa'.

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Conhecidos no Brasil pelo nome de 'frescobol', estes híbridos de raquete, luva, e acessório de treino de artes marciais – pela maneira como eram seguros, deslizando a mão por dentro de uma pega localizada nas costas de cada raquete – foi, também, sobejamente conhecido dos 'putos' dos anos 90, tanto pelos largos momentos de diversão que proporcionava, como pela habilidade que requeria; afinal, neste jogo, não bastava atirar a bola ao ar e batê-la para o parceiro – era necessário lançá-la directamente da própria luva, à qual se encontrava colada, uma nuance que requeria tanta habilidade e 'jogo de pulso' como força por parte do lançador, sob pena de o apanhador ser obrigado a fazer uma 'acrobacia' ou ir mesmo buscar a bola ao chão. O facto de a referida bola ser aproximadamente do tamanho e peso de uma de ténis ainda tornava tudo ainda mais complicado e desafiante – e, quando corria bem, ainda mais gratificante e divertido.

Estas características, aliadas ao preço relativamente acessível e larga oferta deste tipo de jogo (à época, disponíveis em qualquer loja de praia, e mesmo em algumas lojas 'generalistas' e supermercados) fez com que o mesmo se tornasse um favorito de Verão para grande parte das crianças e jovens dessa época – uma tendência que, presumivelmente, teria continuado, não fosse o facto de este jogo (como tantos outros de que aqui falamos) ter, gradualmente, desaparecido das prateleiras, até se tornar uma daquelas anomalias nostálgicas que uma rápida pesquisa no AliExpress revela ainda existirem para compra, embora o público-alvo tenha desaparecido há pelo menos vinte anos; ainda assim, é bom saber que ainda é possível a quem teve – e adorou – este tipo de raquete apresentá-la às novas gerações, despoletando assim, potencialmente, um 'reviver' da mesma em praias e parques de campismo por esse Portugal afora, tal como se verificava no 'nosso' tempo...

 

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