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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

27.08.21

Nota: Este post é relativo a Quimta-feira, 26 de Agosto de 2021.

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Hoje em dia, quando a maioria das crianças dispõe, pelo menos, de um telemóvel com que se entreter nos tempos mortos, pode parecer caricato que um pedacinho de papel dobrado, com pintas de diversas cores e algumas palavras escritas no interior, pudesse ocupar um intervalo de recreio inteiro seja de quem for. E no entanto, na ‘nossa’ década (como nas quatro ou cinco décadas anteriores), tal instrumento foi fonte de muitos e bons momentos de diversão entre colegas, amigos ou até familiares.

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Sim, o ‘quantos-queres’, uma criação de trabalhos manuais cujas origens se perdem no tempo, mas que qualquer criança (pelo menos qualquer criança de há algumas décadas atrás) parece ter nascido a saber fazer e utilizar. Mais: cada grupo de crianças tinha a sua própria maneira de preencher aquela ‘florzinha’ de papel. Alguns (sobretudo as raparigas) tinham mais cuidado na ‘decoração’, enquanto outros a mantinham mais simples; alguns utilizavam-na como modo de elogiar o colega que estivesse a cargo de escolher a cor (preenchendo as diversas dobras com elogios), outros para gozar ou insultar, e ainda outros como forma de estabelecer pequenos desafios, alguns genuínos, outros humilhantes (por exemplo, quem escolhesse a cor preta tinha de fazer determinada acção ou ultrapassar determinada prova.) Cada ‘quantos-queres’ se tonava, assim, precisamente naquilo que se pretendia que fosse – uma caixinha de surpresas (ou, como diria Forrest Gump, uma ‘caixa de chocolates’, em que nunca se sabe o que se vai obter.) Era, precisamente, esse o atractivo deste passatempo, e que fazia com que qualquer jogador inevitavelmente quisesse repetir a vez.

Em suma, este é (foi?) um daqueles passatempos cuja obsolescência se veria com alguma tristeza, visto ter entretido, de forma ‘caseira’ e mais ou menos inocente, gerações e gerações de crianças. Por isso, se ainda se lembrarem de como se faz um ‘quantos-queres’, por favor passem esse conhecimento aos vossos filhos, para que pelo menos esta ‘tradição’ de recreio do nosso tempo não se perca…

 

05.08.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Os jogos de cartas foram, desde sempre, um dos passatempos preferidos da juventude, não só os tradicionais (com os reis, rainhas, ases, etc.) como também outros mais complexos ou elaborados, como o Uno ou os diversos títulos da série Top Trumps, de ambos os quais falaremos paulatinamente nesta mesma secção.

A segunda metade dos anos 90 viu ser acrescentado a esta lista um novo tipo de jogo de cartas, surgido aparentemente do nada, mas que rapidamente conquistou a população em idade escolar - sobretudo a do sexo masculino, devido à sua temática de fantasia, repleta de monstros e guerreiros, e com todo um mundo por detrás, que o jogo usava como cenário para os seus enredos de aventura e acção.

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O primeiro 'deck', ou baralho, que muitas crianças da época terão tido

Falamos, é claro, de Magic: The Gathering, um dos dois chamados ‘collectible card games’ - ou simplesmente CCG -  a fazer furor entre a juventude portuguesa (o outro, Pokémon, chegaria já nos anos 2000, ficando assim fora do âmbito deste blog.) Não é claro porque é que foram estas as duas únicas colecções deste tipo a ‘pegar’, enquanto CCG de propriedades tão famosas como ‘Ficheiros Secretos’ eram sumariamente ignorados; terá sido, supõe-se, uma questão puramente de ‘modismo’…

Considerações à parte, no entanto, a verdade é que o Magic (como era simplesmente conhecido nos recreios deste país) gozou de uma longevidade invejável para ‘moda de recreio’, conseguindo manter a sua relevância entre os mais jovens por quase uma década, antes de se tornar novamente habitante exclusivo do reino dos ‘geeks’ – tal como, aliás, aconteceu na mesma época com o ‘anime’. A partir das suas Quarta e Quinta Edições, em meados da década, este jogo passou de obscuro a super-popular, não havendo praticamente nenhum jovem do sexo masculino em idade pré-adolescente ou adolescente que não tivesse, pelo menos, um punhado de cartas – a maioria, provavelmente, na icónica tradução brasileira - e uma cor favorita, de entre as cinco oferecidas pelo jogo (por aqui, jogava-se com vermelho e verde, sendo o preto a cor menos apreciada.)

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Exemplos do visual típico das cartas do jogo, incluindo as icónicas 'costas' castanhas, comuns a todas as edições lançadas até hoje

Nem mesmo a complexidade das regras de Magic – que levava, em alguns casos, a simplificações e tentativas de ‘batota’ – prejudicava a popularidade do jogo entre o público-alvo, que (à boa maneira infanto-juvenil) aprendia o que tivesse de aprender para se conseguir divertir com os amigos – embora apenas até certo ponto. De facto, poderá bem ter sido o excessivo complexificar das mecânicas do jogo a ditar o fim da popularidade do Magic, sendo que, a certa altura, até o mais empedernido e ‘geeky’ dos jogadores começava a achar aquilo tudo demasiado complicado para valer o esforço – especialmente quando já mais ninguém jogava…

Fosse qual fosse a razão, a verdade é que, a partir de meados dos anos 2000, o jogo deixou de ter a popularidade que tinha ainda poucos anos antes, sendo extremamente difícil encontrar jogadores fora dos locais apropriados, como as lojas de BD ou de jogos de fantasia. O passatempo tornava, assim, ao seu reduto como actividade de ‘culto’.

Ainda assim, Magic foi dos poucos passatempos declaradamente ‘geeky’ a ter conhecido, e por um período mais prolongado do que alguém se atreveria a esperar, o doce sabor da popularidade no recreio da escola; graças a este jogo, durante um breve período em finais de 90 e inícios de 2000, metade dos jovens em Portugal foram um bocadinho 'totós', com interesse activo em torneios e listagens de preços de cartas - e isso, convenhamos, é uma proeza de que muito poucos produtos infanto-juvenis daquele tempo se podem gabar...

04.07.21

NOTA: Este post é relativo a Sábado, 3 de Julho de 2021

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

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O post de hoje podia ficar-se pela imagem acima, e decerto já muitos dos nossos leitores sentiriam uma intense dose de nostalgia. Mas como neste blog gostamos sempre de dar um pouco mais a quem nos segue, vamos lá dedicar algumas linhas a falar desse inesquecível companheiro de brincadeiras do nosso tempo, o Diabolo.

Oriundo do mundo das artes circenses e de rua, onde é, desde há muito, um acessório-padrão, o Diabolo explodiu em popularidade entre o público infanto-juvenil em meados da década de 90, num fenómeno repentino e algo inexplicável, até porque estes instrumentos não estavam, inicialmente, disponíveis nas lojas de brinquedos. Quando primeiro se ouviu falar deles, os Diabolos só estavam disponíveis em determinadas lojas, muitas delas mais voltadas para o ‘outdoor’ e desporto-aventura do que propriamente para as brincadeiras infantis. Tendo em conta que estes instrumentos também não eram nada baratos – pelo menos os de qualidade…já lá vamos – não deixa de ser surpreendente que a ‘nossa’ faixa etária não só tenha ouvido falar deles, como os tenha tornado acessório obrigatório na mochila da escola.

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O cá de casa era assim, mas com paus em madeira.

Foi, no entanto, precisamente isso que aconteceu, com o Diabolo a tornar-se fiel companheiro da criança média portuguesa, que muitas vezes dedicava grande parte do seu tempo de recreio a ‘exibir’ os truques incansavelmente treinados em casa na noite anterior (os Diabolos ‘oficiais’ vinham com um livreto explicativo dos vários truques e de como executá-los, mas a maioria dos mais conhecidos pareciam passar de criança em criança através de um processo algures entre o boca-a-boca e a osmose).

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O livreto de truques que vinha com os 'Diabolos' oficiais

Da ‘Volta ao Mundo’ ao não menos admirado ‘Passear o Cão’, passando por truques ‘inventados’ no decurso das brincadeiras, como o ‘Kamehameha’ (simples ou duplo) ou a façanha, sem nome oficial, que consistia em fazer o Diabolo ‘passear’ num dos paus, eram muitos os movimentos que se podiam executar dando a velocidade e o impulso certos àquela espécie de ‘laço’ de borracha na ponta da corda – e muitas crianças portuguesas terão, certamente, melhorado bastante a coordenação motora tentando atingir essa combinação perfeita. Só era preciso ter cuidado para não enrodilhar os fios, pois isso implicava largos minutos de pausa para libertar o Diabolo da ‘teia’ onde o tínhamos inadvertidamente aprisionado…

Claro que todos os truques acima descritos se tornavam (ligeiramente) mais fáceis se o Diabolo fosse dos ‘oficiais’; que eram feitos de borracha dura com centro de metal. O preço proibitivo a que estes eram comercializados levava, no entanto, a que muitas crianças fossem forçadas a optar pela alternativa que entretanto se havia popularizado – Diabolos hiper-leves, de plástico frágil, e vendidos sem qualquer acessório à parte os paus e a linha necessária a fazê-los mexer (e por vezes, nem isso). Significativamente mais acessíveis, em termos de preço, do que os Diabolos ‘oficiais’, estas variações baratas eram fáceis de encontrar nos sítios do costume e, tal como os Tamagotchis falsos de que falámos há alguns posts atrás, acabaram por ter uma ‘vida’ significativamente mais longa do que os seus congéneres de melhor qualidade, sendo ainda muitas vezes avistados dez ou mesmo quinze anos depois de a ‘febre’ ter passado.

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Exemplos dos modelos mais baratos de Diabolo, feitos em plástico em vez de borracha.

E, como todas, a febre acabou mesmo por passar – e de forma mais abrupta do que outras de que já aqui falámos, ou viremos a falar. Tão repentinamente quanto tinham aparecido, os Diabolos desapareceram dos recreios – embora não da memória ou do coração daqueles que com eles haviam brincado; pelo contrário – este misto de brinquedo, desporto e acessório de malabarismo continua a ser uma das primeiras coisas que os ‘90s kids’ recordam ao ‘viajar’ até àquela época. Prova de que, apesar do seu ciclo de vida relativamente curto – até mais do que o de outras ‘febres de recreio’ – o Diabolo deixou mesmo a sua marca entre a juventude da década de 90…

 

15.04.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E hoje vamos falar de uma ‘quinquilharia’ que transitou de décadas anteriores, e que acabou por ter mesmo o seu ocaso na década de 90, mas que ainda era presença suficientemente assídua nas papelarias e lojas de brinquedos da época para justificar a sua inclusão nesta secção: o saquinho de berlindes.

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Este é um dos raros casos em que as crianças portuguesas acabaram por beneficiar da décalage cultural que o país apresentava naqueles anos. Isto porque, em outros países, os berlindes são já tidos como uma relíquia, uma daquelas coisas que só se vêem em filmes de época - mesmo para jovens nascidos nas décadas de 80 e 90. Já em Portugal, as pequenas bolinhas de vidro colorido continuaram a fazer parte da infância de muitas crianças até no mínimo a meados dessa década – pelo menos em certas regiões do País.

O atrativo dos berlindes junto das crianças e pré-adolescentes não é, de todo, difícil de compreender. Baratos (qualquer semanada chegava para comprar uma das tradicionais 'redinhas' com vários berlindes pequenos e um 'abafador' com o dobro do tamanho), de aspeto atrativo e ligados a um jogo competitivo em que se lucrava com a vitória e se podia ‘rapar’ o adversário, os pequenos globos constituíam a ‘quinquilharia’ perfeita para uma certa faixa etária, a mesma que se ‘viciou’ nos Tazos alguns anos depois. O facto de, desde essa época, terem caído em desuso e praticamente desaparecido da vida quotidiana das crianças só pode, pois, ser ligado a uma mudança de mentalidades ou interesses – talvez os ‘putos’ da Geração Z já não gostem de coleccionar coisas brilhantes e vistosas possíveis de serem ganhas em jogos de recreio…

(Claro que havia quem comprasse berlindes apenas para coleccionar, mas não tentemos disfarçar a verdade - giro, giro, era disputar partidas com outros miúdos e tentar ganhar aquele berlinde lindo de morrer que o adversário, num assomo de excesso de confiança, punha em campo logo de início…)

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Os berlindes com padrões mais atrativos e fora do vulgar eram sempre os mais cobiçados...

Curioso é que, à época, havia duas maneiras ‘aceites’ de jogar ao berlinde, ambas igualmente competitivas. Curioso, também, é que a versão tradicionalmente aceite do jogo (aquela com um círculo desenhado no chão, que se vê normalmente em BDs, filmes, e outros trabalhos de ‘media’) até era a menos popular, pelo menos nan ossa experiência; lá pela escola, a maioria dos ‘putos’ jogava à versão em que se escavavam três ou quatro buracos, e se tentava ser o primeiro a completar o ‘circuito’, sempre palmando todo e qualquer berlinde em que o nosso batesse pelo caminho. No fundo, uma espécie de ‘jogo da macaca’ com berlindes, em que – num daqueles exemplos perfeitos de ‘regras de recreio’ que ninguém escreve mas toda a gente cumpre - chegava a não ser permitido usar ‘abafadores’ para não criar desvantagem competitiva a quem não os tinha…

Em suma, e apesar da presença de inúmeros outros atrativos, incluindo ‘quinquilharias’ clássicas como os Tazos, os Matutolas ou os cromos de futebol, os berlindes tinham mesmo os seus adeptos entre as crianças portuguesas nos anos 90 – entre os quais nos incluíamos, apesar de o jeito não ser lá muito. E vocês? Gostavam desta ‘quinquilharia’? Coleccionavam? Jogavam? Deixem as vossas recordações nos comentários!

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